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História Animalia XXL - Limerência - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Pessoal, muito obrigado para quem chegou até aqui e esta curioso em ler a minha fanfic. Isso é importante pra mim, pois quero trazer algo com o que eu sempre quis trabalhar.

O universo ABO sempre me chamou a atenção. Por isso decidi tentar e finalmente, a primeira parte está aqui! Espero que gostem.

Capítulo 1 - Parte I


Nós não temos o controle daquilo que nos foi dado ou daquilo que será tirado. A vida, a morte e o amor, são caminhos distintos e porém tão iguais, simplesmente, pelo fato de que não sabemos quando iremos nascer, ou quando vamos morrer e por quem vamos nos apaixonar.

Um caminho de aprendizado, onde à dor, muitas incertezas e poucas certezas, e um destino embaraçado que necessita ser desembaraçado para ser possível a fácil compreensão.

Entre os três caminhos que estão longe do controle dos seres da terra, apenas o amor, é um caminho difícil de ser compreendido. O controle que acreditamos que nós temos muitas vezes foge de nossas mãos repleta de buracos, chamados de possibilidades, e acaba se tornando, o ciúme, um nível no qual o amor se transforma e nós dá uma nova história a ser testada, e que acaba se tornando um amor tóxico, destruindo todos ao seu redor.

Porém nem tudo o que vivemos é apenas angústia. Existe também a felicidade, repleta de esperança e armadilhas, que nos testam dia após dia, que nos fortalece e nos ensina a superar obstáculos na nossa vida.

Seria mais fácil se houvesse um livro com toda a nossa história escrita para ser entendida e vivida sem sentir dores emocionais e mentais, dores difíceis de se curar, e apenas vivenciar a felicidade plena, sem aprender nada, e ganhar tudo de mão beijada para que no futuro seja apenas mais uma página virada sem emoção de ser vivenciada.

O amor sempre foi o caminho do qual eu desconhecia. De que, eu sentia que não precisava, mas tanto necessitava dentro de mim. O medo de não amar alguém se tornou constante, a ansiedade que apertava o meu coração me deixava roxo de frustração. Porém, eu pude vivenciá-lo uma vez...
O mês de dezembro sempre trouxe muitos turistas a Florianópolis em plena festividades de final de ano. Por brincadeira das moiras e de um aplicativo de namoro que eu tinha acabado de baixar em meu celular, eu pude conhecê-lo...

Seus olhos azuis eram penetrantes, cintilantes conforme a luz solar refletia em seus olhos. O seu sorriso era largo e gratuito, como se qualquer pessoa a sua volta necessitasse estar ao seu lado alegre. Sua forma física era o que me deixava ficar transpirado quase todo momento, e não ajudava em nada ele estar apenas de bermuda e chinelo quando eu o conheci num quiosque à beira da praia. Por último, para fechar a descrição. O sotaque gaúcho e masculino de um timbre de voz mais grosso dele, ficou ecoando no fundo do meu subconsciente por mesês. Foi naquele final de ano que eu me apaixonei, e eu o perdi no dia 1 de janeiro.

Após todo o turbilhão de emoções que eu vivi. Consegui seguir em frente, porém sempre com um empecilho, uma auto-sabotagem que eu mesmo criava e me impedia de socializar com novas pessoas. O meu coração já tinha encontrado um outro alguém. Eu não conseguia me relacionar amorosamente com mais ninguém. Estive até recebendo ajuda de amigos para tentar sair e curtir mas ainda eu me sentia triste. Por causa deles, acabei experimentado situações bem estranhas nas quais estarei agora sempre envolvido.

Em algumas semanas, tivemos troca de mensagens. Mas quando mais se passava o tempo, o interesse diminuía, apenas a visualização se tornava uma resposta. No final, decidi que para mim mesmo era necessário o perdão próprio e saber seguir o meu próprio caminho sem dependências, e para isso, tive que deletar qualquer tipo de informação que eu tivesse sobre o meu amor de final de ano.

Tudo acabou de tornando mais tranquilo no meu dia a dia. Com o meu foco nos estudos, consegui o meu primeiro estágio pelo meu desempenho na faculdade, já atuando dentro de um hospital privado todas as noites, e, aulas somente de dia e a tarde. A minha vida sociável estava num nível zerado de tempo. Porém, foi o que me ajudou a não entrar num estado de depressão emocional. Tudo estava ocorrendo bem, mas como dizem: Tudo o que é bom tem hora para acabar. 

Após as merecidas férias de julho, todos os alunos tiveram o seu retorno normal às aulas. Eu já tinha começado o mês com problemas, já que minhas notas ainda não tinham sido lançadas. Tive que me dirigir até a reitoria em busca de repostas e o motivo para as minhas notas não estarem aparecendo para mim.

Porém no meio do meu caminho, uma figura familiar estava parada na porta da entrada da diretoria, conversando com algumas mulheres que deveriam estar encantadas pelo seu sorriso. Não demorou muito para ele notasse que eu estava lá parado o observando sem acreditar que de fato ele estava ali. Foi assim, que acabou o meu sossego, minha paz e a minha tristeza.

<<<●>>>

Florianópolis 
UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina)
20XX – 16:05

Com o início da volta às aulas, após as férias de julho, o movimento de alunos estava grande como de costume. Jovens conversando e se esbarrando e derrubando seus livros no chão.

No centro de ciências da saúde, um dos centros de ensino dentro da faculdade, os alunos de medicina, recém ingressados, exibiam seus jalecos, mesmo sendo proibidos por seus professores de usarem em público, por conta de bactérias existentes no uniforme.

A manhã estava compensando o começo do dia. Um belo céu azul sem nuvens, com um resplandecente sol e uma deliciosa brisa fresca, porém fria, em certas ocasiões nem as roupas suportavam o frio. De fato, escute sua mãe o aconselhando a usar tal roupa, jamais faça ao contrário do que ela disser.

