História Aravon - Órfãos do Julgamento - Capítulo 7


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Aravon, Asthera, Eldora, Fantasia, Original, Sion
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Palavras 5.256
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Drama (Tragédia), Fantasia, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sadomasoquismo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


No capítulo anterior, conhecemos mais da Valéria e sua relação com a família real, assim como sua opinião acerca das pessoas de Altharia. Valéria e Aramis conversam sobre aumentar as tropas de Aravon, que estão desfalcadas e Valéria mostra a ele o Cemitério de Cristal, lugar onde os Domines - nome dos guerreiros mais formidáveis de toda Aelimur - estão enterrados, esperando o momento de serem despertados.
Por fim, quando voltam para o palácio, ela ajuda a controlar outro ataque de abstinência de Sion, que sem o Pacto de Sangue, está sofrendo as sequelas físicas disso e dificultando sua recuperação. Porém, isso lhe dá um insight sobre sangue e ela sairia a procura de Áztlan para contar a ele, mas foi interrompida por Catarina.
O capítulo de hoje se passa alguns dias depois, quando Valéria já contou a Áztlan sobre do que se trata e ele está procurando a única pessoa capaz de ajudá-lo a cumprir a missão dada por Valéria: Philip Lionheart, alguém de relativa importância no reino, mas que não suporta Aravon.

Tentarei providenciar o próximo capítulo até amanhã, porque na segunda e na terça estarei em viagem. Caso não consiga, vou adiantar os capítulos nesses dias e irei postando para compensar os dois dias perdidos de nanowrimo.

Capítulo 7 - Philip


— Mas em nome do rei Kaysar, eu venho pedir a todos que se preparem o máximo que puderem. Cerestia, seremos alvo de um ataque em breve.

Nos primeiros minutos o silêncio conseguiu ser mantido, mas conforme a informação era processada alguns murmúrios começaram a surgir. A rainha sabia o que estavam pensando, os alladia nunca haviam feito nada que fosse considerado ofensivo aos outros reinos. Como explicar uma guerra que não haviam provocado?

— Nunca demos motivos a ninguém para isso acontecer, minha rainha! — Uma voz surgia dentre a multidão, que se afastava de forma que o garoto fosse visto por Elysia. Um jovem com um par de óculos fechava o livro enquanto falava.

— Sim... deveríamos ter feito algo. — O sorriso da rainha surgiu, exausto, em sua face. Os murmúrios de antes acabaram gradativamente se tornando mais revoltados depois de ouvirem o testemunho de Elysia, mas ela ergueu os braços em seguida para novamente silenciar o público. — Mas nós não ficaremos de braços cruzados dessa vez, enquanto eles se atrevem a vir até nossas fronteiras, até nosso reino, e acharem que podem fazer o que quiserem. Daremos a eles a terra que desejam, e ela os expulsará daqui, como já fez no passado!

A atmosfera que antes estivera tão silenciosa, mas, ainda assim, apreensiva e surpresa conforme ouvia as palavras da rainha, fora sendo substituídas por sorrisos curtos de determinação, orgulho e olhares. Um efeito que nenhum rei atingira com seus súditos, em toda a História.

— Kaysar não quer que vocês lutem, ele diz que é seu dever se encarregar disso. — O sorriso de Elysia iluminou a determinação dos ouvintes, somente alladias entenderiam o que aquele curvar de lábios queria dizer. — Mas nós o apoiaremos naquilo que fazemos de melhor.

Ovações e palmas preencheram o ar, ao mesmo tempo em que uma esperança se formava entre eles. Elysia assentiu ao descer e já se preparava para espalhar a mensagem para os outros vilarejos quando avistou o garoto de antes, apreensivo e ansioso correndo em sua direção.

— Minha rainha. — E com um curvar em respeito, ele se aproximou dela.

— Que bom que gosta de livros – elogiou a rainha, e ele se permitiu abaixar o rosto, um tom leve de vermelho tomando-lhe conta da face. - O que poderia me dizer das asas de fênix?

Os olhos do garoto se arregalaram e Elysia riu diante do choque. Assim como navegantes desafortunados se davam ao trabalho de se perder naquele cenário trágico e disforme que outrora compunha Aravon, Cerestia também tinha suas lendas. Algumas mais antigas do que a própria dinastia Valleth, alguns diziam.

Mas o olhar de Elysia endureceu naquele momento. O sorriso acompanhou o olhar determinado, numa força que só vira o rei Kaysar deter em aparência e a rainha a compartilhava com quem quisesse segurar sua mão e ir para a linha de frente.

