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  3. CAPÍTULO 6: Brigas, Mudanças e Punições

História Anything Could Happen - Capítulo 16


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Capítulo 16 - CAPÍTULO 6: Brigas, Mudanças e Punições


Estava relativamente tarde, porém ainda assim Nolan estava acordado. Na verdade ele nem tinha intenção de ir para a cama, pois o pai ainda não havia voltado, isto é, se é que fosse aparecer naquele dia.

O garoto estava com raiva do ocorrido. Novamente seu pai havia saído para encher a cara depois da discussão feia que eles tiveram. Nolan ainda havia “se livrado” das várias garrafas de destilaria que seu pai tinha em casa, porém não adiantou muita coisa, já que o mesmo saíra para beber na rua.

Nolan já estava cansado de toda aquela situação e o mesmo se perguntava quanto tempo aquilo tudo ainda iria durar, isso se ele aguentar até o final, pois estava ficando mais difícil aturar tudo.

A semana até que havia sido tranquila, onde seu pai não havia bebido, ou pelo menos não que ele tenha visto, uma única gota de álcool, porém naquela sexta-feira a situação saiu do controle.

O mais novo havia saído para dar uma volta de Skate enquanto seu pai estava fazendo faxina e ao voltar, a situação estava um tremendo caos. Uma música ensurdecedora vinha tanto de sua casa quanto da casa do pai de Roberth, e a impressão que se tinha era de uma guerra entre os dois patriarcas.

 Nolan tinha entrado em sua casa e por não conseguir suportar o barulho alto, o mesmo desligou o estéreo, olhando para seu pai sem entender muita coisa. Charlie não quis dar muita explicação sobre o ocorrido e, para ser sincero, o mais novo nem queria uma onde ele apenas seguiu para seu quarto e ficou por lá algum tempo assistindo seriado.

Algumas horas se passaram e Nolan sentiu-se faminto, descendo até sua cozinha para comer alguma coisa, e foi onde encontrou seu pai bebendo um copo de uma das diversas bebidas que ele tinha na estante, sendo o suficiente para que a discussão se iniciasse.

Num acesso de fúria, Nolan pegou todas as garrafas de bebida do pai e às tacou no chão, onde o liquido junto com uma porção de cacos dominaram o local. Charlie havia ficado surpreso com a atitude do filho, ao mesmo tempo que ele ficou magoado por tal coisa, pegando as chaves do carro e saindo sem rumo.

Nolan até pensou em impedir o pai de sair, pois sabia o que ele tinha em mente, porém simplesmente decidiu ignorar, afinal o pai uma hora ou outra voltava para casa e eles discutiriam cedo ou tarde sobre o assunto.

Já passava da meia noite e Charlie ainda não havia chegado. Nolan, impaciente, resolveu esperar no quintal de casa e tentar se distrair um pouco olhando as estrelas.

O moreno se lembrava de quando seu pai disse que se mudarem para Marchendon seria uma grande mudança em suas vidas, mas ele não estava enxergando dessa forma, afinal as coisas não mudaram. Apenas pioraram.

“Ao menos eu tenho um pouco de paz no colégio”, pensou Nolan suspirando exausto. O moreno estava tão frustrado e absorto em seus problemas que nem notou que estava sendo vigiado pela janela da casa vizinha.

­­­­­­­­­­­­­­­­— Problemas para dormir? — Roberth perguntou curioso, esboçando um pequeno sorriso complacente nos lábios.

— Ah... Você está aí... — Nolan arqueou a sobrancelha ao olhar para o garoto na janela. — Estou esperando meu pai. — Deu de ombros em seguida.

— Meu pai também saiu. — Roberth comentou aleatoriamente, apenas para puxar assunto.

— Legal. — O jovem Hudson anuiu sem muito interesse.

— Você não vai muito com a minha cara não é? — Roberth falou forçando um sorriso, tentando descontrair, porém o mesmo saiu triste sem que ele conseguisse evitar tal coisa.

— Como é? — Nolan indagou surpreso com tais palavras.

