História Aprendendo a Amar - Capítulo 4


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Categorias Jessica Capshaw, Suits
Personagens Personagens Originais
Tags Capmirez, Deckson, Jessicapearson, Suits
Visualizações 138
Palavras 5.540
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Crossover, Ficção, Hentai, LGBT, Policial, Romance e Novela, Violência, Yuri (Lésbica)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Spoilers, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 4 - Never again


É sexta-feira e o sol parece ter nascido triste esta manhã.

Emily, que sempre luta contra si mesma para abrir os olhos e sair da cama todos os dias, nem conseguira dormir boa parte da noite passada. Não passava mais de 30 segundos numa mesma posição e nem mais de 20 minutos com os olhos fechados antes de bufar, sentar na cama e passar um tempo olhando pela janela, a lua iluminar o céu escuro e as ruas de Santa Monica.

Então por isso ela simplesmente já está acordada quando seu despertador toca, e o barulho que já é naturalmente irritante para qualquer ser humano, torna-se completamente insuportável para ela agora.

A morena não o desliga apenas apertando no botão, como uma pessoa normal faria, ela literalmente dá um tapa no objeto na sua tentativa de desativá-lo, fazendo-o cair do criado-mudo. Ele silencia. Só não sei dizer se porque ela acertou o botão, ou se porque o despertador quebrou na queda.

Decker respira da maneira mais profunda que consegue e mira o teto branco de seu quarto.

O que ecoara toda a noite na sua cabeça fora o “eu volto amanhã no fim da tarde [para Chicago]” de Jessica no pátio do fórum, e é isso que ecoa agora também. Ela sabe que ainda faltam pelo menos 9 horas para que Pearson tome seu voo de volta para Illinois, mas já se sente a pessoa mais miserável do mundo, e a mais irritada também.

O motivo de estar se sentindo miserável é de conhecimento geral, ninguém quer ver a pessoa amada ir embora! Agora, a irritabilidade... bem, Emily simplesmente não aceita, não aceita o fato de ter se tornado uma “mártir” – como ela mesma se denominou a noite inteira –, ter se tornado uma das pessoas das quais ela gargalhava e chamava de idiota não muito tempo atrás. Ter se tornado uma apaixonada e consequentemente uma sofredora.

A juíza senta na cama, põe os pés no chão frio demais para sua temperatura corporal, e pega seu despertador, devolvendo-o ao lugar sem se importar se o quebrou ou não. Em seguida se levanta, olha pela janela de relance, avistando na janela da casa do outro lado o mesmo garoto que adora lhe espionar, mas dessa vez nada faz, não está com saco.

Apenas se arrasta até o banheiro e entra nele batendo a porta com uma força completamente desnecessária.

***

Já no hotel, Pearson organiza sua mala. O coração aperta a cada minuto que se passa e ela se repreende mentalmente por isso. Nunca pensou ser tão sentimental.

A advogada procura cada mísero objeto e peça de roupa sua que espalhou pelo quarto e os vai dispondo, com sua organização habitual, dentro da mala ao mesmo tempo que tenta acalmar seu namorado – pelo menos por enquanto – no telefone.

– ...não Jeff, eu não estou tentando justificar nada, eu estou concordando com você. – Dobra mais uma roupa e coloca na mala, arrumando o celular entre o ouvido e o ombro em seguida. – Eu errei, e errei feio em não atender suas ligações, eu sei que temos casos pra resolver juntos... – Ela suspira ao ser interrompida por ele. – ...sim, e por isso também, nós estamos num relacionamento... – Revira os olhos. – ...só que eu estava enfrentando uns problemas realmente sérios por aqui, eu... – Suspira e revira os olhos mais uma vez quando o homem interrompe seu raciocínio novamente, tentando pela milésima vez acusa-la de algo, talvez tentando fazê-la se sentir culpada por alguma coisa. Perda de saliva dele. Pearson não é do tipo de pessoa que se sente culpada por nada.

Bem, pelo menos por quase nada.

