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História As Coincidências de Nossas Vidas - Capítulo 4


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Capítulo 4 - A primeira aula


Capítulo 4 - A primeira aula

 

Snape permaneceu em seu laboratório depois que as aulas acabaram e como sempre estivera totalmente absorto preparando uma poção muito delicada que necessitava de sua total atenção, por isso não percebeu o tempo passando e logo a noite chegou e com ela as batidas em sua porta. O professor tirou os olhos por um momento e olhou para o relógio, dez horas. Suspirou e abaixou o fogo da poção indo em direção a porta e a abrindo sabendo que estava do outro lado.

Harry esperava do lado de fora com a cabeça abaixada, não queria estar ali, não queria perder seu tempo com Snape, não queria perder tempo com ninguém, estava cansado e precisava ficar sozinho, mas não tinha a menor intenção de desobedecer Snape e assim aguentar a fúria do professor e o descontentamento de Dumbledore. Por isso entrou, fechou a porta e aguardou instruções.

- Sente-se. – Disse Snape apontando para uma cadeira no meio da sala. – Eu já lhe disse para que serve a oclumência então vamos começar imediatamente, qualquer minuto desperdiçado é um minuto de glória para o Lord das Trevas e uma chance a mais para que ele domine sua mente.

A princípio Harry se assustou quando viu Snape tirar a varinha de dentro das vestes e apontar diretamente para seus olhos amedrontados. Ele não teria tempo de pegar sua varinha no bolso e estava totalmente a mercê do professor que mais o odiava no mundo, o professor que o queria longe. Ele poderia fazer, era só dizer as duas palavras e a existência de Harry terminaria naquele laboratório frio e úmido. Uma morte claustrofobicamente ruim.

- O senhor tentará me impedir de invadir sua mente, a princípio não espero que consiga me bloquear, mas espero que consiga me tirar de sua mente, me expulsar. Entendeu?

Harry confirmou com a cabeça sentindo o coração bater cada vez mais forte e sua respiração ficar cada vez mais alterada.

- Legilimens!

Harry não teve tempo para se preparar e logo sentiu uma dor de rachar a cabeça quando Snape invadiu sua mente, ele estava lendo seus pensamentos agora, lendo suas lembranças e Harry não conseguia expulsá-lo, doía demais aguentá-lo lá dentro para ter forças.

Snape se concentrava em invadir apenas a superfície da mente de Harry, fazendo com que o menino tivesse facilidade de expulsá-lo. As imagens que Snape via eram imagens corriqueiras como Harry conversando com Hermione antes da segunda prova do torneio Tribruxo

- Você já decifrou o ovo não é Harry?

- O que quer dizer com isso?

Mas as imagens passavam rápido e logo Snape já estava em outra lembrança

- Senti sua falta Harry.

- Também senti a sua Sirius.

- Venha me conte sobre seu ano em Hogwarts.

O professor já estava cansado das imagens infantis que via na mente de Harry, nada mais do que idas à Dedos de Mel, carinho para com o padrinho e conversas com os amigos. Era uma leitura fácil e após dez minutos ainda permanecia naquela mesma mente.

- É dessa maneira que você controla sua mente, Potter? - Disse Snape saindo da cabeça de Harry

Somente naquele momento Snape percebera que Harry estava no chão gemendo e suado. Devagar o ajudou a levantar e se sentar na cadeira novamente sem fazer questionamentos.

- Vamos tentar novamente, Potter, concentre-se mais desta vez, vou fazer uma leitura mais profunda. Legilimens.

Snape esperava visualizar novamente as mesmas imagens chatas e entediantes, mas o que viu o pegou totalmente desprevenido. Fora tão chocante que ele demorou cerca de alguns segundos para conseguir entender a cena que se passava na mente de Harry. Não eram as imagens chatas, não eram felizes, era como se Snape tivesse retornado para sua própria infância ao ver Harry chorando no seu quarto com a mão na barriga e a mesma roncando alto suplicando comida.

