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História Angels Fall First (Jungkook) - Capítulo 36


Escrita por: , Chimmym e ilygguki


Notas do Autor


Gentem... Misericórdia
Kskskksksks que capítulo imenso.
Antes de tudo quero agradecer a vocês por cada favorito e cada comentário, já li todos e prometo que vou responder todos também, é que eu estou meio sem tempo por conta da faculdade.
Mas vocês são tudo, sério.
Muito obrigada por me apoiarem sempre.
Enfim, na votação do whats, AFF ganhou como atualização, a próxima é Love Shot e por fim vem Sunny com o último capítulo.
É isto, obrigada pessoal
Espero que vocês curtam esse capítulo
Boa leitura e perdoem qualquer erro xx

Capítulo 36 - O Julgamento


Fanfic / Fanfiction Angels Fall First (Jungkook) - Capítulo 36 - O Julgamento

"Nasci em uma vala, mas cresci como um dragão, esse é o jeito que vivo. Sinto muito, mas não se preocupe, eu tenho muito a perder. Enfiei o passado num cesto de arroz, vou jantar o que sei que é meu." – Daechwita (Agust D) 

Alguns séculos atrás 

Um anjo cantou para si. Em algum lugar distante, uma sensação de reconhecimento quase o tomara. Havia sido sua mãe? Jungkook tinha tanta saudades dela, de se sentir amado de verdade, querido e cuidado.

Anos fugindo e sendo morto, estava tão farto daquilo.

Já conhecia tão bem a familiaridade da morte que às vezes não se sentia como um ser vivo. Na maioria das vezes, ele só queria permanecer morto, esquecido, perdido naquela escuridão sem fim. Talvez assim, no frio do esquecimento eterno, o deixassem em paz.

Seus pulmões resistiram o quanto conseguiram, queimando. As células do seu sangue estavam detonadas.

Seus braços pararam de se debater a medida que seu cérebro fora lesionado. A inconsciência havia tragado tudo aquilo que ele já conheceu um dia. As correntes de ouro queimaram seu corpo como fogo, presas a uma âncora com o peso de algumas toneladas. 

O material angélico o punia severamente, seu poder o enfraquecera rapidamente. Assim, ele havia conseguido soltar os braços, ainda haviam grossas correntes e hastes que prendiam sua cintura e tornozelos. Seu corpo estava cansado, fraco e então, ele desistiu. 

Um frio estranho tomou-lhe completamente e a sensação asfixiante o deixara aterrorizado. 

Então, tudo havia se tornado breu. 

Quando acordara, o céu possuía uma pintura escura, nenhuma estrela brilhava neste e um rosto desconhecido pairava acima do seu. 

Seu cabelo loiro era grande, preso. E ele lhe olhava como se visse uma assombração. 

– Ei, ei. Consegue me ouvir? – O garoto de aparência jovem dava tapinhas em seu rosto. 

Jungkook tossiu fortemente, virando para o lado e vomitando toda aquela água para fora. 

Tudo doía, a garganta queimava como se tivesse engolido brasas. Seus sentidos estavam deturpados e um zunido em seu ouvido, fazia sua cabeça latejar.

O garoto o segurou pelos braços quando Jungkook começou a estremecer freneticamente. 

– Zura! Traga alguma coisa quente para ele! Acho que está em choque! – Grita para alguém. O cabelo do garoto estava molhado, assim como seu corpo inteiro. Jungkook sabia que havia sido ele a tirá-lo do fundo do mar, mas não conseguia falar. A sensação de afogamento ainda pairava sobre si. – Que energia é essa? – Murmurou, espantando. – Seus ferimentos se curam muito rápido, mesmo com material angélico. – Parecia dizer mais para si mesmo, a expressão denotava o quão rápido estava pensando. 

Zura viera correndo com um grosso casaco de pele, estendendo sobre os ombros do moreno. 

– A energia dele é muito forte, Sr. – O loiro assentiu. Desconfiava que aquele garoto de aparência tão frágil seria o filho perdido de Lúcifer que tanto falavam. 

Jeon Jungkook. 

– Sou Min Yoongi. Não se preocupe, sou como você. – Sorriu para tranquilizar o moreno. – Venha, vou te apresentar ao nosso povo."

J U N G K O O K

A cela de prata nobre já fora local de reflexão para muitos culpados. Seu material era resistente, possuindo magia de luz para manter os prisioneiros incapacitados de fugir. 

A Corte, não era apenas formada por Nefilins, como anjos caídos e também bruxos. E ainda que suas magias fossem eficazes para qualquer Nefilim do mundo que viesse a ser preso ali, não era um impedimento para mim, em vista de que conhecia a reversão daquele feitiço. 

Entretanto, seus efeitos eram fortes demais para minha magia enfraquecida. Como punição, tal encantamento trazia como consequência seus traumas e medos. Alucinar acordado. 

Isso debilitava a mente e tornava-se como uma tortura eterna, deixando-o fraco mentalmente. 

A parte ruim de ser o líder de um exército daqueles, é que eu sabia exatamente o que iria acontecer, já que fui o criador daquilo. 

Meu coração pulsa dolorido e tento me concentrar em algo que me mantenha concentrado ou ao amanhecer estaria louco. 

E volto ao único ponto de paz que reside em mim: A Flor. 

Sua sensibilidade se aflora a cada dia pelo reconhecimento de si mesma e eu engulo em seco, imergido naquela escuridão. 

Todas as minhas células clamam uma saudade intensa, tanto como uma preocupação na mesma proporção. 

Estávamos nos tornando cada vez mais ligados mentalmente. Me perguntava se ela estaria sentindo o que estou sentindo agora. A pediria desculpas por ter quebrado minha promessa de buscá-la. 

O desejo imprudente de explodir aquela maldita cela em pedacinhos, e cortar a distância que nos separa parece ser fatal. Esqueceria o respeito que tenho por meus iguais. Mas pioraria a situação. Quieto, eu impediria que por hora, eles fossem atrás dela, já que não sabem onde está. Eu sou a resposta e eles pretendem arrancá-la de mim. 

Uma energia soturna subitamente chama minha atenção. Yixing se sobressai das sombras, a expressão taciturna me observa atentamente, mas a agitação em seu interior chega a ser palpável. 

Arqueio as sobrancelhas, a cabeça recostada na parede fria atrás de mim. 

– Perguntas? – Ser a decepção do meu povo é novo, porque sempre fui o exemplo a ser seguido. Entretanto, não cultuo o sentimento de sentir pena de mim mesmo. 

Se amar a Flor fosse meu pior pecado, então, eu desejaria ser pecador o resto dos meus dias

– Por que? – Diz, simplesmente. Em si, um anseio genuíno de me compreender. 

– Amor. – Respondo, o óbvio. – Estou completamente apaixonado por ela. – Yixing cruza os braços, o cenho franzido em ignorância. 

– Está se ouvindo? – Asperge. – Apaixonado pela garota da Profecia? Aquela que nasceu pra te matar? – Profere lento e consistente, como se eu sofresse de algum distúrbio mental. 

Suspiro. Ele não conhece a Flor, porque se conhecesse também se apaixonaria por ela. 

– Não espero que você entenda. O que nós dois temos está além do entendimento de qualquer um nessa terra. – Sorrio, suave. – Ela existe por mim e eu por ela. Se eu morrer pelas mãos dela, agradecerei a Deus por isso. – Yixing se afasta das grades, como se estar perto de mim pudesse lhe transmitir alguma doença. Seu rosto se torce. 

– Está louco. Vai ser Exilado. – Seus olhos brilham em tom de âmbar. 

E eu dou de ombros. 

– Então, aceitarei o meu destino. – Seu maxilar se move quando cerra os dentes. 

– Seu povo não é importante pra você? Nossa promessa de proteger nossa raça é irrelevante por causa de uma garota? 

– Venho protegendo meu povo todo esse tempo. Ela não é um perigo para vocês. Acredite. – Yixing nega com a cabeça. 

– Você foi enfeitiçado. Vou pedir que algumas bruxas venham te analisar. – Sorrio torto. 

– Vai ser uma boa tentativa. – Eles não entendiam sobre o amor. E honestamente, sentia pena. Eu já fui ignorante daquela maneira. 

Ele nada diz, volta pelo caminho que veio, sua energia deixando um forte rastro no ar.

Se eu fosse Exilado ao menos seria por algo que acredito, mas tentaria abrir suas mentes para o mal que estava por vir e ele não tinha nada a ver com a Flor. 

O silêncio é meu companheiro novamente e uso deste para me concentrar. Fazia muito tempo desde que tinha meditado. 

Minha mãe costumava me pedir calma quando a frustração me atingia. Eu quase podia ouvir sua voz me dizendo:

"No grimório de Agracamalas, fala sobre algo muito importante, Gguk. Uma das formas das formas mais poderosas de magia é aprender a não ficar frustrado quando as coisas não ocorrem como você desejava."

O Julgamento viria ao amanhecer, e eu esperaria pacientemente para revelar a todos da Corte, que pagaria por minha traição com serenidade, mas jamais me arrependeria por ter conhecido a Flor. 

L U A

Sofro de uma dor de cabeça agonizante. As palavras descritas no grimório da minha… Mãe – estava em processo de digerir a informação – reverberando pela minha mente. 

Tais escrituras pareciam incógnitas para mim, mas não para Naeun e Hoseok, que já haviam sacado coisas a mais que eu. 

– Ok, mamãe tinha uma missão pra se redimir. Mais do que? 

– Sinceramente, chego a pensar que Alyssa está ligada ao início. 

– Nitidamente o objetivo da Lua não é só matar o Jungkook, como você disse, Naeun acho que pode ser uma consequência caso eles falhem na missão. 

– Sim. Precisamos analisar as escrituras com calma, já que só Lua consegue ver. Depois precisamos falar com Nara e montarmos esse quebra cabeças. – Suspiro, ouvindo os dois discutirem assiduamente. 

– Ainda não acredito que a mãe não concordava com a Aliança. Ela sempre pareceu tão fiel. – Hoseok aspira, os olhos escuros estão desfocado. 

– Ela fala sobre a luz dourada entre Jungkook e Lua, o que seria isso? – Lia, indaga. 

– A luz dourada seria o pico máximo das chamas gêmeas. Eles chegariam em um estado de espírito conjunto a uma dimensão de consciência superior. Para eles, o objetivo principal é juntar as pessoas de diferentes características a acelerar processo o atual de ascensão e despertar o que está acontecendo na terra. 

