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História Apenas uma virada no destino - Capítulo 10


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Notas do Autor


Oláááá!
Então, vcs irão ver ao longo do capítulo que haverá um grande número de explicações que podem ser um tanto confusas. Mas não se preocupem, no próximo, ficará mais claro.

Divirtam-se e comentem o que acharam!

Capítulo 10 - Nono capítulo


"Diário,

Assim, meu querido, não estou conseguindo controlar direito os meus poderes. Eu fico um tantinho nervosa, e algumas coisas saem voando do nada.

Não é como se eu pudesse mandar a gravidade agir mais, né? Ela não funciooooona.

Não exagere, minha cara. Não está incontrolável.

Está sim, senhor, meu amigo.

São apenas alguns centímetros do chão, e foram apenas duas vezes. Ninguém viu, Melanie.

AH! E justo você que me enche a porra do saco para esconder minha identidade a todo custo, está me mandando relaxaaaar, mesmo as coisas flutuando quando estou nervosa? Eu tenho 16 anos, diário, você acha que as coisas não vão piorar???

Acredito que deva treinar mais, Melanie. Você disse que fez 16 anos, mas não me parece mais responsável com as coisas.

Eu faço o que eu posso. Quando tenho tempo, sempre estudo minhas habilidades e tento melhorá-las.

Há 2 meses que você não tem tempo. Aliás, já descobriu porque, ultimamente, toda vez que você "acha" alguma coisa, ela acontece?

Eu não sei. Mas olha, eu sei porque eu consigo ver um pouco do futuro e consigo ver o passado!

Hm, esta você não havia mencionado a mim ainda. Diga-me, por favor, aprendiz.

Hahaha, tá, viu. Ok, acontece o seguinte, a vida é um livro com milhões e milhões de páginas. Eu tenho acesso a todas elas. Mas a partir da página em que me encontro, o presente, só consigo uma prévia das próximas.

E?

E o quê? Isso explica tudo, meu filho.

Mesmo?

E não explica? Muito se diz, aliás, que o destino garante que tudo vai acontecer do jeito que é para acontecer. O que signifiiiica, que não importa o que faça, o destino já determinou aquilo. Portanto, tudo é programado para funcionar do jeito que ele quer.

O destino?

Sim.

Claro. Ah, Melanie, há muito que aprender.

Nada! Eu acho, inclusive, que eu consigo meio que "adivinhar" as coisas porque eu tenho prévia das páginas seguintes.

Mas por que só agora você consegue "adivinhar" as coisas?

Porque eu estou ficando mais poderosa? Daqui a pouco vou poder ver o mundo daqui a 200 anos? HÃÃÃM???

Não.

Não para qual pergunta?

Sua energia, de fato, está ficando mais forte, por isso objetos flutuando, porém, Melanie, você não irá ver isso tão cedo.

Mas eu vou ver, certo? Eu consigo acessar o futuro e o passado de qualquer um, porque não o futuro do mundo inteiro?

Você é muito nova...
Cuidado, sua mãe está vindo."

Melanie imediatamente fechou o diário e se jogou na cama, deitando de lado, fingindo que estava dormindo.

Antes de fechar o olho, viu seu creme hidratante, em cima do criado mudo, levantar um pouco no ar e ficar parado acima do lugar em que se encontrava. Aquilo a deixou levemente nervosa, então esticou o braço para abaixá-lo, mas parecia que o creme fazia força contra ela. Ela se levantou um pouco, tentando fazê-lo parar, mas, no processo, o seu abajur também começou a flutuar e Melanie sentiu o pânico lhe atingir, ouvindo a voz de sua mãe a cerca da porta.

Quando Allison adentrou o quarto, os objetos foram ao chão abruptamente e o abajur se quebrou enquanto Melanie arregalava os olhos.

_Filha, ainda está acordada? - Allison arregalou os olhos, acendeu a luz, e foi apanhar o abajur quebrado, depois que Melanie se pendurou para pegar o creme.

_Eu achei que tinha ouvido meu celular tocar, daí, derrubei tudo. AH, ele tá ali! - Melanie riu sem graça apontando para o celular na sua penteadeira.

_Ah. - Allison riu juntando as partes do abajur - Puxa vida. Esse foi para o saco.

_É... - Melanie se sentiu um pouco culpada.

_Eu estava esperando que você estivesse acordada, filha. - Allison deixou os restos do objeto na poltrona perto da cama da menina e se sentou à beira do corpo de Melanie - Você parecia preocupada quando me pediu para conversar. Acabou que eu não tive tempo. O que era?

_Ah... - Melanie se sentou na cama desajeitadamente. - Me disseram que eu sou muito intensa com as coisas, que sinto muitas emoções, e eu sentia que era uma coisa ruim, porque sobrecarrega os outros. Como você também é um pouco como eu, eu queria saber como você faz para controlar seus sentimentos.

_Quem te disse isso? - Allison perguntou curiosa.

_Ah, a Jay. Eu acho que estou com muitas responsabilidades, não sei como fazer para equilibrar as coisas, mãe. - ela reclamou revirando os olhos. - Sabe quando o Scott brigou comigo no... ano passado? - disse ela tentando se lembrar.

_Quando ele disse que você era dramática e egocêntrica. - Allison se lembra bem daquele dia, pois nunca pôde perdoar o garoto por dizer isso de sua filha. Teve que buscá-la no colégio; nunca a vira chorar tanto. Pelo menos aquilo tudo serviu como ajuda na comunicação das duas, que melhorara muito desde então.

Porém, a amizade dos dois nunca se recuperou daquela confusão. Eles não passavam de conhecidos agora.

_Pois é, por isso eu não sei o que fazer. Não é a primeira vez que alguém me diz isso. E tipo assim, o Hudson costuma dizer que eu sou tão emotiva que deixa ele sentimental também. Eu não quero prejudicar meu namorado ou meus amigos com todo meu exagero.

_Olha, Melanie, se Jay tiver dito isso como ofensa, você não deve mais sair com ela. - Allison recomendou séria - Porque as pessoas devem respeitar a maneira como você lida com as coisas, minha filha. Acima de tudo, os amigos verdadeiros, te aceitam e te amam do jeito que você é, e mesmo que hajam defeitos seus que machucam outras pessoas, elas não te condenam por isso, te ajudam a melhorar. - Allison pegou a mão da filha e apertou - Sabe porque eu falo isso? Porque foi isso que a Sky foi para mim, foi isso que seu pai foi para mim, foi isso que o Pether foi para mim. Mesmo quando eu era uma vadia, que só sabia machucar os outros, mesmo quando eu escondi a gravidez da minha melhor amiga, ela não deixou de ser minha amiga por causa disso. E é isso que você merece. Não deixe que ninguém te desvalorize por ser quem você é. Você pode ser intensa, filha, mas isso nem é necessariamente ruim, é uma qualidade também. Ninguém ama como você.

Melanie deu um sorrisinho leve.

_Você não acha que sobrecarrega as pessoas?

_Só as pessoas rasas, Melanie. Todo mundo tem defeitos, todo mundo acaba machucando alguém, mas quem é verdadeiro e bondoso, não se desfaz de ninguém. Pelo menos, não por mais tempo do que o necessário. - Allison deu uma risadinha.

_Como assim? - a garota franziu a testa.

_Às vezes, a gente precisa se curar, e não conseguimos fazer isso mantendo quem nos machucou por perto. Por isso, pode parecer que alguns fins são para sempre... seja na amizade, no amor... em tudo. - Allison deu de ombros e beijou a mão da filha. - Está melhor?

Melanie meneou a cabeça levemente e apertou os lábios um no outro.

_O que estão fazendo? Festa do pijama? - Clifford apareceu na porta, com os olhos cerrados, demonstrando estar incomodado com a luz.

_Oi, pai. Quer participar? - Melanie abriu um sorrisão brincalhona e Allison também forçou um sorrisão entrando na brincadeira.

_Ham. - Clifford riu ainda pendurado no portal. - Nós precisamos acordar cedo amanhã, temos as bodas de 10 anos de casados dos seus avós.

