História Arcanus - Capítulo 18


Escrita por: e Aella

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Palavras 5.596
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Comédia, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Ficção Adolescente, Magia, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural
Avisos: Álcool, Drogas, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Veio com dois dias de atraso, mas finalmente tive tempo para postar. Nos vemos nas notas finais <3

Capítulo 18 - XVIII - O Festival


 

XVIII

━━━━✧❂✧━━━━

ATHENA

 

Exército. O que entendemos sobre exército? No Google, exército é a força armada de uma nação, destinada a fazer a guerra em terra, ou, então, uma grande unidade de forças terrestres que compreende várias divisões. Tendo em vista estes significados, podemos dizer que exército é, basicamente, a galera que se ferra em uma guerra quando seus superiores os chamam. E isto não era diferente no mundo bruxo.

Markab — o famoso exército da Akasha. Composto apenas por mulheres poderosíssimas. Olhar para cada uma daquelas guerreiras me causava uma série interminável,e confusa, de tremedeira, admiração e temor.

O Festival Anual de Luta para Jovens Bruxoscomeçara e isto significava que, por sete sábados consecutivos, deveríamos ter aulas de luta corporal e estratégia com aquelas mulheres de olhares tão duros quanto rochas vulcânicas. Já era o sexto festival que eu participava, e a única diferença entre estes anos era que, agora, Nicholas sentava-se ao meu lado.

As mesmas bruxas irritantes riam em minha direção, como se ainda estivéssemos no colegial ou, mais precisamente, no fundamental. Os rapazes continuavam sendo a minoria, considerando que, de trinta jovens, apenas cinco eram homens, contando com o Nick. A pessoa mais nova continuava sendo Abraham Macmillan — um garoto magricelo e de cabelos cacheados — de dezessete anos, e o mais velho deste ano era Vincent DantasAislin, o único sobrinho da líder da Austrália.

Vincent... Ele era meu ponto fraco.Não só pelo fato de ter tirado minha virgindade há alguns anos, mas também pela pessoa que era para mim e para os outros em sua volta: excepcional.

Como sempre, Vince entrou na sala com um sorriso contido, dando um rápido cumprimento para todos da sala. A pele dele parecia estar ainda mais bronzeada — um brilho dourado envolvia-o. Os olhos castanhos e amendoados continuavam com o mesmo brilho, os cabelos queimados do sol estavam mais longos e o sorriso parecia estar ainda mais branco.

— Oi, Ath — falou quando passou por mim.

— Vince — respondi, observando-o se sentar na última carteira.

— Céus... — Suspirei, voltando a olhar para a frente.

— Eu quero ir embora — ouvi a voz da Katrina, atrás de mim. — Já estou com fome, e esta palhaçada nem começou!

— Paciência, Kat — Tina disse. — É o primeiro dia do Nick, ele deve estar empolgado, não é mesmo? — Olhou para o ruivo, que apenas deu de ombros.

— O que exatamente vamos fazer aqui? — Nicholas perguntou.

A sala tinha, no máximo, quarenta carteiras e ficava no meio de um imenso jardim em Mitrad. Os passarinhos entravam pelas imensas aberturas entre as colunas brancas e douradas, contornadas por flores cor de rosa e verde-limão. Três guerreiras carregavam suas espadas na frente da louça, conferindo se todos já tinham chegado por meio de uma lista com fotos.

— Vamos lutar sem magia — respondi, levando os olhos para cima. — Minha mãe já te explicou.

— Qual o sentindo de lutarmos sem magia se temos magia?

Uma onda de gargalhadas foi ouvida atrás de nós, obrigando-nos a virar na direção desta.

— Ah, novato, todos nós sabemos que a filha da sucessora não consegue usar magia — AntonellaPedrad, uma italiana ridícula, falou com seu sotaque arrastado.

Katrina se virou para ela, batendo as unhas vermelhas contra o tampo de madeira da carteira quando disse:

— Você diz como se conseguisse ao menos entender o que está escrito no grimório da sua família, não é, Nella? — Sorriu Katrina, com veneno escorrendo pelos lábios. — Aliás, você sabe ler? Dizem por aí que você é tão burra, mas tão burra, que não sabe nem soletrar laranja!

Quem estava próximo assoviou e riu do que fora dito, fazendo com que Antonella ficasse tão vermelha quando uma pimenta.

— Ao menos não ficamosnos misturando com bastardinhas que se acham superiores aos outros pelos créditos da mamãe! — AdelaideReeves pronunciou, estourando uma bola de chiclete entre os lábios carnudos. — Aliás, Athena, ainda não me explicaram o motivo pelo qual sua mãe não te abortou. Esta é uma grande dúvida do pessoal lá de casa.

