História Aos Olhos de Um Titã - A Revolução (volume 2) - Capítulo 8


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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Ficção Científica, Luta, Romance e Novela, Terror e Horror
Avisos: Heterossexualidade, Mutilação, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 8 - Partida


Rita Sanches.

 

            Fiquei bem mais do que confusa com tudo aquilo. Não havia sentido em atirar no próprio peito daquela forma. Pouco sangue escorreu e o ferimento curou em instantes, as balas foram empurradas para fora do corpo dele enquanto cicatrizava. Não consegui falar mais nada, senti um misto de medo, curiosidade e empatia. Por um lado, senti pena dele, pude ver como ele estava sofrendo por dentro. Se me perguntassem, diria que aquilo era o equivalente a cortar os braços com uma gilete.

            Caminhamos silenciosamente novamente em direção a cabana. As nuvens cobriram a lua, não consegui ver nada meio metro a minha frente, mas ele parecia enxergar perfeitamente. Caminhei olhando para suas costas, mas por pura curiosidade quis ver seu rosto e sua expressão. Paralisei quando vi seus olhos mudados, vermelhos e negros, como uma criatura de um folclore indígena. Vi aquilo antes, mas de alguma forma estava mais assustador. Quando ele entrou em conflito com Landay ele me tocou para eu não interferir. De alguma forma ele entrou na minha cabeça e me fez ver coisas sobre as quais eu não queria me lembrar. Vi enjoos, sono, alteração no humor, hormônios borbulhando e desejos por comer coisas estranhas. Eu reconheci aquele momento. Vi minha gravidez.

            Talvez tenha sido o momento mais intenso de toda minha vida, quando tive os sentimentos mais profundos. Me perdi tanto nessas memórias que não consegui pensar em mais nada. Quando me dei por conta eu estava no chão, não sei quanto tempo depois. Ainda não decidi se foi cruel ele ter feito eu ver aquilo ou se foi misericordioso não me afastar com um simples soco.

            Novamente percebi que mais tempo tinha se passado e ele caminhava alguns metros a minha frente. Corri por uns segundos para acompanhá-lo, mas ainda assim fiquei alguns passos atrás. Aqueles olhos me deixaram arrepiada.

            Quando voltamos para a cabana, Lira e Melany pareciam já estarem dormindo, Oliver pareceu não se importar comigo e simplesmente atravessou a casa e entrou em um cômodo que eu não conhecia. Me senti insignificante. Eu não era motivo de preocupação ou ele estava sendo muito descuidado, mas achei difícil ser a segunda coisa. Sempre guardo uma faca pequena na nuca, escondida atrás do meu cabelo quando estou em missão, e sendo a única arma que eu tinha a minha disposição, senti uma enorme vontade de tentar esfaqueá-lo para ver como ele reagiria. Nas horas que fiquei lá eu estudei seus hábitos, seu jeito de pensar, sua família e a forma como agia em relação a mim. Simplesmente eu era uma visita para ele, mas uma visita chata que você deseja que vá embora e não o dá atenção até que se vá.

            Subi até o quarto de Melany, onde eu iria dormir, e me sentei em uma cadeira frente a uma penteadeira. Havia uma escova de cabelo, e como eu não estava mesmo com sono decidi escolar meus belos e longos fios dourados. Tirei a faca do cabelo e deixei sobre a penteadeira, depois suspirei e comecei a escovar o cabelo. Sempre que eu me olhava no espero eu tinha a mania de me ver de uma forma diferente. Nunca soube de verdade porque eu trabalhava com aquilo, nunca soube porque decidi entrar para o SCO. Parecia no começo que eu queria compensar algo, provar a mim mesmo que poderia fazer coisas boas, depois achei que era para tentar fazer uma pequena parte do mundo melhor para que nenhuma garotinha seja baleada por acidente na porta de sua casa, mas por fim decidi que não havia um real motivo para tal. Talvez eu quisesse morrer para pôr um fim em tudo, talvez eu quisesse chutar algumas bundas e balear algumas testas para tentar superar a dor da minha perda, mas não consigo decidir qual.

