História Anjo da Noite; "Guardiões Sombrios" - Capítulo 1


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Aventura, Drama, Espíritos, Lobisomens, Romance, Vampiros
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Palavras 4.357
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Ecchi, Fantasia, Ficção, Ficção Adolescente, Ficção Científica, Hentai, Luta, Magia, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Álcool, Incesto, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Resolvi reescrever!
Estou saindo em uma viajem, então não sei como irei cuidar de tantas histórias assim.
Também estou pensando em retirar algumas do fundo do meu armário!

Capítulo 1 - "Perseguição"


Fanfic / Fanfiction Anjo da Noite; "Guardiões Sombrios" - Capítulo 1 - "Perseguição"

A flecha zuniu acima de seu ombro e cravou, com um baque surdo, direto em uma estaca de madeira. Por pouco! Se ele não houvesse tropeçado, saindo do caminho, a haste agora estaria cravada em algum lugar perto do seu coração. Imaginou o sangue desabrochando como uma flor na camisa, o corpo, sem vida, despencando da borda do galho até o solo, quase dois quilômetros abaixo. Colin estava exausto. O suor escorria por suas costas e os músculos das panturrilhas doíam. Ele olhou para trás de repente: estavam a apenas cem metros dele. Essa parte da alta-estrada era ampla e reta. Não só o imenso galho original fora cortado para ficar com a face plana, assim como todos os galhos-via menores, mas também fora ampliado lateralmente com vigas e andaimes. Agora tinha seis metros de largura nos lugares de passagem. Àquela hora do dia, antes da hora do rush, o caminho estava deserto. Colin corria a toda velocidade, sentindo cada nó e depressão da madeira. Ocultas em algum lugar lá no alto, nuvens escuras despejavam seu aguaceiro, enchendo as florestas com o eco das gotas. O tamborilar constante instava-o a prosseguir, e Colin corria desesperadamente em meio a uma massa de sombras indistintas. O peso de seu cinto com o equipamento de caça o atrasava. Facas de arremesso e uma de esfola contra bestas? 

Esqueça. Mas não havia tempo para livrar-se dele. Outra flecha passou assoviando e desapareceu, inofensiva, nas profundezas das folhas verdes. Mais adiante, a alta-estrada seguia na direção de um tronco imenso e oco. Colin disparou para dentro dele, onde hesitou, recuperando o fôlego. Uma ave gritou a distância, e um ruído farfalhante ecoou pela madeira, fazendo com que Colin olhasse para as sombras no alto. A árvore morta era uma encruzilhada. Seu tronco maciço suportava o cruzamento com galhos-via que levavam em três direções, passando por arcos esculpidos. Ele olhou para cada uma. Em um canto escuro, degraus antigos, cobertos de musgo, desciam para as profundezas ocas. Estava desesperado, mas descer para o solo? Estremeceu só de pensar naquilo. Qual caminho? Colin repassou o dia em sua mente. Apenas mais um cano de esgoto entupido, dissera seu patrão, sem querer sujar as mãos brancas e limpas. Você pode resolver isso, Colin Hunt. É um trabalho. Na verdade, é um "grande trabalho"! E, convenhamos, você já está marrom... então, enfiar a mão em uma grande pilha daquilo não vai fazer muita diferença! O homem riu da própria piada. Era o que sempre fazia. Mas aquilo não era motivo de riso. Bem diante dele, um esquilo vermelho se abaixou no ramo-via, mordiscando uma avelã. Fitou Colin por um segundo antes de mergulhar escada abaixo. 

- Por aqui... 

