História Aos Poetas Decadentes - Capítulo 2


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Amizade, Inglaterra, Nazismo, Segunda Guerra Mundial
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Famí­lia, Ficção, LGBT, Mistério, Poesias, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - Ora (direis) ouvir estrelas! Certo...


Oliver sorriu ai ver o pai caminhando pela rua de paralelepípedos da janela de sua casa, satisfeito pelo fato de Anton ter voltado em segurança para a casa. Não que ele estivesse com medo da guerra, mas estava com medo do que as pessoas poderiam fazer para um alemão em meio àquela guerra.

Claro que Oliver entendia o medo dos ingleses, mas isso não fazia com que sua preocupação pelo pai acalmasse, nem mesmo um pouco. A guerra havia começado há um mês e naquele dia especificamente, a memória da Alemanha era particularmente difícil para Anton e para ele mesmo, mas o pai não pôde sair mais cedo do trabalho para ficar com o filho, principalmente porque o chefe de seu pai, o terrível senhor Kurtz, como Oliver gostava de chamá-lo em segredo, não deixara.

Em geral, aquele dia havia sido bom, o que era um tanto surpreendente. Oliver tinha ido à escola e se divertido com os amigos, ainda que as lembranças estivessem cutucando-o o tempo todo e fosse difícil respirar em alguns momentos. Era por isso que a visão de seu pai entrando pela porta são e salvo era um alívio tão grande para Oliver: ele não sabia se podia passar por aquele dia sem a ajuda de Anton.

Assim que ouviu o barulho da chave na porta, Oliver saiu de sua cama correndo e desceu as escadas em direção ao átrio. Anton havia apenas colocado as chaves na pequena mesa de canto ao lado da porta quando o garoto atingiu o último degrau e assim que seus olhos se encontraram, eles se encaram.

O pai parecia ter envelhecido muito mais que um ano desde que Liora, a mãe de Oliver, havia sido levada da casa deles na Noite de Cristal pelos oficiais da SS. Aquele dia, nove de novembro de 193, ficaria marcado para todo o sempre nas lembranças dos dois alemães que agora se encaravam. Anton tentava não transparecer desde então, mas Oliver sabia que o pai estava cansado até os ossos desde que fugiram da Alemanha para a Inglaterra.

Os cabelos loiros do homem mais velhos estavam grisalhos e os olhos tinham olheiras e pés de galinha. Anton andava cada vez mais curvado, cada vez mais tentando não se destacar dentro da sociedade inglesa, porque todos sabiam que tempos muito sombrios iriam vir sobre cada um dos seres que vivam sobre céus europeus.

— Vamos — disse Anton em seu sotaque alemão pronunciado no inglês, sem saudar o filho, mas estendendo a mão para ele com um brilho pesaroso e suave nos olhos verdes claros — eu vou fazer o jantar. Você dispensou a senhora Mason, não foi?

Oliver engoliu em seco e assentiu, deixando-se ser guiado pela mão do pai em suas costas, deixando-se perceber o quão trêmulas elas estavam antes de tudo aquilo. Anton não falou nada enquanto preparava torradas com geleia para o filho e ele, porque o mais velho não fazia ideia de como cozinhar. As vezes, Oliver achava aquilo uma besteira sem tamanho. Como alguém poderia deixar nas mãos de outra pessoa a função de se alimentar?

Em qualquer uma dos outros dias, ele teria irritado o pai com aquela provocação, mas não naquele dia. Nenhum dos dois saberia agir normalmente naquele dia por mais que tentassem, Oliver sabia disso muito bem. Tinham tentado há nove meses antes no aniversário de sua mãe e há quatro meses, no aniversário de Hadrian. Não fora uma boa ideia em nenhum dos dois dias.

Por isso, nenhum dos dois falou nada enquanto comiam encarando a toalha xadrez branca e vermelha que normalmente usavam em passeios para o interior do país quando seu pai precisava viajar à trabalho. Oliver tinha lembranças muito doces com pai e por isso ele era grato a Anton. Ele era um pai maravilhoso, sempre fora, Oliver apenas não teve a capacidade de perceber aquilo antes de perderem sua mãe.

