1. Spirit Fanfics >
  2. Antes de você chegar >
  3. Redoma.

História Antes de você chegar - Capítulo 15


Escrita por:


Capítulo 15 - Redoma.


Fanfic / Fanfiction Antes de você chegar - Capítulo 15 - Redoma.

A cada dia que passava mais o crime organizado tomava conta do lado sul do complexo, a quantidade de homens portando fuzis nas ruas crescia absurdamente, agora o comércio obedecia as ordens de Alexandre sem ter o direito de questionar, todas as atividades de entrada e saída eram supervisionadas do alto das lajes, se a pessoa que fosse desconhecida ou o carro não parasse com o pedido dos traficantes, eles atiravam sem pensar duas vezes, sem qualquer tipo de remorso como se estivem brincando de tiro ao alvo. Alexandre estava assustado com a derrota que sofreu, com o ego menos inflado ele conseguiu enxergar que não era invencível, e que o Estado tomou força e já não o temia mais como antes. O seu dinheiro ainda corrompia muitos policiais, mas não era regra, as coisas estavam mudando e ele sentia o círculo a sua volta se fechar cada vez mais, Alexandre não entregaria fácil aquilo que chamava de 'Suas conquistas', lutaria até o final com unhas e dentes, o sangue de muitos inocentes ainda iriam escorrer pelas calçadas do complexo.

Atena até esse momento vivia em uma redoma dentro daquela comunidade, ela sabia que a violência extrema acontecia naquele lugar, mas era como se um véu cobrisse seus olhos, ainda não tinha noção do que o pai era capaz de fazer, por mais que brigasse com ele a todo momento, nunca havia visto a face do 'Alemão do morro', e ninguém nem mesmo sua antiga babá dona Célia foi capaz de lhe contar as história de crueldade e perversidade. Era parte da política de Alexandre protegê-la da verdade, ele nunca fez nada de grave ou se alterou em sua frente, e Atena cresceu dentro dessa espécie de cápsula de vidro, protegida de tudo. Às vezes quando ouvia os professores da faculdade comentar sobre o tráfico no morro, ela tinha vontade de argumentar, pois achava que eles estavam aumentando e distorcendo os acontecimentos, queria interromper a aula e falar 'Olha não foi bem assim que aconteceu'.

Atena jamais notou o medo nos olhos de Lara quando o assunto era seu pai ou como as pessoas abaixavam a cabeça quando ela andava pelas ruas do complexo, sabia que o ele não era nenhum santo, mas a garota não tinha noção nem de 1% de tudo que aconteceu e acontecia naquele lugar, se ouvir o pai dizer que iria mandar matar Eduardo já lhe causou um medo paralisante, ela não imaginava o que estaria por vir naquele dia.

 

Já haviam se passado mais de uma semana desde que se encontrou com Renata, elas trocavam mensagens diariamente, mas nada além daquilo, óbvio que Atena já estava ficando maluca com vontade de vê-la novamente, mas entendia que ela era muito ocupada e saía tarde da redação, também notou que Renata estava tentando evitá-la ao máximo, já imaginava que ela faria isso por medo, Atena não podia cobrar nada, entendia o lado dela, mas era impossível não ficar de mal humor o dia todo. Tentava ao menos ser produtiva e descontava essa raiva toda nos estudos, se não fosse filha de Alexandre, isso jamais estaria acontecendo. Precisava sair um pouco de dentro daquele quarto, seus olhos doíam por conta do contato prolongado com os livros e a luz da tela do notebook, resolveu ir até o restaurante onde Lara trabalhava, a melhor amiga sempre conseguia mudar seu humor para melhor.

Ao caminhar pelas ruas do complexo ela notou o clima sombrio que pairava sobre o lugar, as pessoas estavam apreensivas, tristes e com olhar amedrontado, algo deveria ter acontecido por ali, talvez um acidente ou alguma briga, era o que ela imaginava. Na esquina de um beco um grupo de sete homens todos armados conversavam de forma cautelosa, um deles olhava para os lados constantemente como se a qualquer momento algo fosse ataca-los, ao perceber a aproximação dela se calaram e abaixaram a cabeça, somente um que estava encostado na parede lhe encarou, mas logo desviou os olhos para longe.

— Estão com algum problema comigo? - Ela franziu a testa.

— Não senhora - Disse um deles imediatamente, sem tirar os olhos chão.

Atena observou eles por mais alguns segundos e resolveu seguir o caminho, os homens de seu pai nunca tinham faltado com respeito com ela, mas dessa vez a atitude deles estava muito estranha. Quando chegou no restaurante, como sempre Lara estava na despensa arrumando o estoque de comida, Atena sentou-se em cima de algumas caixas e contou a amiga o que tinha acontecido.