Colin olhou à sua volta. A voz era tão baixa que ele se perguntou se estaria imaginando coisas. Esquilos falantes? Estava ficando maluco! Sem pensar, Colin seguiu o animal, atirando-se no buraco e sendo engolido pela escuridão, que o envolveu. Por um momento, pôde recuperar o fôlego fora da vista dos guardas. Tinha de aproveitar ao máximo. Um ronco vindo de cima o assustou. Movendo-se lentamente em sua direção, saída das sombras, vinha uma carroça de lavanderia, com pilhas enormes de roupa limpa, sendo puxada por um pônei branco com manchas marrons. Quando a carroça passou por ele, as rodas de madeira atingiram um nó nos sulcos profundos no tronco e o arnês de bronze retiniu, emitindo estranhas notas por entre as folhas. Aquilo significava saia do caminho, pois pôneis de carga desacompanhados não alteravam sua rota por causa de ninguém. Um cavalo dado! Colin sorriu melancolicamente e saltou na traseira da carroça. Subiu com esforço e mergulhou nos montes de roupas arrumados com esmero sob o encerado impermeável. Contorcendo-se ali debaixo, cobriu-se com anáguas limpas e cruzou os dedos, rezando para que Diana o protegesse. 

- Para onde foi o fiapo de gente? 

- Tava aqui há um segundo... 

As vozes soavam abafadas à medida que se aproximavam. 

- A gente quase pegou ele! 

Colin prendeu a respiração, esperando que as roupas passadas e os calções limpos fossem arrancados de cima de seu corpo. A mãe-adotiva sempre o advertira em relação a ir sozinho à floresta, pois os Corvos poderiam pegá-lo e sugar sua alma. Aquilo ali era muito mais perigoso. 

- Dá uma olhada aí por cima. 

A carroça estremeceu quando pés escalaram até o topo da pilha de roupas. O peso de um guarda adulto e robusto caiu sobre Colin, expulsando o que restava de ar em seus pulmões. Eles ouviriam suas costelas quebrando ou seu coração martelando como o bico de um pica-pau. Um versinho da infância veio à mente de Colin: Segure a pena, arrebate a hora. Ai de mim, me esconda, Senhora! Era uma cantilena sem sentido dita de um só fôlego por velhos e repetida com alegria pelas crianças. Mas ele ficava feliz com qualquer coisa em que pudesse acreditar naquele momento. 

- Santo Broto! 

Praguejou o guarda. 

- Não tô vendo ele em lugar nenhum! Talvez o graveto danado tenha enganado a gente, fingindo que virou à esquerda. 

- Grasp vai matar a gente se não encontrarmos o garoto! 

Sibilou o outro. 

- Vamos nos separar. Ele não deve ter ido longe... 

O peso no peito de Colin sumiu, e as vozes foram se tornando mais distantes. Será que a velha cantilena tinha funcionado? Colin respirou fundo, enchendo os pulmões, e contou até duzentos, embora suas pernas estivessem coçando para sair dali. Quem sabe ele poderia ficar na carroça e esperar até que a carga fosse entregue... Sentiu-se quase ninado pelo suave balanço do veículo. Não! Ele se repreendeu. Ouvira demais. Grasp espalharia a notícia. A partir de agora, ele era madeira morta. A primeira coisa a fazer era se distanciar dos capangas do Sumo Conselheiro. Com cuidado, Colin afastou um par de meias-calças e várias camadas de protetores masculinos de couro para criar uma abertura por onde olhar, evitando pensar no lugar em que aquelas peças de vestuário haviam estado. Ele espiou lá fora. Tudo limpo. Colin deslizou e escorregou com cautela pela traseira da carroça. Desejou ter uma maçã para oferecer ao pônei que trabalhava imperturbável. 

Col - Obrigado, amigão! 

Sussurrou ele. 

Col - Fico lhe devendo uma! 

Os olhos do pônei, cobertos por antolhos, voltaram-se para ele, como se o animal aceitasse seu agradecimento, e a carroça seguiu em frente, deixando Colin sozinho na alta-estrada. Com cuidado, ele olhou o mundo em volta com novos olhos. Tudo que sempre considerara corriqueiro não oferecia mais nenhuma segurança. Uma névoa úmida borrava os contornos das folhas imensas, cada uma do tamanho de um homem adulto. Acima, abaixo, atrás e na frente, galhos-via e altas-estradas se entrelaçavam e projetavam-se no ar com cordas, andaimes e um milhão de pregos de madeira. Troncos com uma circunferência imensa, grandes o bastante para sustentar centenas de casas, lojas e hospedarias esculpidas em suas profundezas ocas, pontilhavam uma vasta paisagem de árvores. Colin sempre pensara que, apesar da história turbulenta, a vasta ilha de Arborium era o lugar mais seguro na Terra, estendendo-se pelas copas das árvores, a mais de um quilômetro e meio do solo. Não acreditava mais naquilo. 