— Bom saber que seus parentes estão tão desocupados que decidem falar da vida alheia no jantar — gritou Vince do fundo da sala, fazendo-me perceber que todos do recinto olhavam na direção da discussão.

— O papo ainda não chegou no amante da bastarda, Vincent — Adelaide respondeu com diversão na voz.

Uma onda de gargalhadas foi ouvida do restante dos bruxos — da nossa plateia particular. Cochichavam meu nome com zombaria, nojo e afins. 

— Vocês falam como se suas avós não tivessem sido obrigadas a trepar com humanos para dar continuidade à linhagem — falei baixo, tentando concentrar-me na barra de minha saia e evitar os xingamentos que ouvia nas minhas costas. — Sem humanos, vocês, com suas famílias de merda e sem nenhum poder aquisitivo ou influenciador, seriam o mesmo que pó hoje, esquecidos juntamente com Perséia.

— Pode até ser, Athena. — Sorriu Adelaide. — Mas a questão aqui é que nossas avós foram obrigadas a fazer isto para salvar nossas famílias. Sua mãe, pelo o que dizem as más línguas, trepou com um humano porque estava bêbada e, para ajudar, você acabou nascendo sem nenhuma magia. Nasceu apenas para sujar a pureza dos Ventrue. Sorte que os deuses lhe fizeram infértil, assim não será possível você manchar ainda mais a nobreza bruxa. Bastardinha de merda.

— Na realidade, sorte é que os deuses lhe fizeram uma bruxa que consegue usar magia — respondi. — Assim, numa possível futura guerra, enquanto fico em casa viva e comendo pipoca, você vai estar tostando suas banhas em uma fogueira inimiga.

— Ao menos estarei morrendo com honra — retrucou.

— Veremos se estará pensando em honra quando se transformar em porco assado. — Levantei-me, dando uma última olhada nos meus amigos. — Vou beber água, já volto.

— Olha só, a bastardinha fugindo — consegui ouvir Antonellaantes de sair da sala. — Era de se esperar algo assim de alguém que não consegue se defender nem de um mundano tarado.

— Fiquei sabendo que ela ficou tão bêbada no dia que nem notou quando ele rasgou ela. Além de fraca é uma alcoólatra.

Suspirei e fechei os olhos com força, andando a passos firmes para fora daquele ambiente. Senti as unhas rasgarem a pele de minhas palmas quando cerrei os punhos e engoli o choro que acusava tomar conta de mim a qualquer momento.

Era sempre a mesma coisa. Sempre o mesmo tormento.

Athena Ventrue, a bastardinha de merda. A híbrida que sujou a pureza dos Ventrue. A filha da sucessora que não consegue usar magia alguma. A Nada Ventrue. Aquela que deveria ter sido abortada, ou abandonada em um orfanato. E agora, para adicionar, a Ventrue que não conseguiu se defender nem mesmo de um tarado.

Sempre. Sempre. Sempre.

— Inferno... — rosnei baixinho, sentando-me no primeiro banco de madeira que achei, diante de um belo chafariz em formato de sereia.

Expirei e inspirei até acalmar meu coração, que estava acelerado.

— Gostei de imaginar a Adelaide tostando em uma fogueira. — A voz animada foi reconhecida de imediato.

Virei-me rapidamente, vislumbrando Vincent com as mãos dentro da calça caqui. O sorriso de canto era uma espécie de indagação, para que se aproximasse ou não de mim.

— Fiquei imaginando uma maçã na boca dela — falei, apontando para o lugar vago ao meu lado. Ele precisou de mais três passos para ficar na frente do banco e se sentar. — Aliás, obrigada pela sua pequena intervenção na discussão.

— Não precisa agradecer.

Ficamos em silêncio por um momento, olhando atentamente para o chafariz em nossa frente.

— Faz tempo que não te vejo — falei.

— Estou começando meu treinamento de líder — explicou. — Sabe como é, daqui dois anos o mandato irá ser alterado e sou um dos possíveis herdeiros da liderança do meu clã.

— Pensei que sua prima que iria ser a futura líder da Oceania.

— E provavelmente será — disse e riu rapidamente —, mas como meu nível mágico é igual ao dela, e sou um bruxo puro, minha mãe obrigou minha tia a me treinar também.

— Deve ser legal — admiti. — Digo, conhecer os outros clãs, os negócios diplomáticos... Lembro-me quando acompanhava minha mãe no treinamento dela.

— Sua mãe é a futura Akasha, o treinamento deve ter sido bem mais interessante que o meu, além de ser mais longo. — Pegou uma folha de um dos arbustos atrás de nós, cortando-a em várias partes para se distrair. — Mas devo admitir que está sendo uma experiência bem legal.

— Imagino.

