História Arcanus - Capítulo 16


Escrita por: e Aella

Visualizações 231
Palavras 6.332
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Comédia, Crossover, Magia, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural
Avisos: Álcool, Drogas, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Olá, gente linda <3
Tudo bem com vocês?
Trago mais um capítulo para vocês, muito feliz, pois, depois de 8 meses de Arcanus, completamos 200 favoritos <3 Obrigada por todo o apoio de vocês, seus maravilhosos!
Espero que gostem deste capítulo e nos vemos nas notas finais <3

Capítulo 16 - XVI - A Audiência


Fanfic / Fanfiction Arcanus - Capítulo 16 - XVI - A Audiência

 

FIONA

 

Odiava os julgamentos da madrugada. Os bruxos ficavam irritados, sonolentos e sem o mínimo de sensatez no momento de expressar sua opinião. Mamãe tinha sido esperta ao marcar o julgamento do Duncan justamente naquele maldito horário. Segundo ela, por ser um assunto urgente, e os demais líderes já terem compromissos marcados durante os outros horários, só sobrou um encaixe às exatas duas da manhã. Ela poderia ter me garantido estes fatos, mas tinha aprendido a não confiar em minha mãe. Sua sinceridade acabava no momento em que seus planos estivessem sendo ameaçados; e o plano de Lilith Ventrue era, efetivamente, arrancar a cabeça de Sebastian Duncan e mandar para Brianna.

Já havia se passado dois dias que Sebastian estava sob nosso teto, comendo de nossa comida e presenteando-me com seu número infinito de apelidos inconvenientes. Minha mãe não dirigia a palavra nem a mim, nem ao Duncan. Na realidade, passava o dia trancada no escritório, saindo apenas para comer e dormir.

Eu estava me sentindo sufocada. De um lado, havia o filho de Brianna Duncan; do outro, minha mãe e seus pensamentos desumanos. Concordar com ela e matar um homem que poderia ser inocente, ou, então, ajudar Sebastian e fazer com que aquela mansão se transformasse em mais um dos meus infernos particulares.

Ah, a tensão. Meus ombros e pescoço não eram mais os mesmos desde a discussão de domingo. Mas não iria abaixar minha cabeça, não quando minha palavra estava em jogo.

Com aqueles pensamentos, e faltando poucas horas para irmos ao Congresso, entrei na banheira. O calor genuíno da água envolveu cada milímetro do meu corpo, obrigando-me a gemer baixinho com tamanho sentimento de prazer.

— Deuses... — bufei, recostando a cabeça nas costas da banheira.

Levantei a perna direita, dando uma boa olhada no tornozelo com fragmentos de espuma. Papai havia terminado de curar o estrago que um simples pedaço de madeira tinha feito no dia que encontrei o Duncan, e, agora, apenas uma pequena cicatriz podia ser vista — se com atenção.

Fechei os olhos, afundando ainda mais na banheira, deixando meu queixo ficar submerso naquela imensidão de espuma. O vapor quente já havia embaçado o espelho sobre a pia e o box de vidro do chuveiro. Logo eu teria que sair dali e ir colocar a maldita roupa social, maquiar-me, ir para o Union Terminal — consequentemente, para o Congresso.

 

~~

 

Saí do quarto às pressas, enquanto praguejava contra os sapatos desconfortáveis. Eu estava atrasada e guardando a papelada sobre a audiência em uma pasta estreita. Segurava o chapéu floppy com os dentes, e a bolsa estava pendurada sobre o ombro. No final das contas, ficar divagando na banheira sem dar atenção ao horário fizera com que as coisas não saíssem como planejado.

Quando notei que já tinha se passado do horário que combinei com Sebastian, enfiei a meia calça nas pernas de qualquer jeito e peguei o primeiro vestido que havia encontrado — um vermelho, de cor tão viva que era capaz de arder os olhos, que ia até a altura dos joelhos. A maquiagem impecável? Dádiva de um feitiço de beleza que a tempos eu não usava.

— Você disse para eu estar aqui meia noite e meia, sem atrasos — ouvi a voz baixa de Sebastian, ainda concentrada no grande número de folhas, que amassavam à medida que eu as apertava contra a pasta. — Estou aqui te esperando já faz trinta minutos.

— Desculpe, senhor pontualidade — grunhi, e o som saiu abafado graças ao chapéu que eu segurava contra os lábios. — Por que não pegou o carro e foi sozinho? — Continuava ajeitando os papéis, sem vê-lo. Ele tirou o chapéu de minha boca, numa tentativa de, ao menos, entender o que eu estava falando. — Ah, claro, esqueci que está aqui só faz dois dias e é praticamente um peso morto.

— Olha só, senhorita Fiona sabe alfinetar — soprou, dando uma risada baixa a fim de não acordar quem já dormia.

— Sei alfinetar, esfaquear, atirar, etc. — Terminei de organizar as folhas e fechei os olhos, recompondo-me. — Então, não me deixe ainda mais irritada.

Respirei fundo e contei até três, abrindo os olhos e finalmente fitando o foragido do exílio. Minha primeira reação foi engolir em seco, a segunda foi perder o fôlego e a terceira foi olhar para o Duncan da cabeça aos pés ao menos três vezes sem piscar.

Ridícula. Ridícula. Ridícula. Para de olhar. Para! — a parte racional do meu cérebro me xingava, e decido falar alguma coisa, por mais idiota que fosse.