Muito embora talvez devesse agora, afinal, tem um compromisso e está falhando miseravelmente nele. Mas apesar de detestar falhar em alguma coisa, qualquer que ela seja, esta coisa em específico não está lhe preocupando. A advogada não sabe porquê, mas está mais do que óbvio. Por que alguém se preocuparia em falhar ou em e culpar por algo que nem mesmo a interessa mais?

– Jeff, eu tenho muitas coisas pra fazer antes do meu embarque às 4:30 PM, ok? Eu já pedi desculpas por ignorar suas ligações, já falei que estou voltando para Chicago e já falei que quando chegar aí, vou te contar tudo. Você vai entender meus motivos por ter agido como agi. – Sim, tudo mesmo. Apesar do que contar a verdade signifique para o relacionamento dos dois, a honestidade ainda guia a mulher de porte altivo. – Então para de dar piti em frente a um plenário, você não precisa de mim aí agora, o julgamento está nas suas mãos, entra nessa sala e ganha esse maldito caso! – E encerra a ligação jogando o celular em cima da cama.

Ao que parece, a irritabilidade está bem acentuada nela também, não? Mas apesar de seu namorado realmente tê-la irritado, sua ruga de expressão da testa bem marcada e seu maxilar travado atualmente não são por causa dele e sim por causa da frieza com que Emily reagiu, no dia anterior, à notícia de sua partida.

Mesmo que ela tenha feito questão de esmagar qualquer esperança por parte da britânica, mesmo que as investidas da juíza a tenham deixado completamente confusa, assustada e lhe tenham despertado medos e sensações com as quais ela não está acostumada a lidar, alguma parte da advogada adora isso, adora ter a outra louca por ela, adora saber que foi a única capaz de aquecer o coração de gelo de Emily Decker, então receber uma resposta como “Você veio aqui a trabalho, está a um passo de termina-lo, e isso implica dizer que tem que voltar pra casa. Não tem o que falar sobre isso. Apenas... espero que faça uma boa viagem” realmente a deixa fora de sua calma habitual. A deixa triste e irritada.

Jessica termina de organizar sua mala e a fecha com um pouco de dificuldade devido à grande quantidade de roupas, mas assim que se vê livre de qualquer afazer, pousa as mãos na cintura e solta uma lufada de ar como se estivesse exausta, ou como se tentasse não explodir com a raiva que talvez nem tenha o direito de estar sentindo.

Ela mira seu celular em cima da cama. Espera receber alguma ligação ou quem sabe uma mensagem da morena. Espera receber um “vou sentir saudades” ou um “fica mais um dia...”, mas ao pegar o aparelho e desbloqueá-lo, não encontra novas notificações. Isso frustra profundamente a mulher, que joga o celular de volta em cima da cama e se dirige ao banheiro para tomar um banho bem demorado e esfriar a cabeça. Entra nele e fecha a porta atrás de si de calmamente.

***

Então de uma maneira quase insuportável a primeira parte do dia das duas se desenrolou. Decker foi trabalhar pois tem casos novos chegando em seu gabinete, o que ela agradeceu intensamente por ter com o que ocupar 100% do seu cérebro após Jessica ir embora, enquanto esta, tentava se manter ocupada no hotel de alguma maneira. Ela mesma deixou o quarto extremamente bem arrumado e desceu para almoçar no restaurante do hotel, esperando dar a hora de ir para o aeroporto para poder finalmente fazer o check-out.

***

Considerando-se uma completa idiota por isso, vez ou outra Emily dá uma olhada no celular. Talvez algo dentro dela ainda acredite que Pearson vai cair em si, ligar para ela e dizer que não vai mais embora, que ficará para viver esse romance adiado por tantos anos. Mas a cada olhada no aparelho, uma nova frustração, e quanto mais frustrada ela fica, menos presta atenção na papelada diante de si, na qual já não estava conseguindo focar mesmo, devido ao sono pela noite mal dormida.

– Esperando alguma ligação importante, juíza Decker? – Ao largar o celular na mesa pela oitava vez dentro de 30 minutos e soltar um suspiro, Emily olha para a pessoa que quebrou o silêncio dentro do gabinete. A policial de cabelos castanhos avermelhados e olhos verdes.

– Não. É só... – Decker percebe-a prestando grande atenção em si, e de repente se sente ridícula por essa insistência em querer que Jessica lhe ligue, como se a moça soubesse de alguma coisa e fosse julga-la...