_São 9 horas da noite, pai. - Melanie disse revirando os olhos. Allison deu uma risada se levantando e ajeitando as coisas do quarto da filha.

_Mas eu quero dormir. Nenhum de vocês vai ser solidário, e dormir agora, para o papai conseguir silêncio nessa casa? - Clifford abriu o sorrisão forçado delas.

_Tá, mas a mamãe fica e dorme comigo, ok? - Melanie pegou o braço de Allison e puxou-a para perto, fazendo a mãe rir e olhar a expressão de Clifford se fechar.

_Melanie, - ele começou sério - venha dormir com a gente, então.

_Não, quero saber porque você nunca deixa a mamãe dormir em outro lugar. - disse a filha se divertindo com o desconforto do pai com a ideia de dormir sem Allison.

_Boa tentativa. - ele fez cara de entediado - Vou ali mandar Charles abaixar o volume do jogo no computador.

_Tenho que ir, filha. - Allison beijou o cabelo dela. - Seu pai não consegue dormir de jeito nenhum com luz acesa ou com algum barulhinho.

_Mas por que essa necessidade de você dormir lá?? - Melanie franziu a testa.

_Ah, ele também não consegue dormir sem mim. - Allison riu saindo do quarto, e se virando pouco antes de apagar a luz - Quanto mais seu pai envelhece, mais ele vai ficando metódico. Depois que acostumou com meu cheiro lá no quarto para dormir, não consegue mais ficar sem. - Allison explicou segurando a porta e sorriu - Você já reparou na mão direita dele tremendo quando algo sai do controle?

_Já. - Melanie riu se deitando.

_Pois é. Tinha anos que ele não tinha isso. Por isso, Melanie, tenha paciência com ele, está bem? Boa noite. - a mãe mandou um beijo e apagou a luz, fechando a porta logo depois.

Melanie Miranda se deitou mais aliviada naquela noite, também com grandes expectativas para o aniversário de casamento dos avós, já que eles haviam alugado um grande sítio, que na verdade funcionava como hotel, para grande parte da família, para que passassem o fim de semana. Até mesmo Stuart e Lisa haviam vindo para participar. Tio Thomás havia finalmente convencido Carter e Mariah a fazerem algo diferente de festas de gala, para a alegria de Melanie.


De fora da família, iriam seu padrinho, e os amigos dos seus pais, o que significava que Cassandra e Harvey iriam. Hudson estava convidado de qualquer jeito, sendo namorado dela, mas ele estava particularmente incomodado que seus pais também estariam lá.


_Jackson, já tem mais de um mês. - Tracy retorquiu irritada. Os dois discutiam no carro, a caminho do sítio, por 15 minutos, que Hudson estava marcando. O assunto era mais do que agradável: a vida sexual do casal.


_Claro, claro! - o marido exclamou com certa ironia - Isso, certamente, indica o fracasso total do casamento, e segundo DADOS E ESTATÍSTICAS vai acabar em nosso divórcio em mais ou menos um mês.


_HÁ! Agora você vai ver. Vou pesquisar e você vai ver que há pesquisas sobre como a falta de sexo pode acabar com um casamento, meu querido. - anunciou ela em tom de desafio para logo pegar o celular.


Hudson bufou e meteu a cabeça no vidro. Por que ele era obrigado a ouvir essas coisas?


Seus pais jamais tiveram noção das coisas que deviam ficar apenas entre eles. Sua mãe sentia que podia ter tanta intimidade com ele, que chegava em seu quarto às vezes para lhe perguntar se a pinta em seu peito havia crescido - claro, mostrando para o filho. Mesmo depois do garoto ter atingido uma idade considerável da adolescência.


Talvez pela falta de escrúpulos dos pais, Hudson tivesse uma certa dificuldade na comunicação e na intimidade.


_Tracy, chega. Chega. - Jackson pediu impaciente.


_Ah, não, não, agora eu preciso te mostrar. Você não pode ficar achando que tem a voz de comando nesse relacionamento, só porque tem o pau gr...


_PELO AMOR DE DEUS, MÃE, CONVERSEM SOBRE ISSO DEPOIS! - Hudson deu o grito, já traumatizado.


Tracy deu um gritinho de susto e se virou para o filho.


_Filho, ainda bem que está aí! - ela parece ter se lembrado da presença dele e abriu um grande sorriso - Fale para mim, quando o homem não come sua mulher há muito tempo...


_Só tem um mês, e quantas vezes eu devo repetir que fora por uma simples falta de oportunidade, minha musa! Pare de fazer um grande caso disso!


Hudson afundou no banco do carro. Era tortura. Só pode.


_É, mãe, tem nada a ver, VAMOS MUDAR DE ASSUNTO!


_Mas, Hudson - Tracy se virou mais no banco da frente para o filho, toda magoada -, o seu pai...


_É, mãe, a gente ouviu da primeira vez! Por favor! - o garoto suplicou.


Tracy suspirou e se virou para frente.


_Tá bom... - ela rompeu frustrada. - Aposto que Jane, até separada, é mais ativa do que eu. - resmungou ela. Jackson gargalhou por um longo tempo.


_Falando nisso, vi a filha dela na rua dançando na rua com uns colegas. - o homem comentou.


Hudson pensou no "dançando" de Cassandra. Provavelmente num shorte bem curto e provocante. Quanto mais ela entra na adolescência, mais ela parece ousar.


_Na rua, assim?


_É, rebolando e tudo.


_Ela é adolescente... tem os genes da Jane... o que você esperava? Só espero não casar por dinheiro. - Tracy disse apreensiva.


_Jane parece ser apaixonada por Ed.


_Ela casou de interesseira, Jackson.


_Mas gosta dele.


_Do dinheiro dele.


_Ele está falido, Tracy! - Jack se virou para ela segurando o volante.


_Está, e eles continuam nesse chove e não molha, porque Jane NÃO vai se casar com um pobre. - Tracy retrucou.


_Eu acho que a Cassandra precisa de ajuda. - Hudson soltou baixo e Jackson lançou um olhar de leve a ele.


_Por que você acha, menino? - o pai perguntou interessado.


_Eu acho que ela é muito sozinha. - Hudson deu de ombros. - Pelo jeito que os pais dela parecem ser, não devem dar amor para ela. Tanto que ela é muito grudenta com a Melanie, e isso explica também a obsessão que ela tinha pelo irmão da Mel, mesmo ele não gostando dela. Ela é carente.


Tracy refletiu.


_Eu não sabia disso aí, mas que os pais dela não dão amor, isso é verdade. Felizmente, nós dois damos muito amor ao nosso pequetuxo, - Tracy foi dizendo enquanto esticava o braço para acariciar o rosto do filho - não é, meu bolinho de frutas???


Hudson fechou os olhos incomodado.


_É, mamãe. - ele se encolheu, rejeitando o toque dela.


_Aaaah, eu me lembro quando chegamos para a agente de adoção e dissemos, "Moça, nos dê a criança mais solitária desse lugar"! - ela disse com amor e entusiasmo, fazendo o marido rir e Hudson torcer a cara. Odiava aquela história. Não sabia porque a mãe amava tanto contar aquilo às pessoas.


Não era nada admirável ser o bebê de 3 anos mais solitário e rabugento do orfanato. Parecia que a vida já o descontentava desde que nasceu. Que não se dava bem com as pessoas.


_Hudson, cara, você tem que ser mais paciente. - Jackson pontuou observando a careta dele pelo espelho - Sua mãe te ama. Ela gosta de falar essas coisas com você.


_Isso é ótimo. - resmungou ele. Para ela, completou em pensamento.


Jackson bem que podia ser mais pai dele e disciplinar aquela casa. Todo esse carinho e intimidade excessiva, e assuntos completamente inadequados para pais e filhos conversarem, além da camaradagem de Jack para com Hudson, faziam-no sentir que não tinha pais. Tinha, na verdade, colegas de casa malucos.


Em alguns minutos, chegaram no tal hotel junto com outros carros, que Hudson reconheceu um deles como o de Clifford. As famílias - todas ligadas aos Charlestons - chegavam e começavam a se acomodar, enquanto iam os guiando para os quartos.