— Este terno... — comecei a falar, apontando com o indicador a peça de roupa que Sebastian usava.

— Joe encontrou; as medidas deram certo. — Olhou para si próprio, ajeitando o paletó. — Acha que ficou bom? Esta gravata está me irritando. — Afrouxou-a, deixando-a levemente torta e zangando-se com isto. — Merda... — grunhiu baixinho, tentando ajeitá-la novamente.

— Ficou... Ficou bom, sim — falei rápido demais.

Era um terno italiano azul-marinho. A camisa por baixo era de um azul claro, e a gravata era marrom — do mesmo tom dos elegantes sapatos. Além disso, seu cabelo estava diferente; se antes chegava a atingir a metade de suas costas, agora era um corte médio, revoltado e ao mesmo tempo elegante, chegando ao meio do pescoço, mas ainda sendo possível de se fazer um rabo de cavalo. A barba havia sido novamente desenhada e cortada, e um perfume, com notas frutadas e picantes, envolvia-o.

Carregava um chapéu marrom em baixo do braço esquerdo, enquanto ainda segurava o meu com a mão direita.

Ele estava muito bonito, ainda mais bonito do que já era. Mas pensei que aquilo seria bom — as bruxas interessadas poderiam votar a favor do Duncan.

— Cortou o cabelo? — Levantei a sobrancelha.

— Joe, suas irmãs e Nicholas me levaram naquele grande estabelecimento chamado shopping. — Segurei-me para não rir daquela frase. — Uma tal de Layla, prima do garoto ruivo, cortou. — Ele não parecia confortável com aquilo.

— Layla é minha amiga... Eles te levaram no salão de beleza dela — contei, dando uma leve risada. — De qualquer maneira, o corte ficou bom... A barba também.

— Gostava do meu cabelo comprido, mas fazer o que... — Revirou os olhos, mas parou para me analisar. Era a vez dele de me olhar dos pés a cabeça, mas ele não escondeu o sorrisinho malicioso. — Está bonita, Ventrue.  

— Obrigada — agradeci com uma meia voz, tentando evitar contado visual com as orbes díspares do homem. — Bem, já podemos ir. Só arrume a gravata e tente não se sufocar com ela. — Comecei a andar pelo corredor.

— Sou um animal adaptável, não se preocupe — zombou, dando uma leve risada.

Chegamos ao fim do passadiço, logo nos deparando com a escada. Lilith estava no Congresso havia horas, e o restante dos moradores da mansão já tinham se recolhido para seus respectivos quartos. Naquela casa gigante, o silêncio estava quase amedrontador. Era possível escutar as cigarras do lado de fora e, além deste barulho, o som de meus sapatos contra o assoalho. Nada além disso.

— Erm... — Sebastian me olhou. — Quais são as chances de eu não voltar vivo de lá?

Pela primeira vez, em dois dias, não havia diversão em sua voz. O tom suave escondia o nervosismo e a ansiedade que eu sentia escapar de sua aura. Enfiou os punhos nos bolsos, voltando a atenção para os degraus.

— Diria que as chances estão equilibradas, Duncan — murmurei, continuando a descer os degraus. — Cinquenta por cento de chance de sair de lá livre... Outros cinquenta para sair de lá carbonizado.

Engoliu em seco, e não ousei dizer mais uma palavra. Quem erámos nós para decidir se uma pessoa vive ou morre? Aquilo era horrível, mas o mais terrível daquele fato era saber que eu estava dentro daquele sistema. Ativa. Matando sempre que me ordenavam, sempre que achava viável. Eu era a escória, juntamente com o resto das pessoas que se achavam superiores o bastante para matar alguém pelos seus pecados.

Entramos no Charger, e demorou alguns minutos para Sebastian se acostumar com o movimento, mesmo que já tivesse andado de carro — após nosso desentendimento na floresta. Liguei o rádio, deixando-o ainda mais surpreso. Ele observava cada detalhe do carro e examinava cada movimento que eu fazia para dirigi-lo. Desta maneira, após alguns quarteirões, ele se acalmou em seu acento, admirando a noite de primavera — repleta de estrelas.

— Voltando a falar sobre seu julgamento... — comecei, incerta. — Deve saber que cada líder na bancada tem uma personalidade diferente. Deve agradá-los se quer seus votos. Cada voto deles, equivale a cinco. Já na bancada de jurados cada voto é apenas um.

— Quantos jurados são?

— Vinte, ou seja, os votos de maior peso para você são os dos líderes e de minha mãe.

— Que droga... — grunhiu.

— Calma... — Suspirei. — O líder da Europa, Uther Lancaster, é uma das pessoas mais carismáticas que vai conhecer. Entretanto, é um grande “Maria vai com as outras”. O que Lilith decidir, ele irá seguir, mesmo que não concorde.

— Ótimo, já temos dez votos contra.

— Entretanto — continuei —, ele gosta de escutar os filhos de vez em quando. Então, mesmo sendo poucas as chances, talvez você consiga o voto a favor, caso os filhos dele concordem com sua liberação.

— Entendi.

— Temos a líder da Oceania, Zelena Aislin. Ela é ruiva, irá identificá-la rapidamente. Ela não é muito acessível. Não sei muito sobre ela, pois ela sempre faz questão de estar quieta e com uma expressão de “não me toque”. De qualquer maneira, ela provavelmente é a única líder que vai votar seguindo o que ela pensa e vê de você. Não vai se decidir por Lilith, nem por uma causa. Vai ver os fatos e, talvez, baseie-se na sua boa aparência...

