1. Spirit Fanfics >
  2. Aravon: Promessa de Sangue e Cinzas >
  3. Sion

História Aravon: Promessa de Sangue e Cinzas - Capítulo 23


Escrita por:


Notas do Autor


No capítulo anterior, Teara percebeu como é a vida fora da segurança das fronteiras de Syvil. Por mais que Baoh desejasse leva-la de volta depois do ataque que sofreram, a moça se enche de coragem e aceita como noivo o lacônico Príncipe e General Arthur Hazard. Porém, mesmo em companhia de Erin, uma hazaria rebelde, e Jeanne, a serva de Arthur, Teara ainda terá muitos dilemas a enfrentar com apenas um sorriso no rosto.
Apressei esse capítulo do Sion porque vou fazer uma cirurgia e não sei quanto tempo serei obrigada a ficar longe do notebook. Na verdade, era para ele ser maior, mas a outra metade fica como bônus. É o último capítulo de flashback dele.

Capítulo 23 - Sion


"Ele nunca vai te salvar.."

– Começo a achar que Esther tem razão. Você tem o coração mole demais, Cassandra.

– Por favor, saia da frente.

– Não posso te deixar passar, desculpa.

– Vai ter que deixar!

Mesmo que a escuridão ao redor não fosse suficiente para isolá-lo das vozes dos outros, era seu juízo, há muito retornado, que lhe permitia distinguir as vozes deles lá fora. Pelas frestas com as quais a janela o agraciava, alguns fios de luz das tochas lembravam-no de que existia vida lá fora. Pessoas como Esther.

E pessoas como Cassandra, que confrontavam as ordens do Conselho, cegando-o pela forma abrupta como a claridade o recebeu novamente.

– Levanta, Sion.

Braços mais finos que os seus tentaram sustentar seu peso, mas diferente dos meses anteriores, a alimentação forçada pesara em seus músculos e ossos, por mais que nos últimos dias tivesse se isolado nas celas não fora suficiente para perder o que ganhara e o que as caminhadas extenuantes haviam definido do seu corpo.

– Eu já disse, levanta! - Ela insistiu e o esforço pesou-lhe a voz ao tentar puxá-lo outra vez, mas Sion desvencilhou-se de Cassandra com o máximo de etiqueta que ainda se lembrava. Ouviu passos segundos depois e o vislumbre de alguma sombra, provavelmente Leon.

– É perda de tempo, Cassandra, ele não quer sair daqui.

"Era a terra que você queria, não é? Engole, agora!"

Um suspiro irritado se perdeu no ar, um mero vestígio que não abalou o silêncio por muito tempo, pelo menos as palavras de Cassandra ressoarem forte o bastante e muito além dos ouvidos, quando a garganta secou ao ouvi-la esbravejar.

– Ele vai querer - começou, porém a irritação pela insistência dela dissipou-se ao contemplar o que a claridade lhe revelava das mãos. Calejadas e feridas agora, marcadas assim como seu rosto e o frescor que as celas lhe conferiram naqueles últimos dias aos poucos foi consumido pelo calor das memórias e da fumaça. - A não ser que deseje que nossa rainha o tire daqui pessoalmente.

E expulsá-lo para onde? Exilá-lo?

"Desde o começo a ideia era deixar você aqui para morrer"

Ele não era nada em Altharia, títulos não garantiam que viveria para outro dia. Assim como não era nada ali, pelo menos nada além de um prisioneiro que não tinha qualquer valor em se ter por perto. O que sua vida poderia valer em troca depois da carta que os subordinados dela haviam interceptado?

O dia fora lotado por lamúrias, soluços e destroços revirados em busca de sobreviventes. Mãos e pés feridos, consumidos pelas queimaduras e olhos ardendo diante de tanta fumaça, relembrando Aravon de seus tempos mais plúmbeos quando os sussurros ainda não haviam alcançado Eldora. Um tempo arcaico que ele trouxera de volta com apenas um gesto ousado de colocar os pés ali, por mais que fosse Waltan e seus capangas a espalhar o caos.