No momento, não era apenas o tempo que estava frio. Sentados, na parte principal do bloco de ciências da saúde, onde era possível ver as siglas escritas no chão em azulejo azul. Conforme as pessoas subiam as escadas, para irem até suas salas, o tempo parecia passar tão rápido, porém, conosco parecia estagnado. 

Não trocamos nenhuma palavra desde que saímos da reitoria principal. Ele se mostrava cabisbaixo. O meu coração acelerado como um motor, cada batida forte no meu peito, eu imaginava que o Eduardo poderia escutar.

- Franco, imagino que você não pensaria em me rever aqui. Não é mesmo?

Eduardo fez contato visual, dessa vez se mostrava sério. Porém eu só conseguia perceber seus lábios rosados. Algo estava estranho comigo e... e... eu queria muito beija-lo ali mesmo. Meus hormônios deveriam estar falando, pois nunca senti mais o mesmo sentimento desde que fiquei com Eduardo pela primeira vez.

- Você está muito estranho da última vez que eu te vi. - Eduardo queria puxar assunto.

- Estou amadurecendo. Por isso me ache estranho. Você saberia se conversar-se comigo. Porém, você se mostrou diferente e não me respondeu nunca mais

Eduardo imediatamente se levantou e ficou de frente comigo. O sol que me aquecia, estava coberto pela presença Eduardo. Como um urso mostrando ser superior para amedrontar sua presa.  Tudo o que eu desejava era apenas que ele saísse da frente do sol. 

Eduardo insistiu em dizer que, por ele, estaria respondendo todas as minhas mensagens, porém sua vida estava um caos, com a faculdade e sua família fazendo pressão para que se casasse logo.

- Casamento? Mas por quê... - Fiquei curioso por este motivo.

Sua família queria mais do nunca que o filho mais velho deles lhe deem um neto o quanto antes, pela linhagem da família. Uma história clichê mexicana, que eu soube agora por Eduardo. Eu estava envolvido também, mas não em primeiro plano.

- Franco, eu senti sua falta. Iria te ligar assim que eu terminasse a minha mudança de Porto Alegre para Florianópolis. - Eduardo mostrava um semblante triste. - Só faltava eu me inscrever aqui na UFSC, e a primeira coisa depois disso era te ligar.

Gentilmente, a mão de Eduardo tocava o meu rosto, o seu dedão suavemente tocava a minha boca. Eu apenas estava paralisado pela quantidade de emoções que ele deixou guardado. Poderia ser mentira, sim! Mas eu pude sentir pelo ar que não era.

- Eduardo...

- Não diga nada. Eu só preciso ver em seus olhos que  você  me perdoa.

Desarmado com sucesso, se isso fosse uma guerra. O tiro que eu recebesse em meu peito me mataria agora. Mais quanto tempo a ferida no meu peito tinha que se abrir e fechar repetidas vezes.

O calor em meu corpo, fez o frio se tornar um pano de fundo naquele momento. Nada me abalava. Tudo dentro de mim que um dia eu congelei para esquecer, ardeu em chamas, voltando tudo intensamente.

Ao redor, ninguém nos notava, acreditava eu. Eduardo pelo pouco de tempo que eu o conheci, não era de demonstrar sentimentos em público, algo que concordamos em comum  quando nos encontramos. De que jamais nos tocássemos na frente de outras pessoas.


            - Franco, você está muito diferente. Está mais bonito- Eduardo sorria enquanto olhava pra mim. - Sinto que o seu corpo esta mais quente.

A capacidade de uma pessoa notar as mudanças em minha vida, me deixava nervoso, se era o meu corpo, me deixava apavorado. O que mais alguém é capaz de ver através de mim só de me observar, será que seria possível ver as falhas que eu tendo esconder? Será que sou tão metódico assim?

Por outro lado, eu sentia o meu corpo quente. Em questão de menos de uma hora, senti que as emoções vieram tão fortes que mataria até mesmo uma pessoa cardíaca. O susto de ver alguém do passado que tentei apagar, me proporcionava uma mistura de alegria e ódio. Tantos processos feitos para tentar esquecer-lo, que foi tudo por água a baixo.

Só que, eu não estava apenas espantado, eu também me sentia esgotado. Rotina de estudos e trabalhar a noite dentro de um hospital para adquirir experiência profissional, acaba te esgotando e te deixan...

- FRANCO! Você está bem?... Alguém me ajuda, por favor?

As vezes, desmaiar durante uma conversa pode ser a melhor ideia para fugir de resolver assuntos pendentes com alguém do seu passado.

<<<●>>>

Não sei explicar se é sorte, ou, se é apenas a coincidência. A oportunidade de encontrar alguém e se desculpar pelo seus erros, só pode ser uma nova chance dada por um Deus. Eu não imaginaria estar agora carregando em meus braços, o Franco.

Sua pele estava pálida, a cor morena predominante tinha perdido um pouco do seu brilho. Pelo menos, tive a chance de olhar profundamente dentro do seus olhos castanhos, e ver que ainda existia aquele garoto meigo e gentil. O seu cabelo estava maior, e vê-lo ser do tipo cacheado, deixava Franco com um ar angelical. Só que, Franco estava agora um pouco mais estranho desde que o vi pela última vez, a energia que ele emanava confirmava as minhas suposições

Graças a informações de alguns estudantes, descobri que dentro do campus tinha um hospital público, onde os alunos de medicina faziam estágio. Por ser o mais próximo local de saúde para tratar de Franco, não levou muito tempo para chegar até o local.

Assim que cheguei no hospital, fui rapidamente atendido por enfermeiras que o reconheceram em meus braços. De imediato, o levaram para uma sala. Durante a conversa rápida delas, pude escutar que já não era a primeira vez que Franco desmaiava.

"O que o afetou tão drasticamente?"