— Procurarei a informação que precisa, majestade. Com licença. — Curvou-se novamente, antes de se retirar.

Mas quando o outro olhou para trás, Elysia já havia levantado voo e os abandonado, junto a Kaysar. Antes de suas asas se incendiarem e seus corpos se desfazerem em pleno ar, transformando-se em brisa.

- …!

Aquela parte do palácio não era tão frequentada. Diziam as más línguas que sua presença expulsara a todos dali, e a biblioteca, antes lotada ou ao menos melhor frequentada, deixava-o em companhia apenas dos livros, das enormes janelas e a poeira que se acumulara nos cômodos mais antigos.

Mesmo com os olhos fechados, a sensação de incômodo se alojou rapidamente e quando os abriu, percebeu-se quase cego pela luminosidade que a janela deixava entrar, embora alcançasse apenas a mesa na qual fora vencido pelo sono, acompanhado pelas várias pilhas que ainda precisava arrumar.

Mais um pesadelo. Mais um dia naquele maldito lugar. Mais um dia em que a fortuna testara sua paciência, e o silêncio fora sua única resposta, quebrado pelo suspiro contido enquanto observava aquela multidão lá embaixo. Todos vivendo suas vidas como se não tivessem montanhas para derrubar, rindo como se não tivessem cicatrizes para esconder, pecados para expiar.

Era o que aqueles livros lhe diziam. A história daquela gente mergulhada em glórias, como se esquecessem das misérias do passado. Para uma vitória, milhares de derrotas tinham que erguê-la em seus braços e gritar-lhe odes. E cada vez que virava uma página, parte daqueles livros contava a história dos vencedores, mas o passado cuspia na cara deles em cada esquina quando ouvia os delírios esporádicos que uma embriaguez trazia,

- Quanto tempo vai ficar parado aí? - disse.

E o sangue lhe corroía as veias nas costas, sem nem precisar olhá-los de frente como os vermes que eram. Que destruíam tudo que tocavam.

- Bom dia, Lionheart.

Os cabelos de Philip esvoaçaram contra o sol ao se virar, apenas um deles ainda ousava se aventurar na biblioteca desde quando a tirana o encarregara de cuidar dali. Um presente falso de recompensa, assim que fora obrigado a escrever a história de Aravon e sua participação nela como informante.

O traidor da raça que fora ingênuo o bastante para acreditar que a rainha pouparia os outros se colaborasse com ela. O peso do desespero lhe destruíra bem mais que a honra, nem ao menos uma reputação Philip tinha, pois todos que haviam vindo com ele para Aravon agora estavam enlouquecidos ou mortos.

Descansos suaves por uma vida que levaria a deles nas costas pela eternidade.

- Qual vai levar hoje, Áztlan? - Phil resmungou, pegando mais alguns livros. - Ainda não tive tempo de separar a pilha que me pediu, se é o que quer saber.

Áztlan observa as várias sobre a mesa, num arquear de sobrancelhas e puxou uma cadeira. Sentando-se. - Na verdade, eu não vim ler.

- Então diga logo o que quer, nas últimas semanas você quase não fez outra coisa além de me dizer que queria esse livro, depois aquele outro, quem vão matar dessa vez?

Dessa vez, foi o rosto de Áztlan que se consumiu pelas marcas do passado, forçando-o a engolir as palavras num primeiro momento. Ele sabia do que estava falando, ah, como sabia… E faria questão de lembrá-lo sempre que tivesse a oportunidade. Aravanos tinham a memória curta, mas as mãos rápidas quando se tratava de matar.

- Eu não apoiei aquilo.

Era muito fácil pisar nos mortos quando eles já estavam enterrados. Aquela terra afundara e ressurgira banhada em sangue, da sua gente e daqueles que ainda morreriam por e por causa deles. Um povo que só conhecia o valor da cabeça quando ela era arrancada do corpo, ou colocada numa estaca e os punhos falavam antes de qualquer coisa. Porém, cruéis o bastante para mantê-lo vivo.

A primeira vez que o vira fora naquele cenário horrendo, apertado, úmido e desconfortável das celas do navio. Como reféns, parte dos que ainda tinham a cabeça lugar depois do massacre que presenciaram partiram para Aravon. Mas o caminho de ida fora um martírio para suas asas, tanto quanto sua alma.

