História Anjo da Noite; "Guardiões Sombrios" - Capítulo 2


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Aventura, Drama, Espíritos, Lobisomens, Romance, Vampiros
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Ecchi, Fantasia, Ficção, Ficção Adolescente, Ficção Científica, Hentai, Luta, Magia, Mistério, Policial, Romance e Novela, Sobrenatural, Survival, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Álcool, Incesto, Insinuação de sexo, Nudez, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - "Lagoa Mágica"


Fanfic / Fanfiction Anjo da Noite; "Guardiões Sombrios" - Capítulo 2 - "Lagoa Mágica"

As sombras se extinguem diante da luz, repetia o garoto. As palavras eram um mantra que ele costumava proferir para se tranquilizar quando sentia que estava perdendo o controle. Apesar dos seus 7 anos, ele já era experiente no uso de truques como esse para amenizar os sintomas de sua aflição. Hoje, no entanto, as palavras pouco ajudaram. Hoje, Colin precisava ficar sozinho e, apesar de tudo, ele conseguiu sorrir, mas foi também o dia em que ele mudou sua vida para sempre ao perder a noção do tempo. Ele havia começado o dia prestando muita atenção no horário. Pelo menos não estava sozinho, embora descrever Shiv Levoreth como amiga talvez fosse um pouco demais para uma mãe adotiva. Como ela era um tipo diferente de mulher, a vida de Colin mudou drasticamente nesse ponto. Shiv era viúva e havia sido a governanta da academia de cartografia onde o pai de Colin estudara por dois anos em Nochtland, capital das Terras Baldias. A casa florescia sob seu comando, e dessa forma o espírito altamente caótico de Shadrack e seu afeto sem limites encontraram alguma ordem e bom senso. Mas logo Colin se deu conta, jovem como era, de que sua governanta precisava de mais cuidados do que ele próprio.

Acabrunhada, de olhos tristes e rosto delicado e bonito, Shiv se movia pelos cômodos da casa, da mesma maneira que pelas ruas de Crydee; silenciosamente, quase temerosa, como se a única coisa que procurasse fosse um bom lugar para se esconder. Ela era uma porção de bondade melancólica e duas porções de misteriosos mal-estar. Colin ao mesmo tempo gostava dela e sentia que realmente não a conhecia. Com o tempo, simplesmente aceitou a presença da mulher e passou a depender mais e mais de si mesmo, tornando-se o independente e peculiarmente prática pessoa que era. Mas ela havia guardado tantos segredos. Apesar de Shiv ter-lhe ensinado a fazer omelete, colar papel de parede e escolher garrafas de vinho e saquê para seus convidados na hospedaria, seus parcos conhecimentos de magia haviam sido adquiridos aos trancos e barrancos, revelados com relutância, arrancados dela como ostras de teimosas conchas. Shiv tinha a desconfiança típica dos feiticeiros em relação aos magos e a seus métodos cruéis. Essa desconfiança nascera de longos serviços prestados a um mago nas Terras Baldias, sua terra natal. Os pulsos traziam braceletes de cicatrizes sobrepostas, marcas das algemas que usara. Ela amava Colin com absoluta devoção, mas esperava que a magia dele só se manifestasse caso fosse reconhecida.

Em vez disso, a magia de Colin havia se espalhado como uma trepadeira, escalando cercas e desabrochando inesperadamente por entre os paralelepípedos. Mas, à medida que ele crescia, a magia se tornava mais forte, mais perigosa, mais difícil de controlar. Ele era o feio chupim no ninho do tico-tico, impossível de ignorar. Ficara pior depois da morte de Genevieve, sua mãe biológica e seu pai Shadrack. Na verdade, Colin não sabia se seus pais estavam realmente mortos. Ele mal conseguia se lembrar do pai ou da mãe. Eles haviam desaparecido em uma expedição quando o menino estava com pouco mais de três anos. Tinha uma lembrança preciosa deles, a qual usara tanto que se transformara em algo fino, apagado e insubstancial; os dois andando de mãos dadas com ele, cada um de um lado. O rosto sorridente dos dois o observando de longe com grande ternura. Voe, Colin, voe! Eles diziam em uníssono, e subitamente o erguiam do chão. Ele sentia a própria risada brotando, se juntando á alegria da mãe e ás gargalhadas profundas do pai. Isso era tudo. Genevieve, ou Gina, com a chamavam, e Shadrack eram exploradores de primeira linha. Antes do nascimento do filho, viajaram para o sul das Terras Baldias, o norte das Geadas Pré-Históricas, até o longínquo leste, nos Impérios Fechados.

Depois planejavam viajar com Colin, assim que ele tivesse idade suficiente. Mas uma mensagem urgente de um amigo explorador, vinda das profundezas dos Estados Papais, forçara-os a partir antes do esperado. Então eles se debateram terrivelmente com a dúvida de levar ou não o filho junto. Foi Lady Levoreth quem persuadiu Gina e seu amigo de longa data a deixarem Colin com ela. A mensagem que haviam recebido sugeria perigos imprevisíveis para os quais nem eles estariam preparados. Se nem Shiv Levoreth, doutora em história, governanta da residência Hunt e mestre cartógrafa, podia garantir que a rota seria segura, certamente ela ofereceria riscos demais para uma criança de apenas três anos. Quem melhor para entender o potencial de tais riscos? Quem melhor para cuidar dele do que sua amada governanta Shiv? E então eles finalmente partiram, ansioso, porém determinados, para uma jornada que esperavam ser breve. Mas eles não voltaram. Conforme os anos se passavam, a probabilidade de reaparecerem com vida diminuiu. Shiv sabia disso; Colin sentia. Mas ele se recusava a acreditar completamente. E agora a ansiedade que Colin sentia ao pensar que as fronteiras se fechariam, de fato, tinha pouco a ver com as grandes ambições de exploração descritas no discurso de Shiv.