- Ei! 

O grito agudo interrompeu bruscamente seus pensamentos. Ali! A poucos metros dele um de seus perseguidores lançava-se direto em sua direção. O emblema no casaco o denunciava: o falcão de bico cruel da casa do conselheiro. É claro, os guardas não eram tão estúpidos assim. É só esperar com paciência que qualquer camundongo sai do buraco. Colin praguejou quando o homem deu um bote, tentando agarrar seu pulso. Colin deu um salto para trás e tentou se desvencilhar, mas não foi rápido o bastante. A mão do homem acertou o alvo e apertou o seu braço. Embora fosse quase tão magro quanto o garoto, seus músculos eram fortes como carvalho. 

Col - Me solte! 

Gritou Colin. 

- Nem pense nisso, seu sujismundo. 

Os dedos, que mais pareciam tornos, apertaram ainda mais, enchendo os olhos do garoto com lágrimas de dor. 

- Você vale o bônus de um mês, ah, se vale! 

Ele sorriu, ameaçador, revelando um conjunto de dentes verdes como fungos podres e um hálito que lhes fazia jus. Colin parou de lutar à medida que uma fúria fria foi tomando conta dele. Que direito eles tinham? Seu pai sempre lhe dissera que ele podia sair de qualquer situação usando o cérebro. Mas de que valia a lógica contra a força bruta? Enquanto sua mente tentava se concentrar, o instinto puro entrou em ação: após a fuga vem a luta. Era como assistir a si mesmo de fora do corpo. Sua mão direita ainda estava livre. Em um perfeito movimento curvo, Colin tirou a faca de esfola do cinto e a ergueu em um arco, baixando-a com toda a força. O guarda esperava um garoto acovardado, mas o que encontrou foi uma arma bem-manejada, com um ruído repugnante como resultado. Os olhos do homem se arregalaram e ele lentamente escorregou até o chão. Colin não esperou. Já estava correndo antes mesmo de ouvir o baque do corpo na madeira. O grito do perseguidor teria o efeito de um alarme e, onde havia um guarda, certamente surgiriam outros. Pelo menos, pensou o garoto, saboreando a adrenalina da fuga, ele havia ganhado algum tempo. Mas o galho-via por onde seguia era comprido e reto e parecia estender-se até o infinito. Ele sabia que a próxima saída ficava a quase meio quilômetro dali, e começava a sentir cãibras nas pernas finas por causa do esforço da corrida.

Esquadrinhou o caminho à frente e derrapou ao parar de repente na pista traiçoeira. Seu pior pesadelo já vinha avançando a distância: outro guarda, duas vezes maior que o primeiro, vinha na direção de Colin, seus passos fazendo a madeira ranger. O homem segurava deliberadamente um punhal, a lâmina afiada tremeluzindo na chuva. O garoto podia distinguir uma cicatriz ziguezagueando como um relâmpago pela cabeça raspada do homem. Colin deu meia-volta. Teria de voltar por onde viera. A que distância estaria o próximo cruzamento de galhos e, ainda que conseguisse chegar até lá, para onde iria depois? Ele olhou por cima do ombro e viu que o guarda começara a correr, gritando e apontando. Quando tornou a se virar, entendeu o porquê. Mais adiante, o primeiro guarda; o que ele pensara ter tirado do páreo, já estava se sentando. Será que as coisas podiam piorar ainda mais? Dessa vez, não havia cruzamentos oportunos, rotas alternativas, nada. Colin estava encurralado. A névoa fizera um imenso favor a Colin. Naquele nível, algumas centenas de metros abaixo da copa das árvores, a floresta se transformava em um cenário de formas indistintas. Ele agora não era mais que uma silhueta agachada entre os guardas que avançavam em sua direção. Colin tinha apenas segundos. Sua mente disparava. O que ele ouvira na área de serviço era uma sentença de morte.