Vislumbrara os calos nas mãos, as farpas nos dedos e as queimaduras, os ferimentos do empurrão que levara quando insistira em cavar em meio àqueles destroços, atropelado pela força do ódio deles. Quando conseguira se levantar, muito mais do que as dores dos pisoteios ou dos chutes "acidentais" que alguns dos soldados lhe dedicaram, os olhares que sentia queimar sua nuca e as costas não diferiam das lágrimas e do luto dos sobreviventes nos dias que se seguiram.

– Tá com pena? Cuida você, então, Cassandra - Esther resmungara certa vez, já em outra aldeia. Cassandra, que recebera a ordem, não tivera outra escolha além de recolher-se junto a Sion em algum canto longe deles enquanto os demais tentavam se reerguer das cinzas. O que podia dizer? Em resposta, apenas lhe dirigira o olhar, mas Sion não conseguira sustentá-lo por muito tempo. - Some com ele daqui antes que eu o arrebente!

Atentara-se a qualquer coisa ao redor, ou pelo menos ao que restara ali para não precisar suportar a piedade de Cassandra. Rápidas, mas intensas fagulhas de ódio a seu redor, insistentes em meio àquela tristeza dominante e arrasadora, mas que se arrastava em busca de recuperar o que haviam tirado deles. O que ele havia ajudado a tirar.

Ora, claro, o que esperava, idiota? Altharia o enviara para isso, sabia e aceitara os riscos, por mais que não tivesse parado para pensar neles até ali. Não imaginara que a visita fúnebre da morte se estenderia por muito além das horas que Waltan e seus homens haviam dispendido para se divertirem às custas dos moradores. Pessoas que outrora o haviam olhado com admiração, ansiosos por tocá-lo como o único contato que tinham com os outros reinos, pois Eldora os impedira de sair de seu alcance.

E mesmo assim, Altharia viera até eles e destruíra parte do que ela tentara proteger. Mesmo debaixo de seus olhos, o Alquimista rira de Eldora. E ela lhe presenteara com a terra de Aravon quando esfregara o rosto de Sion contra o chão, a terra de onde seuus antepassados haviam sido expulsos, mas que agora tentavam recuperar.

Às custas das pessoas que ele vira serem enterradas. Ele os vira com suas centenas de covas, as toneladas de terra que no passado Nemeshia não fora capaz de salvar, e que serviram apenas para condená-los à morte outra vez, depois de prometer libertá-los de Altharia. De cima da colina desviara o olhar, sufocado pelo calor que impregnara-lhe os poros. As incontáveis lágrimas derramadas mais cedo haviam tornado o solo mais macio, porém, insuportavelmente abafado.

– Oi... - Cassandra chamara, surgindo ao seu lado. - Desculpe, te assustei?

Ateve-se ao silêncio, mas Cassandra não parecera notar seus devaneios internos, talvez estivesse igualmente absorta nos próprios demônios que aquelas feições tão gentis escondiam. Acolhida pelas sombras das árvores ao redor, as brechas dos galhos, todavia, deixavam escapar alguns resquícios de claridade que alcançavam o rosto de Cassandra e mesmo seus sorrisos não conseguiam mais esconder o desânimo que se abatia, manso como o entardecer até a noite lhe descortinar os olhos.

– Não consegui devolver lenço dela...

As palavras lhe escaparam e mesmo Cassandra se espantou frente a quebra do silêncio, o único companheiro que tinham agora enquanto tantos mortos se despediam de forma igualmente abrupta.

– Pretendia devolver?

Os mais jovens buscariam a vingança. Assim funcionava aquela terra, não tardaria a rainha pedir sua cabeça para aprazê-los, ou na melhor das hipóteses, a filha ou a neta. Se antes não imaginava o motivo de eles a seguirem tão fielmente, naqueles ritos dos últimos dias conseguira ter uma ideia.