            Algo estava errado comigo. Minha cabeça latejava. Os pensamentos não me deixavam em paz nem por um segundo. A imagem da minha gravidez não sumia da minha mente. Me senti muito mal, como se revivesse antigas dores. Senti como se eu tivesse voltado para o passado, quando ainda era uma simples policial solteira que engravidou de um namorado que não quis assumir. O que veio depois foi... o que veio depois? Por que não me lembro?

            De repente ouvi uma batida na porta. Derrubei a escova de cabelo por causa da surpresa e respondi por reflexo.

            - Entre.

            Foi só quando vi a porta se abrindo que lembrei da faca que tinha deixado em cima da penteadeira. Eu estava abaixada para pegar a escova, sabia que não daria tempo de recolher a faca sem mostrar que estava de fato fazendo aquilo, então fiquei de pé frente a penteadeira para bloquear a visão dela.

            - Trouxe toalhas limpas – Disse Oliver, andando até a cama e deixando as toalhas em cima dela. – Tomei a liberdade de preparar um banho para você. Espero que não se importe.

            - De forma alguma, eu não me importo – Eu me importava, detestava banhos de água fria, e duvidava muito que ele tivesse um sistema de gás para um aquecedor.

            - Ótimo. A banheira está no último cômodo, ao lado da cozinha. Pode tirar esse uniforme e deixar naquele cesto ali – Ele apontou para um cesto de roupas pequeno ao lado da porta.

            - Obrigada.

            Ele se virou para mim e dei alguns passos. Por alguma razão eu fiquei nervosa, talvez um pouco apreensiva. Ele se abaixou na minha frente e pegou algo, e só então percebi que eu não tinha pego a escova de cabelos quando abaixei para pegar. Ele estendeu a mão ao meu lado e colocou a escova sobre a penteadeira, depois se virou e saiu sem dizer mais nada. Ainda era estranho a ideia de ele parecer tão jovem, era difícil assimilar o fato que eu estava falando com um homem, não com um garoto. Pelo que eu li sobre que nos arquivos que tive acesso ele tinha 20 anos, mesmo com aparência de 16. Supostamente ele tinha alcançado a idade adulta aos 16. Não tinha barba ou bigode, parecia nem sequer ter pelo volumoso no peito. Era um simples garoto à primeira vista, suspeito apenas por ter um cabelo cinza-escuro, de um tom estranho, um pouco escurecido, como se o preto natural estivesse desbotado.

            Suspirei para voltar a respirar normalmente e saí do quarto para tomar o banho. Imaginei que iria ser uma droga, mas quando me dei por conta vi que havia um pouco de vapor subindo da água na banheira. Toquei a superfície com a mão e percebi que estava morna, perfeita para uma noite fria como aquela. Provavelmente Oliver tinha feito algo para extrair gás natural de algum lugar ou algo assim. Confesso que não foi tão ruim quanto pensei. Agradável o bastante para relaxar. Na hora eu lembrei sobre um artigo que li algumas semanas antes. O lugar onde mais acontecem acidentes fatais em uma casa é o banheiro. Centenas de pessoas morrem afogadas por dormirem na banheira todos os anos. Imaginei como seria morrer assim. Seria irônico sobreviver ao assassino mais letal do mundo só para morrer afogada em uma banheira quente. Sorri com a ideia e a afastei da mente. Eu não morreria ali, não daquela forma. Teria vergonha de mim mesmo se não tivesse uma morte gloriosa em batalha, com pelo menos três tiros no peito antes de cair.

            Após o banho eu voltei para o quarto enrolado na toalha. Ouvi os sons de passos no segundo andar através da madeira do piso, mas quando subi não vi o Oliver. Entrei no quarto e fechei a porta atrás de mim. Me surpreendi um pouco quando vi que meu uniforme estava mais ali. Por alguma razão achei que Oliver o pegaria enquanto eu estivesse fora do quarto. Os sons de passou fizeram sentido quando olhei para a cama e vi uma muda de roupa limpa, e do meu tamanho. Ele estava sendo atencioso, mas senti que algo estava errado. Não consegui dizer o que era até me virar para a penteadeira.

