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História Antes que eu morra - Capítulo 3


Escrita por: Her0ndal3

Capítulo 3 - Verdade


Levi entrou em alerta ao avistar o Civic branco atravessando as cercas, segurou por reflexo o cabo da arma escondida na lateral da cintura.


Kenny havia saído pela manhã para deixar Mikasa no hospital que ela trabalhava, e não voltara desde então. 


Levi entrou numa paranóia irritante a tarde inteira.


Ele relaxou quando Mikasa saiu do veículo, visivelmente estressada.


Ela usava o jaleco por cima das roupas, e Levi amargamente descobriu um fetiche. 


Ajeitou-se no balanço da varanda, curioso com a cena que seguiu-se.


A porta do motorista também fora aberta, e um homem surgiu, tentando alcançá-la. 


— Mikasa, você não pode fazer isso. — Ele praticamente gritou. Mikasa, que já subia as escadas, virou-se para ele. 



— A vida é minha, faço dela o que bem entender, Eren. — Os nós dos dedos esguios dela estavam brancos pela força que Mikasa apertava a alça da bolsa. — É melhor você ir, não quero mais falar sobre isso. 


Antes que ela conseguisse prosseguir o caminho, Eren a puxou de volta pelo braço com força demasiada.


Levi trincou o maxilar, impedindo-se de levantar.


Mikasa sabia se defender bem. 


Ela suspirou fechando os olhos, parecia buscar controle, quando os abriu a voz soou estranhamente tranquila.


— Solta. 


Eren tremia. As reações dele eram mistas, revolta e tristeza. 


— Kenny nunca vai perdoar você. 


Levi viu Mikasa perder o fôlego. 


E para a surpresa de Levi, ela não o esfaqueou, apenas repetiu a ordem mais rispidamente. 


— Solta.


Eren negou frenético.


— Não enquanto você-


— Você não a ouviu, garoto? — Levi o interrompeu. Mikasa olhou para ele assustada, Eren também. 


Estavam imersos demais no conflito para notá-lo ali antes. 


— Quem é você? — Eren perguntou com ignorância. Mikasa desvencilhou-se irritada do aperto dele.


Não é da sua conta. Agora é melhor você ir.... — Ele respondeu no mesmo tom. 


— Ou quê? — Eren fechou a cara. 


— Eu subo e pego o rifle para ela. 


Eren o olhou confuso e Mikasa bufou, empurrando o outro forte o suficiente para fora da varanda. 


— Eu quero que vá embora. — Mikasa aumentou o timbre, lançando um olhar à Eren que o fez engolir à seco. 


Ele balançou a cabeça, a fitando decepcionado.


E obedeceu. 

 

Mikasa permaneceu encarando o carro, até desaparecer na estrada, como sempre inexpressiva, mas quando desviou para Levi, parecia envergonhada.


Ele umedeceu os lábios.


— Usar o jaleco fora do ambiente de trabalho é considerado anti-higiênico. 


Mikasa soltou uma risada soprada, correspondendo a provocação infantil com outra nem tanto. 


— E o que me diz sobre sujar as mãos de sangue? 


Levi preferiu não responder.


Mikasa entrou na casa, não antes de perceber sua preocupação e o avisar que Kenny tivera imprevistos, mas chegaria em breve. 


E ele chegou próximo ao fim da tarde. 


Não sozinho.


Levi estava na varanda do próprio quarto quando quatro caminhonetes entraram na propriedade, seguindo direto para o galpão. 


Ele abaixou-se rapidamente, olhando pelas brechas do suporte.


Observou atentamente o processo dos homens descendo dos veículos, ficou surpreso pelas vozes altas em um idioma conhecido por ele. 


Japoneses. 


As tatuagens clássicas dos asiáticos eram notadas nos braços, ombros e outras no rosto. 


Desenhos nipônicos.


Tatuagens que ele estava cansado de saber que eram diretamente ligadas a alguma organização criminosa.  


Os pensamentos dele tornaram-se uma bagunça, tentando entender a relação do tio com aquela provável máfia.


Levi manteve-se ali, por horas, tentando encontrar outra coisa além da verdade decepcionante.


Ele desceu assim que as caminhonetes atravessaram as cercas. 


Levi empurrou as portas do galpão abruptamente, entrando no interior demasiado amplo e iluminado. 


As paredes numa cor acinzentada, com ferramentas diversas penduradas.


Kenny estava no final do lugar, em pé em frente à uma mesa de ferro. 


Ele parecia já esperar pelo sobrinho.


Havia agora poucos barris azuis ao redor.  Levi aproximou-se a passos rápidos, a raiva o impedindo de se incomodar com o cheiro forte de peixe. 


