História Aos Olhos de Um Titã - A Revolução (volume 2) - Capítulo 7


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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Ficção Científica, Luta, Romance e Novela, Terror e Horror
Avisos: Heterossexualidade, Mutilação, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 7 - Rita


Oliver Gomes.

 

            Recolhi algumas ervas que eu tinha plantado ali assim que enterrei o que sobrou do corpo do Umnbu dentro da caverna.

            - Vamos indo. Já peguei o que vim pegar – Eu disse, me virando para a saída.

            - Espere – Disse Lorence, segurando meu ombro e me forçando a virar. Ele parecia irritado – O que diabos você tem feito aqui?

            - Do que está falando?

            - Você está criando monstros. Por quê?

            - Ciência. Posso ser diferente dos humanos, mas ainda assim sou tão curioso quanto vocês. Eu fui criado por vocês, humanos, que buscavam um avanço da ciência. Só estou fazendo o mesmo.

            - Não, não é isso – Ele disse alto e com firmeza. – Você ficou desapontado quando aquele bicho tentou me morder. Não é por curiosidade. Eu exijo saber qual o motivo.

            - E o que te faz pensar que tem direito de exigir alguma coisa de mim?

Eu realmente não me importava com o que ele queria, eu não tinha a menor obrigação de responder qualquer pergunta que ele tivesse sobre o que eu fazia ou deixava de fazer. Titãs tinham o grande defeito de nunca conseguir manter os pensamentos em suas mentes e sempre falavam tudo assim que pensavam; guardar segredos não era nosso forte. Ainda assim, o objetivo que eu tinha quando criei os Umnbus era algo que eu não poderia revelar.

Ele não respondeu nada e saímos da caverna. Jeremy olhou ar ervas que eu carregava, aparentemente imaginando que elas tinham alguma ligação com os Umnbus, mas não me importei de forma alguma com o que ele pensava. O que realmente me incomodava era Drake, que estava sorrindo desde o momento que viu o Umnbu atacar Lorence. Ao voltarmos para a cabana, vi que Rita estava brincando de bater palmas com Melany enquanto cantava uma música. O cabelo escuro de Melany contrastava com o loiro de Rita enquanto a minha pequena garotinha pulava e fazia seus fios morenos esvoaçarem pelo ar. Sorri. Era muito agradável presenciar a cena.

- Sua filha é um amorzinho – Disse Rita, assim que me viu.

- Que bom que acha isso, mas tenho que discordar – Respondi com um sorriso, indo até elas e pegando Melany no colo. – Essa pestinha sempre faz birra para comer os vegetais e dedica boa parte do tempo furtando guloseimas antes do jantar.

Fiz cócega em Melany e ela gargalhou, agarrando minha camisa e, depois, me abraçando.

- Estou curioso – A voz de Drake veio de trás, e senti como se estivesse sendo esfaqueado pelas costas. – Onde arranjou a menina?

Meu sorriso se desfez, dando lugar a um rosto de sério. Coloquei Melany no chão e disse, sem me virar:

- Isso não lhe diz respeito.

- Mas diz muito sobre você. Pelo que eu sei, você tem uma queda por humanos – Vi pelo canto do olho ele passando a mão por entre os cabelos ruivos. – Imagino que passou os últimos anos longe deles por segurança. Segurança deles, é claro. Então por que está com a menina? – Ele não conseguiu segurar o riso antes de terminar a provocação. – Está engordando o gado para um churrasco ou é só um lanchinho para mais tarde?

Eu me virei enfurecido para encará-lo, mas ele já não estava mais rindo. Sua expressão estava séria, com desaprovação.

- Nunca dê as costas para mim como se eu fosse um ninguém – Disse ele, e pude sentir a irritação em sua voz.

- Ei, vai com calma – Disse Jeremy, colocando a mão sobre o ombro de Drake. Ele o ignorou e o empurrou de leve, dando um passo na minha direção.

– Eu não aceito que me trate como um idiota insignificante qualquer. Eu provavelmente não venceria um confronto direto, mas vou arrancar suas entranhas na primeira oportunidade que eu tiver. Se me der as costas, esteja preparado para ter uma faca cravada nelas.