Tinha tudo a ver com seus pais. Eles haviam deixado Lindros em uma época muito mais leniente, quando viajar sem documentos era algo comum, até mesmo prudente, já que evitava roubos ou danos em uma viagem perigosa. Os documentos de Shadrack e Genevieve ficavam seguros em um pequeno gaveteiro no quarto deles. Se Novo Ocidente se fechasse para o mundo, como eles voltariam? Como Colin poderia voltar para Lindros e rever seus pais? Perdido nessas sombrias especulações, Colin fechou os olhos, a cabeça descansando contra o assento do bonde. Sobressaltado, ele se deu conta de que o espaço ao seu redor havia ficado mais escuro e o ar estranhamente mais frio. Seus olhos rapidamente se abriram. Já é noite, pensou, com o pânico crescendo dentro do peito. Ele pegou o relógio, olhou rapidamente ao redor e percebeu que o bonde havia parado em um túnel. Bem distante deles, ele podia ver a luz na entrada. Então ainda era dia. Mas, quando forçou os olhos para ler o relógio, descobriu que já era a hora catorze e engasgou.

Col - Quatro horas!

Exclamou em voz alta.

Col - Eu não acredito!

Colin foi rapidamente para a frente do bonde e viu o condutor parado nos trilhos, alguns metros á frente do vagão. Houve um ruído metálico agudo, e então o homem se arrastou de volta na direção do menino.

- Ainda aqui, não é?

O condutor perguntou amigavelmente.

- Você deve gostar dessa volta para ter viajado vinte e três. É isso, ou você gosta do modo como eu guio.

Ele era corpulento, e, apesar do ar frio do túnel, escorria suor de sua testa e do queixo. Sorrindo, enxugou o rosto com um lenço vermelho enquanto se sentava.

Col - Perdi a noção do tempo.

Colin disse, ansioso.

Col - Completamente.

- Ah, não importa. 

Ele replicou com um suspiro.

- Em um dia tão ruim, quanto mais cedo acabar, melhor.

Ele soltou o freio e o bonde começou a rodar lentamente para frente.

Col - Você está voltando para a vila agora?

O homem balançou a cabeça.

- Estou indo para o pátio. Você precisa descer no cais e procurar um bonde que siga para o centro. 

Colin piscou. Há anos ele não ia para essa parte da cidade.

Col - É na mesma parada?

- Eu aviso a você.

Ele assegurou.

Col - Não, tudo bem. É só me avisar que eu ganho o caminho todo na corrida.

- Não duvido disso.

O condutor sorriu. E mesmo sem querer, um sorriso irônico surgiu nos lábios de Colin. O fato de que o condutor provavelmente estava certo só piorava as coisas. O condutor era alto e musculoso, enquanto Colin era baixo e magro, ele era ágil, rápido e surpreendentemente forte, mas simplesmente não tinha o tamanho exigido para os aprendizes de Escola de Guerra na Montanha de Prata. Apesar de tudo, ele esperou que nos últimos dias tivesse o que as pessoas chamavam de “arrancada no crescimento”, antes da chegada do Dia da Escolha. Mas isso não acontecera, e agora o dia estava próximo. Todos os anos, os protegidos que completavam 15 anos podiam se candidatar a aprendizes dos mestres de vários ofícios que serviam o castelo e seus habitantes. Geralmente, os aprendizes eram selecionados de acordo com as ocupações dos pais ou por influência dos mestres de ofício. Os protegidos do castelo normalmente não possuíam tal influência, e aquela era a chance de conquistar um futuro melhor. Colin não era um protegido, ou estava na idade para o Dia da Escolha, mas sabia o suficiente sobre pouca coisa que poderiam torná-lo praticamente um adulto muito pequeno. O Dia da Escolha proporcionava essa chance. Eles ganharam velocidade quando fizeram uma súbita curva acentuada para a esquerda. E então emergiram do túnel, a luz deslumbrando os olhos de Colin. O bonde parou mais uma vez quase que imediatamente, e o condutor gritou.

- Bonde do Cais. Parada final. Sem passageiros!

Uma multidão olhava impacientemente para o túnel, esperando o próximo bonde emergir.

- Caminho cerca de cinquenta passos naquela direção.

Ele disse a Colin, apontando para além da aglomeração.

- Há outro ponto ali que diz "embarque". Não tem como não ver. Ou se quiser "ganhar na corrida" vá para o leste, você conseguirá uma estrada de terra que o levará para a vila.

O condutor apontou o caminho. Mas Colin foi mais rápido e já estava no cais antes que o homem alto pudesse se livrar da conversa e soltar um último grito.

- Boa sorte!

A notícia do fechamento das fronteiras havia chegado ao porto de Lindros, de modo que as pessoas correram para lá, causando uma confusão de carrinhos, barracas improvisadas de produtos e pilhas de caixas, gente gritando ordens, descarregando apressadamente suas cargas e fazendo arranjos apressados para viagens. Dois homens discutiam pertod e um caixote quebrado cheio de lagostas, as garras se esticando livremente através das ripas de madeira rachadas. Gaivotas grasnavam por todos os cantos, mergulhando preguiçosamente, pegando os pedaços de peixes e pães largados pelo chão. O cheiro do porto; sal, alcatrão e a fraca e duradoura essência de podridão, flutuava sobre as ondas de ar quente. Colin saia do caminho com extrema velocidade e agilidade surpreendente para os lados. Enquanto se esforçava, olhando de um lado para outro em busca da estrada de terra que levava para dentro da floresta, cedeu aquele familiar sentimento de derrota que sempre acompanhava a perda da noção do tempo. Sua governanta, Shiv, ficaria seriamente preocupada. Mas a culpa não era realmente toda de Colin; ele ainda podia sentir as lágrimas escorrerem pelo rosto ao cumprir a sua última entrega de mapas para um de muitos clientes de Lady Levoreth, e o homem fora tão gentil que fez com que Colin permitisse as lágrimas de felicidade que ameaçavam transbordar.