Com horror Snape observou a magreza do menino e as roupas que caiam de seu ombro pequeno demais para sustentar o tecido em sua mínima extensão. Um barulho fez Snape parar de olhar para Harry e se voltar para a porta atrás de si, a porta que deixou entrar um homem gordo e barbudo extremamente parecido com um leão marinho. Ele não olhou para Harry e deixou um copo d’água na cabeceira ao lado da cama de Harry.

- Aqui está sua água do dia e sem nem um pio hein! Terei a visita de um grande sócio hoje a noite para jantar aqui em casa, não quero que estrague minha tentativa de ganhar mais um investimento. E sabe que se algo acontecer as consequências não serão boas.

Harry não respondeu, apenas assentiu com a cabeça, não tinha dito nada, mas antes que o homem fechasse a porta, Snape ouviu a voz fina e rouca do menino falar com timidez e medo.

- Quando poderei comer de novo?

- Ora, seu castigo era ficar dois dias aqui no quarto sem comida, sua tia ainda foi muito gentil em lhe dar um pão. Se não guardou o pão de ontem então eu não tenho culpa, você ainda tem mais algum tempinho de castigo.

Snape estava horrorizado, aquela criança de não mais do que onze anos estava a dias sem comer e sobrevivendo apenas com um copo d’água e um pão dado por misericórdia. Não era à toa que estava tão magro e tinha uma feição tão abatida.

O Harry da lembrança baixou a cabeça sem falar nada e em silêncio chorou com a mão na barriga. Um pio alto e um farfalhar irritado fez Snape olhar para o canto do quarto onde estava enfiada a gaiola de Edwiges, a coruja das neves de Harry, ela protestava contra o modo de seu dono ser tratado. Era obrigação dela servir e cuidar do menino, mas não podia fazer nada dentro daquela gaiola e aquilo a deixava nervosa.

- Pare de chorar e cale a boca dessa galhinha ou eu a mato.

- Me deixa soltá-la. Ela tem que se alimentar e...

- Nunca! Não deixarei você mandar cartas para seus amiguinhos esquisitos. Eu disse que você não irá ter comunicação com esse povo estranho dessa escola estranha que você vai. Não haverá magia dentro da minha casa.

- Mas eu sou um bruxo!

O homem que Snape percebeu logo ser o tio trouxa de Harry ficou vermelho de raiva e sua mão levantou-se com violência batendo em cheio no pequeno rosto de Harry que de tão fraco foi ao chão chorando e segurando o lado do rosto que apresentava os vergões dos dedos do tio.

- Você é uma aberração isso sim. Só está conosco, pois sabemos que aquele bruxo poderoso não morreu e que pode tentar algo conosco algum dia. Você é nossa garantia de que nada acontecerá. Se não fosse por isso eu teria te jogado no lixo quando o encontramos.

Snape olhava tudo com a boca aberta, jamais imaginara que a vida do grifinório fosse dessa forma, nunca conseguiria sequer pensar que as dificuldades que o menino passava eram essas.

O tio de Harry saiu do quarto e trancou a porta com o que parecia ser várias fechaduras. Tudo para garantir que um menino de onze anos não saísse do quarto. Ainda sem acreditar no que via Snape olhou direito para o quarto, não era nada mais do que um lugar com uma cama, um guarda-roupa pequeno e uma janela com grades, um quarto normal se não fosse os vestígios da prisão domiciliar como sujeira, pouca iluminação, um balde para as necessidades do menino e o próprio menino em estado lamentável.

Ele ainda permanecia no chão segurando o rosto vermelho e enxugando as lágrimas que saiam de seus olhos verdes apagados e vazios. Lentamente ele levantou e pegou o copo d’água levando até a gaiola de Edwiges que piou negando a água que seu dono lhe oferecia.