Mas mesmo a jovem não fazendo ideia de nada, Emily desvia o olhar, como se sentisse envergonhada por ser tão “ridícula”.

– Não é nada. – E volta sua atenção para a papelada, mas não consegue se concentrar. Para além do desejo de pegar o celular novamente, ela sente os olhos da policial fixados nela, como os olhos de um tigre sobre a corça que pretende fazer de presa. – Sabe, Cuba... – Larga a caneta em cima da mesa, mirando a mulher que agora endireita a postura e enfia os polegares no cinto, como sempre costuma fazer. – ...você sabe que não precisa ficar o tempo todo comigo, né? Não é como se alguma das pessoas que eu coloquei na cadeia fossem pular essa janela e me matar. – Ela faz um movimento de cabeça na direção da janela de vidro aberta na parede ao lado de sua mesa.

– É meu dever estar aqui, juíza Decker. E não duvide, já aconteceu antes. – Os olhos verdes miram momentaneamente a janela, como indicando que ela se refere ao exemplo dado pela mais velha. Emily sorri de canto.

– Bem, mas não quero que fique aí entediada, de pé, olhando pra mim. Você pode sair, dar uma volta, se alguém entrar aqui, eu grito, prometo.

– Não é tédio nenhum, eu adoro olhar pra v... digo, eu adoro executar o meu trabalho. Obrigada pela preocupação, mas ficarei aqui até que termine seu trabalho. – Emily sorri um pouco mais, agora da tonalidade avermelhada do rosto da cubana e da maneira envergonhada com que ela olha para os lados, por ter se embolado nas palavras.

Decker a analisa dos pés à cabeça. Pensa em se aproveitar do momento para fazer suas brincadeiras que costumam fazer as pessoas desejarem enfiar a cabeça no chão, mas realmente não está no clima para isso. Apenas dá de ombros e tenta voltar a focar nos papéis à sua frente, quando no mesmo instante seu celular apita, informando o recebimento de uma nova mensagem.

Quase que instantaneamente ela agarra o aparelho, sentindo o coração pulsar mais depressa, e ao ver que se trata de uma mensagem da Pearson, o coração agora dá uma fisgada, e das mais fortes!

3:50 pm: Está quase na hora do meu embarque e não há nenhum Uber por perto do hotel onde estou, você poderia vir me buscar? Por favor? Vou te mandar o endereço, fico te devendo essa! – Sequer deixa em aberto a possibilidade da cantora negar o pedido.

E a fisgada no coração dela se torna um aperto. A feição da morena se entristece quase que automaticamente e isso obviamente não passa desapercebido pela policial.

– O que houve? Você está bem?

– Eu...

3:51 pm: Estou a caminho. – Responde enquanto se levanta.

– ...eu preciso fazer uma coisa agora, Ruby. – Não se importa em falar o nome da oficial do jeito certo, ou de chama-la pelo apelido. – Então... você está liberada por hoje, está bem?

Coloca o celular no bolso da calça social, recolhe todos os papéis em cima da mesa e os bate sobre a madeira para alinhar todos. Depois enfia-os dentro de uma pasta, pega sua bolsa e passa como uma flecha pela jovem, deixando-a um tanto quanto confusa, desnorteada.

Emily não sabe o motivo de sua reação, afinal, havia jurado para si mesma que não iria no aeroporto se despedir de Jessica, concordou que seria tortura demais, mas então foi só receber aquela mensagem, que mesmo se sentindo uma grandessíssima porcaria pela partida da advogada, sai em disparada para ajudá-la a chegar ao seu destino.

Talvez seja vontade de vê-la uma última vez, talvez ache que quando Pearson a ver, vá desistir de ir embora, ou talvez seja apenas masoquismo mesmo. O fato é que no instante em que o endereço do hotel lhe é enviado, Decker se enfia dentro de sua Mercedes, joga a pasta e a bolsa no banco ao lado após tirar a chave do automóvel de dentro da bolsa, e sem terceiros pensamentos, está com o carro na pista.