Diferente deles, naquelas condições salobras jogados aos cantos, Áztlan e sua capa abriram caminho entre eles, escoltado por aquela mulher desprezível cuja voz já lhe atingira ao máximo que sua sanidade conseguia processar, dizendo impropérios e gracinhas como se quanto maior a desgraça ao redor, mais alta sua risada. O barulho de um cadeado foi o que lhe chamou a atenção quando ela comentou alguma coisa em voz baixa e se retirou depois. Escondida pelas sombras, num vislumbre da luz das janelas diminutas Philip conseguira vislumbrar alguns fios claros de cabelo.

Áztlan, porém, mantivera-se calado o trajeto todo. Mesmo quando Esther voltara nos dias seguintes com comida e água, ele as deixava de lado. Como se o jejum pudesse desintoxicar-lhe o corpo. Tempos depois, livrara-se da capa, tornando-se tão maltrapilho quanto eles lá embaixo.

- Palavras não provam nada. – Philip manteve-se irredutível. Áztlan não respondeu, porém, tampouco cedeu. Cruzou os braços e num suspiro, Philip o interrompeu. - Não contem comigo para ajudar nessa farsa, se é o que querem. Eu sei que aquela maldita serpente não está mais aqui.

Eles acham que eu não notei os livros que me mandava pegar? Que eu não seria capaz de sentir essa atmosfera tensa de tanto silêncio?

Sentira isso quando, em algum momento, suas noites não pareceram mais tão insuportáveis assim. Por mais que as memórias ainda o atormentassem, respirar já não doía mais como antes, o peso nas costas se intensificara, mas conseguia fechar os olhos e descansar por algumas horas até os pesadelos se acumularem ali e deixarem sinais dos estragos que lhe causavam, por dentro e por fora.

Mas a rainha for a presa e Áztlan não enlouquecera, o que aquela terra significava para ele de verdade? Seu juramento tinha algum valor? O capacho-consorte perdera a cabeça por muito menos e passava mais tempo sob os cuidados de Valéria do que fazendo o que prometera, manter segura uma assassina que agora estava longe de suas vistas, perpetuando seu ciclo de desespero até definhar ou morrer na tentativa.

- Então o que está esperando? - Áztlan o tirou de seus devaneios. - Isso não o impede de fugir agora.

E com essas palavras, foi a vez de Philip rir. Depois de tudo, ele só podia estar de brincadeira.

- Não. Eu vou ficar até o último instante. Quero ver esse reino cair até não restar pedra sobre pedra.

- Bem, então acho que não temos escolha a não ser nos aturar, você e eu. Enquanto eu não conseguir o que quero. - Se as palavras dele já haviam soado convencidas antes quando lhe ordenara fugir, soaram ainda piores naquele momento. Áztlan folheou alguns livros e Philip o deixou ali, ocupando-se em terminar de organizá-los - também não sairei daqui, garoto.

- Quer terminar o serviço e me matar? - resmungou, o amargo do passado em cada uma das palavras. - Vá em frente. Está demorando demais, inclusive.

Desde quando o conhecia, porém, nunca o tinha ouvido rir. Áztlan só tinha duas expressões no rosto e nenhuma entregava uma vontade latente de interagir com as pessoas. Apesar das benesses que aquela terra dava, isso não se estendia aos nativos, pelo visto. Pelo menos até aquele momento.

Áztlan conteve o riso, mas Philip teria preferido que ele não o tivesse feito. Para falar a verdade, que sequer tivesse rido, assim a raiva não seria maior agora. Sim, por mais que algumas vezes aquilo fosse a única coisa na qual conseguisse pensar, era um blefe. Aravon nunca se livraria dele, tinham questões mais importantes para resolver e dar fim a vida de um alladia não estava entre elas.

- Está doido? Claro que não. Preciso de uma informação que só você tem. Porque não resta ninguém dos seus com a cabeça no lugar pra contar a história.

Aquilo doeu e Phil sabia o motivo. Ele era o último daquela raça que fora trazida a força para Eldorado. Sabia que era assim porque quando conseguia fazer as compras, via os seus na sarjeta ou em condições ainda piores, e compartilhava com eles o pouco que conseguia. Eles não se lembravam mais de quem eram e pior ainda, haviam perdido a vontade de viver.

E por mais que lhe destruísse a alma, quando não conseguia fazê-los voltar a si, a persistirem e manter viva a memória de Cerestia, só os via outra vez quando se tornavam sementes de dente-de-leão, ou algumas estrelas a mais no céu.