Boa aparência, princesa? — Sorriu como um felino. — Quer dizer que me acha bonito?

— Você poderia levar este assunto a sério, por favor? — bufei, não segurando a risada curta.

— Desculpe. É que fico empolgado ao saber que a sucessora acha um reles exilado bonito.

— Céus, fique quieto — disse, negando com a cabeça e freando o carro assim que visualizei o semáforo vermelho. — Estou lhe explicando coisas para você tentar sobreviver; preste atenção, ok?

— Certo... — Molhou os lábios. — Já entendi que me acha bonito, só não quer admitir. — Engasgou em uma risada.

— Argh! — Apertei o volante com força. — Você é um homem detestável. Aposto que nunca, mas nunca, em cinquenta anos, uma mulher teve paciência para ficar ao seu lado!

— Sou noivo desde os quinze anos, princesa. Com mulheres, nunca tive problemas.

— É um noivado arranjado, não vale. Você mesmo me disse que tinham um relacionamento aberto, ou seja, ela preferia dar para vários em vez de dar apenas para você!

— Tem razão... — Ergueu as mãos, em sinal de rendição. — Perdi esta rodada de ofensas e provocações.

Vislumbrei o semáforo ficar verde e voltamos a nos movimentar pelo centro que, em uma madrugada de terça-feira, estava maravilhosamente calmo.

— Não vai continuar sua explicação? — perguntou-me, após um tempo em silêncio.

— Não. Espero que você morra. — Sorri para a estrada, dando mais uma risada.

— Você é uma mulher cruel.

— Ninguém mandou interromper meu raciocínio.   

Revirei os olhos, tentando ignorar as orbes heterocromáticas em cima de mim.

— Acredito que Zelena fique a seu favor — decidi continuar. — Como eu disse, não sei muito sobre ela, mas sei que ela sempre se interessa por uma boa história e montanhas de músculos. Já a líder da África, Kamaria, e a líder da Ásia, Wattana, vão votar a seu favor com toda a certeza. Não concordam com Lilith em nada, acham o exílio uma piada perigosa. Depois disso, só nos resta esperar a decisão dos jurados.

 

~~

 

Movimentado e, ao mesmo tempo, mórbido. Estas duas palavras descreviam o Congresso naquela madrugada. Bruxos em todos os cantos, corredores, salas e afins. Todos com expressões de sono, com ombros curvados para dentro, bocejando a cada dois segundos. Mesmo assim, todos curvavam a cabeça ao notar minha cabeça, cumprimentando-me com o costumeiro brilho nos olhos. Eu os respondia com um sorriso que, sim, era sincero. Aquele era meu povo. Minha família e aliados.

Entretanto, ao verem o gigante em meu encalço, a divergência de reações na direção do Duncan foi um tanto engraçada. Uns entortavam o nariz, outros fitavam-no com medo evidente e algumas bruxas o olhavam dos pés a cabeça com um desejo gritante.

Mas Sebastian mal percebia tais olhares. Estava atônito, observando cada canto dourado daquele lugar imenso, recheado de magia, pedras preciosas e ouro. Ao longe, entre as duas grandes escadas da recepção, e atrás dos balcões repletos de secretárias, havia um holograma gigante de Pris Allen — a jornalista superestimada daquele pequeno cantinho dedicado apenas para bruxos — contando as novidades que aconteciam nos territórios de cada clã.

A cidade de Cincinnati está em alerta desde que um bruxo, vindo do exílio, pousou sobre as florestas da região — disse a imagem da morena, e bufei baixinho, negando-me a olhar para Sebastian. — Não conseguimos tantas informações, considerando que o território invadido foi a da própria Akasha. De qualquer maneira, deverá ocorrer uma audiência a respeito disso na madrugada de terça-feira. Muitos estão vendo isto como uma ameaça, e, considerando que a Akasha e sua imediata não nos trouxeram muitas informações, nos resta esperar pelo pior.

— Mulherzinha traiçoeira — sussurrei para mim mesma, sabendo que Sebastian não estava interessado em mim naquele momento, mas sim na Allen.

— Notícia velha... — refletiu ele, um pouco irritado.

— O Congresso não funciona aos domingos, e as notícias se repetem até que venham outras fofocas novas. — Fitei-o de esguelha. — Sinto muito pela exposição. A equipe de reportagem daqui é infernal.

— Está tudo bem. — Começamos a subir as escadas. — Este... lugar... O que é, exatamente?

— Fala do Congresso?

— Não, sempre soube da existência do Congresso. Falo do lugar onde ele está. — Indicou uma das grandes janelas com o queixo, onde podia se ver o céu noturno e a cidade iluminada sob ele.

— Ah, claro... — Dei de ombros. — É uma pequena ilha, localizada no meio do Triângulo das Bermudas. Nenhum mundano sabe da existência deste lugar. Desta maneira, há muitos anos, quando encontraram esta ilha, os líderes não hesitaram em montar uma pequena cidade para assuntos diplomáticos e confidenciais. Assim, aqui virou a famosa Mitrad, a Cidade Dourada.

— Nunca ouvi falar... — Suspirou. — Nunca vi em nenhum livro.

