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História Apenas um Robô - Capítulo 11


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Capítulo 11 - Capítulo 10 - A Queda - Parte Dois


Ativo a visão de calor e observo os homens empunharem as suas armas, todos procurando por algo, provavelmente pela minha cabeça.

Lanço um olhar de desespero para Freud, ele me dá um sorriso e rasteja rapidamente em direção a porta. Tudo acontece rápido demais, em questão de segundos Freud arremessa uma bomba composta de gás CS,meus olhos não queimam graças ao óculos, a porta abre e tiros são disparados. Vultos passam do meu lado rapidamente, arranco a pistola do coldre e disparo dardos nêuroestimulantes nos vultos mais escuros.

Ouço um gemido e algo chispa em meu membro inferior, atiro novamente e alguém me puxa pelo braço, piso em seu pé e ele nem se mexe, me suspendendo pelo braço miro em seu joelho sentindo seu aperto diminuir, aproveito o momento e deslizo pelo piso me afastando dele.

Acerto outro dardo em suas costas e o mesmo caí no chão, corro em direção ao telão e observo a névoa causada pela fumaça se dissipando. Sento na cadeira e aproximo o decodificador da entrada de leitor, começo a acessar as pastas e conecto com o aparelho em meu pulso, a transição de dados é iniciada. As imagens das câmeras começam a surgir nas minhas lentes, vejo um pelotão vindo em minha direção, acesso os mapas dos canais de ventilação e mapeio o caminho que tenho que fazer até um andar superior.

Agacho e sigo até a saída de ar, por ser um andar subterrâneo é maior que o comum, abro e me jogo lá dentro ouvindo novamente a voz do líder.

- Essa garota é um fantasma? Como ninguém consegue capturá-la? Atenção. Quem me trouxer ela vai subir de cargo. – um arrepio percorre a minha espinha.

- Viva ou morta Almirante?

- De qualquer modo.

Sigo lentamente rastejando pelo cubo metálico, o ar gélido acerta meu rosto e o sangue volta a percorrer as extremidades do meu corpo. Escalo o terceiro duto e tento conseguir algum sinal.

- Maya tive que me separar do Freud, você consegue localizá-lo?

- Como vocês se separaram? Isso não estava nos planos. A localização não está tão clara, vou enviar as suas lentes a localização, cuidado Lia.

Segundo o mapa essa passagem leva a um tipo de depósito, com uma destreza irreconhecível em mim, removo a placa e desço, acertando em cheio um montante de caixas e torcendo o pé.

Ótimo, era tudo que eu precisava agora.

Levanto de cima das duras caixas tentando apoiar o pé no chão, alcanço na perna uma anestesia, respiro fundo e aproximo o aplicador ao ponto dolorido, marcando minha pele com um pequeno círculo deixado pela injeção. A dor vai ficando cada vez mais tolerável.

- Amélia, pode me ouvir? – uma voz rouca surge em meus ouvidos.

- Freud? Onde você está?

- Sou eu menina, preciso dizer algo para você.

- Maya rastreei o sinal dele! Maya? – não ouço o retorno.

- Senhorita Evans, eu coloquei a Black Widow dentro daquela bolsa que joguei para você.

- Freud o que está dizendo? Pode me dizer onde você está? Está ferido? Consegue andar?

- Já estive melhor, senhorita.

Procuro no relógio a localização que Maya havia me enviado, não está tão longe daqui, se eu correr consigo alcançá-lo, tenho que alcançá-lo. Analiso o corredor vazio e saio em disparada a localização dele.

- Eu gostaria de agradecer, Amélia.

Paro quando vejo três pessoas se aproximando, não tenho tempo pra isso agora, preciso ir atrás do Freud. Empunho a arma, o brilho negro me encara de volta e tento contar com o fator surpresa. Sou apenas uma garota sem a mínima instrução de combate lutando contra agentes altamente treinados, essa surpresa tem que ser muito boa. Concentro-me em minha respiração e miro na entrada do corredor.

