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História Armas e bisturis - Capítulo 31


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Capítulo 31 - Capítulo XXX


Jung San. O homem que tinha agredido Tiffany. Aquele que tinha tentado sequestrar Irene. Taeyeon se inclinou na parede e encarava o sujeito, convencida de que sairia dali com um sermão de Sunny - mas tentando, contra expectativas, se manter calma.

- Você não pode provar que fui eu. - Ele sorriu calmamente, dando nos nervos de Taeyeon.

- Nós podemos, nós já provamos. O material recolhido da unha da vítima bateu com seu DNA. - Sunny retrucou duramente.

Taeyeon franziu o cenho ao ouvir “vítima”. O homem ainda parecia calmo. Ela reajustou o peso nos pés.

- Belo trabalho. - Ele elogiou na mais pura falsidade. E esperou.

Sunny trocou um olhar com Sooyoung. O homem não iria ceder tão cedo.

- Eu quero saber quem tá por trás disso. - Sooyoung assumiu o interrogatório. - Você oferece informação, sua pena é diminuída.

O homem riu e passou a língua nos lábios, depois ficou sério de novo. - Não há nada que você possa me oferecer. A minha sentença é de morte.

Elas ignoraram a observação do outro. - Como vocês encontraram a menina?

- Haha. - E foi tudo o que ele ofereceu. Depois, mudando de ideia, ele levantou os olhos para Sunny. - Você sabe como. Vocês também são caçadores. - E o olhar afiado encarou Taeyeon.

Era verdade. Todos eles eram caçadores, a única diferença era o motivo da caça. Ela se remexeu novamente, se endireitando. Não era algo a ser comparado. Eles faziam justiça, enquanto aquele homem e tantos outros que passaram por aquela sala causaram nada mais do que dor para outras pessoas.

- Nossos meios de encontrar pessoas são certamente diferentes dos seus. - Sooyoung devolveu.

- Ah, isso pode ser verdade. Vocês têm escrúpulos. - O sorriso irônico parecia nunca abandonar seu rosto.

Deus, esse homem jamais iria ceder. Ele não parecia se importar com a cadeia, não parecia se importar com coisa alguma. Taeyeon respirou fundo e lançou um olhou para os colegas de trabalho que estavam de costas para ela. Era difícil interrogar alguém assim, tão seguro de si, alguém que aparentemente não precisava de nada em troca. Mas o que Taeyeon não sabia, é que logo ela teria uma oportunidade.

- Cara, você mexeu com um dos nossos. - Sooyoung abaixou a voz num nível em que dizia claramente que ele estava perdendo a paciência. - Você tá ferrado, você tá entendendo? - Ela se inclinou para frente. - O melhor que você pode fazer é colaborar, dizer para quem você trabalha. E aí, quem sabe, a gente dá um jeito de você não virar o novo saco de pancada da cadeia.

Sunny ergueu uma sobrancelha. - Você se lembra, Choi, do cara que pegamos no aeroporto? Eu não gostaria de morrer daquele jeito. - E embora ele tenha se dirigido à Sooyoung, os olhos nunca deixaram o rosto do culpado.

- Argh. Morrer espancado... Não. Muito obrigado.

O homem se mexeu levemente na cadeira.

- Quem era ele, Jung? Seu comparsa?

Sooyoung achou que ele não fosse responder, mas para sua surpresa o homem disse sem ensaios. - Oh, sim. Um velho amigo.

- Parece que você vai acabar como ele. - Sunny provocou.

- Vocês não parecem saber de muita coisa, não é mesmo? -  Ele ajeitou a postura na cadeira, parecendo irritado. - Eu sou apenas uma peça do jogo. - Ele lançou um olhar para Taeyeon. - Me diga detetive, elas gritam a noite? É bom que ainda estejam assustadas.

- Cala a boca. - Taeyeon inclinou o corpo para frente e apontou um dedo ameaçador para ele, a voz rouca cortou o ar com força, raiva.

- Aquela menina é corajosa, devo dizer, mas isso não é suficiente para salvá-la.

- Chega! – Sooyoung levantou a voz para o homem. Sunny, rápida o suficiente, desligou o gravador.

Ele sorriu. - E aquela médica? Ela é gostosa. Adoraria ter colocado minhas mãos nela, você sabe, para outros fins.