Precisava fazer alguma coisa, mas o quê? Olhou em desespero para o cinto de caçador, facas de arremesso, faca de esfole, bolsas de iscas e corda, fina mas forte, para rastejar por canos escuros e fedorentos... Corda! Era isso! As folhas tremiam na escuridão, como se sussurrassem, quando Colin espiou rapidamente por cima dos pilares de segurança na margem da alta-estrada. Por que esperar para ser empurrado? Tudo que tinha de fazer era soltar a corda do cinto, passá-la por um dos pilares e então amarrar as extremidades com firmeza em um de seus pulsos. Abaixando-se ainda mais por um momento, amarrou a corda com dedos nervosos. Era agora ou nunca. Ele ficou de pé, correu e saltou da borda da estrada. Em sua mente só havia uma coisa: fé cega. Se o pilar estivesse podre, então Colin iria mergulhar de verdade: um pássaro sem asas. Morto. Todos os seus instintos gritavam para que parasse. Tarde demais. Ele voou em um grande arco. A corda desenrolou-se e depois se esticou. O puxão foi tão brusco que Colin achou que tivesse deslocado o ombro, mas, sob o galho-via onde agora oscilava com violência, ele respirava, ainda vivo. A Terra não o devorara; por enquanto. Rapidamente, com a mão livre, ele soltou o cinto, que fora passado de pai para filho durante gerações. Seu pai o dera para ele apenas no ano passado, quando ficara doente demais para trabalhar. Colin, porém, não tinha escolha. Avistou seu alvo, um pedaço de andaime que se projetava de um tronco velho e seco, e atirou o cinto naquela direção. Tinha boa pontaria.

Mesmo antes que o cinto aterrissasse, Colin começou a subir de volta pela corda dupla. Ele era ágil como uma aranha, e logo alcançou a parte inferior do andaime. Sob todos os galhos-via e altas-estradas, estruturas desordenadas de andaimes de madeira sustentavam a infraestrutura de Arborium. Havia tubos dos correios e canos de gás e mini-aquedutos que transportavam os suprimentos de água bombeados através das raízes das árvores desde as profundezas do subsolo. Colin precisava se mover rapidamente em meio àquele emaranhado. Ele se arrastou com dificuldade até encontrar uma posição bem embaixo do galho-via. Então soltou a corda do pulso e puxou com força. Ela escorregou, desprendendo-se do pilar de segurança, e Colin a enrolou de novo. No exato instante em que a corda por fim deslizava para suas mãos, passos reverberaram ao longo das tábuas acima dele e gritos de alarme se perderam nas folhas. Os passos por fim pararam. Houve um ruído de algo sendo arranhado, seguido por uma imprecação. Tão perto. Colin abraçou os joelhos, tentando se encolher o máximo possível, e passou a respirar superficialmente. Será que eles teriam avistado o fino fio de corda no crepúsculo que ia se tornando mais denso? Se tivessem, estava tudo acabado. Ele esperou que um rosto surgisse acima da borda, olhando direto para ele, ou o ruído seco da flecha de uma balestra de curto alcance. 

- Nada sobreviveria a essa queda.

Murmurou uma voz que só podia estar a menos de um metro de distância. 

- Não exatamente "nada". O que é aquilo lá?

Outra voz. 

- Onde? 

- Lá embaixo! Ferramentas de caçador. Você é cego, além de estúpido? 

Silêncio. Colin contou até três. Seria melhor ser apanhado ou pular de verdade? 

- Aha-ha!  

Uma risada breve e áspera. 

- Dá um novo significado para apertar o cinto, não é? 

- Quase me faz ter pena dele!  

Houve mais risadas cruéis, seguidas por tosse e então o estrépito de um escarro sendo expelido.