 

Ao receber a resposta da juíza, Pearson abre um pequeno sorriso. Mentira descaradamente ao dizer que não haviam Ubers próximos ao hotel apenas porque sabe que Emily é cabeça dura e seria capaz de deixa-la ir embora sem um último adeus. E ela não sabe se seria capaz de partir sem olhar sua amiga uma última vez.

Deu um tiro no escuro ao pedir que a morena fosse lhe buscar, e agora está feliz por ter acertado o alvo. Talvez ache que Decker insistirá para que ela fique, mesmo dizendo para si mesma que se isso acontecer, ela não cederá, talvez só queira um último gesto de carinho daquela que assustadoramente possui seu coração, ou talvez ela só goste de se sentir extremamente essencial para alguém. O fato é que Pearson faz seu check-out e posiciona-se do lado de fora do hotel, com sua mala ao lado, esperando a chegada da britânica.

***

– Obrigada. – Diz a advogada, frustrada pelo caminho de 25 minutos até o aeroporto completamente soterrado de silêncio.

A mesma frustração habita a juíza. Ambas esperavam talvez um pouco demais uma da outra e no final das contas ficaram no 0x0.

Emily não responde ao agradecimento, apenas desce do carro juntamente com a outra e lhe ajuda a tirar a mala do porta-malas.

Após resolver todo o necessário para a viagem, Jessica passa todo o tempo que tem antes do embarque conversando com Capshaw e Ramírez que chegaram para se despedir também. E conversa apenas com elas porque Emily se recusa a dizer uma palavra. Na verdade, desde que parara a Mercedes em frente ao hotel que ela só fala o essencial, o extremamente essencial.

– Vamos sentir sua falta... – Capshaw murmura, se despedindo de vez de Pearson, que agora só tem 7 minutos para se apresentar no portão de embarque. A advogada lhe oferece um sorriso em retorno, um sorriso sincero, mas que só aparece porque ela o força e muito. Por dentro está quebrada com a falta de palavras da cantora.

– Eu também... – A resposta também é sincera, mas dita num esforço tremendo assim como o sorriso.

E então, numa última gota de esperança de que Emily diga alguma coisa, de que demonstre que as coisas entre elas estão bem, vira-se para a amiga, que mantém os olhos fixados em seus sapatos pretos já há minutos intermináveis e tenta, por pensamento, pedir que a morena lhe olhe, lhe ofereça um abraço, um aperto de mão ou que seja um sorriso apenas. Qualquer coisa para que ela possa partir sem se sentir pior do que já está.

Mas parece não surtir efeito. Decker nem sequer ergue a vista. Isso porque simplesmente acredita que se o fizer, se desmanchará em lágrimas, se ajoelhará aos pés da advogada e implorará para que ela não vá, e Emily não suporta essa ideia, já se odeia o bastante por não ter se impedido de amar a mulher a sua frente, uma humilhação desse porte seria suicídio.

Pearson suspira.

– Bem, tchau gente... – Aceita que não receberá uma despedida decente da britânica e se vira, dando dois passos para longe das demais.

Mas num impulso, num impulso o qual ela repreende com veemência logo em seguida, Emily segura-lhe o pulso, impedindo-a de continuar andando.

Não chora, não se ajoelha no chão, nem sequer abre a boca para implorar que a outra fique. Apenas joga seu corpo contra o dela e enrosca os braços em seu pescoço, tentando sentir por inteiro uma última vez o corpo da mulher que ela ama.

Não é como se Jessica fosse embora para nunca mais voltar. Não é como se ela fosse morrer ou algo do tipo, mas por algum motivo Emily sabe que, uma vez que Pearson entrar dentro daquele avião, a relação das duas nunca mais será a mesma. Aquela velha amizade já está respirando por aparelhos e a paixão acabou de nascer, mas não consegue respirar. Ambos estão há aproximadamente 6 minutos de morrer e a juíza apenas quer aproveitar os últimos instantes da relação mais linda que já teve em sua vida.

Pearson se surpreende com o abraço e por isso hesita corresponder ao ato da britânica por um segundo, mas, sentido o coração ser preenchido pelo menos um pouco, por uma sutil felicidade, larga a alça da mala e envolve o corpo que se comprime contra o seu com todo o carinho que consegue.

