História Anomalya - Capítulo 5


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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Ficção, Ficção Científica, Literatura Feminina, Universo Alternativo
Avisos: Adultério, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 5 - O VELÓRIO - Capítulo 4


Por quê o prédio da polícia tinha que ser tão imenso? Nunca soube de verdade. Mas ali estava eu, uma garota de 15 anos dirigindo uma motocicleta à frente de uma das filiais da polícia de Null. Nunca na minha vida eu havia entrado naquele lugar, e esperava nunca ter que entrar.

Aquela avenida era movimentada, carros e motos passavam zunindo ao meu lado, pedestres andavam apressadamente e sem olhar para trás ou para onde andavam. O povo daqui sempre foi muito concentrado no que faz. Todos nós temos essa qualidade, se é que isso é mesmo uma qualidade. Pode ser um problema se for usado do jeito errado. Às vezes, você precisa mudar o rumo das coisas para que elas cheguem ao final do caminho, e nós não fazemos isso com muita frequência.

Haviam outras motocicletas estacionadas ao meu lado, motos de várias cores e tamanhos, todas flutuando alguns centímetros do chão.

A escadaria que levava até as portas da frente do prédio da polícia era enorme, deveriam haver uns cinquenta degraus até chegar ao predio em si. Alguns estudantes conversavam sentados na escada, e uma Ishita passou por eles, decidida, entrou em um carro branco e foi embora tão rápido quanto andava.

Um pensamento me tomou conta: aquela mulher faz parte do mesmo pessoal que matou o meu pai. É uma Ishita como os homens nas motos.

Revidei contra os meus próprios pensamentos e comecei a subir os degraus da instituição. Haviam outdoors com bandeiras sendo transmitidas na frente do lugar, às vezes a imagem da bandeira de Null - que é uma esfera entrelaçada por uma mão em concha - mudava para a imagem da bandeira da polícia, uma estrela de cinco pontas com uma par de armas atrás.

O prédio em si, fora a esacadaria, era incrível, quase um arranha-céu pela sua altitude. Era largo o bastante para abrigar uma estação de ônibus em cada andar, por isso Null era tão segura, pensei, raramente tinhamos notícias de roubos ou assassinatos.

Raramente.

Deveria ser uma visão incomum uma garota da minha idade entrar num lugar como aquele numa hora daquelas. Mas não me importei com nada do que pensavam. Caminhei decidida até o balcão de denuncias.

- Boa tarde. Eu queria prestar uma queixa. - eu disse, e a mulher atrás do balcão imediatamente se empertigou.

- Boa tarde, senhorita. Qual seria a sua queixa?

- É sobre o assassinato de Trinta Noir. - minhas mãos tremiam sob o balcão. - Eu sou a filha dele, Vinte Noir.

Ela ficou com uma expressão de legítima surpresa no rosto. - E qual seria a sua queixa?

Expliquei a ela tudo sobre como fugi dos Ishitas e sobre como meu pai havia se perdido no caminho. Ela anotou tudo usando um gravador pelo computador. No fim, ela apenas disse:

- É uma excelente história de ação que a senhorita inventou, senhorita Vinte. Mas não posso fazer nada por você.

Minhas sombrancelhas se arquearam tanto que quse se uniram. - Como assim? Você ouviu o que eu acabei de dizer ou não? Meu. Pai. Foi. Assassinado. Por. Ishitas. - falei pausadamente, e a atendente apenas me observava com um sorriso no rosto.

- Não. O seu pai foi assassinado por uma gangue da região por causa do envolvimento dele com as drogas, senhorita Noir. Nenhum Ishita matou o seu pai.

Bati com tanta força no balcão da recepção que fez o lugar todo silenciar, mas o maldito sorriso daquela mulher não desapareceu do seu rosto. - Olhe aqui sua vagabunda… - apontei-lhe o dedo. - Você não sabe de nada! Você não estava lá naquela noite! Meu pai foi morto por causa dessa lei de compartilhamento estúpida de vocês e eu quase morri de hipotermia!

Ela clicou alguma coisa no tablet de serviço e manteve o sorriso falso nos lábios. - Querida… Você deve ter sonhado. Seu pai foi assassinado sim. Mas os Ishitas não tem haver com isso. Trate de deixar a sua inveja de lado na hora de escolher um culpado…

Bati as botas no piso limpo e polido, e gritei um berro gutural e animal. - Você está tentando me enlouquecer, vadia de merda! Meu pai não se metia com nada de ruim, foi ele que criou metade das leis que protegem esse seu rabo gordo na hora de dormir, e eu não tenho inveja de ser uma assassina como os Ishitas tem se mostrado ser!