- Bah! Já vai tarde!

Pronto! O plano tinha funcionado. Os guardas idiotas tinham visto o que ele queria que vissem. Agora, segundo as zombarias que iam se extinguindo lá em cima, ele estava morto, se encaminhando para o rio Estio para se juntar às outras almas miseráveis que haviam se matado. Ele ouviu o estrondo distante de um trovão, mas o tamborilar das gotas na madeira acima dele havia cessado. Um pombo arrulhou suavemente em algum lugar à sua esquerda. Os homens deviam ter ido embora. Mas ainda assim Colin não se movia, enroscado em meio à confusão de canos e tubos. Não tinha certeza se podia e não sentia a menor satisfação em ter enganado seus perseguidores. Afinal, a partir de agora, daria na mesma se estivesse morto. Sua garganta estava seca e ele tinha a sensação de ter sido virado pelo avesso. Se alguém estivesse observando, teria visto o que parecia uma trouxa de farrapos enrolada no andaime. Dez minutos arrastaram-se lentamente antes que a trouxa aos poucos começasse a se desmembrar em partes móveis. Colin desdobrou-se e, trêmulo, pôs-se de pé. Tinha de se inclinar para evitar bater a cabeça em algum cano. Na altura de sua cintura, um aqueduto revestido de zinco corria de ambos os lados na parte inferior do galho. Água. Ele se aproximou, mergulhou as mãos em concha no líquido claro e levou-as aos lábios. Quando se endireitou, dois pares de olhos idênticos o fitavam.

Col - Santos fungos fedorentos! 

Praguejou baixinho; justamente o que ele precisava! Tinha de admitir: aquele era o lugar perfeito, escondido, com um suprimento abundante de água, a estrada de madeira acima servindo como um conveniente teto à prova d'água. Ele deveria ter notado a pilha casual de galhos à sua frente, habilmente tecidos em torno dos canos, mas sua mente estivera meio concentrada em outras questões. Os dois bebês Corvos continuaram olhando para Colin enquanto abriam o bico e gritavam. Mas a palavra "bebê" de maneira nenhuma descrevia as criaturas, suas garras já aptas a cortar com um só golpe até o osso, e o bico capaz de quebrar o crânio de um pobre dendriano como se fosse uma noz. Cada uma das avezinhas tinha metade do tamanho de Colin, e se esses eram os pequenos. Ele estremeceu ao pensar nos pais. Colin verificou o braço. A corda tinha queimado a pele e agora começava a latejar. Havia um pequeno filete de sangue: era só o que bastava como isca para um caçador ávido. Péssimo. Ele mais parecia um espetinho de Colin. 

Col - Olá, passarinhos. 

Murmurou Colin. 

Col - Não precisam chorar. 

Mas Colin sabia que, para eles, era só uma presa apetitosa a poucos centímetros de seu ninho. Eles não queriam palavras tranquilizadoras, queriam a Mamãe. Agora! Principalmente porque a Mamãe podia transformar o intruso em papá! 

Col - Fiquem quietos! 

Tentou Colin, mas era o mesmo que dizer ao sol que não surgisse naquela manhã. Freneticamente, começou a tentar lamber o sangue do braço enquanto procurava uma maneira de voltar para o galho-via. Poderia correr o risco? Tinha alguma escolha? Os gritos dos Corvos ficavam cada vez mais intensos, e haviam começado a bater as asas, agitados. Uma vez que tinham sentido o cheiro de ferimento e fraqueza, era quase inútil sequer pensar em escapar. Colin ouviu o som de bater de asas antes que pudesse ver qualquer coisa. Estava no pior lugar possível. Sabia que Corvos fêmeas faziam de tudo para proteger sua prole. Na penumbra sob o bosque, uma sombra bloqueou-lhe a visão. Ao se encolher instintivamente, Colin forçou-se a olhar para cima e viu os olhos imensos e escuros engolindo-o, as garras; cada uma do tamanho de uma espada, avançando para rasgá-lo para o jantar, e as asas amplas prestes a se fecharem e lançarem um manto sobre sua vida. Naquele mesmo momento a névoa de repente se abriu e o último raio de sol do dia lançou um raro feixe de luz para a escuridão, penetrando em suas retinas e fazendo-o gritar de dor, um som ecoado pelo grito do Corvo. Acabou! Ele pensou, fechando os olhos.