— Eles tem respeito por você por causa do seu pai - Lara lhe encarou com receio.

— Não, Lara dessa vez foi diferente, acho que meu pai disse algo a eles - Atena estava pensativa.

— Esquece isso Atena - Lara desviou o olhar como se estivesse fugindo de uma ameaça e voltou a arrumar os pacotes de arroz na prateleira.

Atena percebeu que realmente tinha algo de errado e Lara sabia o que era.

— Então como anda seu relacionamento com a jornalista? - Lara mudou de assunto.

Ela não respondeu, em silêncio se aproximou da amiga cruzou os braços.

— Me fala agora o que aconteceu Lara.

A menina levou um susto, colocou a mão no peito e se virou para Atena.

— Pelo amor de Deus criatura, eu não sei de nada.

— Lara me fala ou eu vou ficar muito chateada.

— Atena por favor pergunte a outra pessoa, eu não sei de nada - Lara estava apavorada, tinha os olhos arregalados.

— Você é minha melhor amiga não pode me esconder as coisas - Disse Atena com indignação.

— Eu não estou escondendo, mas não quero ser fofoqueira.

Atena estava incrédula com o que acontecia diante dos seus olhos, nunca viu a amiga agir daquela forma, Lara estava amedrontada como um animal selvagem, seus olhos estavam cheio de lágrimas.

— Como assim?

— Atena, se eu te falar você vai ficar brava e brigar com o seu pai, e ele vai querer saber quem contou, não quero confusão - Ela torceu o pano de prato que estava em seu ombro com força.

— Para com isso Lara, que absurdo, eu jamais faria isso - Atena estava sem graça com terror da amiga.

— Você já fez uma vez...

— Como?

Lara ficou em silêncio, se virou para frente e começou a limpar a prateleira em um ato desesperado de tentar fazer Atena mudar de assunto.

— Ei? fala comigo. Sou eu Atena, nós somos amigas - Ela tocou no braço da menina.

— Atena é sério, não me pergunta esse tipo de coisa - Implorou.

— Lara me fala agora, eu não vou dizer nada, seja lá o que eu fiz para você ou alguém nunca foi a minha intenção, mas para não acontecer novamente você precisa me dizer ou terei que perguntar ao meu pai.

Ao ouvir Atena mencionar o pai, uma expressão de puro medo tomou conta do rosto de Lara, ela balançou a cabeça freneticamente de um lado para o outro.

— Confia em mim, por favor - Atena implorou.

A menina ficou em silêncio, avaliando se deveria contar ou não, sabia que Atena ficaria no seu pé, resolveu contar afinal o último incidente aconteceu fazia tantos anos, elas ainda eram adolescentes.

— Atena, você tem que me jurar...

— É claro, Lara pelo amor de Deus, algum dia eu já te fiz algo? - Tinha um sorriso incrédulo nos lábios.

Lara assentiu com a cabeça.

— Tipo o quê?

— Quando éramos adolescente, eu te contei que meu primo viu seu pai atirando em um homem, e você contou a ele Atena.

— Eu me lembro disso, mas ele deu risada, disse que tudo não passou de um engano.

— Pois é, mas ele mandou os homens dele irem atrás do meu primo, ele levou uma surra quebraram os braços dele - Lara engoliu seco.

Atena levou um susto ao ouvir aquilo, Lara não estava mentindo, mas era tão ruim ter que acreditar naquilo.

— Eu não quero os homens do seu pai na porta da minha casa.

— Eu não vou contar para ninguém - Afirmou com seriedade.

— Escuta aqui Atena, ninguém aqui no morro te conta nada, todo mundo tem medo do seu pai, inclusive eu, se você quer acabar com a minha vida, ir ao meu velório nos próximos dias, basta só dizer 1% da conversa que estamos tendo agora para ele - Ela olhou em direção a porta temendo que alguém tivesse escutando.

— Que horror Lara, eu nunca faria uma coisa dessas - Atena sentiu uma sensação de culpa tomar seu peito.

— É, mas já fez uma vez.

— Eu não tinha noção sobre isso, é bem diferente.

Atena queria muito saber o que a amiga estava lhe escondendo e ao mesmo tempo temia em saber a verdade, era tão bom o modo como a realidade passava distante de seus olhos.

— Sabe o barão?

— Sim, o cara responsável pela torre.

A torre era a construção mais alta da comunidade, onde era possível ver tudo o que acontecia, o responsável pelo local era um homem alto e corpulento, no seu braço esquerdo era tatuado o rosto de um pitbull, seu apelido era Barão, ele era responsável por organizar a segurança e escalar as rondas pela comunidade.