- Eu consegui contato com o exterior Amélia, enviei uma mensagem em código binário através da antena de comunicação, mas não conseguir o acesso aos núcleos, a sala fica...

- Ela está ali! – saio da minha distração com uma mulher vestida em trajes sociais apontando assustada para mim.

É, e lá se foi meu fator surpresa.

- Abaixa!

A pele em meu ombro é rasgada e uma fisgada atinge todo o meu braço, sem força para mirar certamente atiro e um rugido feminino soa alto. Começo a correr tentando inutilmente ignorar o latejar em meu membro superior, sons de tiros me perseguem e agradeço por não estar usando meus tênis escorregadios. Viro em um corredor e aplico as fitas elétricas nas paredes, continuo correndo na imensidão branca.

- Amélia...

- Poupe o seu fôlego Freud, já estou chegando.

Chego a frente de um longo "jardim" de inverno, procuro um ponto de entrada e vejo um do outro lado do vidro, caminho até lá e começo a procurar por ele. As plantas sintéticas percorrem todo o espaço, a mata densa cria um paredão verde, bloqueando a visão externa. Atravesso a cascata de folhas e vejo algo caído.

- Freud!

Sacudo seus ombros e seus olhos se abrem vagarosamente, uma mancha rubra escurece o tecido em seu abdômen, sua expressão possui um tom acinzentado.

- Não acredito que veio atrás de mim, menina boba. – sussurra enquanto um filete de sangue desce pelos seus lábios e tenta se acomodar no emaranhado de folhas.

- Vou te tirar daqui. – tento levantar, mas seu aperto em minha mão impede.

- Sabe que não vou sobreviver você é inteligente o suficiente pra isso. Apenas me ouça.

Agacho ao seu lado e tento, de alguma forma, estancar melhor o sangue.

- Eu gostaria de lhe agradecer. – diz pousando sua mão ensangüentada em meu braço. - Vejo em seu olhar um fogo que vi poucas vezes na minha vida. Você me fez acordar menina, eu estava dormindo, tentando conviver com as pessoas que tanto me torturaram. Seu pai era um bom homem Amélia, eu o conheci quando você ainda era muito pequena.

A notícia me pega desprevenida, não sabia da ligação dos dois, e ouvir sobre meu pai nesse momento fez com que as dores se dissipassem.

- Thomas foi meu colega num projeto, nos éramos jovens e por incrível que pareça eu ainda tinha alguma esperança de que essa merda toda pudesse funcionar. A pior parte não é a mentira Amélia, eles fazem testes com a população.

- Que testes Freud?

- A agência precisa ter o controle de todos, ao nascer cada cidadão recebe um microchip em seu pescoço, eles monitoram todas as nossas reações, nossos níveis de stress, de hormônios, como reagimos a situações adversas, tudo Amélia, eles sabem de tudo. Somos as perfeitas cobaias da sociedade "perfeita". Eles fazem testes sociais conosco, amigos, lugares para ir, tudo é planejado, todos tem a personalidade que devem ter.

- Precisamos acabar com isso, Freud.

- Você vai acabar com isso, menina. Você é a razão de tudo isso, seu pai não deixou todos aqueles dados para trás apenas por deixar e você sabe disso, ele escolheu você para cumprir o plano. Você é inteligente e forte Amélia, eu já estou velho, e nessas condições não sou capaz de fazer muita coisa – solta uma risada nasalada – No oitavo andar está localizada o comunicador dos núcleos, o caminho é perigoso Amélia, mas sei que você vai conseguir. Derrube o Equilíbrio, senhorita Evans. Amélia, o seu namorado...

Sua fala some e o frio toma conta de sua pele, afasto as minhas mãos manchadas com seu sangue, um cheiro metálico forte, entorpecente, invade as minhas narinas e por um lapso de tempo sinto a ânsia invadir a minha garganta. Poucas coisas na minha vida me assustam, não tenho medo de morrer, mas sim que as pessoas que eu amo morram, e a vida no cerne do seu humor mórbido sempre usa meu único medo contra mim...