Outrora focada em analisar com Áztlan o que restara nas aldeias e como mobilizar os sobreviventes para áreas seguras, Esther se cansara e resolvera vigiar Sion o dia todo, embora afastada, impedida pelas ordens de matá-lo que a rainha ainda não lhe dera. Se soubesse que, na opinião dela, Cassandra fosse menos confiável, não teria cogitado no início daquela peregrinação que dera tremendamente errado, tentar se aproximar de Leon. No fim das contas, se tivesse tentado trazê-lo para seu lado, a situação teria sido pior, antes tivesse se aproximado de Cassandra em vez de repeli-la como fizera.

– Os outros me disseram. Não há nenhum idoso entre os sobreviventes - Cassandra murmurara. - Mas independente se quisesse, ela não aceitaria.

Sion a espiou num vislumbre.

– Ninguém pode falar em nome dos mortos.

– Eu sei - quando a voz dela falhara no último instante, interrompida pelo barulho de papel, Sion pudera notar a oscilação. Uma carta, já bem amassada, surgira em suas mãos e ao estendê-la, percebera a assinatura de Waltan. Na ausência da cera, a lama fora o bastante para deixar a impressão quando a terra secou e caiu. - Por isso, saia daqui antes que seja tarde.

Quando os hazaria se separaram no meio do caminho, alguma alma da liberdade entre eles fora encarregado de levá-la, porém, os Aravanos haviam conseguido interditá-lo antes. Chegaram ao fundo do poço de pedir ajuda para Altharia, todavia, não mais para salvá-lo.

Se não por seu irmão e súdito, que reafirmamos ser um caso perdido depois de tanto tempo exposto a esses bárbaros, imploramos a Vossa Alteza que nos envie as tropas vaestaria - lera. - Poderemos destruí-los de dentro...

– Estou dizendo, Sion - Cassandra insistiu. - Quando ela se recuperar do torpor, nada garante que você escape vivo daqui.

E para onde iria? Se o único lugar para o qual podia voltar não o reconhecia mais?

– Não sei, qualquer um. Não existe só Altharia! Pegue um navio nas terras do oeste e fuja!

Um riso calado lhe escapara dos lábios, antes de segurá-la por um dos ombros.

– Estou salvando sua vida e só consegue pensar em rir?!

– Eu não conseguiria chegar lá, mesmo se quisesse. As ordens da rainha se espalham mais rápido.

– O que pretende, então?!

Indignada, Cassandra desvencilhara-se dele, antes de deixar-se levar por algum impulso e chacoalhá-lo desesperadamente quando lhe devolvera a pergunta. Ateve-se ao silêncio, mas quando os olhos dela arregalaram pensara que seria questão de tempo até Cassandra se entregar às lágrimas, entendendo o que aquilo significava.

– Por que quer tanto me ajudar, Cassandra?

– Você é diferente - respondera.

Sion desviou o olhar, num resmungo.

– Claro que sou - disse, e o olhar incisivo de Miria lhe viera à mente, assim como seus esforços para defender a rainha e o trágico fim que sua lealdade lhe trouxera.

A morte vinha para todos, Waltan chamara os Aravanos de bárbaros, mas a forma como tudo acontecera com Miria ilustrava quão diferentes não eram uns dos outros. Os altharianos haviam chegado às terras do norte muito depois dos povos que subjugaria nos anos seguintes, estendendo a eles a identidade do império independente das práticas que adotassem em várias circunstâncias. Aquela terra era amaldiçoada e os altharianos, agentes do caos tal e qual os Aravanos que condenavam. 

O que mais ele podia ser entre os altharianos, além de apenas um lembrete de que alguns haviam nascido para reinar e para os que viessem depois não restava nada além de sombras?

Em qualquer lugar que fosse, não era nada.

E, pela primeira vez, pensar nisso lhe trouxera algum tipo de regozijo.