- Faça isso logo – Eu retruquei. – Quanto mais cedo você fizer algo contra mim, mais cedo vou ter todos os motivos que preciso para matar você.

O clima ficou pesado, ninguém ali conseguiu ficar calmo, tranquilo. Lira se levantou e se pôs entre nós.

- Eu sei que amizade está longe de descrever os sentimentos que existem entre vocês, mas eu não aceito que briguem dentro da minha casa ou continuem com ameaças de morte na frente da minha filha.

Arregalei os olhos de surpresa, depois tive que lutar para segurar o riso. Uma garota com o corpo de 16 anos, com a mente pesa em um estado infantil por causa do experimento que ela passou, falando e agindo daquela forma tão imponente era cômico. Segurei a mão de Lira e a trouxe até meus lábios, beijando-a.

- Sinto muito, querida... – Eu disse, e percebi que a imagem de um garoto também com seus aparentes 16 agindo daquele jeito era igualmente cômico.

Entretanto, Drake não achou cômico ou engraçado como eu, também não melhorou seu humor e, principalmente, sua feição de seriedade. Apesar disso, ele deu alguns passos para trás e se sentou na cadeira mais próxima, apoiando o cotovelo no encosto da cadeira e o rosto sobre o punho, seu olhar voltado para fora e seus pensamentos viajando distante dali. Quisera eu saber o que pensava naquele exato momento. Kazumi grunhiu, limpando a garganta. Ele estava visivelmente incomodado com algo.

- Sim? – Eu disse.

- Deveríamos estar nos preparando – Ele disse sem rodeios. – Precisamos ir o mais breve possível. Ainda há muito o que fazer antes de ir para a ilha. Os superiores irão querer uma reunião com você para debater os métodos que podemos usar para sobressairmos sobre os conflitos que muito provavelmente enfrentaremos. Afinal, você já tem experiência em combater coisas assim.

Refleti um pouco sobre o que deveria levar, então o respondi.

- Voltem amanhã de manhã. Eu estarei pronto para partir até lá.

- Se não se importa – Disse Lorence. – Eu gostaria que alguém de sua escolha ficasse aqui para assegurar que você não vá nos passar a perna e fugir.

- Fala como se isso me impedisse – O respondi com seriedade, apesar de ter deixado um pouco de humor escapar.

- Faz parte do protocolo.

- Que seja.

- Algo contra eu ficar?

Eu estava prestes a dizer que poderia ser ele, mas Melany segurou a bainha da minha camisa. Eu abaixei e ela sussurrou algumas palavras no meu ouvido.

- A moça pode ficar? – Disse ela, corando as bochechas e me abraçando assim que terminou de falar.

Sorri, olhei para Rita e dela para Lorence.

- Gostaria que fosse Rita a ficar. Parece que Melany gostou dela.

Ele sorriu e concordou com a cabeça. Rita veio até mim, parando ao meu lado e ajoelhando para fazer carinho no cabelo de Melany, sorrindo para ela. Lorence sorriu forçadamente, tentando disfarçar o desapontamento. Sem dizer mais nada, ele, Jeremy, Miles e Kazumi saíram. Drake, ao passar pelo vão da porta que já não existia mais, fixou seu olhar em Melany e em Lira. Dei um passo para ficar na frente delas e o olhar de Drake se encontrou com o meu. Milhares de ameaças de morte voaram de um lado para outro sem que qualquer palavra fosse dita. Instantes depois, eles partiram.

* * *

Rita Sanches.

 

Passar o restante do dia e uma noite na casa de um ser não humano que quase tinha me matado horas antes não foi tão ruim quanto pensei. Ele era educado com visitas e tinha uma família amorosa. Lira disse que eu poderia ficar no quarto da Melany, e Melany dormiria com ela. Tive que me segurar muitas vezes para não perguntar a origem da criança. Não conseguia imaginar a cena dos dois jovens adotando uma criança por meio legais. De certa forma, fiquei com medo que eles a tivesse sequestrado dos braços da mãe ou qualquer coisa assim, mas o pensamento era muito sem fundamento. A menina amava os dois como pais biológicos, então eles deveriam tê-la acolhida de alguma forma. Apesar disso, ainda era estranho pensar que eles tinham achado uma garota perdida e resolveram adotá-la. Eu estava certa que havia algo mais por trás disso.