Controlo a vontade de vomitar e retiro o excesso de sangue passando as mãos em minha blusa, deito o corpo do meu professor e fecho seus olhos numa despedida silenciosa, eles confiaram em mim, suas mortes não vão ter sido em vão, e ninguém mais que eu amo irá morrer.

- Maya, está me ouvindo?

- Lia! A conexão foi cortada, consegui burlar uma rede de dados e consegui esse canal de comunicação, mas não sei quanto tempo consigo manter ele aberto. Conseguiu achar o Freud?

- Ele foi morto, Maya. – revelo sem rodeios – Preciso que me envie todos os dados que tiver sobre a equipe de segurança e ative as bombas de C4 ao redor do prédio daqui a cinco minutos.

- Certo, cronometrado, cuidado Amélia.

Leio rapidamente as novas informações recebidas e caminho para fora com somente um pensamento: Eu tenho uma missão, e agora, nada vai me impedir de realizá-la.

{...}

- Lia, faltam dois minutos.

Recebo a mensagem da Maya e desligo o áudio do comunicador, um grupo de agentes caminha em minha direção, ativo o gatilho e lanço as bombas de CS, empunho a arma novamente e as balas escorregam pelo cano de carbono atravessando o concreto chumbado facilmente, com o auxílio da visão de calor acerto os joelhos deles. Em seguida saco a arma com dardos tranqüilizantes e escorrego pelo corredor, tendo visão do corredor ensangüentado e atiro em cada um dos quatro.

Ao levantar sinto meu maxilar sendo acertado e jogado para trás, os dentes em minha boca se chocam e uma tontura me golpeia momentaneamente.

- Clark. – o gosto de ferro invade a minha boca e cuspo no chão.

Ele pisa em meu pé recém machucado e a dor se alastra por todos os meus ligamentos, um urro de dor escapa entre meus lábios e tento contrair minha perna em resposta, mas o seu aperto aumenta.

- Como sabe o meu nome? – diz subindo em cima de mim e pressionando seu joelho em minha coxa, também machucada.

- Digamos que o seu parceiro não fala muito baixo. – respondo entre dente, seu peso agora é colocado inteiramente em meu baixo ventre.

Gotículas de suor escorrem pelo seu rosto atingindo o meu, movo a visão para suas mãos ao redor dos meus braços, o contato escorregadio faz com que sua pegada seja desleixada, aproveito a situação para tentar me livrar de seu agarro.

- Você gosta de ser engraçadinha não é mesmo? Vamos ver se vai conseguir rir com a cabeça estourada pelo chão. – diz se erguendo e pegando a arma em sua cintura.

Com a arma em minha testa consigo arrancá-la de suas mãos e a arremesso pelo piso liso, fazendo a encostar-se a um dos corpos dos agentes caídos ao chão. Ele desfere um soco em meu rosto e o mundo fica turvo mais uma vez. Em meio à tontura alcanço um dos dardos nêuroestimulantes para recarregar a arma e o enfio em sua virilha, empurro-o e levanto cambaleando, busco o máximo de apoio que consigo nas paredes alvas.

- A cobaia está no ninho, a caminho do...

Atiro sem mirar e acerto em cheio seu abdômen com um dos dardos soníferos e continuo meu caminho sem olhar para trás. O estrondo faz tudo ao meu redor estremecer em seguida, as bombas implantadas para alguma emergência explodem ao mesmo tempo, uma sirene alta começa a tocar e apresso os passos em direção a sala de comunicação. Entro em um elevador de carga, aproximo o rosto do leitor e o painel exibe os números em ordem crescente, levando-me ao oitavo andar.

Vejo meu rosto pelo espelho, não me reconheço... Manchas rochas estão distribuídas pela minha bochecha, o ombro da camisa está rasgado, meus cabelos presos no topo da minha cabeça escorrem pelo meu pescoço e minhas mãos estão manchadas, mesmo que eu limpe, parece que nunca irá sair da minha pele.

