História Angelus - Capítulo 1


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Categorias Histórias Originais
Tags Bonecas, Camponês, Corvos, Crianças, Drama, Medos, Surrealismo, Suspense, Terror
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Palavras 2.124
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Terror e Horror

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Boa noite, meus caros.
Este é um conto que desejo compartilhar, é de minha autoria e pretendo publica-lo. Veio de meus sonhos de muito inconsciente, portanto é especial para mim como todas as histórias que tenho.
Espero que tenham uma boa leitura assim como tive uma boa experiência ao escrever.

Muito obrigado.

Capítulo 1 - Capítulo I: Dois Irmãos


Havia sido a primeira chuva do mês. O tempo estava fechado e provavelmente choveria o restante da temporada. Frio era normal por aqui e, portanto, não afetaria muito no cotidiano de Salvador e Carol, dois garotos que tinham como maior diversão apreciar os pássaros à tarde e contar as gotas de chuva que por infortúnio escorriam pela janela.

A casa era simples, nem relógio tinha, pois por pedido de sua mãe deveriam estar guardados. Quando Salvador, o rapaz mais novo, perguntava ao seu irmão o porquê de nunca terem um relógio em casa, Carol sempre dizia que a mamãe tinha medo do tempo e que, por mais que seja bobo, deveríamos respeitar os medos dos outros. Salvador não entendia, mas compreendia. “Então sem relógios”, ele dizia com o doce sorriso de menino que ainda tinha. Aquela simples casa de camponês não era tão esquálida assim, mamãe e papai sempre foram a favor da arte, apesar de não entenderem muito. Eles achavam que quadros eram bonitos e deveriam ser contemplados, por isso, tinham cerca de três, cada um com uma história. O primeiro era chamado de Dois homens pela família e ficava na sala, ele nada mais era do que dois homens caminhando por uma estrada inserida num cenário camponês muito parecido com o da região. Havia O pescador que foi um quadro pintado pelo vovô quando vivo, nele era retratado um pequeno barco um pouco distante do cais no horário da tarde, assim papai explicava, mas para mamãe era de manhã cedo que se passava a pintura. Por último temos um quadro que ninguém nunca se deu ao trabalho de nomear definitivamente, pois ele ficava no quarto dos meninos, bem ao lado da cama de Carol. Ele a chamava de A moça. Nele uma mulher branca de cabelos negros e olhos castanhos olhava fixamente para você, era uma moça muito linda, mas que te encarava em qualquer posição do quarto, era como se os olhos dela te seguissem, contudo era somente mais um quadro.

Mamãe sempre estava ocupada, pois cuidava da casa e da plantação da família. Cultivavam batatas e outros tubérculos, porém a visão que normalmente tinha era meio mórbida e otimista, pois, mesmo assim, os garotos ainda seguiam sem muito sofrer.

Certa vez papai resolveu dar um jeito nessas aves que destroçavam a plantação montando um espantalho. Era como a criação de um ser humano. O pseudo-alquimista tinha criado seu homúnculo de palha e pano enquanto a família estava presente, a mãe plantando algumas mudinhas e os meninos brincando com os pássaros e uma peteca. O tempo cinza fazia com que aquele tempo fosse visualmente agradável enquanto era melancólico e, posteriormente, nostálgico. A família estava ali ao som das aves do hemisfério norte, um som docemente perturbador.

O espantalho estava pronto, porém quase perfeito. Salvador achava que o faltava algo. Talvez um rosto, pois chapéu ele já possuía. Logo mamãe se ofereceu para abotoar dois botões em seu rosto para que servissem de olhos. Ele teria um par de olhos para que ele pudesse vigiar a plantação e contemplar as paisagens deste mundo. Parecia que ele era uma pessoa conhecida há um certo tempo, mas era um novíssimo ser de palha. Aparentava ser uma pessoa carismática, porém levemente indiferente, tão indiferente que sua feição transcendia a essência de um boneco. De início parecia uma boa ideia, mas, após a costura, Carol sentia um determinado desconforto único que nenhum outro membro da família tinha diante do espantalho.

- Ele será como um guarda, um guia para nós. – Disse o papai quando foi perguntado pelo caçula sobre o que ele faria. – Devemos tratá-lo bem assim como um de nós.

Carol estava com um certo medo, mas resolveu não comentar sobre seu sentimento, achava que era mais uma mera neura que estava tendo. Entretanto era perceptível que o rapaz era o membro da família mais distante do homem de palha.