– Então… Deixa eu ver se entendi. A Lua e o Jungkook meio que iam ter que juntar diferentes seres, tipo nefilins, Caçadores exilados, bruxos, anjos caídos em um só grupão da bagunça? – Soojin gesticula. 

Naeun meneia a cabeça. 

– Basicamente isso. – E só piora. Sobrou pra mim e o Jungkook resolver a bagunça dos outros. Honestamente, não tem como isso piorar. 

– Ela disse que estaria em meus sonhos, pra mim não temê-la. – Acaricio as têmporas e as atenções se voltam até mim. – Isso é uma metáfora ou ela realmente é a mulher ruiva dos meus sonhos? – Naeun parece pensar. 

– Ela revelou que estava sobre o efeito de um sigilo. Essa magia impede seu corpo e consequentemente sua alma de falarem sobre um determinado assunto. O que me faz reiterar a teoria de que sua mãe é a encarnação de um ser importante e a mulher que a aparece em seus sonhos é a primeira versão e responsável por tudo, portando essa alma está em outro estado de evolução e não sofre do efeito do sigilo. 

– Faz todo o sentido. – Hobi arqueja. Pra mim, não faz sentido nenhum e eu deixo que mais um suspiro escape dos meus pulmões. 

O pulsar mas minhas têmporas aumenta gradativamente e eu preciso urgentemente tomar alguma aspirina ou dormir pelas próximas 12 horas sem me preocupar com o mundo e como ele é fodido. 

– Podemos dar uma pausa? – Inquiro, a garganta seca. – Acho que minha cabeça vai explodir. – Digo, por fim. Minha cabeça tinha rodado por aquele mesmo ponto e eu me sentia burra por não entender o que Alyssa estava tentando dizer pelas entrelinhas. 

– Nunca li a Bíblia, mas já tô por dentro de tanta coisa que fiquei até curiosa. – Soojin interpela ao meu lado. 

– São muitas informações pra um dia só. Eu me sinto sobrecarregada, imagina a Lua. – Lia fala, os braços cruzados. 

– Tem razão, vamos… – O som do celular de Hoseok tocando cala o que quer Naeun fosse dizer. 

Eu respiro fundo, porque o barulho me irrita. Alongo o pescoço, descansando a cabeça no encosto do sofá, mas continuo por algum motivo extremamente agoniada.

Meu pescoço parece pesar dez toneladas e minhas juntas doem. 

Eu estava ficando doente? 

– Você tá bem? – Soojin sussurra. 

Hoseok pede desculpas, indo atender ao telefonema na cozinha. 

– Não sei. – Sou sincera. Checo o horário no ecrã: 23:47. 

Nada de Jungkook. – Acho que eu tô passando mal. 

– O que tá sentindo? – Naeun se achega, me avaliando atentamente apenas com o olhar. 

– Estou incomodada, agoniada, com dor de cabeça e preocupada com o Jungkook. 

– Ele sabe se cuidar, Lu. – Lia tenta me tranquilizar. Mas nada, nada, nada mesmo consegue tirar aquele sentimento irritante do meu coração. 

– Acho melhor eu ligar pra ele. 

– Espera. – A bruxa mais velha puxa um banquinho, se sentando à minha frente. 

Sua mão toca meu pulso e confere a pulsação. – Acelerado. – Com o dorso da outra mão, mede minha temperatura. – Febre. – Seu olhar escuro me avalia. – Pupilas dilatadas. 

– O que está acontecendo? – Soo se mexe ao meu lado. 

– Não faço ideia. – Sussurra. – Lia, pode fazer aquele chá que te ensinei? – Engulo a pouca saliva, vejo apenas o vislumbre de minha amiga indo a passos ligeiros até a cozinha. 

A angústia forma um peso estranho na minha garganta e quando fecho os olhos para tentar buscar equilíbrios, flashes distintos me invadem a mente. 

Meu corpo amolece e esfria um grau e as vozes deixam de ser distinguidas, para se tornarem sons difusos, distantes e irreconhecíveis. 

Lembranças que não são minhas são impostas em minha cabeça. 

Água. 

A resistência. 

Os pensamentos confusos. 

O desespero. 

O sufocar. 

A dor insuportável. 

A tristeza. 

A desistência. 

Jungkook se afoga e a sensação corpulenta me devora, como se eu fosse ele. 

Posso sentir meus pulmões cheios de água, o desalento, o frio, o último pulsar do seu coração depois de uma dor dilacerante por minutos que aparentam o espaço de tempo de uma eternidade. Seu medo é meu, sua angústia é minha, sua morte também. 

Dilacera meu peito e mareja meus olhos. 

– Acorda! – Meu corpo é solavancado para frente, totalmente mole. Minha voz está perdida em algum canto distante e a língua parece pesar duas toneladas.

– Lua! Lua! Abra os olhos! – Frio, muito frio. Escuro, solitário. 

– É o Jungkook! – Mãos geladas tocam meu rosto e me estremeço. – Lu, consegue me ouvir? – Tudo fica no mudo, um silêncio aterrorizador. 

Pela primeira vez, sinto na cinética, a união da nossa ligação, como fios elétricos que se interligam e se unem e é forte. O suficiente para eu chegar perto. 

E então, ser puxada para longe de uma vez. 

Acordo daquele transe de repente, tomando um longo fôlego pelo nariz e boca. O coração batendo freneticamente na garganta. 

Hoseok segura meus ombros, os olhos alarmados. 

– Tudo bem, respira. Comigo, entendeu? – Ele aspira o ar profundamente. – Inspira. – E o solta. – E expira. – Repito a sequência consigo, agarrando sua jaqueta com todas as minhas forças. 

Soojin está pálida atrás de si, me fitando assustada. 

Minha mão encontra a lateral da minha cabeça, a dor se concentra ali. Como se meus miolos fossem esmagados por um rolo compressor. 

– Lua? – Naeun tira meu cabelo do rosto, prendendo-o. A ação me faz sentir minimamente aliviada. 

– E-eu vi umas coisas estranhas. O-o J-Jungkook se afogando e… – O olhar de Hoseok me fita em condescendência, os lábios e linha fina. – O que foi? 

– Você você precisa se acalmar primeiro. 

– Aconteceu alguma coisa com ele? – Ignoro seu pedido. Meu corpo rapidamente entra em estado de alerta.

– Lua, calma. – Meu cenho se franze. 

– Aconteceu alguma coisa com ele, Hoseok? – Repito, dessa vez mais firmemente. Ele umedece a boca e seu silêncio diz tudo. 

Eu sabia. Eu senti. Droga, não era só a droga da minha sensibilidade, eu não queria deixar ele ir. 

– Soyeon ligou agora. Ela e Yoongi estão vindo pra cá. 

– O que fizeram com ele? – Rosno entredentes e ele engole em seco. Uma pressão se forma em minha cabeça e se injeta em meus olhos de tal modo que eu quero chorar de raiva e desespero. 

– Ninguém sabe. O Jungkook desapareceu. – A informação tira meu chão e ficar sentada é demais pra mim. Me levanto de uma vez quase derrubando Hoseok. – Soyeon disse que Tessa fugiu. Ela fingiu que estava desmaiada pra não ter as memórias apagadas, ela teme que a Tessa tenha ido falar com os Nefilins sobre você. 

– Aquela maldita. – Caminho de um lado para outro. – Aquela desgraçada. Eu devia ter enfiado a cara dela na privada! – Puxo meus cabelos. 

– Lua, respira. – Lia tenta se aproximar, mas a Naeun a impede. 

– E se ele estiver sofrendo? E se o que seu vi agora for o que ele tá passando? Estão afogando ele? 

– E-eu não sei. 

– Amiga, é sério. Você tá começando a me dar medo. – Soojin fala. 

– Eu vou matar ela. Se eu pegar aquela garota, ela tá morta! – Aponto pra um Hoseok pálido. 

– Eu não duvido. 

– Lua, se concentre. Se, se deixar explodir, vai perder o controle de novo e precisamos de você. – Naeun, frisa. 

Mas eu não consigo, caralho, eu não consigo. A menção do nome dela faz meus nervos tencionarem e um sentimento sombrio correr rapidamente por minhas veias. 

– Eu sei que é difícil, mas tenta se acalmar. A Soyeon vai dizer o que aconteceu e a gente vai pensar em um modo de ir atrás dele. – Respiro fundo consecutivas vezes em busca de discernimento, mas tudo que tenho vontade é de chorar. 

– E-eu vou ver se o chá já tá bom. – Lia anuncia e seus passos apressados anunciam que ela saiu da sala. 

– Por que isso tá acontecendo? – Descanso a mão sobre o peito disparado. Não há paz, simplesmente não há um dia de paz. Se aquela visão esquisita que tive for realidade, não vou aguentar ficar parada esperando. 

Ele podia estar sofrendo, ou sendo torturado por minha causa, porque me descontrole e ferrei com tudo. Mas só de lembrar do nome daquela garota sinto raiva, o mesmo sentimento ultrajador, odioso e obscuro, seguido de uma energia forte o suficiente para elevar esses sentimentos ao seu ápice. 

– Sei que é difícil, Lu. Quer dizer, imagino. É muito mais difícil pra quem é uma chama gêmea. – A voz de Hoseok soa mais próxima. – Sei que são muitas informações pra um dia só e tem essa profecia que ninguém sabe ao certo. – Sua mão toca meu ombro, espalhando sua energia vigorosa e reconfortante de proteção. – Sei que você o ama e ele também ama você. Jungkook é forte, ele sabe o que faz. – Abro os olhos que sequer percebi ter fechado quando ele se põe a minha frente. – Agora mais do que nunca precisamos que você esteja consciente. Muito desses sentimentos impulsivos que você sente agora fazem parte da magia da lua minguante que corre em seu sangue. Não é você. – Assinto com o que me sobrou de juízo, a garganta se fechando numa sensação asfixiante. – Vem aqui. – Seus braços me envolvem em um abraço morno e eu respiro profundamente, sentindo sua energia acalentadora e ouvindo seu coração bater forte. Engulo a vontade de chorar, porque não era hora. – Você tá queimando. – Suas mãos passam por minhas costas. 

– Pode ser um efeito da insegurança trazida pelo sentimento de angústia. Estar longe dele. – Naeun suspira. – É um pouco… Intenso. 

– Nunca vi nada assim. – Ouço Soojin dizer. Parece se aprofundar a cada dia. 

– E é isso. – A mais velha confirma baixo. 