Mas, no entanto, Colin estava frustrado. Era uma frustração que ele sentia muito frequentemente. Para sua infinita humilhação, Colin não tinha relógio interno. Um minuto podia parecer longo como uma hora ou um dia. No espaço de um segundo, ele podia experimentar a sensação de todo um mês, e todo um mês podia passar para ele como um segundo. Quando era mais jovem, ele enfrentava dificuldades diárias por causa disso. Quando alguém lhe fazia uma pergunta, ele pensava por um momento e de repente descobria que todos estavam rindo dele há uns bons cinco minutos. Certa vez ele esperou durante seis horas na escadaria da biblioteca pública por um amigo que nunca chegou. E para ele sempre parecia que era hora de ir para a cama. Ele teve que aprender a compensar a ausência de seu relógio interno e, agora que tinha quase oito anos, raramente perdia a noção do tempo durante as conversas. Agora a mente de Colin era tão ágil quanto o seu corpo, e ele quase sempre conseguia dar a última palavra. Na verdade, era essa tendência que muitas vezes causava problemas entre ele e Shiv: Colin ainda tinha que aprender que dar a última palavra nem sempre era uma boa ideia. Ele observava as pessoas á sua volta para saber a hora das refeições, das aulas e de dormir.

No caderno de desenhos que sempre levava na mochila, começou a registrar cuidadosamente seus dias; mapas do passado e do futuro que o ajudavam a se guiar pelo vasto abismo do tempo imensurável. Mas não ter noção do tempo ainda o perturbava de outras maneiras. Colin tinha muito orgulho de sua competência; sua capacidade de andar por Lindros e Crydee e por lugares ainda mais distantes e estranhos conforme crescia e acompanhava Shiv em suas viagens, seus trabalhos cuidadosamente disciplinados na escola, o que o fazia popular entre os professores, mas não tanto entre os colegas, sua capacidade de ordenar e dar sentido ao mundo, razão pela qual todos os amigos de Shiv comentavam que Colin era muito sábio para a idade. Tudo isso significava muito para ele, mas mesmo assim não compensava a falha que o fazia parecer, a seus próprios olhos, tão leviano e distraído, como alguém que não possuísse todas essas habilidades. Ser de uma família famosa pela noção de tempo e direção tornava tudo ainda mais doloroso. Seus pais tinham bússolas e relógios internos dignos de grandes exploradores. Lady Levoreth podia dizer as horas, até os segundos, sem olhar para o relógio, e não havia encorajamento da parte dele que pudesse persuadir Colin a esquecer esse pedaço de si que ele acreditava ter se perdido.

Colin nunca falava sobre isso com a governanta, mas ele tinha uma terrível suspeita sobre como veio a perder sua noção do tempo. Ele se imaginava ainda bem criança, esperando por seus pais diante de uma janela empoeirava. O relógio do pequeno Colin corria sem parar, primeiro pacientemente, depois com preocupação e, finalmente, beirando o desespero, contando os segundos enquanto seus pais não voltavam. Então, quando ficou claro que a espera era inútil, o pequeno relógio simplesmente se quebrou, deixando-o sem os pais e sem nenhuma noção do tempo. Entretanto, por mais que Shiv amasse seu filho adotivo, ela não podia passar o tempo todo com ele, e o fluxo constante de aprendizes que ela contratava para ajudá-la nas tarefas combinadas de cartografia e cuidados infantis era propenso ás mesmas distrações que ela. Enquanto sua governanta e seus assistentes se debruçavam sobre mapas, o Colin de três anos passava boa parte do seu tempo sozinho, muitas vezes esperando por seus pais com as mãos e o rosto literalmente pressionados contra a janela. Em sua memória; em sua imaginação, esses momentos duravam longas horas de uma espera sem fim. O sol nascia e se punha, pessoas passavam pela janela constantemente, mas ele continuava esperando, ansioso. Na ocasião, a figura de sua imaginação se obscurecia, o que lhe fazia parecer não uma criança pequena, mas quase um adolescente, esperando por tantos anos na janela.

E, de fato, sua governanta ás vezes encontrava o Colin crescido ali sentado, perdido em pensamentos, o queixo apoiado na mão e os olhos azuis focados em algo muito além do alcance da visão; como se ele pudesse ver muito além como uma águia. E então, em meio a todos os gritos e a toda a animação, ele avistou cerca de uma dúzia de pessoas cobrindo a sua visão da estrada de terra. Com um esforço monumental, afastou o pensamento das quatro goras que havia perdido. E então ele correu pela trilha. Estava quase chegando. Colin quase se arrastava ao longo da estrada, tentando decidir o que poderia dizer a Shiv graças ao seu atraso. A verdade? Certo; ele havia perdido o horário da entrega de pergaminhos e mapas graças a um simples javali que acabou atacando um mercador. Mas o que ele deveria fazer? Ir embora sem ao menos reagir ao ataque? Deixar o mercador cuidar de um javali sozinho? Mas ao fim de tudo ele acabou reagindo ao ataque do javali, salvando o mercador da criatura e distraindo-a, levando longos e preciosos minutos correndo e quase se perdendo pela floresta e o controle de seu poder. Agora Colin estava indo de encontro para uma explicação bem detalhada para Shiv. Ele serpenteou por um beco de pedras e madeira, descendo entre as casas densamente povoadas. A fumaça espiralava em torno das chaminés, seu aroma misturando-se às folhas verdejantes e à resina das cascas das árvores ao redor. Colin inspirou o aroma familiar. 