Coisa errada para se dizer para uma Kim já irritada. Sem medir suas ações, a loira cruzou a sala no que pareceu ser apenas uma passada, agarrou o colarinho da camisa do homem e o empurrou para trás. O movimento fez ele se levantar e com uns passos ele bateu as costas na parede. O impacto foi tão forte que ele ricocheteou para frente, e Taeyeon mais uma vez o jogou contra ela. - Canalha! - Ela gritou com toda raiva que sentia. - Não se atreva! Não se atreva a mencionar ela!

O homem empurrou-a pela barriga com as mãos algemadas, com a força suficiente para mandá-la para longe dele.

- Vá com calma, benzinho. Você pode participar da festa também.

- Seu desgraçado! - Ela avançou para cima dele de novo e quando seus dedos agarraram a garganta do homem, mãos forte a seguraram e a puxaram para trás.

- Cala a maldita boca! - Sunny gritou para ele.

Ele tomou como um desafio. - Quer saber? Talvez o próximo consiga fodê-la.

Taeyeon juntou toda a força que tinha para se livrar de Sooyoung. Ela iria fazer aquele desgraçado engolir cada palavra, cada dente.

- Taeyeon! - Sooyoung apertou seus braços em volta da loira, e ela sabia que se vacilasse Taeyeon partiria para cima do homem novamente. - Não!

- Me solta, Choi! Eu vou matar esse animal. - A voz rouca e grave parecia ter perdido toda a razão.

- Eu tenho meus direitos. - O homem disse enraivecido. - Desde quando é permitido agressão por parte de policiais dentro de delegacias?

- Eu não vi nada, você viu Sooyoung? - Sunny empurrou o homem de volta a cadeira onde estava.

 - Nada. - Ela disse enquanto ainda segurava a loira. Depois ela a soltou, quando finalmente acho que seria seguro, mas manteve as mãos nos ombros dela. - Era por isso que não queria você aqui. Qual é, Taeyeon. Vá para casa.

- É docinho, corre e vê se você come ela pela última vez. Você sabe, eu não fui o último a aparecer. - Indiferente às ameaças, ele provocou de novo.

- Cala essa maldita boca ou eu mesmo vou arrebentar você. - Sooyoung apontou um dedo para ele enquanto apertava o ombro de Taeyeon com uma única mão. Se ela resolvesse se livrar dela agora, da segunda vez que a tirassem de cima do homem ele estaria morto.

Os olhos da morena se escureceram com terror, diante das palavras do outro. Ela já havia pensado nisso, ele apenas confirmara. Ou ele tinha apenas blefado, com o único intuito de provocá-la? Desarmada, ela ergueu os olhos para o homem e levantou uma sobrancelha. A máfia era algo grandioso demais para ela lidar sozinha. Até mesmo operações de meses - anos, como no caso do pai biológico da Tiffany- às vezes falhava. Ela se sentiu derrotada e queria estar ao lado de Tiffany e Irene mais do que nunca. Deixar a sala de interrogação era a melhor saída, ela sabia. Ela já tinha estragado tudo, de qualquer maneira. Ela tinha deixado ser afetada por provocações de alguém que, nesse momento, não fariam a mínima diferença. É claro, a dor e a raiva de encontrar Tiffany agredida não tinham desaparecido - nunca iria, mas reagir daquele jeito tão pouco iria mudar algo.

Ela balançou a cabeça para Sooyoung.

- Nós damos conta disso, Taeyeon. - Ele assegurou.

- Eu sei. - Ela murmurou. Num último momento ela olhou para o homem sentado e resmungou. - Eu espero que os homens de Jonghwan piquem você. Eles estão em todos os lugares, você sabe. - Ela estava prestes a se virar e deixar a sala, mas o homem pareceu confuso.

- Do que você tá falando? - Ele perguntou ridicularizando-a.

Taeyeon e Sooyoung trocaram olhares. - Então você não sabe? – A morena abriu um sorriso. - Cara, você tá tão ferrado. - Ela se aproximou da mesa de novo e apontou um dedo para Taeyeon. - A mulher dela, Dr. Tiffany Hwang... Você sabe de quem ela é filha? Choi Jonghwan.

- Aquele Choi Jonghwan. - Sunny enfatizou.

- Cara, você vai ter os melhores dias na cadeia. - E ela riu com a situação, porque percebeu que o nome tinha surtido efeito.

Ele sorriu, mas pareceu meio inseguro. - Nós temos um código. Não nos metemos com os assuntos um dos outros.