Hudson encontrou a namorada na recepção, lhe dando um beijo no cabelo e andando com a mão nas costas dela. Foi quando observou Melanie olhar desconfiada para o irmão, e perguntou o que ela estava pensando.

_Ah, é o Charles que me parece mais ansioso que o normal. - ela sussurrou.

_Por que estamos sussurrando? - sussurrou ele franzindo a testa.

_Porque não queremos atrair a atenção dele. Quero ver o que meu irmão está aprontando, e esse fim de semana eu descubro. Tem uns meses que eu comecei a reparar. - Melanie contou subindo um pouco para falar no ouvido dele.

Hudson resolveu ficar em silêncio e deixar ela fazer o que quer que fosse fazer. Melanie cismava com tudo que Charles fazia, parecia mãe dele. E não adiantava conversar com ela, então era melhor compreender que isso era normal, sendo ela a irmã mais velha.

Ele estava colocando o nariz no cabelo dela, para sentir o shampoo novo dela que ele simplesmente adorara, quando a família de Jane entrou, e por família, refere-se a Jane e Cassandra apenas - já que a mulher se recusava a admitir compromisso novamente com o pai da garota.

As duas estavam discutindo alto sobre um dito atraso que Jane acusava a filha de ter causado, até conversar com o recepcionista, logo começando a brigar novamente, tentando concordar em pegar um quarto com duas camas de solteiro ou uma de casal e uma de solteiro. Cassandra não aceitava que a mãe pegasse uma cama grande se não dormiria com mais ninguém, enquanto ela ficava com uma de solteiro.

_Você tem 14 anos, sua filha da puta, não precisa de uma cama de casal. Só dá uma olhada no palito que você é, Cassandra! - a mãe engrossou a voz mandona. Todos, principalmente o recepcionista, ficavam constrangidos com a discussão, visto que as vozes delas iam aumentando a cada frase.

Cassandra suspirou alto e revirou os olhos virando um pouco o rosto para Clifford e os filhos ali do lado deles. Melanie notou, assim, que a garota estava com delineador nos olhos, bem às oito horas da manhã, e mascava um chiclete com uma boca rebocada de brilho labial. Não sabia como ainda conseguia se assustar com essa nova atitude indiferente de Cassandra, quando desde sempre ela já era imprevisível, e já estava mudando desde o ano passado.

_Ah, é?! Se bem que você vai precisar da cama grande mesmo - começou Cassandra debochada -, pois dá só uma olhada na elefanta que você está ficando! - disse a garota lançando um olhar para a barriga e as coxas da mãe. Jane assumiu uma expressão assassina diante da insinuação de que ela havia ganhado peso.

Clifford teve de interferir.


_Cassandra, Jane, por favor, não precisamos desse estardalhaço - o Charleston se aproximou sério e se virou para o recepcionista -, veja se pode arranjar quartos separados para elas, por gentileza? - ele piscou para o homem e murmurou: - Um do lado do outro, com uma cama de casal em cada.


O homem assentiu e Allison se aproximou tocando o braço de Jane, que por acaso ainda olhava a filha como se fosse enforcá-la, e disse baixinho:


_Acho que você precisa resolver algumas coisas em sua casa. Está ficando pior. - Allison lançou um olhar para a expressão cínica de Cassandra.


_Não é da sua conta os problemas que tenho com minha filha. - Jane respondeu ríspida e se dirigiu pisando duro para onde os carregadores estavam levando suas trocentas malas. Cassandra não pretendia acompanhar a mãe, então apenas se jogou num banco da recepção, mexendo no celular. Clifford trocou um olhar significativo com a esposa, antes dela começar a juntar as malas e pedir para os filhos ajudarem-na a levar para o quarto.


Tracy apareceu por trás do filho, agora deixado pela namorada, naquele momento - estava descendo as malas com o marido lá fora.


_Mas ela ganhou uns bons quilinhos, viu. - murmurou ela risonha e Hudson a fitou espantado. Desde quando ela estava ouvindo?


_Mãe...


_HUDSON, porra, ajuda aqui, meu chegado! - exclamou Jackson jogando uma grande mala de mão no peito do garoto, fazendo-o contorcer o rosto e expirar com a dor do impacto.


Depois do almoço, naquele dia, a maioria estava reunida em volta da piscina que continha tobogã, quando os convidados finalmente chegaram a ver o casal aniversariante. A irmã de Carter Charleston, Rikki, gritou entusiasmada quando o viu com a esposa, Mariah, com trajes de banho e toda a família continuou os gritos, enquanto Allison puxava as palmas aos risos.


_Ó, O CASAL DE POMBINHOS!! - berrou alguém, e Carter acenou alegre enquanto Mariah jogava com a cintura uma dancinha risonha.

Foi quando Ellen, em seus 8 anos, chamou os avós, enquanto corria atrás deles em volta da piscina. Ela, que estava tão animada, não esperava que o pai, passando por ali, fosse se aproximar dela e rapidamente lhe empurrar, lhe derrubando na piscina.

Thomás gargalhou com alguns olhares assustados de sua família sobre si. Carter e Mariah estavam esperando a neta chegar até eles para abraçá-la pouco antes de ela cair na piscina.

_OI, FILHINHA! - ele abanou a mão quando Ellen apareceu na água.

_PAIÊÊÊ!!! - ela bradou furiosa, cuspindo água.

_Thomás, pelo amor de Deus! - Carter engrossou a voz indo se debruçar na beira da piscina para puxar a neta. Allison e Clifford começaram a rir, quando perceberam que estava tudo bem, o que puxou as risadinhas de outras pessoas.

Thomás havia alguns meses que estava trabalhando em um hospital fora da cidade, pois estavam necessitando. Portanto, ficava cinco dias fora de casa, e voltava aos fins de semana, assim, outro médico cobrindo seu plantão. Havia algum tempo que ele havia prometido a Sky que sua jornada se diminuiria para três dias, enquanto o resto ele iria passar no consultório, mas ele ainda não pôde cumprir.

Naquele dia, resolveu ir direto, e encontrar a esposa e a filha logo no sítio.

_Ah, cadê o sorriso para o papai??? Não está feliz em me ver também? - Thomás se abaixou rindo da filha encharcada. - Nossa, mas quando viu o vovô, estava toda ani...

Naquele instante, ele foi interrompido porque alguém o empurrou na piscina, assim que ele se levantou. Ellen e Mariah soltaram uma risada, enquanto Stuart gritava:

_AÊÊÊ, SE FODEEEEEEU!

Thomás subiu a cabeça a tempo de observar Sky dando um sorrisinho divertido para ele.

_Aaaaah, você não fez isso, mulher! - ele puxava o cabelo para trás, abrindo e fechando o olho por causa da água escorrendo pelo seu rosto.

_Fiz! - Sky sorriu graciosamente e jogou a cintura dando um high-five com sua filha.

_HAA - Thomás nadou rapidamente até a borda e se ergueu da piscina - Nem vergonha na sua cara você não tem, né! - aquela frase saiu mais como um grunhido dele, antes dele agarrar a esposa rindo junto com ela.

_AI, Thomás, Thomááás, você está todo encharcado. - ela gargalhava enquanto ele esfregava o rosto e o cabelo no pescoço dela.

_CULPA DE QUEM?

_Sua - Lisa virou um tapa no ombro do irmão rindo -, que chega de viagem e cumprimenta sua filha enfiando água no ouvido dela. - ela pegou a orelha dele e puxou fazendo-o berrar e soltar Sky imediatamente. - Agora vem e parabeniza nosso pai direito. Eles tem 10 anos de casados, você só está aqui por causa desse aniversário. - ela foi o puxando até Mariah, enquanto o resto das pessoas suavemente voltava suas atenções às suas coisas.

Thomás cumprimentou o pai com um sorriso iluminado, seguido de Sky e Ellen, que estava agarrada a Mariah antes. Logo, Clifford e Allison vieram com Melanie atrás, apenas dar os cumprimentos. Mas onde estava Charles, afinal?