A atendente fraquejou o sorriso, percebi que dois homens de preto vinham na minha direção à largos passos.

- Você sabe onde seu pai vai ser velado? Nove quadras daqui, na rua West Weat, boa sorte. - disse, e com o mesmo sorriso, saiu andando até a porta atrás da recepção.

Antes de sair do lugar ainda apontei para ela mais uma vez. - Você é que vai querer saber onde você vai ser velada depois que eu arrancar a sua cabeça desse seu pescoço gordo e seboso!

E sai correndo do lugar antes que os guardas podessem me pegar. Tinha plena noção do barraco que armei. Desci o corrimão da escada deslizando as costas por ele, e subi na moto com velocidade e graça. Os seguranças não conseguiram me acompanhar e logo eu estava na estrada numa velocidade mais alta do que o permitido.

Por quê aquela atendente me tratou daquele jeito? Nada vinha a minha cabeça à não ser a ira, e só entendi o problema muito tempo depois. Naquele momento eu só pensava em diferentes formas de esmagar a cabeça daquela atendente idiota.

Mas já estava na direção que a maldita me apontou, a direção do velório de meu pai.

Passei por todas aquelas quadras largas e cheias de vida, com outdoors brilhando em conjunto com as luzes de outros estabelecimentos ao redor. Haviam prédios feitos unicamente de vidro, refletindo as luzes da cidade e os raios de luz que trapistt enviava ao nosso mundo direto nas ruas e nos carros.

Quando cheguei, o velório já estava quase no fim.

Estava tão enraivecida que quando escancarei a porta de entrada todas as cabeças lá dentro se viraram na minha direção. Haviam amigos de meu pai e colegas do trabalho. Haviam também outras pessoas que eu nem conhecia, como um senhor de cabelos e barba grisalha que trajava um terno preto, havia uma cicatriz entrecortando o seu rosto em formato diagonal, observava não só o meu pai, como o salão inteiro com um olhar melancólico e taciturno.

Trinta Noir estava deitado dentro de um caixão simples, a tampa fora fechada sob o seu corpo inerte, não era possível ter uma visão dele.

Com cuidado, me aproximei do caixão. Aquilo era tão… real. Até aquele momento tudo havia se parecido com um febril e terrível sonho, mas ali estava a prova morta de que meu pai jamais voltaria do trabalho com a barba congelada e com os lábios grossos rachados como vidro quebrado.

- P. Por quê ele está tampado? - perguntei, com a voz trêmula e hesitante.

O senhor de barba e cabelos brancos se aproximou de mim quase como uma assombração. Sua presença era de fato acolhedora e fiel, mas, acima de tudo, de compreensão. Era um sujeto alto, deveria ter os seus dois metros e alguns quebrados. - Vinte - começou. - Eu sei que seu pai era tudo para você, mas você tem que entender que…

- Por quê ele está tampado? - senti uma lágrima escorrendo quente pelo rosto.

O sujeito se endireitou em seu terno preto. - Ele não está em condições de ser visto, Vinte.

Ignorei aquele comentário. - Como você sabe o meu nome? Quem é você?

Ele me lançou o seu olhar taciturno e enigmático. - Um dia, Vinte. Um dia. Só quero que você entenda que o seu pai te amava, e ele nunca se perdoaria se salvasse a sua vida em vão.

Aspirei o ar, descontrolada e descompensada. - Eu sei quem o meu pai era e o quê ele iria querer de mim!

Ele assentiu. - Um dia você vai entender. Eu tenho certeza. - e saiu do salão sem a menor pressa.

Só fui capaz de chorar pela morte de meu pai quando levaram o caixão até o lugar onde ele seria incinerado.

Tenho esse problema, as coisas só são reais para mim quando eu sou capaz de ve-las. Mesmo que eu soubesse que meu pai estava morto já no inicio daquele dia, simplesmente não acreditava na realidade. E quando eu vi aquelas pessoas segurando o caixão para leva-lo ao crematório, eu só queria ter acreditado um pouco antes.