- Parece que você quebrou esse código no momento que atacou a filha dele. - Sooyoung rebateu.

- Falando em Jonghwan... Faz tempo que não faço uma visita à ele. E quanto a você, Taeyeon? - Sunny estava quase se divertindo com a situação agora. Ela olhou para a morena e ela sorriu.

- Na verdade, eu tô com tanta saudade dele que tô indo visitá-lo agora.

O homem pareceu se encolher um pouco, e para pressionar ainda mais, Taeyeon abriu a porta.

- Qual é! - Ele exclamou.

Determinada e confiando que o interrogatório tinha agora tomado, finalmente, rumo, ela saiu da sala e fechou a porta. Ela adoraria chutar a bunda daquele infeliz, até mesmo vê-lo pedindo por proteção em troca de informação, mas nesse momento ela tinha que fazer duas coisas. Ela andou até o quadro onde a foto do homem estava pendurada e arrancou de lá. Ela sabia que as fotos do ataque de Tiffany deveriam estar ali também, mas que foram tiradas por consideração porque as companheiras sabiam que elas viriam hoje. Ela vasculhou por cima da mesa de Sooyoung e quando não encontrou nada, procurou na mesa de Sunny. Em baixo de uma pilha de papel, as fotos estavam viradas para baixo. Ela examinou cada uma delas e escolheu apenas duas. É claro que eles logo notariam o sumiço delas de qualquer forma, mas era só queria o necessário. Depois de colocar as fotos de um envelope amarelo, ela se encaminhou para o elevador.

Ela precisava checar Tiffany e Irene. Depois ela faria uma curta viagem.

Ela destrancou a porta e entrou na casa, esperando por encontrar Tiffany e Irene no andar de baixo. Ela correu os olhos pela sala e logo em seguida pela cozinha. Elas não estavam ali. A casa estava mergulhada no mais absoluto silêncio.<

- Fany? - Ela chamou e esperou pela resposta. Nenhuma veio. Ela sentiu um arrepio correr pelas costas quando as palavras de San cruzaram sua mente. Você sabe, eu não fui a último a aparecer. Ela balançou a cabeça para espantar os pensamentos e virou nos pés para tomar outra direção. – Fany? - Ela chamou de novo, e nenhuma voz apareceu depois da sua.

Por uma razão incompreensível seu coração começou a bater mais rápido. Ela levou a mão na arma, um hábito adquirido depois de anos de polícia. Não havia nada errado no andar de baixo, nada fora do lugar indicando que alguém tinha estado ali, mas o medo corria em sua veia, alertando todos seus sentidos.

- Tiffany. - Ela chamou de novo quando os pés alcançaram os primeiros degraus da escada. Ela subiu o mais rápido que pôde, pulando dois degraus por vez. Quando alcançou o piso de cima, ofegante pelo esforço, ela chamou pela mulher de novo.

A morena apareceu na porta do quarto, esfregando os olhos, cabelo bagunçado. A visão da morena completamente calma, e não totalmente desperta, a acalmou imediatamente. A detetive soltou a arma de volta ao coldre, antes que Tiffany se visse e se assustasse.

- Taetae? O que está acontecendo? - A médica perguntou desorientada. Ela tinha escutado Taeyeon a chamando apenas uma vez, mas aparentemente não tinha sido a única. E por que ela estava ofegando?<

- Nada. Você tava dormindo? Desculpa, não queria te acordar. - Ela segurou o rosto da mulher e beijou os lábios, depois colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.

- Eu devo ter apagado enquanto estava lendo. Não ouvi você entrando. - Ela sorriu e segurou na cintura da loira.

- Irene?

- Na cama comigo. Por que você parece tão preocupada, Tae? - Os olhos escuros estudaram o rosto da mulher e Taeyeon já não queria mais esconder o medo e a preocupação dela, entretanto ela não queria estressar a mulher.

- Não é nada, Fany. - Ela manteve a voz firme. - Como foi Irene com Yuri hoje? - Ela sorriu com a ideia.

Tiffany revirou os olhos. - Minhas habilidades no basquete não são tão louváveis como no xadrez.

Taeyeon riu com o comentário e beijou a bochecha dela. - Graças a Deus você não sabe uma coisa ou duas. Caso contrário você seria insuportável!

A morena fez uma cara de magoada e deu um tapa no braço da detetive. - Eu sou boa em esportes, Tae!

- Patinação não é esporte, Fany-ah. Achei que a gente já tinha concordado nisso.