            A faca que eu esqueci lá em cima havia sumido.

* * *

Oliver Gomes.

 

            Fiquei deitado a noite toda pensando no dia seguinte, e quando menos percebi, ele já havia chegado. 6:03 da manhã, quando olhei para o relógio de parede no meu quarto. Levantei e andei até o quarto de Lira. Quando passei em frente ao quarto onde Rita estava, senti vontade de espiá-la, mas ela dormiu pouco depois do banho e não tinha acordado ainda, pelo que ouvi de movimento, então não haveria muito para ver se espiasse. Não bati na porta, apenas a abri vagarosamente e olhei os rostos adormecidos de Lira e Melany, as pessoas mais importantes para mim nesse mundo. Sorri por um instante e andei vagarosamente até as duas. Melany estava envolvida pelos braços de Lira, com a boca semiaberta e respirava lentamente. Estendi a mão até sua testa e tentei novamente sentir suas ondas de pensamento, tentar ver com o que ela sonhava, mas não consegui. Ainda era impossível para mim. Lira abriu os olhos e sorriu para mim quando me viu.

            - Iremos logo, não é? – Disse ela, mais uma afirmação que uma pergunta.

            - Sim.

            - Então é melhor você se alimentar.

            Sorri com o canto da boca enquanto ela se afastava um pouco de Melany sem se levantar da cama e levantar a blusa. Encostei minha boca em seu seio e saboreei o doce sabor de seu leite, mordiscando cuidadosamente para que jorrasse mais e mais.

Por fim, beijei sua testa e disse que a amava, sendo correspondido por ela. Lira se acomodou novamente na cama e abraçou Melany novamente, e eu saí do quarto para deixá-la dormir mais um pouco. Fui até a sala de estar e parei um segundo para ter certeza que Rita ainda dormia, e pelo que ouvia da respiração dela, sim, ainda estava adormecida. Então abri a porta que levava até o porão e entrei. Desci a escada e caminhei até o fim do porão. Geralmente eu gostava de brincar com Lira e perguntar “se lembra de onde deixei minhas ferramentas” ou coisa assim, mas o fato é que eu era incapaz de esquecer qualquer coisa. Chegava a ser frustrante. Por mais que eu me odiasse, eu sabia que a vida normal para alguém como eu era monótona e entediante no dia a dia. Sempre saber onde está tudo, sempre saber qual o problema de tudo, sempre saber resolver imediatamente qualquer complicação ou consertar qualquer coisa, sempre ler tudo muito rápido, sempre ter de fazer as mesmas coisas e fazê-las em instantes. Era triste viver assim. Por mais que amasse Lira e Melany, sou forçado a admitir que aquilo não era perfeito para mim. Eu precisava de algo difícil para fazer, algo que me fizesse exercitar meu corpo e minha mente.

Por esse motivo comecei a trabalhar na madeireira, era como uma brincadeira para passar o tempo. Cortar árvores com um machado ou uma serra-elétrica, sendo que eu poderia simplesmente arrancá-la pela raiz com as mãos, era uma limitação que me fazia levar mais tempo que o necessário. Era divertido, como uma criança brincar de casinha. Detestei ter de admitir, mas talvez esse sentimento de que eu precisava de emoção e adrenalina na minha vida influenciou o fato de eu ter aceitado ajudar Lorence na sua missão, e o pior é que Lira certamente percebeu. Talvez ela se sentisse da mesma forma, brincando de casinha comigo. Ela não era a mesma garota de anos atrás, frágil e indefesa como uma menininha, e me lamento todos os dias por ela não ser.

