1. Spirit Fanfics >
  2. Anjos Entre Nós >
  3. Mahalo my kahu

História Anjos Entre Nós - Capítulo 2


Escrita por:


Notas do Autor


O título do capítulo significa "obrigada minha guardiã". Em havaiano, a palavra "mahalo" significa "obrigado" e a palavra "kahu" significa "gardião/guardiã".

Capítulo 2 - Mahalo my kahu


Mokuso (meditação). Na posição de “seiza” (sentar sobre os calcanhares, com os joelhos dobrados e a mãos sobre as coxas), Evelynn meditava no quintal, começando, assim, a sua manhã. Depois disso, treinava um pouco de artes marciais. Adorava a arte de lutar. O gosto por fazer do corpo uma conjugação de defesa e ataque era um dos legados que seu avô a deixou e que tanto estimava. O ato de lutar amplia a conexão entre o corpo e a mente, deixando esse vínculo muito mais aguçado. Você se torna mais sagaz, pois seu raciocínio e concentração são aperfeiçoados, e seus reflexos bem como coordenação motora também melhoram. E se um corpo tem vida, ganha ainda mais. Era assim que a estrutura corpórea da ex-agente se sentia quando quer que estivesse em contato com artes marciais – como ali, agora. Estava tão concentrada que não percebeu que era observada discretamente por Alice, que tinha acabado de acordar. De maneira inusitada, a professora gostava do que via – aquela mulher morena, de longos cabelos negros, que estavam presos, e de traços asiáticos, bastante compenetrada no que fazia, trajando um top e uma calça de moletom, que ia até altura do joelho, e que tinha um corpo bem definido. Ali permaneceu um tempo assim, observando e admirando a mulher que salvou sua vida. De repente, Evelynn sentiu um incômodo vindo do seu ferimento, lembrando que estava machucada. Logo, decidiu parar o seu treino e entrar. Ao retornar a cozinha, viu Alice, que prontamente parou de observá-la e se sentou num dos bancos da bancada. Eve, então, falou:

—Você acordou. Como está se sentindo? Dormiu bem?

—Tô bem… eu acho. E apesar do que aconteceu… sim, eu dormi bem. Kawai ficou comigo a noite inteira.

Evelynn se agachou e chamou seu cachorro para falar com ele. Enquanto o acariciava, dizia:

—Você é demais. Muito obrigada.

Ele balançava bastante o rabo em sinal de alegria porque sabia que sua amiga bípede era muita grata a ele por dar sua atenção e assistência à professora.

Quando Eve ficou de pé novamente, Ali percebeu um curativo no abdômen dela e que estava vermelho. Sendo assim, não pôde deixar de indagar a ex-agente quanto aquilo.

—O que foi isso? – perguntou apontando para o machucado de Evelynn.

—Isso? – falou olhando para a região machucada – Não é nada, não se preocupe.

—Não é o que aparece. Você está sangrando.

Alice falou deixando o banco em que estava e se aproximando da ex-agente. Eve estava muito suada, mas não exalava mau cheiro, e de qualquer modo a professora não se importava. Ela delicadamente tirou o curativo que cobria o ferimento e que estava vermelha por causa do sangue – ainda aquela que Evelynn fez antes de dormir. Logo, percebeu que Eve tinha se machucado ao salvá-la e disse:

—Temos que cuidar disso.

—Não precisa se preocupar. Eu vou tomar um banho e fazer outro curativo.

A professora só fez um gesto afirmativo com a cabeça e voltou para onde estava. A ex-agente, então, deixou-a só na cozinha – apenas acompanhada de seus pensamentos. Tentava entender o que aconteceu na noite anterior, mas depois que foi atingida pelo soco de Brian, não sabia o que tinha ocorrido. Nunca imaginou isso dele – um abusador de mulheres – e que ela seria sua próxima vítima. Eles cresceram na mesma cidade, frequentando a mesma escola, os mesmos lugares. Ela nunca pensaria em algo assim da parte dele. Também nunca passou pela sua cabeça que, se essa situação um dia acontecesse, teria alguém para guardar a sua vida. Quando Evelynn retornou, notou que Ali estava absorta e esse estado certamente envolvia o que aconteceu com ela nas últimas horas. Portanto, limitou-se apenas a indagar o que ela gostaria de comer, obtendo como resposta:

—Eu não tô com fome, não quero comer.