A médica revirou os olhos. Era melhor não começar a discutir sobre o assunto novamente. - Como foi o interrogatório?

Taeyeon suspirou. Ela não iria contar a parte em que tinha perdido a cabeça, e nem o motivo. - Ele começou a falar, Fany. Sai de lá antes de terminar, preciso resolver outras coisas ainda hoje.

- O que é, Taetae? - Ela deslizou sua mão dentro da mão da loira e segurou.

- Eu te conto assim que eu voltar, ok?

- Voltar? Aonde você está indo?

Taeyeon hesitou. Ela não tinha certeza se contar para Tiffany o que estava prestes a fazer era uma boa ideia. A morena não aprovaria de forma alguma, e tinha a grande possibilidade de ela ficar irritada com a detetive, talvez tentasse até mesmo convencê-la a não ir. Entretanto era algo que ela precisava fazer. Ela se sentiria mais segura, mesmo que por meios que, como policial, ela não aprovaria.

- Confia em mim, ok? Eu prometo te contar tudo hoje à noite quando eu chegar.

- O que você vai fazer? Taeyeon! Isso tem a ver com o caso? Você não pode se envolver, você sabe. Aonde você pensa que vai? E pode ser perigoso. Você vai sozinha, sem reforço? Eu não estou gostando disso! - Ela começou a falar sem parar, já se abalando com a ideia, mas a loira a cortou.

- Ei, ow! Fany. Não... Não é sobre o caso. Juro. Não é nada perigoso. Nada que envolva perseguições, armas, interrogatórios. Nada.

- Sua definição de perigo é bem diferente da minha. - Ela rebateu.

- Fany, não é perigoso, ok? De acordo com a sua definição, se te faz melhor.

- O que é então? - Ela pressionou.

- Só vai fazer sentido se eu fizer primeiro e te contar depois. - Ela sorriu o melhor que pôde.

A morena balançou a cabeça. - Não gosto de suspenses.

- Não há nada com o se preocupar, Fany. Eu prometo que... - Ela suspirou, rezando para que o que pretendia desse certo, e que ela se sentisse segura o suficiente para assumir outros planos depois. - Prometo que quando voltar nós vamos falar sobre... sobre bebês. - Ela abriu um sorriso esperando que Tiffany comprasse a oferta.

Ela abaixou a cabeça, tímida. - Tae... Esse não é o momento para...

- Não. Esse não. - Ela segurou o rosto da morena. - Mas dentro de algumas horas qualquer momento vai ser o momento para se falar disso.

E Taeyeon estava decidida a encerrar de uma vez por toda esse período da vida delas, onde o medo as assombravam em cantos escuros da casa, em rosto de pessoas desconhecidas. Onde a tensão apertava seus corpos em um laço forte toda vez que alguém batia à porta da casa delas - mesmo se fosse o carteiro, o entregador de pizza - simplesmente porque não havia garantia nenhuma de que elas estavam salvas.

Não. Taeyeon não queria isso para Irene, Tiffany. Ela definitivamente não queria nenhum tipo de tensão rondando a casa, ainda mais se Tiffany estava decidida a ter outro bebê. E Taeyeon faria qualquer coisa - qualquer coisa - para mantê-las seguras e confortáveis.

- Eu volto em duas horas, no máximo. E se Irene acordar, pergunte o que ela acha de ter um irmão ou irmã. - Ela sorriu e beijou os lábios de Maura. A morena hesitou em soltar sua cintura, mas Taeyeon apertou suas mãos num gesto reconfortante e finalmente ela a deixou.

Taeyeon tamborilou os dedos em cima da mesa fria e dura. O pequeno móvel combinava com o lugar em que ela estava agora. As mesmas características pareciam se espalhar e grudar em tudo o que havia naquele prédio: paredes frias, duras, ambiente seco, sem cor. Ela se ajeitou na cadeira e cruzou as mãos, focando nos dedos enquanto esperava ansiosamente pela pessoa que fora visitar.

Ela odiava estar fazendo aquilo. Odiava ter que assumir que havia chegado em um ponto que precisava de ajuda, odiava ter que admitir que não podia cumprir parte do que mais almejava: proteger Tiffany, de qualquer perigo que fosse. Parte dela estava furiosa consigo mesma por parecer tão inofensiva agora, tão fraca, mas no fundo ela sabia que nessas circunstâncias não havia outra solução. Ela precisava de ajuda. Ela precisava de ordem e força maior do que tinha para colocar uma barreira de proteção em volta dela, de Tiffany e Irene.