- Ele terá um nome? – Salvador indagou em voz alta.

- Mas é claro! Uma pessoa não pode viver sem um nome. O seu, por exemplo, é Salvador, não é? – Papai estava animado com aquela ideia de nome. – O dele eu ainda não sei qual será.

Mamãe estava arrumando o laço em seus cabelos enquanto via algumas pedrinhas no chão ao mesmo tempo em que Carol estava com a peteca em mãos e a jogava de uma mão para a outra. Seu olhar – o da mãe – se perdia no céu cinza após o sopro forte de vento que roubou a sua atenção.

- Por que você não o nomeia com a primeira coisa que encontrar em sua viagem, meu querido?

O papai a olhou com uma feição alegre e serena e disse ter gostado da ideia e que com certeza relataria em suas cartas a primeira coisa que o encantasse em seu caminho para a cidade onde trabalhava. A ventania aumentava, aumentou tanto que fez com que a peteca caísse um pouco distante do corpo de Carol. Logo depois o pai pede para que todos entrem em casa, pois iria esfriar mais e provavelmente choveria, sem contar que já estava entardecendo.

Eles recolhem suas coisas e seus pertences do chão e caminham para dentro da casa, porém a peteca acaba esquecida caída perto de algumas ervas daninhas, gramíneas e batatas. Quando Carol ia buscar a peteca, sua mãe o chamou para entrar depressa, pois o vento poderia leva-lo para longe.

- Não sabia que o vento leva os meninos ao anoitecer?! – Contava a mãe ao entrar em casa e todos estarem lá dentro no quente e confortável lar. Carol estava meio assustado, ele sempre ouviu dizer sobre esta lenda e, como desde pequeno, acreditava nela. – A ventania só espera o momento de maior distração para te levar embora.

Era um pouco triste, pois esse seria o último dia em que veriam seu papai antes do inverno. Como de costume, na véspera da viagem do pai para o serviço toda a família jantava bem uma bela sopa com caldo e batata, além de uns certos fungos comestíveis – estes que o Salvador especificamente não gostava. Mamãe havia feito uma deliciosa sopa com os ingredientes da própria horta com a ajuda de Carol e uma mãozinha de Salvador. Eles estavam felizes naquela cena. Quando o caçula havia experimentado a sopa com a colher de pau ficou com o rostinho sujo de caldo, a mãe brincou mexendo em seus cachinhos com a mão com farinha. Carol ria. Papai estava em seu quarto terminando de arrumar sua mala e de escrever o que sempre escrevia às tardes e às noites. Ao terminar de preparar a janta, mamãe pediu para que todos se lavassem, pois iriam comer. Seria a última refeição da família toda reunida por cerca de um ou dois meses, logo seria especial, assim como todas as outras refeições.

Atendendo ao chamado da mãe todos foram à mesa, Salvador corria como se apostasse uma corrida com Carol e, portanto, chegou primeiro. Papai foi o último, pois alegava estar terminando uma página de seu escrito. Logo após isto, mamãe fez uma cara de brava e todos caíram em risos.

Os pais se entreolharam e com um sinal da mãe o pai começa a oração católica que precedia a refeição. Após a reza, a família jantou. A sopa estava formidavelmente deliciosa, uma quentura adorável para o tempo frio desta época do ano, uma combinação de sabores simples, mas agradável para quem comia. Era uma simples sopa com caldo grosso, batata e alguns cogumelos do jardim. Aquilo encheria as barrigas das crianças e, quentinhas como estavam, dormiriam rapidinho ao som da chuva na janela que começava na madrugada.

No dia seguinte, papai já estava de pé desde cedo, talvez nem dormira. Carol foi o primeiro dos dois irmãos a levantar-se. Sem nem olhar para A moça, ele abriu a porta do quarto e foi-se bem devagarinho até a sala. Seus pais estavam lá e já se despediriam um do outro. Ele achou levemente estranho papai não se despedir dele e de Salvador, mas seguiu até o encontro de seu pai e abraçou-o. Seu pai retribuiu o abraço e ali ficaram por uns dois minutos. Mamãe também entrou no abraço. Só faltava o pequeno Salvador que estava dormindo, ele talvez ficaria triste quando acordasse e não visse seu pai em casa, pois normalmente ele os acordava quando saía. O abraço estava tão quentinho, pena que ele não durava para sempre como Carol queria.