Hoseok me faz sentar sobre o sofá de novo, após me acalmar minimamente e meu nariz se afunda sobre o tecido do casaco que visto. O cheiro dele permanece ali, impregna em minha pele, cabelo e roupas todas as vezes, deixando para trás um rastro de saudade. 

Expiro e inspiro o perfume de nardos como se fosse meu último dia nessa terra, meu coração inflamado pulsa lentamente. 

– Beba um pouco. Vai te fazer sentir melhor. – Lia murmura, pousando o pires com a xícara de chá fumegante em minha mão. Agradeço em um sussurro. 

Soojin se aproxima também. 

– Vai dar certo, amiga. Eu não sei como funciona isso de chamas gêmeas e ninguém além de você sabe, mas tenta respirar fundo. A Soy vai nos dizer o que aconteceu direito. Se for pra surtar, a gente surta juntas. – Sorrio fraco com o que a loira diz, mas assinto. 

Sopro a fumaça do chá e o cheiro adocicado já me faz suspirar. 

– Infelizmente isso é muito comum no nosso mundo, Lu. Mas a chave principal para resolver os problemas, é saber a hora certa de estourar. Primeiro a gente pensa no plano. – Beberico um pouco do líquido adocicado e seu efeito é imediato, o que só pode ser coisa de Bruxo mesmo. No mesmo instante sinto a garganta relaxar. 

– Acho que eu tô surtando porque eu senti antes, entende? Não queria que ele tivesse ido pra esse jantar com o Seokjin. – Hoseok assente, mas para meu terror percebo a troca sutil de olhares de Lia e ele. 

A xícara treme na minha mão.

 – O que foi essa troca de olhares? O que eu não tô sabendo? 

– Lu… – Hoseok já adverte para meu timbre de voz subindo dois tons. 

– Não vem com essa de Lu. Me. Conta. – Pontuo. 

– O Seokjin na verdade é Lúcifer. – Lia conta de uma vez. – Jungkook foi se encontrar com ele. Pronto, falei. 

– Socorro que nem eu sabia dessa. – Soojin arregala os olhos. 

E de novo, eu entro em crise. 

Deixo o chá de qualquer jeito sobre a mesinha e nem me importo se o líquido quente cai um pouco sobre a minha mão. Eu não consigo ficar sentada! 

– Por que ele não falou pra mim?! Se eu soubesse, aí que não tinha deixado ele ir mesmo! E se o Cão levou ele pra o inferno? E se ele foi sequestrado?! Quando eu achar o Jungkook, eu mesma vou dar uma surra nele! – Tenho completa noção de que estou surtando. Minha voz elevada machuca a garganta e sai estridente e desafinada. Meu rosto está pegando fogo pelo o excesso de sangue e mais um pouco e já podem me internar no manicômio. 

– Lua, Lúcifer não pode simplesmente arrastar o Jungkook pra o inferno. Teria que no mínimo, o Jungkook fazer um pacto com ele. – Hoseok tenta brecar meu vai e vem, mas acabou, acabou. Eu não consigo ficar calma sabendo que ele foi se encontrar com o maldito do pai dele e não me disse. 

– Desgraçado, infeliz, filho da puta, amaldiçoado… 

– Quem você tá xingando mesmo? Só pra eu me situar? – A loira inquire com suavidade. 

Me viro pra si, estarrecida. 

– O cão! – Meu grito agudo soa ao mesmo tempo que batidas na porta. 

Naeun coça a cabeça, meio encabulada.

– Eu vou atender a porta. – Minha única esperança é ser Yoongi e Soyeon. Eu precisava de informações. E eu precisava logo. 

Estou bufando como um touro raivoso, as mãos sobre a cintura e olhos injetados no corredor que precede a chegada de Soyeon. Seu longo sobretudo está manchado de branco pela neve e olha para nós todos antes de dizer:

– Fodeu. 

Engulo a pouca saliva que me resta. 

– Cadê o Yoongi? – Hoseok indaga. 

– Ele foi atrás do Namjoon. Nefilins estavam seguindo a gente. Namjoon e Yoongi são os pilares de Jungkook e estão sendo indiciados também. 

– Indiciados? – Me aproximo. 

– A Tessa. – Ela cerra os dentes ao falar o nome daquela garota. – Aquela dissimulada do caralho, fez um tipo de truque. Eu e Yoongi levamos ela pra casa e quando ela despertasse, eu apagaria as memórias dela. Já que sou um anjo caído e não importa de que lado esteja, sou considerada um demônio. Isso não é problema pra mim. Eu ia entrar na mente dela e apagar as memórias sobre a briga de vocês duas e o que ela viu. Mas ela fingiu desmaio, até mesmo diminuiu a frequência cardíaca. Em um momento ela estava no quarto, no outro já tinha desaparecido. 

– Misericórdia. – Lia sussurra. 

– Pois é. E ela foi direto solicitar uma reunião de urgência com os Nefilins. E contou tudo. Na hora que ela fugiu, eu e Yoongi tentamos achar algum rastro dela, mas a desgraçada é boa. Tentei ligar pra Jungkook, mas ele rejeitou as ligações. Aonde ele estava? – Pisco seguidas vezes por me lembrar do que Jungkook havia dito sobre não poder confiar em Soyeon, Yoongi e Namjoon, que eram os mais próximos do meu ciclo. 

– Ele disse que ia resolver alguma coisa e não me disse onde. – Falo, rápido.

– Pois bem. Depois disso, não conseguimos mais contatá-lo. O telefone só dava fora de área. Deduzimos o óbvio. 

– O que seria o óbvio? – Hoseok tira as palavras da minha boca. 

– Tessa contou sobre Lua para os Nefilins, que provavelmente Jungkook estava tendo um caso com ela e acobertando. Saber o paradeiro de Lua está como lista número um de prioridade deles. Foram atrás de Jungkook e o levaram para a cúpula. É tipo, um lugar não visto a olhos humanos localizado em uma área subterrânea de Bangor. As reuniões mais importantes acontecem lá, onde a Corte composta por Nefilins mais importantes, bruxos, e anjos caídos se unem para resolver questões, dentre elas, o julgamento. – Eu sinceramente, sinto todo o meu corpo esfriar. 

– O-o julgamento? – Minha voz sai como um sopro. 

– O réu fica preso por um dia dentro de uma cela especializada que contém um tipo de magia que trás à tona seus maiores medos e traumas, para deixar o psicológico do prisioneiro frágil e suscetível a contar a verdade. A cela também suprime os poderes. Em um prisioneiro comum após sua confissão ou ele é exilado ou executado, depende muito do grau. 

– M-mas não podem matar o Jungkook, não é? – Questiono em desespero. Não, não, não. 

– Não. Eles não são fortes o suficiente para matar o Líder deles. – Pontua. – Mas Jungkook perderia tudo que conquistou durante esses anos e os Nefilins se revoltariam contra ele. O Jungkook é forte o suficiente para arrebentar aquela cúpula inteira, Lua. Mas ele nunca o fez por respeito à situação, respeito a história dos nefilins. Ele está lá sofrendo porque sabe que tem que pagar pelo que fez, e que arcará com quaisquer que sejam as consequências, mesmo que tudo que ele tenha feito foi amar você e te proteger. – A loira se aproxima, segurando minhas mãos estendidas ao lado do corpo. A desesperança em meu rosto é palpável. – Escute, vamos fazer o possível e impossível, nem que tenhamos que invadir a cúpula e surrar alguns nefilins babacas. 

– Ele só está passando por isso porque me ama. – Sussurro. – É tão ruim assim? 

– Lua, não. Me escuta. Não é pra você se culpar, nem o Jungkook. Eles simplesmente não compreendem. Pensam apenas pelo lado de que você é a arma que nasceu pra matar ele. – Soyeon tenta me acalmar, mas sinto que toda a minha raiva – que me dava forças – se dissolveu em um sentimento de culpa e impotência. – Vamos dar um… – O toque de um celular ecoa pelo ambiente, cortando o que a loira fosse terminar de dizer. Levam cinco segundos inteiros até que eu perceba que é o celular que Jungkook havia me dado e ele toca num dos bolsos frontais do casaco. 

Tiro o aparelho do bolso e sinto que minha alma sai deste quando vejo o nome de Jungkook na tela. Um alívio instantâneo amolece meus nervos e eu tenho que me sentar para poder atender. 

– Jungkook, graças a Deus! – Tomo um fôlego de paz. E os olhares imediatamente se voltam em minha direção. – Aonde você está? Tá tudo bem? Machucaram você? – Tropeço nas minhas próprias palavras. A linha continua muda por alguns instantes que me levam a checar se a ligação não tinha caído. 

Até uma risada descrente soar do outro lado e eu queria, eu queria mesmo não ter entendido de quem era. 

Imediatamente, minha boca adquire um gosto amargo. 

Você é tão patética.Ela cicia. – Por sua culpa, sua vaca insolente, Jungkook está agora revivendo todos os seus infortúnios numa cela que ele mesmo criou. 

– O que você fez com ele? – Rosno, apertando o aparelho com força. 

Eu? Nada. Apenas contei a verdade sobre sua maldita existência. Jungkook está enfeitiçado, mas essa sua maldita teia não vai durar pra sempre e ele vai acordar. 

– Você não sabe nada sobre ele. É uma pena que eu não tenha quebrado todos os seus dentes quando tive chance, mas eu posso me redimir. Prometo dessa vez que faço o trabalho direito. – Soyeon se agacha entre minha pernas. Seu toque em meu joelho me pede calma. 

Soojin do outro lado da sala está prendendo o riso e ganhando um olhar feio de Lisa. 

Você pode tentar. – Ri. – Está intimada para o julgamento de amanhã. Às 8 horas, Jungkook será julgado e exilado. Vai ser ótimo ver os Nefilins tentando arrancar a sua cabeça. 

– Sua desgra… – A ligação fica muda quando ela desliga e eu tenho que reunir forças inexistentes para não atirar aquele celular do outro lado da sala. 

– Lua… 

– Tessa quer que eu vá para o julgamento amanhã. – Digo e Hoseok imediatamente nega com a cabeça. 

– Não. Com certeza não. É perigoso e os Nefilins vão tentar te matar com toda a certeza. 

– O caçador está certo. – Naeun que esteve observando todo esse tempo, se manifesta. – Ela quer fazer uma humilhação pública. 

– A proposta com certeza vai ser a sua vida pela liberdade dele. Quando você estiver lá dentro, vai ser difícil sair. – Soyeon se ergue. Passa a mão pelos fios platinados. – Desgraçada. 

– Eu vou. Se ela quer barraco, então eu vou dar um. 