— Athena... — Engoliu em seco. — Não dê ouvidos para aquelas garotas. Elas têm inveja de você, por você ser filha de quem é. Elas podem, algum dia no futuro, ser bruxas poderosíssimas, mas, ainda assim, terão que abaixar a cabeça para a filha da sucessora.

— Acha mesmo que quero que abaixem a cabeça para mim, Vince? — Ri com uma grande dose de escárnio. — Depois de anos escutando elas, finalmente compreendi que não importa o tempo que passe, sempre serei uma bastarda. Nada irá mudar isto. Sou uma garota sem magia, sem pai e que, na realidade, nem pode ser considerada uma Ventrue. — Neguei com a cabeça. — Vincent, eu quase fui estuprada! Não consegui nem me defender... Se não fosse pelo novato, aquele cara iria me arrebentar!

— Eu fiquei sabendo...

— Todos os sobrenaturais da terra já devem estar sabendo.

— Eu sinto muito...

— Sei que sente. — Suspirei. — Sabe... Lembro-me quando fui para minha primeira festividade bruxa aqui em Mitrad. Não havia muitas crianças bruxas em Cincinnati, tirando Katrina, e nunca me senti a vontade na escola, no meio dos humanos, pois eu tinha medo de acabar falando mais do que eu devia para eles, então, afastava-me de todos. Achei que em Mitrad seria diferente, que poderia me abrir, fazer amigos. Mas, logo no primeiro dia, um grupo de crianças, do qual eu havia tentado me aproximar o dia todo, empurrou-me numa fonte... Queriam me afogar... Forçavam minha cabeça para baixo, outros três me seguravam...

— E eu tirei você de lá, certo? — concluiu, e olhei para ele de canto. — Eu lembro, era mais velho. Tirei você de lá e te levei para sua mãe.

— Sim — assenti. — Aí, no outro ano, tentei me aproximar de novo, e de novo, e de novo, mas, quando não me jogavam ovos, tentavam me queimar.

— Eu sei, recordo-me de tudo — Vincent falou. — Mas sabe do que eu me lembro também? — Ergui a sobrancelha, indagativa. — Que você nunca deixou escapar uma lágrima. Uma lágrima sequer... Ao menos, na frente dos outros.

Sorri e, por um momento, apenas o assovio dos pássaros e a respiração tranquila de Vincent era possível de ser ouvida.

—Você é forte, Nena — falou, apertando minha mão. — A garota mais forte que eu conheço.

— Não sou forte, Vince — repliquei. — Sou só uma anoréxica sentimental que, quando desistiu de ser uma bruxa, passou a ser a garota má e inconsequente. — Brinquei com a unha do polegar.

— É só sua forma de se proteger do que... acontece. — Deu de ombros. — Eu, por exemplo, sou arrogante quando são ruins para mim, mas não quer dizer que sou de fato arrogante.

— Se está tentando me deixar melhor, Vincent, não está dando muito certo. — Ri. — Mas obrigada.

Ficamos nos olhando por alguns segundos antes de eu sentir minhas bochechas começarem a esquentar.

— Bem... Vamos parar de perder tempo e voltar para o festival sem acréscimos na minha vida. — Levantei-me, arrumando a saia que eu vestia. — Estou louca para esfolar alguém no ringue.

— Esta é a Athena que eu conheço — disse, levantando-se também.

— A bastardinha Ventrue está louca para comer porco assado, Vincent Aislin. — Sorri, olhando meu reflexo no tanque do chafariz.

— E o Aislin, que nunca será líder, está ansioso para ver como Adelaide ficará com uma maçã presa entre os dentes.

 

~~

 

Todos tinham trocado as vestimentas. As roupas de couro, os coletes e as proteções estavam espalhadas pelo corpo de todos ali presentes. Enfileirados na frente do ringue, com as posturas eretas e queixos levantados, acompanhávamos a marechal-general, Pandemônio, andar de um lado e para o outro, pensativa, analisando os bruxos da primeira fileira.

Pandemônio — o nome que substituíra o seu de nascença, quando ela entrou para o exército — era uma mulher de longos cabelos castanhos, pele bronzeada e olhos de um tom indecifrável, uma mistura de vermelho com marrom, que lembrava a terra roxa. Dona de curvas e músculos bem distribuídos, maxilar firme e beleza exorbitante, Pan — como era apelidada — já era general há vinte e cinco anos.

A mais ranzinza delas, provavelmente.

— Falaram-me que teríamos um novato este ano — disse antes mesmo de dizer boa tarde. — Um passo à frente. — Nicholas, que estava ao meu lado, engoliu em seco e deu um passo, atraindo a atenção da general, que olhou para ele dos pés a cabeça. — Nome?

— Nicholas Donnovan — respondeu em um fio de voz.