Sua mente encheu-se com imagens de casa: o pai encurvado e artrítico como uma folha seca junto ao fogo, a mãe cantarolando baixinho enquanto mexia a comida na panela, a irmã, Shiv, criando mundos minúsculos, completos com galhos e cascas de nozes, os galhos que os sustentavam no alto curvados e Zirrel empoleirado no seu ombro com um rato na boca. Cada uma dessas imagens esvaiu-se até que restou apenas a imagem de um sol negro surgindo a sua frente. Acabou-se tudo. Tudo... A pele de Colin formigou e ardeu. Algo como uma erupção causada pelo calor se espalhou da clavícula para cima. Sentiu os lábios dormentes e a língua engrossar dentro da boca. Não conseguia falar. Algo sinistro ondulava por baixo da sua pele, buscando uma válvula de escape. Sentia-se grande demais para seu corpo, como se pudesse se abrir ao longo da espinha e se derramar no chão como uma cobra trocando de pele. 

Col - O que... o que está acontecendo?  

Murmurou ele. Ele abriu seus olhos. Sua pele estava queimando. A música dos Corvos o agredia. O cheiro dos pássaros o deixava nauseado. Não conseguia pensar. Entretanto, ele conseguia ver cada árvore ao seu redor, ouvir uma centena de conversas ao mesmo tempo, como se todos os seus sentidos estivessem aguçados. Hesitante, ele arriscou um olhar, e então arregalou os olhos, surpreso. Os bebês Corvos ainda o olhavam, mas estavam mudos. A mãe, com suas garras vorazes, não estava em nenhum lugar à vista. Dez segundos antes, ele era um pedaço de carne na bandeja. Agora nem mesmo sentia medo dos filhotes. Pelas cascas das árvores, o que havia acontecido? Nada fazia sentido. Colin sentiu-se enjoado. O Corvo do mito e da história havia se afastado em vez de engoli-lo. Duas vidas a menos. Quantas lhe restavam? Mas, quando se acalmou, uma fúria gelada tomou conta dele. Não era culpa sua ter ouvido a conversa sobre uma revolução e ameaças a Arborium! Ele era um simples caçador. O trabalho era uma porcaria, mas era a vida que tinha. Colin sentiu as lágrimas queimarem nos olhos; realmente, estavam queimando. Tudo o que ele mais amava poderia ser roubado. Quando seu pai-adotivo adoecera, Colin se viu uma noite socando o teto de madeira fina acima da cama com tanta força que os nós dos dedos começaram a sangrar. A escola era para crianças pequenas ou para garotos ricos.

Ele não se encaixava em nenhum desses grupos. E era assim que as coisas funcionavam em Arborium. Colin era um aprendiz e agora seria o chefe da casa também. Lembrou-se do medo que sentira no primeiro dia de trabalho ao pegar todas as ferramentas do pai, assumindo o lugar dele, e então pensou em todas as piadas e zombarias que ouvira. Como ele sobreviveria na escuridão dos bosques densos, longe da luz do sol que passava pelas folhas e da chuva que castigava os galhos? De alguma forma ele conseguiu sobreviver, embora o patrão fizesse questão de dar ao novato as tarefas mais sujas. Ele sobreviveu, perseverou em suas metas e ainda ganhou o relutante respeito de trabalhadores que tinham duas vezes o seu tamanho. Agora tudo aquilo parecia ter sido em vão. Era hora de ir. Colin olhou uma última vez para os bebês Corvos. Eles não se moviam, apenas o fitavam. Um estranho instinto o fez querer estender a mão e acariciar a plumagem. Eram aves de mitos e lendas. Ele nunca estivera tão perto delas. Esqueça! Ele saiu de sob o andaime, escalou vários pilares de sustentação e espiou sobre a borda do galho-via. Com toda aquela correria, ele não ouvira os sinos que anunciavam o fim do turno de trabalho. A alta-estrada vazia começava a ficar cheia de operários cansados, que se afastavam da corte e dos negócios que cercavam o trono do rei Quercus.