— Bem, ela foi criada no meio da última guerra, após a invasão no último Congresso antes desse... Demorou para ela ser mencionada em estudos e livros. Queriam que ela ficasse escondida da... sua mãe.

— Era de se esperar — falou, olhando para cada detalhe do lugar. — O que mais há nesta cidade?

— Erm... Lojas exotéricas, lojas de ervas, livrarias, praças e restaurantes... Também temos o index e, embaixo de toda a ilha, temos a prisão e salas de treinamento para o exército Markab.

— Interessante — admitiu. — As Markab ainda usam cavalos alados? Meu pai sempre falava delas e daqueles animais.

— Depois da última guerra, os cavalos entraram em extinção, houve massacres em vários acampamentos de treinamento, incendiaram várias fêmeas em forma de vingança. — Engoli em seco. — Os que sobraram, mandamos para a dimensão sagrada, e as sacerdotisas tentam a todo custo fazer que, aqueles que restaram, consigam se reproduzir. Mas, mesmo depois de quase cinquenta anos deste incidente, temos pouco menos de quarenta cavalos.

— É uma pena...

— De fato.

Passamos por alguns corredores. A sala de audiências na qual Sebastian seria julgado estava próxima, e eu ansiava por uma xícara de café, lembrando-me que na sala de espera desta sempre havia um lanche para os jurados. Entretanto, os planos de beber um café quente ficaram para mais tarde quando esbarramos em dois indivíduos.

Engoli em seco e segurei o revirar de olhos, forçando um sorriso em direção aos dois bruxos na minha frente: Lance e Arthur Lancaster.

— Ora, ora — ronronou Arthur, sorrindo abertamente para mim. — Olha só o que esta noite agradável nos trouxe. — Aproximou-se mais e puxou minha mão com leveza, dando um beijo estalado nesta. — Fiona... Olá...

— Boa noite, Arthur. — Puxei minha mão, afastando-me um passo do Lancaster mais velho. — Lance... — Olhei para o mais jovem, que me lançou uma leve reverência.

— Bom te ver, Finn — disse o rapaz de cabelo loiro-escuro, idêntico ao do irmão, tirando o fato de que o deste era liso, e o cabelo de Arthur era levemente cacheado.

Sempre é bom te ver, Fiona — corrigiu o mais velho, desviando o olhar para o homem em meu encalço. — Creio que este é o Duncan que invadiu seu território.

— Eu mesmo, prazer — rosnou Sebastian, obrigando-me a olhá-lo de esguelha. Sua expressão cansada e entediada apenas revelava que queria se livrar daqueles dois tanto quanto eu. — Sebastian Duncan.

— Sou Arthur Lancaster — respondeu ele, e Sebastian engoliu em seco, provavelmente se lembrando que aqueles dois poderiam ser a chance para um voto a seu favor. — E este é meu irmão, Lance Lancaster.

— Vocês farão parte da bancada? — perguntei, e ambos assentiram com a cabeça. — Pensei que Ginevra também viria — referi-me a irmã mais velha de ambos, a futura líder do clã Lancaster.

— Realmente, era ela quem deveria acompanhar Arthur na audiência — explicou Lance. — Mas você, melhor que ninguém, sabe que minha irmã e... este daqui... não se dão muito bem.

— Não é todo mundo que sabe aproveitar a minha companhia. — Sorriu Arthur para mim, lançando-me uma piscadela.

— Então, foi seu dever substituí-la... — Ignorei Arthur, voltando a andar em direção a sala de espera.

— Sim — respondeu Lance, e todos começaram a me seguir até a sala.

— O pai de vocês está de bom humor hoje? — indaguei, finalmente entrando na sala e indo em direção ao aparador espelhado repleto de xícaras, biscoitos e uma bela garrafa térmica de café.

Ouvi a risada leve de Lance.

— Quer saber se ele vai dar ouvidos para nós? — Olhei para o mais novo assim que peguei uma das xícaras de porcelana. Sebastian havia se sentado e analisava os dois Lancaster com olhos semicerrados.

— Querida... — sussurrou Arthur. — Ainda não entendo porque está protegendo ele. — Indicou o queixo em direção ao Duncan, que apertou o maxilar. — Nada contra você, Sebastian... Mas, que eu saiba, você atacou esta bela dama. Gostaríamos de saber o motivo pelo qual ela irá votar a favor de sua liberdade.

— Irá votar por minha liberdade, é? — Sebastian lançou-me um sorriso felino que não passou despercebido pelos dois irmãos.

— Se eu fosse votar contra, já teria te matado, não estou certa? — Enchi a xícara de café e bebi um longo gole deste. — Arthur, não que isto entre em pauta, mas a dama aqui sabe se defender sozinha. Existe um motivo pelo qual sou a sucessora, e não é só porque minha mãe é a atual Akasha, acredite nisto.  — Vi o Lancaster engolir em seco. — Mas, respondendo a sua pergunta, irei votar pela sua liberdade, pois não concordo com o exílio imposto pela minha mãe, assim como sei que vocês e Ginevra também não concordam. Fiz os testes nele e todos me garantiram que ele está aqui em paz, em busca de redenção. Para mim, isto já é motivo suficiente.

— Eu fico extasiado com a capacidade que você tem de ser justa, Fiona — disse Arthur, aproximando-se mais de mim. — Vou conversar com o papai... — Piscou, e olhamos para Lance, que apenas lançou-me um sorriso de confirmação. — De qualquer maneira, quero que saiba que, amanhã, caso o Duncan seja realmente absolvido, eu e Lance iremos dar um apoio para você — falou, envolvendo minha cintura, a fim de me aproximar dele — e sua família. Ficaremos por lá por algum tempo, apenas por garantia.