Ela levantou a cabeça quando o som de metal ecoou pelo corredor e um minuto depois dois homens entravam na sala. Um guarda corpulento conduzindo um prisioneiro. O homem acorrentado lançou um olhar afiado para ela enquanto se sentava na cadeira. Os olhos eram familiares, mas o que habitava atrás deles era desconhecido - perigoso e ameaçador, capazes de coisas que ela preferia não saber.

E era a esse homem que ela tinha vindo recorrer ajuda.

Choi Jonghwan. Chefe da máfia coreana. Pai de Tiffany - apenas biológico. Protetor o suficiente para enfiar um picador de gelo no coração do sujeito que se metesse com sua família. Poderoso o suficiente para comandar a máfia mesmo dentro da prisão. Seu nome era respeitado, e mesmo estando entre os bandidos, Jonghwan seguia um tipo de moral regente entre eles. Talvez ele mesmo a tivesse criado. Taeyeon não entendia de que forma alguém que fora condenador por quinze assassinatos pudesse, entretanto, entender algo sobre moral. Ela só imaginava que a moral que ele seguia era distorcida, ao menos bem diferente da dela.

Hoje, apesar de tudo, ela não viera para julgá-lo. Viera para pedir ajuda, algo que fazia questionar o próprio ato em si, mas convencida de que era um termo plausível, era acenou a cabeça para o homem em cumprimento.

- Você veio antes do que previ. - O homem disse sem nenhuma emoção.

- Senti falta das nossas conversas agradáveis. - Ela rebateu tentando segurar o sarcasmo. Ela estava preste a pedir algo e provocações não era a melhor forma de quebrar o gelo.

- Como está Stephanie? - Ele perguntou e dessa vez a voz soou mais calorosa. Eunseo e Tiffany eram definitivamente o ponto fraco do homem.

- Bem, ela tá bem. - A loira acenou uma vez com a cabeça para confirmar as palavras.

O homem a encarou por um tempo, como se estivesse digerindo a informação. Quando nada mais parecia ter restado para ser compreendido, ele inclinou o corpo para frente, curioso. Cauteloso. - O que você quer de mim?

A detetive juntou os lábios numa linha fina. Ele era direto, ela também. Ela desbloqueou o celular e mostrou uma foto de Irene para Jonghwan. A menina estava chupando sorvete, a boca suja da cor rosada do doce, os olhos amendoados na tela encarando o homem de volta. - Você sabe quem é essa criança?

O homem olhou para a foto e depois para ela. Havia uma tensão crescente entre eles. - Onde você quer chegar?

Taeyeon franziu as sobrancelhas. Era provável que ele conhecesse, mas como ela iria saber com certeza se ele respondia sua pergunta com outra?

- A mãe dessa garotinha foi morta. Ela foi a testemunha em um caso de tráfico de crianças e estava sob a proteção do governo. Mesmo assim a acharam e a executaram. É um milagre que ela esteja viva.

- E então? Você quer saber se eu tenho parte nisso? - A pergunta era um truque, Taeyeon sabia. Jonghwan não tinha nenhuma relação com o assassinato da mulher, e até onde ela sabia ele nunca havia matado mulheres e crianças antes. Traficar crianças tão pouco se encaixava na lista de descrição de coisas que o homem fazia - ou mandava fazer. A outra possibilidade escondida por trás da pergunta, era se Taeyeon sabia de que ele estava tomando conta, de alguma forma, do que acontecera com Tiffany. Um ponto que ela ainda iria tocar.

- Por que você não me diz, Jonghwan? - Ela usou da mesma estratégia.

Ele bufou, ridicularizando a pergunta. - Você sabe que esse não é meu negócio. Agora, Kim, o que você quer de mim?

Oh, ele deve estar tão ocupado hoje. A loira pensou em sarcasmo. - Quero que você coloque um aviso. Algumas pessoas estão atrás dela, tentando sequestrá-la e vendê-la. Coloque um aviso lá fora, Jonghwan, de que é para deixá-la em paz. Esquecerem dela.

O homem riu e balançou a cabeça em negativo. - Desde quando você joga o meu jogo, detetive? - Ele inclinou o corpo para frente. - Você tem ideia do que está me pedindo? Do que isso pode me custar?