- Pode beber um pouco, depois eu bebo também. – Insistiu convencendo a ave de dar algumas goladas na única água dele. - Sabe Edwiges. – Harry suspirou fazendo carinho nas penas da coruja, era um desabafo e Snape sentiu que não queria realmente ouvir, mas a necessidade interior dele era maior e permaneceu vendo a cena. - Eu tenho tanta vontade de ir embora daqui, de usar minha varinha e arrebentar essas grades que me prendem aqui dentro, vontade de sair voando na minha vassoura para bem longe, mas se eu fizer isso eu sairei de Hogwarts e lá é o meu lar. Preciso sair desse inferno.

Já estava na hora de mudar a imagem. Snape passou para outra, uma que aconteceu anos depois, pois Harry já não era uma criança, já era um adolescente apesar de sua estrutura física não parecer nada com a de um menino de quinze anos de idade. Snape se via agora em um parque no final da tarde e Harry estava sentado em um balanço olhando para uma família que brincava em um outro brinquedo perto dele. Uma família feliz que em nada se parecia com a família dele. O professor ficou olhando para Harry até que um grupo de cinco menino chamou sua atenção, principalmente por estarem falando alto e se aproximando dele.

- Batendo em criançinhas Duda? – Disse Harry sem se levantar.

- Mas esse mereceu. – Falou um menino gordo de cabelos loiros que parecia ser o chefe da gangue.

- Seis contra um, quanta coragem!

- Olha quem fala, geme dormindo todas as noites, pelo menos eu não tenho medo do meu travesseiro. Cadê a mamãe? Cadê a mamãe Potter? Cadê a sua mãe? Ela morreu? Lílian Evans morreu?

Snape parou logo depois de ouvir esse nome, era demais para ele, até mesmo ali naquela visão, ver alguém brincar com o nome da única mulher que ele amara na vida era demais torturante. Saiu da mente de Harry, não poderia continuar a ver aquela lembrança nem queria saber o que tinha acontecido. Tinha plena consciência da respiração ofegante de Harry caído no chão, mas não podia olhar para ele, não podia ver os olhos verdes iguais aos dela, não naquele momento. Demorou um pouco para ter coragem de olhar para o menino que parecia extremamente cansado. Era difícil vê-lo daquela forma e após ver todas aquelas imagens até mesmo a vontade de ser rude com ele era difícil de encontrar naquele momento.

- O senhor terá que treinar, Potter. – Disse da forma mais gentil que conseguiu. - Tente fechar sua mente, esqueça as preocupações e concentre-se, por hoje é só, pode ir.

Harry tremia e suava da cabeça aos pés, o exercício de oclumência era extremamente desgastante, era difícil tirar alguém da sua cabeça quando estão vasculhando suas lembranças, parece que algo foi injetado em sua cabeça e aos poucos tomava conta de tudo. É dolorido. Após respirar fundo e se acalmar Harry se levantou e colocou a mochila nas costas dirigindo-se até a porta, mas antes de sair virou-se para o professor que permanecia no mesmo lugar olhando para o vazio. Sem jeito e sem olhar para ele, Harry chamou Snape baixinho.

- Senhor?

- Sim, Potter. – Ele também não olhava para o menino.

- Eu só gostaria de saber se...

- Fale logo, ou acha que vou ficar a noite toda aqui?

- É que eu agradeceria se o senhor não contasse nada do que viu na minha mente para ninguém. – Harry deixou escapar tudo de uma única vez, estava nervoso, falar com Snape não era fácil, muito menos pedir algo.

- Eu tenho cara de quem sai fazendo fofoquinhas sobre a vida alheia, senhor Potter? E mesmo que eu quisesse, não posso, afinal de contas as nossas aulas são secretas, agora vai logo embora.

- Obrigado.

Foi à única coisa que o menino conseguiu dizer naquele momento, apesar de não gostar de Snape, sabia que o professor jamais sairia fazendo fofoca, isso não é típico de Severus Snape e era exatamente o que queria que acontecesse. Nunca contara nada do que acontecia na casa dos Dursley para ninguém, nem mesmo para Rony e Hermione, ninguém e agora o único que sabia era o professor que mais o odiava.



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