— Sei lá. — Roberth suspirou. — Eu tento puxar assunto, manter uma conversa, essas coisas e você ou me corta ou me ignora. — Roberth explicou, deixando Nolan sem graça. — Por que não me deixa ser seu amigo? — Sua voz saiu um pouco ressentida o que fez com que Nolan suspirasse.

— Ninguém pede para ser amigo de ninguém. A pessoa simplesmente se torna com o tempo. — Nolan deu de ombros. — Por que tem tanto interesse em ser meu amigo? — Indagou curioso.

— Digamos que eu não tenho nenhum amigo no colégio, pelo menos não mais, e você parece ser uma pessoa legal e não seria nada ruim ter a sua companhia. — Rob respondeu sem graça.

— Ata. — Nolan sorriu descrente com a resposta.

— Quer vir almoçar aqui em casa amanhã? — Rob perguntou esperançoso.

— Por que não? — Nolan deu de ombros, sem muito ânimo.

— Tudo bem então. — Roberth se animou. — Posso te fazer uma pergunta? — O moreno iniciou curioso.

— Manda aí. — Nolan arqueou a sobrancelha.

— Por que  não se inscreveu no coral?

— Não me sinto confortável. Não é pra mim. — Respondeu sem muito interesse.

— Tudo bem então. — Rob pareceu surpreso com a resposta, porém decidiu não se aprofundar, pelo menos não no momento. — Nos vemos amanhã. — O garoto e despediu.

— Até. — Nolan acenou.

Demorou pouco menos de uma hora que Nolan estava sentado em seu quintal esperando pelo pai até que o garoto se cansou de ficar ali sem fazer nada e resolveu se recolher.

Quando o mais novo estava abrindo a porta de sua casa, o conhecido barulho do motor do carro de Charlie surgiu no fim da rua. Nolan se virou e cruzou os braços enquanto assistia o pai guardar o carro em sua garagem.

Charlie olhava envergonhado para o filho, enquanto este tinha os olhos mergulhados em fúria, assistindo o mais velho descer do carro tropeçando.

― Que bonito Charlie. Dirigindo alcoolizado e colocando a vida de pessoas decentes em risco. ― Nolan ironizou.

― Eu não quero brigar de novo filho. ― Charlie suspirou cansado.

― Você bateu o carro não é mesmo? ― O mais novo se aproximou, checando a traseira do veículo e vendo ela amassada.

― Eu estou bem. ― O loiro deu de ombros.

Charlie estava com a roupa amarrotada e molhada, o que deixou o filho confuso. Seus cabelos estavam desgrenhados e úmidos, além de um pequeno galo em sua testa, provavelmente pela pancada na hora da batida.

― Olha... Vai deitar. Eu quero que você esteja bem sóbrio quando a gente for conversar amanhã. ― Nolan suspirou e seguiu para dentro de casa, sem nem ao menos esperar pelo pai.

― Que sorte a minha. ― Charlie sussurrou com ironia, depois que o filho já não estava mais em seu campo de visão.

O mais velho seguiu para seu quarto e acabou adormecendo em poucos segundos após deitar em sua cama.

Nolan tentou se acalmar, porém sem muito sucesso. Apenas resolveu dormir para que então ele pudesse resolver a situação no dia seguinte.

… 

― Bom dia filho. ― Charlie desceu as escadas e encontrou o garoto na cozinha tomando seu café.

Nolan nem se deu ao trabalho de responder. Ele apenas fuzilou o pai com os olhos ao ver a situação do mesmo. Charlie nem havia trocado a roupa para dormir, trajando as mesmas vestes da noite anterior. O mais velho fazia uma careta, provavelmente a dor de cabeça por conta da ressaca, e andava devagar, se apoiando no corrimão da escada.

― Não vai falar comigo? ― Charlie insistiu frustrado.

Nolan novamente não respondeu. O mais novo foi em direção ao armário e de lá retirou uma sacola de supermercado. Ele pegou a sacola e levou em direção ao pai. Depois disso ele voltou em sua cadeira e tornou-se a sentar, voltando a tomar o seu café.