As portas se abrem e todo o andar parece estar vazio, um corredor escuro leva a um extenso cômodo, no canto direito uma cortina separava o local em três partes. Puxo a cortina e a cena corta minha respiração por alguns segundos, o Robert estava deitado em uma maca, o lado esquerdo do seu rosto exibia uma estrutura metálica, o seu busto e o braço esquerdo estavam cobertos por um metal negro.

Meus dedos passeiam por sua pele, sua expressão serena funciona como um magnetismo, me atraindo em sua direção, afasto os fios de seu rosto e por um segundo posso jurar ver seu peito se movimentando.

- Não pensei que você iria me dar tanto trabalho, mas devo admitir que é bemcriativa.

Olho por cima do ombro mirando fios de cabelo ruivos e aquele olhar azul fumegante.

- Victoria Treaddell, que honra encontrá-la, veio pessoalmente me ver destruindo sua sociedade de mentira.

- Vamos ver quem vai destruir quem, criança. Acorde! – fala em tom de ordem e Robert levanta – Enquanto você se ocupava plantando bombinhas ao redor da minha sede, eu brinquei um pouco com o seu robô, espero que não se importe.

Seus olhos verdes se abrem e me encaram com certa desconfiança, seu olhar vazio abala algo dentro de mim.

- Pessoa não autorizada, permissão para eliminar invasora, senhora Treaddell. – sua voz em um tom mais grave e indiferente causa arrepios em toda extensão do meu corpo.

- Permissão autorizada, depois leve o corpo dela e se desfaça juntamente com o do seu professorzinho.

A menção ao Freud me desperta e parto para cima dela. Minha cintura é puxada com força e sou arremessada ao canto da sala, a pele sendo arrastada pelo piso soa como um chiado. Minhas costelas atingem o concreto com brusquidão, o ar escapa e não consigo inspirar, o colete agora totalmente visível é a minha única proteção.

- Robert não! – peço e ele desfere com veracidade um chute em minha barriga, rolo e fico apoiada em meus joelhos a exaustão começa a tomar conta dos meus ossos.

Entretanto algo me diz que ele ainda está ai dentro, seu olhar antes de me acertar vacila por milésimos, e eu sei que ele está dentro dessa carapaça.

- Robert sou eu, Amélia.- digo com dificuldade.

- Não adianta tentar apelar, todas as defesas possíveis foram colocadas para ele nunca mais voltar a ser o que ele era. Agora espero realmente que mais ninguém que partilha do seu sangue resolva se rebelar, chega de problemas trazidos pelos Evans.

Ela sai pela porta com um sorriso vitorioso em seu semblante, o barulho do seu salto batendo contra o chão é seu último rastro. Meus cabelos são puxados com vontade, sua mão encaixa em meu pescoço e seu aperto começa a aumentar.

- Você não quer fazer isso Robert, sou eu, uma humana exótica.

Sua pupila diminui e sinto sua mão relaxar um pouco, paro para admirar sua nova estrutura, a densa cobertura de carbono e ligas metálicas perfeitamente polidas, provavelmente feitas de titânio e prata negra, sua expressão confusa some aos poucos, voltando à indiferença. Então um estalo surge em minha mente, corro os dedos pela sua nuca encontrando o local de pressão, o leitor digital ficava escondido quando o Robert queria, notei que ele fazia isso por vontade própria, mas resolvi ignorar na época.

Quando consigo revelar o leitor lágrimas quentes escorrem pelas minhas bochechas, um tipo diferente de cansaço me atinge, meus pés não tocam mais o chão e posso sentir o sangue parando de circular pelas minhas artérias. Logo todos os pontos que antes latejavam parecem entorpecer, toda a dor começa a sumir, a agonia, a morte do meu pai, a traição da minha mãe, o meu irmão, o Matthew, a Maya, o Freud...

- Robert... - digo com dificuldade e abro os olhos levemente, seus orbes verdes me encaram de volta num vazio sufocante – Não é sua culpa, você é apenas um robô idiota. 


Notas Finais


Próximo capítulo: 21/05 ( quinta - feira )


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