Col - Epa! 

Seu pé parou em pleno ar. Ali, no meio do ramo-via, havia um aglomerado de cerdas. O minúsculo ouriço enroscou-se em uma bola espinhenta, determinado a defender seu território. Desviando-se da criatura com cuidado, Colin franziu a testa. Se o Império conseguisse o que planejava, os animais de Arborium não seriam mais do que pestes a serem erradicadas. Um minuto depois ele dobrou a esquina, e seu coração se iluminou. Colin vivia com Lady Levoreth em Crydee, em uma robusta casa de pedras e madeira que seus avós haviam construído. A residência era adornada com persianas brancas, paredes tomadas pelas trepadeiras e uma águia de ferro empoleirada discretamente sobre o portão de entrada, feito de maneira similar aos das das casas vizinhas da calma rua, exceto por uma placa verde, em formato oval, pendurada sobre uma porta vermelha, que anunciada; Lady Levoreth. Cartógrafo. Na verdade, a placa tinha pouca utilidade, porque todos que procuravam Lady Levoreth sabiam exatamente onde encontrá-la; além disso, eles sabiam que o mero título "cartógrafo" não chegava perto de descrever sua ocupação. Ela era mais uma historiadora, uma geógrafa e uma exploradora do que um simples cartógrafo. E, além de professora na universidade, era também consultora particular para exploradores funcionários do governo.

Qualquer um que precisasse de conhecimento especializado da história e da geografia do Novo Mundo encontrava seu caminho na porta de Lady Levoreth. Eles vinham ver Shiv porque ela simplesmente era a melhor, e não apenas uma governanta, o que era pouco motivo de sua fachada. Em um tempo em que a maior parte do mundo ainda não havia mapeado e ninguém conhecia nada além de algumas eras, ela era a mais experiente. Embora fosse fosse jovem para um mestre cartógrafo, ninguém era páreo para Shiv em amplidão de conhecimentos e habilidades. Ela dominava a história de cada continente conhecido, podia ler os mapas de cada civilização conhecida no Novo Ocidente e Oriente e, o mais importante, ela mesma podia desenhar mapas brilhantes. O grande cartógrafo que a treinara disse que chorou maravilhado quando Shiv Levoreth apresentou seu primeiro mapa completo do Novo Mundo. Ela tinha a precisão e a habilidade artística de qualquer desenhista, mas era seu profundo conhecimento que fazia dela alguém tão extraordinário. Tendo crescido rodeado pelo trabalho de sua governanta, Colin ás vezes tinha dificuldade em ver como ela era excepcional. Ele achava a criação de mapas uma profissão nobre, culta e um pouco confusa. A sua casa era forrada do teto ao chão com mapas.

Mapas de mundos contemporâneos, antigos ou imaginários cobriam cada centímetro de parede. Livros, canetas, compassos, réguas e mais mapas jaziam abertos ou enrolados como pergaminhos, ocupando cada superfície. A sala de estar e a biblioteca transbordavam de equipamentos, e até a cozinha havia começado a encolher, á medida que os balcões e armários se tornavam abrigos para mapas. Colin se movia como uma pequena ilha de arrumação pela casa, endireitando livros, enrolando mapas, recolhendo canetas, no esforço de conter a maré cartográfica á sua volta. Os únicos lugares relativamente arrumados eram o quarto dele, onde guardava alguns poucos mapas e livros selecionados, e um terceiro andar da casa, onde vivia a governanta Levoreth. Colin respirou fundo. Pelo menos estava de volta. O sol acabava de se levantar acima das árvores quando Colin se aproximou da casa de pedras e madeira. Uma fina espiral de fumaça saía pela chaminé, e Colin calculou que Shiv já tinha acordado. Ele deixou os paralelepípedos pelo caminho estreito e oscilante que foi consumido pelas pessoas levemente. O barulho de passos era familiar, acolhedor.

Col - Alguém em casa? 

Colin subiu na varanda que havia num dos dos lados da casa, hesitou um momento e então, abriu a porta. Lampiões a gás, fixos nas paredes, bruxuleavam na brisa. Colin se firmou quando o calor abafado aqueceu seu corpo úmido. 

- Aqui, Colin.

Falou uma voz fraca. Sua mãe estava enroscada em uma grande cesta perto da lareira. Os olhos opacos voltaram-se na direção de Colin. Shiv era uma mulher alta, de cabelos pretos e gosto por relógios caros e anéis requintados no dedo mindinho. Suas roupas, sendo vestidos e quimonos reveladores feitos sob medias, não conseguiam esconder seus ombros e o decote que acentuava seus seios grandes. Colin sorriu nervosamente para ela, raspando as botas contra o assoalho de madeira.

Shi - Teve um bom dia? 

Col - Foi tudo bem.

Mentiu Colin. Ele estava molhado, cansado, e seu mundo inteiro havia virado de pernas para o ar. Tudo bem não estava nem um pouco perto da verdade.

Shi - Pelo menos você chegou na hora.

Ela resmungou. 

Shi - Imaginei. Está piorando, não é?