Decker a abraça ainda mais forte. Embrenha os dedos de uma mão nos cabelos da amiga e enterra o rosto no pescoço dela como se tentasse gravar seu perfume. Isso arrepia a advogada, provoca-lhe um frio na barriga e um enfraquecer nas pernas. Nesse exato instante, se Emily disser “fica”, ela fica.

Mas isso não acontece.

E para se defender contra as sensações que está começando a sentir, Jessica tenta fazer graça:

– Certo... pode me soltar agora, Decker... eu não vou sumir pra sempre e você tá me sufocando. – A britânica a larga insatisfeita e limpa a garganta, se proibindo de chorar. – Entro em contato em breve. – Acaricia o braço da outra por um momento, que sente a área tocada queimar e deseja morrer por isso, volta a pegar sua mala, e dessa vez vai mesmo embora.

O casal de amigas da morena lhe observa a feição profundamente destruída e por um momento não sabem como reagir. Por algum motivo acreditaram que em algum momento daquela despedida a paixão iria falar mais alto. Acreditavam que nos 45 minutos do segundo tempo o “felizes para sempre” viria. Mas Emily nunca acreditou em “felizes para sempre”, não é agora que isso vai acontecer, certo?

Talvez.

Ela se põe a caminhar para sair do aeroporto.

– Hey! Você contou pra ela? – Jessica se apressa em acompanhar os passos da amiga e Emily franze o cenho diante da pergunta.

– Contei o quê pra quem? – Então Sara também se junta às duas:

– Pra Pearson, que você tá apaixonada por ela. – Os olhos da mulher se arregalam e ela olha para a latina na defensiva. Decker sabe que está apaixonada, Pearson sabe também, mas enquanto esse sentimento está apenas entre as duas, tudo bem, só que uma vez que ele toma conhecimento público a coisa desanda.

É como pôr a juíza num palco, completamente nua. Constrangedor. Embora eu tenha lá minhas dúvidas de se ela ficaria mesmo constrangida numa situação dessas...

A morena tenta argumentar, fazer suas amigas acreditarem que elas estão vendo demais e que não há paixão nenhuma rondando seu coração, mas está mais que claro o quão mentirosa é essa afirmativa, e não só para mim e você, como para Jessica e Sara que a partir de agora se empenham em fazer a britânica correr atrás do seu final feliz.

Ela luta e rebate todas as tentativas das mulheres de fazê-la perceber o quão perfeitas ela e Pearson são juntas, até que Ramírez, começando a perder a paciência com a cabeça dura da mulher, coloca-se na sua frente com ar autoritário e segura-lhe os braços.

– Emily, me escuta. Você tem no máximo 4 minutos agora pra conseguir alcançar aquela mulher, então eu vou ser breve, presta atenção! – A voz da latina assusta levemente a britânica. – Você foi crucial pra que eu conseguisse concluir o meu testemunho, pra que eu conseguisse passar por cima dos meus antigos traumas e conseguisse virar o jogo pra que as crianças ficassem com a Jess, então eu te devo isso: ... – Emily espera pela continuação, tentando se convencer a não cair na conversa que provavelmente está por vir. – ...não seja idiota! – Decker arqueia as sobrancelhas, não acreditando na ousadia da mulher à sua frente. – É claro que você está apaixonada pela Pearson, é claro que você quer ficar com ela! E você pode até achar que é imune ao romance, ao amor, ao desejo de querer dividir a vida com alguém, mas não é. Eu não sei o quê que te impede de se entregar ao que sente, o que que te impede de ver o que tá na sua frente, se é alguém que te machucou no passado ou sei lá, mas você quer aquela mulher! E ela te quer também, você sabe disso! Então o que você tá esperando pra correr atrás dela e dizer tudo o que está sentindo de verdade?

– O “não” você já tem... – Capshaw complementa. – O que te impede de tentar conquistar o “sim”? – O fato de que ela já está cansada de quebrar a cara talvez?

– Acredite, Decker... você não vai querer conviver com o “e se...” ele te destruiria... mais do que se ela não quiser mesmo ficar com você.