Eve não usou nenhum tipo de contra-argumento, pois achou melhor não insistir. Quando ia começar a preparar algo para ela mesma comer, ouviu:

—Evelynn, você pode me contar o que aconteceu na noite passada?

A ex-agente, então, sentou-se à bancada, de frente para Alice, e começou a relatar tudo que tinha acontecido, deixando-a bastante surpresa. Agora a professora sabia o motivo do ferimento no abdômen de Eve e como a sua vida foi salva. Entretanto, uma coisa ainda a intrigava. Perguntou:

—Como… como você sabia que Brian faria aquilo comigo?

—Observando vocês.

Ali nada disse, porém franziu o cenho em sinal de dúvida. Evelynn continuou:

—De fato, não havia nada no comportamento dele algo que sugerisse que ele era um estuprador em potencial, mas depois de algum tempo observando vocês, percebi que ele te induzia a beber e mal bebia. Fazia isso com muita confiança e discrição, como se já soubesse o que e o modo de fazer. Com certeza ele queria permanecer sóbrio, mas não queria o mesmo pra você. Então eu apenas segui os meus instintos e segui vocês depois que saíram da festa.

A professora ficou, por um momento, processando a informação que acabou de saber. A maneira com que a ex-agente agiu – sua atitude perante a situação e seu raciocínio analítico eram habilidades notáveis. Evelynn, ao falar que seguiu seus instintos, quis dizer que, na realidade, deixou a voz da sua experiência se expressar. Aquilo já era algo bastante intrínseco nela, tornando-se parte do seu senso natural mais elementar, e embora tenha tratado daquela difícil conjuntura com tanta maestria, Alice não suspeitava de onde advinha grande parte das suas aptidões. A professora, que tinha sido absorvida pelas suas reflexões, despertou delas quando Evelynn colocou na sua frente um copo de smoothie dizendo:

—Eu sei que não está com fome, mas ficar sem comer não será bom pra você. Tudo bem se não quiser beber, mas aconselho que tome. Eu prometo que está bom – disse dando um meio sorriso.

A bebida que foi feita com amora, banana e iogurte natural desnatado era realmente muito boa, e a despeito do fato de que não estava com fome, Ali cedeu por causa da amabilidade de Evelynn. Esta estava sentada a sua frente com a atenção voltada para um iPad, comendo o seu café da manhã – torradas com geleia e suco de laranja. Assim, a professora percebeu que Eve tinha feito aquele smoothie só para ela, o que a fez gostar ainda mais do que estava bebendo.

A ausência de ambas as vozes pairava ali. A ex-agente lia notícias num iPad enquanto Alice tomava o smoothie. Apesar de se conhecerem desde a infância, nunca foram amigas. Vale ressaltar que, depois do que aconteceu, Evelynn queria deixar Ali bem à vontade. Ela não tinha muito o que conversar com a professora – assim pensava. Já Alice não estava muito a fim de um colóquio, mas se sentia bem com a companhia de Eve coexistindo naquele lugar. Ao terminar a bebida, colocou o copo na pia e seguiu em direção as escadas, conforme a ex-agente a acompanhava com o olhar, voltando-o novamente para o iPad depois.

