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História Armênia - Capítulo 3


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Capítulo 3 - O Ódio que me acompanha


Armênia observa o planalto próximo ao Ararat, a montanha que para seus pares, nela está sua história e futuro.

—“Não posso passar”.

Ela se vê triste ao contemplá-lo, na terra de seu algoz.

De baixo do sol ameno, onde as nuvens lhe faziam, junto ao Leão, companhia em pleno silêncio de seus pensamentos. Era bom e tranqüilizador, estar de volta a sua casa, sua terra, sua força.

No entanto, ela recordava, enquanto passo a passo à caminhar, tudo pelo o que passou, quando correu afoita de sua casa, para salvá-los, nas cidades destruídas. A cada passo se abraçava ao sentir novamente força das pauladas contra os corpos dos homens, mulheres, crianças e idosos.

Tenta afastar essa lembrança da memória, mas outra volta, agora com certos espasmos nos braços e corpo. Era como se quisesse afastar do corpo, um calor as vilas em chamas, que presenciou e sentiu queimar. Via em seus passos, os penosos passos destas pessoas numa marcha fúnebre a encontrar com a morte no deserto de Deir-al-Zor. A cada passo dado, mesmo em sua dor, o Leão a seguia. No ocorrido, ele não estava junto a ela, mas nem por isso ele, não estaria atrás de seus passo, junto aos turcos, se ela o chamasse igual a agora.

—Ora, mas o que faz tão longe de casa?

Esta voz, não pode ser. Como, como poderia Azerbaijão estar falando com ela tão perto?

—O que você faz aqui Azerbaijão?

Azerbaijão caminhava vagarosamente na mesma direção da moça. Exibia um sorriso maldoso, para provocá-la e sempre conseguia. Armênia parecia tensa por estar frente a frente com outro problema.

—Eu – diz ele jocoso – estou sobre minha terra.

Ele já estava de frente da nação, enquanto concluía seu pensamento.

—Você é quem está longe de casa.

Longe de casa? Como longe de casa?

Onde poderia estar afinal?!

—De que diabos está falando?!

—Ora, não reconhece aonde está pisando?

—Ela olha ao redor, olha a montanha e a planície. Um ponto chama-lhe a atenção, um monte a distância não lhe é estranho. É claro. Eis que ela reconhece a montanha. Era Zangezur, estava na fronteira com Nakhchivam, sua perda.

A seriedade estava em seu rosto, pois agora, qualquer coisa aconteceria.

O Leão que até agora calado, rosna a personificação azeri, respondendo
à tensão.

—Saia daqui, sua presença aqui é desprezível.

Teymur vocifera para a moça, era obvio a animosidade desde que Nakhchivam foi “dada” a Azerbaijão, pelo seu “irmão de prece” e os armênios dela e da própria Ackhen, não aceitavam, pois tal território, lhe é histórico.

—Cale-se, o que você fez, não é aceitável, nenhum de vocês!!! Tomarem de mim meu sangue e minha casa, não há nada seu aqui!

Armênia gritava raivosa e com ódio, vinha lhe tudo o que viu e pelo o que passou em sua mente.

—E ainda por cima, uma traição. As cobras que comandam o Crescente nos traíram, Abdul-Hamid II, Mehmet Talaat, Ismail Enver e Ahmed Jemal!

Teymur a encara com desdém desagradável a ela. Não poderia esperar nada mais dele.

—Não é para mim, que deve chorar e sim – ele ri maléfico – ao seu Sultão.

—Como ousa.

Ela agora se enfurecia e o Leão neste momento, estava com sua juba eriçada, respondendo ao estado de espírito dela, não despercebido por Teymur.

—Como ousa dizer, que devo ir falar ao “meu assassino”, sobre seu crime.

—Esperava o que – disse ele sério – uma Armênia autônoma dentro do Império, ele percebeu as idéias que tiveram.

—Ele lhe deu parte de mim para continuar, você seu súdito, mas enganasse você que por adorar o Crescente, será poupado de uma possível traição futura.

Ele torna a se mostrar intocável por ninguém.

—Você diz sobre o ataque aos árabes não muçulmanos, sei disso, mas não farei nada para que Turquia suspeite de mim.

—Idiota, monstro. Submeteu ao demônio e ri de nosso flagelo!

—Vocês insubordinaram-se a Abdul-Hamid II e achou que nada aconteceria?

Ele cruza os braços.

—E não se esqueça Armênia, as pessoas nos formam também nos influenciam psiquicamente. Turquia foi selvagem, monstro como diz, por conta também do próprio povo e do sultão.

Quase que Azerbaijão cai às pedras com o murro no rosto, levado de tanta raiva que Ackhen sentia. Seu olho esquerdo doía.

— O que você...

A moça puxa uma faca e acerta o manto do rapaz.

—Eu o vi sangrar!!!

O rapaz intrigado para de reagir e fica atenta a menina.