— Aquele dia no pagode, depois que você foi embora carregada pelo pardal, seu pai chegou lá, ficou bebendo até tarde — Suspirou fundo tomando coragem para continuar — Na mesa em que seu pai estava sentado havia muitos homens, eles começaram a falar de mulher, e o Barão estava muito bêbado, e acabou citando seu nome.

Lara ficou em silêncio encarando a amiga, não queria mais continuar, mas agora que tinha começado teria que terminar.

— Disse que você tinha ficado uma gostosa e que Alexandre estava de parabéns, todos na mesa ficaram em silêncio, mas seu pai deu risada e encorajou o Barão a dizer mais, então quando ele se cansou, levantou, sacou uma arma e o matou na frente de todos - Lara terminou falando baixinho e olhando para os cantos da despensa.

— Ah cala a boca Lara, quem te contou isso? - Atena riu, não conseguia acreditar, mas o sorriso foi desaparecendo quando ela viu que a amiga falava sério.

— Ninguém me contou Atena, eu estava lá, minha blusa manchada pelos respingos de sangue ainda está de molho no sabão lá no tanque de casa.

Atena fechou os olhos breves segundos, aquilo caiu como iceberg em sua cabeça, sentiu suas mãos começarem a tremer de nervosismo.

— Por que você não me contou isso? - Tinha a voz trêmula.

— Todo mundo sabe do seu gênio forte, sabe que você o enfrenta, ninguém é louco de sair por aí te contando, ele pode ser legal com você Atena, mas Alexandre é um homem cruel, ou você acha que ele tomou o complexo apenas sorrindo para as pessoas?

— Do que mais eu não sei? - Atena voltou a se sentar nas caixas.

— Há muitas histórias, é só você sair um pouco de dentro do seu quarto e começar a procurar - Lara agora tinha um olhar culpado, sabia que contando isso havia magoado a amiga.

— Eu não sei se quero saber - Uma lágrima tímida escorreu de seus olhos, ela rapidamente limpou.

— É melhor não saber muitas coisas, vai te fazer mal, apenas termine os seus estudos e siga a sua vida.

Atena estava atordoada, ficou até mesmo meio tonta com as informações, sempre se considerou muito esperta e astuta, mas na verdade foi mais ingênua do que todos naquele complexo. Ouviu barulho de fogos por toda parte, e quando isso acontece significa que a polícia esta na área.

— Lara  eu preciso ir - Se levantou de imediato.

— Atena fica quieta aqui, ir lá fora agora é suicídio - Lara segurou o braço dela.

— Olha, não se preocupe, nunca vou dizer nenhuma palavra do que você me contou aqui - Atena desvencilhou seu braço da mão dela e saiu.

 

As ruas estavam um caos, cheio de pessoas correndo de um lado para o outro, crianças choravam, o comércio começou a abaixar as portas, parecia um cenário de guerra, não demorou muito e o barulho dos tiros começaram. Atena começou a correr o mais rápido que conseguiu, queria sair dali a qualquer custo, mas estava com a mente atordoada, não conseguia pensar direito, assim que virou a esquina deu de cara com o comboio do BOPE, a farda preta com o símbolo de um crânio com uma faca cravada era inconfundível.

— Entrem para suas casas - repetia continuamente o policial.

Atena ficou paralisada, eles estavam em grande quantidade, o som das botas de couro batendo no chão era ensurdecedor.

— Ei, você... - Um deles se aproximou de Atena.

— Eu, estou indo para casa senhor - Atena quase não conseguiu falar estava ofegante.

— Vaza! Anda rápido, anda rápido - Ele ordenou.

Atena correu por varias quadras sem olhar para trás, as trocas de tiros eram ensurdecedoras, ela ouviu uma bala perdida zunir e logo após acertar a parede onde ela estava, entrou dentro de uma construção abandona, e se deitou no chão, o suor escorria pela suas têmporas não precisava pecar para ir ao inferno pois ela já estava dentro dele havia muito tempo. Não fazia a menor ideia de quanto tempo tinha ficado ali, logo se levantou ao ouvir passos do lado de fora, um policial entrou no local, Atena sentiu o medo na forma mais pura tomar conta de seu coração, mas havia algo de errado, ele praticamente se arrastava, andava tentado se apoiar nas paredes, estava ferido.

— Me ajuda - Ele implorou e em seguida caiu no chão.

Atena correu até ele, tinha um ferimento na perna e outro e outro no braço, o colete de proteção tinha alguns furos.