– Não quero que se arrisque por mim - sentenciara.

Voltaram para a capital pouco tempo depois e mesmo se não por ordem de Eldora, no mínimo pelas mãos do Conselho ele fora jogado novamente nas celas enquanto não soubessem o que fazer com ele. As mesmas que Cassandra não se importara de revistar ou mesmo de enfrentar Leon, escalado para vigiá-lo desde então.

– O que você te comido aqui, pedregulho? Anda logo! - Ela grunhiu, tentando conciliar a força com a qual o puxava e a atenção que precisava ter no caminho, mas Sion não respondeu, mesmo entendendo a retórica da frase. Bem poderia, para morrer logo de uma vez. Depois de saber que a mãe falecera em um daqueles rompantes dos altharianos, Sion ainda se surpreendia por ele deixar passar metade da comida pela fresta da porta. Se fosse Alana ou Esther, àquela altura já teria sido envenenado ou morto e teria sido muito mais um ato de misericórdia do que aquele.

Ainda assim, o esforço não adiantou. Por mais desesperada que ela estivesse para retribuir o favor e deixá-lo viver, ambos foram detidos nas saídas das celas. Cassandra, respondendo perante o Conselho e já podia imaginar quanto tempo de punição ela pegaria. Com Valéria e Esther de um lado e somente Áztlan do outro para equilibrar a pesada justiça de ambas, no mínimo receberia os castigos nas regiões mais afastadas do recém-destruído norte.

E Sion responderia perante à rainha. Cassandra passara o dia tentando convencê-lo e conforme o arrastavam por aquele corredor acarpetado que reconhecia de semanas antes, o sol que agora se punha denunciava a arquitetura refletida no chão, o único lugar para o qual se atrevia a olhar agora. Mas quando os guardas o empurraram para os aposentos de Eldora esse sentimento se manteve quando estatelou-se no chão.

Ao menos o tapete lhe recebera, atenuando a queda enquanto o crepitar na lareira quebrava o silêncio. Mas a rainha demorou em se fazer ouvir.

– Sabe o caminho de volta para Altharia?

– Sei - disse. - Mas não faria diferença agora...

Calado - ela retrucou. Abafada pela distância, a voz de Eldora foi substituída pelo som de passos. Na frente dele, vislumbrou-lhe os pés e parte das pernas, antes de um soco forçá-lo a abaixar novamente a cabeça. Engoliu em seco e com ela a dor, num suspiro enquanto fechava os olhos. - Eu devia era deixá-los decidir o que fazer com a sua vida. Se é que ainda vale de alguma coisa para eles.

O que estava esperando, então?

– Mas seria misericórdia demais. Cassandra me disse que você não foi capaz nem ao menos de fugir.

Aquele silêncio outra vez, massacrando-o por todos os lados, agitando e forçando as palavras.

– Não tenho para onde ir.

– Não sou idiota, althariano! - Num impulso, ela lhe agarrou os cabelos. Curtos como eram, a dor foi ainda maior quando Eldora se abaixou à altura dele e o forçou a olhá-la. O inferno flamejante em seus olhos dilatara e consumira a cor presente neles, agora apenas o negror o tragava para aquele imenso nada. - Ela arriscou a Promessa diante do Conselho para te tirar daqui, com chance atrás de chance que te deu! Você não foi porque é um covarde!

E mesmo com o rosto dolorido, tenso pelas mãos dela em sua mandíbula forçando-o para que não desviasse um centímetro que fosse, Sion ainda conseguira espaço entre a dor para devolver-lhe um sorriso.

– Vocês me encontrariam de qualquer forma... - respondeu, num gemido. - Senão você, seus súditos querendo vingança. Eu me prestaria a fugir, quando podem me matar aqui e agora? Pelas mãos da rainha?