Melanie não podia parar de pensar, onde ele se enfiara. Allison, logo, parece ter pensado a mesma coisa.

_Thomás, você chegou a esbarrar no meu filho ao chegar? - a mãe perguntou casualmente tocando no ombro do cunhado.

_Para te falar a verdade, só vi ele zanzando pelos corredores.

Ouvindo a resposta do tio, Melanie girou os calcanhares e saiu da área da piscina à procura do irmão, ela tinha que descobrir o que deixava Charles tão agitado esses meses. Nem sabia o que exatamente estava achando que iria descobrir, mas ele podia muito bem estar aprontando.

O fato do irmão estar "desaparecido" - ficou uns dez minutos procurando - chamou sua atenção para uma coisa: Mallory também sumia assim na época que estava tentando aprender a fumar com Harvey. Ficava agitada, ansiosa.

O fundo do estômago dela despencou com o medo assolando sua mente. Não podia ser. Charles é muito bobo para essas coisas. Muito bobo mesmo. Ele ainda nem sabe fazer conta com 14 anos.

Bom era saber que sua prima não mexia com isso mais. Depois que o irmãozinho das gêmeas, Erik, nasceu, Mallory parecia não querer fazer outra coisa além de cuidar do menino. Sentia que ele seria seu parceiro contra as chatices da vida, assim com Harvey era, mas um dia, ia abandoná-la, como está fazendo por causa da nova namorada dele. Chelsea, por outro lado, não gostava de nada disso. Pether, Silver, e as irmãs estavam dando atenção demais a um recém-nascido. Ela estava na família há 13 anos. Erik chegou ao mundo tem, literalmente, 3 meses. Por que ele merece mais amor que ela?!

Caminhando pelo térreo, Melanie avistou Charles parado no topo de uma escadinha que levava a uma pequena capela do lado de fora do hotel, que tinha de um lado, mais escadas para uma outra piscina, e do outro, outras escadas para uma espécie de varanda com vista para as montanhas e uma cachoeira ao longe. O garoto as desceu e se dirigiu à varanda onde Melanie também reconheceu os cachos louros de Cassandra, pendurada no cercadinho mexendo no celular displicentemente.

O queixo de Melanie caiu, pensando que os dois estavam programados de se encontrar ali. Aaaah, mas se haveria um namoro escondido, ela COM CERTEZA iria relatar à Allison. Mesmo ela tendo feito o mesmo no começo com Hudson.

Pouco antes dela passar pela capela e continuar seguindo Charles, uma figura alta e sem camisa pulou na frente dela lhe dando um tremendo susto.


_Ai! - Melanie arfou.


_Mas que porra você está aprontaaaando, sobriiinha? - Pether fez uma expressão demasiada desconfiada e um tom de voz sombrio.


_Ai... eu tô... tô... - ela tentava se recuperar do choque com a mão no peito. - Meu Deus do céu, que susto, padrinho.


Ela estava tão concentrada, que um susto desses acelerou seu coração no máximo.


_ Ãhm. - Pether cruzou os braços se divertindo com o pânico da sobrinha.


_Estava seguindo... meu irm... - ela disse quase sem voz, antes dele a pegar de surpresa pela cintura e levantar no ar.


_Naaaah, vamos nos jogar na piscina. Para de xeretar, sua intrometida do caralho. - ele disse rindo quando a colocou no ombro de cabeça para baixo e ela deu gritinho.


_Ai, meu Deus do céu, mas que caralho que você tava fazendo aqui, cara! - Melanie esbravejou irritada. - Paraaaaaaa!!!


_Não te intereeeeessa! - Pether respondeu no mesmo tom balançando a sobrinha no ombro.


Um segundo depois, Silver apareceu na capela procurando o marido confusa, já que eles pretendiam ficar ali sozinhos, e ela pensou ter ouvido a voz dele.


A alguma distância dali, Charles se aproximava dos cabelos de Cassandra dourados no Sol, respirou fundo discretamente e sentiu a ansiedade bater mais forte do que se não tivesse inspirado mais oxigênio.


_E aí, Cassie? - ele se postou ao lado dela. Ela olhou-o de soslaio sem demonstrar emoção alguma.


_Hm. E aí?


Charles suspirou.


_Por que você é assim, hein?


Cassandra fitou as mãos dele trêmulas.


_Não é problema meu que agora você goste de mim. - disse simplesmente.


Charles soltou um suspiro indignado. Aquela havia sido como um chute no estômago. Por que ela não podia ser agradável?


_Eu não gosto de você.


Ela apenas fitou-o de relance.


Naquele instante, Melanie sentiu um repuxo no estômago enquanto seu padrinho pegava um suco para ela. Todos estavam ali se divertindo, curtindo o sol e a piscina. Ela foi enfiada debaixo da ducha por Pether assim que chegou lá, há dois minutos. Mas ela sabia que o repuxo não vinha dali.


Era hora de apelar.


Fechou os olhos e respirou fundo. Em poucos segundos, tudo havia parado aos seus arredores e perdido levemente a cor. Olhou ao redor.


Allison e Clifford pareciam discutir alguma coisa pela expressão que ficou paralisada em seus rostos; ela supôs que o paradeiro de Charles. Todos estavam como congelados, não moviam um músculo.


Ela começou a andar pelo espaço-tempo com pressa. Não podia segurar muito tempo. Se viu deixar seu corpo atrás de si, apertando o passo através da grama. Onde estava, onde estava?


Era um sinal, mas que sinal era aquele? Algo vai acontecer? Está acontecendo? Será que...


PAH!


A figura branca apareceu na esquina que ela virou, fazendo-a soltar um berro.


_PUTA QUE PARIU, SE EU ESTIVESSE COM MEU CORAÇÃO, ELE TERIA SAÍDO PELA BOCA, DIÁRIO!!!


_Você está evoluindo. Acostume-se.


_Acostumar com o quê?! - ela reparou com pânico os arredores começarem a perder mais a cor, ficando com um aspecto meio preto e branco, o que significava que o tempo estava acabando.


_Você acabou de sentir o seu irmão.


_Sentir meu irmão?!


_As emoções dele vieram a você simultaneamente à sua aparição.


_O que está havendo? Essa é nova para mim! - ela constatou desesperada.


_Volte. Volte no tempo. - a criatura ordenou.


_Pra ond... quando?! - corrigiu-se tentando lidar com a pressão. Mas o que possivelmente era tão importante?!


_Vai saber assim que for. Se apresse. - e sua luz se esvaiu pelo ar.


Melanie estalou os dedos quase imediatamente, sentindo tudo ao redor ser sugado e reduzido a um ponto preto. Aprendeu com muita dificuldade a sempre seguir as instruções daquele diário, e com rapidez. Um desastre cósmico poderia acontecer, segundo ele... ou ela. A garota não conseguia ter certeza nem pela voz ecoante dele... dela.
Talvez a coisa não fosse feita para ter gênero sexual. Teve que se adaptar à ideia.


Quando conseguiu expandir novamente, em um instante estava no interior de um apartamento decorado em tons pastosos. Mas isso não lhe chamou atenção, pois acabara de avistar pelo menos uma dúzia de caixas espalhadas pelo chão da sala de estar e de jantar, se estendendo até a porta de entrada. Havia um degrauzinho elevando o nível da área perto da tal porta.


Ela aguardou alguns segundos. Aquele episódio era para ser importante para a lição de hoje. Ela sabia que era uma.
O diário começara a ensinar algumas coisas a ela de maneira brusca e dinâmica há alguns meses. Por isso, não ficaria surpresa se aquilo fosse apenas uma grande introdução para um simples alerta tipo:
"Controle as viagens no tempo, hein?!"


Era um pouco desesperador que agora sua vida fosse começar a ser literalmente INTERROMPIDA para aprender sobre seus poderes.


Pelo menos, agora tinha que fazer menos força para fazer as coisas acontecerem.


Sobressaltou-se ao ouvir uma batida na porta. Finalmente reparou em barulhos e vozes agitadas lá do corredor. Pareciam haver duas pessoas lá dentro. Ela franziu a testa quase reconhecendo as vozes, mas não deu tempo de ir ver, pois a pessoa que batera na porta simplesmente resolveu sair entrando no apartamento.