Balancei minha cabeça para afastar os pensamentos e abri a tampa do compartimento escondido na parede de madeira. Eu construí o porão com concreto, mas cobri as paredes com madeira por pura estética e envernizei tudo. Do compartimento eu tirei uma pistola e três pentes de munição, além da minha espada, que me foi entregue por Sophia tantos anos atrás. Eu a empunhei e a desembainhei o suficiente para ver que não tinha perdido nenhum pouco o fio. Realmente aquela era uma espada bem trabalhada e feita de um bom material. Recolhi tudo e voltei para a sala de estar, imaginando as memórias que aquela espada me trazia. Pelo visto até alguém como eu poderia sentir saudades de uma amiga, mesmo essa amiga sendo Sophia.

* * *

Lorence Marley

 

            Chegamos de volta na cabana com uma escolta de vinte homens fortemente armados por volta das 7:30 da manhã. O Comboio veio com dois caminhões, um jipe e um veículo de transporte. Eu tinha imaginado que ele estava blefando quanto a ir, que teria desaparecido quando voltássemos, mas ainda estava lá. Os soldados que nos acompanhavam dessa vez formaram uma linha de defesa frente aos veículos, apontando fuzis para a cabana. Eu fui severamente contra aquilo, mas os superiores não me deram ouvidos. Ele estava sendo tratado como um prisioneiro sendo caçado, mas o fato é que ele não seria capturado se não quisesse.

Me dirigi sozinho até a cabana enquanto meu esquadrão e os soldados ficaram uns 15 metros atrás, supostamente dando cobertura contra um possível ato agressivo de Oliver. Realmente odeio quando os superiores tomam essas atitudes ignorando completamente o que nós, os homens que realmente conhecem a situação da missão por estarmos em campo, dizemos que não precisaríamos de tanto. Toda a comunicação e tudo mais que fizemos depois de entrar em contato com o AT15 seria estaria perdido se alguns desses idiotas armados puxasse o gatinho enquanto tremesse de medo quando o visse.

Bati na porta da cabana, tanto como forma de mostrar a todos que ele respondia bem a métodos civilizados e que não era a besta selvagem que todos imaginavam quanto para descontrair o clima tenso. Oliver, não me surpreendendo nenhum pouco, gritou lá de dentro.

- Quem é? Se for algum vendedor, não estou interessado em nada.

Abri a porta e vi ele sentado em uma poltrona. Ele estava limpando as partes desmontadas de uma pistola, depois a montou e começou a polir uma aspada, uma kanata parecida com a que Kazumi usava. Rita estava sentada ao lado da garota, que tinha a menina no colo e penteava o cabelo dela.

- A escolta está aqui – Eu disse, sem saber ao certo o que deveria ter dito.

Ele embainhou a espada e se levantou. Colocou a espada na cintura do lado esquerdo e a pistola em um coldre no lado direito. Abaixou para pegar algo e levantou com duas malas, uma em cada mão.

- Seu equipamento? – Perguntei, curioso.

- Não exatamente. Alguns suprimentos, nada com o que deva se preocupar.

- Cinco minutos para partir. Rita, venha, queremos o seu relatório.

Foi algo um pouco estranho. Oliver pareceu não se importar muito quando saiu e viu dezenas de homens apontando armas para ele. Ele apenas suspirou em desânimo, deixou as duas malas no chão e levantou as mãos, dizendo:

- Estou rendido, podem abaixar isso agora? Tenho mulher e filha em casa, gostaria que fossem um pouco mais civilizados que isso, senhores.

Um homem deu alguns passos à frente e levantou o punho.

- Descansar – Disse, e todos abaixaram as armas.

- Obrigado – Disse Oliver, abaixando as mãos, mas com um claro sarcasmo na voz.

- Eu sou o oficial Thomas Wilkinson, estou no comando dessa operação – Disse o comandante, andando até ele. – Contamos com a sua colaboração para o bem do país.

