História Antes que eu vá - Capítulo 2


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Categorias B.A.P, Bangtan Boys (BTS), Black Pink, EXO, G-Dragon, Got7
Personagens Baekhyun, Bang Yongguk, Chanyeol, Chen, D.O, Daehyun, G-Dragon, Himchan, Jackson, Jennie, J-hope, Jimin, Jin, Jisoo, Jungkook, Kai, Lay, Lisa, Lu Han, Mark, Personagens Originais, Rap Monster, Rosé, Sehun, Suga, Suho, V, Xiumin
Tags Chanbaek, Jikook, Markson, V - Hope
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Palavras 12.320
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Festa, Ficção, Ficção Adolescente, Fluffy, Lemon, Magia, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Estupro, Gravidez Masculina (MPreg), Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Pansexualidade, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Oi de novo seus porras

Capítulo 2 - Um



UM

_____________________________________________________

— Bi, biiiii — gritou Yoongi.

Há algumas semanas minha Omma gritou com ele por buzinar todos os dias às 6h45, e essa foi a solução de Yoongi.

— Já estou indo! — berro de volta, ainda que ele esteja me vendo abrir a porta da frente, tentando vestir o casaco e ao mesmo tempo guardar o celular na bolsa. No último segundo, minha irmã de 8 anos, Seulgi, me cutuca.

— O quê? — Dou meia-volta.

Ela tem um radar de irmã caçula que dispara quando estou ocupada,atrasada ou ao telefone com minha namorada. Essas são sempre as horas que ela escolhe para me perturbar.

— Você esqueceu suas luvas — ela diz, só que sai:“Você eshhqueceu sssuas luvashh.” Seulgi se recusa a ir à fonoaudióloga para melhorar sua dicção, mesmo com todas as crianças da escola rindo dela. Diz que gosta do jeito como fala. Pego as luvas da mão dela. São de caxemira, e ela, provavelmente,as sujou de pasta de amendoim. Está sempre mexendo nesses potes.

— O que foi que eu lhe disse, Seulgi? — pergunto, cutucando-a no meio da testa. — Não mexa nas minhas coisas. — Ela dá uma risadinha boba e eu tenho de empurrá-la para dentro enquanto fecho a porta. Se dependesse dela, me seguiria o dia inteiro como um cachorro. Quando consigo sair de casa, Yoongi está debruçado na janela do Tanque. É assim que chamamos seu carro, um enorme Range Rover prata. (Toda vez que saímos nele pelo menos uma pessoa diz: “Isso não é um carro, é um caminhão”, e Yoongi retruca que poderia dar de frente com uma carreta e sair sem nenhum arranhão.) Namjoon e ele são as únicas de nós que têm carro. O de Namjoon é um Jetta preto e apertado que batizamos de “Minime”. Eu, às vezes, pego o Accord de minha mãe emprestado, e o coitado do Taehyung tem que se contentar com o velho Ford Taurus do pai, que hoje em dia mal anda.

O ar está parado, congelante. O céu azul-claro, perfeito. O sol acabou de se levantar, fraco e desbotado, como se tivesse se derramado no horizonte e fosse preguiçoso demais para se ajeitar.A previsão é que mais tarde chova, mas nunca se Sento no banco do carona. Yoongi já está fumando e gesticula com a ponta do cigarro para o café da lanchonete da família da Sun- Hee que comprou para mim.

— Biscoito? — pergunto.

— Lá atrás.

— De chocolate?

— Claro. — Ele olha para mim enquanto sai da entrada de carros. — Gostei do casaco.

— E eu do seu.

Yoongi inclina a cabeça, agradecendo o elogio. Na verdade estamos com o mesmo casaco. Só existem dois dias no ano em que Yoongi, Namjoon, Taehyung e eu nos vestimos iguais de propósito: o Dia dos garrotos, na Semana Espiritual, já que compramos conjuntinhos lindos da Gucci no último Natal, e o Dia do Cupido. Passamos três horas no shopping discutindo se deveríamos escolher vermelho ou amarelo — Yoongi detesta vermelho, Namjoon só usa essa cor —, e finalmente concordamos em comprar casaco preto amarelo, que encontramos na banca de liquidação da Nordstrom.

Como disse, essas são as únicas ocasiões em que saímos iguais de propósito. Mas a verdade é que onde estudo, o colégio Thomas Jefferson, todo mundo usa mais ou menos o mesmo visual. Não existe uniforme — é uma escola pública —,mas o mesmo modelito com jeans da Seven, tênis New Balance cinza, camiseta branca e casaco colorido da Korea Face veste nove de cada dez alunos. Sejam meninos ou meninas,as roupas se repetem, exceto por nossos jeans serem mais largos e termos de secar o cabelo todos os dias. Estamos em Busan: ser como os outros é o xis da questão. Isso não quer dizer que a escola não tenha seus esquisitões — tem —, mas mesmo esses são esquisitos de maneira similar. Os nerds ecológicos vão para as aulas de bicicleta, vestem roupas confeccionadas com fibra de maconha e nunca lavam os cabelos — como se ter dreadlocks de algum jeito ajudasse a inibir a emissão de gases que causam o efeito estufa. Os dramáticos carregam enormes garrafas de agua, usam cachecol mesmo no verão e não conversam durante as aulas porque estão “poupando a voz”. Os integrantes do Clube de Matemática sempre carregam dez vezes mais livros do que qualquer pessoa, usam de fato os armários e andam com expressão permanentemente tensa, como se estivessem esperando que alguém fizesse “Buu!”.

Para dizer a verdade, isso não me incomoda. Às vezes, Yoongi e eu planejamos fugir depois da formatura e ficar em Seul, no loft de um tatuador que o meio- irmão dele conhece, mas secretamente gosto de morar em Busan. É tranquilizador, entende?

Inclino-me para a frente, tentando aplicar o rímel sem furar o olho. Yoongi nunca foi uma motorista cuidadosa e tem uma tendência a fazer manobras bruscas, frear de repente e em seguida acelerar.

—Acho bom que Haneul me mande uma rosa — diz ele enquanto avança um sinal e quase quebra meu pescoço ao pisar no freio no seguinte. Haneul é o namorado que vive terminando e voltando com Yoongi. Eles bateram o recorde de rompimentos: 13 vezes desde o início do ano escolar.

— Eu tive que sentar ao lado do Hana enquanto ela preenchia o pedido — digo, revirando os olhos. — Foi como trabalho forçado.

Eu e Hana Cokran namoramos desde outubro, mas sou apaixonada por ela desde o sexto ano, quando ela era descolado demais para falar comigo. Hana foi meu segundo amor, ou pelo menos meu sgeundo amor que deu certo. Uma vez beijei Jeon Jungkook, no terceiro ano,mas isso,obviamente,não conta, visto que tínhamos acabado de trocar aneizinhos e estávamos fingindo ser marido e mulher.

— Ano passado ganhei 22 rosas. — Yoongi joga a guimba de cigarro pela janela e se inclina para tomar um barulhento gole de café. — Vou chegar a 25 este ano.

Todo ano antes do Dia do Cupido o conselho estudantil arma uma cabine do lado de fora do ginásio. Por dois dólares a unidade você pode comprar Namogramas — rosas com bilhetinhos presos a elas — para seus amigos, que são entregues ao longo do dia por cupidos (geralmente, meninas do primeiro ou do segundo ano tentando fazer média com os caras mais velhos).

— Eu ficaria feliz com 15 — digo.

A quantidade de rosas que você recebe é uma questão importante. Dá para dizer quem é popular ou não pelo número de flores que carrega. É ruim ganhar menos de dez e humilhante não receber mais de cinco. Basicamente, significa que você é feio ou que ninguém o conhece. Ou provavelmente ambos. Às vezes, algumas pessoas catam rosas do chão para juntar a seu buquê, mas sempre dá para perceber quem fez isso.

— Então — Yoongi me olha de lado —, está animado? O grande dia. Noite de abertura. — Ele ri. — Sem trocadilho.

Dou de ombros e me viro para a janela,observando minha respiração embaçar o vidro.

— Não é nada demais.

Os pais da Hana vão viajar no fim de semana, e há algumas semanas ela me perguntou se eu queria passar a noite toda na casa dela. Eu sabia que o que ela realmente estava perguntando era se eu queria transar.Tínhamos chegado mais ou menos perto algumas vezes,mas sempre tinha sido no BMW do pai dela, no porão de alguém ou na saleta da minha casa, com meus pais dormindo no andar de cima; e sempre parecia errado.

Então, quando ela me convidou para passar a noite, eu disse que sim sem pensar.

Yoongi solta um ganido e bate com a palma da mão no volante.

— Nada demais? Você está brincando? Meu menininho está crescendo...

— Ah, por favor!

Sinto o calor subindo por meu pescoço e sei que minha pele provavelmente está ficando vermelha e manchada. Isso sempre acontece se fico envergonhada.Todos os dermatologistas, cremes e talcos de Connecticut não ajudariam. Quando eu era mais novo, as crianças costumavam brincar:

“ O que é vermelha e branca e totalmente estranho? Park Jimin!”

Balanço a cabeça e esfrego o vapor na janela. Lá fora o mundo brilha, como se estivesse envernizado.

— Quando foi que você e Haneul fizeram, afinal? Há três meses?

— É, mas temos tirado o atraso desde então. — Yoongi dança no assento.

— Eca.

— Não se preocupe, garotinho. Você vai ficar bem.

— Não me chame de garotinho. — Esse é um dos motivos de eu estar feliz por ter decidido transar com Hana hoje à noite: Yoongi e Taehyung vão parar de tirar sarro de mim. Por sorte, como Namjoon ainda é virgem, isso também significa que não vou ser o último. Às vezes acho que das quatro eu sou sempre o que está sobrando, como se estivesse ali à toa. — Eu disse que não era nada demais.