Ela percebeu na hora de quem era aquela história.


Clifford Charleston.


_Mas o que está acontecendo aqui?! - ele exclamou olhando ao redor.


Melanie se perguntava onde seu pai estava e o que fazia neste lugar, quando recebeu a resposta.


_Mas o que...? - sua mãe aparecera no portal que dava no corredor.


_O que está havendo aqui, Allison?


Melanie sentiu um nervosismo na voz dele quase imperceptível.


_Clifford, eu... - ela mexia as mãos freneticamente - Eu vou para Paris.


A garota quase caiu para trás com a notícia junto com o pai. Seu olhar foi de Allison para Clifford agitado. Eles tinham 18 e 20 anos, respectivamente. Ela sabia.
Reconheceu a história que o pai contara a ela no elevador, quando estavam presos.
Allison escondeu a gravidez e fugiu para a França.


Ela nunca ficou sabendo o resto da história. Como ele finalmente descobriu, ou porque ela foi justo para a França. Como eles acabaram juntos mesmo assim...


_Mas por que eu preciso saber disso agora?... - ela sussurrou, enquanto Clifford respondia:


_Isso eu sei. Sua faculdade, mas... linda, eu pensei que você só precisasse ir no fim de semana. Será que eu me enganei?


O que se seguiu foram uma série de insultos e mágoas proferidas por Allison. Pether apareceu, e a mulher jurou de pé junto que ele era o cara que ela amava e não Clifford. Melanie não conseguiu dizer se eram mentiras dela, mas esperava que fossem. Era muito estranho imaginar sua mãe e seu padrinho juntos.


Mas, toda aquela cena de término abalava Melanie cada vez mais, até chegar o momento que Allison expulsou Clifford do apartamento, e ele freiou na batente da porta para dizer:


_Eu espero que você esteja feliz com sua decisão, porque, diferente de você, meu sentimento é verdadeiro. Se eu fosse falar dos seus milhões de defeitos, que eu amo, não iria parar nunca, portanto não vou me rebaixar ao seu nível. Eu, de verdade, nunca esperei isso de você, por isso, obrigado por ter me ensinado a não esperar demais das pessoas. Apenas torço para que você saiba o que está fazendo. Acabou de perder um homem que te amava de todo o coração.


E depois saiu.


Melanie cobriu a boca. Aquilo realmente a emocionara, porque era absurdamente cruel o que sua mãe estava fazendo com o coração de seu pai, e dava para perceber na voz dele.


E, logo, sua mente foi tomada por uma dúvida enorme.
Como diabos o amor deles sobreviveu a isso?!


Era óbvio que Clifford preferiria esmagar a própria cabeça na porta do carro a voltar com ela. Uma dor dessas não se supera tão facilmente. Ela, Melanie, não suportaria olhar na cara de Hudson nunca mais. Nunca mais seria capaz de amá-lo sem que isso lhe apunhalasse o coração. Se o amor já é difícil suportar para ela, com 16 anos, imagine seu pai, com 20, planejando toda uma vida com Allison. Pensando que ela seria sua futura esposa e mãe de seus filhos. Seu sonho fora arrancado cruelmente do coração naquele momento.


Então, como? Como superou???


_Por sua causa, Melanie. - a voz do diário ecoou, sendo seguida por um estalo forte para os ouvidos da garota, fazendo com que sumisse tudo ao redor dela.


_Ããhm? - ela se virou depois de se recuperar do pequeno susto.


_Sua mãe passou um ano na França. Ela nunca teria voltado tão cedo se você não tivesse nascido.


_Mas ela voltaria, sim. Minha mãe sempre foi louca pelo meu pai. - ela retrucou, achando aquilo absurdo.


_Mas não teria coragem de encará-lo depois do que fez, se não precisasse. Se não tivesse um bebê com ele.


_Nah-ah, minha mãe sequer teria fugido se não fosse pela gravidez, diário. - Melanie sentiu a voz ficar mais grave, com o nó que lhe apertava a garganta. Não sabia porque queria chorar.


_Teria. Ela estragaria as coisas com o seu pai, Melanie, porque Allison tem segredos muito mais obscuros do que você pensa. Nunca teria coragem de deixar Clifford descobri-los. - a luz da criatura iluminava o que Melanie tinha a impressão de ser um cubículo escuro, exceto pelo fato de ser infinito. - Você deve entender, Melanie, que sem lhe conceber, Clifford não teria sido capaz de mudá-la por completo sozinho, e tampouco perdoá-la depois disso aqui. Escute bem...


A criatura deu uma pausa, deixando Melanie intrigada.


_Este ramo da história dos seus pais, o que Allison não engravida do seu pai, mas de outra pessoa, é o único que poderia levar Allison e Clifford a caminhos diferentes um do outro. - contou o diário - Existem várias versões dessa mesma história, Melanie, como as... realidades alternativas de que os humanos falam, em que uma escolha diferente leva a uma história totalmente nova. Em quase todas, os seus pais ficam juntos, e você, Melanie Miranda Damon Charleston nasce. Mais cedo ou mais tarde.


_E... isso quer dizer que a única razão para meus pais ficarem juntos todas as vezes... é o meu nascimento? - ela costatou quase perdendo a voz.


_Basicamente? Correto. Caso contrário, eles não conseguiriam manter o relacionamento. E portanto, - o diário "flutuou" mais próximo dela - se não fosse por você, seu irmão não teria nascido. Por isso... - explicava com a maior calma possível, como se estivesse ensinando algo a uma criança fazendo birra - você e Charles lentamente estão estabelecendo uma conexão, da qual ele não está consciente, e, hoje, essa conexão de espíritos se apresentou mais forte.


Melanie permaneceu em silêncio. Por longos segundos, ponderou o que um... vínculo assim causaria na sua relação com Charles.


_Ele também pode me sentir?! - a pergunta logo surgiu.


_Pode, porém, milhões de vezes mais fracamente.


_Então, não é possível que ele perceba que está sentindo minhas emoções... - ela constatou.


_É possível.


_Mas você disse...!


_Apenas porque ele não vai sentir com tanta clareza como você, não quer dizer que seja imperceptível a seu ser.


_Mas isso me compromete!


_Não compromete, Melanie, porque ele não saberá o que está sentindo. E você não lhe irá explicar. - afirmou.


_Por que eu precisava ver essa lembrança...? - ela sibilou perdendo a paciência.


_Ainda não acabou, mas você necessita voltar ao presente. Portanto, aguarde até o próximo.


Melanie soltou um som de descrença.


_Próximo. - repetiu ela sarcástica. - O que diabos devo fazer sobre meu irmão???


_Volte ao presente, Melanie.


_Mas o que eu tenho que fazeeeeer???


_Você irá saber no momento certo.


Ela bufou, revirando os olhos, e estalou os dedos logo depois. Tudo voltou aonde havia parado, e Pether chegava com o suco dela na mão, lhe oferecendo. Melanie suspirou murchando a expressão facial, pegando o suco e bebericando, caminhando até os pais.


_Está bem, Allison - Clifford concordou com algo cansadamente -, só para desencargo de consciência - ele se virou para ela - filha, você viu seu irmão por aí, ele te disse alguma coisa?


Como se batessem com um martelo simultaneamente em cada orelha dela, ela sentiu uma dor aguda e súbita, podia sentir seus globos oculares pularem para fora, curvando seu corpo para frente.


A imagem apareceu na sua frente imediatamente. Cassandra estava de frente a ela. Apoiada à beirada da mesma varanda que vira Charlie e ela juntos.


_Eu sei que você diz que não gosta de mim, mas... - Melanie começara a dizer, até Cassandra a beijar vorazmente de súbito. Ao mesmo tempo que seu estômago tinha embrulhado de desagrado e desconforto com suas línguas compartilhadas, sua alma sentia uma satisfação incrível. Não era amor, ou paixão, mas era feliz sentir Cassandra junto a ela.