Notícias se espalham rapidamente numa cidade pequena como Rosemont, de modo que muitas pessoas já sabiam o que havia acontecido na noite anterior. Acompanhada por Kawai, ao voltar para o quarto em que dormiu e checar seu celular pela primeira vez no dia, Alice se deparou com mensagens não lidas e ligações não atendidas – pessoas próximas a ela estavam preocupadas, principalmente a sua família. Sendo assim, respondeu as mensagens e retornou as chamadas perdidas para tranquilizar seus amigos, sua mãe e seu irmão, informando-lhes que estava bem, apesar do que tinha ocorrido. Após a última ligação, caminhou até o assento da janela e nele se sentou acompanhada do cão, que se deitou ao lado dela também no assento. Ainda estava aturdida pelo acontecimento de horas atrás. Não havia espaço vago na sua mente – eram todos preenchidos por “e se”, porquês e infinitas incógnitas que buscavam entender o sentido de algo tão sem sentido. Por que ela? Por que fazer aquilo? Apesar dos boatos de que Brian já tinha abusado de outras mulheres, ela nunca pensou que eles fossem verdadeiros e que ele seria capaz daquilo com ela – eles se conheciam desde quando eram crianças. Logo, Ali percebeu que não o conhecia de verdade e que talvez nunca o tenha conhecido. E se Evelynn não tivesse protegido sua vida? Como ela estaria agora? De repente, algo a tira do transe promovido pelos seus pensamentos, trazendo-a de volta à realidade. A voz de Eve se faz presente no quarto falando:

—Você está bem?

Foi a primeira coisa que a ex-agente pensou em perguntar ao adentrar o cômodo e ver a professora tão pensativa. Ela respondeu apenas acenando com a cabeça positivamente. Eve, então, falou:

—Ele não sai do seu lado – disse apontando para Kawai.

Foi até o cachorro e o acariciou na cabeça dizendo:

—Sabe, doutrinas como o espiritismo e o budismo acreditam que todos os seres vivos são portadores de energia. Nossos animais são seres muito sensitivos e conseguem captar com facilidade o tipo de energia que emanamos. É por isso que desde que você chegou aqui Kawai não sai do seu lado, porque sabe que precisa de boas energias. É o que ele está tentando transmitir ficando junto de você. E apesar de nunca ter te visto antes, ele sabe quando alguém é uma boa pessoa. Como eu falei, os animais são seres muito sensitivos, e eu acredito que são até mais do que nós.

Dito isto, silêncio. Os estímulos audiovisuais daquele momento percorreram o corpo de Alice, excitando certos tipos de neurotransmissores, liberando serotonina (uma das substâncias responsáveis por promover prazer e bem-estar no sistema nervoso), provocando uma sensação muito boa por estar com Evelynn e Kawai. A despeito da ausência de ambas as vozes, a professora e a ex-agente permaneceram por breves segundos observando a vista da janela, até que Eve resolveu de pronunciar de novo:

—Eu vou sair pra comprar um celular novo. Você quer que eu te deixe em casa?

Mais uma vez Ali respondeu somente fazendo um gesto positivo com a cabeça – hoje ela parecia não ter muitas palavras a serem ditas.

Apesar de a professora estar indo embora, Evelynn sugeriu que ela continuasse com as roupas, já que as dela estavam sujas. Quando as duas já se encontravam no carro a caminho da casa de Alice, não houve numa palavra trocada. Entretanto, ao chegarem, a ex-agente disse:

—Espero que fique bem.

Alison assentiu, sem nada falar, e desceu do veículo. Quando entrou em casa, foi direto ao banheiro tomar um banho, demorando um pouco mais do que de costume devido ao magnetismo que a água quente exercia no seu corpo. Logo que terminou, colocou roupas semelhantes àquelas que foram emprestadas por Evelynn. Então, ligou para a sua família, avisando-lhes que estava em casa e bem. Depois, aconchegou-se na cama, deixando-se levar por aqueles mesmos pensamentos de instantes atrás.

Assim que comprou um celular novo, visto que o último quebrou ao atirá-lo na cabeça de Brian, Eve voltou para casa. Estava prestes a fazer uma ligação quando a campainha soou. Ao abrir a porta, deu de cara com Chloe dizendo:

—Finalmente!