Eldora o largou de súbito, mas a liberdade não durou muito, quando seu estômago doeu após o chute que ela lhe dera. O sorriso de outrora aos poucos se expandiu para um riso escasso e quase sem ar, camuflado entre os grunhidos. Como descendente de Nemeshia, da Sacerdotisa que todos veneravam em Aravon, era somente aquilo que Eldora podia fazer? Depois de tudo que a vira suportar no norte, chutes eram as únicas coisas nas quais conseguia pensar para puni-lo?

Amparou o corpo, obstinado, recuperando-se da escassez.

– Um espetáculo perfeito de sangue para seus súditos, sem dúvida.

– Por que fingiu nos defender?

– Eu não fingi - alegou, assim que a rainha fez menção de se aproximar. Outrora concentrada no reino que via na janela, aos poucos escurecendo. E era a verdade.

Desde a aparição de Waltan e seus homens, pusera-se a imaginar quanto tempo aquela aliança com Hazard, Syvil e La Vaes duraria. Se o mais destruído dos três reinos ao ponto de se agarrar às suas tradições ancestrais havia chegado naquele nível de selvageria, o que Sioux pretendia fazer para mantê-los na linha? Pensar no que mais poderia ter acontecido se Miria não tivesse se sacrificado chegava a revirar-lhe o estômago.

Não gostaria que as coisas tivessem chegado àquele ponto, mas a guerra não permitia cortesias. A vida em si já era uma guerra e sabia que o modo como agira com Waltan era infrutífero, considerando quantas batalhas ele já não teria travado. Fosse em nome dos Hazard, fosse em nome de Altharia. No fim, todos já nasciam travando suas próprias lutas e somente alguns saíam vitoriosos.

Morrendo em nome de outros, ou vivendo pela causa deles.

– A morte dela não traria benesse nenhuma - ele disse, erguendo finalmente o olhar sem Eldora atingi-lo de alguma forma, encarando-a. - Como realmente não trouxe. A maioria deles morreu e eu ainda estou aqui.

– Mas também não ganharia nos defendendo por vontade própria - a rainha desafiou.

– Realmente.

Já não dispunha da força dos músculos contra ela no momento, esperava que ele retrucasse quando também já não tinha mais qualquer argumento? Eldora estreitou o olhar e já estava ciente de que na próxima vez que abrisse a boca talvez não tivesse tanta sorte. Da mulher que que o recebera as gargalhadas já não restava qualquer sombra naquela em pé diante dele, que fez seu estômago empedrar com apenas um olhar assim que lhe dirigira a última palavra.

– Porém, vocês deram o primeiro passo na destruição de Altharia.

Eldora franziu o olhar, mas ele continuou.

– Sem o General Yarn, as tropas de Hazard ficaram agora apenas com seus Comandantes, todos nem tão brilhantes assim.

– Isso não significa nada - ela interrompeu. - Generais podem ser substituídos a qualquer momento pelo próximo que bate mais forte com um pingo de cérebro.

Era uma brecha que identificava no momento?

– Não quando o reino está totalmente defasado por dentro.

Quando deu por si, contava à rainha sobre os primórdios da conquista. De como a ofensiva em La Vaes não durara um dia em virtude da diplomacia de Ulthar, lorde na época. Da fracassada aliança de casamento que acorrentou Noemia Syvil a Altharia, entregando o reino nas mãos da irmã dela, Yrina. Das ofensivas crescentes às terras de Daekr Hazard e os sucessivos bloqueios até Altharia finalmente triunfar, quando as tropas vaestaria forneceram mais homens e praticamente dizimaram o exército inimigo. O que era Altharia agora, além de um amontoado de animais, problemas de abastecimento e soldados vorazes por sangue que as vezes lutavam até entre si para saciá-la?

– Se o que me diz é verdade. - A essa altura, Eldora retornava para a poltrona, sem se preocupar em deixá-lo onde estava, o tapete era confortável o bastante se considerasse os últimos dias no chão frio da cela. - Por que está me contando? Não pode desejar que eles sejam destruídos assim em tão pouco tempo.