Melanie percebeu instantaneamente que estava vendo pelos olhos de Charles, agora fechados. Sentiu terrível repulsa por estar vivendo um momento íntimo no irmão. Certas coisas ela não gostaria nem de ver, QUANTO MAIS SENTIR. Quer dizer, seu irmão tem apenas 14 anos. Assim como não gosta nem de pensar em seus pais transando, é horrível ver seu irmão criança namorando. Mas não, ali estava ela tendo que se dividir entre sentir os sentimentos de Charlie, e sentir os próprios.


Eles separaram os lábios e Charles/Melanie viram os olhos castanhos de Cassie semiabertos.


_Gostou? - ela parecia ríspida na pergunta.


_O quê? - Melanie respondeu com a voz masculina.


_Sei que queria isso.


_Queria o quê?


Melanie poderia revirar os próprios olhos se estivesse no próprio corpo. Cassandra grunhiu e se afastou dele.


_Charles, eu não te entendo! - ela esbravejou - Não sentia nada por mim no ano passado! Nada! Por que você fica me procurando???


"Por que ela fica brava com um beijo que ela deu?", Melanie se assustou ao ouvir a voz de Charles na sua cabeça... mas se lembrou que era ela quem estava na cabeça dele, e experienciava a confusão delirante naquele momento de sentir duas almas diferentes no mesmo corpo e ouvir duas cabeças AO MESMO TEMPO. Não conseguia mais se ouvir. Charles estava tão confuso. Ele já era normalmente, mas ele não tem capacidade mental para entender uma garota.


Naquele momento, a garota sentiu como se estivesse abrindo os olhos, no entretanto, o ato parecia mais um golpe doloroso na cabeça do que um simples processo do dia a dia. Seu pai estava olhando-a interrogativo, enquanto Melanie soltava o ar.


_Ah... ele estava andando com a Cassandra da última vez que vi. - Melanie engoliu o sufoco que sentiu com aquela visão completamente desnecessária, e tentou parecer casual. Recebendo um olhar aliviado dos pais, dirigiu-se a uma espreguiçadeira de praia e se deitou ali, tentando adormecer, exausta e aborrecida com tudo isso.

Ela estava em uma loja de materiais escolares. As paredes eram de madeira escura e maciça, estendendo-se ao teto, e embora tivesse a impressão de ser um estabelecimento antigo, tudo estava muito limpo e bem lustrado. O chão, Melanie percebera, era capaz de refleti-la nitidamente.

Atrás do balcão, estava uma mulher de 40 anos com uma tiara no cabelo, amarrado para trás, que parecia mais jovem do que sua idade. Ela estava passando uma espanador nos produtos dispostos nas prateleiras, até ouvir o som conhecido do sino de entrada na porta.

Melanie viu seu tio Thomás adentrar molhado, fechando seu guarda-roupa, enquanto praquejava que o objeto não havia sido de utilidade alguma e passou a mão no cabelo, espalhando gotas d'água no chão lustrado.

_Tio Thomás! O que faz aqui? Onde estamos? - Melanie se adiantou sobre ele, para por fim perceber que ele não a via e ela não estava tendo sonho algum. Era uma lembrança dele. Melanie murchou a expressão e revirou os olhos. - Tudo bem, quando estou? - vociferou ela, sabendo exatamente quem estava escutando, enquanto Thomás se desviava das estantes observando tudo.

_No dia em que seu tio comprou seu presente. - a voz ecoou.

_Que presente? - ela franziu a testa.

_Boa tarde. - Thomás cumprimentou colocando as mãos no balcão.

_Boa tarde, o que procura? - a mulher sorriu.

_Bom, me disseram que você teria uns bons presentes para uma criança de 11 anos. - ele se apoiou no cotovelo.

_Uma garota? - ela pareceu adivinhar.

_Acertou em cheio! Você tinha 50/50 de chances, então foi impressionante, hãm? - Thomás disse divertido.

Melanie se perguntou porque uma loja de materiais escolares teria a aparência tão século passado. E por que isso atrairia a atenção do seu tio?

_Eu tenho o dom. - a mulher disse com um leve tom de mistério.

_Da sorte, isso, sim. - Thomás afirmou. - Vem cá, o que você tem aí então? Meu colega de trabalho disse que mesmo que a loja pareça antiga, tem umas coisas bem bonitas e novas aqui.

A mulher deu um sorrisinho.

_O estabelecimento pertencia aos meus antepassados. Meados da Segunda Guerra Mundial, eu diria, mas, veja aqui, cadernos com estampa de desenhos que as crianças assistem hoje em dia. - ela permanecia sorrindo de maneira debochada enquanto apresentava os produtos.

_Ah, sim, muito bonitinhos - disse ele sem graça -, mas a Melanie não gosta muito de desenhos. Ela costuma assistir ao jornal o tempo todo. Minha sobrinha é uma criança bem estra... peculiar.

Melanie arqueou a sobrancelha. Não lembrava de achar estranho assistir muito ao noticiário. Pensava que era o que todo mundo fazia. Lembra de gostar muito de imaginar o que acontecia no resto do mundo. Os desenhos animados eram apenas uma fantasia otimista do mundo. Queria saber o que acontecia de verdade.

Em comparação, Cassie adorava. Poderia deixá-la assistindo o dia inteiro.

_Ah, é? - a mulher não parecia realmente surpreendida. - Ela é muito diferente das outras. - ela parecia já saber daquilo, de alguma forma. Como se já conhecesse Melanie. - Claro, mas acho que mesmo assim, ela pode gostar disso aqui.

Ela tirou debaixo do topo da bancada o caderno prata com borboletas enfeitando a capa, o próprio diário de Melanie.

_Isso é... um diário? - Thomás analisava, abrindo e folheando algumas folhas.

_Sim, vendemos o cadeado separado, se quiser. - ela pegou e empurrou o objeto na direção dele. - O que ela escrever deveria ficar bem guardado.

Melanie achou a atitude dela um pouco suspeita.

_Bom, sem paciência para escolher mais. Vou levar esse mesmo. - Thomás não parecia ter prestado completa atenção no que ela disse sobre o cadeado. Ele já ia tirando o dinheiro da carteira.

_Hummm... - ela arqueou as sobrancelhas, dando um leve sorriso, e murmurou o preço para Thomás. Melanie e o tio arregalaram os olhos imediatamente.

_Qual que é o preço?! - Thomás se espantou, torcendo para ter ouvido errado.

Ela repetiu. Ele continuava não acreditando ser verdade.

_Não é possível! Num diarinho desses?! - ele estendeu a nota de 20 que tirara, iludidamente, para o caderno.

_Acredite, essa é uma peça única em todo o mundo. Representa tudo que eu acreditei a vida toda, senhor. - ela empertigou-se e juntou as mãos para baixo. Continuava com a expressão doce, enquanto Thomás ainda se abismava com a mentira deslavada que ela dissera.

_Ah, jura?! Isso é feito de ouro, é? Você acredita é no dinheiro, minha senhora. - ele guardou a nota na carteira irritado.

_Você precisa levar, senhor. - ela permanecia gentil, mas dessa vez firme.

_Preciso nada, quero aquele lápis ali. A Melanie não vai sentir falta de um diário, quando começar a expressar sua raiva nas carteiras da escola com o lápis maravilhoso e exclusivo que vou dar pra ela. Passa aquele pra cá, por favor. Pago cem nele.

Melanie não conteve a risada.

_Quê? - a mulher disse confusa. - Não, não, aqueles são apenas 2,50. Quer levar junto com o diário? - ela sorriu alegre.

_Aaaaaaah, lhe espanta que eu queira pagar 100 num lápis? Pois é, e esse preço absurdo num diário, hein, senhora? - Thomás desafiou botando o punho fechado na mesa.

_Estou tentando lhe explicar, senhor, é uma peça única. - ela repetiu um pouco exasperada.

_Não vou levar. Compro todo o material que ela quiser para usar na escola e ainda pintar um quadro, e lhe garanto que sobra dinheiro. - ele bateu na mesa com o punho decididamente.

A mulher lhe olhou gentilmente e abriu a boca, no entanto, fechou-a logo em seguida. Melanie observou atentamente ela inclinar a cabeça, olhar para o chão e se aproximar de Thomás.