Papai estava pronto para partir. Ele pegava sua mala e saía pela porta. Carol queria ir consigo, mas ele alegava que estava muito frio naquela manhã e por isso a mãe e o garoto não deveriam sair de casa para acompanha-lo até a estrada.

- Adeus, meus queridos. – Despediu-se o pai enquanto fechava a porta.

Carol logo foi para a janela ver seu pai se distanciando da casa. O jovem dava tchau acenando com a mão direita e, quando papai estava longe, ele se vira para acenar e, assim feito, volta para caminhar rumo ao trabalho. Mamãe estava logo atrás de Carol e via toda a cena por de trás do rapaz. Ambos olhavam para a paisagem atrás da janela até papai sumir na imensidão dos bucólicos campos.

Até o homem sumir da paisagem, Salvador acorda e em silenciosos passos chega na sala esfregando seus olhinhos perguntando: “Aonde está o papai?”. Mamãe teve que dizer que seu pai havia acabado de sair para trabalhar. O pequeno menino estava quase que chorando e sai correndo para a porta e abre-a para sair correndo na ventania e no frio que fazia. Mamãe havia levado um susto ao ver a ação de Salvador e corre atrás, mas ao ver, Carol é mais rápido que sua mãe e alcança Salvador a uns oito metros de distância da residência.

- Salvador, ele já foi! – Seu irmão dizia. – Vamos voltar para casa, não podemos ficar aqui fora!

- Mas eu quero ver o papai!!

O vento começava a engrossar e mamãe gritava algo como “venham!” e “meninos!”, porém o próprio vento estava abafando algumas sílabas.

- Você sabe o que o vento faz com as criancinhas, Salvador! Vamos!!

Salvador começa a olhar ao redor e, depois de ter uma visão panorâmica da situação, abraça seu irmão e os dois vão caminhando rapidamente para sua casa. A porta estava sendo aberta pela mamãe que já estava em um estado de nervos. Ela brigava com Salvador, mas nada que fugisse do controle. Carol ao mesmo tempo entendia seu irmão que só queria despedir-se de seu pai que agora só voltaria para casa daqui um longo tempo, talvez muito para Salvador.

Era nítido a tristeza na feição do pequeno Salvador, esta que persistiria no mesmo estado de nitidez até mais tarde naquele dia quando mamãe disse que o papai voltaria logo e que enquanto estivesse fora ele poderia passar um tempinho com o espantalho que seu pai fez para eles, para a família. Ela continuou dizendo que o espantalho era uma pessoa que ia proteger aquele terreno enquanto seu pai não voltasse. De certa forma, então, Salvador ficou mais feliz, ou menos triste, com o ocorrido. Era um certo alívio para ele saber que teria um “novo amigo”.

Carol ainda não havia criado uma afinidade com aquele boneco de palha que considerava indiferente, portanto, resolveu pegar algumas das suas bolinhas de gude e distrair-se com elas sobre o velho tapete de sala. Ele não necessariamente jogava-as de forma convencional, mas brincava com as esferas de forma livre que só dava a impressão de passar o tempo. Consequentemente Salvador iria até ele pedir para brincar com as bolinhas também, porém dessa vez nem o garotinho estava lá. Carol achou estranho e decidiu procura-lo. Ele olhou pela janela e avistou seu irmão seguindo sua mãe no campo de plantação. Algumas batatas estavam sendo colhidas pela mamãe enquanto Salvador a fitava com concentração e admiração – Carol até ria da cena, era bonita e cômica.

No horizonte havia umas faixas de luz solar que aqueciam e iluminavam o terreno. Era bonito. Os pássaros que voavam no céu eram observados pelo garoto mais velho que os olhava através da janela. Mais abaixo do horizonte havia aquele não tão velho espantalho que de longe parecia ser um boneco comum que não faria nada de errado. Salvador tinha toda razão de gostar daquela figura de palha, pois foi o papai que o criou. Papai nunca faria nada de ruim.

Apesar das bolinhas de gude no tapete, do Salvador e do espantalho, das aves que voavam alto e baixo, da cor do céu e da mamãe, Carol só se perguntava quando papai volta. O menino nunca soube lidar com essas viagens que o papai fazia para trabalhar. Ele sempre ficava lá olhando pela janela e esperando. Esperando...


Notas Finais


Espero que tiveram uma boa leitura. Este foi somente o primeiro capítulo, então fiquem atentos às próximas publicações.


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