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História Apocalypse, interativa - Capítulo 3


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Notas do Autor


as vagas ainda estão abertas para novos personagens e eu só vou postar o próximo quando estiver com o elenco definido, juro

boa leitura pra tu

Capítulo 3 - 02 - Isolamento.



Capítulo II

Grace Meredith acordou sozinha em um quarto escuro. Precisou de alguns segundos até que sua visão habituasse à iluminação baixa, para só então notar que as duas janelas adjacentes no cômodo haviam sido cobertas com pedaços de papelão e jornal. 

Sua pele estava suada. Céus, o ambiente todo parecia uma sauna. 

Com esforço, sentou-se na cama, a cabeça ainda zonza. Não tinha lembranças de como havia parado ali, e muito menos de como tivera as roupas manchadas de sangue trocadas por um vestido azul bastante solto na cintura e, aparentemente, limpo. 

Levou a mão à barriga redonda quando sentiu uma breve movimentação. Leve, mas o suficiente para que, no quinto mês de gestação, soubesse que sua garotinha estava ali. Estava bem. 

— Eles estão cobrindo as janelas do primeiro andar. Nos mandaram ficar aqui. — disse a garota sentada no chão, bem em frente à porta do quarto. Grace não havia notado sua presença até então. A loira, que não aparentava ter mais de doze ou treze anos, estava com as pernas encolhidas, os joelhos encostados no busto praticamente reto. Segurava um celular contra a orelha quando a fitou, os olhos azuis parecendo distantes. — Eu sou a Liv. Já nos apresentamos, mas você desmaiou logo em seguida e… — Ela fechou os olhos por um instante, abaixando o celular enquanto inclinava a cabeça levemente para trás, encostando-a no umbral de madeira da porta. Os fios na altura do queixo ondularam. — E eles não atendem. Porra.  

Pensou em repreendê-la. Uma criança daquela idade não deveria usar esse tipo de palavreado. Mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Liv voltou a falar, a voz não mais que um sussurro. 

— Você está com medo? 

Grace levou alguns segundos para responder. 

— Acho que ainda estou sob efeito de muita adrenalina para sentir medo. 

Liv assentiu, e seu olhar voltou-se para o lado de fora do quarto. 

— Ela não falou nada desde que chegou. Eu tentei conversar, mas… Acho que não tenho muito jeito com crianças. 

Grace tentou acompanhar a direção dos olhos azuis. Através do vão da porta, pôde visualizar a cortina de cabelos castanhos que cobria a lateral do rosto da garotinha sentada no sofá. Era pequena o suficiente para arriscar dizer que estava no fim de seus cinco ou seis anos de idade. Talvez sete, não mais que isso. 

— Talvez ela precise passar um tempo calada.

— É, talvez — Liv mordiscou o lábio inferior em um gesto nervoso antes de prosseguir. — Não gosto de pessoas quietas, de toda forma. Principalmente crianças. Não dá para saber no que estão pensando, e crianças costumam ter mentes bastante férteis.


(. . .)


Dominic Ross retirou a faixa de tecido que lhe protegia os olhos assim que Bernard anunciou que o trabalho de cobrir a última janela do cômodo havia terminado. Após camadas e mais camadas de jornais e fita adesiva, era praticamente impossível perceber que, minutos antes, uma vidraça iluminava todo aquele corredor. 

— Mais alguma? — Perguntou, soando mais ansioso do que desejava. Havia deixado a sobrinha sozinha no térreo, e só não estava mais nervoso por causa do pedido mudo feito à pré-adolescente loira para que vigiasse Maddie. Aparentemente ela havia entendido a súplica contida no olhar lançado em sua direção, e apenas assentiu com um movimento breve de cabeça. 

Bernard levou ambas as mãos à cintura e fez menção de falar, mas a mulher ao lado foi mais rápida ao tomar a voz. 

— Uma no quarto dele e mais duas enormes no escritório. Espero que ainda tenha muitos jornais. 

— Não, mas… Posso ter papelão no porão. E algumas latas de tinta preta, talvez possamos tentar pintar o vidro.

Os outros dois concordaram. 