― O que é isso? ― Charlie disse confuso encarando a sacola, porém Nolan não respondeu.

O loiro abriu o pacote e ficou surpreso ao ver que nele havia dois corotes de pinga barata. Ele ficou sem entender, alternando os olhares entre os itens em sua mão e o rosto do filho.

― Pode ficar tranquilo. Eu não vou mais reclamar de você beber. Eu posso até comprar suas cachaças. Só não quero que você saia por aí e desgrace a família dos outros atropelando alguém bêbado. Não quero que você faça com os outros o que você já fez com a nossa família.

― Filho, não fala assim. ― O mais velho pediu atordoado.

― E como você quer que eu fale, Charlie? Você bateu o seu carro ontem. Poderia ter matado alguém. Você não tem nenhuma responsabilidade? Não tem bom senso? Onde já se viu dirigir bêbado? ― Nolan gritou irritado.

― Filho... ― Charlie disse com os olhos marejados.

― Cala a droga da sua boca. Você poderia ter morrido, sabia? Como acha que eu iria me sentir? ― Nolan disse com os olhos em lágrimas. ― Sabe de uma coisa? Você deveria ter morrido mesmo. Ia ser difícil, mas ia ser melhor. Pelo menos assim, eu não teria que passar por isso todo santo dia da minha vida. ― O garoto cuspiu as palavras, baixando o seu tom de voz.

― Não fala assim filho. ― Charlie pediu aos prantos com o coração na mão.

― Sabe... Eu queria que minha mãe tivesse me deixado num orfanato ou até mesmo numa lata de lixo. Tenho certeza de que ser criado na rua seria muito melhor do que viver com você. ― Nolan virou o rosto, saindo de casa e batendo a porta atrás de si.

 ~//~

Maxwell acordou cedo naquela manhã de sábado. O moreno havia ajeitado sua bagagem de mão na noite anterior e deixado seus pertences devidamente preparados para a mudança. Ele não possuía muita coisa, além de seu material escolar, suas roupas e alguns objetos, porém todos cabiam em sua pequena mala e sua mochila.

Logo que ele despertara, percebeu que seu colega de quarto estava no banheiro e esperou pacientemente que o mesmo saísse do local para que pudesse tomar seu banho e seguir seu rumo para a nova casa.

Maxwell e Trevor não trocavam muitas palavras e até tinham uma tranquila convivência, porém o loiro não fez nenhum alarde ou até mesmo ficou sentido com sua mudança, onde apenas desejou boa sorte na nova casa e disse que se veriam no colégio todos os dias.

Trevor era um garoto muito tranquilo, e desde que ele ouviu ele conversando no celular no dia em que chegara ao Instituto o garoto andava sempre quieto e não conversava muito, o que era estranho já que no passado, antes de Maxwell entrar para a marinha, o loiro era completamente diferente. Não que ele fosse escandaloso, porém sim desastrado e um pouco sem noção. O jovem loiro não tinha muito senso de vergonha e vivia bagunçando pelos corredores do local, o completo oposto de quem ele é agora. 

“Espero que Tyler seja mais organizado que ele.” Pensou Maxwell com um receio, pois embora quieto, Trevor não era uma pessoa nada organizada, sempre deixando suas coisas espalhadas por tudo quanto é canto.

Demorou pouco menos de quinze minutos e Trevor já havia saído do banheiro. O loiro se despediu de Maxwell, saindo em seguida para aproveitar o final de semana fora do colégio.

O moreno tratou de se apressar com sua higiene matinal e em seguida pegou um ônibus para sua nova casa. Não demorou muito para que ele chegasse no local, menos de dez minutos, constatando que ele poderia tranquilamente fazer esse caminho à pé todos os dias, tanto para o colégio, quanto para o trabalho que começaria em dois dias.

Ao chegar em seu novo lar, Maxwell apertou a campainha do local, onde em pouco tempo Tyler desceu com o rosto amassado, cabelos desgrenhados e uma expressão que denunciava que o loiro havia acabado de acordar.

― Bom dia. ― Maxwell saudou.