A advogada abraçou a amiga e entrou falando:

—Há horas que estou tentando falar com você.

Evelynn fechou a porta dizendo:

—Eu estava prestes a ligar pra você. Quebrei meu celular e acabei de comprar outro.

Chloe, então, sentou-se no sofá e falou:

—Eve, eu fiquei muito preocupada, principalmente porque não conseguia falar com você, apesar de Jared ter me contado que você estava bem. Consegui falar com Alice agora de manhã e ela me falou que você estava bem. Então fiquei mais tranquila.

A ex-agente, que já se encontrava sentada no sofá ao lado da amiga, disse:

—Você sabe que é desnecessário se preocupar.

—Evelynn, eu sei que você é uma ótima lutadora, mas a história que Jared me contou parecia surreal, um enredo de um filme: você contra cinco caras armados! Eu pensei que isso fosse demais até pra você.

—Acredite, eu já tive que lidar com coisas piores.

—A cidade inteira já sabe.

—É, eu sei. Quando saí pra comprar outro celular, senti que algumas pessoas me observavam.

—Você não tem ideia do que fez, não é?

—Até onde eu sei, eu salvei a vida de Alice.

—Além disso seu ato heroico vai ajudar a colocar Brian e a gangue dele na prisão definitivamente. Aquilo ontem não foi a primeira vez deles. Outras mulheres foram abusadas por eles, mas por falta de provas nunca foram presos. Sem mencionar que Brian e a família são muito influentes na cidade e o pai dele é juiz. Mas depois do flagrante de ontem não acho que eles vão escapar dessa vez. Jared falou que agora há várias mulheres prestando acusações, e que não foram antes por medo e por causa da influência dele em Rosemont. Agora que a prisão é certa, elas estão mais confiantes e devem isso a você.

—Eu não sabia disso.

— Você passou muito tempo fora.

—Sabe, bem que eu desconfiei que aquela não era a primeira vez que ele fazia isso e quando cheguei naquele lugar tive certeza.

—Por falar nisso, por que Ali dormiu aqui?

—Ela falou que não queria ir pra casa, então eu a trouxe pra cá.

—Ela mora só. Acho que não quis ficar sozinha.

—Durante o tempo em que esteve aqui, ela mal falou. Estava muito quieta, muito introspectiva, o que é compreensível por causa do que passou… Ela ficou inconsciente por um tempo e não viu a luta. Hoje ela me perguntou o que aconteceu e quando eu a contei, acho que ela ficou ainda mais pensativa.

—Ele a socou, não foi?

Evelynn respondeu acenando com cabeça positivamente, e Chloe continuou:

—Que homem vil! Pelo menos foi só um soco. Poderia ter sido pior… Alice tem muita sorte. Eve, se não fosse por você, sabe-se lá o que teria acontecido com ela. Eu fico feliz que ela esteja bem.

—Eu fiz o que sabia que tinha que fazer.

—Você tem um senso muito apurado, perspicaz.

—Muito tempo de experiência.

—Em…

—Hum?

—Fico feliz que esteja de volta.

—Eu também.

Ambas delinearam nos lábios o melhor de seus sorrisos. Evelynn perdeu quase todo mundo que amava – quase. Chloe era uma das coisas que ela mais estimava na vida e por quem prometeu a si mesma zelar eternamente. A amizade delas era tão forte quanto a melhor criação já feita por Hefesto – deus do fogo, dos metais e da metalurgia –, pois era inabalável, inquebrantável. Bem como tinha a mais sagrada benção de Filotes – deusa do afeto e da amizade. Quando a ex-agente passou por momentos difíceis, a advogada sempre se fazia presente mesmo que estivesse distante. Às vezes Evelynn dava um jeito e viajava só para poder ficar mais perto de sua amiga. Chloe adorava quando Eve a surpreendia com visitas inesperadas, pois ela só ia a Rosemont para ver a advogada e seus pais, mas quando eles faleceram, ela ia apenas por causa da amiga. Ao saber que Evelynn voltaria a morar na cidade novamente, Chlo ficou radiante – as únicas coisas que a deixaram assim foram se graduar na faculdade de direito e ser pedida em casamento por Jared. E já que elas não tinham tido tempo para aproveitar a companhia uma da outra desde que a ex-agente regressou, decidiram passar o dia juntas na casa de Evelynn.