“Acho difícil...” Pensa a mulher. “...porque pior que a destruição do ‘e se...’ e de ela não querer ficar comigo, é a destruição do ela querer e se recusar a ver isso.”

Decker não move um músculo. Apesar de parte dela querer sair desse aeroporto o mais rápido possível, ela pondera todas as palavras que lhes foram ditas. É como se Sara tivesse acabado de fazê-la se olhar no espelho, mas um espelho que reflete o interior.

E então ela vê que deseja ficar com Jessica mais que tudo, é inegável, e não só pela perfeição que elas formam no beijo, no sexo ou até mesmo nos tribunais, o sentimento que as une é muito maior que isso e está mais que claro para a britânica. E vê também que ela realmente não é imune ao amor, ao desejo de ter alguém. Embora já soubesse disso há muito tempo, tentara fabricar uma imunidade, mas agora sabe que não funciona.

Ela lembra que quando chegou aos Estados Unidos, estava frágil, sozinha, cheia de cicatrizes internas provocadas pela sua própria família e por ela mesma, e que quando conheceu Jessica, foi como emergir após aterrorizantes momentos se debatendo dentro d’água. Aquela moça de pele negra e sorriso estonteante lhe cativara desde o primeiro instante. Lhe ouviu quando precisou, lhe abraçou e lhe deu broncas também. Fez a morena se enturmar na faculdade e no país, a fez se sentir aceita, devolveu-lhe o brilho no olhar.

E ao longo do convívio das duas, Emily percebeu o brotar de um sentimento bonito dela para com Pearson. Algo genuíno, profundo, forte, delicado, diferente de tudo o que ela já havia sentido por outras amigas ou namoradas. Ela estava amando, mas não tinha consciência disso. Até então Decker nunca tinha dito nada mais forte do que “eu gosto muito de você” para alguém, fato esse que muito irritava as garotas com quem já havia se relacionado, então ela simplesmente achava que o amor não era para ela, de fato acreditava que era imune a esta “praga”.

Mas quando descobriu que estava apaixonada e tentou lutar contra, esconder por medo de parecer idiota ou algo do tipo porque afinal, sabia que Jessica era hétero, viu que não seria capaz, que no final das contas ela não era tão forte para enfrentar algo tão poderoso.

Contou tudo, se abriu.

Se deu mal, é verdade. Mas também nunca se sentiu tão livre em sua vida! Pássaros quando estão aprendendo a voar, caem, se machucam. Boba é a pessoa que acredita que a rima entre amar e voar é coincidência... eles são irmãos gêmeos. Quiçá a mesma coisa.

Aquela fora a primeira tentativa da britânica no amor, e talvez Pearson não fosse um alvo muito bom na época, mas agora...?

Quando menos se espera, Emily está correndo a todo vapor na direção para qual Jessica se dirigiu. Se tentou por anos se manter longe dos sentimentos românticos e ainda assim foi nocauteada por eles na primeira chance, para quê continuar gastando energia com aquilo que ela não pode vencer?

Por um instante ela se acha idiota por não ter lutado com mais afinco pelo que sentia no passado, por um momento se sente mal por não ter se empenhado o bastante, como agora, para fazer Pearson perceber que o que ela sentia era real. Mas põe na cabeça que se perdeu a chance uma vez, não perderá outra. Dessa vez não vai se deixar abater por pouco como se deixou pelo beijo que presenciou na formatura. Ela não é mais uma moça insegura, é uma mulher, e que mulher!

Sempre esbarrando em uma pessoa e em outra, Emily chega até a prometer parar de fumar se conseguir alcançar a advogada. O que implica dizer que ela está disposta a realmente largar tudo que sempre acreditou por ela, porque não há outra coisa no mundo que faça essa mulher largar o cigarro!

Finalmente consegue avistar Pearson na fila de embarque. Tenta acumular um pouco do ar que a corrida ainda lhe deixou e grita pela mulher, chama-lhe o nome conquistando a atenção de várias pessoas. Se sente deslocada por isso, mas procura ignorar. Seu objetivo é um só, e ninguém pode lhe atrapalhar.

– Jessica! Aqui atrás! – E após olhar para todos os lados em busca da dona da voz que lhe chama, Pearson finalmente se vira e encontra a morena que acaba de parar de correr.