— Sabe lutar? — indagou, levantando a sobrancelha.

— Não, senhora.

— Então, trate de ir para a ala de treinamento com a marechal Éris. — Apontou para a mulher de compleição magra, pele pálida, curtos cabelos negros e de traços faciais fortes.

Os olhos negros de Éris encararam o Donnovan com impaciência, antes que fizesse um sinal com a cabeça e começasse a andar na direção da ala de treinamento.

— Segue ela — sussurrei entre dentes para o rapaz, que parecia mais nervoso do que uma criança no seu primeiro dia de aula. — Anda logo, cara! — Empurrei-o antes que Pandemônio, que encarava Nicholas até o momento, começasse a perder a paciência e gritasse com ele.

Nicholas saiu aos tropeços, apressando os passos para que fosse capaz de acompanhar a mulher que — com os braços rígidos ao lado do corpo e punhos cerrados — quase chegava ao portão de passagem para o saguão.

— Muito bem... — prosseguiu Pandemônio, olhando para cinco das garotas mais novas e Abraham. — Vocês seis, aí no fundo, o que estão esperando? Sei muito bem que não fazem treinamento físico em suas casas! — Cruzou os braços. — Sigam a Éris!

Os seis abaixaram a cabeça e, a passos ligeiros — e após uma leve reverência para general —, se colocaram a fazer o mesmo que Nicholas, indo até o saguão de treinamento.

— Certo... Acredito que, agora, possamos retomar nossas atividades costumeiras. — Passou a mão pelo cabo de sua espada, presa em seu simples cinto de feltro. — Pensei, quando tive tempo, em como poderia começar nosso festival este ano. O que eu poderia fazer com cerca de trinta inúteis que pensam que vivem no mundo de Oz, que ficam fazendo poções do amor durante o dia e se teleportando para a casa dos amantes à noite.

Uma das oficiais, que assistia tudo que acontecia junto de outras duas, deu uma risada baixa e, talvez, um pouco nostálgica.

— Acontece que não consegui imaginar nada de interessante, além de pensar que eu poderia me divertir em ver alguns ossos quebrados. — Sorriu minimamente, como se fosse algo quase impossível; sua expressão era muito dura para um sorriso. — Então, decidi começar este ano da mesma forma que terminamos o festival passado: luta livre no ringue até que o primeiro desista.

Eu e Katrina nos olhamos. Nossa expressão era a mesma: sorriso de ponta a ponta e um olhar mais maldoso do que o do próprio Diabo — isto se o Diabo, de fato, sorria.

— Como sabem, o ringue tem magia de anulação... Enfraquecerá a magia de vocês aos poucos, mas, mesmo assim, em alguns de vocês, dependendo da resistência, poderá sobrar um resquício de magia e, tendo em vista isto, ressalvo a regra principal dos duelos que se seguirão: é totalmente vetado o uso de magia, assim como feitiços e poções — Pan falou alto. Suas mãos agora estavam atrás da coluna ereta. — Caso qualquer um de vocês use, independente do grau ou necessidade, estará banido definitivamente do festival, além de ter a desonra espalhada por toda Mitrad e, consequentemente, por todo o planeta Terra... Quer dizer... Por todo canto que tenha algum bruxo, pois farei questão de espalhar tal feito. Desta maneira, quem está disposto a ser o primeiro a lutar?

O silêncio reinou no campo onde estávamos. Tinha a leve impressão que voltaria mais bronzeada para casa naquele dia, pois o sol queimava meu nariz e bochechas, obrigando-me a cerrar os olhos para que pudesse enxergar a general. O barulho dos pássaros ainda era o único som quando percebi alguém, da segunda fileira, dar um passo à frente e levantar o braço. Adelaide Reeves.

— Irei lutar — falou com um sorriso tão cínico que tive que conter a vontade de revirar os olhos. — Mas quero lutar com a bastarda.

— Traduza, garota. — O olhar cortante de Pandemônio fez com que a Reeves diminuísse sua superioridade e engolisse em seco.

— Quero lutar com Athena Ventrue — disse, e sorri com escárnio, inclinando levemente a cabeça para o lado.

A general olhou para mim, mesmo que fosse difícil identificar uma criatura tão baixa no meio de tantas pessoas altas e fortes.

— Quer lutar com ela, menina? — perguntou a general.

— Não vejo problemas, general — respondi.

 

~~

 

Esfregar a cara de alguém no barro, logo após acertar um bastão em suas costas, nunca pareceu ser tão conveniente. Adelaide, literalmente, comia lama. O traje que antes era branco — idêntico ao meu —, parecia nunca ter sido de tal cor, tendo em vista que, agora, estava inteiramente marrom. Os cabelos castanhos pareciam um ninho de pássaros recém feito, e lágrimas quentes escapavam de seus olhos azuis, mesmo que a lama, que sujava sua face, escondesse-as assim que estas deslizavam por seu rosto — que tinha formato de coração.