Enquanto Chlo e Eve desfrutavam uma da presença da outra, à tarde, na hora do almoço, Alice recebeu a visita de Audrey e Maya, que chegaram trazendo uma das comidas que ela mais gostava, e embora não estivesse com fome, comeu um pouco. Durante a refeição optaram por não trazer à tona o famigerado assunto. Após terminarem, quando estavam todas sentadas na sala de estar, Audrey se pronunciou:

—Ficamos muito preocupadas com você, Ali. Estamos felizes que esteja bem.

—Quando Chloe me ligou e contou o que aconteceu, eu não consegui acreditar – falou Maya.

Alice, que até então não havia conversado muito sobre o tema, resolveu se expressar:

—Eu não me lembro de muita coisa. Quando eu e Brian saímos da festa, entramos no carro dele. Eu me lembro de estarmos numa estrada onde só havia árvores. Havia árvores por todo lugar. Eu perguntei a ele aonde estávamos indo, mas não me lembro da resposta dele ou se ele respondeu alguma coisa. Eu comecei a ficar assustada e perguntei o que estávamos fazendo ali. Então ele me disse pra tirar a roupa. Eu recusei e ele me empurrou. Tentei lutar e ele me socou no rosto. Depois disso não me lembro de mais nada. Tudo que eu me lembro é de acordar no banco traseiro do carro de Evelynn.

—É verdade que ela lutou com cinco caras e bateu em todos eles? Isso é realmente incrível. Ela sozinha contra cinco caras?! – disse Maya surpresa.

—E eles estavam armados – ressaltou Audrey.

—Antes de Brian me empurrar no chão e me bater, eu vi mais três caras aparecerem. Quando recobrei a consciência, vi todos recebendo cuidados médicos e ela estava bem, como se nada tivesse acontecido.

—Nossa, ela é mesmo badass! - afirmou Maya.

—Ali, como ela sabia que Brian faria aquilo com você? – indagou Audrey.

—Não sabia. Ela suspeitou do comportamento dele enquanto nos observava conversar. Ela me disse que seguiu os instintos dela e nos seguiu quando saímos da festa.

—Seguiu os instintos? – Audrey ficou confusa.

Dessa vez a resposta partiu de Maya:

—Ela pratica artes marciais, não é? Talvez tenha algo a ver com isso.

De fato, sua dedução não estava errada – só não era completa.

—Destino, coincidência, sorte. Chame do que quiser. Aquela garota estava no lugar certo, na hora certa – falou Audrey.

E assim, na companhia de suas amigas, Alice passou o resto do seu dia, e depois que elas partiram, ela ainda foi visitada por Chloe. Ao abrir a porta, recebeu um caloroso abraço da advogada, que entrou se desculpando por não ter vindo mais cedo, justificando que estava com Evelynn. As duas sentaram-se no sofá e conversam por algum tempo. O assunto não poderia ser outro se não o mais comentado das últimas vinte e quatro horas. Repetidamente ela escutava alguém dizer que estava feliz por ela estar bem e que algo muito ruim poderia ter acontecido se não fosse pela ex-agente. Havia ainda quem falasse que não queria nem pensar no que poderia ter ocorrido. Chlo não demorou muito, pois queria somente ver como ela estava. Assim que a sua amiga foi embora, Ali foi para a cama, reviver no travesseiro os tais pensamentos que levou consigo o dia inteiro. Ficou ali por um tempo. Num rompante, levantou-se de lá – a resposta não pertencia àquele lugar.