— Se você está dizendo...

Ele me deixou nervoso, então conto todas as caixas de correio enquanto passamos. Fico imaginando se amanhã as coisas parecerão diferentes. Se vou parecer diferente para os outros. Espero que sim.

Paramos na casa de Taehyung, e antes mesmo que Yoongi possa buzinar a porta da frente se abre e ele vem caminhando com rapidez, como se mal pudesse esperar para sair de casa.

— Muito frio lá fora? — pergunta Yoongi quando Taehyung entra no carro. Ele veste o casaco amarelo, apesar de a meteorologia ter previsto que a máxima do dia seria em torno de quatro graus.

— De que adianta ser gostoso e não poder mostrar? — Taehyung sacode a bunda e começamosa rir.

É impossível ficar estressado quando ele está por perto, e o nó no meu estômago se desfaz.

Yoongi gesticula e lhe entrego um café. Todos nós bebemos o mesmo: grande, com avelã, sem açúcar e com creme extra.

— Olhe onde senta.Você vai esmagar os biscoitos. — Yoongi franze o rosto no espelho retrovisor.

— Você bem que queria uma provinha disso. — Taehyung dá um tapinha na bunda e começamosa rir outra vez.

— Guarde pro docinho, safadinho.

Jung Hoseok é o mais nova vítima de Taehyung. Ele o chama de docinho porque ele é gostosinho (isso é o que ele diz; na minha opinião, é muito gordurento e vive cheirando a maconha). Eles ficam há um mês e meio.

Taehyung é o mais experiente de nós. Perdeu a virgindade no segundo ano e já transou com dois caras diferentes. Foi ele que me contou que ficou dolorido nas primeiras vezes, o que me deixou dez vezes mais nervoso. Sei que pode parecer loucura, mas nunca tinha pensado nisso como uma coisa física, algo que pudesse deixar Hana dolorida, como jogar futebol ou andar a cavalo.Tenho medo de não saber oque fazer, como quando jogávamos basquete no ginásio e eu sempre esquecia quemdeveria marcar, quando passar a bola ou driblar.

— Humm, fominha. — Taehyung passa a mão na barriga. — Estou morrendo de fome.

— Tem um biscoito para você — digo.

— De chocolate ? — pergunta Taehyung.

— Claro — Yoongi e eu responde ao mesmo tempo.

Yoongi dá uma piscadela para mim.

Logo antes de chegarmos ao colégio abaixamos os vidros das janelas e aumentamos o som de EXO cantando “KOKOBOP”. Fecho os olhos e penso na festa da escola e no meu primeiro beijo em Hana, quando ela me puxou para perto na pista de dança e de repente meus lábios estavam nos dele, a língua dele deslizava sob a minha, eu podia sentir o calor de todas as luzes coloridas sobre mim como a mão de alguém e a música parecia vibrar em algum ponto atrás das minhas costelas, fazendo meu coração flutuar e perder o compasso. O ar frio que entra pela janela incomoda minha garganta e o som vibra na sola dos meus pés como naquela noite, quando pensei que jamais pudesse ser tão feliz, sobe até minha cabeça e me deixa tonto, como se todo o carro fosse explodir com o som.

                         * * *

Entramos no estacionamento exatamente dez minutos antes do primeiro sinal. Yoongi vai para a parte mais baixa, onde ficam as vagas do corpo docente, dispersando um grupo de meninas do segundo ano.Vejo vestidos de renda vermelha e branca por baixo dos casacos e uma das meninas usava uma tiara. Cupidos, definitivamente.

— Vamos, vamos, vamos — murmura Yoongi, enquanto contornamos por trás do ginásio.

Essa é a única fileira desse setor do estacionamento que não é reservada aos professores. Chamamos de Reino dos Formandos, apesar de já parar aqui desde o segundo ano. É o estacionamento VIP doThomas Jefferson, e, se você perde uma vaga — são apenas vinte —, tem de parar no estacionamento de cima, que fica a 354 metros da entrada principal.Verificamos uma vez, e agora sempre que falamos a respeito temos que usar a distância exata, do tipo: 

“Você quer mesmo andar 354 metros nessa chuva?”

Yoongi dá um gritinho quando vê uma vaga disponível, e gira o volante para a esquerda. Ao mesmo tempo, Jeon Jungkook está vindo pelo outro lado com seu Chevrolet marrom, mirando a mesma vaga.

— Ah, de jeito nenhum. Nem pensar! —

Yoongi enfia a mão na buzina, apesar de estar óbvio que Jeon chegou antes de nós, e pisa fundo no acelerador. Taehyung solta um grito agudo quando cai café quente no casaco dele.A borracha dos pneus canta e Jeon Jungkook pisa no freio pouco antes de o Range Rover de Yoongi arrancar seu para-choque.

— Beleza — Yoongi entra na vaga e para o carro. Em seguida abre a porta e se inclina para fora. — Desculpe, querido! — grita para Jeon. — Não vi você aí. — Isso obviamente é mentira.

— Ótimo. — Taehyung está limpando o café com um guardanapo amassado da lanchonete. — Agora vou passar o dia inteiro com o corpo cheirando a avelã.

— Homens gostam de cheiro de comida — digo. — Eu li em uma página.

— Enfie um cookie na calça e o Docinho provavelmente vai agarrar você antes da primeira aula.

Yoongi mexe no retrovisor para dar uma olhada no próprio rosto.

—Talvez você devesse tentar com Hana, Jimminie.— Taehyung joga o guardanapo sujo de café em mim, eu o pego e jogo de volta.

— O quê? — Ele está rindo. — Você não pensou que eu fosse esquecer sua grande noite, pensou?

Ele remexe na bolsa e a próxima coisa a voar na minha direção é um preservativo amassado com pedacinhos de fumo presos na embalagem. Yoongi começa a rir.

— Seus idiotas! — eu digo, pegando o preservativo com a ponta de dois dedos e colocando-o no porta-luvas de Yoongi.

Só de tocar na camisinha fico nervoso outra vez, e sinto algo se retorcendo em meu estômago. Nunca entendi por que os preservativos são embalados com aqueles papéis laminados. Parecem muito clínicos, como algo que o médico receitaria para alergias ou problemas intestinais.

— Sem proteção, sem sexo — diz Taehyung, debruçando-se no banco para me dar um beijo na bochecha, que fica com um grande círculo de gloss cor-de-rosa.

— Vamos. — Saio do carro antes que alguém possa notar que estou corando.

O Sr. Mark, diretor de atletismo, está do lado de fora do ginásio quando saltamos do carro, provavelmente olhando nosso bumbum. Taehyung acha que ele insistiu em ter o escritório ao lado do vestiário dos meninos por que instalou ali uma câmera escondida que transmite diretamente para o computador dele. Por qual outro motivo ele precisaria de um computador? Ele é o diretor de atletismo.Agora, toda vez que uso aquele banheiro, fico paranoico.

— Andem logo, meninos — diz ele, que é também treinador de futebol, oque não deixa de ser irônico, considerando que provavelmente não aguentaria correr

até a máquina de lanches e voltar. Ele parece uma morsa.Tem até penteado estranho. — Não quero ter que anotar um atraso.

— Não quero ter que espancá-lo — imito a voz dele, que é estranhamente aguda, outro motivo para Taehyung acreditar que ele possa ser um pedófilo. Taehyung e Yoongi começam a rir.

— Dois minutos para bater o sinal — diz Mark, em tom mais severo. Talvez tenha me ouvido. Mas não me importo mesmo.

— Feliz sexta-feira... — resmunga Yoongi, e me dá o braço.

Taehyung pegou o celular e está conferindo seus dentes na parte de trás do aparelho, espelhada. Ele limpa as sementes de gergelim com a unha do dedomindinho.

— Que saco — diz, sem levantar os olhos.

— Totalmente — digo.As sextas-feiras são os dias mais difíceis: você está tão perto da liberdade... — Pode me matar agora.

— De jeito nenhum. — Yoongi aperta meu braço. — Não posso deixar meu melhor amigo morrer virgem.

Bem, nós não sabíamos.

Nas duas primeiras aulas — artes e HAA (história coreana avançada: história sempre foi minha melhor matéria) — só ganho cinco rosas.Não me estresso com isso,apesar de ter me irritado um pouco o fato de Byun Baekhyung ter ganhado quatro flores do namorado,

Park Chanyeol. Nem me ocorreu fazer isso para Hana, e, de certa maneira, não acho justo. Faz com que as pessoas pensem que você tem mais amigos do que na realidade.

                   ***

Meu quarto tempo é de “habilidades de vida”, que é como chamam educação física quando você tem idade suficiente para ficar ofendido com atividades físicas forçadas

(Taehyung acha que deveria se chamar escravidão, para ser mais preciso).

Estamos estudando ressuscitação cardiopulmonar, o que significa que beijamos a boca de bonecos tamanho família na frente do Sr. Mark. Mais provas de que ele é um pervertido.

No quinto tempo tenho cálculo, e os cupidos chegam cedo, logo após o início da aula.Uma das meninas está com um body vermelho brilhante e chifres de diabinho; outra parece estar vestida de coelhinha da Playboy ou, talvez, de coelhinho da Páscoa de salto alto; outra está com roupa de anjo.As fantasias não fazem muito sentido no contexto da comemoração,mas, como eu disse,o objetivo é se mostrar para os meninos do terceiro ano. Não as culpo. Nós fizemos a mesma coisa. No primeiro ano, Taehyung e Oh Sehun, que na época era formando, namoraram por dois meses depois que ela lhe entregou uma flor e ele lhe disse que sua bunda ficava bonito em uma calça apertada. Uma verdadeira história de amor.