Ainda era tarde quando Lira me ofereceu algumas guloseimas. Eu aceitei com um sorriso, apesar de não saber exatamente o que era aquilo. Bolinhos salgados brancos-acinzentados, aparentemente feitos de trigo ou maisena. Havia alguns sabores que eu não conseguia distinguir, mas estava simplesmente delicioso. Eu não quis perguntar do que eram feitos, pois seria um pouco constrangedor para mim – uma mulher 33 anos, que já foi mãe - perguntar a receita para uma jovenzinha de 16, apesar de saber que ela não tinha 16. Estávamos sentados à uma mesa retangular, com Oliver em uma extremidade e eu na outra; Lira estava a minha esquerda e Melany a direita. Era a tarde, e estávamos comendo bolinhos e bebendo tranquilamente como pessoas normais. Melany, que estava do meu lado, pegou bolinhos a mais e escondeu nas roupas, olhando para mim e piscando o olho. Menina sapeca. Oliver estava lendo um livro – incrivelmente rápido, com poucos segundos olhando uma página antes de virar a folha – e estendeu a mão sobre a bandeja de bolinhos. Ele tocou os dedos algumas vezes pela superfície metálica dela antes de olhar e ver que não havia mais bolinhos. Ao que parecia, eles eram contabilizados, três para cada. Contendo uma risada, Oliver virou o rosto para Melany, fingindo um olhar brincalhão de desaprovação.

- Quem pegou meus bolinhos? – Ele perguntou.

Melany levou a mão até a boca para segurar o risinho.

- Lira, foi você quem pegou meus bolinhos? – Oliver se voltou para ela, sorrindo.

- Não, amor – Ela respondeu, também sorrindo e já olhando para a menina.

- Rita, sabe quem pegou meus bolinhos?

Melany olhou para mim e sorriu. Eu entrei na brincadeira, levantei os braços e dei de ombros.

- Melany – Disse ele para a menina. – Você está com meus bolinhos?

A menina olhou para ele de forma sínica e brincalhona.

- Eu, papai? Eu não.

- Tem certeza? Eu estou sentindo cheiro de bolinhos vindo de você.

A menina caiu na gargalhada, levantou da cadeira e saiu correndo, sendo seguida por Oliver, que a perseguiu sorridente pela casa. Eu me diverti vendo a cena, lembrando da minha própria filha e das gargalhadas que dávamos quando eu não estava a serviço e passava horas e horas brincando com ela.

- São uma graça, não é? – Disse Lira, chamando minha atenção.

- Sim. São, sim – Sorri para ela ao responder.

- Ele sofreu muito desde que nasceu. Esse é provavelmente o momento mais feliz da vida dele, pois está durando muito.

Abri a boca para falar algo, mas as palavras não vieram. Ao vê-lo brincando com a filha adotiva, eu não consegui enxergá-lo como o monstro assassino de centenas de pessoas, como o vi sendo descrito muitas vezes.

- Eu realmente não queria que ele precisasse matar de novo, mas vocês vieram e pediram para ele matar o próprio filho. Que tipo de monstro vocês acham que ele é? – A tonalidade de sua voz se alterou de suave para agonizante, quase derramando lágrimas. – Tudo que ele fez na vida dele foi matar, matar e matar, mas nunca tirou uma vida senão para a sobrevivência, para se defender. Nós nos isolamos aqui para que não haja mais necessidade de matar.

- Eu lamento por tudo – Tendei transparecer sinceridade, pois realmente sentia mesmo. – Eu queria que houvesse outro jeito, mas o que está em jogo é algo muito grande. Ele é nossa melhor chance.

- Sua melhor arma, você quer dizer. Isso não vai acabar bem. Quando ele derramar novamente sangue, ele vai... – Ela se interrompeu com pesar.

- Ele ia nos matar e me parecia bem com isso – Retruquei.