Col - O que eu faço?

Perguntou Colin, exausto de tanta preocupação.

Shi - O que devemos...

Sua irmã respondeu. 

Shi - Você perdeu o controle. Em algum momento, alguém sairá ferido.

Colin ouvira a história de soldados mortos em batalha pelas mãos de feiticeiros, seus corpos derretidos ao ponto de ficarem irreconhecíveis e almas partidas em duas. Ele se sentia miserável, sabendo que carregava um poder de tamanho potencial destrutivo. Ele queria se odiar, mas estava anestesiado pelo fluxo constante de emoções que sentira ao longo do dia.

Shi - Pedi a ajuda de um profissional.

Disse Shiv. O estômago de Colin revirou. Só havia uma profissão que lidava com o seu tormento. 

Col - Um anulador?

Ele disse, sem ar.

Shi - É um amigo. Alguém que eu já devia ter chamado há muito tempo.

Disse Shiv. 

Shi - Pode confiar na discrição dele.

Colin afirmou com a cabeça. Ele sabia que a vergonha era iminente. Mesmo que o homem não contasse a ninguém, como sua mãe garantia, ele ainda saberia. E as curas... Ele não queria pensar nisso.

Shi - Ele vem para uma consulta pela manhã.

Disse ela, dirigindo-se para as escadas. 

Shi - Esse será o nosso segredinho.

As palavras não o confortaram. Colin não era nem um homem ainda e sua vida já estava acabada. Tudo o que ele queria era se arrastar para o seu quarto e cair em um sono profundo que enterrasse todos os seus problemas na escuridão. Ele sabia, porém, que seus problemas peculiares não desapareceriam com o nascer do sol. A magia ainda crescia dentro dele, ameaçando explodir novamente a qualquer momento. O anulador chegaria pela manhã para realizar algum tratamento terrível. Colin ouvira rumores, rumores horríveis de petricita moída e engolida em poções, seguidas de momentos de dor excruciante. É verdade que o garoto queria se ver livre de sua aflição, mas parte nenhuma dele deseja passar por isso. Será que não há outro modo? Ele se questionava. É claro! A ideia atingiu sua mente como um raio. Ele se encheu de terror e de esperança ao mesmo tempo, incerto se o plano se sequer funcionaria. Mas ele sabia que era algo que precisava tentar. Infelizmente, ele estava treinando somente há sete meses. Se não passasse na avaliação da Reunião para o Dia da Escolha daquele ano, teria que esperar mais um ano até que surgisse outra oportunidade.

Como resultado, treinava incansavelmente, do nascer até o fim de cada dia. O descanso do sábado era um luxo há muito esquecido. Colin atirava flechas e mais flechas em alvos de diferentes tamanhos, em diferentes condições, de pé, ajoelhado, sentado. Ele até atirava escondido nas árvores. E praticava o uso das facas em pé, ajoelhado, sentado, lançando-se para a esquerda e para a direita. Ele treinava a jogar facas para que ela atingisse o alvo primeiro com o cabo, ou simplesmente matando-o com a lâmina. Afinal, como seu pai tinha dito, às vezes era preciso apenas assustar a pessoa em quem estava atirando, portanto era uma boa ideia saber como fazê-lo. Colin praticava andar furtivamente, ficar parado como uma estátua mesmo quando tinha certeza de que tinha sido descoberto e aprendeu que, com muita frequência, as pessoas simplesmente não o notavam até que ele realmente se mexia. Aprendeu o truque que os buscadores usavam, deixando que o olhar passasse de um determinado ponto e de repente voltasse a olhar para ele para captar qualquer movimento, por menor que fosse.

Aprendeu sobre as sentinelas da retaguarda, que seguiam um grupo silenciosamente na esperança de pegar qualquer pessoa que não tivesse sido vista, e então saíam do esconderijo quando o grupo tivesse passado. Ele trabalhava com Zirrel, fortalecendo o elo e a afeição que tinham se formado muito depressa entre os dois. Aprendeu a usar os sentidos aguçados do faro, da visão e da audição da pequena águia para o avisar de qualquer perigo e aprendeu a interpretar os sinais que a águia enviava para seu caçador. Mas nenhuma de seus treinamentos incluía magia. Nunca e jamais. Até agora. Colin se sentia capaz de andar, ainda que com movimentos contidos e tentando suprimir as caretas de dor. Fez seu caminho margeando o rio Abissal, tendo por companhia o cheiro forte das águas escuras e Zirrel, que se juntara ao dono assim que o rapaz botou os pés para fora de casa, sem que fosse necessário qualquer chamado. Durante a tarde profunda, Colin refez seus passos, de volta pelo arco de alabastro, passando pelo bulevar, esgueirando-se pelos guardas nos portões. Ao norte, ele encontrou a Estrada Memorial, e seguiu-a por quilômetros antes de alcançar o local de treinamento que ele e Zirrel usavam.

Seu coração galopava no peito. Colin tinha observado pacientemente o passar das horas, esperando o momento em que a luz estaria fraca e os guardas estariam bocejando na última hora de seu turno. O dia tinha sido um dos piores de que podia se lembrar. Enquanto os colegas comemoravam, aproveitavam o banquete e se divertiam barulhentamente pelo castelo e pela vila, Colin tinha se escondido no silêncio da floresta a cerca de quilômetros dos muros do castelo. Ali, na sombra verde e fresca das árvores, ele tinha passado a tarde refletindo tristemente sobre o que tinha acontecido no seu último trabalho e a perseguição, sofrendo com a Floresta dos Corvos e o javali. À medida que o longo dia se arrastava e as sombras começavam a ficar mais compridas nos campos abertos ao lado da floresta, ele tomou uma decisão. Tinha que saber como controlar esse poder sozinho. E seria naquela noite. Quando ele finalmente caminhou a uma boa distância na floresta, ficou grato ao encontrar a familiar clareira. Ele levantou a mão, observando como uma chama azul acendeu na vida em sua mão direita, e uma negra em sua esquerda. Ele piscou e bateu nas palmas das mãos, brilhando na escuridão da noite. Ele sabia que seus olhos azuis também estavam brilhando; mas também alternavam de azul para um vermelho de um rubi bruto.