Os dois se encararam por um tempo, sem dizer nada. Estava claro que já se odiavam. Não por um conhecer o outro, mas pelo que eram. O comandante Wilkinson foi o responsável pela operação de retomada do centro de pesquisas onde o AT15 foi criado, ele esperava que o esquadrão águia conseguisse cumprir a missão, mas apenas o capitão do esquadrão retornou. Wilkinson se sentiu responsável pelo que houve e não ficou nenhum pouco feliz com o relatório de James Marques sobre um suposto AT16 que dizimou os seus homens. O comandante, é claro, nutriu um ódio por essa nova espécie, e trabalhar em conjunto com um deles estava longe de ser algo agradável, mesmo sabendo que é claramente melhor ter um titã ao seu lado do que contra você.

Da cabana, então, saiu Lira, guiando a pequena Melany pela mão. A menina parecia assustada, e sua mãe adotiva buscava confortá-la. Wilkinson olhou para ela e deu um passo à frente, mas Oliver se colocou no caminho e balançou a cabeça em protesto. Os soldados pouco distantes começaram a ficar agitados, quase levantando as armas novamente, mas temiam começar um conflito desnecessário. Foi então que ele desceu do veículo de transporte, o único ali que Oliver realmente conhecia, e que talvez confiasse, pelo menos mais do que confiava no resto de nós.

- Comandante – Disse ele. – Se não se importa, eu assumo daqui.

- Claro, ele é todo seu – Retrucou o comandante, depois saiu bufando a passos largos até um dos caminhões. – Homens, aos veículos. Estamos partindo.

Todos começaram a voltar para os veículos e se preparar para partir, deixando apenas Oliver, sua família, eu e ele em frente a cabana.

- James? – Disse Lira. – É você mesmo?

- O próprio – Disse ele. – Já faz um tempo, mas acho que meu rosto não envelheceu tanto assim.

Lira sorriu e deu alguns passos até ele, abraçando-o. Depois Oliver apertou sua mão e disse:

- É um prazer revê-lo. Não imaginava que você fosse vir aqui.

- De quem você acha que foi a ideia de recrutar você para a operação? Assim que Landay foi interrogado e nos informou da situação, sugeri uma abordagem mais segura, e isso quer dizer recrutar a pessoa mais capacitada para isso.

- Devo dizer que estou surpreso.

- Espero que apenas surpreso, e não irritado. Tive que relatar tudo que aconteceu naquele dia há quatro anos para que eles me dessem ouvidos.

            - O único a ser prejudicado com isso é você. Quais foram as consequências?

            - Fui rebaixado, interrogado e julgado por ocultar informações valiosas. Fui considerado traidor e desertor pelo fato de ter hesitado em atirar em você pelo que aconteceu com meu esquadrão, e principalmente por ter deixado você partir e ter auxiliado você em se manter escondido tanto tempo. Se fossem outras circunstâncias, eu teria sido preso e condenado a apodrecer em uma cela pelo resto da vida.

            - Então culparam você por tudo, depois que você disse a verdade. Imagino que me encontrar teve alguma coisa a ver com você.

            - Infelizmente sim, e desculpe por isso. Precisávamos te encontrar rapidamente, então eu acabei revelando sobre as certidões de nascimento e os exames médicos falsos sobre você. Triangulamos sua localização e, depois que tomamos conhecimento de alguns acontecimentos estranho nas proximidades de sandity e do caso do garoto Baker, pudemos ter uma rota para procurar melhor.

            - Cheguei a pensar que você poderia estar envolvido nisso, mas não acreditei que fosse verdade.

            E então os dois se encararam, Oliver com um pouco de irritação e James com um misto de emoções que não pude decifrar. Quando o ex-capitão James Marques olhou para a menina, que estava um pouco assustada e se escondia atrás de Lira, seu rosto passou para um sorriso simpático.

            - E quem é essa gracinha aqui? – Disse, abaixando para ficar a altura dela.

            - Melany – Disse Oliver. – É minha filha.

            James não pareceu surpreso, muito pelo contrário, parecia saber de algo sobre ela, tanto que seu rosto ficou sombrio e sério com um pouco de tristeza.