— Podemos nos dividir. — Ela sugeriu. Dominic não tinha certeza sobre seu nome, talvez tivesse ouvido Bernard chamá-la por… Lia? Mia? — Eu vou para o quarto, vocês dois para o escritório. Terminaremos mais rápido. 

— Eu vou para o quarto, vocês dois para o escritório — interveio o médico, e ela arqueou uma sobrancelha em sua direção. — Perdão, Nia, mas não confio em te deixar sozinha. 

Ela soltou uma risada baixa, completamente sem humor enquanto resmungava um "É claro que não confia". Bernard apenas deu de ombros, seguindo em direção ao quarto conforme o pedaço de tecido voltava a cobrir os olhos claros. Nia praguejou baixinho por mais alguns segundos antes de voltar-se para o homem que a esperava, e sejam lá quais seriam as próximas palavras raivosas a saírem de sua boca, morreram assim que os olhos focaram em um ponto próximo a cintura de Dominic. 

Dom levou alguns instantes para perceber que o foco da atenção era sua mão. 

— Está sangrando. 

E doendo como o inferno. 

— Não é nada. 

— Isso está horrível. Bernard é médico, ele pode… 

— Eu falei que não é nada. — De fato, não tinha a intenção de ter sido grosso, mas estava impaciente demais para explicar que, no momento, a mão ferida durante a confusão não era sua prioridade. — Farei um curativo quando terminamos. Podemos? — indagou, indicando com um aceno rápido de cabeça a porta no final do corredor, a qual deduziu se tratar do escritório. 

Nia ainda parecida um tanto enjoada com a carne aberta nos nós de seus dedos, mas não protestou quando rumaram em direção ao final do corredor, cada um carregando seu devido material de jornais e fita. Parados em frente à porta de branca, os retalhos voltaram a cobrir seus olhos. 

Dom deixou que ela, familiarizada com a casa, tomasse a frente, andando apenas quando os dedos finos envolveram seu antebraço a fim de guiá-lo. A porta rangeu ao ser aberta, e a mulher passou a contar os passos em voz alta, ficando imóvel ao chegar no oitavo. 

— Aqui — A ouviu dizer, puxando mais ainda seu antebraço para que ficassem lado a lado. Dom estendeu a mão, sentindo a superfície gelada do vidro imediatamente à sua frente. — Deve ter uns setenta centímetros de largura e dois metros de altura, não tenho certeza.

Ele assentiu, mas foi obrigado a soltar um "certo" quando lembrou dos olhos vendados. 

— Ficarei na janela ao lado. 

— Me avise se terminar antes. 

Ela murmurou algo em confirmação. 

Dom odiava admitir aquilo, mas até mesmo a tarefa mais tola de cobrir uma janela se tornava agonizante sem o uso da visão. Precisou de alguns minutos até sentir que estava, finalmente, no caminho certo. Alguma parte orgulhosa em seu âmago desejou que a mulher ao lado estivesse tendo a mesma dificuldade. E, porra, a maldita vidraça era maior que ele. 

— Qual é o seu nome? — Ela perguntou, no exato momento em que ele havia acertado a posição do jornal. Dom tentou não perder a concentração, mas acabou mexendo a mão inconscientemente. Merda. 

Suspirou profundamente antes de responder. 

— Dominic. 

— Certo. O meu é Nia. 

— Bom. 

Alguns segundos de silêncio. Ele tentou voltar ao trabalho. 

— A garota na sala é sua filha? 

Ah, céus. 

— Maddie é minha sobrinha. 

— Certo. 

Silêncio, dessa vez mais duradouro. Talvez ela tivesse desistido. 

— A mãe dela está viva? 

Chega.

— Escuta, será que nós podemos apenas… 

Alguma coisa se chocou contra a janela. Não havia sido a dele. 

O vidro explodiu, arremessando alguns cacos longe o suficiente para que caíssem perto de seus pés. O grito agudo de Nia foi uma das coisas mais desesperadoras que ouvira durante as últimas horas. 


(. . .) 