Se qualquer povo da cidade o visse, ele simplesmente apagaria suas memórias. Sua magia cresceu o suficiente para ele ser capaz de fazer isso. Mas não conseguiu localizar aquela sensação de controle que havia escapado dele, e sentia-se mal pelo fato de ser capaz de apagar as memórias das pessoas, mesmo que sejam apenas as cenas ocorridas e capturadas pelos olhos das pessoas. Ele sentiu outra pontada no peito e sentiu-se mal do estômago. Ele cerrou as mãos, observando as chamas se dissiparem, sentindo o calor desaparecer. Ele olhou para o nada, observando as sombras dos animais caminhando pela floresta. O que ele estava pensando? Confiando em si mesmo para poder controlar-se, sozinho? Ele perdeu a maldita mente? Mas aquela sensação de despedaçamento em seu peito lembrou-lhe exatamente o que tinha acontecido e por que ele escorregou em primeiro lugar. Não era o controle da mente ou a persuasão, tanto quanto ele desejava poder atribuir a isso. Não, ele se apaixonou por aquilo; pela magia. O fogo quer queimar. A água quer fluir. O ar quer se erguer. A terra quer unir. O caos quer devorar. Devorar. A palavra disparou um arrepio que atravessou o corpo de Colin. Ele caiu de costas no chão, olhando para o céu enquanto o frio da noite começava a afundar em seus músculos. 

Ele sentiu algo pingar em suas roupas e olhou para baixo para ver as gotas molhadas. Ele levou a mão às bochechas e fechou os olhos enquanto os secava. Eles só continuaram a piorar à medida que mais lágrimas quentes escorriam por suas bochechas.Quando não parecia que as lágrimas parassem, porque até mesmo seu corpo o estava traindo agora, ele deixou acontecer. Ele deixou os soluços em seu corpo enquanto suas mãos apertavam seu cabelo. Ele se enrolou em si mesmo, mortificado com seu próprio comportamento, mas continuou a deixar seu corpo assumir o controle. Ele odiava isso. Ele odiava o modo como o coração dele apertava seu peito, odiava o jeito que seu estômago fazia, como se fosse forçá-lo a vomitar. Ele odiava que seus pulmões parecessem que iam desmoronar, e até seus olhos estavam começando a doer. Seu corpo inteiro parecia estar se desmoronando e ardendo em chamas. Colin respirou fundo, deleitando-se com a maneira como o frio queimou todo o caminho até a garganta. Ele continuou a se sentar no escuro e, eventualmente, seus soluços se desvaneceram no silêncio quanto mais ele se sentou. Colin finalmente relaxou seu corpo, envolvendo seus braços ao redor de suas pernas para abraçá-los em seu peito. 

Seus olhos caíram sobre a pequena marca circular em seu pulso esquerdo e só conseguiu forçar outro duro golpe em suas emoções. Ele desenrolou os braços de suas pernas e focou na marcação similar a uma bússola negra. Ele fungou antes de girar os dedos lentamente no ar. Uma formação de luz azul, como plasma, rodou em sua mão e ele a segurou antes de forçar a marcação em seu pulso. Ele apertou a mandíbula com a dor lancinante que veio antes de finalmente remover seus pensamentos e porque ele estava ali, afinal. A marcação ainda estava lá, para seu desgosto. Sua magia não poderia removê-lo. Era algo que Shiv havia tatuado em seu braço, embora Colin não soubesse o motivo, mas o menino suspeitou que aquilo, de fato, era uma runa. Ele finalmente enxugou os olhos com a palma de suas mãos antes de deixar uma respiração instável. Colin olhou para o céu mais uma vez. As coisas nunca foram fáceis. A vida nunca foi fácil para ele, e ele apenas se fortaleceu para se defender contra seus constantes ataques. Ele suspirou. A raiva ainda estava lá, ainda agarrada ao seu peito e ao seu coração, mas foi esmagada pela tristeza que forçou a solidão sobre o seu ser. Ele engoliu antes de empurrar o chão para ficar de pé.

- Wo-ow! Basta olhar para todas essas luzes!

Uma voz feminina exclamou, alegre e admirada. Colin congelou no lugar. Será que alguém havia escutado ele chorando, ou simplesmente era uma garota perdida no meio da floresta á noite? Na verdade, por que uma garota ficaria tão tarde em uma flores, á noite? Seus olhos acompanharam o rio da mesma maneira, apesar de não ter certeza do que procurava e se haveria algum sinal. Uma parede de rocha escarpada se ergueu atrás dele e a água fluiu depressa até uma caverna menor onde ele só conseguia ver sombras. Colin cortava a floresta ao lado da água no escuro. Era a mais negra escuridão que ele já vira. Ele não conseguia ver nem ao menos um palmo diante de si. Seu estômago revirava. Zirrel, que voava acima de sua cabeça, fez um som baixinho. Colin ficou contente por não ser ele quem surtava. Foi então que a floresta ganhou vida ao redor deles. Eles passaram por bosques onde as árvores eram iluminadas por um lodo verde bioluminescente. A própria água parecia se iluminar onde o garoto ao lado se encontrava. Quando Colin afundou a mão no rio, a água também se iluminou ao redor de seus dedos. Ele balançou a mão no ar e ela se transformou em uma cascata de centelhas.