- Então já aviso que a levarei para o túmulo. Não adianta insistir, agora que vocês mataram todos.

- Pode começar a se orgulhar de ser a memória deles, então. Mas certamente você não é o último da raça. - Philip estreitou o olhar, mas dessa vez Áztlan o interrompe, deixando o pensamento vagar distante dali, antes de voltar a olhá-lo. Sabia que não era o único, outros como ele havia aos montes por Aravon, mas com sanidade suficiente? Praticamente nenhum. - Há, no mínimo, mais um. Não sei se era menino ou menina.

O estômago de repente pareceu denunciar para onde aquela conversa estava indo. Philip engoliu em seco, por trás daquela expressão quase impassível e o silêncio, escondia-se uma mente perigosa. Não devia esperar por menos, como Segundo no Conselho a jurar lealdade a Eldora, Áztlan tinha qualidades demais para seu próprio bem, quem dirá para o dos outros quando usava-as para descobrir informações.

- Do que está falando?! - Tentou disfarçar.

- Em tempos de guerra é onde mais perdemos mulheres. Elas preferem lutar a se esconder, e se tiverem habilidade o bastante e o favor dos deuses, voltarão vivas para casa, mesmo compartilhando parte de suas energias com as crianças que esperam...

Áztlan suspira, e por um momento foi como se toda aquela seriedade caísse por terra. Deixara o rosto se perder entre as pilhas de livros que ainda restavam sobre a mesa, mas tinha a sensação de que for a apenas uma desculpa para não olhá-lo. Um tom acima da voz com a qual lhe cumprimentara mais cedo, talvez, as memórias de tantas guerras o estivessem começando a perturbar.

- Sei que não é da minha conta, mas...

Por que ele ainda está aqui, se não gosta do que fazem seus superiores e iguais? O que ainda o prende?

Longe dele sentir pena de alguém da laia de Eldora, mas se o dever e a lealdade eram os únicos caminhos para se ocupar um lugar no Conselho, por que Áztlan parecia não compactuar com tudo aquilo? Valia a pena ser condenado por uma afronta? Se comparado aos outros membros, ele era o mais ponderado, mas em Aravon os súditos podiam ser condenados por apenas dizerem o que pensavam?

Não se lembrava de nenhum caso parecido, mas Áztlan parecia preso ao próprio juramento e quando as consequências começaram a pesar demais já era tarde para entender que a morte era melhor do que viver com aquelas culpas. Culpas que ele não devia ter assumido, mas que o Conselho dividira entre si, na ausência da tirana.

Áztlan negou.

- Não se preocupe, é impressão sua – desconversara, claramente, e Philip não tocou mais no assunto. - De qualquer forma, uma delas abriu mão de tudo isso, uma que conheci e você também. Porque ela se casou com um dos seus.

Phil engoliu em seco. Achava que só ele soubesse de Cassandra, óbvio que não se esqueceriam dela, mas depois de tantos anos, imaginava que eles tinham memória curta, ainda mais considerando as sucessivas guerras que precisaram travar. O próprio Philip tinha sido convidado para a cerimônia, mas até o último momento ficara indeciso quanto a comparecer.

Cassandra fora a única fazer o que ninguém naquela terra se propusera a fazer, ajudá-los a ter um mínimo de dignidade. Fosse por genuína vontade, ou porque não queria vê-los largados, vagando feito fantasmas por Aravon, ela fizera mesmo assim. Mas agora isso não importava, porque Heitor, marido dela, não fora capaz de superar o remorso, era o que muitos diziam.

Depois de semanas e meses felizes, pontuadas pelas cartas de Cassandra antes de elas não chegarem mais, Heitor enchera a cara até morrer numa taverna qualquer. Mas Philip sabia que não era verdade. Aquilo fora assassinato, não tinha como provar, mas tinha certeza. Aquilo ficava estampado na cara de todos que via passando na rua.

- Se chegar perto de lá um metro que seja, Cassandra os matará - alertou. - Conseguiram transformar em inimigo até quem um dia lutou ao lado de vocês.

Aquele reino era uma chaga. Uma doença autoimune. Não precisava de qualquer ação de Altharia para isso.

- Precisamos das habilidades dela.

- As habilidades da Senhora Valéria já não são mais úteis a vocês?

Apesar de tudo, Philip ainda tinha pena de algumas boas almas que se não vivessem naquele lugar, poderiam com certeza ser mais felizes. Depois da menina Catarina, em cujo coração não conseguia encontrar um motivo para ter escolhido uma mãe como aquela – talvez fossem as aparências tão diferentes. Bondade como a dela todos eram capazes de fingir ter - Valéria certamente era uma delas.