Em cerca de 15 minutos, uma das enfermeiras que me atendeu, me chamou na recepção e liberou a minha entrada no quarto em que o Franco estava repousando.

No momento, senti um nervosismo tomar conta de mim, como se todo o problema causado fosse por minha causa. Seria melhor eu ir embora e deixá-lo em paz. Me sentia um inútil. Fazendo jus as palavras ditas por meu pai.

- Moço, o Francesco lhe aguarda. Ele está bem melhor agora. Conseguimos dar conta, pela segunda vez só essa semana. - Avisou-me a enfermeira, de nome Susan. 

A enfermeira, Susan, deve ter percebido que eu congelei, que não me movimentava mais. Apenas fiquei olhando fixamente para o crachá, pois o nome dela era o mesmo que eu tinha dado para a minha cachorra de estimação. Por um segundo eu quis rir sozinho, mas, ela me acharia um louco. Rir era bom remédio para espantar qualquer sentimento ruim. Só espero que funcione comigo.

Decidi então tirar mais satisfações com ela a respeito do estado de saúde do Franco.

- Mas ele não tem andado muito bem ultimamente? 

- Franco é um bom aluno. Gosta de estudar e trabalhar, e isso acaba o esgotando, tem horas que ele entra num estado zumbi.

- Estado zumbi?. - Perguntei.

- Só sabe estudar e trabalhar. Sem vida social alguma. - Susan, estava cansada. No mínimo ela não estava apenas lidando com o caso de Franco. A enfermeira nem dormir direito estava, suas olheiras a entregavam. - Franco deveria me substituir agora, mas pelo jeito ele não vai dar conta, vou ter que dobrar por hoje. Veja ele logo, antes que volte a desmaiar de novo.

- Obrigado pela informação.- Agradeci, Susan. 

Susan me direcionou para o quarto de Franco, e decidiu ficar na recepção para atender um casal de senhores. Mesmo cansada não parava de trabalhar.

 A enfermagem, dentro do ambiente hospitalar, se torna as células brancas e vermelhas dentro de um hospital para que tudo funcione corretamente. Os enfermeiros estão sempre num trabalho constante, não é a toa que Elias estivesse exausto. Não foi muito difícil achar o seu quarto. Como Susan tinha dito: No final do corredor, virando a esquerda, segunda porta. 202.

Lá estava ele, deitado na cama e olhando fixamente para o teto. Nem ao mínimo se deu o trabalho de olhar o belo clima que estava fazendo hoje. A janela dava um visão certa do dia ensolarado e céu limpo de inverno que estava. Franco parecia estar desnorteado, nem notou que eu estava ali, parado na porta o observando.

Assim que entrei no quarto, fechei a porta. Franco, se movimentou e notou a minha presença. Dessa vez ele estava bem melhor quando eu o encontrei mais cedo. Sua pele tinha recuperado a cor natural, não estava tão pálido como antes. O que me deixou aliviado.

- Você me deu um susto hoje. Está se sentindo melhor?

Franco, não me respondeu. Só ficou me analisando. Pude notar que ele estava incerto se minha presença era real ou não. Seus olhos fixos nos meus me deixava desconfortável. O silêncio estava tomando conta. Até que Franco decidiu, dando uma picaretada na parede de gelo se formando entre nós. Falou:

- Você não me respondeu as minhas mensagens por seis meses, Eduardo. - Franco fechou seus olhos, como se não quisesse me ver. - O que... que. - Ele respirou e continuou - O que traz você de volta?

Seria difícil explicar toda a minha história. Eu gostaria que fosse simples, porém meu destino sendo o filho mais velho e herdeiro, fazia com que a minha família procurasse a primeira moça solteira de uma família rica para eu me casar. Tudo por conta do sangue que carregamos. Famílias tradicionais tem o costume de colocar o nome e poder da família em primeiro lugar. Por azar, nasci numa família deste tipo.

- Não é fácil explicar. Porém, enquanto estive todo esse tempo sem te responder era para o seu bem, para o meu bem também. - Me aproximei, sentando na cadeira que estava próxima da cama. - Eu tive que resolver os meus problemas no Rio Grande do Sul antes de voltar para Santa Catarina. Desmarcar mais um casamento arranjado. Não tenho sossego já faz tempo.

Franco, ficou surpreso. Porém, no fundo ele estava certo. Eu poderia ter dado algum sinal de que estava bem. O breve relacionamento que tivemos foi importante para que eu tomasse decisões decisivas sobre o meu futuro. Sobre o que eu queria ser. Com quer gostaria de estar.

- Não acredito que teus pais te obrigaram a se casar. Isso é tão antiquado. - Franco, mexeu nos bolsos dele e puxou uma barra de cereal para comer. Após comer, tomou coragem e me disse - Eu senti a sua bastante sua falta! Amadureci homem, e em, como eu lido sobre a questão dos meus sentimentos por você. Você está apagado pra mim Eduardo.

- Eu não acredito muito em você. Você no fundo do seu coração esta muito feliz em me ver. Mente para si mesmo para que eu me afaste de você. Franco, eu sei a sua dor. Pois eu sou o causador dela. - Eu não conseguia tirar meus olhos de Franco. - Se voltei, foi por você!

Franco olhou surpreso pra mim. Talvez não esperasse que tais palavras viessem de mim. Consegui o surpreender, deixando-o sem reação.

- Eu te odeio. A sensação de vulnerabilidade que estou sentindo agora é chata. - Franco escondia o rosto com as mãos.

- É fácil. Apenas controle suas emoções e não deixe transparecer. Controle o seu totem. É muito perigoso ficar se mostrando para todo mundo! - O conselhei, pois talvez ele não estivesse forte o suficiente para esconder seus desejos e medos. - É simples. Só esconder que está tudo certo. Igual da última vez que nos conhecemos.

- Como? - Perguntou, Francesco confuso.