Col - Legal 

Ele relaxou. Aquilo era mesmo legal. Colin começou a relaxar enquanto deslizava silenciosamente pela floresta e a água iluminada.

- Se eu fosse um grande sapo, eu moraria aqui também.

Colin ouviu aquela voz novamente e seguiu o rio até alguns arbustos á frente, onde ele viu pequenas bolinhas roxas brilharem á noite na floresta como vaga-lumes. Foi então que ele soube que eram realmente vaga-lumes. Ele nunca havia visto vaga-lumes antes e teve que admitir que eram os insetos mais belos que ele já mais vira. A luz que eles emitiam era bruxuleante e etérea, como se fosse mágica. Mas, o que acabou com sua atenção, foi o grande sapo verde que estava na beira do lago ao lado de uma garota estranha que ele nunca havia visto antes. O sapo, no entanto, era maior do que qualquer outro sapo normal que Colin havia visto. Ele não conseguia imaginar uma criatura tão pequena conseguir atingir aquele tamanho. Certamente, ele chegaria á altura de um jovem adolescente de 15 anos, mas Colin sabia que ele poderia ficar ainda maior se andasse nas duas patas traseiras; conseguindo até ultrapassar um homem adulto. Terror tomou conta de seu estômago mais uma vez e, por algum motivo desconhecido, ele se acalmou com a visão da garota que estava ao lado do sapão. Ela era linda, Colin teve que admitir. Pele como a primeira neve de um inverno crydeano, cabelos negros como a obsidiana que reveste a terra e os olhos de uma prisão de ouro. Uma bela sedutora para seus olhos azuis. Ela vestia uma simples jaqueta de couro preto curto e calças largas na altura dos joelhos. O mais estranho, porém, eram as grandes orelhas e a sua cauda felpuda dançando às suas costas que lembravam Colin a uma raposa.

- Nós seremos vizinhos então.

Ela disse. No entanto, o sapo não respondeu. Colin ergueu uma sobrancelha, seu rosto cortando em confusões estranhas e carrancas engraçadas, duvidando se ela estava falando mesmo com o sapo ou não.

- Mm...? À noite, podemos ver as luzes e jantar juntos.

Ele inclinou a cabeça e olhou para o verdão.

- Espere, você realmente come insetos?

Ela perguntou, confusa.

- Não é como eu culpo, mas eu não gosto deles.

Colin soltou um suspiro. Ele não pensara direito. A garota apenas não sabia que ele estava ali observando, como também que conversara com um sapo gigante.

- Não se preocupe com isso. Eu posso manter um segredo.

Ela afirmou, sorridente, mas com um leve tom como se estivesse se gabando.

- Então, um amigo meu grita como uma menininha quando vê uma aranha.

Colin não sabia o que fazer. Ele tentou o máximo que pôde para abafar seu riso. Ele não podia correr o risco de ser descoberto. Colin sentiu um olhar penetrante e ergueu os olhos. O sapão encarava-o com olhos imensos, um tom preto-esverdeado e amarelo com as pupilas dilatadas horizontalmente. Um arrepio atravessou seu corpo diante aquela visão, junto com algo mais, uma sensação que ele não conseguia definir, como se coçasse do lado de dentro da cabeça ou como se sentisse fome ou sede.

- Quem está aí? 

A garota olhou para cima. Ela ergueu uma das mãos, na defensiva, ocultando parte do rosto. Sentindo-se um idiota, Colin acenou.

Col - Sou só eu. Estou um pouco... perdido... e como vi uma luz vindo daqui, eu...

Ela pegou seu olhar, fez uma pausa, e então sorriu como se fosse Natal. Colin foi silenciado em um instante.

- Você está me espionando!

Ela berrou.

- Você me seguiu até aqui?

Col - Não, eu...

- Eu é que digo! Você não vai machucar o Thrul! 

Col - Quem? 

Perguntou Colin, perdido, um olho no animal e outro na garota, que parecia esquadrinhar o menino com muito cuidado, à procura de algo. 

Col - O sapão?

- Thrul, o sapão! 

Corrigiu a pequena, impaciente.

Col - Olha, me desculpe...

A menina o encarava, olhando para cima e para baixo, mas não parecia com raiva. Aquilo o inquietava, assim como seus traços faciais, que eram os de uma menina muito bonita. Se Colin pudesse julgar, ele diria que ela se parecia mais com uma boneca de tão bonita que era. Não era realmente humana, ele notou pela cauda e as orelhas de raposa, mas não soube de onde ela era também. Colin não percebeu por quanto tempo esteve olhando quando ele viu as feições da menina se suavizarem e ela gargalhar, como uma criança sentindo cócegas. Colin quase a acompanhou, mas, naquele momento, até rir era doloroso. 

Kat - Meu nome é Katrin.

Disse a pequena; que só ganhava no tamanho pelas grandes orelhas de raposa, mesmo eles tendo o mesmo tamanho diminuto, colocando a mão direita, pequena, delicada e leve, dentro da mão calejada de arqueiro de Colin. 

Kat - E você já conhece o Thrul. Ele pediria desculpas se pudesse falar. 

Col - Seria ótimo.

Disse Colin, já imaginando como seria a voz do sapão verde. Naquele momento, Zirrel passou sobrevoando o local com um grasnar irritado. 

Kat - Uma águia! 