Kenny, Levi notou, estava tenso. Ele retirou o avental, jogando-a na mesa suja de restos de peixes abertos.


Levi via munições, cargas e balas de todos os tipos espelhados ali.


Ah! Perdão, tio...— Levi chegou perto de um dos Barris, empurrando-o contra o piso.


A água derramou junto aos peixes e armas.


— Está traficando para os japoneses.


Kenny estava paralisado.


— Você é porra de um traficante de armas. 


— Levi.


— A maioria das suas missões eram matar justamente esses filhos da puta.


— Ouça, eu posso explicar...


— Se os russos te pegam... — Ele soltou uma risada incrédula, afastando-se de Kenny quando ele deu a volta na mesa.  — Eu fodi com a minha vida para que você vivesse a sua. E para quê, isso?


Kenny balançou a cabeça negativamente, a expressão atordoada dele não afetou Levi.


— Eu tenho meus motivos. Precisa confiar em mim, filho. Me deixe explicar.


Levi riu, puxando os cabelos nervosamente. 


Ele não queria explicação nenhuma, ele não queria mais ouvir a voz de Kenny.


— Foi o que me disse a uns cinco anos atrás.  Depois, minha missão era matar você. 


Kenny tentou tocá-lo, Levi recuou como se o tio fosse radioativo. 


Eu matei a Petra.


Kenny arregalou os olhos, encostando-se na mesa para não cair, forçando-se a assimilar a informação desconcertante.



— A mandaram fazer uma proposta de acordo. Eu entregava sua localização, e ela não me matava. Ou, eu teria que matá-la se quisesse sair dali. — Levi estremecia de raiva, o peso enorme ainda não diminua. — Eu matei minha melhor amiga porque escolhi você. De novo. 


— Eu sinto muito tê-lo colocado nisso, Levi. — A voz dele falhou.


Kenny tinha os olhos marejados. 


A única que vez que o viu chorar, fora no enterro de Kuchel.


 Levi olhou friamente para Kenny antes de girar nos calcanhares. 


Não dê as costas para mim. — Kenny suplicou.


Levi parou no caminho por alguns segundos, respirando profundamente, então prosseguiu.


Por favor. 


Ele estancou na saída do galpão.


A ira já o causava vertigem. 


Levi fechou o punho, e quando ouviu Kenny atrás de si, o ergueu virando-se, enterrando precisamente no rosto do tio. 


Kenny cambaleou, quase perdendo o equilíbrio dos pés. 


— Você não tem o direito de pedir isso. Não quando esteve a vida inteira me virando as suas.


Ele sentia-se o garoto de dez anos novamente vendo Kenny ir embora, mas Kuchel não estava mais lá para lembrá-lo da razão.


 Kenny o olhou, o sangue escorria do supercílio cortado.


Não havia raiva na fisionomia dele, apenas surpresa.


Tristeza. 


Então, Kenny deu o que Levi precisava.


Avançou sobre ele, e os dois romperam violentamente no solo a fora, rolando na grama, trocando xingamentos e socos entre eles. 


Levi descontava toda a decepção, e continuaria, se não fosse a água fria jogada em ambos. 


Ele afastou-se de Kenny com dificuldade, a brisa noturna soprava forte, deixando-o trêmulo pelas roupas encharcadas.


Levi cuspiu sangue, depois fitou a responsável.


Mikasa estava em pé rente a eles, o balde agora vazio abandonado na grama. 


— O que vocês são, bárbaros ou animais? — Ela não esperava uma resposta, e os analisava com revolta.


Levi desceu os olhos por ela desdenhosamente. Mikasa sequer importou-se, enxugava as mãos no vestido escuro e solto de alças finas. 


Ele levantou-se, ignorando a dor intensa no ombro ferido, não queria encarar Kenny ao lado, recuperando o fôlego.


 Passou pela mulher a passos pesados. 


— Você está bem, Kenny? — A ouviu indagar para o tio.


— Estou, querida. Cuide dele, os pontos devem ter estourado. 


Quando entrou na casa, Levi logo tratou de pegar a chave do táxi em cima da mesa de centro na sala.


Não ficaria ali mais nenhum dia. 


— Você está sangrando. 


Ele a olhou por cima do ombro.


— Você sabia que seu pai é um traficante?


Mikasa franziu o cenho, obviamente não gostando do tom dele. 


— Não desconte sua frustração em mim. 


Levi sentia uma exaltação descomunal o tomando.