—Eu o vi sangrar, na praça do palácio na capital, ele tossi uma tosse doída e vi sangue em suas mãos.

—O-que?

Diz o azeri.

—Turquia, Turquia sangrou. Ele está fraco e por isso reagiu com crueldade, para tentar mostrar uma força que já não possui mais!

—E naquele dia, no sábado de Aleluia, em 24 de abril.

Ela agora chorava. Mas um choro de magoa. 24 de abril de 1945 de nosso Senhor, nunca esqueceriam.

—Por estar fraco ele, Turquia, percebia que não mais podia nos manter presos a ele, mesmo que Abdul-Hamid II exigisse isso dele, de Said ele sabia que não podia e chamou a Morte e a conduziu a nós, a levou até nós e aos assírios, pobre deles. Só por acreditarem em Cristo também. Neste dia ele me violentou pela segunda vez! 

O azeri permanecia sério e escutando, o que dizia ela.

Ela de novo dispara contra ele e volta a golpeá-lo. Sorte do atacado, que apenas o pano de suas roupas são acertados e se não fosse tão agiu, estaria sangrando. Nunca a imaginou tão feroz ao combate.

Seus pés levavam-na a dançar com a arma e não o deixava com muito espaço, para a fuga e seu aliado, a terra pedregosa, própria para uma torção. Era um aliado invisível.

—Bitlis, Trebizonda, como pode defendê-lo?!

Como um tigre, ela agarra-lhe o braço com as unhas e o puxa para si. Neste momento, antes de Teymur respirar, ela fere seu antebraço, num corte profundo. O rapaz grita e em seu ato de proteger seu braço ferido e olhá-lo, ela gira a faca com a lâmina para baixo.

—E Deir-al-zor?! A marcha para a morte.

Ela grita e escuta também o grito do atacado, quando esse cai com a perna ferida pelo corte rápido e certeiro. Seu lado direito inutilizado.

Ackhen caminha até ele, enquanto o Leão vai as costas do outro. Ele não acreditava na fúria da armênia, não assim.

—Os curdos.

Sua voz irrompe em meio aos gruídos de Azerbaijão.

—Os curdos, eles também nos atacaram, nos humilharam, nos molestaram. Mas sei Azerbaijão, que Deus é tão grande e justo, que dará a todos o que merecem e que os curdos, não escaparam disso.

O rapaz estava paralisado com a postura dura e fria da moça. Ela continua.

—Eu sei. Todos os que nos queriam mortos, amanhã, não suportarão o sofrimento justo que Deus os irá impor. Nem mesmo você.

Ela por fim cospe aos pés do azeri.

Teymur não via na moça a sua frente, a mesma menina pacífica que conhecia. Por séculos, Armênia evitou conflitos diretos, como as guerras. Aceitou falsamente o domínio de outras nações, não querendo assim parecer conformista. Mas seguindo a filosofia de Hayk, que era; enquanto eu tiver a minha liberdade, tudo estará bem para mim.

Entretanto nestes últimos anos foi tudo conturbado e ela ficou sem ação para impedir a barbárie cometida no novo século. Um golpe baixo e covarde de um governo, onde seu método de resolver seus problemas diplomáticos e central era com violência e retaliação. Sempre foi assim. Foi nos Balcãs, Ásia Central e Sudoeste Asiático e antigas partes tomadas na Europa.

O que ela não entendia era o que desencadeou todo esse sofrimento contra ela, se nada de ameaçador ela representava ao Império Turco Otomano. Porém, uma coisa ela sabia, ela entendia.

Agora entendia. No dia em que foi falar com Turquia ou tentar conversar, ela pôde ver. Ela viu e ninguém mais além dela. Armênia sabia o que essa informação privilegiada, poderia lhe oferecer e Turquia também sabia. O fato de Ackhen ter visto Said tossir sangue, indicava que a resistência ao Sultanato, estava fazendo efeito.

Mas também Ackhen sentiu sua dor física, sentiu o que a personificação turca estava sentindo naquele espaço de tempo em que os dois estavam se olhando. Mas sabia, por já ter visto essa moléstia antes, com outros iguais a ela, que representava aquela de seu algoz. Então, quando os olhares de ambos se cruzaram, sabiam que Turquia estava fraco.

Ao se darem conta do conhecimento deste sintomas, em pânico nada fizeram a princípio, exceto pela rápida saída de Armênia e a última visão fulminante de Said sobre a moça, antes desta desaparecer por completo do lado de fora do cômodo. O último olhar, que Ackhen notou de Said foram seus olhos, agora avermelhados e a sensação de ter que sair de lá, o mais rápido que pudesse e a certeza de que algo macabro estava por vir.

O fato é que agora ela compreende o plano arquitetado. Ela se afastaria de Van para cair numa armadilha. Provavelmente ele pensou que ela contaria aos do Sul da Europa, o que viu e assim os faria atacar com mais certeza do sucesso. Nada mais justo do que silenciá-la. Deveras a armadilha não tinha falhas, só precisava ser funcional e rápida.