- Por que acha que eu o impedi? - As palavras pareceram sombrias quando saíram da boca dela. Era quase como se dissesse “eu não ligo se você morrer, estava mesmo era preocupada com ele”. – A fome está afetando ele como nunca antes. Tantos anos sem comer estão deixando ele instável, e comer agora só vai deixar ele descontrolado, tomado pelos instintos.

- Como assim fome? – Eu realmente não entendi na hora. Ele estava comendo a pouco, não?

- Ele come bolinhos, bebe chá, escova os dentes, dorme no mínimo oito horas por dia, até finge estar cansado quando não dorme muito, faz alguns exercícios físicos, às vezes gosta de colocar os óculos e ler vagarosamente no fim da tarde.

- E com isso você quer dizer que ele...?

- Ele não precisa de nada disso. Comida para ele não passa de cigarro ou bebidas alcoólatras. É um vício, mas não alimenta ele de forma alguma. O sistema digestivo dele é meramente um enfeite orgânico do seu corpo. Ele precisa consumir pessoas, não doces e chá de ervas. Ele não se alimenta de verdade a quatro anos.

- Mas... E aquilo de você alimentá-lo Deus sabe como?

- Leite.

- Leite? – Indaguei, mais confusa ainda.

- Leite materno. Meu leite. É uma longa história, mas o resumo é que ele pode receber meu leite materno para saciar a fome, mas não é a mesma coisa. Você já deve saber tudo sobre a alimentação dele, não é? As células de uma pessoa normal, assim como as dele, têm um número limitado de vezes que pode se dividir. Essas células envelhecem e morrem com o tempo, e as outras vão se dividindo cada vez menos, até que a velhice acaba por matar todas as células. Ele consome células humanas em atividade para repor a suas próprias, multiplicando o número de vezes que elas podem se dividir. Com isso, se ele continuar bem alimentado, ele pode viver para sempre, sem envelhecer fisicamente e biologicamente. Meu leite materno pode fortalecer as células, aumentando o número de vezes que as células dele podem se dividir, porém esse número não é ilimitado. As células continuam morrendo, fazendo seu corpo gritar por novas células para a reposição. A fome dele já não está sendo satisfeita só com meu leite, ele precisa de pessoas, mas se ele provar novamente como é o sabor, ele vai querer mais e mais, descontroladamente.

- Então quando ele é ferido, o processo de regeneração acelera a divisão celular e ele sente mais necessidade de comer.

- Exato. E como ele não se alimenta bem, ele está...

- Fraco – Completei.

- Instável. Sim, ele está mais fraco. Mas eu garanto que não é uma fraqueza que pode ser explorada. O fato é que não muda nada. Para matá-lo, é preciso enfraquecê-lo muito, muito mesmo. A forma de deixá-lo fraco o bastante é feri-lo diversas vezes e deixar que ele se regenere, feri-lo de novo e repetir o processo diversas vezes. Mesmo assim as chances seriam baixas. Já o prenderam e tentaram matar ele por vários dias. Nada de bom resultou disso.

- Eu não tinha a intenção de encontrar uma fraqueza, afinal estamos do mesmo lado – Sorri forçadamente, mas estava sendo sincera. – Eu só... só queria entender como ele aguenta tudo isso.

- Ele tem que aguentar. Não há escolha.

Voltei meu olhar para o sorridente pai brincando com a filha bem próximo de mim. Melany corria com os bolinhos nas mãos, fugindo dele. Oliver corria atrás dela, tentando pegar os bolinhos que não saciariam sua fome. Ele não queria os bolinhos, queria brincar com a filha. Eu estava irritada com a ideia de manchar aquele sorriso tão inocente com sangue, fazendo-o matar o próprio filho.

A noite caiu, trazendo uma linda cor sobre o céu. Melany estava sonolenta cedo, mas não era de se surpreender; passou a tarde inteira pulando e brincando com o pai. Lira a levou para o banho – um tradicional banho japonês, longo, gostoso e revigorante – e, depois, levou-a para a cama, deitando-se com ela. Oliver e eu ficamos a sós, e um clima estranho nos rodeou. Eu não via mais ele como a imagem de um monstro frio e sem sentimentos que eu tinha formado na cabeça, mas sim como alguém que deve ter chorado a morte de muitas pessoas que matou, pois não era isso que ele queria, mas foi obrigado a fazer. Ainda assim, era estranho estar frente a frente com a coisa mais poderosa do mundo.