            - Então é ela? – Perguntou. – É essa a menina?

            - Sim. Comentou sobre isso também?

            James se levantou e o olhou sério.

            - Sinto muito por ter feito o que fiz. De verdade. Mas não se esqueça do que fiz por você também. Eu perdi meus homens por sua causa, perdi minha posição do comandante e estou perdendo minha liberdade. Sem falar, é claro, que quase perdi minha vida, literalmente.

            Um silêncio nos cercou, e resolvi que era hora de interferir.

            - Chega desse reencontro amistoso e amoroso de vocês. Temos que ir.

            Oliver me olhou com o canto do olho, depois pegou as malas do chão e caminhou até o veículo de transporte, sendo acompanhado por Lira e Melany. James não se importou com a minha presença e se dirigiu também até o caminhão de transporte. Por ser o único que já teve alguma ligação com ele, James foi responsabilizado por acompanhá-lo no transporte.

            Voltei para o jipe que transportava meu esquadrão e me reuni com os membros da minha equipe. Então partimos. Jeremy estava dirigindo enquanto nós quatro ficamos na parte de trás do jipe durante a viagem. Tínhamos um longo caminho até o centro de operações de onde partiríamos para a ilha, e ainda tínhamos mais alguns preparativos antes de partir de lá. Se tudo ocorresse bem, a operação começaria em quatro dias. Olhei para o veículo de transporte, um carro-forte, blindado, resistente o bastante para segurar um disparo de lança-foguetes. Eu não esperava menos que isso, a carga que ele transportava era de fato muito importante. Deixei o pensamento de lado e me virei para Rita, que não vestia seu uniforme, mas roupas casuais. Ela pareceu notar meu olhar e disse:

            - Ontem Oliver preparou um banho quente e me deu essas roupas para que eu não precisasse ficar naquele uniforme sujo durante a noite.

            - Então a infiltração está ocorrendo bem?

            - Diria que sim. Ele não parece confiar em mim, mas também não parece se preocupar, também. Brinquei com a filha dele por um tempo sem que ele falasse nada, deve achar que eu vejo a imagem da minha filha na menina.

            - Então está tudo saindo como o planejado.

            - Afirmativo. Consegui informações da garota, uma possível fraqueza do AT15, mas nada que possamos explorar bem. A regeneração dele não teve muitas alterações com o passar dos anos, mas ele não se alimenta verdadeiramente a talvez quatro anos. Ele está de certa forma envelhecendo, ficando mais vulnerável, mas as chances de ser abatido não aumentaram significativamente. Por outro lado, se for bastante ferido, sua regeneração vai se degastar cada vez mais, como uma erosão de uma pedra que é molhada e aquecida. Desde que não se alimente de humanos, sua regeneração não vai voltar a 100%.

            - Então ele vai ficar mais e mais fraco conforme for gravemente ferido. Algo mais a informar?

            - Sim, Senhor. Ele... não sei bem explicar o porquê, mas ele descarregou um pente de uma arma no próprio peito ontem à noite.

            - Ele deixou que você visse?

            - Ele me levou para ver. Não sei que queria mostrar que não podemos feri-lo de verdade ou se só queria me deixar assustada, mas se me perguntasse eu diria que ele está “cortando os pulsos”. Se cada vez que ele se fere a regeneração dele diminui, não há motivos para ele se ferir assim sem razão.

            - Então acha que ele está tentando se matar?

            - Eu diria que acho que ele está se mantendo fraco, mas não consigo achar uma razão para isso, já que ele tem pessoas que precisa proteger.

            - Entendo. Conseguiu descobrir de que ele está se alimentando?

            Rita pensou um pouco, abriu a boca e a fechou, depois hesitou novamente antes de responder.

            - Não sei ao certo. Estou tentando formular algumas hipóteses, mas não vi nada suspeito ainda.

            - Está tudo bem. Você fez um bom trabalho.