Não deveria se estender, pois os alvos já estavam esperando. O que aconteceu em Sassoun e Adana, não aconteceria de novo. Foi apenas um teste e agora já sabiam como fazer. E com uma guerra acontecendo, tudo estaria justificável. Ao correr em busca dos seus pares, na maior cidade do Império esperando refreá-lo em sua chacina sistemática, física e mental, Armênia foi pega por seus algozes facilmente, pelo ponto fraco, que seus similares tem; o povo.

O povo os formam e eles formam o povo. Cada mudança e época, ambos se influenciam e assim ocorreu. Ackhen foi facilmente detida em meio a dor latente que sentia pulsar por cada uma das suas células. Ela pôde sentir ao primeiro contato já nesta, que lhe pareceu sua maratona mortis, os homens presos e torturados, bem como os que foram levados as montanhas e mortos pelos curdos.

Ao chegar, a violação das mulheres e fuzilamento das crianças, bebês e idosos lhe flagelava o corpo. Sentiu o corpo fraquejar e só não caiu pelos gendarmes que a seguraram. As atrozes visões que anulavam sua percepção de tudo ao redor, sua sinistra luz foi o co-autor de todo esse caos. Seus passos eram fortes e ritmados e ao ver Turquia chegar, temeu ao rever e testemunhar que aquele mórbido olhar carmim, olhava-a fixo e sabia que nenhuma suplica seria atendida. Ackhen e todos os armênios sofreriam por algum ato ultrajante, que eles próprios desconheciam terem cometido.

Ela havia encontrado paz e mais uma vez a perdera. O que acontecia, que todas as vezes que ela respirava feliz, tinha que ser sufocada outra vez. O que acontecia afinal, ela se perguntava, enquanto seu corpo e de todo eram ultrajados com fogo, espada, rifle, afogamento, tráfico e apostasia e violência sexual.

Não é dada cruz maior do que se possa carregar.

Uma vez ela escutou essa frase de um silvícola de Van.

Então, por que vendo pelo o que passou e seus iguais passaram essa cruz lhe pareceu muito mais pesada? Quer dizer, por provação todos passam, mas isso, onde está o crescimento?

Os assassinos ainda estão vivos e o mais repulsivos, é que agora se escondem como ratos e os que ainda vivem, após a baioneta e a diáspora ainda vêem seus fantasmas e as noites sentem o frio noturno da Anatólia.

Com um balançar de cabeça ela se obriga a expulsar esses pensamentos de sua cabeça. Se assim Deus quis, então que assim fique e aceite. Quem sabe, até seja um modo de Deus lhe dizer, para ser mais enérgica com os atos contra ela. Pois por séculos, só pegou em armas, quando o foi extremamente necessário e isso se traduz como sendo “tarde de mais”. Entretanto agora, entendia o que tinha que fazer buscar a justiça e selar a sua mágoa. Exigiria isso do ceifador e de seus anjos negros. Chega de tanta dor e mágoa, chega de medo, chega!

Ao dar as costas para o azeri, ela deu as costas para o medo. Ao dar os passos para o seu lado de casa, ela estava dando os mesmos passos que outros armênios davam todos os dias, em terras estrangeiras para retomarem suas vidas. O Leão seguia a seu lado, quando a Águia apareceu e pousou sobre o lombo do felino. Ela visualizou os dois juntos e viu que ambos eram fortes em seus habitats e unidos implacáveis, deles todos tirariam suas forças para lutar. Para Armênia, Turquia mesmo sendo influenciado pelos seus líderes e nações, também teve sua parcela de culpa, mesmo que não totalmente, mas teve.

Sempre tiveram, todos eles, essas redes de pensamentos que as personificações faziam parte alteravam seus raciocínio e percepção e mesmo assim para ela, ele também era culpado, não importa. Mas não lhe fazia mais diferença. O sangue dela que manchava toda a Anatólia e ela própria, ficaria na Anatólia para sempre, bem como as cicatrizes da tortura e da violação, assim como a fome e a exaustão, como o frio e as famílias desmembradas, ela, Ackhen ou Armênia, também foi desmembrada.

E essa memória, assim como na terra, ficarão para sempre em suas lembranças. Mais uma dolorosa, mesmo que lute, mesmo que Turquia reconheça essa insanidade, mesmo que sua punição frente as outras nações, seja justa, ela não esqueceria, seu povo não esqueceria e desta forma, além de suas conquistas intelectuais e literárias, ela colecionou mais uma tragédia em sua história. E assim ela continuou, mesmo com a dor.


Notas Finais


Esse é o final da estória. Espero que gostem, eu pesquisei bastante e a base foi um outro livro que li sobre o povo armênio. Desculpem quem se ofendeu, obrigada a quem gostar.


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