Quando o garoto se levantou após ter terminado, consciente de que cada ação sua era observada pelo pai, Anton protestou com o tom de voz calmo e muito cansado. Ele havia adquirido aquela voz depois que os soldados alemães levaram sua mãe, algo muito mais fraco que seus tons graves de antes, a voz que sua mãe amava ouvir ecoar pela casa em suas músicas sem fim.

— Oliver — disse ele — sente-se, eu quero conversar com você sobre um assunto.

Lentamente, o garoto se sentir, sentindo as costas enrijecendo de tensão enquanto o pai passava a mão pelo rosto com um suspiro cheio de cansaço. Aquilo fez com que o coração de Oliver errasse uma batida, dolorido pela dor do pai e ele quis mais do que tudo avançar e abraçar Anton, mas algo na expressão do pai avisava a ele que não o fizesse.

— Que assunto, pai? — perguntou com cautela, ainda mais preocupado do que antes quando Anton fitou-o com os olhos mais brilhantes do que antes.

— Você se lembra que o senhor Kurtz e eu trabalhamos para um senhor escocês chamado Elijah Wood, certo? — perguntou Anton e Oliver apenas assentiu, franzindo a testa com certa suspeita, sabendo onde aquilo daria. Anton já tentara conversar com ele sobre o assunto, mas achou que o pai havia se dado por vencido depois que passaram pelo menos uma hora discutindo sobre o assunto — o senhor Wood permitiu que você ficasse na propriedade na Escócia durante a guerra.

Por um momento, os dois se encararam, os olhos completamente idênticos exceto no que mostravam. Oliver estava completamente furioso do pai sequer considerar que ele iria embora e o deixaria sozinho no meio de uma maldita guerra sendo que ali, eles eram os inimigos. Anton, por outro lado, decidira que o filho iria nem que tivesse de obriga-lo a entrar naquele trem, a necessidade veemente de que Oliver permanecesse em segurança era o que o movia dia e noite e não seria naquele momento que iria desistir de proteger o filho.

— Você não pode estar falando sério — disse Oliver assim que processou a informação que seu pai lhe passara — eu disse que não queria ir!

— Não se trata do que você quer, se trata da sua segurança, Oliver — rebateu Anton sem elevar a voz, o tom ainda calmo como uma noite sem brisa — nós estamos falando de um guerra em que Londres vai ser uma das principais afetadas.

— Eu não vou — decretou Oliver, fechando a cara — você vai estar aqui, pai, você é minha família.

— E eu não vou deixar de ser — Anton disse com certa doçura — mas preciso que você fique em segurança, Oli, você sabe que eu preciso que você fique em segurança.

— Não use a mamãe e o Hadrian contra mim — o tom de voz cortante de Oliver fez com que o mais velho se encolhesse em sua cadeira, curvando-se ainda mais e o garoto odiou aquilo, odiou que o pai achasse que precisava se esconder — você sabe muito bem que nossa família ficaria unida se dependesse dela.

— E olha o que aconteceu, Oliver! — exclamou Anton e, apesar do desespero em sua voz, tudo o que o garoto pôde fazer foi se ressentir, porque ele realmente estava tentando usar a mãe para fazê-lo mudar de ideia — você vai e eu não vou discutir sobre isso com você. Eu... não posso permitir que você continue aqui.

— Você preferia que eu tivesse sido levado há um ano atrás — Oliver disse sem olhar para o pai e mesmo que não estivessem gritando, aquilo parecia uma discussão tão horrível que ele mal conseguia conter o choro — é por isso que quer se livrar de mim, não é? Para que eu não te lembre mais o que você perdeu.

— Oliver — sussurrou Anton ao ouvi-lo, mas sua voz falho e ele não disse mais nada, principalmente porque Oliver se levantou, arrastando a cadeira para trás e fazendo um rangido alto que ecoou no silêncio da casa, e saiu da cozinha apertada, deixando-o sozinho.