A diabinha me entrega três flores — uma de Taehyung, uma de Hyuna, que é mais ou menos do nosso grupo, mas nem tanto, e uma de Hana. Faço questão de desdobrar o cartãozinho enrolado no caule da rosa e de agir como se estivesse muito comovida enquanto leio o bilhete, apesar de só estar escrito: 

Feliz Dia do Cupido. Com amor.

 E depois, em letras menores perto da borda: Feliz agora?

“Com amor” não é exatamente “Eu te amo” — algo que nunca dissemos —, mas já é alguma coisa.Tenho certeza de que ela está guardando a declaração oficial para a noite. Na semana passada, já era tarde, estávamos sentados no sofá dela, ela estavame encarando e tive certeza — certeza — de que ia falar, mas em vez disso,simplesmente disse que de um certo ângulo eu me parecia com algum ator pornô famoso.

Pelo menos meu bilhete é melhor do que o que Namjoon deu para Jin no ano passado: 

" A rosa é vermelha, a violeta é azul,se eu levá-la para a cama, a gente acorda nu ". 

Ele estava brincando, óbvio, mas mesmo assim. Azul e nu nem sequer rimam. Achava que aqueles seriam todos os meus Namogramas, mas em seguida a anjinha vem até minha mesa e me entrega mais um. As rosas têm cores variadas, e essa é particularmente linda: com pétalas rosadas e creme, como se fosse feita de sorvete.

— É linda — suspira ela.

Levanto o olhar.A anja está ali parada, olhando fixamente para a rosa sobre minha carteira.É bem surpreendente quando alguém mais novo tem coragem de falar com um aluno do último ano, e por um segundo isso me irrita um pouquinho.

Ela também não parece um cupido qualquer. Tem cabelos louros muito claros, quase brancos, e é possível enxergar suas veias sob a pele pálida.Ela me lembra alguém,mas não sei quem.

A garota percebe que estou olhando e me lança um sorriso rápido e envergonhado. Fico satisfeita em ver um pouco de cor enrubescendo seu rosto — isso ao menos a faz parecer viva.

— Marian!

A anja se vira quando a diabinha chama.A diabinha faz um gesto impaciente com as rosas que ainda está carregando e ela — Marian, suponho — rapidamente se junta aos outros cupidos. As três saem.

Passo o dedo pelas pétalas da rosa — são delicadas como o ar, como um suspiro — e imediatamente me sinto uma tola.Abro o bilhete, esperando algo de até Taehyun ou de Yoongi (os deles sempre dizem: Morro de amores por você, viado),mas em vez disso vejo um desenho de um cupido gorducho, acidentalmente flechando um pássaro em uma árvore. A ave é uma águia-calva, e parece prestes a cair bem em cima do casal sentado em um banco — o alvo original do cupido, presumivelmente. Os olhos do anjo são espirais, e ele está com um sorriso idiota.

Abaixo do desenho lê-se: Se beber, não ame.

É, obviamente, de Taemin — ele faz tirinhas para o jornal de humor da escola —, e levanto o olhar na direção dele, que sempre senta no canto esquerdo no fundo da sala.Isso é uma das coisas estranhas a seu respeito,mas não a única. Evidentemente, ele está me olhando. Dá um sorriso rápido e acena, e em seguida gesticula como se estivesse armando uma flecha em um arco e atirando-a em mim. Faço questão de fazer cara feia, pegar o bilhete, dobrá-lo rapidamente e jogá-lo no fundo da bolsa. Mas ele não parece se importar. É como se eu pudesse sentir o sorriso dele ardendo em mim.

O Sr. Jackson caminha entre as fileiras,recolhendo os deveres de casa, e para ao lado da minha carteira. Preciso admitir: ele é a razão pela qual fiquei tão animada por ganhar quatro Namogramas na aula de cálculo. Jackson tem 25 anos e é maravilhoso. É auxiliar técnico do time de futebol, e é engraçado vê-lo ao lado de Mark, . Fisicamente, eles são o oposto um do outro mas são apaixonados um pelo outro mesmo assim. O Sr. Jackson tem mais de 1,60m, está sempre branquelo e se veste como nós, com calça jeans, casaco e tênis Nike. Ele se formou no Thomas Jefferson. Uma vez o procuramos nos antigos anuários, na biblioteca. Ele foi rei da festa de formatura e em uma das fotos está de smoking, sorrindo, o braço ao redor de seu par. Dá para ver um colar de maconha aparecendo no colarinho da camisa.Adoro aquela foto. Mas sabe o que adoro ainda mais? Ele ainda usa aquele colar.

É absolutamente irônico que o cara mais gata do Thomas Jefferson seja do corpo docente.

Como sempre,quando ele sorri meu estômago dá um pequeno salto.Ele passa a mão nos cabelos castanhos e bagunçados e eu fantasio fazer a mesma coisa.

— Nove rosas, já? — Ele ergue as sobrancelhas, olha o relógio espalhafatosamente. — São só 11h15. Muito bem.

— O que posso dizer? — Falo no tom mais suave e charmoso possível. — As pessoas me adoram.

— Dá para notar — ele diz, e dá uma piscadela para mim.

Deixo que ele caminhe um pouco mais pela fileira e digo em voz alta:

— Ainda não recebi uma rosa sua, Sr. Jackson.

Ele não se vira, mas consigo ver a ponta de suas orelhas ficando vermelhas. Risos e gargalhadas ecoam pela sala de aula. Sinto aquela agitação que dá quando você faz alguma coisa errada e sai ileso, como roubar coisas da cantina da escola ou ficar de pilequinho em um evento familiar sem que ninguém perceba.

Yoongi diz que o Sr.Jackson vai me processar por assédio algum dia. Duvido. Acho que, no fundo, ele gosta.

Comprovação: quando ele vira para ficar de frente para a turma, está sorrindo.

—Após revisar os resultados dos testes da semana passada, percebi que ainda há muita confusão em relação a assíntotas e limites...— começa ele, encostando-se na mesa e cruzando os pés.

Nenhuma outra pessoa conseguiria tornar cálculo uma matéria interessante, não tenho dúvida.

Durante o resto da aula ele mal olha para mim. Só quando levanto a mão. Mas juro que quando nossos olhares se cruzam meu corpo inteiro parece tremer. E juro que ele sente a mesma coisa.

* * *

Depois da aula, Taemin me alcança.

— Então? — ele diz. — O que achou?

— Sobre o quê? — digo para irritá-lo.

Sei que ele está falando do desenho e da rosa. Taemin simplesmente sorri e muda de assunto.

— Meus pais estão viajando neste fim de semana.

— Bom para você.

O sorriso dele não desaparece.

— Vou dar uma festa hoje à noite. Você vem?

Olho para ele. Nunca entendi Taemin. Ou, pelo menos, há anos não o entendo.

Éramos muito próximos quando pequenos — tecnicamente, acho que ele era meu melhor amigo, e foi nele o meu segundo beijo —,mas assim que chegamos ao ensino medio, ele começou a ficar cada vez mais estranho. Desde o primeiro ano, usa sempre blazer para ir à escola,mesmo que a maioria já esteja com as costuras esgarçadas e os cotovelos puídos.Usa todos os dias o mesmo tênis xadrez preto e branco surrado, e seus cabelos estão tão compridos que parecem cortinas, e caem nos olhos a cada cinco segundos. Mas o problema maior é o seguinte: ele usa roupas estranhas. Para ir ao colégio. A pior parte é que ele poderia ser bonitinho.Tem rosto e corpo para isso. E tem um lindo sorriso. Sério. Mas precisa estragar tudo sendo totalmente esquisito.

— Ainda não sei quais são meus planos — digo. — Se todo mundo for para lá...

— Deixo a voz sumir para que ele fique sabendo que só vou aparecer se não tiver nada melhor para fazer.

— Vai ser ótimo — ele diz, ainda sorrindo.

Outro fato irritante sobre Taemin: ele age como se o mundo fosse um presente grande e reluzente que ele tem a oportunidade de abrir a cada manhã.

— Vamos ver — digo.

No fim do corredor, vejo Hana entrando no refeitório e começo a andar mais rápido, torcendo para que Taemin e entenda a mensagem e recue. É um pensamento bastante otimista de minha parte. Taemin é apaixonado por mim há anos. Possivelmente desde aquele beijo.

Ele para de andar, talvez esperando que eu me detenha também. Mas não paro. Por um segundo me sinto mal, como se tivesse sido dura demais,mas em seguida a voz dele ecoa atrás de mim, e só pelo som posso perceber que ele continua sorrindo.

— Vejo você hoje à noite — ele diz.

Ouço o barulho dos calçados dele no piso de linóleo e percebo que deu meia- volta e está caminhando. Ele começa a assobiar. O som chega até mim bem fraco.

Demoro um pouco para reconhecer a música.

The sun’ll come out tomorrow, bet your bottom dollar that tomorrow there’ll be sun. 

Do musical Annie. Minha música favorita... quando eu tinha 7 anos.

Sei que mais ninguém no corredor vai entender,mas fico envergonhada assim mesmo, e sinto o calor subindo por meu pescoço. Ele sempre faz coisas desse tipo:age como se me conhecesse melhor que ninguém só porque brincávamos na mesma caixa de areia há cem anos.Age como se tudo o que aconteceu nos últimos dez anos não tivesse mudado isso em nada, apesar de ter mudado tudo.

Meu telefone está vibrando no bolso de trás, e antes de entrar para almoçar abro para ver. Tenho uma nova mensagem de Yoongi.