Áztlan, porém, o ignorou.

- Você sabe onde ela está, Lionheart. Diga.

- Se ela não confiou a informação a vocês, não serei eu a contar. - Voltou para a mesa, enfim, resgatando as outras pilhas. - Era isso que tinha a me dizer? Preciso organizar a biblioteca.

- Espera! Ainda não terminamos!

- ÁZTLAN!

Entretanto, a porta se escancarou e um borrão dourado se jogou entre eles, forçando-o a equilibrar outra vez os livros. A gritaria tiniu em seus ouvidos e Esther ignorara totalmente sua presença, agarrando-se ao pescoço de Áztlan.

- Anda, tô com fome e tem muita papelada hoje.

- Estou ocupado agora!

- Vem logo, a comida vai esfriar!

Az massageia as têmporas, quieto, até Esther deixá-lo respirar um pouco, afrouxando o abraço por causa de um espirro, antes de notar que Philip também estava no recinto e passou o indicador em uma das mesas, deixando um rastro.

- Esse magrelo tá te irritando?

- Na verdade, é você que está, Esther. Estou resolvendo um assunto sério.

Ela revirou os olhos.

- Se viesse comigo de uma vez, não estaria desse jeito.

- Céus… - Áztlan tentou se desvencilhar, mas Esther era mais forte do que aparentava. Philip tentou se retirar, aproveitando a oportunidade, mas aquela aura de desânimo e fraqueza parecera ter desaparecido, e Áztlan o chamou na hora. - Ainda não acabamos, pode ficar aí!

- Tenho coisas mais importante para fazer do que ver isso – retrucou.

- Tá vendo? Agora levanta e vamos! - Esther insistiu. - Deixa esse rato desnutrido com asas pra lá, o cheiro de pena tá insuportável!

- Dê seus termos!

Áztlan conseguiu, por fim, se soltar de Esther, que provavelmente estava tão chocada quanto ele pelo que acabara de ouvir.

À essa altura, ele já estava a meio caminho de se embrenhar nos corredores outra vez, mas parou, considerando a ideia.

- Repita – disse. - Quero ter certeza que ouvi direito.

No rosto distorcido de Áztlan, um misto de expressões se avolumava. Desconfiança em suas rugas na testa, cansaço em seus olhos num instante em que o desespero se apossara dele, e o alívio quando Philip lhe dera ouvidos suficiente para tentar negociar.

- Diga o que quer em troca do que estou pedindo. Mesmo se for a liberdade, juro que será sua.

Só podia ser brincadeira.

- Uma com um cérebro parado no tempo, um com sérios problemas de memória. - riu. - Eu já disse antes, Áztlan, posso ir embora daqui quando eu quiser.

- Mas os outros que vieram com você, não! Precisarão de alguém para tirá-los daqui. - E o que veio a seguir lhe acertara em cheio. - Você não seria capaz de deixá-los pra trás.

Calou-se, ao ponto de Esther, que antes tentara dizer algo, puxar uma cadeira para sentar e resmungar alguma coisa, chacoalhando as pernas, já impaciente. Por fim, seguiu até as prateleiras e antes que Áztlan fizesse menção de ir atrás dele, surgiu com um livro em mãos.

Na guerra, os livros de Cerestia haviam também ido com os alladia, alguns se perderam pela umidade, mas durante todos aqueles anos, Philip se ocupara a reescrevê-los. Aquele, em especial, tinha mais de sua história e sangue que qualquer outro. Sua vida estava ali, suas falhas, seu passado e as bases, esperava, para um futuro que tentaria reerguer quando aquele lugar ruísse.

- Vocês derramaram o sangue da minha raça até manchar nossos rios. Não preciso da palavra de alguém que não sabe o que é honra. Então, que derrame o seu agora para me fazer cogitar que tem alguma. Juramento de sangue.

E virou-se para Esther.

- E você, se não parar de rosnar, eu os deixarei agora mesmo como se nada tivesse acontecido. Retrate-se sobre o que disse minutos atrás.

E depois de tantos anos como prisioneiro naquele lugar, Philip sentiu o quanto ser superior a alguém era contagiante e perigoso. O olhar de Áztlan para Esther, para que ela fizesse o que lhe era ordenado, era viciante, mas não suficiente para tentá-lo. No máximo, um sorriso se esboçou em seu rosto, já retesado pelos anos de autocomiseração. Era por aquele tipo de poder que grandes reis se enfrentavam e soldados eram enviados para morrer.