O garoto não pensou em nada antes de subiras escadas e entrar em seu quarto, batendo a porta com força, sentindo a raiva corando sua pele pálida e dando-lhe calor. Ele se jogou na cama, olhando para as estrelas pintadas em seu teto branco, encarando-as enquanto elas ficavam embaçadas com as lágrimas não derramadas e então voltavam ao foco quando as pequenas gotas de água desciam por sua pele em direção ao seu cabelo loiro.

Aquelas estrelas lembravam-no de sua mãe e, quando chegaram à Inglaterra, vê-las era como algum tipo de punição autoinflingida para compensar a culpa que Oliver carregava em seu coração, agora era apenas uma doce e dolorosa lembrança.

Liora Krause era a pessoa mais maravilhosa que poderia ter existido, pensava Oliver. A mãe era a face da vida, sempre animada, sempre disposta a arrastar os homens da família para um dança no meio da noite ou a dar um baile nas casas mais apertadas para os amigos íntimos da família, sempre disposta a ajudar senhoras na rua e a dar abrigo e comida para meninos necessitados mesmo que alguns deles sempre acabassem roubando-os de alguma maneira.

Ela também tinha um espírito de fogo e carregava palavras nas mãos como seu escudo e sua espada, pronta para defender quem amava e ser dura com quem precisava ouvir palavras duras. Talvez por isso e por suas duras críticas à Hitler e seu governo odioso ela fora marcada como uma das judias que deveriam ser capturadas naquela noite. Talvez tenha sido apenas aleatório. Oliver não sabia e provavelmente não chegaria um dia que ele descobriria.

Seu irmão, Hadrian, tinha apenas seis anos quando foi morto pelos oficiais nazistas. Oliver havia visto tudo. Ele vira quando o oficial apontou a arma para a cabeça de seu irmão e atirara, o sangue e os restos do cérebro se espalharam pelo pequeno apartamento que antes era a casa da família dele, na sala em que seus pais haviam dançado e cantado e brincado com ele e com Hadrian. Mesmo depois de um ano, Oliver ainda podia ouvir no silêncio o zumbido que o estouro da arma havia deixado em seu ouvido.

Oliver ouviu quando os passos arrastados de seu pai se aproximaram e pararam à porta do seu quarto. Hesitaram. Anton seguiu para a última porta do corredor, fechando a porta de seu quarto quietamente, tão quietamente que ele mal ouviu.

O que Oliver falara para o pai não poderia estar mais longe da verdade, ele sabia disso. E sabia que havia quebrado Anton ao acusa-lo tão falsamente, mas ele estava com tanta raiva que as palavras apenas escorregavam de sua língua, sem qualquer pensamento coerente. Ele sabia que aquilo não era desculpa, que quando se estava com raiva, a melhor medida a se fazer era se acalmar e pensar sobre o assunto quando se estava com calma, mas a perspectiva de deixar o pai sozinho lhe apavorava mais do que tudo.

Depois do que aconteceu naquela maldita noite, o pao de Oliver não sossegou até conseguir que seu melhor amigo, que estava na SS, conseguisse que eles fosse para território inglês. Ao chegarem à Inglaterra, Anton era apenas uma sombra do homem que ele fora um dia, nada parecido com o pai que Oliver se lembrava ou de quem ele precisava.

Aqueles primeiros meses foram tão difíceis que ele às vezes nem tinha vontade de sair da cama, sabendo que o dia encontraria formas de fazer com que ele se desfizesse em lágrimas diante da lembrança da mãe. Oliver mal conseguira respirar naqueles tempo e hoje, eles eram um borrão distorcido em sua mente, tão distantes que pareciam ter acontecido há anos, mas ainda doíam como se tivesse acontecido há algumas horas.