— Não precisam fazer isto. — Não aguentaria a onda de cantadas de Arthur por uma semana ou mais. Empurrei-o levemente, notando que Sebastian ria em minha direção.

— Não seja tímida, querida. — Arthur levantou meu queixo.

— Não sou tímida. — Afastei-me dele de supetão. — Só digo que está tudo sob controle e não precisam se incomodar.

— Foi nosso pai que ordenou... Sinto muito, Finn, mas vai ter que aguentar o Arthur por alguns dias — disse Lance, provocativo. Ele sabia o quanto seu irmão era um pé no saco.

— Creio que não será um grande esforço para você, não é, Fiona? — Arthur sorriu.

— Na realidade, estarei extremamente ocupada durante toda a semana e a outra. — Não era uma mentira. — Mal nos veremos.

— Mas sempre conseguimos um tempinho, estou certo? — Arthur voltou a se aproximar, eu já estava sendo encurralada pelo aparador. — Podemos ir jantar... Só nós dois. Sei que minha companhia é muito agradável.

— Erm... — Uma tosse forçada de Sebastian chamou nossa atenção. — É claro que deve ser... agradável... Mas que tal vocês marcarem algo depois de eu ser absolvido? É mais garantido, não é? Até porque, caso me matem em praça pública, acho que vocês não serão necessários na mansão.

Graças aos deuses.

— Podem se decidir com mais calma onde vão depois de minha audiência — continuou Sebastian, com um toque provocativo e outro zombeteiro. — Podem escolher o restaurante mais romântico, e tenho certeza que Fiona quer estar tranquila na hora de escolher uma roupa para este encontro. Não é, Fiona?

Desgraçado. Cretino. Cafajeste. O número de nomes para o Duncan crescia a cada segundo. Por que não cala a boca?

— Ele tem razão — falou Arthur, com aquele sorriso arrogante. — Decidiremos depois, então. — Minha vontade de lançar um gesto vulgar na direção de Sebastian era tanta que tive que cerrar os punhos.

— Claro. — Suspirei, desviando meu olhar para Lance. — Será que... então... poderiam conversar com o Uther antes do julgamento?

— Sim, Finn — afirmou o mais novo. — Vamos procurá-lo, certo, Arthur?

— Ah, mas eu quero fazer companhia para a Fiona. — O homem mediu Sebastian dos pés à cabeça. — Não é apropriado deixá-la a sós com... ele.

— Acredito, meu caro amigo, que ela está comigo tempo suficiente para não me temer. — O Duncan se acomodou ainda mais no sofá, piscando para mim com apenas um olho e lançando-me um sorriso malicioso. — Além disso, se eu representasse alguma ameaça, como a Fiona mesma já disse, ela se viraria bem sozinha, não estou certo, imediata?

— Certamente — respondi; meus lábios deveriam estar em uma linha fina, principalmente quando vi Arthur corar diante de Sebastian.

— Tem certeza? — perguntou o Lancaster mais velho para mim, e assenti. — Sabe que posso te proteger de qualquer coisa, não precisa ficar com vergonha.

— Vergonha? — Não aguentei segurar a meia risada. — Não, não estou com vergonha, Arthur. Apenas preciso que você vá com seu irmão até Uther e me ajudem a liberar este pobre coitado. Certo?

Ele me olhou da cabeça aos pés, provavelmente duvidando de minha afirmação. Arthur sempre acreditou que o fato de eu sempre não aceitar suas investidas advinha de minha timidez e seriedade. Negava-se a acreditar que eu nunca quis nada com ele, nem com seu maldito dinheiro e muito menos com seu caminhão de egocentrismo.

Não que eu o odiasse. Sempre tive muito carinho por Arthur. Nos conhecemos desde crianças. Mas ele tinha a ideia fixa de ficar comigo, sempre falando que eu também era apaixonada por ele pelo simples fato de que ele era irresistível.

Pensando nisso, observei-o assentir rapidamente e me direcionar um último sorriso esnobe antes de seguir o irmão mais novo, deixando-me sozinha com Sebastian, que se engasgava ao segurar uma provável gargalhada.

— Não diga nada — falei assim que os irmãos se foram, e Sebastian fixou o olhar em mim com um sorriso de ponta a ponta.

— Ele está tão na sua. — Inclinou a cabeça para trás, dando uma risada que ecoou por toda a sala. — No primeiro momento, pensei que ele ia te agarrar bem aqui.

— Já disse para não falar nada, Sebastian.

— Tem como não falar? — Riu mais uma vez, endireitando-se. — Já saiu com ele?

Olhei-o com desdém, mas ele deu de ombros, esperando uma resposta.  

— Por que o interesse?

— Qual é o problema em falar de relacionamentos? — Levantou a sobrancelha grossa, e corei. — Ora, Fiona, não precisa ficar com vergonha — repetiu o que Arthur anteriormente falara em um tom provocativo. — Só quero saber se, a certeza que ele tem que você nutre sentimentos por ele, advém da burrice dele ou dos seus incríveis poderes em iludir um homem.

— Iludir um homem? — cuspi as palavras, cruzando os braços contra o peito. — Você não me conhece, exilado.