— Não estou. Apenas... você encheu a boca para dizer pessoas como eu. E veja só, seu galpão é um covil armas. Desde o primeiro dia, me julgando... Digo com gosto que você é uma hipócrita do caralho.


Ela ficou momentaneamente sem reação pelas palavras dele. 


— Foi o que interpretou? Que eu julgo você sabe-se lá pelo que fez na sua vida?


— E não julga? Mãos sujas de sangue, foi o que disse. Kenny também tem. 


— Kenny tem as razões dele.


— Deve ser um bem triste.  É como você aceita? Uma história triste por trás de atos podres. No fundo... — Levi sentia tudo transbordar, o controle que ele prezava desvanecendo. Mikasa parecia o gatilho. — Você pensa o mesmo de mim. Mas, aqui vai: não tenho uma história triste para usar como motivo de sujar as mãos de sangue. Eu fiz porque eu quis. Não dou a mínima se acha que foi por prazer, dinheiro ou necessidade. Eu fiz porque eu quis. 


Levi mentia. Não entendia, mas se importava com o que ela pensava dele. 


E pela primeira vez, Levi vira a inexpressão de Mikasa sumir. 


Para uma furiosa.


Ela quebrou a distância entre eles, o empurrando pelos ombros irritada, Levi esbarrou na mesa de centro, praticamente caindo, e Mikasa continuou, ele xingou, segurando os braços dela para que parasse, as mãos dela foram para o peito dele, puxando o tecido da camisa molhada nos dedos fortemente, então, jogou-se sobre ele. 


Levi arfou quando as costas colidiram bruscamente contra a parede.


A encarou incrédulo, estava tão perto que a respiração ofegante dela misturava-se com a dele. 


Levi não se moveu mais, Mikasa igualmente.


E ele não desviou das íris tempestuosas.


—  Durante anos, eu vi Kenny se trancar no seu quarto. Se amargurando, se culpando, e se agarrando a memória do garoto de dez anos... — Mikasa começou, as palavras eram sucintas e estranhamente baixas. De um jeito que o fizera retesar. —  Que não existe mais. 


Levi não dava-se conta, mas a pressionava contra ele, buscando algo próximo a apoio do turbilhão de sentimentos o socando sem parar.


A raiva e decepção acumulada de Kenny. 


De si próprio.


— Quando eu atirei em você, a expressão dele... Eu só o vi assustado daquela forma duas vezes em toda a minha vida.


 A razão pela qual não suporto sua presença, porque odeio olhar para você, é que sei dos riscos que você pode trazer. 

 

Assim como a certeza de que Kenny está disposto a enfrentar cada um. 


Morrer por você. Mesmo que você não acredite agora.


 Se eles oferecerem uma troca de cabeças, Kenny não vai hesitar em entregar a própria para salvar a sua. E independente do quanto sei que a sua ida ou morte pode destruí-lo... não suporto a ideia de vê-lo partir antes de mim. Ele é tudo o que eu tenho e não vou permitir que nada me tire isso. 


O motivo pelo qual Kenny pratica o que você viu, sou eu. E não vou entrar em mais detalhes. 


Sei que Kenny fazia a mesma coisa que você. E eu o amo como filha, mas o odeio como pessoa. 


A vida é o que é e não o que eu gostaria que fosse.


A exaltação dele pareceu diluir com as palavras precisas dela. 


Levi diminuiu o aperto, assustando-se quando ela quase caiu para o lado, ele a segurou a tempo, guiando-a para sentar no sofá.



Mikasa estava fraca de repente, e ele não compreendia. A discussão pareceu ser um esforço desgastante para ela.


Ele acompanhou os movimentos dela.


Mikasa espalmou a mão no peito, massageando enquanto respirava com dificuldade.


A mente dele empurrou todas as questões para o mais fundo.


Focando naquele momento.


— Aposto que de todas as coisas horríveis que você já pensou que eu fiz... bater em um idoso foi uma das piores. — Levi dissera ao vê-la mais calma.


Mikasa o encarou, e para a surpresa de Levi, riu.


Uma risada leve e divertida.


E ele fixou-se nela.


Mikasa manteve o olhar, deslizando-o pelo rosto de Levi. 


 Igual ele, curiosa, procurando, estudando e conhecendo.


Quando ela desviou, pousou direto no ombro dele ensanguentado. 


Os pontos haviam estourado, a dor tornando-se intensiva após a adrenalina diminuindo. 


Adrenalina esta, causada não pela briga com Kenny.


— Tire a camisa. — Mikasa mandou.


 Levi arqueou as sobrancelhas.


— Adoraria ouvir isso em outras circunstâncias.


— Na sua imaginação, talvez.


Ele sorriu.





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