            Não conversamos mais nada em relação a isso o caminho todo e poucas palavras foram trocadas em relação ao que faríamos quando chegássemos à base de operações. O caminho foi longo e cansativo, atravessamos quilômetros a fio, evitando grandes centros urbanos e povoados no caminho, mas pouco preocupados com sermos vistos, já que o veículo de transporte poderia ser facilmente confundido com um carro-forte que transportava dinheiro. A viagem inteira durou pouco mais de cinco horas, mas não fizemos nenhuma parada pelo caminho. Pretendíamos iniciar as atividades necessárias antes de ir para a ilha o quanto antes. O tempo era algo que nos preocupava muito já que não tínhamos a menor ideia de quando o inimigo iria fazer qualquer movimento. Mesmo que o plano mestre ainda não estivesse pronto para ser executado, não descartávamos a hipótese de nossos inimigos avançassem para o continente a procura de Landay ou de qualquer reforço que ele poderia ter conseguido. A nossa única vantagem é que eles provavelmente não esperassem que ele se aliasse com o próprio governo de Mirela e armasse um ataque de tão grande porte.

            O centro de operações estava a quase cerca de 63Km do litoral e era propriedade do governo, então não havia pessoas em um raio de 40Km, distante o bastante para que o lugar fosse praticamente impossível de encontrar. A desculpa para isso era de que aquela região era uma área de preservação ambiental, mas no centro daquela área estava a base do centro de operações usado para treinamento de soldados para o combate contra não-humanos. Muitos discordaram da ideia de um centro de treinamento para capacitar centenas de soldados ao combate contra indivíduos criados geneticamente, já que supostamente apenas três deles ainda existiam na época, Oliver Gome, Samuel Landay e Kazuki Lira, e essa última era marcada como uma não ameaça.

James Marques tinha relatado um confronto com um indivíduo dessa espécie uma vez, a Fantasma da Organização, e foi daí que surgiu a ideia desse centro de treinamento. James também relatou a morte de Fantasma quando foi enviado para a retomada do centro de pesquisas quatro anos antes, mas ainda assim alguns indícios de que Fantasma ainda estava viva foram discutidos, e como o relato de James era incerto por não confirmar o exato momento da morte dela, o consenso foi de que o centro de treinamento era necessário para combater essa e outras possíveis ameaças do gênero.

A ideia do centro de treinamento originou um órgão governamental que visava combater ameaças não-humanas, e foi esse órgão que reuniu todos os soldados, aliados e inimigos capturados, que já tiveram contato direto com algum desses não-humanos, o que eram poucas pessoas, mas que relatariam tudo que viram em campo, e assim algumas táticas de combate foram criadas para equilibrar os conflitos contra qualquer não-humano vivo ou futuro. O órgão foi batizado de ZEUS, em referência a mitologia grega, onde Zeus e seus irmãos subjugaram os titãs na titanomaquia, a grande guerra entre os titãs e os deuses. O ZEUS havia desenvolvido um treinamento para combater ameaças não-humanas, mas não havia tal ameaça até então a ser combatida. Entretanto, esses homens ficaram conhecidos como a elite da elite. Quando você está apto para combater monstros, a temer apenas os monstros, meros terroristas e grupos criminosos não eram tão aterrorizantes. Em quatro anos o ZEUS se tornou um importante grupo de combatentes armados para emergências, como uma espécie de S.W.A.T, e somente por isso conseguiu valer a pena a verba necessária para continuar existindo.

Eu estava particularmente interessado no que poderia acontecer daquele momento em diante. A maioria esmagadora daqueles homens nunca tinham visto com os próprios olhos o que um não-humano poderia fazer. Eu estava curioso para saber como eles reagiriam ao treinamento que viria a seguir, agora que tínhamos um verdadeiro não-humano para mostrar-lhes.

 


Notas Finais


Um pequeno spoiler: haverá uma breve luta entre Oliver e muitos dos homens do ZEUS no próximo capítulo.


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