No nosso mundo não temos religião. Não acreditamos em nenhuma divindade a qual nos rege, nos governa ou nos criou. Acreditamos que somos apenas fruto de nosso própria natureza, e o que faz com que nossa existência seja possível é a nossa estrela trapistt. Pesquisando sobre o seu mundo eu descobri que aí vocês possuem diferentes religiões e mitologias. Por isso, os seus rituais de morte são diferentes dependendo da crença. Alguns enterram, outros cremam… etc. Aqui, por não termos uma religião, também não temos nenhum símbolo religioso. Nossos mortos normalmente são velados em caixões de madeira ou pedra, e depois são levados até alguma instituição em que podem ser cremados e transformados em cinzas. Talvez nosso povo seja um pouco desumano quando se trata de morte. Choramos a morte de nossos entes queridos mas não acreditamos que eles vão para algum outro lugar, como o paraíso ou o céu. Eles apenas morrem e, se nós não podemos mais os ver, eles simplesmente já não existem mais.

Eu acreditava que isso era o normal. Mas depois de saber sobre o que vocês creem, senti repulsa do meu próprio mundo e do meu próprio modo de acreditar nas coisas. É cruel acreditar que não vamos ficar em paz depois de morrer. Apenas iremos sumir. Sucumbir ao fogo e virar pó.

Peguei as cinzas de meu pai logo depois do término de seu velório. As cinzas foram depositadas em um frasco azul-acinzentado com adornos de flores e de árvores. Era um recipiente bonito, pensei. Mas não era o recipiente que alguém iria querer ter para lembrar.

Coloquei o frasco na maleta traseira da moto como se fosse a coisa mais frágil do meu mundo e do seu juntos. E pilotei a moto por quase uma hora, indo para o leste.

As mesmas pessoas de antes, garregando suas coisas e andando centradas no seu próprio caminho, agora me pareciam não mais andar em uma formação predefinida, mas sim, em uma desordem sem igual. Uns batiam nos outros com os ombros por não verem o caminho, outros paravam no meio da calçada para digitar algo no dispositivo de conversas, o celular, e não prestavam atenção à mais nada. E então eu lhe pergunto: como nós somos mais evoluídos que vocês?

Nós temos carros que voam, temos tecnologias de transporte quase instantâneo, temos aquecedores poderosíssimos e uma insolação térmica muito melhor que a do seu mundo.

Mas, será que tecnologia é um sinônimo de evolução?

Vocês podem andar nos seus carros que raspam as rodas no chão, mas é com eles que vocês vão passear com a família na praia. Vocês podem não ter a mesma velocidade de transporte que nosso mundo tem, mas aproveitam a viagem muito mais do que o nós somos capazes de aproveitar. Vocês podem não ter um isolamento térmico poderoso nem mesmo um aquecedor high-tec, mas tem a melhor forma de calor que alguém pode querer ter.

O calor humano.

Vocês acendem uma lareira, dançam juntos, brincam juntos e VIVEM juntos.

De que adianta ter uma tecnologia de ponta se não nos preocupamos com nada que não seja o nosso tempo e o nosso dinheiro? Passamos a vida inteira lutando para ter tempo, e quando percebemos, gastamos todo o tempo só para termos mais tempo. Gastamos todo o dinheiro para investir em prédios, mas nunca gastamos o dinheiro para nós mesmos.

Qual é o planeta mais evoluído?

Parei a moto quando já estava no fim do caminho.

Era um mirante que levava até quase 500 metros para dentro do mar. Como um pier. Haviam navegações por perto, navios imensos que transportavam cargas variadas, desde comida até mesmo aviões. Navios feitos de um metal capaz de aguentar o frio das noites. Aviões capazes de atrevessar o planeta inteiro em uma hora.

O céu estava nublado, trapistt estava em meio as nuvens cinzas dando um tom bordô ao horizonte. Não haviam muitas pessoas ali, exceto um ou dois casais observando o céu. Meu pai amava aquele lugar. Sempre que podia, me levava até lá para poder ver o tom do céu amanhecendo ou anoitecendo.

Me aproximei da amurada do pier e segurei o frasco das cinzas em ambas as mãos. Um pássaro de peito roxo passou planando pela praia. Por quê quase ninguém ia até aquele lugar? Era simplesmente lindo, deslumbrante e, é claro, gelado.

Mas de certa forma o mar gelado era apenas… gelado. Não era "frio" como a cidade, ou como as pessoas da cidade. Tinha a temperatura baixa, apenas isso.

Abri o frasco com cautela, meu cabelo cacheado dançou com a força do vento.

Despejei as cinzas no mar gelado. Senti que alguém atrás de mim se levantou do banco e foi embora, mas não olhei para trás.

Segurei o frasco com a mão direita, levantei até o topo da cabeça e esperei a onda mais alta, quando ela apareceu, joguei-o ao mar.

No seu mundo, quando alguém morre, é comum rezar para que sua ida até o pós vida seja agradável. Aqui, eu apenas fiz uma promessa a mim mesma.

Meu pai não morreria em vão.



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