– Lua, isso não é por quem faz mais cena ou não. É a sua segurança! Dentro da cúpula, eu não vou conseguir te proteger. – Hoseok se achega. 

– Eu não posso deixar que crucifiquem o Jungkook sem saberem da verdade. Vão julgá-lo porque acham que eu quero matá-lo, mas se eu contar… 

– No momento que você pisar dentro da cúpula, estará morta. – O moreno pontua com firmeza. – Eles estarão com uma seta estelar te esperando. 

– Então, vamos chegar antes do esperado. – Me ergo. – Está fora de cogitação deixar o Jungkook ser julgado. 

– E o que vai fazer quanto estiver lá? Vão ter ataques por todos os lados e você não tá pronta pra se defender! – Seu olhar flameja em tom de ambar.

– Há uma possibilidade. – Naeun interfere. – Perigosa, mas há uma possibilidade. 

– E qual seria? – Meu irmão indaga, exasperado. 

– Ela se libertar. Sinto a magia de Jungkook nela, ele reforçou o feitiço no colar. Se ela tirá-lo, poderá se curar rapidamente de ferimentos, seu reflexo será implacável. Mas para dar o crédito da confiança, ela teria que conseguir libertar seu lado Nefilim. 

– Não! 

– Sim! – Eu e Hoseok dizemos ao mesmo tempo e ele me olha bravo. Sei que preza por minha segurança, mas ele não entende. Eu não ia ficar de braços cruzados esperando eles me darem notícias. 

Estava completamente envolvida nisso e eu os faria me ouvir. Eu tinha certeza. 

– Você vai se matar! É muito poder, não vai conseguir controlar. É simplesmente o seu lado Caçadora e Nefilim sem freios. Se ao menos tivesse controle sobre a sua parte Nefilim, poderia tentar equilibrar. 

– Não custa tentar. Uma hora eu vou ter que libertar essa droga de poder pra tentar me controlar. Agora, eu tenho uma ótima motivação! 

– Vai colocar praticamente uma seta nas suas costas. Mas não posso te obrigar a não ir, mesmo que seja uma missão suicida. 

– Entrarei com ela na cúpula e farei o possível para protegê-la. – Soyeon garante. 

– Confio na garota. O feitiço da porta teria feito um belo estrago se ela tivesse má intenções. – Naeun dita. – Mas precisa colocar isso na sua mente e seu coração, Lua. Não se deixe levar pela sensação de poder. Tem que mostrar a eles que você não é o que eles estão pensando, se não, vai dar apenas mais armas pra a garota. – Assinto. Por mais que sinta medo do descontrole novamente, não posso levar isso como principal estopim. Jungkook precisa de mim e eu preciso aprender a me controlar. 

– É o Yoongi. – Soyeon coloca o celular de volta no bolso depois de digitar algo. – Disse que está na saída da cidade com o Namjoon e a Lisa. Temos que correr pra chegarmos em Bangor e montarmos um plano minimamente descente. – Hoseok assente. 

– Vou pegar minhas armas e iremos. – Respiro fundo. 

– Tá, mas e a gente? – Lia aponta para si e Soojin. 

– Vocês vão ficar com a Naeun, é mais seguro. 

– Mas eu quero ajudar! 

– Vai ajudar não se pondo em perigo. Pelo amor do Altíssimo, Lia. – Hoseok segura o rosto da menor, plantando um beijinho delicado nela. Eu me sinto miserável porque queria estar fazendo isso com Jungkook. 

– Vou ligar pra o Nam depois. – Soojin suspira e vem em minha direção para me dar um abraço apertado. – Vou estar torcendo por você. Espero conseguir ajudar na próxima missão. Podemos até colocar um nomezinho bonitinho. – Sorrio, abraçando-a de volta. 

Esperava que aquele não fosse o fim. 

Mais braços se enrolam e nosso abraço se torna triplo, quando Lia se enrosca a nós duas ao mesmo tempo. 

– Dá uma boa surra neles, Lu. – Assinto freneticamente, tentando espantar a sensibilidade pra um lugar distante. 

Iria buscar o meu princeso

L I S A

Batuco os dedos sobre o painel do carro, mirando o retrovisor com os olhos. A noite se mantém silenciosa e a neblina espessa impede que os olhos humanos vislumbrem o que está a sua volta. Felizmente, não sofro desse mal. Francamente, considerava a raça humana perdida. Um dos piores seres que foram criados. Eram egoístas, mesquinhos e gananciosos. 

Não sabia qual a razão dos Arcanjos lutarem tanto pela coexistência dos humanos com os Nefilins. Estes primeiros poderiam ser piores que esses últimos. 

A razão dessa Profecia me parecia outra coisa. Só não fazia ideia do que, realmente. 

– Jaehyun disse que a cúpula está um caos. – Namjoon que esteve silencioso pelos últimos vinte minutos, quebra o silêncio. 

Suspira e deixa o celular sobre o colo. 

– Tessa fez um belo estrago. – Arqueio as sobrancelhas em ceticismo. 

– Ela adora ser o centro das atenções. Me odeia até hoje por ter namorado o Jun. – Descanso a cabeça sobre o estofado. – Se acha por ser filha de Abbadon. 

– Jungkook só a mantém na corte por cautela. Manter o seu inimigo por perto, sabe? Ele não confia nela. 

– Nunca confiou. – Concordo. 

À frente, vejo Yoongi sair do carro, olhando de um lado para o outro. Ele se debruça sobre a janela e eu abaixo os vidros. 

– Hoseok está vindo com Soyeon e Lua. Tessa convocou a Lua no julgamento. A desgraçada é corajosa. – Ele ri sem rastro de humor. Os olhos estão tão negros quanto a luz lá fora. 

– O que? Ela é louca? – Namjoon arqueja.

Mas não estou surpresa. Conheço Tessa desde que ela veio até Jungkook para ser aceita. O jogo dela era sádico e por mais que eu gostasse de ver o sofrimento alheio e o sangue – literalmente – escorrer, os princípios dela eram regados ao egocentrismo. Ok, não sou a pessoa mais apta para falar sobre princípios, em vista de que perdi os meus há muito tempo. O arrependimento, infelizmente, não traz uma redenção para si mesmo. 

Quando cai que quis liberdade, voar com as minhas próprias asas e ter o direito de opinar por mim mesma. Temi pela Profecia e quis por tudo salvar minha pele e a de Jungkook. Porém, no processo fiz escolhas difíceis e isso custou mais que minhas asas, mas a inocência que somente um anjo possa ter. 

Voltar atrás no nosso mundo, é visto como covardia, uma vez que existe o bem e o mal e uma hora, a balança pesa para aqueles que estão no meio. Você vai ter que escolher um lado. 

E eu não era boa, não mesmo. Faria o que fosse possível para me proteger, porque é assim que funciona. 

Mas, a acidez de Tessa vinha do profundo desejo de reinar ao lado de Jungkook e ser a soberana.

Ela me dava pena. 

– Bom, ao menos o show vai ser completo. – Dou de ombros. Yoongi suspira e o vento noturno leva seu cabelo para o lado. – Jungkook com certeza vai ser exilado. Mas a notícia de que a garota da Profecia está com ele vai se espalhar pelos quatro ventos. 

– E vai ser um caos. – Namjoon completa. 

– Tudo por causa da maldita da Tessa. – O loiro fecha os olhos, como quem busca paciência. A fuga de Tessa tinha deixado ele puto, ainda mais porque era responsabilidade dele e da Soyeon. Eu no lugar dele, já teria ido buscar a Nefilim infeliz pelos cabelos. – Acho que vamos ter que mudar de cidade. Nos camuflar. 

– Aish… – Resmungo. – Eu mesma estou com vontade de queimar todos os Nefilins da Corte. – Não quero nem pensar. Lua era irritante, mas acreditava que ela serviria mais viva do que morta. 

– Jaehyun deu notícias? – Yoongi inquire para Namjoon. 

– Disse que a Cúpula está uma bagunça. A história de que Jungkook está tendo um caso com Lua virou manchete. 

– Daqui a pouco sai no jornal. – Sussurro. Namjoon ri, nervoso. 

– Todos querem saber onde ela está, como ela se parece. 

– Por isso a Tessa quer ela no julgamento. Já que foi ela quem descobriu, o mérito vai vir totalmente pra ela. 

– Ela… – Estreito os olhos. – Ela não quer só fazer uma cena. Ela quer o trono, quer ser líder. – Fito os dois garotos. Yoongi trinca os dentes. 

– Vadia. – Cospe, irritado. 

– Não vamos conseguir entrar na cúpula sem invadir. Tessa deve ter mandado reforçar a segurança. 

– Não vou me importar de enfiar uma bala neles. Estou precisando. – Enrolo uma mecha do cabelo nos dedos. 

Ao longe, faróis penetram a neblina e se aproximam. O Caçador exilado é quem dirige e para ao nosso lado. 

Soyeon abre a porta e sai. 

– Todos prontos? Precisamos chegar em Bangor o quanto antes. Preciso de reforços. 

– Lisa e Namjoon trouxeram reforço. – Yoongi se refere as armas dentro do porta malas. – Eu também trouxe. 

– Lua precisa se trocar também. Não dá pra salvar o Jungkook vestindo moletom, tem que entrar com estilo. – Outra porta bate quando a dita cuja sai de lá. Ela me olha atentamente. 

– Lisa. – Cumprimenta. 

– Lua. – Digo de volta. 

Yoongi olha para nós duas, desconfiado. 

– Vocês duas deram uma trégua? 

– A Lisa que enchia o meu saco. – Bufo, com que a aprendiz de Caçadora diz. 

– Você me olhava com desgosto antes mesmo de me conhecer. – Aponto e ela sorri, meneando a cabeça como quem pensa. 

– Bom, se serve de consolo, passei a adorar você depois de conhecer a Tessa. – Namjoon e Soyeon soltam uma risada. 

– Posso dizer que você com certeza é menos irritante que ela. – Sorrio também. 

– Temos algo em comum, então. 

– Já que estamos todos resolvidos em um bem comum, hora de darmos o pé. – O Caçador exilado se manifesta pela primeira vez, atento a cada ruído que a noite faz. 

– Vamos passar no apartamento da Soyeon em Bangor para acertarmos tudo direito. – Yoongi diz. – Hoseok e Lua vão no meio, por segurança. 

– Ok. O Clube da Luta, tá pronto? – Rio, negando com a cabeça. 

– Vamos lá. 

Soyeon e Yoongi guiam o caminho na frente, enquanto o Hoseok e Lua seguem ao meio e eu e Namjoon por último. 