Festa @Taemin hj. Topa?

Paro por um instante e respiro fundo antes de responder.

Óbvio.

* * *

Há três coisas aceitáveis para se comer na cantina do Thomas Jefferson:

1- Bagel, puro ou com cream cheese.

2- Batatas fritas.

3- Sanduíche na bancada self-service.

a) Mas só com peru, presunto ou peito de frango. Salame e mortadela são, obviamente, proibidos, e o rosbife é duvidoso. O que é péssimo, pois rosbife é meu favorito.

Hana está próximo à caixa registradora com um grupo de amigos. Ela segura uma bandeja enorme de batatas fritas. É o que come todos os dias. Nossos olhares cruzam e ele acena com a cabeça. (Ela não é o tipo de garota que lida bem com sentimentos — nem com os dela, nem com os meus. Daí o “Com amor” que colocou no bilhete.)

É estranho. Antes de começarmos a namorar eu já gostava tanto dela, havia tanto tempo, que sempre que ela olhava na minha direção eu sentia um formigamento e um frio na barriga tão fortes que ficava zonza. Sem mentira: às vezes ficava zonzo a ponto de ter de sentar.

Mas agora que somos oficialmente um casal, algumas vezes penso coisas bem esquisitas ao olhar para ela, do tipo:Como tantas batatas fritas não entopem suas artérias?

Ela passa fio dental? Há quanto tempo não lava a saia que usa quase todos os dias? Às vezes fico com medo de que tenha algo errado comigo.

Quem não iria querer sair com Hana Cokran?

Não que eu não seja completamente feliz — eu sou —, mas às vezes parece que preciso ficar me concentrando em por que comecei a gostar dela, ou do contrário vou esquecer os motivos. Por sorte, tenho milhões de bons motivos: ela tem cabelos negros e um bilhão de sardas, que, de algum jeito, nela não ficam feias; ela fala alto demais, mas de um jeito engraçado; todos o conhecem e gostam dela, e provavelmente metade dos garotos da escola são apaixonadas por ela; ela fica linda com o uniforme de líder de tocida, e quando está muito cansado deita a cabeça no meu ombro e dorme. Isso é o que mais gosto nela. Gosto de deitar a seu lado quando está tarde, escuro e tão silencioso que ouço as batidas do meu coração.É em momentos como esse que tenho certeza de que estou amando.

Mas eu o ignoro quando entro na fila para pagar meu pão — também sei bancar o difícil —, em seguida vou para o canto dos formandos. O espaço do refeitório é um retângulo. Os alunos com necessidades especiais sentam no canto, na mesa mais próxima às salas de aula. Em seguida vêm as mesas dos calouros, depois as do segundo ano e as do terceiro.O pessoal do último ano fica na extremidade, que é um octógono com janelas em todas as paredes.Tudo bem, só tem vista para o estacionamento, mas ainda é melhor do que ficar olhando para o pessoal que vem no ônibus escolar e baba molho de maçã.

Sem ofensa.

Namjoon já está sentada a uma mesinha circular perto da janela: nossa favorita.

— Oi. — Pouso minha bandeja e minhas rosas.

O buquê de Namjoon está sobre a mesa e conto rapidamente.

— Nove rosas. — Aponto para o buquê dela e balanço o meu. — Igual a mim.

Ele faz uma careta.

— Uma das minhas não conta. Foi de Hyuna que mandou.Você consegue acreditar nisso? Ela me persegue.

— Bem, eu ganhei uma de Taemin, então também não conta.

— Ele aaaama você — ele diz, arrastando o a. — Recebeu a mensagem de Yoongi?

Pego o miolo do bagel e ponho na boca.

— A gente vai mesmo a essa festa?

Namjoon dá uma gargalhada.

— Está com medo de que ele o ataque?

— Muito engraçado.

— Vai ter um barril de cerveja — diz

Namjoon, e dá uma mordidinha no sanduíche de peru. — Minha casa depois da aula, ok?

Ele nem precisava perguntar. É nossa tradição das sextas-feiras. Pedimos comida,atacamos o o vídeo - game dele, ouvimos música alta e dançamos trocando nossos pornos e trocamos figurinhas .

— Sim, claro.

Estava observando pelo canto do olho enquanto Hana se aproximava, e então ela chega, coloca uma cadeira ao meu lado e se inclina até que sua boca toque minha orelha esquerda. Usa colôniaTotal. Como sempre. Acho o aroma um pouco parecido com o de um chá que minha avó costumava tomar — erva-cidreira —, mas ainda não disse isso a ela.

— Ei, Jiminzinho. — Ela vive inventando nomes para mim: Jiminzinho, Jiminy, Parkizinho. — Recebeu meu Namograma?

— Você recebeu o meu? — pergunto.

Ela tira a mochila do ombro e abre o zíper.Tem meia dúzia de rosas amassadas no fundo — presumo que uma delas seja minha — e,além disso, um batom rosa, um pacote de Trident, o celular e uma camisa limpa. Estudar não é muito a dela.

— De quem são as outras rosas? — pergunto, provocando-o.

— Da concorrência — ela devolve, erguendo as sobrancelhas.

— Quanta classe... — diz Namjoon. — Você vai à festa do Taemin hoje, Hana?

— Provavelmente. — Hana dá de ombros e de repente parece entediado.

Eis um segredo: certa vez, quando estávamos nos beijando, abri os olhos e vi que os dela estavam abertos. E ela nem estava olhando para mim.Observava a sala, por cima do meu ombro.

— Vai ter um barril de cerveja. — Namjoon. destaca pela segunda vez. Todo mundo brinca dizendo que estudar no Jefferson é uma preparação para a experiência completa da faculdade: você aprende a trabalhar e a beber. Há dois anos o jornal da escola nos colocou entre as dez escolas públicas onde mais se bebe em Busan. Mas não temos muito mais o que fazer por aqui.Temos shoppings e festas em porões. E só. Sejamos honestos:a maior parte do país é assim. Meu pai sempre diz que deveriam derrubar a Estátua do parque e erguer ali um grande shopping ou os arcos dourados do McDonald’s.Assim, pelo menos, as pessoas saberiam o que esperar de nós.

— Hã-hã. Com licença.

Yoongi está atrás de Hana, pigarreando. Está de braços cruzados e batendo o pé.

— Você está no meu lugar, Cokran — diz.

Ele só está fingindo ser durão. Os dois sempre foram amigos. Ao menos sempre andaram com o mesmo grupo, então sempre tiveram de ser amigos.

— Peço desculpas, Min. — Ela se levanta e faz uma reverência quando ele senta.

— Nós nos vemos à noite, Hana — diz Namjoon, e acrescenta: — Leve suas amigas.

— Até mais tarde. — Hana se inclina e afunda o rosto no meu cabelo, falando baixo,a voz fina. Essa voz costumava incendiar todas as terminações nervosas do meu corpo, como uma explosão de fogos de artifício.Agora,às vezes acho brega.— Não se esqueça. Hoje à noite seremos você e eu.

— Não esqueci — digo, torcendo para soar sexy, e não assustado. Estou com a palma das mãos suada, e rezo para que ela não tente segurá-las. Por sorte, ela nem tenta. Em vez disso,abaixa-se e coloca a boca na minha. A gente se beija um pouco até que Yoongi resmunga:

— Não enquanto eu como...— E joga uma batata frita na minha direção, que acerta meu ombro.

— Tchau, meninos — Hana diz, e sai com o salto inclinado. Limpo a boca com um guardanapo quando ninguém está me olhando, já que a parte inferior do meu rosto está coberta de saliva dela.

Eis outro segredo sobre Hana: detesto o jeito como ela beija.

Taehyung diz que todo o meu estresse não passa de insegurança por eu e Hana ainda não termos consumado as coisas. Quando isso acontecer, ela tem certeza de que vou me sentir melhor, e deve ter razão.

Afinal de contas, Taehyung é especialista. Ele é a última a se juntar a nós para o almoço, e pegamos das suas batatas assim que coloca a bandeja na mesa. Ele tenta sem muito esforço afastar nossas mãos. E joga obuquê de rosas sobre a mesa. São doze, e por um instante sinto uma pontinha de inveja.

Acho que Namjoon também, pois ele logo pergunta:

— O que você teve que fazer para ganhar isso?

— Com quem você teve que fazer? — corrige Yoongi.

Taehyung nos dá a língua, mas parece satisfeita por termos notado.

De repente, Namjoon olha por cima do meu ombro e começa a dar risadinhas.

— Psycho killer, qu’est-ce que c’est? —

Todas nós viramos. Jeon Jungkook, ou “o Psicótico”, acaba de flutuar para a área do último ano. É assim que ele anda: como se estivesse flutuando, soprada por força além de seu controle. Carrega uma sacola de papel marrom nos dedos longos e pálidos. Seu rosto está protegido atrás de uma touca e óculos, os ombros, curvados.

Em geral, todos no refeitório a ignoram — ela é a definição de “ignorável” —, mas Yoong, Namjoon, Taehyung e eu começamos a imitar a trilha sonora e o movimento de esfaquear de Psicose, de Alfred Hitchcok, a que assistimos juntas há alguns anos (e depois tivemos que dormir com as luzes acesas). Não tenho certeza se Jungkook nos ouve. Yoongi sempre diz que ele não ouve nada, pois as vozes em sua cabeça são altas demais. Jungkook cruza o espaço naquele mesmo passo vagaroso e chega finalmente à porta que dá para o estacionamento. Não sei ao certo onde ele come todos os dias. Quase não a vejo no refeitório.

Ele precisa empurrar a porta com o ombro algumas vezes até conseguir abri-lo, como se fosse frágil demais para dar conta do peso.