Colin escolheu um ponto bem denso e sombreado a uma pequena distância de onde estava e, no momento perfeito, deslizou pela borda e subiu na via. A tempestade passara e levara com ela a névoa, deixando os troncos reluzentes como se tivessem sido polidos. Ninguém sequer notou o jovem caçador imundo surgindo por baixo de suas botas, e ele deixou que as multidões o levassem ao longo do galho-via na direção do tronco mais próximo. Aquela era a coisa mais interessante em Arborium: aquele era um lugar que nunca ficava imóvel. Os prédios rangiam, os pisos vibravam, altas-estradas de madeira se arqueavam e flexionavam por causa do vento e do peso. Era incrível pensar que a cidade de Heléboro, com o palácio no centro, era quase tudo que sobrara dos grandes condados de Arborium, antes de a antiga praga da cólera reduzir a população a uma pequena fração do que costumava ser. A grande floresta era mesmo um lugar de ecos abandonados. Um bando de abutres pairava acima da estrutura do Poleiro, agora bem próximo. Enquanto espantava os pombos do caminho durante a sua passagem destrambelhada, Colin esquadrinhava o ar procurando um par de asas familiar no meio do planar agourento dos carniceiros.

E não demorou a identificá-lo. Um borrão dardejou contra um dos infelizes, que interrompeu seu círculo para cair em uma espiral de morte. Aquela ave não estava nem um pouco interessada em planar em sintonia com os abutres. Zirrel era menor que a maioria das águias e por isso mesmo se tornara a mascote de Colin; ele não atendia às expectativas de um bom mensageiro-caçador. Mirrado e rebelde, nunca voava direto para os postos onde era condicionado a pousar e sempre voltava com um rato na boca. Em mais de uma ocasião, nublada pelas névoas do tempo, o criador antigo ameaçou sacrificar o bicho por ele ser muito dependente de cuidados, e o pequeno Colin, com o semblante impassível e as costelas marcando a pele graças à fome constante, prontificou-se a fazer o serviço. Levou o animal para longe dos olhos do homem e logo estava de volta, silencioso, quieto. O animal foi encontrado poucas horas depois, debaixo do catre no quarto de Colin, localizado em razão de estardalhaço que fazia por ter sido colocado numa gaiola improvisada e no escuro, ainda por cima.

O pai-adotivo se enfureceu. Após levar um sermão furioso, Colin confessou que não queria matar o bicho. Ele já havia perdido os pais originais e não queria perder mais ninguém. O velho caçador, como qualquer outro servo de Untherak, não era muito chegado a sentimentalismos. O pouco que as pessoas se permitiam sentir ali era reservado para os familiares e entes queridos nos Campos Exteriores; isso se houvesse alguém do lado de lá os esperando no Dia de Louvor. Porém, ele se deu conta de que o pequeno Colin estava no Poleiro para pagar a dívida dos pais mortos e que já havia sofrido o suficiente nos últimos tempos, a ponto de ter soterrado a infância de forma definitiva. À sua maneira rude, ele se preocupava com o bem-estar do menino. Olhou para cima e estendeu o braço direito. Zirrel deu uma volta completa no Poleiro, sempre descendo, e fechou as garras na faixa de couro que protegia o pulso do rapaz, olhando para ele com uma acusadora pena negra saindo da boca. 

Col - Eu aqui desesperado para sair desta cidade, e você aí comendo, sua galinha mimada!  

Colin riu mesmo em meio à urgência, colocando a ave no ombro e começando sua caminhada até os grandes portões da cidade, de onde conseguiria voltar para a vila Crydee de onde nunca deveria ter saído. 

Col - Como eu queria ter nascido águia!

Continua...



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