História Anjo da Noite; "Guardiões Sombrios" - Capítulo 2


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Aventura, Comedia, Demonios, Drama, Drogas, Espíritos, Lobisomens, Magia, Policial, Revelaçoes, Romance, Sobrevivencia, Vampiros, Violencia
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Palavras 4.801
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Ecchi, Fantasia, Ficção, Ficção Adolescente, Ficção Científica, Hentai, Luta, Magia, Mistério, Policial, Romance e Novela, Sobrenatural, Survival, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Álcool, Incesto, Insinuação de sexo, Nudez, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - "A Águia e seu Menino"


Fanfic / Fanfiction Anjo da Noite; "Guardiões Sombrios" - Capítulo 2 - "A Águia e seu Menino"

As sombras se extinguem diante da luz, repetia o garoto. As palavras eram um mantra que ele costumava proferir para se tranquilizar quando sentia que estava perdendo o controle. Apesar dos seus 7 anos, Colin já era experiente no uso de truques como esse para amenizar os sintomas de sua aflição. Hoje, no entanto, as palavras pouco ajudaram. Hoje, Colin precisava ficar sozinho e, apesar de tudo, ele conseguiu sorrir, mas foi também o dia em que ele mudou sua vida para sempre ao perder a noção do tempo. Ele havia começado o dia prestando muita atenção no horário. Jakov o tinha feito esperar do lado de fora por uma hora antes de deixá-lo entrar, com a condição de que Colin lhe pagasse um drinque da próxima vez que os dois estivessem na taverna. Antes que pudesse se deitar, Colin teve de estripar e esfolar o alce, além de cortar a carne e pendurá-la junto à lareira para secar. O rapaz se permitiu apenas uma única fatia suculenta, assada por alguns poucos minutos no fogo, antes que ele perdesse a paciência e devorasse tudo. No inverno era sempre melhor salgar e secar a carne para mais tarde; Colin geralmente não tinha como saber quando faria a próxima refeição.

Parecia estranho voltar para o castelo e a cidade-grande depois de todos aqueles anos. Colin se virou ao pé do morro com a pequena trouxa de pertences jogada por cima do ombro e olhou para os muros imensos. O Castelo de Prata dominava a paisagem. Construído no alto de uma grande colina, voltado para o oeste, ele tinha uma estrutura triangular maciça e uma torre em cada um dos três cantos. No centro, protegido pelos muros altos, estavam o pátio do castelo e a fortaleza, uma quarta torre que se elevava acima das outras e que continha a residência oficial do barão, seus aposentos particulares e os de seus oficiais superiores. O castelo tinha sido construído com minério de ferro; uma pedra quase indestrutível e, sob o sol fraco da manhã ou da tarde, parecia emitir um brilho interno de prata. Era essa característica que lhe dava nome: Montanha de Prata. Ao pé da colina e do outro lado do Rio Tarbus estava a vila de Wensley, ou autoproclamado favelas, o seu alvo e um grupo confuso e alegre de casas e torres, uma pousada e as lojas dos artesãos; uma tonelaria, uma oficina de conserto de rodas, uma ferraria e uma selaria.

Parecia uma pequena cidade com torres e casas empilhadas umas nas outras. Parte das terras ao redor tinha sido desmatada para proporcionar áreas de cultivo para os moradores da vila e evitar que os inimigos pudessem se aproximar sem ser vistos. Em épocas de perigo, os moradores conduziam seus rebanhos para o outro lado da ponte de madeira que cruzava o Tarbus e buscavam abrigo atrás dos muros maciços do castelo, protegidos pelos soldados do barão e pelos cavaleiros treinados na Escola de Guerra de Montanha de Prata. O prédio que Colin procurava era muito parecido com uma bigorna. Havia um homem parado á entrada da forja, com os olhos verdes e os cabelos ruivos iluminados pelo fogo. Era de longe o maior homem da vila, e as longas horas martelando o metal na forja lhe concederam ombros largos e um peitoral sólido como um barril. Ele fazia com que Colin, um rapaz pequeno e magro, parecesse ainda menor. 

Ber - Bem como eu pensava. Você precisa se livrar dessa cara lisa. Minha tia Gerla tinha um bigode mais grosso que esse. Livre-se dessa cara de bebê até que você tenha uma pelugem de verdade, como o meu. 