— Ora... Pela maneira que ele estava apaixonado por você... pensei que vocês dois poderia ter... — Entendi o que ele estava insinuando.

— Não! — exclamei antes dele terminar a frase. — Não que isto lhe interesse, mas não, não mesmo!

— Ah, então ele só é burro... Um burro com ego inflado... Coitado. — Assoviou, fazendo-me bufar longamente. — Seria compreensível se você tivesse iludido o coitado com uma noite romântica. Mas isto...

— Cala a boca, Sebastian — rosnei já com cólera, apenas em imaginar o que seria a “noite romântica” que o Duncan estava se referindo. — Qual é a satisfação que você sente em me irritar? — Apoiei-me no aparador, colocando mais café na xícara que eu segurava. — Não vejo você fazendo isto com minhas outras irmãs.

— Tenho mais intimidade com você.

— Eu não te levei ao shopping. — Bebi todo o líquido de uma vez só. — Logo, o nível de intimidade está igual. Se é que podemos nos dizer íntimos com apenas dois dias.  

— Que seja... — Levantou-se, aproximando-se de mim. — Não sei dizer porque gosto de te provocar — falou, pegando uma xícara para ele. — Só sinto necessidade de fazer isto. De ver seus olhinhos brilharem com raiva. — Encheu a xícara de café e deu um gole rápido, batendo sua xícara na minha com um sorriso de canto.

 

SEBASTIAN

 

Tentava me fixar apenas nela, enquanto os dedos brincavam com o botão do paletó. Vários olhares e cochichos eram direcionados a mim. Lilith bebia de sua água sem dar atenção aos demais. Uther — o único homem na bancada de líderes — lia alguns papéis, e apenas pensei no quanto aquele homem era parecido com seus dois filhos, que conheci mais cedo. Zelena media-me com os braços cruzados, enquanto Kamaria e Wattana conversavam entre si com uma seriedade ainda maior do que Fiona sempre estampava.

Mas, ainda assim, com os líderes dos clãs provavelmente revisando meu caso, deixei minha atenção nela, em Fiona Ventrue, que conversava com Lance e Arthur Lancaster. Os três estavam entre outros dezessete bruxos que eu nunca vira, lembrava-me apenas da moça de cabelos castanhos — a jornalista que havia aparecido no holograma. Pris alguma coisa, se eu não estava enganado.

Dando um último suspiro, nossos olhos se encontraram, e Fiona assentiu levemente com a cabeça, como se tudo estivesse sob controle. Mas a chegada do anão, atravessando o espaço entre mim e a bancada dos líderes, obrigou-me a fechar os olhos com força e engolir em seco.

— Boa noite — disse Frederic, assim que se acomodou atrás de seu púlpito com base de leão dourado. Todos se levantaram, e fiz o mesmo. — Caro senhor Sebastian Duncan, você jura pela sua honra, por seus antepassados, pela magia e por seus líderes, dizer a verdade e só a verdade?

— Juro — disse em alto e bom som.

— Sendo assim, dou início à audiência. Sentemos. — Todos os presentes se assentaram, inclusive eu. — Como nunca tivemos um caso como este, irei dar esclarecimentos de como irá ocorrer o julgamento de hoje. Ao fim do inquérito, abriremos votação pela condenação ou absolvição do réu. O voto de um líder equivale a cinco e, de um jurado, apenas um. Caso haja empate, a demanda será passada para a Sacerdotisa Maior, que deverá desempatar a partir dos fatos expostos. Neste julgamento não há defesa, nem acusação, portanto, todos estão livres para discutir durante o caso, diante de seus conhecimentos éticos e profissionais. — Diante da última informação, os cochichos aumentaram.

— Ordem — falou a Akasha, silenciando as bancadas. — Comece, Frederic.

— Erm... — O anão começou a ler os papéis dispostos a sua frente. — Estamos aqui reunidos, a fim de julgar as ações de Sebastian Duncan, de quarenta e nove anos, filho de Brianna Frey Duncan e Salazar Duncan. — O terror nos olhos de todos aqueles bruxos era palpável.

Frederick começou a contar tudo o que eu havia falado para Fiona. De quanto tempo havia fugido do exílio (três semanas), de quando precisei repousar na Colômbia e quando, enfim, cheguei até Cincinnati, envolvendo-me em um duelo justamente com a sucessora.

— Depoimento da senhorita Fiona Ventrue, por favor — Uther disse para a bruxa, que ergueu o queixo levemente em sua direção.

— É claro — falou com suavidade, levantando-se e indo a passos tranquilos até o centro da sala, na minha frente. Fez uma reverência rápida diante dos líderes.

— Conte-me, senhorita, o que de fato aconteceu na tarde de sábado. — O Lancaster se acomodou mais na cadeira onde estava, inclinando o tronco para frente, interessado na Ventrue.

— Bem... Eu estava no estabelecimento da minha irmã, Emília Ventrue, quando sentimos uma presença mágica. — Passou o peso do corpo para o pé direito, os braços justos contra cada lado do corpo. — Teleportei e o encontrei na floresta...

— Houve um ataque — Zelena interrompeu. — Partiu de quem? Qual foi o estopim para tanta violência?

— Partiu de mim, senhora — respondeu Fiona, cerrando levemente um dos punhos. Suspeitava que suas bochechas estavam ganhando aquela coloração vermelha. — Não me orgulho de dizer que, assim que eu o vi, por reflexo, talvez, eu tenha o jogado contra várias árvores. Ele encarou aquilo como uma ameaça, e começamos a duelar sem motivo aparente.