— Será que ele recebeu nosso Namograma? — pergunta Yoongi, lambendo o sal de uma batata antes de colocá-la na boca.

Namjoon faz que sim com a cabeça.

— Na aula de biologia. Eu estava sentada atrás dele.

— E disse alguma coisa?

— Ele alguma vez diz alguma coisa? — Namjoon põe a mão no coração, fingindo estar chateado. — Jogou a rosa fora assim que a aula acabou. Vocês conseguem acreditar? Bem na minha frente.

No primeiro ano, Yoongi, de algum modo, descobriu que Jungkook não tinha recebido nenhum Namograma. Nem um. Então colocou um bilhete em uma das próprias flores e a colou com fita adesiva no armário de Jungkook. O bilhete dizia: Talvez no ano que vem, mas, provavelmente...não.

Normalmente eu me sentiria mal por isso, mas Jungkook merece o apelido que tem. Ele é estranho. Reza a lenda que certa vez foi encontrado pelos pais na rua 84, nu em pelo, às três da manhã, montada na amureta que divide a estrada. No ano passado, Oh Hee Jun disse que viu Jungkook no banheiro próximo à ala de ciências passando a mão no cabelo sem parar e olhando fixamente o próprio reflexo. E Jungkook nunca diz uma palavra. Há anos não fala, até onde sei. Yoongi o odeia.Acho que eles foram da mesma turma em algumas aulas no ensino medio, sempre que Jungkook está por perto, como se o garoto fosse se transformar em vampiro e voar em sua garganta.

Foi Yoongi que descobriu que Jungkook fez xixi no saco de dormir no acampamento de escotismo, no quinto ano, e que a apelidou de Amarelo Marmelo.As pessoas passaram séculos chamando- o por esse apelido — até o fim do primeiro ano do ensino médio —, e se afastavam dizendo que ele tinha cheiro de urina.

Olho pela janela e vejo o cabelo de Jungkook refletir à luz do sol como se estivesse pegando fogo. O horizonte é um borrão escuro onde a tempestade está se formando.

Ele e lindo.

Ocorre-me, pela primeira vez, que não tenho certeza do motivo de Yoongi ter passado a odiá-lo, ou de quando foi isso. Abro a boca para perguntar, mas os meninos já mudaram de assunto.

                                ***

                           A FESTA

Hoje assaltamos o closet de Namjoon, para não ter de ir à festa de Taemin vestidos iguais. Taehyung, Namjoon e Yoongi estão especialmente atentos ao meu visual. Taehyung pintou meu cabelo com laranja brilhante. Suas mãos tremem um pouco, minhas orelha ficam borradas e parece que eu estou fantasiado, mas estou nervoso demais para me importar. Hana e eu vamos nos encontrar na festa de Taemin, e ela já me mandou uma mensagem de texto dizendo:

Eu até fiz a cama pra você.


Deixo Namjoon escolher minha roupa — uma camisa branca grande demais no meu corpo, e um dos tenis All Star de Namjoon (que ele chama de sapatos de garoto americano). Yoongi faz meu penteado, murmurando uma música e exalando hálito de vodca.Todos nós tomamos duas doses com suco de cranberry.

Depois me tranco no banheiro, o calor formigando das pontas dos dedos até a cabeça, tentando memorizar minha aparência ali, naquele segundo. Mas após algum tempo minhas feições parecem estar ali sem mim, como se eu as estivesse enxergando em um estranho.

Quando eu era pequeno fazia isso com frequência:me trancava no banheiro e tomava banhos tão quentes que o espelho ficava completamente embaçado, depois ficava ali, observando enquanto meu rosto lentamente tomava forma por trás do vapor; primeiro, com contornos irregulares, seguidos por detalhes que apareciam aos poucos. Sempre pensava que, quando meu rosto voltasse, eu veria uma pessoa linda, como se durante o banho tivesse me transformado em alguém melhor. Mas sempre voltava igual.

No banheiro de Namjoon, sorrio e penso: Amanhã, finalmente estarei diferente. Yoongi é mais ou menos obcecado por música, então ele prepara uma playlist para o caminho até a casa de Taemin, apesar de ele morar a poucos quilômetros. Ouvimos TWICE, em seguida toca “KOKOBOP ”, que cantamos juntos.

É estranho: enquanto dirigimos por todas aquelas ruas familiares — ruas que conheço desde sempre, tão familiares que eu mesma poderia tê-las criado —, tenho a sensação de estar flutuando sobre aquilo tudo, pairando acima das casas, das estradas, dos jardins e das árvores, subindo, subindo, acima das ruas de Busan, parando no posto de gasolina, do Thomas Jefferson, do campo de futebol e das arquibancadas metálicas onde sentamos e gritamos a cada jogo. Como se tudo fosse pequeno e insignificante. Como se eu já estivesse apenas me lembrando daquilo.

Taehyung está berrando a plenos pulmões. Ele é quem tem menor tolerância à bebida. Namjon guardou o restante da vodca na bolsa, mas não temos nada para acompanhá-lo. Yoongi está dirigindo, pois ele consegue beber a noite inteira e não sentir nada.

A chuva começa quando estamos quase chegando, mas é tão fraco que parece suspensa no ar, como uma cortina de vapor branco. Não me lembrava da última vez em que havia ido à casa de Taemin — talvez em seu aniversário de 9 anos —, nem de como ele ficava entranhado no bosque.A estrada parece serpentear eternamente. Só o que vemos é a luz fraca dos postes tremeluzindo sobre a trilha sinuosa e coberta de gravetos, os galhos secos das árvores balançando e se fechando sobre nós, os pingos de chuva lembrando diamantes.

— É assim que começam os filmes de terror — diz Namjoon, ajeitando a blusa.

Nós pegamos suas camisas emprestados, mas Namjoon insistiu em ficar com o que tinha os detalhes com pelinhos, apesar de ele própria ter começado com a história de nos trocarmos.

— Tem certeza de que a casa dele é a 42?

— É só um pouco mais à frente — digo, mesmo sem saber, e começo a imaginar que viramos cedo demais.

Estou com um nó no estômago, mas não sei ao certo se é bom ou ruim.

O bosque se fecha cada vez mais,até que as árvores praticamente arranham as portas do carro. Yoongi começa a reclamar por causa da pintura. Quando parece que seremos tragadas pela escuridão, o bosque de repente termina e vemos o maior e mais belo gramado que alguém poderia imaginar, com uma casa branca no centro que parece feita de glacê. Tem sacadas e uma longa varanda que contorna as duas laterais. As janelas também são brancas e esculpidas com desenhos que não conseguimos identificar no escuro. Eu não me lembrava de nada disso.Talvez seja efeito do álcool, mas acho que é a casa mais bonita que já vi.

Ficamos em silêncio por um instante, olhando. Parte da casa está às escuras,mas há uma luz calorosa brilhando no segundo andar, que ao chegar aqui embaixo deixa a grama com reflexos prateados.

Yoongi fala primeiro:

— É quase tão grande quanto sua casa, Nam.

—Lamento que ele tenha falado: foi como se o encanto se quebrasse.

— Quase — diz Nam.

Ele tira a vodca da bolsa, toma um gole, tosse, arrota e limpa a boca.

— Me dê um gole disso aí — diz Taehyung, estendendo o braço para pegar a bebida.

A garrafa está em minhas mãos antes que eu perceba.Tomo um gole, que queima a garganta e tem um gosto horrível, feito tinta ou gasolina, mas assim que desce, curto a bebida fazendo efeito. Saltamos do carro e a luz da casa falha e volta, como se desse uma piscadela para mim.

Sempre que entro em festas tenho uma sensação de espasmos na boca do estômago. Mas um sensação boa:a de saber que tudo pode acontecer. Na maioria das vezes nada acontece, é claro.Uma noite dá lugar a outra, uma semana a outra, um mês a outro. E, mais cedo ou mais tarde, todos vamos morrer.

Mas no começo da noite tudo é possível.

                          ***

Todos os garotos me abandonaram e estou aqui sozinha bebendo vodca enquanto eles devem estar pegando alguém por aí.

Eu sou um fodido.

Lembro que recentemente tenho tido um pesadelo em que estou no meio de uma multidão enorme, sendo empurrada da esquerda para a direita. Os rostos parecem familiares, mas há algo terrivelmente errado com todos eles: alguém que se parece com Yoongi passa por mim, mas sua boca está estranha e caída, como se estivesse derretendo. E ninguém me reconhece.

Obviamente, na casa de Taemin isso não acontece, pois conheço quase todo mundo, exceto algumas pessoas do terceiro ano e algumas meninas que, acho, devem ser do segundo. Mas, mesmo assim, a lembrança basta para me deixar um pouco neurótica.

Estou a ponto de ir na direção de Ahn Heeyeon — ela é superbrega, e, normalmente, nem morta eu lhe dirigiria a palavra, mas estou quase desesperada — quando sinto alguém me abraçando e cheiro de erva-cidreira. Hana.

Ela põe a boca molhada na minha orelha.

— Jimin Sexy. Por onde você andou toda a minha vida?

Viro de frente para ela. Seu rosto está completamente vermelho.

— Você está bêbada — digo, e pareço mais acusador do que gostaria.

— Sóbrio o bastante — ele retruca, tentando sem sucesso erguer uma das sobrancelhas. — E você está atrasada. — O sorriso dele é preguiçoso,apenas metade da boca se curva para cima. — A gente tomou cerveja de cabeça para baixo.

— São dez da noite — assinalo.— Não estamos atrasados. De qualquer forma, liguei para você.

Ela passa a mão no casaco e na calça.