Os olhos de Berdon brilhavam enquanto ele torcia as pontas do próprio bigode ruivo que se eriçava, espesso, acima da barba grisalha. Colin controlou-se para não admitir que o ferreiro parecia ridículo daquele jeito, enquanto abafava uma risada. Mas Colin também sabia que o ferreiro tinha razão. Ele era pálido, o que não era surpreendente, já que estava tão ao norte da Ilhas Orientais. Os verões eram curtos em Crydee, onde o garoto passava algumas curtas, mas divertidas, semanas com os outros meninos na floresta, pescando trutas nos córregos e assando avelãs na fogueira. Era a única época na qual Colin não se sentia um forasteiro. A expressão dele era séria, com maçãs do rosto definidas e olhos azuis um tanto brilhantes e profundos. O cabelo era uma bagunça de branco como neve, embora alguns alegam ser cinza-claro, que Shiv Levoreth era obrigada a literalmente tosar quando ficava selvagem demais. Colin sabia que não era feio, mas também não exatamente belo se comparado aos meninos mais ricos, bem alimentados, de cabelos loiros e bochechas coradas da vila. A forja estava iluminada pelo incandescer suave dos carvões, que soltavam uma leve fumaça enquanto queimavam.

Ber - Tenho alguns presentes para você; cortesia da Lady Levoreth. Você vai precisar de proteção. Tome isto.

Anunciou Berdon. Havia um cavalete de armas na parede oposta. Berdon selecionou um arco dos fundos, onde ficavam os itens mais raros. Ele a ergueu contra a luz. A primeira reação de Colin foi de surpresa, pois era a primeira vez que ele havia visto um arco como aquele. As pessoas usavam arcos para caçar. Todo mundo tinha um arco. Era mais um instrumento do que uma arma. Quando tinha 5 anos, ele mesmo construíra vários curvando galhos de árvore verdes. Então, como abriu a boca para falar, mas não disse nada, ele olhou o objeto com mais atenção. Aquele não era um galho curvado. A arma era diferente de tudo o que Colin já tinha visto. Quase todo o arco formava uma curva comprida, como todos os outros, mas suas pontas eram viradas na direção contrária. Colin, como a maioria das pessoas do reino, estava acostumado aos arcos normais, que se curvavam numa linha contínua, mas esse era bem mais curto.

Era um arco recurvo. O brilho azul que rodeava as runas do objeto desapareceu para revelar o seu verdadeiro material feito de um galho de uma árvore de ébano. Outra vez, Colin olhou para o arco, que estava na sua mão. Agora que estava se acostumando com seu formato diferente, viu que era uma arma muito bem-feita. Muitas tiras de madeira de grossuras diferentes tinham sido coladas umas às outras, e seus veios corriam em várias direções. Era isso que formava a curva dupla do arco, como se diferentes forças empurrassem uma às outras, dando aos pedaços do objeto uma forma cuidadosamente planejada. Uma fraca luz azul turvou em sua mão enquanto ele traçava os dedos pelo objeto, seu poder sendo absorvido aos poucos e discretamente pelas runas até brilharem.

Ber - Opa, opa! Mantenha esses dedos mágicos longe do arco antes que você exploda alguém.

Instruiu Berdon, fitando o arco-rúnico com olhos arregalados.

Ber - Está é uma das minhas melhores e mais perigosas peças. Você não faz ideia de quanto tempo eu levei para encontrar as runas certas para esta coisa, sem a ajuda de um mago. Então, depois daquele incidente em Lindros, os fogos e as explosões no telhado da capela, é melhor não chamar atenção.

Col - Eu subi lá com uma... uma amiga. Não pra abrir um buraco na torre do sino.

Maria queria ver as estrelas, pensou Colin. Foi depois que ela beijou sua bochecha que os fogos começaram. O rosto de Colin ficou vermelho com a lembrança. Ele balançou a cabeça para afastar os pensamentos, segurou o arco e o examinou, perguntando-se como exatamente poderia manter o brilho das runas fora de vista, ou simplesmente impedir que isso absorva seu poder e não acabe resultando em uma explosão. Subitamente, os sinos começaram a tocar, o som metálico reverberando pelas ruas.

Ber - Tudo bem, agora vá. Eu tenho muito trabalho antes de adormecer martelando na forja hoje.

Afirmou Berdon, empurrando o menino para fora da forja, para o ar frio da tarde. 