Acertei-lhe uma última vez com o longo bastão de madeira — que deveria ser maior que eu —, entre as costelas, fazendo seu corpo rolar para o lado contrário. Inerte, e ao mesmo tempo com a respiração descompensada e olhos aflitos ao observar meu corpo se aproximar do seu, a bruxa mostrou os dentes. Não um sorriso, muito menos uma tentativa de rosnado, mas, sim, trincando os dentes de dor. Uma linha fina de sangue escapava de seu nariz, e esta podia ser notada apenas por ter um brilho a mais do que o barro que enfeitava o rosto de Adelaide.

— Olha só, parece que finalmente encontramos a fantasia perfeita para você, Addy — cantarolei com sarcasmo. — Um saco de merda.

— Vaca maldita — rosnou com a voz tão trêmula quanto os dedos que se viam apoiados no chão. — Aquele humano, que te atacou, deveria ter te matado.

Senti minha expressão se contorcer com ódio, as pontas de minhas orelhas esquentaram e, tendo em vista a raiva que crescia por cada centímetro do meu corpo, apertei o bastão em minhas mãos; apertei tão forte que, por um breve momento, tive a leve sensação que poderia quebrá-lo ao meio com uma facilidade fora do comum, principalmente quando escutei a madeira ranger.

Como escutei o rangido? Nem eu mesma sabia.

Só sabia que queria ver Adelaide Reeves pagar por tudo que tinha me dito mais cedo e por todos os anos desde que nos conhecemos.

No ringue, em meio às armas e a luta livre, nenhuma bruxa irritante poderia tirar meu holofote. Bastarda ou não, eu era boa em bater nos outros. Minha mãe dizia que isto havia nascido comigo: os reflexos rápidos, as defesas oportunas e os movimentos precisos.Eu não duvidava disso, pois eram naqueles momentos de luta que eu me sentia livre e bem comigo mesma. Desta maneira, nem Adelaide Reeves — que se ofereceu para lutar contra mim —, nem outra qualquer bruxa ou bruxo da minha idade, era capaz de me vencer. Eu não permitiria aquilo. Aquele era meu espaço, a minha conquista.

— O que disse, porquinha assada? — Finquei minhas unhas nos cabelos de sua nuca, puxando sua cabeça para cima. — Acredito que, se você continuar falando palavrões para a bastarda Ventrue, terei que enfiar uma maçãzinha nesta sua boca podre — sussurrei em seu ouvido. — E, a cada lágrima que você soltar quando seus lábios começarem a rasgar, vou enfiar a maçã mais e mais fundo até você morrer sufocada!

Senti o sangue quente de Adelaide molhar a ponta dos meus dedos quando finquei ainda mais as unhas pontudas em seu couro cabeludo. Minha vontade de amassar seu crânio e de pisar em sua cara, quebrando todos os ossos de sua face, era surreal.

A garota gemeu de dor. Ela não tinha mais forças para gritar e, desta maneira, apenas fez um sinal com a mão, avisando que havia desistido — ou que tinha perdido a luta há muito tempo. Entretanto, não larguei seus cabelos quando Pandemônio anunciou que Adelaide havia desistido e eu, Athena Ventrue, havia ganhado.

Apenas me concentrava naquela vontade fora do comum — do meu comum — de arrancar todos seus membros e espalhar pelo ringue.

— Já chega, Ventrue! — Foi a voz grave da general Pandemônio que me despertou de meus devaneios. — Ela já desistiu!

— Arm... — Abri e fechei a boca duas vezes, lembrando onde eu estava, o que eu estava fazendo e, principalmente, do que estava planejando fazer com a garota. — Desculpe, general.

Larguei os cabelos da Reevesantes de lhe dar as costas, mesmo sabendo que era um risco, considerando que nunca se deve dar as costas para um javali selvagem.

Mas, considerando meus pensamentos de segundos atrás — e do sangue em minhas unhas e dedos —, provavelmente eu fosse tão selvagem quanto Reeves.

Quando sai totalmente do ringue, comecei a retirar o colete e o restante das proteções — que ficavam por cima do conjunto de couro—, ignorando as mãos e os pés sujos de barro. Deixei as proteções em um canto, para que outra pessoa pudesse usar, e voltei a olhar para a general, que anotava algo em sua prancheta. Não sabia se deveria adiar aquela conversa, principalmente depois do meu breve momento de insanidade no ringue.

Mas eu não poderia mais adiar aquilo. Não mais.

Aproximei-me da mulher de grande estatura e tossi forçado para chamar sua atenção. Pandemônio levou os olhos rapidamente sobre mim, mas não demorou muito para voltar a se concentrar em sua prancheta.