Momentos antes, Bernard Calhoun descia as escadas em um ritmo lento — apesar de resistente ao álcool, ainda sentia-se alto pelas doses de uísque tomadas mais cedo —  quando viu as três garotas sentadas no sofá. Grace — Liv havia dito o nome da mulher mais cedo — entre as duas menores, aparentando estar recuperada. A cascata de cabelos cor de mel caindo-lhe sobre os ombros, emoldurando um rosto de traços leves e bochechas, felizmente, coradas. Ótimo. 

Liv tinha a cabeça encostada no ombro da mulher, os olhos fechados em um cochilo tranquilo. A pequena Maddie estava mais distante, mas Grace mantinha uma mão sobre a da garotinha, seus dedos movendo-se em movimentos tranquilizadores. 

— Você está melhor — disse, descendo o último degrau. Não havia sido uma pergunta, mas ela assentiu mesmo assim. — Costuma ter quedas de pressão? 

— Não, na verdade. — Ela manteve o tom de voz baixo, mas não o suficiente para impedir que Liv fosse interrompida de seu sono. A garota o observou com os olhos semicerrados. 

— Que bom. Ficamos preocupados. 

— Desculpe. 

Ele não havia dito aquilo com a intenção de deixá-la com o sentimento de culpa. Grace não precisava se desculpar por nada. Não havia nada de errado em sofrer um desmaio após um pico de estresse, ainda mais quando grávida. Estava prestes a vocalizar aquilo, mas a voz sonolenta de Liv o interrompeu ao perguntar: 

— Vocês já acabaram? Preciso falar com Nia. Não consigo falar com nossos pais. 

— Ainda não, mas meus jornais acabarm. A fita também está quase. Preciso pegar papelão e umas latas de tinta no porão. 

— Posso ajudar? 

Bernard ponderou por alguns instantes. De forma alguma levaria Liv para o primeiro andar, ao menos não enquanto ainda havia tantas janelas descobertas. 

— Só até subir as escadas. 

Liv assentiu, levantando-se imediatamente. O Calhoun notou um lampejo de insatisfação cruzando as feições delicadas de Grace ao notar que perdera sua companhia, mas sabia que a garota estava ansiosa demais para fazer algo útil para que pedisse que ficasse sentada.

Seu olhar voltou-se para a menor de cabelos castanhos. Maddie. 

— E você? — Ela ergueu a cabeça para fitá-lo, o cenho levemente franzido em uma expressão inquisitiva. — Sabe, as latas de tinta são pesadas e você me parece uma garota realmente forte. Acha que pode nos ajudar? 

Maddie não respondeu, mas também levantou-se para acompanhá-lo. Já era alguma coisa. A quietude inabalável da criança começava a deixar Bernard nervoso. 

Começando a descer as escadas que ligavam o térreo ao porão, o médico passou a refletir se havia mesmo sido uma boa ideia trazê-las ali. As tábuas de madeira rangiam com o peso dos corpos, o barulho alto o suficiente para que pedisse à Liv que segurasse a mão da menor por segurança. Entretanto, a sensação de que a escada se partiria sob seus pés a qualquer segundo não se comparou ao desconforto quando o odor pungente de mofo atingiu-lhes em cheio. Uma das garotas espirrou. 

— Você limpou isso aqui alguma vez nos últimos quinze anos? — A mais velha perguntou. Bernard estalou a língua antes de responder. 

— Não moro aqui há quinze anos — Seus pés alcançaram o piso de cerâmica, as garotas logo atrás. — Liv, tem um interruptor perto da sua… 

Não precisou terminar a frase. O cômodo foi tomado por uma luz amarelada e oscilante. E, por mil infernos incandescentes, nunca vira tanta poeira em um mesmo local. 

— Há quanto tempo mora aqui, então? — Ela tornou a perguntar. 

Não sabia exatamente há quanto tempo estava naquela casa. Lídia e ele eram recém casados quando deram entrada no imóvel, então… 

— Dez anos. 

— Certo, você limpou isso alguma vez nos últimos dez anos? 

Não pôde conter o impulso de revirar os olhos. 

— Você consegue ser pior que a sua irmã. 