- Então... noite agradável, não é? – Eu disse, desconfortável.

- É, sim. Lira e eu costumávamos passear pela mata em noites como ela. Andávamos descalços para sentir a terra entre nossos dedos. Corríamos até a praia e nadávamos por um tempo.

- Parece muito divertido – Deixei as palavras fluírem, mas percebi que soaram muito sugestivas, já que minha expressão era de tédio, monotonia e desconforto.

- Podemos fazer isso, se quiser – Ele sugeriu.

- Não, eu... – Tentei arranjar uma desculpa, mas a verdade era que isso seria mais interessante que passar mais algumas horas olhando para a parede antes de enfim ir para a cama e dormir. – Eu não acho uma boa ideia.

- Ora, vamos. Vai ser legal – Ele insistiu. – Eu te conto algumas coisas, você me conta outras.

- Então isso é para trocarmos informação?

- Se é assim que você quer chamar. Particularmente eu chamo isso de conversar.

- Se é assim, tudo bem.

Acabei por ceder. Instantes depois, saímos. Notei somente naquela hora que ele já havia recolocado a porta, ou outra porta no lugar sem que eu percebesse, provavelmente enquanto eu estava brincando com Melany ou conversando com Lira. Nos distanciamos da cabana e caminhamos lado a lado, e a única luz que nos separava de um breu absoluto era a leve luz da lua. Já estávamos longe o bastante e estava escuro o bastante para eu não ter mais senso de direção, confiando apenas no de Oliver. Olhei para trás, mas não consegui ver a cabana, e quando olhei para frente e para os lados, Oliver tinha desaparecido. Um frio congelante atravessou minha espinha, um sentimento terrível de insegurança e vulnerabilidade. Eu nunca teria qualquer chance de me defender dele, mas colocar a mão na cintura e não sentir o doce frio do metal de uma arma me deixava ainda mais insegura.

Fiquei parada por alguns instantes, refletindo sobre o que eu deveria fazer, mas os pensamentos não vinham a mente. Decidi andar em linha reta, sem olhara para trás ou para os lados para não perder ainda mais o senso de direção. Depois de dois ou três minutos andando, vi o fim da linha das árvores e voltei a respirar. Sorri para mim mesma. Mesmo estando escuro, se eu chegasse à praia, as árvores não cobririam a pouca luz da lua, e assim eu poderia ver melhor. Ao pisar na areia, olhei para a frente e vi Oliver não muito distante. Ele pareceu não ter percebido que eu tinha chegado assim, nem sabia se ele tinha notado que eu tinha ficado para trás, mas com toda certeza ele saberia pelo cheiro se eu saísse para muito longe ou chegasse muito perto. Decidi me aproximar, mas me contive quando o vi tirando a camisa virando para mim. Ele sorriu, pude ver mesmo com a luz baixa, e fez sinal com a cabeça para que eu me aproximasse. Eu o fiz, chegando até ele com algumas dezenas de passos minúsculos. Frente a frente com ele, vi a leve e salgada brisa marítima fazendo seu cabeço cinzento esvoaçar. Ele sorriu ainda mais, exibindo seus olhos sombrios vermelhos e negros.

- Agora que estamos longe o bastante, quero que me diga uma coisa – Disse ele.

Engoli a seco.

- O quê?

Com mais um passo, ele chegou a centímetros de distância. Só nessa hora, a essa distância, percebi que ele era alguns centímetros mais alto que eu. Seu corpo era de 16 anos, mas era musculoso, escultural e forte, mas não exagerado.

- O que você vê quando olha nesses olhos?

- Eu... o que quer dizer?

- Você tem medo de mim? – Mesmo sem se mover, eu senti como se ele tivesse dado outro passo para perto.

- Eu deveria ter?