Era isso. Ele não sabia nada sobre Irene. Nada sobre o ataque de Tiffany. Taeyeon se perguntou como, considerando que ele tinha homens lá fora. Poderia ser algo sobre território, algo sobre não se envolverem demais com os crimes de outra organização mafiosa, algo que escapava de seu entendimento. Ela desbloqueou o celular mais uma vez e passou para a foto seguinte. Os olhos negros estudando o conteúdo. Tiffany estava deitada na cama, adormecida. Metade de Irene estava em cima dela, uma mão na boca e cabeça apoiada no peito da morena. Os olhos fechados apenas enfatizavam a serenidade do momento, e a luz clara da manhã dava um ar pacífico. A imagem parecia ter sido capturada de um filme.

- Nós a adotamos. - Ela disse com a voz mais baixa. - Irene é filha da Tiffany. Minha filha. Ela é doce, inteligente, engraçada. Ela fica emburrada se tem que comer ervilhas, e ri sem parar quando eu a jogo para cima, mas é Ginger, nosso cachorrinho, que ultimamente tem a feito perder o ar. Irene adora o cágado que temos em casa... E ela só é uma criança. Nossa criança.

A detetive esticou o braço e mostrou a foto para o homem. Ele estreitou os olhos e observou a imagem.

- E é ela quem coloca um sorriso no rosto de Tiffany, até mesmo nos dias mais difíceis. Ela nos consertou, Jonghwan. Ela é a... Droga. Ela é Irene. Nossa Irene. - A loira deslizou o dedo pela tela do celular, revelando outra foto em seguida. Tiffany rindo com Irene no colo, os braços da menina abertos enquanto contava uma das histórias - essa especificamente, Taeyeon se lembrava de ser sobre o filme que elas tinham visto no dia anterior. O sorriso de Tiffany era tão sincero e contagiante que a própria detetive se pegou sorrindo com a foto. - Ela completou o que nos faltava, e... Multiplicou o que já tínhamos. - Taeyeon odiava dar uma de sentimental, especialmente para pessoas que ela não tinha intimidade nenhuma, principalmente para Jonghwan, alguém que ela desconfiava que não tinha qualquer sensibilidade.

Os olhos do homem se ergueram para se encontrar com os dela. Ele respirou fundo, parecendo um tanto quanto chocado pela nova informação. O rosto endureceu numa expressão que Taeyeon não sabia identificar e a dúvida começava a assombrar sua mente, lançando retalhos de arrependimento. Ir ali não tinha sido a melhor ideia, afinal de contas. Tinha?

- Há muito mais. - Ela continuou, aproveitando o momento de silêncio. Ela abriu o envelope e deslizou uma foto para fora. O ângulo enquadrava Yoona agachada ao chão, Tiffany sentada em sua frente e Irene ao lado da morena. Uma imagem do dia da invasão. Uma foto que Taeyeon devolveria a mesa de Sunny e juraria de pé junto que não tinha tirado de lá. O velho saberia que era mentira, mas deixaria para lá, porque ele confiava nela. A loira esticou o braço e mostrou a foto.

- O que é isso?

- Um homem invadiu nossa casa. Ele estava procurando por Irene, mas Tiffany a escondeu. Tiffany a protegeu. Stephanie, a sua filha, Jonghwan, se colocou entre uma criança de seis anos e um homem de quase dois metros de altura. Um homem que poderia quebrar os ossos do braço dela com um único aperto. - Ela sentiu as lágrimas arderem nos olhos e as mãos tremerem levemente diante da verdade. Como que para provar seu ponto - e para escapar do sentimento doloroso que a foto trouxe, ela abriu o envelope para procurar pela seguinte. Os dedos depositaram a folha de papel ao lado da primeira.

O hematoma roxo e consideravelmente grande se contrastava na pele branca. A foto fora tirada para ser catalogada como evidência, e Taeyeon não sabia de sua existência até que revirara a mesa de Sunny. Ela apontou o dedo para a parte escura das costas e encarou o homem- Ela não pensaria duas vezes se tivesse que fazer de novo. Não importa quantos ossos quebrados e, droga, você quer saber, Jonghwan? Ela morreria por essa menina. Eu morreria. Acontece que eu não quero que isso se repita. Ela está assustada. Nós todos estamos.

- Achei que tinha sido claro quando disse para você cuidar bem da minha filha, detetive. - Ele disse duramente, os olhos reprovando a mulher.