― Entra aí. ― O loiro deu passagem para que o moreno passasse com sua bagagem de mão.

A entrada para a casa de Tyler ficava na lateral do bar, onde eles utilizavam uma escada para ter acesso ao primeiro andar que levava para o local onde o loiro morava.

A casa em si era pequena. Uma sala com um sofá de dois lugares se fazia presente no cômodo com uma rack bem em frente, onde tinha uma televisão e um aparelho de dvd, com alguns filmes organizados ao lado.

Uma meia parede de mármore dividia o local dando acesso a cozinha que também era pequena, porém completa com uma mesa com quatro cadeiras, um fogão, uma geladeira e dois armários. Um corredor levava em direção à três portas, onde duas delas era quartos, um de Tyler e o outro que passaria a pertencer a Maxwell, e a terceira seria o banheiro.

― Pequeno, mas aconchegante. ― Maxwell sorriu ao olhar para o local.

― Que bom que gostou. ― O loiro disse sem muito interesse.

Tyler seguiu em direção ao banheiro onde demorou praticamente meia hora no cômodo. Ao sair de lá, o loiro trajava apenas uma toalha enrolada em sua cintura. Seus cabelos estavam molhados e sua aparência um pouco melhor, porém ainda assim denunciando seu sono.

Maxwell ainda estava guardando suas roupas em seu quarto, quando escutou Tyler bater em sua porta.

― Eu vou fazer café, está servido? ― Tyler perguntou ainda de toalha.

― Obrigado. ― O moreno anuiu a cabeça positivamente.

Não demorou muito e Tyler estava devidamente vestido. O loiro passou o café e enquanto os dois tomavam o líquido sendo acompanhado por fatias de pão caseiro, algumas batidas na porta foram ouvidas e Tyler se levantou revirando os olhos.

― Eu já disse pra você usar a sua chave. ― O loiro reclamou abrindo a porta.

― Eu esqueci, desculpa. ― Um rapaz também loiro, porém muito mais alto e um pouco mais velho, aproximadamente uns vinte e cinco anos, respondeu.

― Maxwell esse é Gregory, meu irmão. Esse é o melhor amigo da Jesse. Ele vai dividir as despesas aqui comigo. ― Tyler apresentou sem muito interesse.

― Pode me chamar de Greg. ― O loiro mais velho acenou.

― Prazer. ― Maxwell retribuiu o aceno.

― Quer café? ― Tyler ofereceu ao irmão que recusou.

― Já tomei. Você ainda não está pronto? ― Gregory bufou impaciente para o irmão que revirou os olhos.

― Eu já estou vestido, só não terminei de comer ainda. ― O mais novo disse com indiferença.

― Onde vocês vão? ― Maxwell perguntou curioso.

― Pra academia. Eu tenho que ficar pegando no pé do Tyler para ele ir. ― Gregory respondeu rindo da expressão do irmão, que lhe mostrou o dedo médio.

― Que ótimo. Eu estava mesmo procurando uma academia. ― Maxwell comentou empolgado. ― Eu posso ir com vocês?

― Eu sinceramente preferiria passar meu tempo livre com a Jesse do que ser torturado no meio de todo o suor e músculos daquele bando de cuecas da academia que só querem exibir seus corpos. ― Tyler revirou os olhos incomodado.

― Aquela é a melhor academia da cidade. Os instrutores são excelentes e você precisa se manter em forma por causa do Box. ― Gregory alertou o garoto.

― Isso me parece ótimo. ― O moreno se pronunciou interessado.

― Por ser sua primeira vez lá, o seu primeiro dia é de graça. Se você gostar é só se matricular. ― O loiro mais velho explicou, onde Maxwell assentiu.

― Chega de conversa e vamos logo. Já terminei meu café. ― Tyler suspirou impaciente, saindo do local sendo seguido pelo irmão e pelo moreno.

...

Gregory e Tyler chegaram na academia acompanhados de Maxwell. Os irmãos se apressaram em entrar no local e começar a série de aquecimentos enquanto o outro se encontrava na recepção resolvendo toda a parte burocrática para efetivar sua matrícula, o que não demorou muito, pois minutos depois ele já se encontrava no interior do local, olhando ao seu redor.