Ber - Adeus, garoto. 

Colin olhou pela última vez o amigo e ferreiro, uma silhueta à porta. Então ela se fechou e ele estava sozinho no mundo novamente. Pelo menos não estava sozinho, embora descrever Shiv Levoreth como amiga talvez fosse um pouco demais para uma mãe adotiva. Como ela era um tipo diferente de mulher, a vida de Colin mudou drasticamente nesse ponto. Shiv era viúva e havia sido a governanta da academia de cartografia onde o pai de Colin estudara por dois anos em Nochtland, capital das Terras Baldias. A casa florescia sob seu comando, e dessa forma o espírito altamente caótico de Shadrack e seu afeto sem limites encontraram alguma ordem e bom senso. Mas logo Colin se deu conta, jovem como era, de que sua governanta precisava de mais cuidados do que ele próprio. Acabrunhada, de olhos tristes e rosto delicado e bonito, Shiv se movia pelos cômodos da casa, da mesma maneira que pelas ruas de Crydee; silenciosamente, quase temerosa, como se a única coisa que procurasse fosse um bom lugar para se esconder. Ela era uma porção de bondade melancólica e duas porções de misteriosos mal-estar. Colin ao mesmo tempo gostava dela e sentia que realmente não a conhecia. Com o tempo, simplesmente aceitou a presença da mulher e passou a depender mais e mais de si mesmo, tornando-se o independente e peculiarmente prática pessoa que era. Mas ela havia guardado tantos segredos.

Apesar de Shiv ter-lhe ensinado a fazer omelete, colar papel de parede e escolher garrafas de vinho e saquê para seus convidados na hospedaria, seus parcos conhecimentos de magia haviam sido adquiridos aos trancos e barrancos, revelados com relutância, arrancados dela como ostras de teimosas conchas. Shiv tinha a desconfiança típica dos feiticeiros em relação aos magos e a seus métodos cruéis. Essa desconfiança nascera de longos serviços prestados a um mago nas Terras Baldias, sua terra natal. Os pulsos traziam braceletes de cicatrizes sobrepostas, marcas das algemas que usara. Ela amava Colin com absoluta devoção, mas esperava que a magia dele só se manifestasse caso fosse reconhecida. Em vez disso, a magia de Colin havia se espalhado como uma trepadeira, escalando cercas e desabrochando inesperadamente por entre os paralelepípedos. Mas, à medida que ele crescia, a magia se tornava mais forte, mais perigosa, mais difícil de controlar. Ele era o feio chupim no ninho do tico-tico, impossível de ignorar. O mais jovem feiticeiro desperto e descontrolado. Ficara pior depois do abandono de Genevieve, sua mãe biológica e seu pai Shadrack. Na verdade, Colin não sabia se seus pais realmente o abandonaram. Ele mal conseguia se lembrar do pai ou da mãe. Tinha uma lembrança preciosa deles, a qual usara tanto que se transformara em algo fino, apagado e insubstancial; os dois andando de mãos dadas com ele, cada um de um lado.

O rosto sorridente dos dois o observando de longe com grande ternura. Voe, Colin, voe! Eles diziam em uníssono, e subitamente o erguiam do chão. Ele sentia a própria risada brotando, se juntando á alegria da mãe e ás gargalhadas profundas do pai. Isso era tudo. Lutou contra a sensação de estar sendo observado. Sobressaltado, Colin se deu conta de que o espaço ao seu redor havia ficado mais escuro e o ar estranhamente mais frio. Seus olhos rapidamente se abriram. Já é noite, pensou, com o pânico crescendo dentro do peito. O sol já tinha quase desaparecido do céu. Restavam pouquíssimos minutos antes que Shiv começasse a se preocupar com o menino; e ainda precisava encerrar os trabalhos com as encomendas do Poleiro. Um bando de abutres pairava acima da estrutura do Poleiro, agora bem próximo. Enquanto espantava os pombos do caminho durante a sua passagem destrambelhada, Colin esquadrinhava o ar procurando um par de asas familiar no meio do planar agourento dos carniceiros. E não demorou a identificá-lo. Um borrão dardejou contra um dos infelizes, que interrompeu seu círculo para cair em uma espiral de morte. Aquela ave não estava nem um pouco interessada em planar em sintonia com os abutres. Zirrel era menor que a maioria das águias e por isso mesmo se tornara a mascote de Colin; ele não atendia às expectativas de um bom falcão-mensageiro, mas entendia muito bem de águias como seu pai. Mirrado e rebelde, nunca voava direto para os postos onde era condicionado a pousar e sempre voltava com um rato na boca.