Eu não entendia qual parte Franco não estava entendendo. É normal que crianças e adolescentes não controlem seus totem corretamente, por conta da inexperiência e das emoções fortes se aflorando. Quando nos encontramos, nem ao menos percebi que ele seria igual a mim, soube esconder muito bem isso durante o tempo que estivemos juntos.

Só que parecia que nem o próprio, Franco sabia com o que ele estava lidando, ou pior ainda, ele não deveria saber o que ele mesmo era. Voltar para Floripa estava sendo recheado de surpresas. O cara com quem tive uma relação em dezembro, fazia parte do mesmo seleto grupo de seres que viviam escondidos da sociedade humana.

- Franco já ouviu falar...

A porta do quarto que estava fechada é arrombada fortemente,interrompendo minha fala. Um homem vestindo um jaleco branco, que por baixo tapava uma camisa social florida e de cabelos brancos aparentando ter 30 ou 40 anos, entrou dentro do quarto rudemente. Atrás dele, estava um jovem vestindo apenas uma regata preta e camiseta xadrez em volta da cintura, e uma calça jeans skinny preta, o seu braço esquerdo era cheio de tatuagens, e ele tinha o típico ar de bad boy adolescente.

- Samuel? - Franco reconheceu o jovem tatuado.

- Então aqui está você, jovem recém nascido. - O provável doutor fitava Franco, logo em seguida ele segurou a cabeça do jovem que estava atrás dele, e o olhou no fundo dos olhos, do menino que deveria se chamar Samuel, com extrema indignação. - Você é um irresponsável, Samuel. Como conseguiu fazer isso. - O doutor apontava para Franco.

Franco e eu nos olhamos. Francesco deveria estar mais confuso do que eu. O que este Samuel, havia em comum com Franco, eu me perguntava. Com as palavras ditas pelo médico, estava mais curioso em saber o que este, Samuel havia feito com Franco.

O doutor após dar um esporro no garoto de regata preta. Se aproximou de Franco e, do bolso de sua calça, tirou uma lanterna, apontando para os olhos de Francesco. O médico, o analisava bem, chegou mesmo até sentir o cheiro de Francesco para tirar suas conclusões. A forma que este homem agia era familiar, no entanto, só tinha uma explicação para ele agir assim. O doutor era um xamã.

- Como imaginei. Garoto! Seja bem-vindo ao mundo dos Theriantropomorfus.

<<<●>>>

O mundo a minha volta estava confuso. Eduardo tinha retornado, e eu não acreditava que agora ele estava aqui . Eu logo em seguida tinha desmaiado na frente do cara por quem me apaixonei no Ano Novo. Após acordar, Eduardo me explicou a sua razão de não ter se comunicado comigo. Para completar, um homem de cabelos brancos acompanhado do meu amigo Samuel, entram do nada, dentro do quarto que eu repousava. 

Agora este homem diz que eu faço parte dos theriantrupamorfagos, therianmagos ou torrados, eu já não sabia mais nem o que eu falando, e nem do que esteve homem me falava. Eu não sabia o que estava acontecendo de fato. A confusão na minha cabeça só tinha aumentado. Eduardo poderia me ajudar, pois se manteve intacto como já soubesse do que se passava, mas manteve a cabeça baixa, como se talvez, quisesse me poupar de mais problemas. Já era tarde demais, agora pra mim, tudo já estava sendo um incomodo.

- Eduardo. Você tem noção do que esta acontecendo. - Eduardo não me respondeu. Então voltei minha atenção para Samuel, que estava grudado na parede. - Samuel, quem é este homem? O que está acontecendo. Me expliquem. - Meu nervosismo tomava conta de mim.

O homem de cabelo branco, não saia do meu lado. Ficava analisando cada parte do meu corpo. Chegando até mesmo a segurar minha mão. Logo em seguida, fiz questão de tirar a minha mão que ele segurava. Já estava me sentindo desconfortável. Tudo que eu queria era apenas respostas, e não ficar sendo aliciado na frente dos outros.

- Franco, este é o Dr. Ramón. Ele é médico e também, um xamã. - Samuel fez a questão de apresentar o homem. Porém o que era um...

Xamã? 

- Você não deve estar entendendo nada garoto. Tudo a partir de agora será novo na sua vida. Inclusive o seu caso é até novo pra mim. - Dr. Ramón manteve um sorriso calmo no rosto, tentando me acalmar, fazendo o seu papel de médico que dava uma notícia não muito agradável. - Mantenha a calma. Você pode acabar assustando os pacientes do quarto ao lado com a sua voz alta.

- O que é um xamã?. - Perguntei. Aproveitando a brecha para tirar informações.

Samuel ia começar a dar uma explicação, porém o doutor o cortou na hora, voltando sua atenção para o Eduardo. Ramón perguntou se Eduardo tinha tido, a "conversa", comigo. Eduardo negou. Ramón ficou de certa forma contente. O doutor se virou para mim e prosseguiu com sua resposta para a minha pergunta.

- Ok! Deixe que eu mesmo te explique sobre o que esta acontecendo, jovem theriano...

Theriano?

Cada nova palavra que eu jamais havia escutado em minha vida, tais palavras nem deveriam estar escritas no dicionário Aurélio. Na minha cabeça venho o pensamento irracional, que talvez agora eu estivesse fazendo parte de um seita, que estes nomes só poderiam ser algum tipo de código secreto. Será que eu acabei agora fazendo parte de alguma sociedade secreta satânica? O que Samuel tinha feito! Pois em parte ele estava envolvido neste redemoinho.

Já não era para eu estar surpreso. Pois a última vez com quem eu saí, foi com Samuel. E, Samuel, era conhecido pelas suas saídas aleatórias. Desde barzinhos à festas indígenas no meio da Praça XV de Novembro. Foi graças a Samuel que eu tive um problema intestinal, da última vez que saí com ele. Que Sam, me preparou após a minha forte ressaca e um coração ainda ferido. Tudo isso para curar minhas mágoas, sua ação me deixou preso em casa, sentado no banheiro, por três dias. Mas a sua intenção foi bondosa.