— Você estava com uma expressão amedrontadora lá no ringue — falou, anotando algo com sua caneta de pena azul. — Aí, para adicionar, demorou para largar aquela garota que, por sinal, sempre esqueço o nome... Pensei que tinha ficado louca, menina.

— Desculpe, novamente... Ando meio, sei lá... estressada... e me descontrolei um pouquinho.

— Você provavelmente quebrou uma costela dela, Athena — disse com a maior naturalidade do mundo. — Claro, nada que uns bons medicamentos não ajudem em alguns dias, mas não deixa de ser um osso quebrado. E isto me agradou bastante, pois era justamente isto que eu queria ver hoje: fraturas.

Olhamos para o ringue, vendo quatro oficiais carregarem Adelaide em uma maca.

— Então, antes que me pergunte — começou ela. — Você foi bem. — Fungou e fez uma expressão de poucos amigos assim que deu uma rápida olhada para o ringue. — KATRINA E JORDAN, VOCÊS SÃO OS PRÓXIMOS!

É claro que Katrina iria lutar com um cara.

Ambos se posicionaram no meio do ringue, minha amiga havia escolhido dois facões como armas, enquanto que Jordan, um rapaz de ombros largos, braços e coxas fortes e pele maravilhosamente escura, havia escolhido nada mais que um pequeno machado.

Observamos um pouco da luta até que a general voltasse a falar:

— Você foi bem, como sempre, menina. Sua mãe treinou você brilhantemente e, a cada ano, está evoluindo mais.

— Obrigada, general. — Foi impossível não sorrir, desviando meus olhos da luta para a mulher. — Ando me esforçando mais nas artes marciais e nas armas, já que... Sou... limitada.

— Entendo... — Desviei meus olhos para o chão, mas levei um grande susto em seguida, quando a general gritou: — KATRINA, VOCÊ NÃO PODE ACERTAR AS BOLAS DO ADVERSÁRIO!

Voltei a olhar para o ringue. Jordan retorcia-se de dor. Estava de joelhos sobre o barro, com uma mão sobre o membro golpeado e a outra na boca do estômago. Katrina tinha as duas mãos na cintura, com uma expressão preocupada — não com o rapaz a sua frente, mas sim com a bronca que levaria da general.

— Foi reflexo! — respondeu Kat com certa naturalidade, levando os olhos da general para o garoto repetidas vezes. — Eu juro que foi reflexo!

— LEVE ELE PARA O AMBULATÓRIO! — Pan revirou os olhos. — Idiotas... — sussurrou.

Um silêncio prevaleceu entre nós, e, se eu não tivesse mais algo para falar com aquela mulher, começaria a ficar desconfortável.

— Erm...

— Certo! O que você quer, menina? — interrompeu-me e ergueu o queixo em minha direção, com sua superioridade costumeira. — Sei que não está na minha frente com uma cara de idiota à toa.

Abri um sorriso sem graça.

— Você é sempre desconfiada, né? — Ri forçado, mas a general permaneceu com a expressão de poucos amigos. — Desculpe... — Dei um longo suspiro, reunindo coragem suficiente. — Eu estive pensando... Na realidade, já venho pensando nisto há alguns anos...

— O que, Ventrue? Diga logo!

— Arm... — Engoli em seco. — Eu queria saber se, por um acaso, existe alguma possibilidade de eu entrar para o exército — disse tão rápido quanto na hora que derrubei Adelaide no ringue.

A mulher endireitou a postura, olhou-me da cabeça aos pés com uma expressão palpável de interrogação e, por fim, cruzou os braços, inclinando levemente a cabeça.

— Está falando sério? — indagou, mas me mantive calada. — Deuses, você realmente está falando sério! — Negou com a cabeça, dando uma rápida olhada para o ringue. — Menina, escute, não entendo o motivo pelo qual você quer se meter com as Markab.

— Quero entrar desde os meus treze anos! — exclamei. — Mamãe tinha entrado na época, a fim de aprender mais com vocês...

— Eu lembro. Você a acompanhava em todos os treinos porque não tinha babá. — Fungou. — Ainda assim, Athena, no que está pensando?

— Eu sonho em não ser rotulada... Acredite, é meu maior sonho! — Molhei os lábios. — Vocês, Markab’s, não são rotuladas — expliquei. — São guerreiras, deixam de lado o próprio nome, não se importam com o nível mágico, apenas... protegem os outros... lutam... Sempre gostei desta ideia.

— Não é bem assim, Athena — Pandemônio disse com uma seriedade congelante. — Está certa, dentro do exército somos todas iguais. Não há rótulos. Somos irmãs... Mas, para fazer parte disso, existem regras para se alistar que estão acima do meu cargo.