Em mais de uma ocasião, nublada pelas névoas do tempo, o criador antigo ameaçou sacrificar o bicho por ele ser muito dependente de cuidados, e o pequeno Colin, com o semblante impassível e as costelas marcando a pele graças à fome constante, prontificou-se a fazer o serviço. Levou o animal para longe dos olhos do homem e logo estava de volta, silencioso, quieto. O animal foi encontrado poucas horas depois, debaixo do catre no quarto de Colin, localizado em razão de estardalhaço que fazia por ter sido colocado numa gaiola improvisada e no escuro, ainda por cima. O falcoeiro se enfureceu. Após levar um sermão furioso, Colin confessou que não queria matar o bicho. Ele já havia perdido os pais e não queria perder mais ninguém. O velho falcoeiro, como qualquer outro servo de Montanha de Prata, não era muito chegado a sentimentalismos. O pouco que as pessoas se permitiam sentir ali era reservado para os familiares e entes queridos nos Campos Exteriores; isso se houvesse alguém do lado de lá os esperando no Dia de Louvor. Porém, ele se deu conta de que o pequeno Colin estava no Poleiro para pagar a dívida do antigo amigo morto e que já havia sofrido o suficiente nos últimos tempos, a ponto de ter soterrado a infância de forma definitiva. À sua maneira rude, ele se preocupava com o bem-estar do menino. 

Essas pragas comem qualquer coisa, é só deixar esse bicho solto que ele se vira. Disse o primeiro falcoeiro naquele dia distante, dando as costas a Colin e trancando a pesada porta de madeira que levava ao topo do Poleiro. E se algum guarda quiser tirá-lo de você, deixe. Não sofra mais do que pode aguentar. Mesmo após tantos anos, Colin lembrava-se bem daquelas palavras. Às vezes esquecia os nomes das pessoas, já que tantos servos iam e vinham, num eterno fluxo de morte e destinos incertos. Porém, não se esquecera do falcoeiro que lhe ensinou boa parte do ofício: Gunnar. Foi ele quem sugeriu o nome Zirrel. O velho desapareceu sem mais nem menos quando Colin tinha cerca de seis anos, o que fez o garoto assumir o comando do Poleiro por um tempo, até encontrarem alguém mais capacitado; um cargo que ninguém queria, pois o lugar cheirava a merda e mofo, ficava no topo de uma escadaria interminável e, para piorar, envolvia aves de rapina bem assustadoras. Olhou para o Poleiro novamente, e então soube que não precisava mais ir até lá para trabalhar, pois estava livre de sua dívida havia três meses. Ele sorriu enquanto caminhava pelas ruas de paralelepípedos, sabendo que precisava chegar em casa urgentemente. Olhou para cima e estendeu o braço direito. Zirrel deu uma volta completa no Poleiro, sempre descendo, e fechou as garras na faixa de couro que protegia o pulso do rapaz, olhando para ele com uma acusadora pena negra saindo da boca. 

Col - Eu aqui desesperado para não receber outra bronca da sra. Levoreth, e você aí comendo, sua galinha mimada! 

Colin riu mesmo em meio à urgência, colocando a ave no ombro e começando a correria para fora dos portões da cidade, de onde conseguiria voltar para a vila Crydee de onde nunca deveria ter saído. 

Col - Como eu queria ter nascido águia!