Sabia que a partir do amanhecer nada mais seria o mesmo. Se o desfecho disso seria bom ou ruim, ninguém saberia ao certo. 

Em breve a notícia de que a garota da Profecia estaria em Portland e com Jungkook cairia nos ouvidos de todos e não haveria mais um dia de paz. 

Se eu era toda fodida, Lua era muito mais. Que destino desgraçado, misericórdia. 

Chove durante boa parte do percurso e quando chegamos, já passam das quatro da manhã. Duas horas cravadas de viagem com o velocímetro marcando em seu máximo. 

Alguns bares ainda estão abertos e pingos de chuva mancham o para-brisas, ainda que a frequência tenha diminuído. 

Bangor, era conhecida por nós seres esotéricos, como a cidade dos Nefilins. A Cúpula se localizava entre a densa floresta de cedros, invisível a qualquer olho humano ou seres que não pertencessem a Corte. 

Se eu tivesse sorte, Jungkook não haveria escrito minha exoneração formalmente e eu poderia entrar sem ser barrada. 

Tínhamos que ser rápidos e precisos. Interromper o julgamento, matar alguns nefilins, qualquer coisa que impedisse que Jungkook fosse Exilado. 

Suspiro profundamente. 

Sem poder contar com Deus, nós contariamos com a sorte. 

L U A

Pesadelos e alucinações permearam por toda a viagem, cada vez com mais frequência. 

Sabia que agora eram os medos e traumas de Jungkook refletidos em mim. O que eu sentia, era um reflexo do que ele estava passando. 

Primeiro fora o afogamento, o que me fez pensar que se fosse um trauma, teria vindo de um acontecimento. Jungkook já tinha morrido afogado como bem me disse sem entrar em detalhes, no dia que revelou sua história. 

A segunda visão se tratava de seu próprio descontrole. Quando matou tantos Caçadores na noite em que assassinaram os Nefilins. Ele matara tanto que ao fim daquele dia, suas tatuagens cobriam quase metade do corpo e o poder adquirido com elas, era inexorável. Ele viu seu reflexo em um dos estilhaços. 

Um dos olhos dele eram pintados de um negro sem fim. Não havia nenhum sinal das pupilas, muito menos a esclera. O outro se tingia de um vermelho profundo. Um profundo tormento o povoava. O sangue em suas mãos, o peso de milhares de vidas tirada. 

A áurea perversa que o recobria. A visão o pertubaria pelo resto dos seus dias.

Após essa visão, acordei assustada e suada, mesmo que lá fora a temperatura fosse abaixo de zero. Hoseok quis parar, mas não permiti. Agora eu sabia do que se tratava. Ele estava revivendo suas piores memórias, uma por uma. E me estilhaçava o peito saber. 

A terceira visão veio perto de chegarmos a Bangor. Apesar de eu ter tentando não dormir de novo, só bastou fechar os olhos e outro cenário fizera parte dos meus sonhos. 

Dessa vez, não houveram rodeios. 

Em um cenário digno do apocalipse, corpos cobriam o chão em uma pintura macabra. Bem no centro, eu reconheci seu choro, abraçado a um corpo que não possuía mais vida. O meu corpo. 

Uma flecha dourada no centro do meu peito deixava que um filete de sangue escorresse desse e o sujasse. 

Meu próprio rosto lívido e sem cor o assombrava e o vazio e dor que ele sentia eram tão fortes que chegavam a machucar fisicamente. 

Sua voz me chamava com tormento e seus braços me apertavam com força. 

No meio de tantas perdas, ele havia sobrevivido, mas sentia como se estivesse morto. Porque seu maior medo não era o descontrole ou se afogar, seu maior medo era me perder. 

Bom, dizer como chorei como uma desgraçada seria pouco. 

Você não tem dimensão das coisas, até que seja encurralado. 

Eu sabia que amava Jungkook de um jeito absurdamente intenso e fatal. O tipo de amor que se sacrifica. Mas agora, distantes, com o reconhecimento de que estávamos ferrados, mesmo se saíssemos dessa bem, me caiu como uma rocha. 

Ele… Ele não era só o meu namorado ou o garoto que eu gosto. Ele era o meu amigo, o meu amante, o meu companheiro. Se um dia eu tivesse a chance de me casar, se… Deus permitisse isso… Era ele. Era sobre ele e por ele. 

E isso foi a coisa mais absurdamente clichê, melosa e romântica que já pensei, mas não havia outra maneira de não me sentir dessa maneira. 

Eu enfrentaria qualquer um por ele. 

Não importasse o preço. 

E isso, foi o que me fez enxugar as lágrimas e dizer:

– Eu tô bem, tá? Vamos logo montar um plano. – Sinceramente, eu não aguentava mais ficar longe dele.

– Bom… – Lisa pigarreia parecendo desconcertada. 

Havíamos chegado no apartamento de Soyeon há mais ou menos vinte minutos, em que eu permaneci em crise, chorando, enquanto todo mundo me olhava em silêncio, após Hoseok dizer que era coisa de chama gêmea. Constrangedor. 

– A Cúpula hoje vai estar um caos. O líder deles vai estar em julgamento, literalmente, todos os Nefilins vão se reunir na arena para assistir. – Yoongi assente. 

– Ele vai ser acusado e exilado não importa as circunstâncias. Ter protegido a Lua todo esse tempo, é pena para morte, mas como não podem matá-lo… 

– Vão humilhá-lo. – Namjoon completa, as mãos cruzadas solenemente entre as pernas. 

– C-Como assim? – Indago, meio fanha e o nariz todo congestionado. E pior, em desespero. 

– Ele vai fazer o caminho das pedras. – Lisa, suspira, os olhos nublados. – Vai descer a escadaria da campanha que é enorme, enquanto é apedrejado por todos, até que esteja fora da cúpula, se ele conseguir chegar de pé. – Se eu já estava em total desordem, desolação, tristeza e agonia antes, agora, eu mal conseguia pensar em como estava me sentindo. 

– Jungkook é moral demais para fugir. Porque ele pode fazer isso tranquilamente. Mas ele sabe, que de algum modo tem que pagar por ter traído aqueles que o acolheram quando ele foi morto, espancado e humilhado inúmeras vezes. – Soyeon murmura, o cenho franzido. – Ele sabe que traiu a confiança, mas não se arrepende. 

– E-ele não pode simplesmente aceitar que todos os Nefilins apedrejem ele, isso… Isso é demais! – Esbravejo. Por que ele tinha que ser tão nobre? 

– É isso que queremos impedir, Lua. – Yoongi expira, suavemente. – Temos que chegar durante o julgamento. Mas não sei como fazer para os Nefilins te ouvirem, sem quererem te matar na hora. Odiar você e temer você é a única coisa que eles sabem fazer. – Tiro o cabelo do rosto com impaciência. 

– Ela pretende libertar a outra natureza dela hoje. A que é semelhante deles. – Hoseok, que esteve quieto, se manifesta. Os braços cruzados sobre o peito e expressão taciturna demonstram que ele ainda não aprova aquilo. 

– Isso é possível? – Namjoon inquire, chocado. 

– Naeun disse que é possível se eu souber dosar. Quando eu tirar o colar, os dois poderes vão estar em desarmonia, mas tenho que conseguir deixar que apenas o Nefilim se sobressaia. 

– E você vai conseguir? Que eu saiba, o Jungkook só conseguiu ativar o lado Nefilim dele quando completou dezenove e a transição estava completa. – Lisa especula. 

– Por conta do colar que ele usava, os "sintomas" – Faço aspas com os dedos – de Nefilim eram retardados. Quando ele completou dezenove, imagino que a transição chegou em seu ápice e o feitiço foi quebrado. Não ter os meus dezenove anos completo significa apenas que não posso usar o máximo de poder que tenho, mas não que não posso usá-lo. – Completo a minha dedução. – Se eu deixar que meu lado Nefilim seja predominante posso ao menos refletir que não sou tão diferente deles. Por mais que eu seja uma Caçadora, também sou Nefilim. Está no meu sangue. 

– Bom, ao menos faz sentido. – Lisa contrapõe e não deixo de perceber que depois do que aconteceu consigo, ela parece menos ácida comigo. 

Ela parecia diferente. 

– Como a Lua entraria na cúpula? Só podem entrar aqueles que pertencem ao local, certo? – Hoseok, pergunta. 

– Sim. – Namjoon é quem responde. – Mas estando registrado lá dentro, é mais fácil para colocar alguém de fora. Jaehyun está lá e pode colocar a Lua para dentro. 

– Eu e a Lisa entraríamos com ela. Mas pra isso, precisamos de uma distração. A segurança vai estar reforçada. – Soyeon informa. 

– Yoongi eu podemos ser iscas. As meninas não estão tão procuradas. Então, eu e ele poderíamos chegar nos seguranças que guardam a entrada e dizer que viemos nos entregar. – Namjoon pontua. 

– No mesmo momento, Hoseok poderia correr em volta da cúpula com sua energia livre, assim chamaria atenção deles. – Yoongi completa. 

– Assim, o rastro de um Caçador por perto seria outra distração. – Meu irmão acompanha o raciocínio. – E daria tempo para as meninas entrarem. Ok, mas é quanto aos seguranças lá de dentro? 

– Vai ter um fluxo enorme de Nefilins chegando. Todos eles vão estar de capas pretas como diz a tradição do julgamento. Vai ser nosso disfarce. Na porta que guarda a arena vão estar em torno de quatro Nefilins, mas nada que uma surra não resolva. – Lisa sorri, presunçosa. 

– E então, a gente entra e a Lua faz a mágica dela. – A loira conclui. – Tcharam. 

Hoseok suspira, olhando pra mim. Nitidamente incomodado pela minha exposição e tendências suicidas. Mas não há nada o que fazer, ele sabe que não vai conseguir me parar. 

– Certo. Então, vamos nos organizar. Partiremos ao amanhecer. – Dita. 

Por mais que não tivesse dormido mais que vinte minutos durante aquela noite, não sentia sono. Muito pelo contrário. A agitação em meu interior me manteve desperta. 

Os poucos minutos que tive sozinha, foram durante o banho e mal tive tempo de refletir se eu daria conta de tudo aquilo ou não. Lisa quase arrancara a porta, gritando que era sua vez e que o banheiro não era só meu. 

Revirei tantos os olhos que os globos oculares doeram. 

Soyeon me emprestara uma das suas roupas exclusivas de luta, como ela mesmo disse. 

Era um macacão com um material que parecia sintético por fora e revestido de couro por dentro. 