_O senhor tem filha? - ela perguntou suavemente.

_Tenho.

_Tenho certeza de que faria tudo por ela. O senhor parece o tipo de homem que compraria tudo para ver os rostinhos felizes dela e de sua esposa. - ela lhe sorriu.

Melanie se perguntou como diabos ela teve essa impressão, se tudo que ele fez até agora foi se recusar a pagar o diário.

Thomás ficou calado.

_Por que a filha do seu irmão não merece a mesma dedicação? Seu irmão não tem a mesma importância? Sua sobrinha também é sua família, senhor. Se soubesse o quanto esse diário pode ajudar a menina na jornada dela. Se soubesse o quanto ele é especial, tal qual sua sobrinha, me agradeceria além de comprá-lo. - ela lhe afirmou.

"Como ela sabia que sou filha do irmão dele? Ele não disse isso a ela.", pensou Melanie. Thomás não parecia ter notado este fato.

_Existem muitas coisas de que não sabemos, senhor, e lhe garanto que a garota vai descobrir. Eu acredito em destino. - ela segurou o diário nas mãos. - E isto aqui será a chave.

Thomás ergueu as sobrancelhas devagar.

_Minha nossa, moça, não precisava ir tão longe para me convencer, não. Eu compro! - Thomás exclamou feliz e convencido. - Tirando essa última parte que eu não entendi nada. - murmurou ele tirando o dinheiro novamente. Parando o monte de notas no ar, acrescentou: - Só para deixar claro, meu irmão e minha sobrinha são muito importantes para mim, tanto quanto minha filha e minha esposa, OK?

_Ok. - a mulher recebeu o dinheiro risonha. Quando lhe entregou o caderno, Thomás se preparava para ir embora, e isso alarmou a moça. - Ei, mas não vai levar o cadeado?

_Não, não, minha cunhada não vai gostar muito disso. Obrigado.

Foi aí que Melanie se assustou. A mulher pegou o cadeado nas mãos e as fechou com força, fazendo um movimento para cada lado, o objeto simplesmente desapareceu. Melanie precipitou-se em alta velocidade e pulou o balcão, procurando-o no chão, ou em qualquer canto. Ela deve ter feito algum curso de mágica, é isso. Isso deve ser algum tipo de ilusão ótica que eles usam, por isso, ela se pôs a verificar as roupas dela, as mangas da blusa e tudo mais. Não viu nada. É, ela tem um nível elevado de lerdeza mesmo.

Ela bufou, pausando a busca.

_O que ela fez com o cadeado?! - Melanie gritou, desistindo de procurar sem ajuda. Entre as estantes, entreabriu-se o que parecia um redemoinho líquido, e a imagem começou a borbulhar enquanto a figura branca saía dentre as bolhas.

_Está com seu tio. - disse o Diário.

_Como?! Quem é essa mulher? - a garota estava extremamente intrigada.

_O nome dela é Pam Patterson. Caso se pergunte, ela é uma prima distante de Rosalie Patterson, mãe de Harvey. Ambas não sabem da existência uma da outra. - explicou serenamente.

_Minha nossa! Como assim?! Esta senhora ACABOU DE TRANSPORTAR UM OBJETO. - Melanie estendeu o braço em direção à mulher.

_Ela não consegue fazer isso. Você consegue.

Melanie não conseguiu soltar a pergunta. Era muito bizarro. Impossível que esse diário maldito não esperasse que ela queria respostas. Não tinha que precisar pedir as explicações desses absurdos à essa altura mais, pelo amor de Deus.

_Melanie, seu tio tinha de lhe entregar aquele cadeado. É essencial a seus poderes. Aquele objeto tinha que ir embora com seu tio. Por isso lhe trouxe aqui. Sua energia permitiu que ela transportasse ao bolso dele. - o Diário se aproximou com o redemoinho desaparecendo atrás de si - O conjunto das moléculas do cadeado foram reduzidas a um minúsculo átomo que se movimentou em velocidade sobrehumana pelo espaço, suficiente para o tempo andar mais devagar.

_UOU, UOU, UOU, espera aí! Você está me dando uma explicação ABSURDAMENTE CIENTÍFICA, ACHANDO QUE EU VOU ENTENDER? Diário! Você sabe que eu não consigo aprender as matérias da escola, ainda mais química, que começou este ano!!! - ela esbravejou desesperada.

_Em realidade, isto é o que vocês chamam de física. Não esperava que você entendesse, no entanto, você foi a responsável. Estando aqui para presenciar, sua energia foi um catalisador substancial para que a vontade de Pam se realizasse. - o diário continuou calmamente, enquanto os olhos vidrados de Melanie se direcionavam a Pam - Ela sente sua presença, sabe. - comentou a criatura - A família Patterson é provinda de videntes poderosos dos séculos anteriores. - o diário aumentou a voz - Ela acredita no que vocês chamam de destino. As coisas devem acontecer da maneira e no momento premeditados. Você é o fator base de toda essa teoria que vocês humanos criaram.

Melanie não conseguia dizer nada. Eram tantas perguntas que nenhuma voz conseguia se calar em sua mente para ela pudesse escolher uma.

_Você precisa daquele cadeado. As respostas às suas dúvidas virão depois.

_Mas está com Thomás! Você disse que está com ele. - Melanie exclamava internamente, porém, sua voz parecia sair cada vez mais baixa. - Meu tio nunca me entregou esse bendito cadeado, mas, se você diz que está com ele, quem sou eu para questionar! RELES HUMANA, EU SOU.

_Saberá onde ele está, quando o procurar.

_Minha nossa, uau, que constatação sábia, diário. Você fica cada dia mais inteligente. - não segurou o sarcasmo andando com força nos passos até a saída da loja. Ele... ela... não queria que ela achasse aquela porcaria de cadeado? Vai ser agora então.

Melanie correu com toda a rapidez que podia. Não sentia seu coração bater. Não sentia os pulmões gritarem por oxigênio. Não sentia os efeitos físicos da corrida. Mas agora sentia a angústia que era saber cada vez menos das coisas que aconteciam com ela. Nunca havia reparado tanto na agonia efervescente que era não sentir o próprio corpo, não sentir a adrenalina pulsando, não sentir os pés batendo no chão. Só sentia a confusão se formando dentro de si.

Repentinamente, ela chorava. Não sentia as lágrimas, mas sentia o choro de alguma maneira. Vamos lá, cadê o Thomás? Aonde ele havia ido?! Precisava encontrá-lo logo, precisava acordar daquele pesadelo.

Se aquela criatura maligna queria tanto confundi-la com suas explicações e bruscas intervenções na sua vida, por que não a orientava na tarefa de pegar aquele maldito cadeado?!

Sentiu um leve sobressalto ao se deparar subitamente com o corpo de um rapaz chegando à calçada, logo após atravessar a rua. Por impulso, Melanie fechou os olhos e gritou, pensando que trombaria com ele, mas logo que abriu novamente os olhos, percebeu que passara direto pela imagem dele. Com a passagem dela pelo seu corpo, o rapaz parecia ter tido um calafrio porque olhou para os lados levemente intrigado.

_Caralho... - murmurou ele -, que susto. - olhou para trás, onde os carros passavam em grande velocidade, pensando talvez que um deles tivesse passado bem perto de si, lhe fazendo sentir o sobressalto. Contentou-se com essa explicação e apenas seguiu seu caminho. Melanie inspirou profundamente e soltou forte voltando a caminhar com fúria para procurar o tio.

Avistou o carro de Thomás passar pela rua rapidamente, naquele instante, e sentiu o estômago despencar. Ou pelo menos, o sentimento se parecia com isso, embora agora notasse mais que nunca a ausência desse órgão dentro de si. Agora faria o que para segui-lo?