Oliver não queria dormir. Ele não podia dormir, não ainda, não quando sabia que havia magoado o pai, não quando sabia que os pesadelos atormentariam-no durante seu sono, irremediáveis e aterrorizantes. Quando o relógio bateu as dez horas, ele rolou para o lado, pegando o livro que mantinha em seu criado mudo e abriu na página que mais amava.

A folha estava gasta e amarela, e formava orelhas nos cantos, mas Oliver passou os dedos de leve pelas palavras escritas embaixo de um dos poemas que a mãe dele mais gostara na vida. Baixinho, ele o leu para tapar o zumbido de seu ouvido esquerdo:

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.

Oliver, então, leu o que estava escrito abaixo do poema de Olavo Bilac com atenção e sentindo o coração se retorcendo.

Eu ouço as estrelas porque amo o menino de risada doce e fácil e o garoto de sorriso fácil e lábios de Don Juan à quem dei a luz, e porque amo o homem que ainda faz com que todas as estrelas estejam em seus olhos.

Ele sabia que o pai estava chorando e sabia que deveria ir até o quarto dele e pedir desculpas pelo que havia dito, principalmente depois de ler as palavras de sua mãe. Ele sabia que estivera errado, sabia que tudo o que Liora faria em uma situação como aquela seria ficar com o marido e deixar os filhos em um lugar seguro. E sabia que seu pai não aguentaria perde-lo, sabia que era o único fio que mantinha seu pai ligado à vida.

Se arrastando, Oliver seguiu pelo corredor e não bateu antes de entrar, achando o pai chorando sob o retrato de Liora e Hadrian. Na foto, eles estão em uma viagem para o interior da Alemanha. Era verão, então não precisaram se preocupar com muitos casacos e roupas. Todos eles sorriam, se divertindo na grama e, se fechasse os olhos, Oliver ainda poderia ouvir o som das risadas do irmão e sentir os braços de sua mãe ao seu redor.

Naquele, no entanto, a figura triste e quebrada de seu pai chorando copiosamente lhe quebrou o coração e acabou fazendo com que ele percebesse o peso que suas palavras tiveram sobre Anton e que ele teria de lidar com as consequências daquilo.

Oliver se aproximou do pai rapidamente, tomando o retrato de suas mãos com gentileza e sentando na cama ao lado dele antes de falar qualquer coisa. Anton não o encarou quando disse com a voz rouca por causa do choro:

— Eu nunca, em momento algum, desejei que você tivesse o mesmo destino que sua mãe e seu irmão, Oliver.

— Eu sei — disse o garoto com um nó na garganta que doía e o impedia de falar tudo o que sentia — eu sei que não. Desculpe.

— Eu só quero que você fique em segurança — murmurou o pai e Oliver não pôde mais aguentar segurar as lágrimas. Ele também começou a chorar e abraçou seu pai com toda a força que conseguia, como se nunca fosse se deixar soltar. Oliver estava tão totalmente aterrorizado que ele não se importaria de dormir ao lado do pai naquele momento para que Anton o colocasse na cama como fazia quando ele era pequeno — mesmo que aquilo não fosse possível devido à idade dele.

— Eu estou com medo, pai — disse ele em um sussurro desesperado — eu não... acredito em nada do que eu te disse lá na cozinha, eu só... estou morrendo de medo de perder você também.

Anton não falou nada, nem prometeu uma só coisa. Eles sabiam que promessas não valiam de nada em uma guerra, sabiam que não era escolha de Anton morrer ou não. Em vez disso, ele disse:

— Você é um Krause, filho de Liora. Você carrega parte do fogo dela em si, Oliver, eu pude ver isso todos os dias da minha vida. Você vai conseguir, porque se havia alguém que conseguiria, era a sua mãe. E você é igualzinho a ela — aquelas palavras envolveram o coração de Oliver e o consolaram o suficiente para que a perspectiva de ir para a tal propriedade do chefe de seu pai não fosse tão completamente insuportável e, quando ele assentiu, consentindo a viagem, Anton falou — vamos para a cozinha, eu vou te fazer um chocolate quente.



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