— Então, assume que, a destruição de uma de suas florestas, da ameaça que trouxe a nosso povo aos olhos dos mundanos, é sua, e não de Sebastian Duncan, um foragido do exílio? — a mulher ruiva perguntou, atraindo todos os olhares para Fiona, que abaixou a cabeça. Não podia ver seu rosto, mas sabia que, seja lá o que ela estivesse sentindo, não era bom. E tudo aquilo para proteger um mentiroso.

Um reles mentiroso.

— Não é apenas culpa dela, senhora — falei sem perceber, levantando-me. As palavras fluíram como cetim em minha boca, causando mais cochichos.

— Não é seu momento para falar, senhor Duncan. — Frederick ajeitou seu paletó, olhando-me com repreensão.

— De fato, não — proferiu Zelena, fitando-me de esguelha. — Mas, continue, estou escutando.

Fiona virou-se para mim, as sobrancelhas juntas em total advertência. Via em seu semblante que ela falava um alto e claro “cala a boca” e quase pensei em realmente calar e voltar a me sentar, mas todos me olhavam. Deuses, até o cachorro que uma das juradas carregava me olhava.

— Senhor? — Zelena chamou minha atenção.

— Ah... — Respirei fundo, voltando ao mundo real. — Como eu ia dizendo... Considerando que, mesmo que a luta tenha partido dela por puro reflexo, nós dois temos culpa por tal... exposição. Apenas isso.

— Concordo com ele — Wattana Shi, a líder de olhos puxados e careca, disse com suavidade para os demais líderes. — Qualquer um aqui faria o mesmo que Fiona, e, se até mesmo o réu está tentando ajudá-la nesta situação, não vejo porque continuar acusando a menina, uma de nós, desta forma.

— Ainda não chegou sua vez, Tana — respondeu a líder da Oceania.

— Não sabia que precisávamos de uma senha para opinar, Zeleninha — alfinetou a mulher de pele negra e turbante branco, Kamaria. — Pensei que Fiona iria testemunhar o que aconteceu e fazer parte da votação por ter passado mais tempo com ele, não ser acusada de algo. O foco é o filho de Brianna, não a filha da Akasha.

— Meninas, acalmem-se... — implorou Uther, apertando as têmporas.

— Deixem que minha filha responda — interrompeu Lilith, o sorriso venenoso para cima da primogênita. — Uma pergunta foi feita, uma pergunta será respondida. E a pergunta foi feita apenas para você, Fiona. Você assume sua imprudência?

Um silêncio se formou. Os cabelos dourados de Fiona pareceram perder a luz por alguns instantes antes dela levantar o queixo e responder.

— Assumo — disse firme, os braços atrás da lombar, segurando as próprias mãos tão fortemente que eu conseguia ver os nós de seus dedos ficarem brancos. As costas nuas, por conta do decote do vestido vermelho, estavam rígidas.

— Ótimo... — Zelena não mudou sua expressão, ou falta dela. — Pode continuar?

Os cabelos de Fiona se movimentaram quando esta assentiu e continuou:

— Depois de tudo, levamos ele para casa e seguimos o protocolo diante de invasão de bruxo estranho, que se encontra no art. 67 da lei de território.

— E, diga-me, Fiona — Wattana deu um sorriso gentil na direção da Ventrue. — O que acha deste homem? Oferece perigo? Passou mais tempo com ele e sua opinião é sempre muito bem-vinda em nossas audiências.

Fiona olhou-me rapidamente de esguelha. A tranquilidade em seu lindo rosto não alcançava os olhos, muito menos a fala, que falhou duas vezes antes de começar a fluir:

— Após os testes que foram feitos neste homem, conversas e... perguntas...

— Não estou falando dos testes, querida. Estou falando dele como pessoa. Em testes, até mesmo pessoas com má índole passam. — Jurei ter visto os olhos da asiática atacarem Lilith Ventrue.

— Ah, certo... — Ela corrigiu a postura. — Não acho que ele ofereça perigo, senhora. Acho que é... — falou, mas engoliu em seco novamente — sincero... ao dizer que quer ser livre.

Não entendi o motivo da fisgada que senti em meu peito com aquelas palavras. Na realidade, entendi; mas, ao mesmo tempo, não. Talvez o fato de Fiona ser realmente uma pessoa boa, e que eu estava a enganando, havia mexido com meu psicológico. Pensei que enfrentaria mulheres injustas como Lilith, achei que a sua sucessora fosse igual ou ainda pior. Mas Fiona era justa. E ela estava garantindo a todos os bruxos ali presentes que eu também era uma pessoa boa. Eu, o homem que traria para sua vida apenas desgraça.

Eu deveria ter esperado por algo assim — pensei comigo mesmo. Não será fácil, não será nada fácil, mas siga em frente, ignore-a. Aproveite que ela está te ajudando. Isto é um sinal de que ela é capaz de confiar em você. Um maldito sinal de confiança, Sebastian.

— Perfeito, sem mais perguntas. — Zelena voltou sua atenção para as folhas em sua frente, e Fiona voltou para seu antigo lugar. — Senhor Duncan, peço que repita seus motivos pela invasão em Cincinatti, Ohio.