— Mas...

— E você não cumpre praticamente nenhuma dessas regras, Athena — interrompeu-me, e tranquei a respiração. — Você não consegue usar magia. Na realidade, a quem diga que, de fato, você não tem magia alguma. O nível mínimo para se alistar é o Magna!

— Mas já ouvi histórias de bruxas que entraram com níveis inferiores... Eu li isto na index!

— Abrimos exceções quando estamos com falta de bruxas, principalmente quando estamos com conflitos em vários continentes, mas você não entra nesta exceção, pois não está em nível algum! 

— Mas eu luto bem, melhor que qualquer um aqui. Sou ágil e sei usar qualquer arma...

— Coisas mágicas são, na maioria, resolvidas com coisas mágicas, não com armas ou socos!

— Sou boa em poções e em alguns feitiços também...

— Acha que no meio de corpos e guerra você vai ter tempo de fazer um feitiço ou poção, Athena? — falou mais alto. — Não, não vai... E vai morrer! Esta ideia ridícula está fora de questão, Ventrue.

— Me deixe, ao menos, provar que consigo... Um teste talvez...

— Não é não! — rosnou. — Estará melhor ao lado da sua mãe, fazendo sua faculdade... Mais tarde irá, provavelmente, lidar com os negócios diplomáticos... Pode até entrar no lugar da Pris Allen, sabe que odeio aquela fofoqueira.

— Não me encaixo com os negócios diplomáticos e não quero ocupar o lugar da Allen...

— Pois trate de se encaixar, pois não irá entrar no exército. — Voltou a olhar para a prancheta. — Fim de conversa, Ventrue.

Ela se afastou, aproximando-se do ringue. Já eu, permaneci no mesmo lugar, paralisada enquanto olhava para o calçamento de pedra.

Estará melhor ao lado da sua mãe... — repeti o que ela havia me dito com desdém no tom. — Quando vão perceber que não sou uma parasita e que mamãe não é a merda do hospedeiro? — sussurrei para mim mesma, começando a andar em direção ao vestiário.

Eu era realmente uma idiota. Uma garota de meio metro e sem magia querendo ser Markab. Chegava a ser cômico. Mas, no fundo, pensei que ela poderia reconsiderar. Eu estava treinando praticamente todas as noites, logo depois do jantar, quando dizia para todos que iria me recolher. Dormir não era mais uma opção depois da quantidade de pesadelos que eu estava tendo com Taylor Baker. Há semanas eu não tinha uma boa noite de sono, dormia apenas três horas antes da faculdade, mas, ao menos, não sonhava com nada.

De qualquer maneira, mesmo intensificando meus treinos, eu era fraca. Para um humano eu poderia ser considerada acima da média, mas para bruxos — com suas magias — eu era exatamente o que diziam de mim, uma nada. Pensei que, caso eu conseguisse entrar para o exército, poderia ao menos provar meu valor, ser alguém diferente do que diziam. Entretanto, pelo que parecia, eu não era nada além do que falavam. Até para a general eu era uma incapaz, mesmo ela acompanhando meus treinos desde que eu era pequena.

— Idiota — resmunguei, entrando no lugar repleto de armários e indo até o meu, abrindo-o e pegando minhas roupas junto de uma toalha. Fui até os chuveiros e arranquei a roupa que eu usava, jogando-a em um canto junto das roupas limpas.

Deixei a água lavar o pouco de barro que havia penetrado em meus cabelos, unhas e braços. A maioria das pessoas havia continuado a assistir as lutas e, por conta disso, eu estava sozinha — o que era um grande alívio. Não estava a fim de ouvir mais xingamentos e ter que revidá-los.

 

~~

 

 

Cheguei a casa antes de todos. Não esperei Nicholas concluir seu treino, nem a luta de Tina com Sandy. Pensei, em um breve minuto, em ver minha mãe no Congresso, mas lembrei que ela estaria lotada de reuniões e eu só iria atrapalhar.

A cor quente do crepúsculo vespertino — com seus tons alaranjados — adentrava na mansão pelas janelas, refletindo nas paredes brancas que espalharam em mim uma sensação extasiante de paz.Finalmente em casa pensei. O silêncio predominava e o cheiro de rosas e jasmim destacava-se no hall de entrada.

— Fome... — sussurrei para mim mesma, sentindo minha barriga roncar quando comecei a andar em direção a cozinha.

Adentrei no enorme cômodo, com os olhos vidrados na geladeira mais próxima, quando me deparei com algo se movimentando pelo canto do olho. Assustada, virei totalmente minha cabeça na direção da mesa, suspirando de alívio quando percebi que era apenas O Agregadolendo um jornal velho.