Correu pelas ruas até o cais de Lindros, tendo como companhia Zirrel, que sobrevoava por cima dos prédios altos. A notícia do fechamento das fronteiras havia chegado ao porto de Lindros, de modo que as pessoas correram para lá, causando uma confusão de carrinhos, barracas improvisadas de produtos e pilhas de caixas, gente gritando ordens, descarregando apressadamente suas cargas e fazendo arranjos apressados para viagens. Dois homens discutiam perto de um caixote quebrado cheio de lagostas, as garras se esticando livremente através das ripas de madeira rachadas. Gaivotas grasnavam por todos os cantos, mergulhando preguiçosamente, pegando os pedaços de peixes e pães largados pelo chão. O cheiro do porto; sal, alcatrão e a fraca e duradoura essência de podridão, flutuava sobre as ondas de ar quente. Colin saia do caminho com extrema velocidade e agilidade surpreendente para os lados. Enquanto se esforçava, olhando de um lado para outro em busca da estrada de terra que levava para dentro da floresta, cedeu aquele familiar sentimento de derrota que sempre acompanhava a perda da noção do tempo. Sua governanta, Shiv, ficaria seriamente preocupada. Mas a culpa não era realmente toda de Colin; ele ainda podia sentir as lágrimas escorrerem pelo rosto ao cumprir a sua última entrega de mapas para um de muitos clientes de Lady Levoreth, e o homem fora tão gentil que fez com que Colin permitisse as lágrimas de felicidade que ameaçavam transbordar.

Mas, no entanto, Colin estava frustrado. Era uma frustração que ele sentia muito frequentemente. Para sua infinita humilhação, Colin não tinha relógio interno. Um minuto podia parecer longo como uma hora ou um dia. No espaço de um segundo, ele podia experimentar a sensação de todo um mês, e todo um mês podia passar para ele como um segundo. Quando era mais jovem, ele enfrentava dificuldades diárias por causa disso. Quando alguém lhe fazia uma pergunta, ele pensava por um momento e de repente descobria que todos estavam rindo dele há uns bons cinco minutos. Certa vez ele esperou durante seis horas na escadaria da biblioteca pública por um amigo que nunca chegou. E para ele sempre parecia que era hora de ir para a cama. Colin teve que aprender a compensar a ausência de seu relógio interno e, agora que tinha quase oito anos, raramente perdia a noção do tempo durante as conversas. Agora a mente de Colin era tão ágil quanto o seu corpo, e ele quase sempre conseguia dar a última palavra. Na verdade, era essa tendência que muitas vezes causava problemas entre ele e Shiv: Colin ainda tinha que aprender que dar a última palavra nem sempre era uma boa ideia. Ele observava as pessoas á sua volta para saber a hora das refeições, das aulas e de dormir.

No caderno de desenhos que sempre levava na mochila, começou a registrar cuidadosamente seus dias; mapas do passado e do futuro que o ajudavam a se guiar pelo vasto abismo do tempo imensurável. Mas não ter noção do tempo ainda o perturbava de outras maneiras. Colin tinha muito orgulho de sua competência; sua capacidade de andar por Lindros e Crydee e por lugares ainda mais distantes e estranhos conforme crescia e acompanhava Shiv em suas viagens, seus trabalhos cuidadosamente disciplinados na escola, o que o fazia popular entre os professores. Mas não tanto entre os colegas, sua capacidade de ordenar e dar sentido ao mundo, razão pela qual todos os amigos de Shiv comentavam que Colin era muito sábio para a idade. Tudo isso significava muito para ele, mas mesmo assim não compensava a falha que o fazia parecer, a seus próprios olhos, tão leviano e distraído, como alguém que não possuísse todas essas habilidades. Ser de uma família famosa pela noção de tempo e direção tornava tudo ainda mais doloroso. Seus pais tinham bússolas e relógios internos dignos de grandes exploradores. Lady Levoreth podia dizer as horas, até os segundos, sem olhar para o relógio, e não havia encorajamento da parte dele que pudesse persuadir Colin a esquecer esse pedaço de si que ele acreditava ter se perdido.

Colin nunca falava sobre isso com a governanta, mas ele tinha uma terrível suspeita sobre como veio a perder sua noção do tempo. Ele se imaginava ainda bem criança, esperando por seus pais diante de uma janela empoeirava. O relógio do pequeno Colin corria sem parar, primeiro pacientemente, depois com preocupação e, finalmente, beirando o desespero, contando os segundos enquanto seus pais não voltavam. Então, quando ficou claro que a espera era inútil, o pequeno relógio simplesmente se quebrou, deixando-o sem os pais e sem nenhuma noção do tempo. Entretanto, por mais que Shiv amasse seu filho adotivo, ela não podia passar o tempo todo com ele, e o fluxo constante de aprendizes que ela contratava para ajudá-la nas tarefas combinadas de cartografia e cuidados infantis era propenso ás mesmas distrações que ela. Enquanto sua governanta e seus assistentes se debruçavam sobre mapas, o Colin de três anos passava boa parte do seu tempo sozinho, muitas vezes esperando por seus pais com as mãos e o rosto literalmente pressionados contra a janela. Em sua memória; em sua imaginação, esses momentos duravam longas horas de uma espera sem fim. O sol nascia e se punha, pessoas passavam pela janela constantemente, mas ele continuava esperando, ansioso. Na ocasião, a figura de sua imaginação se obscurecia, o que lhe fazia parecer não uma criança pequena, mas quase um adolescente, esperando por tantos anos na janela.