Emily, completamente desabituada a corridas desesperadas assim, apoia as mãos nos joelhos e tenta recuperar a respiração, enquanto Jessica, com o coração socando o peito, sai da fila de embarque para ir atender ao chamado da britânica.

Há vários olhares direcionados às duas, olhares atentos, e em outro momento, nenhuma das duas se importaria, mas agora a sensação que elas têm é de que todas essas pessoas conseguem enxergar o que há dentro delas. Conseguem enxergar todo o sentimento que vêm tentando ignorar todo esse tempo, e a julgam pelo que sentem, ou pela maneira torta que o fazem, e isso é simplesmente extremamente desconfortável.

– Decker! O quê? O quê que foi? – Jessica, com o coração pulsando na garganta ao imaginar um milhão de motivos para Emily estar ali ofegante diante dela, para na frente da britânica, com a maior feição de assustada. A feição que ela menos fez a vida inteira.

– Não vai embora... – Emily fala com dificuldade, fazendo Jessica sentir uma fisgada no peito e franzir o cenho.

– Eu tenho que ir Decker, você sabe disso.

– Não, não tem. Fica! Fica comigo! – A mulher endireita a coluna e olha a advogada nos olhos, decidida a convencê-la a ficar.

– Você quer dizer...

– Romanticamente falando. Yeah. – Pearson pode até sentir seu coração perder uma batida e sua respiração fraquejar levemente.

– Emily... a gente já conversou sobre isso... nós combinamos de manter nossa amizade, lembra? – Por mais que ela quisesse o tempo inteiro que a juíza a pedisse para ficar, dissesse que quer ficar com ela, Jessica simplesmente entra em pânico.

Sente olhos curiosos sobre si, pensa no curto tempo que tem para embarcar, nos casos importantíssimos pendentes em Chicago, na promessa que fez a Jeff de voltar nesse mesmo dia, no seu medo descomunal de se envolver, de perder o controle sobre si mesma, na instabilidade que Decker representa...

– Yeah! Mas porque eu tava com medo de te perder completamente! Porque achei que era melhor te ter como amiga do que não te ter de jeito nenhum, mas quer saber? Foda-se! Se você entrar nesse avião eu vou te perder de qualquer jeito. – Emily fala com expressão de desespero. E o “foda-se” não fora só para o “ser amigas é melhor do que não ser nada”, fora também para o fato de que ela não é do tipo que se declara, que expõe sentimentos, mas agora o faz. Porque agora é tudo ou nada, ou ela faz Jessica perceber que ela realmente a ama, ou perderá a advogada de vez.

– Não vai, nós continuaremos amigas!

– Mas eu não quero ser sua amiga! – Altera o tom da voz. – Meu primeiro pensamento estava errado, não é melhor te ter como amiga do que não te der de jeito nenhum. Eu não quero só te abraçar ou apertar tua mão quando te ver, eu quero te beijar! E eu não quero nunca mais ter que te chamar de amiga, ter que te apresentar a alguém como minha amiga, mas sim como namorada! – Pearson dá um passo para trás completamente atordoada e Emily apenas se sente ser preenchida por mais coragem. – É isso mesmo que você ouviu. Você não acha que eu sou alguém “namorável” e nem eu acho, confesso. Mas eu quero tentar ser! Por você!

– ma’am... o portão já vai fechar. – O homem à porta do embarque chama a atenção da advogada. Jessica olha para trás, desejando sumir e simplesmente não estar sentindo todas as emoções e sensações que agora sente, mas Decker lhe segura o rosto com ambas as mãos, conquistando novamente sua atenção. É sua última chance.

– Pearson, por favor, não vai... – Implora, evitado ao máximo chorar.

– E-Emily... e-eu... eu não...

– Não luta contra o que você tá sentindo... – Pearson tira as mãos da britânica de seu rosto e dá passos para trás, o que faz as primeiras lágrimas darem o ar da graça nos olhos acinzentados. Emily simplesmente não consegue mais segurá-las pois a cada novo segundo, menos resultado está vendo em seu apelo. – Não vai... se você precisa que eu diga com todas as letras, eu digo, e-eu tô apaixonada por você! Fica comigo!