– Protege contra quedas, queimaduras e não fica molhado. – Me disse. 

Mas ela era menor que eu e mais magra, o bom era que o material ao menos esticava e com muito esforço me coube dentro. Lisa tentou puxar o zíper até o pescoço, mas ele havia empacado no meio dos meus seios e de lá não subia nem com reza. 

E quem imaginaria, Lisa me ajudando com alguma coisa? O mundo não gira, ele capota. 

– É amiga, se você não matar os Nefilins com seu super-poder, mata de tesão. – A loira diz, me avaliando, e eu sorrio com o que ela fala. 

Calço as botas de cano baixo que vão até os joelhos. Alongo os braços e pernas testando a flexibilidade da roupa, mas é como uma segunda pele e me permite ousar em qualquer movimento. 

– Sabe que tipo de arma tem mais afinidade? – Soyeon, inquire. 

Não sei o que faz ao certo, mas quando ela põe a mão na parede, está se move, rotacionando e revelando uma legião destas de todos os tamanhos. 

Solto uma interjeição surpresa, me aproximando lentamente. Meus dedos tocam suavemente – quase temerosa – a superfície gelada dos fuzis e das armas de menor porte. Mas é um arco com detalhamento sofisticado que chama minha atenção. 

– Quer tentar? É um pouco difícil. – Ela o retira do apoio para me entregar e o peso me surpreende ou a falta dele. É leve. 

Soyeon me entrega uma flecha e aponta para um alvo do outro lado do quarto. O que denota que ela o usava para treinos. 

– Eu vou até sair do meio. – Lisa murmura, puxando suas botas para o lado oposto. 

– Dê as instruções, você é melhor nisso que eu. – A loira empurra a mais alta pelos ombros. 

– Você poderia ter escolhido um mais fácil. – Fala, se aproximando. – Alinhe o corpo de forma perpendicular ao alvo. – Instrui, ajeitando meus quadris e ombros. – Fique reta e deixe seus pés afastados na largura dos ombros. – Ela mostra a pose e eu tento repetir. – Mais um pouco. – Assente. – Isso. – Aponte o arco em direção ao chão e coloque a flecha na corda. Você encaixa essa parte de trás – Indica com o dedo. – nesse componente de plástico com chamado de batente da flecha ou nock. 

Nock. – Sussurro. 

– Isso. Use três dedos para segurar de levemente a flecha na corda. – Encaixo da maneira dita. Há uma certa familiaridade ainda que nunca tenha tocado em arco e flecha antes. – Quando estiver disparando  sem mira, coloque os três dedos

abaixo da flecha, trazendo-a para bem perto do olho. – Ergo o arco, puxando a flecha e a corda na altura do rosto. – Agora você alinha e… – É como um repentino frenesi. Uma sensação de segurança e poder. 

Em um segundo Lisa está falando, em outra, a flecha está cravada no centro do alvo. E eu não faço a menor ideia de como fiz aquilo. 

Soyeon me olha boquiaberta. 

– Uau. – Lisa me olha com as sobrancelhas arqueadas. – Sorte de principiante ou instinto de Caçadora? – Engulo em seco. 

– Eu não… Sei. – Fito o arco em minha mão. Gosto da sensação de segurá-lo. Seria o meu instinto de Caçadora? 

– Não fica pensando nisso. – Soyeon me segura pelos ombros para que eu a olhe. – Esse negócio de ter duas naturezas é algo realmente confuso, mas sei que você vai tirar de letra. – Assinto, desejando acreditar muito nisso. – Na arena quando estiver falando, tem que demonstrar segurança e confiança do que fala. Eles vão tentar te cercar de todas as formas e é preciso que você não ceda à pressão. 

A primeira chave para a aceitação de si mesmo, parece óbvio, mas começa em admitir o que você é. 

– Não importam o que digam sobre você. – Lisa complementa, amarrando o cabelo no topo da cabeça. – Se te disserem que é um demônio, sorria e bata em seu peito, porque é melhor ser um demônio do que uns hipócritas. Devem tudo o que tem a Jungkook, mas o aprisionaram em uma cela sem pensar duas vezes. – Sorri, os lábios pintados em vermelho e olhos expressivos. – Agora… – Ela joga a alça de um rifle sniper nas costas. – Vamos mostrar pra eles como se faz um show. 

❦❦❦

Sem nenhum resquício de sol, as nuvens cobriam o céu e uma fina garoa caia sobre as plantas, deixando o chão orvalhado. 

Havíamos deixado os carros no acostamento alguns quilômetros de distância por precaução. 

Yoongi e Namjoon haviam ido por um lado, uma trilha que dava diretamente para a tal cúpula, enquanto eu, Hoseok, Lisa e Soyeon fomos por uma parte mais densa da floresta. 

Meu coração batia forte no peito e o sentimento era de realmente ir para a forca. O medo fazia meu corpo tremer, mas a coragem me fazia dar um passo atrás do outro e seguir em frente. 

Porque era por Jungkook e por nós. 

– Quantos minutos levam até eles chegarem? – Hoseok, indaga. Ele me ajuda a descer uma parte mais íngreme e escorregadia, sempre se mantendo atendo atrás de mim. 

– Em torno de vinte e cinco minutos. – Soyeon fala. – Mas acho que eles estão indo mais lentamente, pra que a gente possa chegar ao mesmo tempo. 

– E onde mais ou menos nós estamos? – Pergunta de novo. Acho que é a natureza de Caçador dele. 

– Chegando. – Lisa vira o rosto minimamente para nós dois e pede silêncio ao pôr o indicador sobre os lábios. 

Nos escondemos atrás de uma colina mais alta, e a visão é um pouco perturbadora. 

Lá embaixo, pessoas encapuzadas andam lentamente rumo a um lugar que eu não vejo e somem no vazio do tempo.

– Por que eles estão sumindo? – Sussurro, fungando. Minha rinite agradece muito aos chuviscos.

– Você e Hoseok não veem… – Lisa começa, o olhar parece distante, quase sombrio e não preciso tocá-la para sentir que sua energia transita entre sentimentos ruins. – Mas a cúpula está lotada. – Um arrepio estranho me acomete ao saber que Jungkook está tão perto. A vontade que tenho é de simplesmente correr até ele. 

A mão enluvada de Hoseok encontra meu ombro em um gesto de apoio e eu sorrio fraco pra si. 

– Vamos esperar todos eles entrarem, certo? – Indaga a morena, que assente. 

– Sim. Espera a gente perto dos carros. Se não voltarmos…

– Vocês vão voltar. – Assegura. – Nós vamos conseguir. – Me apego aquelas palavras e a última fé que mantenho no mundo. Ainda tínhamos muito o que viver… Todos nós. 

É difícil ser otimista, em vista de que é uma característica falha na minha personalidade. Sempre fui a pessoa que se autosabotava. Antes que alguém se dissesse decepcionar comigo, eu dizia que eu era minha própria decepção e não precisava do julgamento de ninguém. 

Entretanto, a situação muda quando você para de pensar só em si mesmo. Quando pensa nas outras pessoas, em perdê-las, ser otimista é a única esperança de um coração agoniado. 

Eu faria isso por mim, por nós e especialmente por ele. 

Digo para mim mesma que vou conseguir, que vou me controlar. Porque a finalização desse plano depende de mim e dessa vez eu não queria decepcionar. 

Um mórbido sino toca e me sobressalta. As batidas do meu coração tropeçam e chamam por ele. 

Soyeon engole em seco, os lábios franzidos.

– Começou. 

Hoseok ao meu lado assente, e me fita com firmeza. 

– Confio em você. – Faço que sim com a cabeça. – Mamãe teria orgulho. – Respiro fundo e o puxo para um abraço desajeitado. 

Me deixo descansar – no que pode ser a última vez – seu abraço e tenho que olhar para o céu azulado manchado pelas árvores para simplesmente não chorar de novo, para variar. 

– Por favor, não deixa eles pegarem você. – Digo, quando nos separamos e ele limpa uma lágrima teimosa que desce por meu olho direito. Hobi sorri, desafiador. 

– Nem se eles tentassem. – Assinto, sorrindo toda desajeitada por estar com vontade de chorar. – Boa sorte meninas, estarei esperando vocês. – Dita, se levantando. 

– Boa sorte, Hoseok. – Lisa diz. 

– Pra todos nós. – Soyeon responde. 

Lá embaixo, Namjoon e Yoongi chegando causam uma comoçam estrondosa. 

O primeiro até tenta conversar, mas é levado com brusquidão para dentro da coisa invisível que só Soyeon e Lisa veem. 

– Vamos, vamos. – Lisa me empurra para ir para o outro lado. 

Respirando adrenalina, quase desço ladeira abaixo ao tentar me levantar e escorregar no lodo proeminente. 

A morena tem que me segurar, os olhos assassinos em minha direção. 

– Desculpa. – Murmuro. Sigo cuidadosa pelas laterais, me segurando as raízes no chão e caules sujos. 

Soyeon e Lisa tem habilidades de um gato, silenciosas e precisas. 

A loira nos mantém atrás de uma frondosa árvore. 

Rapidamente, a palavra Caçador sai berrada por alguém e tudo se torna uma bagunça. 

A morena me puxa pela mão, porque fico meio paralisada ao ver os olhos deles cor de âmbar. Mesmo com meus poderes enclausurados, sinto um clima pesado vindo deles. 

Minha capa arrasta no chão e está quase toda molhada pelo chuvisco. Ela esvoaceia quando passo a caminhar despercebida entre os Nefilins. 

Aparentemente a energia de Hoseok havia chamado bastante atenção. 

Soyeon tira o capuz da capa e eu quase solto um grito quando o único homem que estava na porta se vira, mas reconheço ser Jaehyun. 

– Entrem logo. O julgamento já começou. – Sussurra, passando as duas primeiro. Comigo, ele descobre meu pulso e passa algo que parece um sensor. É morno e deixa impresso em meu pulso o número 12.367.

Ele sorri amistoso. 

– Boa sorte, Lua. – Murmura e eu agradeço em um sussurro e me assusto quando uma espécie de castelo moderno aparece diante dos meus olhos. 

Os tons escuros dão o ar de sofisticado ao local. Quadros enfeitam as paredes e os corredores são vastos e espaçosos, parcialmente vazios. 

Soyeon tira das costas o aljava que carregava pra mim e o arco. Ela e Lisa possuíam o artifício de deixarem invisíveis tais armas. 