E, de fato, sua governanta ás vezes encontrava o Colin crescido ali sentado, perdido em pensamentos, o queixo apoiado na mão e os olhos azuis focados em algo muito além do alcance da visão; como se ele pudesse ver muito além como uma águia. E então, em meio a todos os gritos e a toda a animação, ele avistou cerca de uma dúzia de pessoas cobrindo a sua visão da estrada de terra. Com um esforço monumental, afastou o pensamento das quatro horas que havia perdido. E então ele correu pela trilha. Estava quase chegando. Colin quase se arrastava ao longo da estrada, tentando decidir o que poderia dizer a Shiv graças ao seu atraso. A verdade? Certo; ele havia perdido o horário da entrega de pergaminhos e mapas graças a um simples javali que acabou atacando um mercador. Mas o que ele deveria fazer? Ir embora sem ao menos reagir ao ataque? Deixar o mercador cuidar de um javali sozinho? Mas ao fim de tudo ele acabou reagindo ao ataque do javali, salvando o mercador da criatura e distraindo-a, levando longos e preciosos minutos correndo e quase se perdendo pela floresta e o controle de seu poder. Agora Colin estava indo de encontro para uma explicação bem detalhada para Shiv. Ele serpenteou por um beco de pedras e madeira, descendo entre as casas densamente povoadas. A fumaça espiralava em torno das chaminés, seu aroma misturando-se às folhas verdejantes e à resina das cascas das árvores ao redor. Colin inspirou o aroma familiar. 

Col - Epa! 

Seu pé parou em pleno ar. Ali, no meio do ramo-via, havia um aglomerado de cerdas. O minúsculo ouriço enroscou-se em uma bola espinhenta, determinado a defender seu território. Desviando-se da criatura com cuidado, Colin franziu a testa. Se o Império conseguisse o que planejava, os animais de Arborium não seriam mais do que pestes a serem erradicadas. Um minuto depois ele dobrou a esquina, e seu coração se iluminou. Colin vivia com Lady Levoreth em Crydee, em uma robusta casa de pedras e madeira que seus avós haviam construído. A residência era adornada com persianas brancas, paredes tomadas pelas trepadeiras e uma águia de ferro empoleirada discretamente sobre o portão de entrada, feito de maneira similar aos das das casas vizinhas da calma rua, exceto por uma placa verde, em formato oval, pendurada sobre uma porta vermelha, que anunciada; Lady Levoreth. Cartógrafo. Na verdade, a placa tinha pouca utilidade, porque todos que procuravam Lady Levoreth sabiam exatamente onde encontrá-la; além disso, eles sabiam que o mero título "cartógrafo" não chegava perto de descrever sua ocupação. Ela era mais uma historiadora, uma geógrafa e uma exploradora do que um simples cartógrafo. E, além de professora na universidade, era também consultora particular para exploradores funcionários do governo.

Qualquer um que precisasse de conhecimento especializado da história e da geografia do Novo Mundo encontrava seu caminho na porta de Lady Levoreth. Eles vinham ver Shiv porque ela simplesmente era a melhor, e não apenas uma governanta, o que era pouco motivo de sua fachada. Em um tempo em que a maior parte do mundo ainda não havia mapeado e ninguém conhecia nada além de algumas eras, ela era a mais experiente. Embora fosse fosse jovem para um mestre cartógrafo, ninguém era páreo para Shiv em amplidão de conhecimentos e habilidades. Ela dominava a história de cada continente conhecido, podia ler os mapas de cada civilização conhecida no Novo Ocidente e Oriente e, o mais importante, ela mesma podia desenhar mapas brilhantes. O grande cartógrafo que a treinara disse que chorou maravilhado quando Shiv Levoreth apresentou seu primeiro mapa completo do Novo Mundo. Ela tinha a precisão e a habilidade artística de qualquer desenhista, mas era seu profundo conhecimento que fazia dela alguém tão extraordinário. Tendo crescido rodeado pelo trabalho de sua governanta, Colin ás vezes tinha dificuldade em ver como ela era excepcional. Ele achava a criação de mapas uma profissão nobre, culta e um pouco confusa. A sua casa era forrada do teto ao chão com mapas.