Haviam várias pessoas treinando àquele horário, onde sua maioria eram jovens de aproximadamente sua idade ou se fossem mais velhos eram pouca coisa. 

— Hey, deu tudo certo? — Gregory indagou curioso para o moreno que assentiu sorrindo. 

Tyler, nesse momento em questão, estava correndo na esteira, focado nos números registrados no painel, alheio a tudo ao seu redor, o que chamou a atenção de Maxwell, que piscou para o irmão mais velho do namorado de sua melhor amiga e começou a aumentar a velocidade do aparelho apenas para provocar o loiro. 

— Deu sim. Estou efetivamente matriculado. — Maxwell respondeu sorrindo enquanto continuava aumentando a velocidade da esteira, deixando-o surpreso o fato de que Tyler continuou mantendo o seu ritmo, não se abalando com a velocidade. 

— Bacana, agora mais um cueca pra exibir seus músculos. — Tyler zombou desligando a esteira e estralando o pescoço com um movimento brusco. 

— Não sou eu quem estou com uma camisa regata transparente toda colada no corpo enquanto estou suando litros, além de um shortinho do tamanho da minha cueca boxer. — Maxwell devolveu fazendo com que Tyler deixasse uma careta escapar enquanto seu irmão mais velho ria da resposta alheia. 

— Quer acompanhar nossa rotina de treino? — Gregory indagou descontraído. — Creio que com esse porte físico, você não terá muita dificuldade. — Explicou em seguida. 

— Acho melhor eu ir com calma. É perigoso eu acabar atrapalhando o treinamento de vocês já que na verdade eu estou há algum tempo sem treinar. — O moreno explicou olhando em volta. — Acho que vou me alongar, correr um pouco na esteira e depois vejo com algum personal para montar o meu próprio treino. 

— Eu posso ajudar com isso. — A voz em questão, surgiu bem ao lado de Maxwell, fazendo-o pular com o susto ao ter sido pego desprevenido, o que Gregory e Tyler desataram a rir da reação do outro. 

Maxwell olhou para trás e viu um rapaz de pele bronzeada, surpreendentemente alto, músculos torneados,  cabelos castanhos claros e olhos verdes. O mesmo sorria em sua direção, ciente do susto que dera.

— Eu sou Piers, sou um dos personais desse turno e se quiser eu posso estar lhe ajudando a montar o seu treino. — O acastanhado se ofereceu com simpatia. 

— Tudo bem. — Maxwell concordou sorrindo cordial. 

— Então nos encontramos depois. Eu preciso ficar pegando no pé desse aqui, senão ele pula todo o cronograma. — Gregory se despediu puxando Tyler pelo braço.

— Eu mereço... — O loiro suspirou se afastando com o irmão mais velho.

~//~

Neal esperava impaciente o veredito do enfermeiro da escola na segunda-feira de manhã. Noah era um estagiário de medicina que havia entrado na escola havia alguns dias, quase ninguém o conhecia e isso lhe deixava extremamente satisfeito. Um pouco maior que o próprio Neal, ligeiramente mais gordinho, mas nada que beirava ao exagero, pele clara, olhos escuros e um cabelo estilo nerd século vinte um, era um tanto atraente, mas não era o tipo do garoto. O enfermeiro lhe encarava com um olhar estranho por trás da armação fina de seus óculos, o qual o garoto não conseguia decifrar. Era um misto de ceticismo e incredulidade.

— Eu sinceramente não irei perguntar onde conseguiu essas marcas, porque sinceramente não é da minha conta, e eu também não quero saber. ㅡ O rapaz a sua frente foi direto e reto em sua opinião, o que pegou Neal desprevenido devido a tamanha sinceridade. — Mas você não me parece debilitado o suficiente para ser dispensado das aulas de educação física.

— Eu não quero ir para aquele ginásio! Meu Deus, olha pra mim, não estou em condições.