— Me ajuda, por favor - pediu outra vez.

Atena novamente ouviu passos do lado de fora, e em seguida a voz de Pardal ecoou.

— Ele não deve estar longe, é para meter ferro nesse vagabundo, estão me ouvindo? É para fazer ele cantar para mim tá ligado?

Os outros homens concordaram.

— Minha esposa está grávida - O homem entrou em completo desespero, segurou o braço de Atena e mais uma vez pediu ajuda.

— Levanta, eles vão vir aqui - Atena puxou ele pelo braço e ajudou a se levantar.

A cada passo que eles davam em direção aos outros cômodos da construção, a gritaria aumentava do lado de fora, Atena não sabia para onde ir, o único lugar viável agora era um matagal que estava bem a sua frente no final da construção. O homem não conseguia mais andar direito arrastava uma das pernas, tinha os lábios branco e suava frio, estava sentindo muita dor. Eles entraram no meio do mato alto, e ao escutar pardal invadir a construção, Atena fechou os olhos e pediu para que nenhuma trilha de sangue tivesse ficado para trás. Alguém parecia ter escutado seu apelo, ninguém veio atrás deles.

— Eu preciso me sentar - O homem desabou no chão.

— Você precisa sair daqui. Eles vão te matar!

— Me ajuda a sair daqui, eu te dou tudo que eu tenho - Ele fechou os olhos, suspirou fundo, estava amedrontado.

Atena leu seu nome na farda preta: "Pedro de Souza Silva", sangue O . Ele não tinha mais que trinta anos. Aos poucos o tiroteio cessou.

— Olha aqui para mim - Atena chegou bem perto dele, colocou as duas mãos na farda.

O homem lhe encarou.

— Nunca mais você vai entrar aqui cantando que chegou para deixar corpos no chão, está me ouvindo? - Chacoalhou os ombros dele.

Ele continuou encarando ela em silêncio.

— Tem gente inocente aqui, nem todo mundo é bandido, eu poderia te deixar para morrer ou subir lá em cima e dizer a eles que tem um homem de preto no matagal, mas como eu disse nem todo mundo que mora aqui é bandido.

Ele assentiu com a cabeça e engoliu seco.

— Tira essa farda, e não sai daqui.

— Onde você vai? - Ele se apavorou ao vê-la se afastar.

— Tira a porra da farda e me espera aqui.

Os traficantes estavam em festa, haviam ganhado o confronto, Atena encontrou Marcão no meio do caminho e fez o homem levá-la até sua casa, como de costume Alexandre não estava, deveria estar comemorando, ela entrou no quarto dele e pegou uma peça de roupa e dois capacetes. Subiu na moto e foi em direção a construção novamente, tudo estava escuro agora, já era noite, as pessoas estavam com medo de sair na rua, a baderna só acontecia no centro do complexo, Atena teve que agradecer naquele momento, se muitas pessoas estivessem andando naquele local seria mais difícil tirá-lo dali. O policial estava no mesmo lugar, Atena esperou ele trocar de roupas.

— Em hipótese alguma, levanta a viseira do capecete.

Ele concordou, no meio do caminho ela se questionou a respeito do que estava fazendo, se seu pai descobrisse ela estaria ferrada. Ao se aproximar da saída do complexo ela levantou o capacete para ser reconhecida e ninguém lhe parar, sentia as mãos do homem tremendo ao segurar na sua cintura, quando finalmente saiu daquele lugar teve vontade de chorar de alívio, levou ele até a calçada do hospital mais próximo.

— Ei? Espera - O homem gritou.

Atena olhou para trás com desconfiança temendo por algo.

— Qual é o seu nome?

Ela não respondeu e caminhou apressadamente até a moto.

— Obrigado - Gritou.

— De nada, você continua sendo um idiota - Resmungou.

Acelerou a moto para bem longe, andou sem destino por todos os lados, queria chorar e gritar. Sentiu o celular vibrar no bolso da calça, era Renata ligando, ela estacionou a moto e atendeu.

— Atena, você está bem? - Ela parecia preocupada.

— Estou sim Renata - Se segurou para não chorar.

— Eu sei de tudo que aconteceu.

— Já acostumei, é normal...

— Entendo... Você está onde?

— Em algum lugar da zona norte, eu acho... sei lá.

Renata fez silêncio, percebeu nitidamente no tom de voz de Atena que ela não estava bem.

— Se quiser conversar um pouco, eu vou ficar acordada até tarde hoje.

A voz de Renata lhe acalmava, era sempre tão doce e gentil.

— Daqui a pouco eu chego aí - desligou.


Notas Finais


Proximo capítulo: Amanhã.


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...