Ele sorriu, andou alguns passos para o lado, apontou para o chão e passeou com o dedo, como se estivesse procurando algo. Até que, por fim, enfiou a mão no chão, ficando com a areia a altura da metade do bíceps. Quando puxou o braço, trouxe consigo uma pequena maleta. Ele a pôs sobre o chão e a abriu, removendo o que parecia uma pistola 9mm envolvida em um saco plástico transparente. Ele a removeu do saco e apontou para mim, mas não de uma maneira ameaçadora e não com o dedo no gatilho. Foi então que eu percebi que ele queria que eu a pegasse, e assim o fiz.

- Faça – Disse ele, simplesmente.

            - O que quer que eu faça? Atire em mim mesma para você não precisar me matar.

            Ele não respondeu nem mudou sua expressão, que estava séria desde que tirou a maleta da areia.

            - Lira me disse que você não consegue mais saciar a fome com o leite materno dela. Foi por isso que me trouxe aqui? Para me devorar? – As palavras simplesmente pulavam da minha boca. Eu não sabia porque estava dizendo aquelas coisas; talvez para ganhar tempo enquanto um milagre não acontecia e me salvava da morte eminente.

            Ele segurou minha mão e colocou meu dedo gentilmente no gatilho, mas, para minha surpresa, ele puxou minha mão vagarosamente e levou a arma até seu peito.

            - Atire em mim.

            - Por que eu faria isso?

            Ele parecia relutante, mas disse:

            - Eu feri você. Estou te dando a chance de me ferir em troca. Claro, você quase morreu, e essa arma não vai me fazer quase nada, mas...

            - Não – O interrompi. – Não precisa fazer isso. Eu entendo o que você fez. Se eu estivesse no seu lugar, talvez tivesse feito o mesmo.

            - É. Talvez.

            - Mas de uma maneira mais rápida e menos irritante. Sabe como é ruim ouvir você tocando? Meus ouvidos sangraram ouvindo aquilo. Literalmente.

Fiquei contente quando consegui arrancar algumas risadas dele com aquilo. Eu soltei a arma, deixando-a cair no chão.

- Vocês, humanos, são tão divertidos às vezes.

- Fala de humanos como se fosse realmente muito diferente de nós.

- E não sou? Tenho dois braços, duas pernas, dois olhos, dois ouvidos, um coração, mas nada disse me faz ser como um humano. É tudo apenas aparência.

- Não é a aparência que te faz ser como nós. Por que se acha tão diferente?

- Por que eu sou. Tudo em mim é diferente e, embora os humanos pudessem evoluir para serem todos como eu em alguns milhões de anos, somos tão iguais quanto um garfo e uma beterraba.

- Você é me parece mais humano que muitos de nós. Sempre se ouve dizer que os humanos se diferenciam dos animais por terem sentimentos, por serem racionais. Você me parece amar muito sua mulher e sua filha, você nos poupou da morte que merecíamos por ter vindo atrás de você, você se enfureceu com Landay por causa do seu passado com ele. Esses sentimentos n]ao fazem de você humano?

Ele levou a mão ao queixo e pareceu pensar, depois sorriu.

- Talvez tenha razão. Posso ser algo semelhante a um humano, mas isso não muda o que sou de verdade.

Ele abaixou e pegou a arma que derrubei, depois pegou um silenciador na maleta e acoplou a ela. Olhei curiosa, mas em momento algum cheguei a temer por mim mesma. Minha mente já estava acostumada com a ideia de que ele não era um perigo para mim se eu não o provocasse a ser. Ele encostou o cano da arma contra o próprio peito e disparou inúmeras vezes até descarregar o pente. Eu me assustei com os clarões da arma e deu alguns passos para trás, assustada.

- O que diabos está fazendo?

- Aliviando a tensão.

Fiquei sem saber o que dizer. O rosto dele permanecia inalterado, como se aquilo não fosse nada, e realmente não era. Em instantes seu peito regenerou e algumas manchas de sangue foram as únicas coisas que restaram dos ferimentos.

- Vamos voltar para casa.

E ele fechou a maleta com a arma dentro e a jogou longe, em direção ao mar.

 

 



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