– Eu não posso... m-me desculpa Decker... e-eu... eu não posso. Não posso fazer isso agora... – Pearson simplesmente vira de costas e caminha o mais depressa que consegue, na direção do homem uniformizado.

Eu não sei, eu não saberia explicar o que passa pela cabeça dela nesse exato momento. Não sei dizer o motivo de tanta reluta, de tanto medo. Apenas sei que é por muito, muito pouco que Decker não desaba no chão aos prantos. Ela tenta fazer uso de pelo menos uma mísera porcentagem de seu amor próprio para se manter de pé, mas seu coração está destruído.

A morena nunca pensara que poderia se sentir pior do que quando se sentiu ao saber que seus pais não a aceitavam e que a trancafiariam em uma clínica como se ela fosse alguma doente ou drogada, mas o fato é que ver a pessoa que a ajudou a superar isso e foi a única capaz de lhe despertar o amor, entrar num avião, dando fim a qualquer ligação entre as duas, parece alguns milhões de vezes pior para a juíza.

Decker abaixa a vista e sente as lágrimas queimarem suas bochechas enquanto sabe que está sendo observada. A tristeza é eminente. A desilusão é avassaladora, mas a raiva... ah, a raiva é incalculavelmente maior.

Não me pergunte o motivo, nem ela saberia responder. Pode ser de Pearson, dela mesma, dos seus sentimentos, da fragilidade que demonstrou ao se declarar, da sua incapacidade de fazer a outra ficar, de suas amigas que a convenceram a ir atrás da advogada... ou talvez de tudo isso! Não sei.

Mas a dor, a dor intensa que ela está sentindo no peito, a sensação de que nunca mais vai ser capaz de sorrir novamente, lhe assusta, a faz desejar nunca ter amado na vida, a faz desejar nunca mais amar na vida.

Emily levanta a cabeça, enxuga os olhos, endireita o blazer em seu corpo e respira fundo. Não faz contato visual direto com ninguém apenas se recusa a ser fraca. A parecer fraca. Ela pigarreia, dá meia volta e se afasta do portão de embarque para Chicago.

– Sentimentos machucam, meninas. Nunca mais me peçam pra expressar os meus novamente. – Ela fala ao chegar onde suas amigas a esperavam. Sara e Jessica demonstram estar confusas e também preocupadas pelo tom sério e seco da britânica.

Bom, é impressionante a rapidez com que ela saiu do estado de puro sentimento para frieza absoluta, tenho que admitir. Mas essa é a armadura mais eficiente da morena para se impedir de sofrer. Compreensível que queira usa-la agora.

Decker sai do aeroporto seguida pelas atrizes que tentam entender o que aconteceu e o motivo da juíza estar tão séria de repente, mas não conseguem muito dela.

A mulher entra em sua Merdeces e ameaça ir embora.

– Espera aí! Conta essa história direito! – Capshaw, a mais curiosa das duas, tenta uma última vez fazê-la falar, batendo na janela de seu carro.

– Se estiverem livres e afim de beber essa noite, me encontrem no Bodega Wine às 8:00 PM. Talvez bêbada eu esteja disposta a falar.

– Você vai cantar hoje?

– Não. Pedi folga pra poder me acabar na bebida. – Porque essa também é uma maneira de não lidar com as emoções. É incrível a quantidade de métodos que ela tem para fazer isso! – Encontro vocês lá? – Ainda preocupada com a amiga, Jessica confirma. Emily apenas dá um sorriso fraco e finalmente vai embora.

No caminho, para quando vê algumas pessoas próximas a faixa de pedestre e as deixa passar, mesmo que o sinal ainda esteja verde para ela. Alguns deles a agradecem com acenos, mas seus olhos focam apenas em um casal, que muito provavelmente nem se deu conta de sua gentileza, estão ocupados demais presos em seu próprio mundo.

Decker sorri de canto irônica.

– Romance... – Murmura com raiva, apertando o volante. – Eu nunca mais... nunca mais vou cair nessa armadilha de novo.

E uma vez que todos os pedestres atravessaram, ela arranca com o carro.


Notas Finais


Volto já!


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