Ela, porém, não se calou.

- Juramento de sangue? Ficou maluco? - Esther se virou para Áztlan. - Quer dizer, olha só para ele, Áztlan! Eu poderia derrubar esse garoto com um sopro! Vai ficar calado aí e acha que eu vou deixar por isso mesmo?

- Esther… - Áztlan começou, mas ela não se deixou vencer, sem qualquer escrúpulo quando puxou Philip pela camisa.

- Encosta um dedo nele e vai ver que eu farei coisa muito pior com você! Seus ancestrais vão se revirar no túmulo, moleque!

- Esther!

A essa altura, Esther ainda os observava, mas pensou de onde teria vindo aquela voz. Não parecia a de Áztlan, mais forte. Rouca, porém, profunda o bastante para reverberar pelas paredes. Philip, porém, familiarizado com o vento em suas asas desde a mais tenra idade, sentira algo no ar, a atmosfera se intensificara ao ponto de comprimir-lhe o peito e quando se virou para Áztlan, os olhos dele haviam se cristalizado num profundo azul.

Aquele era o poder aqueles monstros haviam usado para subjugar os seus? Pensar nisso arrancou-lhe as forças por um momento, antes de se lembrar que precisava manter a calma. Tinha-os nas mãos agora, só conseguiriam o que queriam se seguissem suas ordens.

- Poupe nosso tempo e faça o que ele disse, agora!

- Nem vem! - teimou. - Eu posso rastejar pra qualquer um, mas não pra esse pobre coitado! Nem você, nem a Segunda Promessa podem me obrigar!

De súbito, Áztlan a agarrou por um dos braços antes de empurrá-la diante de Philip, que para evitar que a tivesse jogada em seus braços, deu um passo para trás. Esther, todavia, continuou praguejando e revirar os olhos assim que se aproximou. Continha entredentes a fúria, que mesmo depois de respirar fundo, ainda estava ali.

- Não peço desculpas pra alguém que se atreve a machucar Áztlan - grunhiu ela, enquanto Áztlan com um som limpava a garganta. - Mas prometo pelo menos não abrir a boca pra falar qualquer coisa sobre vocês outra vez.

Talvez levado pelo deleite de ver Aravanos subjugados a depois de anos de descaso, mortes e promessas de honra jogadas na lama, Philip arqueou a sobrancelha.

- Ah fala sério, QUER MAIS O QUÊ?! - reclamou. - Tá, tá bom, serei mais cordial e não vou erguer a mão pra nenhum de vocês. Contente agora?

Phil não respondeu, mas o livro em suas mãos se abriu sozinho, pegando Áztlan e Esther de sobressalto. Sorriu diante do susto, contendo uma gargalhada que nunca fora capaz de externalizar desde a invasão de Cerestia e se aproximou de Áztlan.

- Você prometeu.

Áztlan deslizou uma das mãos nas páginas, provocando um corte e o sangue caiu sobre elas, queimando intensamente as bordas. Phil fecha o livro, assim como os olhos e o calor no livro e em seu coração pulsaram.

- Pode me levar até lá? - perguntou ele, e quando Philip assentiu, o rosto de Esther surgiu atrás, junto a uma melodia familiar de sibilos cada vez mais altos.

Acenou para Áztlan com a cabeça, que pelo bem de sua sanidade mental, parecera ter se esquecido de sua presença no lugar. Como se já não bastasse destruir o que tocava em batalha, ela ainda tinha o dom de testar a paciência de todos com os quais convivia.

- Esther, você só está dificultando as coisas! Chega!

- Certo, então, mas quando você voltar com a cabeça pendurada no pescoço – Esther ameaçou. - vou te fazer o favor de terminar de arrancá-la! Teimoso!

Ambos foram para a janela, antes de Philip entregar-lhe um pedaço de tecido.

- Já disse. Se ela não contou para vocês, eu não vou fazer isso.

Áztlan estreitou o olhar, antes de um suspiro, resignado, enquanto colocava a venda e Philip verificava se estava amarrada forte o bastante. Quando levantaram voo, segundos depois, notara o desconforto dele pela velocidade e pelo modo como fora guiado, dificultando qualquer foco que pudesse ter em não passar mal.