Já era tarde da noite. Evelynn, que estava dormindo na companhia de Kawai, é acordada pelo som da campainha, tocada mais de uma vez. Apesar de achar estranho, deixou a cama ainda sonolenta e foi atender. Ao abrir a porta, teve uma surpresa:

—Alice?

Ao vê-la, a professora, que chorava copiosamente, imediatamente a abraçou dizendo entre soluços:

—Muito… muito obrigada... Evelynn. Você… salvou a minha… vida. Muito obrigada.

Abraçada a ela, a ex-agente falou gentilmente:

—Tudo bem, Alice.

Ali a apertou um pouco mais e disse ainda chorando:

—Se não fosse por você não estaria aqui agora. O pior teria acontecido.

Eve delicadamente segurou o rosto da professora com ambas as mãos, olhou diretamente nos seus olhos e falou:

—Eu fiz o que eu sabia que tinha que fazer. Tá tudo bem agora. Você está aqui.

Evelynn fechou a porta, trouxe Alice para se sentar no sofá e foi preparar um chá. Enquanto isso Kawai se deitava ao lado de Ali no sofá. Depois de alguns minutos Eve voltou trazendo a bebida e a entregou a professora, que a bebeu um pouco. Percebendo que ela já não chorava mais, a ex-agente perguntou:

—Se sente mais calma agora?

Alice apenas assentiu acenando positivamente com a cabeça, dizendo:

—Desculpa por te acordar.

—Tudo bem. Eu estava tendo um sonho ruim mesmo – brincou Evelynn, conseguindo um meio sorriso bastante sutil de Alice.

Quando terminou o chá, ela pôs a caneca em cima da mesa de centro e falou:

—Tudo bem se eu dormir aqui de novo? Eu sei que tô te dando muito trabalho.

—Eu não vejo dessa maneira. Sim, você pode dormir aqui, se isso te deixa mais tranquila…

—Obrigada, Evelynn. Por tudo.

Eve conduziu a professora até o quarto que em que dormiria mais uma vez, e Kawai as acompanhou. Ao entrarem, Ali fez mais um pedido:

—Você pode ficar um pouco aqui comigo?

Evelynn acenou positivamente com a cabeça e foi se sentar no assento da janela enquanto Alice se acomodava na cama para dormir, tendo novamente a presença de Kawai com ela, que se aconchegava perto do seu corpo. Com a cabeça sobre o travesseiro, espiava a ex-agente discretamente, pensando que não lembrava ter conhecido um ser tão gentil, que além de salvá-la, acolheu-a em sua casa e preocupou-se com seu bem-estar, demonstrando isso ao cuidar tão bem de alguém que pouco conhecia. Foi um dia mentalmente cansativo, por isso a professora não tardou a adormecer. Eve, que tinha perdido o sono, encontrava-se com a mente povoada por alguns pensamentos. Ao encarar diretamente o olhar de Ali, a ex-agente notou o quanto assustada ela estava, e que certamente na sua cabeça havia os mais diversos tipos de sentimentos que poderia sentir – aflição, angústia, dor, medo. Um estresse psicológico e emocional causado pelo acontecimento. Mesmo Evelynn se sentia aliviada por ter salvado aquela vida de tamanha crueldade. Há vidas que ela não foi capaz de salvar, mas a daquela mulher que dormia no seu antigo quarto, ela concedeu a chance para que continuasse a viver de forma saudável. Sentia-se bem por ter ajudado alguém. E o que para a professora era incômodo, Evelynn via como zelo e faria o mesmo por qualquer pessoa. Assim era a sua natureza. O sono avisou a sua chegada e a ex-agente bocejou. Antes de ir para cama, deu uma última olhada em Alice, que dormia serenamente ao lado de Kawai. Ao entrar no seu quarto, decidiu deixar a porta aberta por precaução. Quando se deitou, Hipnos sussurrou nos seus olhos e ela logo adormeceu.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...