— Devo ter deixado o celular em algum lugar.

Reviro os olhos.

— Você é uma delinquente.

— Gosto quando você usa palavras difíceis.

A outra metade do sorriso está se curvando para cima lentamente e sei que ela vai me beijar. Viro um pouco a cara, procurando minhas amigas, mas elas continuam desaparecidas.

No canto vejo Taemin, de gravata e uma camisa social que deve ser uns três tamanhos maior que ele, metade para dentro de uma calça cáqui velha. Pelo menos está sem o penteado ridículo. Ele está falando com Phoebe Rifer, e os dois riem de alguma coisa. Fico um pouco irritada com o fato de que ele ainda não me notou. Estou esperando ele levantar o olhar e vir até mim, como sempre faz,mas ele simplesmente se curva para perto de Phoebe, como se estivesse tentando ouvi-la melhor.

Hana me puxa para perto dele.

— Vamos ficar só por uma hora, tudo bem? Depois a gente vai.

Seu hálito cheira a cerveja e a um pouco de cigarro quando ela me beija. Fecho os olhos e penso no sexto ano, quando o vi beijando Oh Sehun e fiquei com tanta inveja que passei dois dias sem comer. Fico imaginando se quem olha acha que estou gostando. Sehun pareceu gostar, no sexto ano. Relaxo pensando em coisas assim, em como a vida é engraçada.

Ainda nem tirei minha jaqueta, mas Hana abre o zíper e passa as mãos pelo meu peitoral, por baixo da camisa. A palma de suas mãos é pequena e suada.

Afasto-me o suficiente para dizer:

— Aqui, no meio de todo mundo, não.

— Ninguém está olhando. — Ela me agarra outra vez.

É mentira.Ele sabe que todo mundo está nos olhando.Ele pode ver. Nem ao menos fecha os olhos.

Suas mãos sobem por minha barriga e seus dedos puxam o zíper da minha calça. Ela não é muito bom com calças. Ela não é muito bom com paus em geral, para falar a verdade. Quer dizer, não é como se eu soubesse como deveria ser, mas sempre que ele toca meu pau, simplesmente os massageia em círculos, com força. Minha mae fazia isso em mim quando ainda era bem bebê, então um dos dois tem que estar fazendo errado. E, para ser sincero, não acho que seja a a.

Se quer saber meu maior segredo, aqui vai: sei que devemos esperar para transar com alguém que amamos e tudo mais, e eu amo Hana — quer dizer, fui mais ou menos apaixonada por ela a vida inteira, então, como poderia não amá-la? —,mas não é por isso que resolvi ir para a cama com ela hoje à noite.

Decidi transar com ela porque quero acabar logo com esse assunto, e porque sexo sempre me assustou e não quero mais ter medo.

— Mal posso esperar para acordar do seu lado — diz Hana, a boca no meu ouvido. É algo doce a se dizer, mas não consigo me concentrar com as mãos dela em cima de mim. E de repente me ocorre que nunca pensei na parte de acordar. Não faço ideia do que se conversa no dia seguinte a uma transa, e só nos imagino deitados na cama, lado a lado, sem nos tocarmos, calados, enquanto o sol nasce. Hana não tem cortinas no quarto — ela as arrancou certa vez, bêbada —, e durante o dia parece que um refletor está focado na cama. Um refletor ou um olho.

— Vão procurar um quarto!

Afasto-me de Hana quando Namjoon aparece a meu lado, fazendo careta.

— Vocês são dois pervertidos — ele diz.

— Isso é um quarto. — Ela levanta os dois braços e gesticula ao redor. Derrama um pouco de cerveja na minha camisa e eu resmungo, irritado.

— Desculpe, gato...— Ela encolhe os ombros. Sobrou meio dedo de cerveja no copo, e ela fica olhando aquilo fixamente, franzindo o rosto. — Vou pegar mais. Vocês querem?

— Trouxemos nossa própria bebida. — Namjoon passa a mão na vodca dentro da bolsa.

— Bem-pensado.

Hana levanta o dedo para cutucar a própria cabeça, mas em vez disso quase arranca um olho. Está mais bêbada do que eu tinha imaginado. Namjoon cobre a boca e ri.

— Minha namorada é um idiota — digo assim que ela sai.

— Uma idiota bonitinha — Namjoon me corrige.

— Isso é a mesma coisa que dizer “uma mutante bonitinha”. Não existe.

— Claro que existe. — Namjoon está olhando ao redor da sala, fazendo beicinho para deixar os lábios mais beijáveis.

— Aonde você foi?

Estou mais irritado do que deveria, por tudo: por ter sido abandonada por meus amigos em apenas trinta segundos, por Hana estar completamente bêbada, por Taemin ainda estar falando com Phoebe Rifer, mesmo quando deveria ser obsessivamente apaixonado por mim. Não que eu queira que ele seja apaixonado por mim, obviamente. É apenas uma constatação que sempre foi reconfortante, de um jeito estranho. Tiro a garrafa da bolsa de Namjoon e tomo mais um gole.

— Fizemos uma ronda. Tem, tipo, uns 17 cômodos aqui em cima. Você deveria dar uma olhada. — Namjoon me olha, nota minha expressão e levanta as mãos:

— O que foi? Não abandonamos você no meio do nada.—

Ele tem razão. Não sei por que estou tão irritado.

— Aonde Yoongi e Taehyung foram?

— Taehyung foi sugada para o colo do Docinho. E Yoongi está brigando com Haneul.

— Já?

—Pergunto rindo

— Já... Bem, nos três primeiros minutos eles se beijaram. Esperaram até o quarto minuto para começar a discutir. — Isso me faz gargalhar, e ficamos ali, rindo.

                         ***

Depois de 1 hora de procura achamos Yoongi, Haneul e els já haviam feito as pazes. Grande surpresa. Ele está sentada no colo dele, e Haneul fuma um baseado. Taehyung e Jung Hoseok estão em um canto. Ele está encostado na parede e Taetae está meio dançando, meio se esfregando nele. Ele tem um cigarro apagado pendurado na boca, virado ao contrário, e está com o cabelo completamente bagunçado. Hoseok a ajuda a se equilibrar de pé, escorando-a com um dos braços, mas está conversando com Mi - Cha Hummer (esse é o sobrenome dela e, por coincidência, o modelo de seu carro). Ele age como se Taehyung não estivesse ali, muito menos se esfregando nele.

— Coitado de Taehyung— digo. Não sei por que, de repente, estou me sentindo mal por ele. — Ele é bonzinho demais.

— Ele é uma piranha — diz Namjoon, mas sem maldade.

—Acha que vamos nos lembrar de alguma coisa? — Não sei ao certo de onde vêm essas palavras. Minha cabeça está leve e confuso, pronta para sair flutuando.

— Acha que daqui a dois anos vamos nos lembrar disso?

— Não vou me lembrar nem amanhã. — Namjoon ri, dando tapinhas na garrafa que está na minha mão.

Só sobrou um quarto. Não consigo lembrar quando bebemos aquilo tudo. Yoongi solta um suspiro quando nos vê e, tropeçando,sai do colo de Haneul e joga um braço em volta de cada um de nós, como se não nos víssemos há anos.Tira a vodca que está comigo e toma um gole com o braço ainda no meu ombro, o que me enforca por um momento.

— Aonde vocês foram? — ele grita.A voz sai alta, mesmo com a música e os ruídos de todo mundo conversando e rindo.

— Procurei vocês por toda parte.

— Mentira — digo.

— Procurou na boca de Haneul, talvez —Namjoon emenda logo.

Estamos rindo, porque Yoongi é um mentiroso, Taehyung é um bêbado, Namjoontem TOC e eu sou antissocial, quando alguém abre uma janela para deixar a fumaça sair e uma chuva fina entra, com cheiro de grama e coisas frescas,apesar de estarmos no meio do inverno. Sem que ninguém perceba, estendo a mão para trás e me apoio no parapeito, curtindo o ar gelado e a sensação de centenas de alfinetadas de chuva. Fecho os olhos e prometo a mim mesma que jamais me esquecerei daquele momento: do som da risada das meus amigos, do calor de tantos corpos e do cheiro de chuva.

Quando abro os olhos levo o maior susto da minha vida. Jeon Jungkook está na entrada, me olhando. Olhando para nós, na verdade: Yoongi, Namjoon, Taehyung, que acabara de deixar Hoseok de lado e viera ficar conosco, e eu. O cabelo de Jungkook esta repartido ao meio e da um ar de ser mais velho, e acho que essa é a primeira vez que realmente vejo seu rosto. É um choque ele estar ali, mas ainda mais chocante é o fato de ele continuar a ser bonito. Tem olhos castanhos que são mais bonitos que eu me lembrava, distantes um do outro, e as maçãs do rosto altas, como as de um modelo. Sua pele é perfeita e pálida. Não consigo parar de olhar para ele.

Ele está cada vez mais apaixonante.

As pessoas a estão empurrando e dando cotoveladas, pois ele está bloqueando a passagem, mas ele simplesmente fica ali parado, o olhar fixo.

Namjoon é o primeiro a reparar e fica de queixo caído.

— Mas que...?

Namjoon e Yoongi se viram para entender para onde estamos olhando.

Inicialmente Yoongi perde a cor e parece assustado — o que é mais do que estranho —, mas não tenho tempo para pensar nisso, pois, tão rápido quanto empalideceu, seu rosto ficou roxo, e ele parecia pronta para arrancar a cabeça de alguém. Isso se parece mais com ele. Taehyung começa a rir de forma histérica até se curvar e ter de cobrir a boca com as duas mãos.

— Não dá para acreditar — diz. — Não dá para acreditar.