– Fique a postos. Quando ver algum Nefilim, não converse, atire. – Comanda e eu consinto. Nunca havia visto tão concentrada e atenta. 

Ela me guia suavemente para ficar no meio. Lisa confiantemente segue a frente. 

Suas botas de salto alto e finíssimo ecoam pelo ambiente, seguida das minhas próprias botas e as de Soyeon.

Atravessamos dois corredores e eu juro que estava quase desmaiando de nervosismo ao que ouvia vozes altas cada vez mais perto.

O corredor longo é bem iluminado, com paredes envidraçadas e câmeras em todo o canto. – Se eles querem um show, vão ter. – Sussurra.

– Ei! Quem são vocês? Não podem entrar com armas aqui! – Um homem alto, corpulento e de expressão nada amigável berra e eu ergo meu arco. Lisa entretanto, é bem mais rápida. 

– Ah, é? Conversa aqui com meu rifle então! – Erguendo seu sniper quando quatro Nefilins vigiam a entrada da sala de julgamentos. Meu coração bate forte no peito e fico meio pálida com o barulho que aquilo faz.  Acontece num piscar. Ela mira, aperta o gatilho e o som alto me faz estremecer. Sem hesitar.

Seus corpos arquejam e eles caem lívidos sobre a cerâmica clara.

Minhas mãos tremem ao segurar a flecha. Atrás de mim ouço o som de mais tiros concecutivos e me viro em um estampido,  dando passos para trás quando um dos encapuzados se move com a rapidez de uma piscar. 

"Se concentre." Uma voz que não é minha e que nunca havia ouvido antes murmura. "O conhecimento está dentro de você."

A flecha acerta seu peito e ele cai no chão se contorcendo. Aterrorizada, solto um quase grito quando esbarro em algo. 

Lisa rapidamente me vira para si. 

– Tudo bem, você não matou ele. Estão todos cedados. É a sua hora. – Ofegando pelo choque de ferir uma pessoa pela primeira vez na minha vida, eu me forço a respirar pausadamente. 

– Relaxa, ok? – Soyeon alisa minhas costas com uma das mãos livres. – Precisamos de você agora, Lua. – Assinto freneticamente, tocando meu peito disparado. 

Ela me ajuda a tirar a pesada capa e a mesma cai no chão com um som farfalhado. 

Gritos ecoam pelo corredor e se aproximam. 

– Entra com ela. Eu dou um jeito neles. – A menor intrui para Lisa, e me lança um sorriso encorajador. – Acaba com eles. – Correndo, ela dá uma última piscadinha antes de sumir pelo corredor. 

E eu respiro fundo, uma, duas, dez vezes, as mãos tremendo. 

Com os olhos ainda fechados, levo as mesmas até o pescoço e retiro o colar. 

– Guarde pra mim no caso de eu não saber como voltar. – Lisa me olha com atenção, assentindo por fim e guardando o colar no bolso da sua calça. 

– Pronta? – Tomo mais um fôlego, sentindo surgir em mim o início de uma energia incontrolável. 

Trincando os dentes, eu fecho os punhos. 

– Pronta. 

❦❦❦

J U N G K O O K 

Nas últimas horas revivi todas as memórias que mantive distantes do consciente. Mesmo que me mantivesse desperto, as alucinações iam e vinham esporadicamente. Ao amanhecer, a palidez em meu rosto denotava cada minuto de tortura sob os quais fui submetido. 

Já sabia o que me esperava e estava pronto pra isso. 

A túnica vermelha representava minha culpa, ser apedrejado até a morte o fim dela. 

Meus pulsos foram presos novamente e fui levado até a arena, onde aconteciam os julgamento. 

As vaias cobriram minha audição assim que adentrei o vasto local. Todas as cadeiras estavam ocupados por Nefilins. Seus capuzes negros vinham como a tradição dizia. Luto pela traição de um líder. 

Sou colocado de pé no meio daquele círculo. Suas energias conjuntas e a obscuridade delas, me dizem muito sobre como a notícia foi recebida. 

Minha única preocupação no entanto, é a Flor. 

Esperava com todo o meu âmago que Hoseok tivesse a levado para longe do Maine. E eu aceitaria as pedradas dele, aceitaria a humilhação, mas não aceitaria que fossem atrás da Flor. 

Andy, era a Nefilim que guiaria aquele julgamento e seu olhar decepcionado me faz suspirar. Ocupava meu posto no lugar que tantas vezes julguei. 

– Jeon Jungkook, você jura, sobre sua honra dizer a verdade e somente a verdade e nada mais que a verdade? 

Respiro fundo. 

– Eu juro. 

– Sabendo que a pena por mentir será sua imediata exoneração do cargo de Líder do exército de Nefilins e simpatizantes?

– Eu juro. – Repito. 

– Jeon Jungkook, sabe por que está aqui?– Consinto. 

– Sei. 

– Está sendo acusado de traição e obstrução da verdade por ter relações sexuais com a filha de Arcanjo Miguel, designada na Profecia como razão da sua morte e consequentemente a nossa. – Prendo a vontade de sorrir pelo respeito. 

– Relações sexuais? – Inquiro, incrédulo. – Quem disse isso? Tessa? – Olho para a Nefilim que se mantém sentada a poucos metros a minha frente. 

Não sei como ela tinha escapado de Yoongi e Soyeon, mas sabia que a ligação que rejeitei de Soyeon agora se tratava disso. 

– Ela está mentindo. – Uma interjeição surpresa toma o ambiente. 

– Está negando a acusação? 

– Jamais. – Pontuo. – Apenas reiterando a acusação. – Sorrio. – Estou tendo relações românticas, amigáveis e sexuais também. – As bochechas de Andy se avermelham e os burburinhos dos convidados enchem o local. 

A morena bate com força o martelo sobre a mesa. 

– Silêncio! – Pede, Andy. 

Tessa está a ponto de voar no meu pescoço. 

– Jeon Jungkook, não admito gracinhas ou deboches nesse tribunal. 

– Mas é a verdade. Vocês querem saber mais? – Ergo a voz, fitando a legião de Nefilins. – Estou completamente apaixonado por ela. – Os gritos de indignação e codinomes de traidor, desgraçado, infeliz e maluco são alguns que consigo identificar. 

– Jeon Jungkook! – Andy brava, e eu ergo as mãos em sinal de paz. – Silêncio! – Grita mais alto. – Tessa, pode ir a frente e dizer o que viu e o que a garota te fez? – Ela se levanta, seu olhar azulado está estreito.

– Fui ao chalé dele, planejava… Tirar algumas dúvidas sobre nosso plano para encontrar a garota. Mas quando cheguei, ao invés dele, uma garota de hobie apareceu na porta. – Ela tinha visto uma bela cena, com certeza. – Me ofendeu e veio para cima de mim como uma maluca. Eu tentei me defender, mas ela era muito forte. – Arqueio as sobrancelhas com sua falta de caráter. A Flor nunca partiria para cima de si se não fosse provocada ao extremo. – Ela encarnou algo estranho. Os olhos ficaram brancos, uma lua apareceu em sua testa e sua energia era algo nunca visto antes. Mas reconheci a força como sendo de uma Caçadora. Liguei os pontos. – Articula, se aproximando e apoiando os braços na mesa. – Ela jurou ser a namorada dele e acho que deve ter ficado insegura quando me viu e partiu pra cima. Fui tratada como lixo pelos amigos dele, Soyeon e Yoongi. Eles queriam apagar minhas memórias para que eu não lembrasse do que vi e o que a garota me fez, mas fingi estar desmaiada e fugi quando tive chance. – Ela me dá as costas para falar com o público. – Jeon Jungkook não meu sequer alguma assistência e foi ajudar a garota. Creio que ele não se importe com nosso povo e tenha sido ludibriado com alguma promessa daquela… – Se vira para mim. – Vagabunda… – Meu agir é instantaneo, o peso das algemas sobre meus pulsos não significa nada, quando quebro a distância entre nós e pressiono seu pescoço entre meus dedos. Seus olhos se esbugalham. 

– Lave essa sua boca antes de falar dela. – Meio segundo depois, é o tempo dos nefilins me puxarem para trás, porque me deixo ser levado. 

Seu sorriso ardiloso demonstra que era exatamente aquela reação que ela queria desencadear a mim.

Meus pulsos são presos por algemas mais fortes e pregados a mesa. Dois dos mais fortes nefilins me seguram pelos ombros. 

– Jungkook, vou pedir que se controle ou perderá de vez a chance de se explicar! – Andy bate o martelo. 

No exato momento, o barulho de tiros são captados do lado de fora.

– O que é isso? – Yixing indaga, sacando a espada. 

Controlo o nível da minha respiração, me atentando aos barulhos que discorrem do outro lado. São segundos. 

Mas chega a ser surpreendente para mim, o estrondo repentino. A pesada porta voa para o outro lado da arena e quase acerta Andy que tem que literalmente se jogar para o outro lado. 

Abaixo da poeira, surge uma energia conhecida e eu não sei se me sinto vitalizado ou aterrorizado quando a silhueta da Flor se sobressai. 

Ela não tinha fugido. Ela estava ali. 

Seu cabelo negro está escorrido e a roupa justa ao corpo me faz dar um passo para trás, quase levando a mesa junto. Estupenda e sedutora, enfeitiça meus olhos. 

E para meu total choque, Lisa segura um rifle atrás de si. 

– Não podiam deixar que a principal razão do problema deixasse de participar desse julgamento. – Os olhares se voltam totalmente para ela, o espanto é geral. A energia dela está em outro nível de ascenção, seus olhos brilhando em um tom claro de azul. E eles vem diretamente para mim. – Sou ______ Rodrigues, popularmente conhecida como Lua. – As interjeições de choque e estupefação enchem a arena, mas não consigo me atentar a eles, não consigo me atentar a nada que não seja ela e a graça que envolve seu ser. 

– Prendam ela! – Alguém brava e meus pulsos automaticamente se põe forçando o metal. Mas ela se opõe antes disso, altiva. 

– Esperem! – Ergue a mão, não parecendo aterrorizada para as flechas apontadas em sua direção e os guardas que se põe a sua volta. – Antes de qualquer coisa, tenho algo falar. Posso, Meretissima? – Indaga, suavemente para Andy que ainda está em choque, meio escorada numa cadeira e fitando-a. 

Eu não sei dizer como ela fez aquilo, mas não sinto sua energia Caçadora. A que persegue sedutora e sagaz sua caça. Somente a outra. A angelical. E ela toma todo o local, abrangendo com sua mansidão e sabedoria, emanando de si uma luz vinda de dentro. 