— Querer não é poder, você já deve saber disso. — Noah retorquiu, fazendo Neal suspirar exasperado agarrando sua mochila e levantando-se. — Encarar seus problemas é melhor do que inventar desculpas.

— Não sabia que além de enfermeiro, você também era psicólogo. Se eu quisesse conselhos, estaria na sala ao lado. ㅡ Neal retrucou sem muito humor, fazendo o outro rapaz revirar os olhos.

— Você não terá sua dispensa, vá direto para o ginásio ou não irei me importar em avisar o Sr. Kocsis, nem o diretor Dante. ㅡ Noah disse despachando o garoto de sua sala, que saiu indignado com a situação.

Caminhando a passos rápidos e furiosos, Neal nem se deu conta de quando já havia atravessado toda a escola e se encontrava no vestiário. Havia ignorado o olhar interrogativo do treinador e focou toda sua atenção apenas em trocar de roupa e voltar para a quadra, numa nova sessão de humilhação pública, pois era dia de subir pela corda.

Entrando em fila, o garoto finalmente havia se tocado de como, fora o incidente com o enfermeiro a poucos minutos, sua manhã havia sido tranquila. Não havia recebido nenhuma ameaça, não precisou esconder-se no caminho até a escola, nem sequer saltou com o barulho de algum armário de fechando. Ele realmente não havia sonhado afinal, seu maior agressor havia saído da escola, e até mesmo da cidade. Aquilo de repente lhe fez ver um fino raio de esperança. Talvez, apenas talvez, ele teria um pouco de paz...

— Hey, viadinho, pare de sonhar acordado e anda logo. ㅡ Um sotaque castelhano carregadíssimo de repente lhe tirou de seus pensamentos, e um arrepio subiu por sua espinha. Estava bom demais para ser verdade, pensou ele e quando olhou para trás, dois flamejantes olhos azuis safira lhe encaravam com tremendo desdém. Os braços cruzados a frente do corpo, inchavam as mangas de sua camiseta. Quem era ele afinal? — Você está surdo? Mova-se!

Porém quando Neal foi fazer qualquer movimento, o apito soou por toda a quadra, e o garoto a suas costas bufou irritado e passou por ele, esbarrando com força em seu ombro esquerdo. Tremendo, Neal não conseguiu sair do lugar. Algo naquele garoto, naquele olhar, lhe dizia que seu pesadelo apenas havia sido renovado para uma nova temporada, com um diferente protagonista.

~//~

— Depressa cara, ela vai chegar a qualquer momento e se isso acontecer, nós seremos expulsos! — Alertou Trevor olhando pela porta entreaberta, vigiando para que não fossem pegos na sala da inspetora da escola.

— Fique calmo, cara. Eu vigiei aquela megera por meses, eu sei todos os horários dela e todos os seus rituais matinais ridículos. Sabia que ela come sanduíche de picles todas as quintas as exatamente 14hs33min? Ela é doida! — Riu o outro garoto que estava agachado sobre a cadeira atrás da mesa do escritório de Sidney dando os últimos ajustes em sua grande armadilha.

— Essa informação eu não irei nem perder tempo guardando e pouco me importa o motivo de você saber disso. Só quero sair logo daqui, antes que aquela enviada do inferno apareça. O que eu estou fazendo aqui afinal de contas?

Finalmente ficando de pé com um sorriso triunfante no rosto, bateu no ombro do amigo e os dois saíram correndo pelos corredores da escola e viraram em uma esquina, para só então se debruçarem e assistirem de longe como tudo iria se desenrolar.

Olhando para o relógio em seu pulso, o garoto que estava a pouco arrumando tudo, constatou que faltavam poucos segundos para Sidney chegar. E como previsto, lá vinha ela marchando do outro lado do corredor, seus saltos anunciando sua chegada antecipadamente, e então os garotos fingiram estar arrumando as coisas em suas mochilas, para evitar suspeitas.

— Posso saber o que estão fazendo aqui tão cedo? — Sidney perguntou com uma de suas mãos na cintura, tamborilando suas enormes unhas sobre o tecido de sua blusa social perfeitamente modelada em seu corpo.