- Franco, agora presta total atenção em mim. É crucial que entenda cada palavra. - Obedeci o pedido do Dr. Ramón e me mantive quieto. Onde quer que eu estivesse metido, deveria saber o máximo de informação para escapar ou pelo menos sobreviver. - Você é bem inteligente e acredito que não terei que explicar de novo. 

Ramón pediu licença para se sentar na cadeira que Eduardo ocupava ao lado da minha cama. Eduardo se levantou e ficou ao lado de Samuel. Eduardo era mais alto que Samuel pelo o que eu via, o porque de ter reparado isso, talvez não fosse nada. O que também me chamava atenção, agora os observando melhor e por mais que a minha visão estava embaçada, eu enxergava cores saindo de seus corpos, como um véu que estivesse cobrindo eles. Este véu tremulava, como se estivesse ganhando forma. O remédio que foi me dado só poderia estar fazendo efeito agora.

- Pois bem, Franco. Você a partir de agora, deixou de ser um humano simples e entrou no mundo dos therianos. Conhecidos como a raça theriantropomorfus. Que basicamente, são seres, que dividem o mundo ao lado dos humanos e dos animais, e de qualquer matéria viva ou não neste planeta. - A conversa mais paranoica na minha vida, tinha sido atualizada com sucesso. - O povo theriano é composto por 50% do material genético humano e 50% do mesmo material genético que se encontra em animais, incluindo as aves, os mamíferos, os répteis, anfíbios e peixes. Somos uma raça que vive nas sobras dos humanos, porém em harmonia com os animais e a natureza. É importante que nossa identidade jamais seja descoberta.

Eduardo preocupado, perguntou se eu estava entendendo a conversa. Apenas sinalizei com a cabeça que sim. Samuel também não se conteve, e sem eu entender, se desculpou. Já que a causa disso tudo estar acontecendo agora na minha vida era por causa dele, falou Ramón apenas fez uma cara feia, e continuou:

- Continuando, Franco. Atenção aqui. - Ramón pediu. - Como você deve ter entendido, assim espero. Os theriano são uma nova raça que existe fora do conhecimento mundia, dos seres humanosl. Essa raça é composta por dois genes, o humano e o animal, que ao se unir no processo de evolução, acabou formando, nós. Os therianos são dotados de talentos incomuns para alguns humanos, desde: Mudar sua forma humana; habilidades além da capacidade humana; visualização de auras; comunicação empática com os animais e entre outros.

Já não bastava ser feio e atrapalhado, agora ser um novo tipo de, atração de circo, espécie  mostrava que a minha vida até então não tinha sido tão patética assim. Ramón continuava a explicar. Como bom ouvinte, eu não fazia questão nenhuma de interromper-lo. Diferente de Eduardo e Samuel, que se mantinham inquietos atrás do doutor, querendo sempre falar algo a cada frase que o doutor terminava.

- A nossa raça possui duas formas de ser reconhecida entre os nós mesmos, membros da sociedade theriana. De sabermos quem e o quê somos. E são elas chamadas de: Totem e Heyoka. O primeiro se chama, Totem. É a aura que um theriano emana, possuindo uma forma similar, do clã que o theriano descende. Vou te mostrar.

Ramón pediu que Samuel se aproximasse, o mesmo assentiu. Sam agora estava na minha frente, com sua personalidade debochada de sempre. Ramón pediu que eu prestasse bastante atenção, que eu visse muito além da forma física de Samuel. Tentei me concentrar, porém minha visão embaçada não estava me ajudando, era o que eu pensava. Antes, todas as cores espalhadas no ar em volta, agora tomavam forma ao redor do corpo de Samuel, formando um tipo de véu, tomando a forma similar a de um cachorro. Eu não acreditei no tinha visto

- Samuel, você também faz parte disto. - Samuel concordou. Disse que ele não era o único. Apontando para o Eduardo. - Eduardo? - Eu estava assustado, tanto pelos poderes que eu agora carregava comigo, e em saber que ninguém dentro daquela sala era humano. Será que todos estavam mentindo pra mim todo este tempo.

Assim que Eduardo também se aproximou. As mesmas cores tomaram conta do seu corpo, igual ao que aconteceu com Samuel. Só que sua forma diferente. Eduardo tinha a forma similar a de um cavalo. Sua aura era bem mais expensa que a de Samuel.

- Eduardo eu não acredito que você também faz parte dessa loucura. - No fim acabei rindo de nervoso e vergonha.

Ramón estralou os dedos.

- Por favor, sem reações clichês. Volte sua atenção pra mim. - Analisei de perto Ramón, para ver se eu conseguia ver se ele possuía a aura de um animal. Nada consegui ver. Mas por que? - Você acabou de conhecer o totem, que na nossa sociedade significa: "A verdadeira aura animal.". Agora vem a melhor parte, você precisa entender mais sobre o heyoka, que também tem um significado, sendo chamado de: "A verdadeira forma animal." É muito difícil de ser dominada quando criança, já na adolescência, você costuma pegar o jeito e consegue  se transformar no animal que sua aura emana.

- Espera! Dá para virar um animal? Tipo, um tigre, por exemplo. Ou uma águia?

- Correto! - Afirmou o médico

- Mentira. - Franco estava sem acreditar. Boquiaberto

- Você acha? Samuel, por favor se mostre. Vamor dar um gostinho de realidade pro garoto.

Samuel não concordou no início. Ficando até vermelho. Ramón o pediu para não se envergonhar, já que todos ali eram homens. Samuel subiu em cima da minha cama, meio que era estranho tal atitude. Num piscar de olhos sua aparência mudou de um cara estiloso para um enorme cachorro preto de olhos extremamente dourados. Igual ao que sua aura me mostrava. Sua respiração canina quente estava próxima do meu rosto, este era o menor dos problemas. Samuel podia virar um cachorro, isso  sim é incrível, eu queria ver mais. Qual criança neste mundo nunca desejou ser um animal?