Lembrou-se da resposta. O diário lhe dissera que poderia estar em qualquer lugar do tempo e do espaço. Pensou na casa do tio, e no segundo que usou para piscar, estava em frente à casa de seu tio, e teve a visão de Thomás entrando lá naquele dia, minutos depois da cena que presenciara. Melanie se concentrou tanto naquela tarefa, na tentativa de afastar os pensamentos agoniantes, que seguiu Thomás por toda casa, o resto do dia. Assistira tudo, até as cenas mais tranquilas - entediantes - do dia, sem dizer ou pensar nada. Era como se sua vida dependesse disso.

Sua procura pelo cadeado foi completamente frustrada. Onde aquele objeto havia se enfiado, ela não sabia, e nem tinha ideia de como iria descobrir.

Ela não teve muito tempo para pensar em um plano, pois naquele momento, sentiu seus neurônios se agitarem em processo de despertar do sono, e, logo, sentiu a mão em seu braço suavemente o sacudir e a voz de uma ruiva embaçada lhe chamar.

_Gina? - a palavra surgiu da boca de Melanie, sem saber quem tinha aquele nome.

_Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro!!! - exclamou a voz do seu padrinho. A visão turva de Melanie foi se desanuviando e se tornando mais nítida, a ponto de ver Silver à sua frente com a testa franzida, o Sol causando um brilho mais alaranjado no corpo dela, e do seu padrinho sem camisa atrás dela. Deviam ser umas 4 da tarde, ou 5...

Ela desviou um pouco o olhar desnorteado, avistando Allison lhe lançar um olhar perplexo com um bebê no colo. Ela, pelo menos, parecia ainda estar na área da piscina.

_Onde você ouviu esse nome, Melanie? - Allison tremeu a voz, apertando os braços no pequeno corpo frágil de Erik.

Melanie não queria comentar que estava tendo colapsos nervosos, naquele momento, sem conseguir distinguir o que sabia ou não, recebendo revelações ao extremo, do nada, e sem sentido. Não queria comentar que agora não sabia o que era real ou não, de onde vinham esses nomes e informações que ela recebia naquele momento, ou por que não conseguia calar a boca de nenhuma das vozes que agora ecoavam em sua cabeça.

_Aaaaah, dor de cabeça. - a garota contorceu o rosto fechando os cabelos na sua mão.

_Minha nossa, ela me confundiu com a G...

_Não repete o nome, caramelo! - advertiu Pether. Clifford apareceu ao lado dele.

_Acordaram ela? - ele fitou a filha. - Filha, vamos para o quarto, você não parece estar com energia para nadar.

_Clifford. - Allison se levantou com urgência, e segurando o menino nos braços, ficou na ponta dos pés para sussurrar no ouvido do marido: - Você contou a ela da sua ex-noiva?!! - ela estava irritada. Essa era a parte da história que eles combinaram que não contariam aos seus filhos, junto com François, o passado dela e Christopher.

_Não. - sussurrou ele confuso. - Melanie? - ele observou a filha se sentar com o rosto contorcido, parecendo sentir dor, e cobrir a face com as mãos.

_Você está passando mal? - Silver tocou os joelhos agora dobrados dela gentilmente.

Melanie não queria ouvir mais vozes. Não queria. Por que eles não paravam de falar?! O que estava acontecendo?

_Ela não me parece nada bem. - o padrinho dela se manisfestou. - Aposto que o Clifford deu a ela ostra para comer, ou uns mariscos. Vou pegar ela. - Pether se adiantou sobre ela depois de lançar um olhar provocativo ao seu amigo. Enfiou os braços embaixo dos joelhos e das costas dela, a levantando no ar.

_Eu te acompanho. - Clifford ignorou a comentário maldoso de Pether, nem tendo certeza de que havia entendido mesmo, e, preocupado, seguiu os passos do homem segurando sua filha até a pousada. A passagem dos dois atraiu a curiosidade de alguns parentes, e foram perguntar a Silver e Allison o que havia acontecido. Silver se pôs a explicar a eles, quando viu que Allison estava agora se afundando em preocupação e ansiedade com o que havia com a filha.

Algum tempo depois, depositando sua sobrinha na sua cama de solteiro, no quarto da família dela, Pether e Clifford perceberam que Melanie estava ficando mais pálida com o passar do tempo.

Melanie fechava os olhos lentamente, febril, sentindo que o corpo não lhe pertencia mais. Não parava de escutar milhares de vozes na cabeça, retumbando como sinos de uma igreja. Não conseguia discernir muita coisa, mas alguns fragmentos das conversas, certamente, vinham das vozes de seus pais.

"Você não devia ter ficado comigo..."

_Melanie. - Pether chamou sério acariciando o braço dela. - Ei, você está me vendo? - ele perguntou suavemente com Clifford se ajoelhando ao pé da cama parecendo atordoado.

"O que você ia ganhar com isso, Allison?"

_O que será que ela comeu? - as palavras pareciam doer fisicamente no pai dela.

"...eu só pertenço a você."

_Não... comi nada... - ela sussurrou fraca.

"A verdadeira questão é: você ainda me ama?!"

Ela fechou os olhos com força, a dor se acentuando.

Você precisa suportar, Melanie. Permaneça firme.

Ela ouviu a voz do Diário se destacar no vozerio, e expirou fortemente se revirando na cama. Mas o que estava acontecendo, afinal?

Tenha foco. Encontre o cadeado.

Ouviu novamente.

_Vou tentar arranjar algo que ela possa comer. O estômago está ruim, filha? - Clifford perguntou antes de se levantar.

Ela meneou a cabeça negativamente.

"Eu que ainda estou presa a você."

O pai logo saiu do quarto deixando o Silchester observando a garota preocupado.

_O que você está sentindo? O que está acontecendo, pode me dizer, Melanie. - ele se aproximou com urgência na voz.

"Mas o que eu tinha que escolher, Allison? Eu sou noivo da Gina. Da Gina."

_Faça parar, padrinho... - ela sussurrou finalmente conseguindo chorar. As primeiras lágrimas caíram no travesseiro. Pether arregalou os olhos.

"Se aproveitou de mim e do meu amor por você, Clifford!"

_A dor está tão forte assim? Meu Deus do céu... espera aí, eu vou ver se encontro os remédios que a sua mãe trouxe. - ele se levantou como um foguete. Precisava ajudá-la. Não conseguia a ver assim.

"Ele é maligno, Allison. Eu nunca devia tê-lo escutado..."

Seu estômago embrulhou e ela soube que não conseguiria comer nada. Aquela criatura a estava torturando. Torturando por causa de um maldito cadeado inútil.

Enquanto sua mente era bombardeada de vozes do passado, sua raiva foi tomando conta e percebeu que os objetos a sua volta começavam a tremer, mais e mais intensamente. Ela abriu os olhos, eles queimavam como se estivesse em brasa. Ela sabia que haviam ficado prateados.

_Padrinho... ache meu diário, por favor... - ela se esforçou para dizer, piscando várias vezes a fim de evitar que Pether visse seus olhos perolados, inspirando fundo na esperança de que os objetos ficassem parados.

_Seu diário?! Pra quê? você precisa é da porra dos remédios.

_Por favorrrr. - ela aumentou a voz. Ela conseguiu lentamente fazer os objetos ficarem quietos, mas aquilo exigiu uma força sobrehumana dela.

Ele apressou a busca pelos remédios, até esbarrar com o caderno de borboletas pratas e jogou de mau jeito para a sobrinha. Ela, claramente, não o apanhou, pois desprovia de forças para isso, e assim que o objeto atingiu o chão, ele se abriu, causando desespero em sua dona.

As palavras estavam lá, a conversa em duas caligrafias diferentes, Pether não podia ler. Pensaria que ela era completamente insana.

Tarde demais, ele encontrara o tal remédio e se aproximava dela e do diário no chão. Ele repousou o olhar apressado no objeto e o apanhou. Ela fechou os olhos, já que ainda queimavam.

Ela sabia que ele estava folheando o caderno, pelo barulho do seu passar de páginas. O medo lhe apossou por completo, mas não podia arriscar abrir os olhos, ou perder o controle dos atos agressivos. Por isso ficou calada, se pondo a rezar. Sua cabeça estava explodindo.

Foi quando ouviu a voz dele.

_Que merda é essa? Você fica com isso aqui horas e horas e não escreve nada?!



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