A lareira em frente a qual antes Eldora se sentara era a única a vê-la em toda sua desconfiança, um olhar de esguelha e ele se afastara inicialmente, mas ainda assim estava disposto a correr o risco. Seus passos silenciosos seguiram até a rainha, abaixando-se e se sentando diante dela. Eldora não percebeu seu atrevimento de início, somente quando sentiu as mãos dele em seus pés.

– O que está fazendo, me solta!

– Eles não lamentam os mortos…

Depois de tanto tempo, a esperança de um riso que fosse brotara dos lábios dela, mas tão rápido surgira, se apagara, amargurado pela desconfiança.

– E você, por ter se consumido pelo remorso, se acha melhor do que eles? - duvidou. - Se eu não o tivesse visto entre os destroços aquele dia, não teria acreditado.

Sua pergunta ficou no ar, pois Sion não se deu ao trabalho de responder. Retirou seus sapatos lentamente, ao mesmo tempo em que amansava seus dedos, relaxando-os, ou tentando-os, levada pela dúvida, Eldora insistia em se desvencilhar. Porém, manteve-se concentrado, sem erguer o rosto e minutos depois até a rainha parecera desistir. Sem panos quentes no momento ou tempo para chamar pelos guardas a fim de pedir algum, aqueceu as mãos junto ao fogo antes de retomar as massagens nos pontos mais tensos, e nos músculos retesados dos lábios um protótipo de sorriso aos poucos surgia, ao ouvir os suspiros aliviados que ela tentava não deixar escapar.

– Não é isso... - sussurrou.

– Eu não tenho que dividir minha inteligência entre duas cabeças, Sion.

Desde o ocorrido nas aldeias, ela não o havia mais chamado pelo nome...

– O que você está planejando?

Num impulso de desconfiança, a rainha cruzou as pernas, desvencilhando-se da firmeza sutil dos gestos dele até então. Sion ergueu o olhar, mas qualquer canto daquele aposento em penumbra lhe parecia mais interessante agora, os confins distantes para os quais os olhos de Eldora o tragavam quando ousava enfrentá-la o desnorteavam ao ponto de não conseguir mais sentir o chão. Em sua vingança particular, ela lhe atormentava a alma convocando os mortos para gritarem em seus ouvidos nos parcos momentos de paz em que fechava os olhos.

– Nada... Minha rainha.

Perdão...

Cassandra estava certa. Aquela não era e nunca seria a Sacerdotisa da Perdição.

Era muito pior.

– Matou a vida inteira e acha que eu vou acreditar que essas lágrimas são de verdade?! - ela explodiu, num acesso de fúria e nos instantes seguintes Sion sentiu a garganta fechar. O que a culpa não conseguira transformar em choro aos poucos ia embora, escapando entre os dedos da rainha. - Se não fosse você, não precisaríamos ter chorado pelos nossos!

Ela tinha razão. Como tivera desde quando colocara os pés ali.

Perdão...

Ao seu redor, o negror do ódio nublava as vistas e as sombras escalavam sobre ele, o ar se extinguiu finalmente, restando-lhe apenas as gargalhadas da rainha em algum lugar distante dali, a de Sioux veio logo em seguida, adicionando mais batidas desesperadas no coração em busca de fôlego. Durante anos servindo a Altharia, fora a primeira vez que o cheiro de sangue lhe empesteara a memória de forma tão intensa e não importava o quanto se esforçasse, não conseguia se lembrar dos rostos de ninguém que matara. Apenas os incontáveis corpos trucidados que deixara para trás.

Acima deles, porém, um único se sobressaía. Não o da Eldora mulher.

Da Eldora rainha que lhe estendia os braços. Para o que ainda restava dele mesmo naquele corpo que devotara inteiramente a ela. Daquela alma que ouvia seu chamado onde quer que estivesse.

Daquele servo que abria os olhos agora e não estava ao lado dela, de onde nunca deveria ter saído.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...