- Eduardo você também pode ser transformar, não é mesmo. Pode virar um... cavalo? - Eu estava tão animado. De estranho, tudo isso passou a ser divertido.

- Aqui não é o melhor lugar pra isso, Franco. - Eduardo também ficou envergonhado. - Quem sabe algum dia, á sós. Onde o local seja grande e reservado.

- Você parece estar entendendo muito bem até aqui, Franco. O heyoka é exatamente isso que o Samuel te mostrou. Um theriano consegue assumir sua verdadeira forma animal. Podendo; andar, voar e nadar livremente como se fosse um animal selvagem na natureza. É assumindo o heyoka, onde os therianos se sentem mais livres. É como se um humano estivesse correndo nú ao campo livre. Os therianos ficam desinibidos.

- Isso quer dizer que eu também posso me transformar? - Perguntei curioso.

- Exatamente! Já que você também faz parte disso tudo.

- Apenas tem algo que não se encaixa nisso tudo. Como eu me tornei capaz de fazer parte da mesma espécie que vocês? - Samuel  na mesma hora colocou as mãos no rosto. Querendo se esconder. - Sam, tá tudo bem?

- Franco, só tem no mínimo umas três maneiras de ser um theriano. São elas: Nascer de um casal theriano sendo assim, um theriano por nascimento; Ou descender diretamente de um theriano, então, a linhagem passa a ser dos avós aos netos, no de caso de ocorrer dos avós se reproduzirem com alguém que não possua o gene theriano, o gene passa do filho deste casal para o neto; e por último, existe um certo tipo de medicamento natural, de uso perigoso, que foi banido de ser usado em nossa sociedade, que tendo o efeito certo, pode despertar o gene adormecido em você, mesmo que o seu tataravô tenha sido um theriano, por exemplo. - Ramón me olhava sério. - O medicamente foi banido, por se tratar de uma roleta russa. Não tinha como saber se o efeito seria positivo ou negativo nos humanos que possivelmente teriam algum parente theriano em seu gene. Esse medicamente pode muito bem ser servido em forma de cápsula ou bebida. Não é mesmo, Samuel?

- Eu já estou me sentindo culpado o suficiente, Ramón. Por favor, pare!

- Deveria mesmo. Sua sorte é que eu não te denunciei, em respeito à sua família. Isso poderia ser um escândalo nacional. Espero que tenha aprendido com  seu erro perigoso. Descuidado! - Ramón indignado, repreendeu Samuel.

- Espera um pouco. Samuel, o chá que você me deu provocou tudo isso? - Por dentro senti uma raiva. Ainda mais se tratando de que a minha vida tinha sido posta em perigo. - Mano, por quê? 

Eduardo não tinha gostado de saber. Seus punhos estavam cerrados, como se fosse socar Samuel em qualquer momento. Ramón continuava indignado com Samuel. Até que, Samuel decidiu se pronunciar, mesmo envergonhado na presença de todos.

- Ramón está certo. Foi irresponsabilidade minha. Aquele dia eu estava preparando sim um chá para você se acalmar após a tua crise de choro. Eu estava tão nervoso que acabei trocando os ingredientes. Um era para o seu chá, a camomila, e o outro, o medicanente proíbido, que eu deveria ter mandado de volta para a minha família, já que somos responsáveis por proteger tal tipo de medicação. Você acabou bebendo, e por sorte de todos, não morreu. Quando me dei de conta do meu erro, você já estava melhor e sem qualquer sinal de sequelas. Eu estava muito bêbado naquele dia. 

Eduardo tinha um ódio visível em seu rosto. Chegando a gritar com Samuel por conta do erro que ele cometeu. Samuel, para piorar tudo, jogou na cara do Eduardo de quem era a culpa.

- O culpado é você que deixou o meu amigo nesse estado. - Eduardo, se calou. Dando atenção para as palavras furiosas de Samuel - Não é fácil ver o seu melhor amigo fraco e com crises das quais você não sabe como lidar para o ajudar. Tudo culpa sua!

- Eu não fiz nada de errado. - Eduardo tentou se defender. - O culpado é você em estar carregando contigo algo ilícito. Eu mesmo posso te denunciar para o Conselho, pela sua irresponsabilidade.

- Você não fez? - Indagou, Samuel. - Franco me disse o que você falou pra ele. Se suas palavras foram verdadeiras, espero que tenha algum respeito por ele. 

Eduardo se calou. Não sabia se ficava ou ia embora. Apenas olhou pra mim e nada falava, ele sabia que Samuel estava certo. Samuel se encostou na parede e lentamente se sentou no chão frio da sala. Porém não ficou muito tempo, rapidamente levantou-se e foi embora.

Samuel acabou absorvendo tudo o que eu tinha lhe contado e tomado as dores por mim. Normal quando amigos querem proteger uns aos outros. Se eu sentia raiva de Samuel em algum momento, passou. Agora eu só queria o abraçar e lhe dizer que tudo estava bem.

- Franco. Eu te causei tanta dor assim? - Eduardo me pegou de surpresa com essa pergunta.

Eu, ja não sentia vontade algo alguma de o responder. Mas todo mundo nesta vida precisava de respostas para evoluir. Fazer tal pergunta já não adiantava mais de nada, o que aconteceu, aconteceu!

Eu poderia ter chorado sem motivos, porém, eu estava tão cansado e confuso sobre o que estava acontecendo. Que o meu relacionamento com Eduardo se tornou o menor dos meus problemas. Mas sinceridade não poderia faltar, ainda mais vindo de mim.