E é a coisa mais linda que já vi nesses milhares de anos na terra. 

Meu coração está batendo forte no peito e todo o meu corpo anseia pela aproximação, por senti-la de perto. 

Em transe, Andy assente, erguendo a mão para que armas sejam baixadas. E eu sorrio, meio tonto, totalmente apaixonado, porque é esse o efeito que a Flor tem sobre as pessoas. – Vim de São Paulo, uma cidade populosa localizada no Brasil, um país cheio de cultura e beleza. Meus pais, sem nenhuma explicação coerente me trouxeram para um país desconhecido, frio e longe dos meus amigos, fui colocada em um reformatório, como uma prisioneira. Por muito tempo, lidei com isso como a forma de uma rejeição deles. Tive tudo tirado de mim. E eu me isolei e evitei por todo o custo me envolver com alguém, porque eu sabia que amar alguém requer uma entrega que eu não estava preparada. Eu não queria esse tipo de sentimento porque amar é ser vulnerável ao próximo e se amar machucasse tanto como eu conhecia, eu não queria. – Ela ergue o queixo. – Então, eu conheci ele. – Seu olhar se volta para mim e engulo a pouca saliva, completamente tocado por suas palavras. – E eu simplesmente não consegui não me apaixonar por ele. – Seu queixo treme ao que sua energia oscila. – Por mais que eu tentasse dizer a mim mesma que não era nada demais, eu não conseguia ficar longe dele ou não querer saber mais sobre ele. Eu odiei a ex namorada dele. – Aponta pasa Lisa. – Porque ela tinha conseguido ser a garota dele e eu queria ser também. – Confessa. – Porque eu sou egoísta, como qualquer pessoa nessa terra. Tudo bem que ela contribuiu muito pra isso. – Ri. – Mas eu estava em construção e continuo. E quando ele me beijou pela primeira vez, eu soube que nada mais em mim seria o mesmo, porque eu não poderia amar outra pessoa como eu amo você. – Olha para mim de novo, o olhar azulado me faz perder o ritmo do respirar. – Quando me teve muito antes de nos beijamos. Alguém que me fez sentir tantas coisas com tão pouco tempo de convivência. E ele lutou, ele foi irritantemente resguardado e evasivo, por causa de vocês. Todos vocês que hoje estão o julgando e o chamando de traidor. Eu não faço parte de nenhuma seita de Caçadores, minha mãe Alyssa Hathaway, se sacrificou por mim, para que eu tivesse uma vida minimamente humana, porque não concordava com as diretrizes deles. Ela se sacrificou para que eu pudesse ter a chance de pensar por mim mesma. – Seu queixo estremece e meu cenho se franze, porque dói em mim também. – E eu não quero a destruição do planeta ou a dos nefilins, porque eu estou irrevogavelmente apaixonada por um e eu tenho certeza que morreria por ele e ele morreria por mim. 

– Ninguém quer saber dessa história fajuta! – Tessa grita, o olhar obscuro. – Admita que você e ele estão do mesmo lado e querem entregar a nossa cabeça para os Arcanjos! – Os Nefilins gritam, apoiando-a. – Você não convence ninguém com essa história de que foi rejeitada. 

A Flor olha para si e vejo suas mãos se apertarem em punho e sua energia tremeluz. 

Não deixe ela provocar você. Mostre o quanto você é incrível, Flor. 

Falo em seu pensamento e imediatamente, sua postura relaxa. Ao menos minimamente. 

– Estamos sim do mesmo lado. – Meu amor fala mais alto, sobre as vozes dos nefilins que se calam para ouví-la novamente. – Porque somos pedaços da mesma alma, Tessa. Mas você jamais poderá entender isso, porque sua alma é vazia. 

– Tessa é egoísta. – Lisa se aproxima. – Ela só pensa nela. A conheço há muito tempo, sua ganância é irreparável. Tudo que ela quer, é ocupar o lugar de Jungkook no trono. Como não o conseguiu, quer o que ele tem. Essa vadiazinha imunda joga baixo e entre ela e Lua, eu estou do lado da Lua, porque ela tem princípios. E realmente, não dá pra competir com o amor que eles dois sentem um pelo o outro, eu entendo a dor da rejeição, mas não justifica você agir como uma desgraçada, mal amada e filha da puta. 

– Wow. – Sussurro. Ver Lisa e Lua juntas em prol de uma causa é realmente os milagres das vida. Depois dessa, eu acreditava em tudo. 

– Minha vida se tornou um inferno diário, sou caçada por tudo e todos, como vocês. – Lua toma a frente de novo. – Mas eu jamais, em nenhuma circunstância poderia fazer mal a Jungkook, porque eu estaria fazendo mal a mim mesma. 

– Do que está falando? – Yixing rosna. 

Jungkook é minha chama gêmea. Se eu matar a ele, deixarei de existir também. – Exclamações e interrogações recobrem o local, sabem o que aquilo significa. Uma enorme excessão na cláusula de traição. 

Tessa tem os olhos arregalados. 

– Isso é mentira! – Acusa. 

– Posso provar que não. – Diz e se vira para mim, sua mão se ergue em minha direção e seu olhar oblíquo me enlouquece. – Amor? – Obcecado por sua figura angélica e seu chamado doce, me livro das amarras pela segunda vez. 

Meu estômago comicha e um estranho relaxamento deixa todas as partes do meu corpo em deleite. 

Ergo a mão e toco a sua. O mínimo toque me faz gemer baixinho, e percorro as palmas por seus antebraços, braços, o pescoço quente. E reparando que o colar que a dei não está ali. 

Seus dedos tocam meu queixo suavemente, me impelindo a olhá-la e as sensações me devoram. Sua força energética é algo nunca sentindo por mim

É pureza, suavidade e brilha através dela para mim. 

Ela morde o lábio avermelhado e me faz desejá-la como um louco na frente de todos. Meu interior se esquenta e arfo. 

– Se mostre pra mim. – Sussurra, como se fosse um segredo só nosso e se aproxima para selar meus lábios com os seus. 

Ofegos são ouvidos por mim, mas os ignoro, abraçando seu corpo menor e fundindo minha língua a sua. 

Beijá-la normalmente já me deixa duro, mas beijá-la em seu estado natural chega a ser obsceno. 

Ao mesmo tempo, deixo que minhas asas sejam libertas e levantem um rastro de poeira espessa. 

Ela segura meu pescoço com mais força com uma das mãos, roçando a outras nas penas, despejando prazer e anseio por todas as partes de mim. 

Um segundo depois, um som semelhante soa pelo ambiente e a faz morder meus lábios. E acabo gemendo surpreso ao constatar que meus próprios dedos roçam em penas. 

Quebrando o ósculo em um estalo, a aperto contra meu corpo, me perguntando se não enlouqueci ao me deparar com grandes e brilhantes asas brancas. 

A cabeça dela pende em meu queixo e seus dedos apertam a túnica que visto, como se sofresse de uma fraqueza repentina. 

Você é lindo. – Sussurra, mas eu estou em transe. Dedilhando as penas brancas que emanam uma luz fluorescente a cada vez que toco-as. Sua textura, a sensação, é como se eu estivesse no céu mesmo que nunca tenha quisto estar lá. 

Ela é o meu céu particular. A redenção dos meus pecados. 

– Flor… – Observando a nossa volta, brilhamos em diferentes tons de branco e negro. Uma energia tão forte que chega a zunir como uma canção. Nos completamos da forma mais literal possível e eu sorrio extasiado. 

Na frente de todos os Nefilins, bruxos e anjos caídos, nos mostramos verdadeiramente. Como peças de um mesmo quebra cabeças. Éramos invencíveis juntos. 

Mas sua energia oscila e seu rosto cai em meu peito. Ofego, segurando-a quando seu corpo desfalece e parte da energia diminui. – Flor? – Sussurro, segurando-a próxima de mim. Porém, entendendo rapidamente que o excesso de energia a sobrecarregara. Ela não estava pronta. Mesmo assim fez, por mim. 

"O que está acontecendo?" "Ela desmaiou?" as perguntas são inúmeras ao que seguro meu anjo em meus braços e fito todos aqueles a minha volta. 

– _______ é minha chama gêmea. – Digo conciso. – Por isso a protejo com minha vida e será sempre assim. Acima de tudo a amo e ela ao meu lado, é a rainha desse reino. Estou saindo da cúpula por minha inteira vontade, mas cabe a vocês a decisão de acreditar nela e em mim. Ela não quer a destruição da nossa raça, mas luta comigo em prol de uma brecha para nos salvar. Somos odiados por todo e o nosso amor é colocado a prova todos os dias. Admito o meu erro em tê-la escondido de vocês, meu povo. Aceitaria ser apedrejado e humilhado porque sei que estou errado, mas não me arrependo de amá-la e de protegê-la, porque sei como a profecia a demoniza. E eu tive medo como vocês no início. Medo de tudo ser um jogo, de ser fingimento. Mas ela é real, a Flor é real em cada palavra e a machucando, vocês me machucam também, emocionalmente e fisicamente falando. Não peço que me sigam nessa minha jornada. Estou apostando no amor e na fé que nosso destino não se reduz a matarmos um ao outro. Ela é a minha mulher e não haverá outra nem nessa vida, nem na próxima. – Fito brevemente Tessa. – Continuo respeitando e protegendo a cúpula com minha vida, mas o mínimo que espero é o respeito por ela e por mim. E se vierem comigo, prometo com minha alma que serão bem-vindos e aceitos. Mas, não posso obrigá-los a me entenderem de imediato ou me seguirem. Por isso, eu Jeon Jungkook, Nefilim e bruxo, líder do exército de Nefilins, estou oficialmente saindo do cargo de Líder, deixando-o aberto a votação da Corte para seu novo líder.

– E só para terminar. – Yoongi adentra a arena repentinamente. Soyeon e Namjoon vem consigo. Ele ergue uma colt e mira em Tessa sem qualquer hesitação. O tiro ressoa sobre o local como um estrondo e o impacto, faz a Nefilim cair para trás, o peito sangrando. E a arena se torna um caos. Expiro, chocado. – Isso é por ter me feito de idiota. Espero que seja de grande uso a nova líder de vocês. – Ele faz uma falsa mensura e dá meia volta, saindo por onde entrou. 

A ferida se curaria, em vista de que se trata de uma bala comum. 

E antes que tudo fique mais fora de controle, fito o rosto suave do meu anjo mais uma vez, antes de tomar impulso contra o céu e irmos para bem longe dali. 




Notas Finais


🤭🤭


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