Ele tenta começar a cantar Psycho killer, qu’est-ce que c’est , mas estamos em choque e não conseguimos acompanhá-lo. Sabe nos filmes, quando alguém fala ou faz alguma coisa errada, o disco arranha e, de repente, fica um silêncio total? Bem, não é exatamente o que acontece, mas é quase isso. A música não para, mas quando todos no recinto começam a assimilar que Jeon Jungkook — o esquisito, psicótico, que molha a cama — está no meio de uma festa encarando os quatro garotos mais populares do Thomas Jefferson, a conversa vai cessando e os sussurros tomam conta do ambiente, cada vez mais altos e insistentes até que se tornam um murmúrio constante, como o vento ou o oceano.

Jungkook finalmente se afasta da porta e entra na sala. Ele caminha devagar e de modo confiante em nossa direção — nunca a vi tão calma —, e para a um metro de Yoongi.

— Você é um desgraçado — ele diz.

Sua voz é firme e alta demais, como se estivesse se dirigindo deliberadamente a todos os presentes. Sempre imaginei que tivesse a voz aguda ou ofegante, mas é tãosonora e grave quanto a de um anjo.

Yoongi leva meio segundo para encontrar a própria voz.

— Como? — resmunga Yoonggi.

Jungkook não fazia contato visual com Yoongi desde o primeiro ano, e jamais lhe dirigiria uma palavra. Menos ainda o insultaria.

— Você ouviu. Um desgraçado . Um garoto ruim por dentro, que acaba com a esperanças das pessoas . — Em seguida Jungkook vira para Namjoon: — Você também é um desgraçado. — Para Taehyung: — Você é um rodado e mal amado .— E para mim,quando,por um segundo enxergo algo ali,algo familiar,mas que logo desaparece: — Você é um dos  maiores motivos que me fez me odiar a cada dia.— Depois que Jeon disse aquilo começou a doer meu peito.

 Era isso que ele sentia todo dia ?

Ficamos todos tão surpresos que não sabemos como responder. Taehyung ri novamente, de nervoso, dá um soluço e depois fica em silêncio. Yoongi está abrindo e fechando a boca, como um peixe, mas não consegue falar nada. Namjoon está de punhos cerrados como se estivesse pensando em acertar a cara de Jungkook.

Apesar de estar furioso e envergonhado, a única coisa em que consigo pensar quando olho para Jungkook é: Eu não sabia que você continou tão bonito...

Yoongi se recompõe.Ele avança um pouco e seu rosto fica a centímetros do de Jungkook. Nunca o vi tão furioso. Parece que seus olhos vão saltar.A boca está retorcidanuma careta como se ele rosnasse, como um cachorro. Por um instante ele ficarealmente muito feio.

— Prefiro ser um idiota a ser um psicótico — Yoongi sibila, agarrando Jungkook pela blusa.Está tão irritado que chega a salivar. Ele empurra Jungkook que tropeça em Hoseok. Empurra novamente, e Jungkook cai em cima de Hyuna. Yoongi começa a gritar “Psicótico, psicótico” e a fazer o som agudo das facadasno filme.

“Psicótico!”

De repente, todo mundo está gritando e imitando a cena da faca, empurrando Jungkook de um lado para outro. Namjoon é o primeiro a virar uma cerveja na cabeça dele, e todos fazem o mesmo. Yoongi o molha com vodca, e quando Jungkook tropeça até perto de mim, todo molhado e com os braços esticados,tentando se equilibrar,pego uma cerveja pela metade no parapeito da janela e jogo em cima dela. Só percebo que também estou gritando quando minha garganta começar a incomodar.

Jungkook me olha depois que derramo a cerveja. Não consigo explicar — parece loucura —, mas é quase um olhar de pena, como se ele se sentisse mal por mim.

De repente fico completamente sem fôlego, e tenho a sensação de ter levado um soco no estômago. Sem pensar, avanço para cima dele e a empurro com toda a minha força. Ele cai sobre uma prateleira, que quase desaba. Empurro-a novamente, em direção à porta, e enquanto todos continuam ganindo e berrando “Psicótico”, ele sai da sala correndo. Precisa se espremer para passar por Taemin. Ele acabara de entrar, provavelmente para ver por que todos estavam gritando.

Nós nos olhamos nos olhos por um instante. Não dá para dizer exatamente o que ele está pensando, mas, seja o que for, boa coisa não é. Desvio o olhar, sentindo calor e desconforto.Todos estão agitados agora,rindo e falando sobre Jungkook,mas minha respiração não volta ao normal e sinto a vodca queimando meu estômago e voltando até a garganta.A sala está me sufocando, girando mais depressa que antes. Preciso sair para tomar um pouco de ar.

Tento empurrar as pessoas para conseguir passar, mas Taemin se aproxima e bloqueia meu caminho.

— Mas o que foi aquilo tudo? — ele pergunta.

— Pode me deixar passar, por favor? — Não estou com humor para lidar com ninguém, principalmente com Taemin e aquela porcaria de camisa social.

— O que ele fez a você?

Cruzo os braços.

— Entendi. Você é amigo do Psicótico. É isso?

Ele estreita os olhos.

— Que apelido inteligente.Você pensou nele sozinha ou seus amigos tiveram que ajudar?

— Saia do meu caminho.

Consigo me espremer e passar, mas ele me agarra pelo braço.

— Por qe maltrata tanto ele se você e apaixonado por ele desde que se conhece por gente ? — Eu nao posso ser apaixonado por o psicótico, isso seria um sucidio social. 


Ele está me olhando como se estivesse desesperado para entender alguma coisa, e isso é pior, muito pior do que tudo o que houve até ali — pior do que Jungkook, pior do que a raiva dele e pior do que a sensação de que vou vomitar a qualquer instante. Tento me livrar das mãos dele.

— Você não pode simplesmente agarrar as pessoas, sabe? Não pode simplesmente me agarrar. Eu tenho namorada.

— Fale baixo. Só estou tentando...

— Ouça... — Consigo que ele me solte. Sei que estou falando alto e rápido demais. Sei que pareço histérico, mas não consigo evitar. — Não sei qual é o seu problema, entende? Não vou sair com você. Jamais sairia com você em um milhão de anos. Então você pode parar com essa obsessão por mim. Quer dizer, eu nem deveria saber o seu nome. — As palavras voam, e é como se me sufocassem. De repente não consigo mais respirar.

— Você acha mesmo que quero sair com você ?Sabendo que você e apaixonado por Jeon Jungkook.— Taemin me encara com firmeza. Depois chega mais perto. Por um segundo acho que ele vai tentar me beijar, e meu coração para. Mas ele simplesmente encosta a boca no meu ouvido e diz:

— Você e tão caidinha por Jungkook que quer correr atrás dele agora .

—Você não sabe que esta falando .—Tropeço para trás,tremendo.— Não sabe nada a meu respeito.

Ele levanta as mãos, em sinal de rendição, e recua.

— Você tem razão. Não sei.

Então começa a se virar e murmura mais alguma coisa.

— O que você disse?

Meu coração bate tão forte no peito que acho que vai explodir. Ele vira e olha para mim.

— Eu disse “Graças a Deus”.

Giro, desejando não ter pegado os sapatos novos de Namjoon emprestados. O cômodo gira comigo e tenho de me apoiar no corrimão.

— Sua namorada está lá embaixo, vomitando na pia da cozinha. — Taemin grita atrás de mim.

Mostro o dedo por cima do ombro. Não me viro para ver se ele está me olhando, mas tenho a sensação de que não está. Mesmo antes de descer para ver se o que Taemin falou sobre Hana é verdade, eu já sei: hoje não vai ser a noite, afinal. A combinação de decepção e alívio é tão avassaladora que tenho de me apoiar nas paredes enquanto ando, sentindo as escadas rodopiando sob meus pés, como se fossem desaparecer a qualquer instante. Hoje não será a noite.Amanhã vou acordar e será a mesma coisa, o mundo vai parecer igual, tudo será igual, terá os mesmos gostos e os mesmos cheiros. Sinto um nó na garganta e meus olhos começam a arder, e nesse instante só consigo pensar que tudo é culpa de Taemin. Dele e de Jeon Jungkook.

* * *

“Sempre haverá o amanhã"

Yoongi me disse quando contei a ele sobre Hana, e repito a frase mentalmente como se fosse um mantra: Sempre haverá o amanhã. Sempre haverá oamanhã.

Passo vinte minutos no banheiro, primeiro lavando o rosto, depois refazendo o penteado, apesar de minhas mãos não estarem firmes e eu estar vendo dois de mim no espelho.Toda vez que me olho no espelho me lembro da meu pai — eu costumava observá-la curvar-se sobre a pia e cuidar do cabelo e da barba, se arrumando para sair com minha mãe —,e isso me acalma.

Sempre haverá o amanhã.

Aquela hora da noite é a que mais gosto, quando a maioria das pessoas está dormindo e parece que o mundo pertence somente a mim e a meus amigos, como se não existisse nada além do nosso pequeno círculo: todo o restante é escuridão e silêncio.

Saio com Taehyung, Namjoon e Yoongi.A multidão diminui à medida que as pessoas vão embora, mas ainda está difícil se locomover. Yoongi não para de gritar: “Com com licença, saiam da frente, emergência!”

Há alguns anos descobrimos, na matinê de um show em Daegu, que nada é capaz de fazer as pessoas saírem da frente tão rápido quanto a referência a uma “emergência”. É como se fosse algo contagioso.