Mapas de mundos contemporâneos, antigos ou imaginários cobriam cada centímetro de parede. Livros, canetas, compassos, réguas e mais mapas jaziam abertos ou enrolados como pergaminhos, ocupando cada superfície. A sala de estar e a biblioteca transbordavam de equipamentos, e até a cozinha havia começado a encolher, á medida que os balcões e armários se tornavam abrigos para mapas. Colin se movia como uma pequena ilha de arrumação pela casa, endireitando livros, enrolando mapas, recolhendo canetas, no esforço de conter a maré cartográfica á sua volta. Os únicos lugares relativamente arrumados eram o quarto dele, onde guardava alguns poucos mapas e livros selecionados, e um terceiro andar da casa, onde vivia a governanta Levoreth. Colin respirou fundo. Pelo menos estava de volta. O sol acabava de se levantar acima das árvores quando Colin se aproximou da casa de pedras e madeira. Uma fina espiral de fumaça saía pela chaminé, e Colin calculou que Shiv já tinha acordado. Ele deixou os paralelepípedos pelo caminho estreito e oscilante que foi consumido pelas pessoas levemente. O barulho de passos era familiar, acolhedor.

Col - Alguém em casa? 

Colin subiu na varanda que havia num dos dos lados da casa, hesitou um momento e então, abriu a porta. Lampiões a gás, fixos nas paredes, bruxuleavam na brisa. Colin se firmou quando o calor abafado aqueceu seu corpo úmido. 

- Aqui, Colin.

Falou uma voz fraca. Sua mãe estava enroscada em uma grande cesta perto da lareira. Os olhos opacos voltaram-se na direção de Colin. Shiv era uma mulher alta, de cabelos pretos e gosto por relógios caros e anéis requintados no dedo mindinho. Suas roupas, sendo vestidos e quimonos reveladores feitos sob medias, não conseguiam esconder seus ombros e o decote que acentuava seus seios grandes. Colin sorriu nervosamente para ela, raspando as botas contra o assoalho de madeira.

Shi - Teve um bom dia? 

Col - Foi tudo bem.

Mentiu Colin. Ele estava molhado, cansado, e seu mundo inteiro havia virado de pernas para o ar. Tudo bem não estava nem um pouco perto da verdade.

Shi - Pelo menos você chegou na hora.

Ela resmungou. 

Shi - Imaginei. Está piorando, não é?

Col - O que eu faço?

Perguntou Colin, exausto de tanta preocupação.

Shi - O que devemos...

Sua mãe respondeu. 

Shi - Você perdeu o controle. Em algum momento, alguém sairá ferido.

Colin ouvira a história de soldados mortos em batalha pelas mãos de feiticeiros, seus corpos derretidos ao ponto de ficarem irreconhecíveis e almas partidas em duas. Ele se sentia miserável, sabendo que carregava um poder de tamanho potencial destrutivo. Ele queria se odiar, mas estava anestesiado pelo fluxo constante de emoções que sentira ao longo do dia.

Shi - Pedi a ajuda de um profissional.

Disse Shiv. O estômago de Colin revirou. Só havia uma profissão que lidava com o seu tormento. 

Col - Um anulador?

Ele disse, sem ar.

Shi - É um amigo. Alguém que eu já devia ter chamado há muito tempo.

Disse Shiv. 

Shi - Pode confiar na discrição dele.

Colin afirmou com a cabeça. Ele sabia que a vergonha era iminente. Mesmo que o homem não contasse a ninguém, como sua mãe garantia, ele ainda saberia. E as curas... Ele não queria pensar nisso.

Shi - Ele vem para uma consulta pela manhã.

Disse ela, dirigindo-se para as escadas. 

Shi - Esse será o nosso segredinho.

As palavras não o confortaram. Colin não era nem um homem ainda e sua vida já estava acabada. Tudo o que ele queria era se arrastar para o seu quarto e cair em um sono profundo que enterrasse todos os seus problemas na escuridão. Ele sabia, porém, que seus problemas peculiares não desapareceriam com o nascer do sol.

Continua...



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