— Isto é de semana passada, Agregado — falei, obrigando Sebastian a abaixar o periódico.

Ele estava, de todas as maneiras possíveis e impossíveis, nojento. Poderia sentir seu fedor do outro lado da cozinha e agora, sem o jornal tampando minha visão, pude ver que o cabelo médio estava duro de suor em um rabo de cavalo, o rosto estava oleoso, a regata branca estava longe de estar realmente branca e as pontas de seus dedos estavam tão pretas quanto meus olhos.

— Eu não tive oportunidade de ler os jornais da semana passada, Mini Fiona — respondeu, sem mudar a expressão de tédio estampada em sua face brilhante de suor.

Sebastian Duncan estava morando conosco apenas por onze dias, mas já parecia se sentir em casa — considerando que apoiava os pés sobre a mesa da cozinha enquanto lia um jornal velho e bebia, em uma caneca de chope, vinho. Depois dele me chamar inúmeras vezes de Mini Fiona, decidi começar a chamá-lo de Agregado, por mais que nossas conversas, na maioria das vezes, fossem incrivelmente agradáveis e normais, fato que sempre me deixava surpresa — pois nunca pensei na possibilidade de me dar “bem” com aquele homem.

— De qualquer maneira, deveria ter considerado um banho antes de se acomodar na cozinha... Aposto que todos os alimentos daqui devem ter apodrecido com este seu cheiro.

Ele riu, negando com a cabeça antes de pegar a caneca e terminar com o vinho em base de segundos.

— Não estou me importando muito — replicou, relaxando os ombros.

— Mas eu estou. — Segui até a geladeira, pegando a travessa de lasanha que tinha sobrado do almoço. — Como está o celeiro?

— Está indo... — Deu de ombros, desanimado. — Estou quase terminando a base... Depois disso, vem o trabalho pesado.

— Legal — falei, colocando um prato com a comida no micro-ondas.

— Você está com uma cara péssima. — Dobrou o jornal no meio. — O que houve?

— Nada que seja da sua conta, Agregado.

— Uh, tão grossa quanto a mãe. — Fez um gesto falso de dor no estômago que me obrigou a sorrir de canto.

— Minha mãe não é grossa. — Tirei a lasanha do micro-ondas. — Lasanha?

— Não, obrigado; e ela é grossa, sim. O diferencial é que ela é uma estúpida elegante.

— Que homem observador. — Dei a primeira garfada, saboreando o gosto incrível daquela lasanha. — Quer dizer, é impossível não observar minha mãe. Ela é uma deusa.

Ele apenas deu um risinho e cruzou os braços, arqueando a sobrancelha após ficarmos um tempo em silêncio.

— Como foi o primeiro dia de festival?

A vontade de revirar os olhos era gigantesca, mas me contive.

— Normal — bufei. — Bruxas idiotas, sangue e sujeira.

— O Donnovan não chegou ainda...

— Ele continuou lá, eu que sai mais cedo — interrompi Sebastian, com a impaciência palpável. — Tentei falar com a general para tentar me alistar nas Markab, mas, como esperado, meu pedido foi negado. Então, decidi vir embora.

— E por que foi negado? — Sebastian parecia confuso.

Enfiei mais uma garfada de lasanha na boca antes de responder:

— Oras, você não sabe? — Suspirei. — Não tenho magia, Sebastian.

O homem pareceu ficar ainda mais confuso com aquela revelação.

— Como assim, garota? Você é filha da porra da futura Akasha.

— Obrigada por lembrar. — Dei de ombros, acostumada com aquele tipo de argumento. — Mas, não, não tenho magia.

— É claro que você tem magia, menina — falou, dando um sorriso confiante. — Eu vejo e sinto a sua magia, então, não fale este tipo de besteira.

 

 


Notas Finais


Gente, primeiramente peço perdão pelo capítulo, ele provavelmente está com alguns erros de gramática, além de que (eu particularmente) não achei que ele ficou do jeito que eu queria. Estava sem tempo e sem condições mentais para escrever e corrigir, além de que não me vejo tão empolgada para fazer o arco da Athena, sinceramente (já deixei claro que ela não é a principal protagonista desta fic e nem minha personagem favorita).
Eu estou passando por uns problemas pessoais/sentimentais e isto meio que interferiu na minha criatividade e vontade de escrever nas últimas semanas. Estou dedicando um tempo maior para pensar mais em mim, em meu ser, nos meus estudos, etc. Mas logo estarei melhor e os capítulos voltarão a ficar do meu jeito haha desculpa por possíveis erros, como eu disse, não tive muito tempo para corrigir e enviei apenas hoje para a beta.
De qualquer maneira, espero que tenham gostado do início deste novo arco e de alguns dos motivos da Athena ser como é.
Abraços e até dia 15 <3


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