Por outro lado, há quanto tempo não abria as asas? Nos últimos anos, o que antes for a sinônimo de liberdade se tornara um fardo. Andar com elas por Aravon era o equivalente a uma sentença de morte. Já não conseguia transitar em paz apenas pela cor dos cabelos e dos olhos, ambos mais claros se comparados aos de um Aravano, que transitavam entre o preto e o castanho. Aquilo parecera diminuir com o nascimento de Catarina, como futura rainha, a herança genética daquele lacaio, também de cabelos claros, servira de algo.

Mas graças ao desastre que Áztlan preconizava acontecer se não purificassem o que continham naquele frasco, Philip pudera, uma vez em muito tempo, diminuir o peso da culpa em suas asas e as manobras arriscadas para Áztlan, não passavam de um gosto de liberdade que o Conselheiro jamais sentiria.

Quando finalmente chegaram em terra firme, Áztlan se recuperou da queda abrupta enquanto ao seu lado Philip pousava graciosamente. Estavam na zona de fronteira entre Cerestia e Aravon, que apesar de ser delimitada por oceano, ainda servia como demarcação territorial.

- Entre só quando eu mandar - falou, antes de seguir para porta, inseguro. Foram quantos anos desde a última vez que tinham se visto? - Madame Cassandra, há alguém que precisa de sua ajuda.

Ela não respondeu, apenas o encarou, sabia que ele estava mentindo, sentia a aura de algo mais lá fora. Reconhecia a energia de alguém com o qual lutara lado a lado. Uma aura que não gostava. Antes de dizer algo.

- Em troca, ele deixará os alladia retornarem a Cerestia.

Os olhos dela brilharam pela luz da vela, já estava quase anoitecendo quando chegaram.

- Há aqueles que jamais retornarão vivos!

- Pense nos que poderão voltar pra lá! - Philip pediu, num último e incerto recurso. - Era o que ele ia querer!

- O que o demônio quer comigo? Que eu acabe com sua vida? Por que trouxe um demônio ao meu lar? — Ela esbravejou e por um momento Philip viu a morte de frente. — Entre, filho da morte.

A porta se abre com um ranger dolorido e arrastado, chamando a atenção de Áztlan, que entrou ressabiado.

- Deve ser de extrema importância para vir aqui, contaminar minhas terras com sua insolência e impureza – um sussurro preencheu a escuridão ao redor. - Sua raça cheira a morte. Muitas mortes.

Philip notou a voz de Cassandra tremer, a chama da vela acompanhou a oscilação, tornando-se cada vez mais cavernosa enquanto falava. Dirigia-se a eles sem se lembrar de que no passado fora parte de Aravon. Não imaginava como Áztlan deveria se sentir, mas duvidava ser pior do que perder a família ou a honra por causa de uma promessa que não era somente dever dele cumprir.

- Precisamos que destile esse sangue – disse Áztlan. - Sem ele, nosso exército não conseguirá lutar e se Altharia invadir, não seguraremos por muito tempo.

Phili tirou o frasco das vestes e mostrou para Cassandra, que olhou para o líquido e depois Áztlan, com o mesmo olhar de ódio que vira minutos antes.

- Vocês os tiraram de mim… Vocês arruinaram a minha vida… - A voz dela ressou, ágil e cortante ao ponto de apagar a vela de vez, e a claridade que adentrava pelas brechas daquele casebre quase ruído foi a única luz desde então.

Áztlan estreitou o olhar, confuso. Só então ele pareceu entender. Áztlan não sabia que Heitor fora assassinado e em sua confusão, Philip sentiu o estômago queimar. Se ele, como parte do Conselho, não sabia, significava que eles sequer haviam se dado ao trabalho de registrar o caso. Áztlan só sabia que Cassandra estivera descontente com o rumo que a situação dos alladia havia tomado, e depois disso fora embora com o marido.

Notou Áztlan perdido olhando ao redor e depois encarando Cassandra, finalmente entendendo o motivo de todas aquelas trevas, sozinha naquele lugar largada à amargura.

Como ousam me pedir ajuda?

Ela responde, já se escondendo nas trevas, indo embora. Apareceu atrás de Áztlan, abraçando-o, jogando todo seu peso em cima dele. Seus dedos percorreram o corpo, entoando uma música em uma língua desconhecida, dos antigos, de eras perdidas há séculos. Deitou sua cabeça e sorriu. A luz fraca lá de fora fez um reflexo tenebroso na parede. Poderia devorar Áztlan ali mesmo, uma mordida no pescoço, drenar seu sangue, matar.