Na saída passamos por pessoas se agarrando nos cantos e se espremendo na escada.Atrás das portas fechadas ouvimos os risinhos abafados. Taehyung bate em todas as portas, gritando:“Sem proteção, sem sexo!”Yoongi vira e sussurra alguma coisa para ele, que se cala e me olha com ar de culpa.Tenho vontade dizer a eles que não me importo, nem com Hana, nem com perder minha oportunidade, mas de repente me sinto cansado demais para falar.

Vemos Luhan sentada na beirada de uma banheira, com a porta entreaberta. Está com a cabeça apoiada nas mãos, chorando.

— O que há com ele? — pergunto, lutando contra a sensação flutuante em minha cabeça, a sensação de que minhas palavras estão vindo de longe.

— Ele terminou com Sehun. — Taehyung me agarra pelo cotovelo. Ele parece sóbrio, mas está com as pupilas enormes e os olhos vermelhos. — Você não vai acreditar: Luha descobriu que a Nazista da Nicotina encontrou Sehun e Anna juntos. Luhan achava que ele estava no médico. — A música continua tocando, então não conseguimos ouvir Luhan, mas seus ombros sobem e descem como se ele estivesse tendo uma convulsão. — Melhor para ele. Aquele cachorro...

— São todos uns cachorros! — diz Taehyung, erguendo a cerveja e derrubando um pouco, e acho que ele nem deve saber do que estamos falando.

Yoongi deixa seu copo sobre uma mesa lateral, em cima de um exemplar de Moby Dick. Pega uma pastora de cerâmica com cabelos louros cacheados e cílio pintados e põe no bolso. Ele sempre rouba alguma coisa das festas, que chama de suvenires.

— Acho bom que ele não vomite no Tanque — sussurra, sinalizando com a cabeça na direção de Taehyung.

Hana está esticado em um sofá no andar de baixo, mas consegue agarrar minha mão quando passo e tenta me puxar para cima dele.

— Aonde você vai? — ela pergunta; está com os olhos desfocados e a voz rouca.

— O.k., Hana, me deixe ir. — Eu o empurro. Isso é culpa dela também.

— Mas a gente ia... — A voz dela some. Ela sacode a cabeça, confuso, e em seguida cerra os olhos para mim. — Você está me traindo? —

— Não seja idiota!

Eu queria rebobinar a noite inteira, rebobinar as últimas semanas, voltar ao momento em que Hana se inclinou, apoiou o queixo em meu ombro e disse que queria dormir ao meu lado, voltar àquele instante calmo, naquela sala escura com a televisão azul e sem som à nossa frente, e meus pais dormindo no andar de cima, voltar ao instante em que eu abri a boca e disse “Eu também”.

— Está, sim. Você está me traindo. Eu sabia!

Ela se levanta e olha em volta. Jennie, um de suas melhores amigas está no sofá, rindo de alguma coisa, e Hana vai aos tropeçosaté ela.

— Você está me traindo com a meu namorado, Jennie? — ela berra, e empurra Jennie, que tropeça e derruba uma prateleira de livros. Uma estátua de porcelana tomba, quebra e uma garota grita.

— Ficou maluca?

Jennie pula em cima de Hana, e de repente eles estão engalfinhados, brigando pela sala, derrubando coisas,rosnando e gritando.De algum jeito, Hana deixa Jennie de joelhos, e em seguida as duas estão no chão. As garotas gritam e saem do caminho.

— Cuidado com a cerveja! — alguém berra, logo antes de Hana e Jennie rolarem pela entrada da cozinha, onde está o barril.

— Vamos, Jimin! — Yoongi, atrás de mim, agarra meus ombros.

— Não posso deixá-lo aqui, assim —.

— Ela vai ficar bem. Está vendo, ela está rindo.

Ele tem razão. Hana e Jennie já pararam de brigar e estão jogados no chão,rindo descontroladamente.

— Hana vai ficar com muita raiva — digo, e sei que Yoongi sabe que não me refiro só ao fato de largá-lo na festa.

Ele me dá um rápido abraço.

— Lembre-se do que eu disse — ele começa a cantar: — Just thinkin’ bout tomorrow clears away the cobwebs and the sorrow... Sempre haverá o amanhã.

Por um instante meu estômago trava, achando que ele está tirando sarro da minha cara, mas é uma coincidência. Yoongi não me conhecia quando era pequeno, nem sequer teria me dirigido a palavra. Ele não tinha como saber que eu me trancava no quarto com a trilha sonora de Annie, berrando aquela música a plenos pulmões até meus pais ameaçarem me jogar na rua.

A melodia começa a se repetir na minha cabeça e sei que vou passar dias cantando. Tomorrow, tomorrow, I love ya tomorrow. Amanhã. Uma bela palavra, quando você realmente para e pensa.

— Porcaria de festa, não? — diz Namjoon, aparecendo do meu outro lado. Por mais que eu saiba que ele só está contrariada com a ausência de SeokJin, fico feliz com o que ele disse.

O som da chuva é mais alto do que eu imaginava, e me espanto. Por um instante ficamos sob as calhas da varanda, assistindo nossa respiração condensar em nuvens, nos abraçando. Está um gelo. A água cai em goteiras constantes das calhas. Lisa e Kim Wu estão jogando garrafas de cerveja vazias no mato. Às vezes ouvimos alguma espatifar, e o som voltar como um tiro.

As pessoas estão rindo, gritando e correndo na chuva, que está tão forte que tudo parece derreter. Não há vizinhos que possam ligar para a polícia por vários quilômetros. A grama está detonada, e grandes buracos negros de lama surgiram.

Lanternas brilham a distância, rápidas e passageiras à medida que passam carros dirigindo-se à Route 9.

— Vamos correr! — grita Yoongi, e sinto Namjoon me puxando, em seguida estamos correndo, gritando, e a chuva está nos cegando e encharcando nossas jaquetas,a lama entra nos sapatos; chove tão forte que é como se o mundo estivesse se desfazendo.

Quando chegamos ao carro de Yoongi eu realmente não me importo com a maneira horrível como a noite terminou.

Estamos rindo de maneira histérica, ensopadas e tremendo, despertadas pelo frio e pela chuva. Yoongi está resmungando sobre marcas molhadas de bumbum nos assentos de couro e a lama no chão, Taehyung está implorando para ela ir ao Mic's, para comer ovo com queijo, e reclamando que eu sempre sento na frente, e Taehyung está gritando com Yoongi para aumentar o aquecedor e ameaçando morrer de pneumonia ali mesmo. Acho que é assim que a gente começa a falar sobre o assunto: sobre morrer, digo. Concluo que Yoongi está bem para dirigir, mas percebo que ele está indo mais rápido do que o normal por aquele caminho horroroso. As árvores parecem esqueletos em ambos os lados, gemendo ao vento.

— Tenho uma teoria — digo enquanto Yoongi entra na Route 9, cantando pneus.O relógio no painel marca 0h38.—Tenho uma teoria de que antes de morrer você revê seus grandes momentos, sabe? As melhores coisas que você fez.

— BigHit, baby — diz Yoongi e tira uma das mãos do volante para dar um soco no ar.

— A primeira vez que fiquei com Kim SeokJin — Namjoon diz imediatamente.

Taehyung resmunga e se inclina para a frente, tentando alcançar o iPod.

— Música, por favor, antes que eu me mate.—

— Me dá um cigarro? — pede Yoongi, e Taehyung acende um para ele com o que está segurando. Yoongi abre as janelas, e a chuva gelada entra. Namjoon começa a reclamar do frio outra vez.

Taehyung coloca “EYES, NOSE, LIPS”, do TAEYANG, para irritar Namjoon, talvez porque esteja de saco cheio de tanta reclamação. Namjoon a chama de maldito e solta o cinto de segurança, inclinando-se para a frente, tentando pegar o iPod. Yoongi reclama que alguém está lhe dando cotoveladas no pescoço. O cigarro cai de sua boca, aterrissa entre as coxas. Ele se põe a reclamar e a tentar espanar as cinzas do assento, Taehyung e Namjoon ainda estão brigando e eu tento falar mais alto, querendo lembrá-los de quando fizemos anjos na neve em maio. O relógio avança: 0h39. Os pneus derrapam um pouco na estrada molhada, e o carro está cheio de fumaça de cigarro, pequenas colunas se erguendo como fantasmas no ar.

Então, de repente, um flash branco passa à frente do carro.Yoongi grita alguma coisa — palavras que não consigo decifrar, algo como “sai” ou “sabe” ou “saco” — e de repente o carro sai da estrada e cai na boca negra da mata. Ouço um ruído horrível de arranhão — metal contra metal, vidro despedaçando, um carro dobrando em dois — e sinto cheiro de fogo.Tenho tempo de pensar se Yoongi teria apagado ocigarro ou não...

Em seguida...

É quando acontece.O instante da morte é cheio de calor e som,e uma dor maior do que tudo, um calor escaldante me partindo em dois,algo cauterizando,chamuscando e rasgando,e se o grito fosse uma sensação, seria esta.

Depois nada.

Sei que alguns de vocês devem estar pensando que talvez eu mereça.Talvez eu não devesse ter enviado aquela rosa para Jungkook,ou jogado bebida nele na festa ou me apaixonado por ele a algum anos atrás.Talvez não devesse ter colado do teste de Jisoo. Talvez não devesse ter dito aquelas coisas a Taemin. Provavelmente há quem acredite que eu mereça, porque ia deixar Hana ir até o fim — porque nãoia me guardar.

Mas antes que comece a me acusar, permita-me fazer uma pergunta: o que fiz foi realmente tão ruim? Tão ruim que eu merecia morrer por isso? Tão ruim que eu merecia morrer assim?

O que fiz foi realmente tão pior do que o que todo mundo faz?

É realmente muito pior do que o que você faz?

Pense a respeito.



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