— Apenas conferindo nosso material, inspetora. Nada de mais. ㅡ A mente por trás da armadilha respondeu, com um sorriso inocente, enquanto seu comparsa apenas assentiu, sem tirar os olhos de sua mochila aberta.

— Saiam daqui, ou irão ficar tanto tempo de castigo que seus filhos irão se formar primeiro que vocês. ㅡ Ela alertou-os antes de caminhar para a sua sala.

Com um sorriso triunfante, conferiu novamente seu relógio e contou mentalmente os segundos até que o primeiro berro ecoou pelo corredor, então contou mais um pouco e outro grito explodiu da garganta de Sidney, mordendo com força o lábio inferior para não soltar uma gargalhada extremamente escandalosa, esperou mais um pouco e então o terceiro grito eclodiu da garganta da inspetora pouco antes dela escancarar as portas de seu escritório dando visão clara do seu estado.

Seus cabelos caiam sobre sua face, conforme pingavam e manchava o chão com o líquido que outra estivera no vaso sanitário do seu banheiro particular, suas roupas também se encontravam no mesmo estado.

Não aguentando mais o garoto gargalhou histericamente e o olhar de Sidney virou em sua direção, flamejantes de ódio. Jamais aceitaria tal humilhação, tal insubordinação, tal falta de respeito! Avançou com passos firmes e em pouco tempo estava sobre a figura do garoto que se dobrava de tanto rir, enquanto seu amigo encarava ambos sem qualquer cor em seu rosto e seus olhos arregalados.

Grudando suas unhas extremamente afiadas na orelha do que estava a sua frente, o levantou no mesmo tempo que o garoto inverteu sua risada em grunhidos de dor.

— Sala. Do. Diretor. AGORA!

E então arrastou-o consigo por entre a enorme massa de alunos que, a essa altura, já se encontravam nos corredores da escola e continuam expressões de divertimento e espanto em seus rostos.

Ao abrir as enormes portas da diretoria com toda a força do seu ódio, Sidney pegou todos os presentes de surpresa, que a encararam assustados.

— Todos vocês, para fora... AGORA!

Os professores se encararam por um instante, atordoados e então olharam para o diretor, que estava boquiaberto, até que finalmente digeriu toda a situação e dispensou o corpo docente para as suas atividades diárias.

Quando o último professor saiu, Sidney empurrou o garoto para a frente, que começou a massagear freneticamente sua orelha esquerda que queimava devido a força da mulher, enquanto ela fechava as portas com força novamente.

— Eu posso saber o que está acontecendo aqui? ㅡ Dante inquiriu autoritário. Não iria aguentar mais uma das intromissões de Sidney sem um motivo plausível.

— Pergunte a ele o que houve. E já vou avisando, quero punições severas, ou até mesmo expulsão! ㅡ Sidney disse com rispidez, fulminando o garoto a sua frente, que rebatia seu olhar com insolência enquanto suas mãos ainda estavam ocupadas com sua orelha.

— E você seria... ㅡ Dante direcionou sua atenção ao aluno.

— Spencer Porter, vice capitão do time de futebol e rúgbi da escola. ㅡ Fez uma pequena reverência irônica, o que fez Sidney acerta-lo com um tapa na parte de trás de sua cabeça.

— Sidney! Não agrida os alunos na minha frente, ou em qualquer outro momento. Não estamos numa prisão, essa aqui não é a sua instituição para fazer o que bem entender. ㅡ O diretor ralhou, e a mulher lhe encarou com desdém, desarmando um pouco da autoridade do ex-marido.

— Oras se o pequeno Dante finalmente criou algumas bolas. Essa pose toda de machão autoritário. Como se pudesse me enganar. ㅡ Ela disse debochada. ㅡ Quero esse garoto expulso e que eu seja indenizada por todos os danos causados a essa escola e principalmente a minha imagem!

— O que você fez, Sr. Porter? ㅡ Dante perguntou novamente, ignorante os comentários anteriores sobre sua vida particular.