- É claro que sim! - Eduardo tirou a própria conclusão perante a situação. - Eu tinha olhos e ouvidos em cima de mim. Se soubessem de você, jamais deixariam que eu retornasse para Florianópolis. Se vim pra cá estudar, era a desculpa perfeita pra sair daquela prisão e te ver de novo. É isto.

Eduardo estava vermelho. Colocava as mãos na cabeça, e estava bufando de raiva . Por um segundo achei que ele iria explodir. Porém, ele respirou fundo e se acalmou, voltavando a cor normal. Tudo isso deveria ser para não chorar. Logo em seguida continuou a falar:

- Franco... Eu não te esqueci um segundo. Você pra mim foi uma das melhores surpresas de ano novo que entraram na minha vida. - Eduardo se aproximou, e gentilmente segurou a minha mão. - Você vai entender que nesse mundo que eu vivo, as coisas são bem complicadas. Só agora tenho um motivo para mudar o meu caminho.

Era real o que eu estava vivendo agora. Eduardo aqui, segurando a minha mão. Que sensação quente no meu corpo. Muito diferente quando eu o vi pela primeira vez. Meus batimentos e até mesmo minha energia estavam tão intensas que eu poderia o beijar ali mesmo, mesmo após tudo de ruim que ele tinha me causado, eu ainda gostava desse cara.

- A história de vocês é até que boa. Mas você precisa se acalmar novato. Controle-se, por favor! Eu consigo ver que você está afim de beijar o loirão aqui. - Soltei a mão de Eduardo o mais rápido que pude após escutar as palavras do Dr. Ramón. - Você ainda precisa conhecer agora o quem faz parte da nossa sociedade e o quais princípios seguimos. Até agora você está entendo muito bem por aqui. Tirando o show que aconteceu agora, acredito que ainda tenha foco

A história dos therianos era longa. Quem diria que a terra não era apenas habitada por humanos e animais. Uma sociedade que existia nas sombras para não ser descoberta, e que consigo deveria carregar tantos segredos. Aprender tudo, levaria anos. Agora eu teria que me adaptar. Entrar neste mundo sem paraquedas e cair de cabeça em tanta informação, queimaria os neurônios de qualquer um.

Mas agora bastava saber. "O que eu era?" Assim como Samuel e Eduardo, eu também possuía uma forma heyoka. Sem contar parte de como eu faço parte dessa raça, sendo que a minha família jamais comentou nada sobre isso comigo, na minha análise todos eram humanos. Eu me sentia estranho, um jovem deslocado agora no mundo. Como se a minha identidade tivesse sido apagada e fosse reconstruída agora, para viver uma nova vida.

- Na nossa sociedade, é constituída por quatro pilares que mantém o equilíbrio e a ordem perante as leis. Conhecidos como Os Nobres Pilares da Natureza, cada pilar representa um elemento: água, vento, terra e fogo. - Ramón quis deixar claro. - A água representa todos os descendentes das criaturas marinhas. O vento representa todos aqueles que descendem de animais capazes do livre voo. A terra representa todos aqueles que descendem de répteis e anfíbios. Por último, temos o fogo, o maior dos pilares, que representa todos os mamíferos. Todos eles seguem de acordo com o xamanismo?

- Therianos são religiosos?

- O xamanismo não é em si uma religião pra nós, é mais como um estilo de vida. A parte de ficar reconhecida como religião, foi como a forma de dar um presente ao humanos.

- Como assim? - Quis entender mais essa parte.

- A arte do xamanismo consiste na ligação do seu ser carnal com o mundo espiritual e animal, e o mundo místico que vai além das compreensões humanas. O xamanismo se mostrou um ótimo benefício quando foi apresentado ao humanos. Tanto que esses o fizeram ficar conhecido como a forma de religião. - Ramón visualizava o seu celular. Parecia que tinha perdido algumas ligações em meio a suas explicações - Por mais que a nossa sociedade seja secreta, nós interferimos na vida humana de vez em quando, da mesma forma que eles afetam a nossa, seja positivamente e negativamente. - Ramón respirou fundo, aliás, falou tanto que deveria estar cansado. - Franco, isso é só uma pequena introdução. Você tem muito mais para aprender e vai viver agora de uma forma diferente da sua família.

- Não poderei ver a minha família? - Preocupado fiquei, pois a minha família era tudo pra mim.

- Calma, lá! Você não vai se distanciar e nem sumir do mapa. Mas é preciso que mantenha tudo que conversamos aqui em sigilo absoluto, sobre o mundo que você faz parte agora. Pela segurança deles. Vai por mim, boca fechada pode te levar longe.

- O que pode acontecer com eles caso eu conte?

Eduardo se intrometeu no meio da minha conversa com o Dr. Ramón. Ele me aconselhou a não querer saber o que pode acontecer, que eu deveria manter tudo em segredo. Ramón então se levantou da cadeira, olhou para o celular de novo e se pronunciou: 

- Se me dão licença. Devo ir agora atender um paciente que acabou de ser atropelado em plena rodovia movimentada.

Ramón falava com tanta tranquilidade, como se fosse normal pessoas serem atropeladas, sendo que talvez era. Ele estava se despedindo, indo o mais rápido possível embora para ir trabalhar. Errado ele não estava. Mas não pude conter a minha curiosidade, então perguntei o que seria um xamã.

- Pergunta pro seu namorado. Agora tenho uma emergência para atender. Abraços novato theriano. Espero te ver novamente.

Ramón saiu tão rápido da sala. Eu, fiquei constrangido , depois de me dar de conta do doutor ter insinuado que Eduardo e eu compartilhávamos uma relação. Porém até agora a minha dúvida não tinha sido respondida. Acabei olhando para Eduardo, e ele percebeu que eu queria uma explicação.