— Isso foi ofensivo… Você ainda está bêbado? — perguntou, arrastando o indicador por cima de uma caixa de madeira, como se quisesse testar o quão empoeirada estava. — Você me parecia bêbado hoje de manhã, e se ainda se sentir bêbado, não vou levar essa fala para o lado pessoal.

Bernard calou-a ao entregar duas latas de um litro de tinta em suas mãos. Em seguida, entregou um pincel para que Maddie carregasse. Liv fez uma careta. 

— E o que você vai levar? 

— Isso — respondeu, erguendo uma caixa de papelão vazia. 

— Eu vou levar o mais pesado? — A voz da garota soou esganiçada. O médico soltou uma risada ínfima. 

— Vai. Maddie é muito jovem, e eu, muito velho. Velho e bêbado — completou. —  Se alguém aqui é capaz de carregar essas latas sem esforço, esse alguém é você.

Os lábios de Liv abriram em um formato oval, um nó surgindo entre suas sobrancelhas claras. Uma perfeita expressão de indignação exagerada. Ela voltou seu olhar à Maddie em busca de algum apoio para enfrentar o homem, mas a pequena parecia não estar disposta a se envolver.

Os olhos azuis de Olívia voltaram a fuzilar sua alma. 

— Bernard! — Ela bateu o pé. 

— Olívia! — Ele imitou o gesto, tentando prender a risada no fundo da garganta. 

— Precisam de ajuda? — indagou a voz melíflua vinda do alto da escada. Grace estava parada enquanto os observava, a mão direita repousando serena sobre o ventre. 

Um estranho rubor tomou conta das feições de Liv, provavelmente por ter sido pega em flagrante agindo feito uma criança. Ela se recompôs em tempo recorde, segurando as latas com mais precisão e partindo para a escada, com Maddie e seu pequeno pincel no encalço.  

— Está tudo bem. Eu e Liv tivemos uma pequena divergência — disse, tentando transmitir a maior serenidade possível na fala. Descobriu que divertia-se assistindo Olívia tentando controlar o temperamento. — Ela ainda está um pouco emburrada, mas creio que vá sobreviver. 

A loira bateu os pés com força quando o ouviu falar, fazendo com que as tábuas rangessem mais ainda. Bernard teve a impressão de ver a fagulha de um sorriso arqueando o canto dos lábios rosados de Grace, mas sumiu rápido demais para que pudesse confirmar. 

— Posso ajudá-los com as janelas — insistiu. Bernard apenas negou com um aceno de cabeça. 

— Estamos quase acabando. Você não precisava ter vindo até aqui, Grace. 

— Não gosto de ficar parada enquanto todos estão ocupados. 

— É diferente. Você… 

Algo explodiu no segundo andar. Vidro. 

Mesmo distante, o som foi alto o suficiente para que Liv, quase no topo da escada, soltasse uma das latas. As pernas de Maddie seriam atingidas em cheio se a menor não fosse rápida em se esquivar, jogando o corpo contra a parede. 

O grito feminino que seguiu o som quase fez seus joelhos falharem. Nia. Merda, merda, merda! 

Os olhos castanho-esverdeados de Grace encontraram os seus durante os breves instantes em que não tiveram reação alguma, o contato quebrado apenas quando o médico disparou em direção ao topo da escada. Ela fez menção de acompanhá-lo, mas o aperto razoável da mão de Bernard envolvendo seu braço passou a mensagem clara de um não. 

 — Fique aqui dentro com elas. Feche o alçapão. Só abra quando eu voltar. 

Grace sabia que não era hora de uma discussão, mas o tom urgente na voz do homem e o silêncio ensurdecedor que tomou conta dos andares acima fizeram com que concordasse sem pensar duas vezes. 

E, antes que pudesse trancar-se com as garotas no porão, Bernard já havia sumido.


Notas Finais


mas será possível que não deram TRÊS HORAS de apocalipse para a Grace estar trancada em um porão com as crianças e Dom e Nia morrendo? MAS SERÁ POSSÍVEL?

personagens novos serão introduzidos no próximo capítulo. tenho um problema sério de não conseguir meter um monte de gente ao mesmo tempo, então me perdoem :c

aliás, o capítulo tá curto ou desse tamanho tá bom? me digam

eh isto.


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