Gritou Katrin, apontando para o céu, empolgada, como se não as visse todo dia. 

Kat - É tão difícil que elas se aproximem de pessoas! 

Col - Ah, é a Zirrel.

Disse Colin, erguendo o braço para que a ave viesse ao seu encontro, o que logo aconteceu. 

Col - Se ele pudesse falar, perguntaria: “O que você está fazendo aí com uma garota estranha que tem orelhas e uma cauda de raposa e um sapão?” 

Zirrel fechou as garras ao redor do pulso do dono, e ficou com as asas abertas por um instante, exibindo-se. Ela sabia que tinha plateia. Katrin se aproximou da ave, maravilhada, a mão estendida para tocá-la. 

Col - Cuidado que ela bica… Ei! 

Na verdade, a águia parecia estar aproveitando o carinho nas penas. 

Kat - Ela é incrível! 

Col - Ela é um traidora, isso sim.

Resmungou Colin, com uma pontada de ciúme. Katrin ignorou o comentário, tocando o ameaçador bico da águia sem o menor receio. 

Kat - E ela veio até você de boa vontade! 

Col - É, acho que sim… Mas não é sempre que ela se comporta como um patinho carente. 

Katrin riu de novo, em seguida olhou para cima, a cabeça inclinada e os olhos de um belo âmbar bruto brilhando. Ela parece um sujeitinho que se contenta com pouco, Colin pensou, sentindo simpatia pela menina. A dupla virou-se assim que escutou o barulho de passos. Thrul estava se afastando deles.

Kat - Já estou voltando.  

Então, Katrin subiu nas costas de Thrul com um salto ágil. Emparelhado com Colin, sorriu para ele.

Kat - Você é um humano bom. Nenhum animal se conecta a alguém com más intenções. 

Um elogio? Colin não soube como reagir. Quem faz elogios a um estranho em uma floresta? 

Col - Hã… obrigado? E agora vou levar o meu jantar, Kat. Já estou tomando o meu rumo. 

Katrin, como se estivesse protegida por uma aura de inocência, não disfarçou o riso e apontou para o “jantar”de Colin. 

Kat - Sei que a águia se chama Zirrel, mas não sei seu nome! 

Col - É Colin Hunt. 

Kat - Colin.

Repetiu a menina, levantando a mão e acenando para ele. 

Kat - Muito obrigada por isso. Por se importar. Espero que um dia possamos ser amigos!

O caçador ficou em silêncio, sentindo o aperto familiar das garras da ave no protetor do pulso. Thrul se afastou a passos pesados pela floresta, mas Katrin continuava sorrindo para o rapaz, contente. Fez um último aceno antes de voltar a atenção para o caminho à frente e gritar, sem ligar para o que os animais naquela noite ao redor pudessem pensar: 

Kat - Lembre-se: você não é tão mau quanto parece, Colin. Ninguém é! Você é um humano bom. E tchau, Zirrel! 

Colin franziu as sobrancelhas. Eu não quero esse dom. Mas ele me dá vida. Colin pesou seus pensamentos, mas apenas por um instante. Ele já estava decidido. A vida para mim é muito valiosa. Mas o meu dom é tudo. Nunca o perderei. Ele se recompôs e colocou a águia com cuidado sobre seu ombro. Juntos, iniciaram o retorno até a cidade para enfrentar o que os aguardava. O sol começava a brilhar no horizonte quando Colin retornou à casa. Sombras se extinguem diante da luz, pensou ao girar o trinco da porta da frente. Ele entrou na casa e viu sua governanta sentada na sala ao lado de um homem calvo de meia-idade, que trazia uma maleta exótica com tinturas médicas no colo.

Shi - Colin, que bom que você decidiu voltar para casa.

Disse Shiv por entre seus dentes cerrados. Colin olhava com preocupação para o homem no sofá.

Shi - Este é o homem de quem eu falei. 

Sua mãe sussurrou. 

Shi - Aquele que vai consertar o seu... problema.

Colin sentia-se distante, como se o seu espírito estivesse deixando aquele corpo para observar o que ele diria.

Col - Sabe de uma coisa, Shiv? 

Disse ele, sua voz tremendo com as palavras que ele ansiava há tempos em dizer. 

Col - Não sei se quero ver este homem. Na verdade, quero que você o mande embora.

O anulador pareceu ofendido. Ele ergueu-se e jogou a bolsa por cima do ombro.

Shi - Não, fique.

Implorou Shiv. Ela cercou Colin e passou a falar com autoridade.

Shi - Você não sabe o que está dizendo. Este homem arriscou tudo para ajudá-lo. Este é o único jeito de você ser um crydeano. Esqueceu-se da sua afli-

Col - Não tenho uma aflição!

Colin gritou. 

Col - Sou rápido, ágil, forte e sábio. E um dia vou provar isso para todo o reino! E se alguém tiver algum problema comigo, tenho um amigo com garras enormes com quem podem conversar.

Zirrel gritou em aprovação e desafio. A passos largos, Colin dirigiu-se para o quarto, deixando sua mãe sozinha com o anulador. Quando Colin caiu na cama, ele soltou um suspiro profundo e tranquilo. Pela primeira vez em muitos anos, sua mente estava calma como um lago no verão. A luz que outrora explodia de dentro de si continuava lá, mas era possível sentir seu início e seu fim, e ele sabia que um dia poderia dominá-la. Ao cair no sono, ele percebeu que seu mantra estivera errado o tempo todo. Luz nenhuma poderia matar sombras. Sombras crescem ao lado da luz, ele pensou. Soava muito melhor.

Continua...



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