Eduardo se sentou ao meu lado. Percebi que ele estava um pouco mais a vontade agora que estávamos só nós dois. Olhar diretamente nos seus olhos depois de algum tempo, não me machucava mais. Aos poucos eu voltava a ver a beleza de seus olhos azuis. Meu coração palpitava forte só dele estar perto de mim

- Xamãs na nossa cultura, servem como conselheiros, professores e médicos. São eles responsáveis por tratar de nossa saúde e do nosso espírito. Um xamã saberá tratar de problemas que nenhum médico humano saberia como lidar. Sem contar que xamãs são vistos como inteligentes e são os únicos a possuir um selo espiritual que permite eles de cobrirem o seu totem, para que ninguém veja.

- Incrível...

Dr. Ramón é um homem a ser admirado. Já não bastasse sua profissão de médico, onde ele trata de humanos, se ocupava cuidando de therianos também. Uma vida dupla cansativa que Ramón levava.

- Tem muito para você aprender. Eu vou te ajudar. Já que acabamos descobrindo isso juntos! - Eduardo estava sendo legal. - Poderei ficar por um bom tempo agora em Florianópolis... com você! - Eduardo sorriu alegremente.

Uma flecha atravessa o meu peito. Nela estava escrito, amor! Em nossas vidas, o mundo dá voltas inimagináveis. O que eu tanto achava que nunca mais poderia ter, agora, estava sentado ao meu lado, dizendo as palavras que eu uma vez desejei tanto escutar. Mas o medo de me machucar de novo com ele, como ficava? Era algo que eu iria descobrir nessa caminhada cega. Me machucar ou não novamente era uma opção. 

- Obrigado, mas primeiro... - Me levantei da cama. Já tinha ficado deitado por um bom tempo. Me alonguei para não ter câimbra. Pouco me importei se passei vergonha na frente de Eduardo me alongando. - Eu preciso descobrir o quê eu sou. Vai ser difícil, mas quero saber tanto qual o animal que habita dentro de mim.

Eu estava convicto de que ia descobrir. Talvez fosse difícil pela minha idade. Lembrando das palavras de Ramón, crianças e adolescentes têm suas almas latentes. Por conta da minha idade isso talvez ficasse difícil.

- Você é um morcego!

...

- Oi? - Fiquei pasmo. - Morcego?

Eduardo se explicou. Dizendo que era possível pra ele ver o formato do meu totem bem nítido. Crianças e adolescentes têm suas almas latentes, mas no decorrer do tempo vão sabendo como esconder suas formas para se protegerem de predadores, pessoas taradas, no caso. Ainda jovens, eles não sabem muito bem como esconder suas formas totem. Chamando muito atenção por onde estejam. 

Pra mim não será tão difícil controlar minhas novas habilidades. Eu estava animado, porém por dentro, algo me assustava. Mas convicto de que dominaria tudo o mais cedo possível.  Tudo isso para eu me transformar num... morcego. Um animal repleto de segredo. Incrível! 

Só que um assunto martelava na minha cabeça. Para ser um theriano, é preciso haver alguém na sua árvore genealógica que possua o gene theriano. A pergunta era: Quem possuía o gene na minha família? 

- Franco, você quer conversar mais um pouco? Talvez ainda nem tudo tenha sido explicado. Quero deixar a história bem clara pra você. 

- Eu vou querer muito. Mas, Eduardo. Você não tem que terminar sua inscrição. Hoje é o último dia para os novos alunos. Não é?

- DROGA! EU TINHA ME ESQUECIDO

Eduardo se levantou o mais rápido possível da cadeira. Me dei de conta que agora estaríamos estudando na mesma universidade, então tempo para nos ver, não faltava. 

- Preciso ir. Conversaremos em breve. Eu tenho o seu número. Te chamarei sem falta dessa vez.

Eduardo se aproximou rapidamente. Com sua mão esquerda, puxou gentilmente a minha cabeça para que fosse possível ele me beijar. O toque de seus lábios nos meus, me lembrava o gosto do salgado do verão quente e suado. Um beijo gostoso de ser recebido.

Quando nos desgrudamos. Ele saiu pela porta, com um forte sorriso em seu rosto. Coloquei as duas mãos em minhas bochechas, e percebi o quão quente eu estava. Talvez ele não tenha se dado de conta, mas, nós dois tínhamos terminados, algo que nem ao menos tinha começado. Mas acredito que ele irá querer esquecer esse passado, para criar um novo capítulo.

Eu não poderia ficar parado também. Tinha tantas coisas para fazer. Uma delas seria conversar com Samuel. Não para discutir, mas pra garantir saber se ele estava bem. Por sorte Sam fazia fonoaudiologia, então eu o encontraria aqui mesmo no hospital. 

Assim que saio da sala. Vejo no corredor linhas coloridas por todos os lados. As mesmas linhas que deram forma aos espíritos de Samuel e Eduardo. Sentada numa cadeira de rodas, uma senhora já com seus 80 anos, vestia uma echarpe rosa, ao olhar para mim, ela sorriu. A senhora da echarpe rosa, era uma theriana. Tive a certeza quando a sua aura ganhou o formato de um urso. Logo em seguida, uma enfermeira, possuindo a aura um pouco tremida, que eu não conseguia distinguir se era um gato ou um cachorro, levou a senhora embora.

O mundo, como explicou, Ramón. Não seria mais o mesmo. O que eu tenho para aprender são inúmeras histórias e tradições, já que se tratava de uma antiga sociedade. Eu estava totalmente perdido. Pedindo a Deus para encontrar o meu caminho. Que então, se inicie o mais novo capítulo da minha vida. Mesmo não estando preparado. Estou seguro que irei dar o meu melhor.


Notas Finais


Se ficou um pouco confuso pra vocês. Garanto que no decorrer da história irei explicar melhor. A história não será grande, terá poucos capítulos. Desculpe-me os erros de português.

Para tirar as dúvidas. Na capa, está os personagens: Eduardo e Franco. Eduardo representado pelo cavalo. Franco representado pelo morcego.


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