— Não me recordo de nada. ㅡ O garoto deu de ombros, recebendo outro tapa em sua cabeça. — Oush, sua megera, você não tem esse direito.

— E você muito menos. Invadir minha sala e simplesmente explodir tudo, até mesmo o meu banheiro! Você deveria ser preso!

— Não antes de você, sua maluca. Imagina o que a polícia faria se ficasse sabendo das atrocidades que você faz com os alunos aqui dentro.

— Minha escola, minhas regras!

— Minha escola, Sidney. ㅡ O diretor interviu. — E chega dessa discussão ridícula! Sidney, saia da minha sala, chame os zeladores e peça que organizem sua sala. Eu irei decidir o que vai acontecer com o Sr. Porter daqui para frente.

Sidney o encarou incrédula por alguns segundos. Então passou a mão por seus longos cabelos negros ainda úmidos, enrolou-os e jogou para trás.

— Quero ele sob minha supervisão até o final do semestre. Ele irá limpar e consertar toda a minha sala, ou eu mesma farei um boletim e reclamação aos superiores.

— Como quiser, agora saia da minha sala.

— Se fosse tão macho quanto tenta transparecer na frente dos alunos, talvez eu ainda transasse com você e não com o meu mecânico! ㅡ Comentou ela acidamente antes de sair da diretoria, fechando a porta com força.

Suspirando com os olhos fechados, Dante caiu para trás, em sua cadeira. Ela realmente precisa fazer essas cenas em frente aos adolescentes, o que eles pensarão de mim daqui algum tempo?

Spencer olhava um pouco incerto para o diretor, ele não podia estar falando sério sob deixá-lo na supervisão daquela megera, e muito menos sobre consertar a sala dela. Isso era tortura!

Abrindo os olhos levemente, o diretor direcionou sua atenção novamente para Spencer. O garoto é o típico estereótipo de atleta. Usava a jaqueta do time, com o brasão prata de um ornitorrinco, que era a mascote da escola. Calças jeans escuras e largas. O cabelo estava raspado, mas ainda assim havia uma camada superficial de cabelos loiros. Os olhos azuis, o nariz pequeno, mas perfeito em seu rosto e uma boca com lábios finos e róseos.

— É apenas a segunda semana de aula e você já me apronta uma dessas. Você não tem ambição? Você quer jogar todo o seu futuro no lixo apenas para infernizar a vida de Sidney? – Dante questionou enquanto se ajeitava na cadeira e apoiava os braços em sua mesa.

— Eu não sei nem como você permite que um ser desses ande pelos corredores da escola. Ela é imoral. E vê graça em tornar suas vidas miseráveis.

— Como se eu não soubesse bem o que é isso... — Comentou o rapaz mais velho para si mesmo. — Ela não irá me deixar em paz e muito menos a você, se eu não lhe der uma punição...

— Você não pode estar falando sério? — Spencer disse incrédulo, interrompendo o diretor, que revirou os olhos.

— Você tem duas escolhas rapaz. Cumprir a detenção da Sidney e comigo, ou ser expulso e dar adeus a todas as possíveis bolsas de estudos que você tem capacidade de conseguir. — Dante disse sério e Spencer mordeu com força o lábio inferior. — E então, o que vai ser?

Analisando dessa forma, não havia muito o que ele pudesse fazer. Teria que aguentar a megera, porém ter certo desconto ao ficar com o diretor como supervisor. Tudo era melhor do que ser expulso e seus pais morrerem de desgosto. Como se ele já não fosse um desgosto ambulante.

— Que seja diretor.

— Garoto esperto. Manterei meus olhos em você, Sr. Porter, não saia fora da linha novamente, ou não terei a mesma misericórdia. — Dante disse por fim, antes de dispensar o garoto.

Porém, antes que saísse da sala, Spencer parou com a porta semiaberta e então olhou por cima do ombro, para o diretor.

— Sidney talvez tenha razão. Essa sua pose de durão realmente é instigante e sexy, estou surpreso. ㅡ Comentou com um sorriso sacana e então saiu da sala, fechando a porta a suas costas, deixando Dante paralisado em sua cadeira. Em choque.



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