- E eu tenho. Mas isso é maior do que eu posso lidar, e você sabe. Se fosse tão simples você estaria atrás das grades por anos agora. - Ela rebateu. Ela apoiou o cotovelo em cima da mesa e apontou o indicador para ele. - Não venha me dizer que eu não tomo conta dela enquanto tudo o que venho fazendo é isso, desde o momento que a conheci. E isso vai muito além de protegê-la de pessoas perigosas, de alguns riscos que ela corre, inclusive, por ser sua filha. Você não tem ideia do que ela tem passado. Droga, você não tem ideia nenhuma. Você não sabe das lágrimas e dos gritos de medo. Você não sabe das noites em claro e do que me custou saber que eu não podia poupá-la de certo sofrimento. Você não estava lá quando a dor foi tão grande que ela pediu para eu pará-la. E quer saber, Jonghwan? Eu não pude. Mas era eu quem estava lá por ela, eu quem a tinha nos braços, cuidando e tentando de todos os meios fazê-la sorrir. Então, seu desgraçado, não me venha dizer que eu não tenho tomado conta dela. Eu faço o que ela precisa para ser feliz, custe o que me custar. Eu sei o quanto ela é frágil e o quanto é forte. Eu estive lá todas as vezes. Pro inferno com “você não cuida bem dela”! - Ela disse com a voz rouca e quase tremendo de raiva. O peito subia e descia com a respiração forte, e o dedo ainda continuava apontado para ele.

Ela tinha abusado da sorte. Ela não pretendera em nenhum momento enfrentá-lo dessa forma, mas ser acusada de não estar tratando Tiffany como ela deveria tinha a tirado do sério. Se ela tinha arruinado quaisquer chances de receber ajuda, ela não fazia ideia, mas esperava que não.

- E se ela quer essa menina, ela tem essa menina, porque Irene a faz feliz. - Ela disse num ultimato. - Caso você não tenha percebido, nós dois queremos a mesma coisa. Eu não estou pedindo por mim, mas por ela. Eu odiaria ter que voltar a dormir com uma arma em baixo do travesseiro, ainda mais com a presença de uma criança em casa. - Ela respirou fundo e esperou.

Jonghwan se remexeu na cadeira, nunca desgrudando os olhos dela. Ele parecia estar ponderando as escolhas, medindo o discurso de Taeyeon. Os olhos percorreram as fotos de novo e depois caíram para as próprias mãos. O silêncio estava incomodando a loira. Ela queria chacoalhá-lo e arrancar uma resposta imediatamente dele, mas o bom-senso a mantinha presa na cadeira. Ele sabia ser irritante. Ela revirou os olhos.

- Você diz que eu não sei o que isso pode te custar? Não faço a mínima. Mas eu espero que você saiba o que a sua decisão pode custar a Stephanie. - Ela pressionou.

Com a cara fechada, ele acenou com a cabeça para ela. - Você tem um nome? - Ele resmungou.

Ela tirou a última foto e mostrou para ele. - Esse homem foi quem a atacou. Nós o temos sob custódia, mas o problema não é ele. É o próximo. Ele não foi o primeiro a vir atrás dela.

- Jung. - O homem murmurou o sobrenome. Outro aceno de cabeça.

- Coloque um aviso, Jonghwan. Diga para que fiquem longe de nós, ou Deus sabe o que vai nos acontecer da próxima vez. - A loira pediu sob todo o medo e assombro de um novo ataque.

- Você, - ele apontou um dedo para ela - você continua mantendo minha filha feliz. - E era uma ordem.

A loira concordou com a cabeça. - É o que eu mais quero. Acredite.

Ele a encarou como se analisando a sinceridade - inquestionável - dela. Quando pareceu convencido e certo do acordo que estavam fazendo, ele falou finalmente. - Você tem minha palavra: vocês vão ter a paz que querem daqui para frente.

Taeyeon sorriu - mas não muito, afinal ela não queria parecer totalmente agradecida e dependente da segurança que ele podia oferecer. - Obrigada.

-  Não é por você. - Ele lembrou.

Ela revirou os olhos. - Eu estou agradecendo pela Stephanie. - Ela recolheu todas as fotos e devolveu dentro do envelope. Quando Taeyeon se levantou, Jonghwan chamou pelo guarda, anunciando que a visita tinha terminado. A loira lançou-lhe um último olhar antes de deixar a sala, e ela teve certeza, pelo olhar que o homem a devolveu, de que ambas as partes do contrato seriam cumpridas.



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