Minha vontade de revirar os olhos era genuína. Já estava cansado de contar aquela mesma história — uma história cheia de verdade, mas, ao mesmo tempo, recheada de mentiras — novamente.

— Eu vivi quarenta e nove anos dentro de um exílio. Tínhamos pouca comida, nenhuma infraestrutura, mas muito sofrimento. Cresci em meio àquele caos e sempre me perguntei o motivo pelo qual eu estava ali dentro. — Fixei-me em Lilith. — Sabia o motivo pelo qual os anciões estavam lá, claro. — Sorri de canto e molhei os lábios. — Mas eu não fiz nada de errado, nem dentro daquele lugar. Pelo contrário, sempre estava disposto a ajudar as pessoas que, assim como eu, estavam ali pelo simples motivo de serem filhos dos seus inimigos. — Dei um estalo com a língua. — Pretendia fugir daquele lugar já fazia um ano. Sabia que minha magia era forte o suficiente para me ajudar a ultrapassar a barreira.

— Desculpe interromper — falou Kamaria, e assenti com a cabeça. — Nos depoimentos se fala que, além de você ser um Dignus e ter a mesma magia específica que nosso grande e eterno Orion Duncan, Brianna também fez um pacto com o Ser de Vários Nomes em seu nome. Ela deu seu pai, Salazar Duncan, em troca.

— É verdade. Acho que, melhor do que ninguém, os senhores sabem como Brianna Duncan luta para ter o que quer. — Ergui o queixo. — Ela entregou meu pai em troca de força, resistência e regeneração para meu corpo; para que eu não sofresse os sintomas da magia das trevas quando começasse a usá-la.

— E o senhor diz nunca ter usado tal magia.

— Sim, e volto a dizer que nunca usei.

— E contou para alguém sobre tal fuga?

— Apenas para minha noiva, Edlyn Beauchamp.

Beauchamp. — Riu Uther, com certo tom de escárnio. — É claro que seria uma Beauchamp. Foi um noivado arranjado?

Olhei para Fiona, e ela negava com a cabeça. Beauchamp. Eu não tinha falado que Edlyn era uma Beauchamp para Fiona.

— Sim. Nosso noivado era mais... diplomático... do que afetivo — falei, ainda focado na mulher, que agora apertava as têmporas.

— Entendo... — Uther mordeu os lábios e entortou o nariz, evitando contato visual comigo. —  Acho que a senhora — disse ele para Lilith — já pode nos transmitir as memórias do rapaz para darmos o intervalo antes dos momentos finais e da votação.

Lilith se levantou, não me dando nem um olhar atravessado. A expressão de tédio da mulher me irritava mais do que a expressão de raiva do domingo. Ela passou as mãos pelo vestido enquanto continuava a andar, saindo de trás da bancada e se dirigido até mim, que continuava sentado. Trinquei os dentes quando ela me lançou um sorriso de puro escárnio.

Exibi uma expressão tranquila, mesmo com a vontade insana de arrancar-lhe a cabeça.

A telepata semicerrou os olhos e levou a mão — com dedos magros e longos — até minha testa. Seus olhos, sempre cinzentos, começaram a ficar ainda mais claros, juntamente com a pupila. Senti uma ardência significativa na testa. Os pelos do meu braço se arrepiaram. Voltei meus olhos para Fiona. Ela brincava com o pingente de seu colar com certa agonia, ao mesmo tempo que ignorava algo que Arthur lhe contava. Minha atenção retornou para a Akasha, e, quando a dor em minha cabeça se intensificou, as orbes de Lilith estavam iluminadas, em um branco total e leitoso.

Um fio prateado saiu de minha testa e se enrolou no braço da mulher, alcançando sua própria testa em uma explosão de dor e choque. Ela abriu a boca, a fim de recuperar o fôlego e, após um leve grunhido, aquele fio se multiplicou quando saiu de sua cabeça; multiplicou-se tantas vezes que era impossível contar, mas cada fio se dirigiu a uma pessoa ali presente. Ninguém ficou de fora daquela magia. Todos se envolveram em prata, trincando os dentes quando o fio chocou suas testas.

Tudo que eu enxergava se duplicou. Minhas memórias pareciam estar sendo sugadas, como se Lilith fosse um aspirador, arrancando cada parte de minhas lembranças, mesmo que algumas estivessem sendo manipuladas graças a poção de Adoniss. Todos iriam ver o que Lilith veria e, desta maneira, veriam o mesmo que Fiona viu. Eu seria liberado. Tinha que ser liberado diante daquelas memórias.

Assim, ao mesmo tempo que minha cabeça ficava pesada, e minha visão duplicada, meu corpo amoleceu e tudo ficou escuro. 


Notas Finais


Primeiramente, perdão se encontrarem algum errinho. O capítulo, mesmo já corrigido por mim, ainda não foi betado, e quando lemos várias vezes a mesma coisa acabamos por deixar algumas coisas passarem batido hehe
Será que Sebastian vai ser liberado?
Me contem sobre suas teorias.
Aliás, estava pensando em fazer um jornal de como imagino as "vozes" dos personagens quando escrevo os capítulos ahahah sim, não leio com a minha voz, mas sim com voz de dubladores. Digam aí o que acham de um jornal assim <3
Desde já agradeço, não esqueçam de votar para o próximo personagem no jornal da Cassandra <3 Estamos com um empate e preciso de uma alma boa para desempatar hahaha
Beijinhoss e até o próximo <3


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