A música que Cassandra cantou era em um linguajar rústico dos tempos de Cerestia e Philip o conhecia bem. Era o prelúdio da morte, ritos e traços daquele povo que Cassandra pouco tempo tivera para aprender com Heitor, antes de ele ser tirado dela e aprender sozinha. Mas Phil tenta uma última vez, esquecendo-se até mesmo das formalidades. Não era só uma vingança, o destino de outras pessoas estava em jogo.

- Eles ainda estão presos lá, Cassandra!

Ao menos conseguira que ela parasse a tempo, poucos centímetros da jugular de Áztlan, tenso e quase sem respirar, talvez finalmente compreendendo que estava salvo, antes de Cassandra se afastar e tomar o frasco das mãos de Philip, ainda trêmulo, e olhá-lo de perto.

- O que ganho em troca por não jogar isso no chão agora mesmo? Não me interesso por Cerestia, o que havia de bom lá vocês destruíram há anos - disse Cassandra. - O que valeria mais a mim agora do que destruir para sempre as chances de vitória de vocês?

- Se alguém matou sua família, não foi a rainha. - Áztlan engoliu em seco, ainda se recuperando da peçonha. Philip imaginou se Eldora seria tão perigosa quanto Cassandra quando contrariada. Duvidava muito, o ódio podia transformar uma pessoa, dar-lhe forças enquanto tivesse algo a cumprir, mas cobraria seu preço depois, corroendo-a. - Eu sei, porque eu me encarrego desses assuntos. Não vi nenhum registro nos arquivos… Porém, todos que eu presenciei desse tipo, posso assegurar que agimos corretivamente.

- Mas não fez o bastante. - Naquela voz, por segundos, ele pensou ter ouvido a velha Cassandra outra vez. Antes daquela figura assombrosa retornar. Dentro daquela mulher destruída a sua frente agora, Philip ainda conseguia ver a antiga sorrindo sentada ali. - E já que você aparentemente não tem nada que valha esse frasco miserável, pode voltar para onde veio e aguardar sua morte chegar, é o que faz de melhor...

- Ainda não disse minhas condições. - Áztlan interrompeu, fechando a mão que mais cedo ele cortara pela promessa do livro. Num suspiro. - Pela Promessa de Sangue. A rainha não tem nada a ver com isso. Encontrarei o culpado para você, e deixarei sua justiça ditar o resto.

Cassandra não respondeu, antes de pegar o braço de Áztlan, passando a faca por sua mão e despejando o sangue dele dentro de um recipiente feito de coco seco. Logo em seguida, jogou algumas ervas misturando enquanto cantarolava frases desconexas novamente.

O sangue ficou de um azul tão límpido quanto o céu, e quando Cassandra olhou para Áztlan, num último vestígio insistente de desconfiança, Philip compreendeu o que ela ainda relutava em aceitar.

A magia revelava o caminho, mas o sangue não mentia. No caos que aquele reino se tornara e se agravaria no futuro, Áztlan era o único que ainda dizia a verdade.


Notas Finais


Segunda Promessa - É uma habilidade que distingue os membros do Conselho dos demais.
Enquanto os Domines foram os guerreiros mais célebres de Aelimur, os 4 do Conselho podem fazer o uso da Promessa para forçar alguém a fazer o que eles querem, justamente por terem sido os primeiros a jurarem lealdade. Curiosamente, nenhum deles tinha usado essa habilidade até agora, que varia de nome conforme a ordem de adesão do Conselheiro: Valéria - Primeira, Áztlan - Segunda, Esther - Terceira. Eldora não tem, pois como reconhecida por todas as almas de Aelimur, sua autoridade como rainha já equivale a um Promessa. Porém, a dela é ainda mais poderosa e perigosa, pois foi feita a uma população inteira. E outra coisa, a Promessa não funciona contra outro detentor da Promessa. Tanto que vocês viram que o Áztlan tentou, mas a Esther ainda riu da cara dele.
Kaysar Valleth - rei de Cerestia na época da proposta de aliança
Elysia Valleth - rainha de Cerestia na época da proposta de aliança
Cassandra - uma Aravana que como dito, se apaixonou por um alladia, aceitando e incorporando sua cultura e crenças. A morte dele a tornou uma mulher amarga e vingativa, fazendo-a virar contra a própria raça.
Philip Lionheart - O alladia premiado por Eldora por ter ajudado Aravon com as informações para vencer Altharia. Porém, ele se culpa até hoje pelas mortes daqueles que vieram com ele como reféns para Aravon.


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