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História As Crônicas de Galdoran: A Prole da Escuridão - Capítulo 8


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Capítulo 8 - Capítulo 7: Contratempo


As ruas, que mais cedo pulsavam com música, dança e atividades comerciais, agora estavam muito mais calmas – isso não significava que estavam paradas, mas sim que a euforia havia diminuído com ao longo da tarde: as celebrações oficiais da chegada da primavera duravam sete dias, e não apenas as pessoas queriam aproveitar todos eles, mas também se reunir com seus entes queridos em fartos banquetes de confraternização.

Lylaswyn aguardava em frente ao portão oeste da cidade, segurando as delicadas rédeas de seu cavalo junto a um coche, questionando-se se aquilo realmente era uma boa ideia: ainda que a maioria das pessoas aceitasse, com diferentes graus de relutância, a presença da Igreja de Synvathea na cidade, os elfos solares eram aqueles que demonstravam maior ceticismo quanto à existência de elfos sombrios que não fossem uma encarnação do mal a ser eliminada.

Anos de convivência pouco haviam conseguido abalar a rejeição dos mais conservadores, e a presença de drows ainda era proibida nos povoados onde eles eram maioria – ainda naquela tarde, enquanto ela terminava de se arrumar para rever o rapaz de quem havia comprado a flauta, seu pai chegou em casa bêbado e em um estado de espírito completamente diferente do dela, desabafando consternado sobre a intolerância de sua família paterna antes que ela pudesse conseguir escoltá-lo até a cama. A jovem olhava à sua volta, buscando pelo rapaz, sem deixar de ter notado uma menina, certamente mais perto do início que do fim da adolescência, correndo para uma rua lateral.

Intrigada, ela ficou observando a região, e então viu um rosto familiar em meio à multidão – um rapaz de olhos e cabelos dourados, segurando as rédeas de um lindo cavalo que não se podia dizer se era branco com manchas marrons ou marrom com manchas brancas. 

– Você veio... – constatou o elfo, surpreso.

– Eu... – Ela se interrompeu, sem saber o que dizer.

– Eu não pude me apresentar adequadamente mais cedo – disse o rapaz, impedindo o silêncio estranho de se estabelecer. – Meu nome é Laucian, e o seu?

A moça estranhou o fato de que ele havia revelado apenas seu primeiro nome, talvez tentando deixá-la menos desconfortável, uma vez que alguns dos elfos dourados em sua faixa etária costumavam entrar em atrito com seus familiares devido à diferença de posicionamentos.

– Lylaswyn – respondeu, tentando retribuir o sorriso. Laucian beijou uma de suas mãos, segurando-a.

– É um prazer te conhecer, Lylaswyn. Fico feliz que tenha vindo – declarou, deixando-a desconcertada por alguns instantes. – Imagino que já tenha visto tudo o que a feira tem para oferecer hoje. Talvez seja melhor fazermos algo diferente? 

– Se não se importar... – disse a jovem, desviando o olhar. 

– De forma alguma. – Ele amarrou as rédeas de seu cavalo ao coche, para ajudá-la a elevar-se à sela da montaria dela, antes de montar sua própria.

– Tem alguma preferência de lugar? – inquiriu, enquanto cavalgavam lado a lado para fora do portão, que estava menos vigiado, uma vez que os guardas da cidade se revezavam para que todos pudessem participar do festival: Thyrkasael era uma cidade segura, protegida não apenas por muros de alabastro e guardas bem treinados e equipados, mas também por um manto mágico que dificultava a entrada de pessoas mal-intencionadas.

– Não, não tenho – respondeu Lylaswyn, relutante em escolher onde iriam.

– Eu já sei onde podemos ir. Um lugar próximo aos rios... com sorte, conseguiremos chegar lá a tempo de ver o pôr-do-Sol – sugeriu, recebendo um sorriso animado em troca.

– O arco das águas? – perguntou, uma vez que conhecia o lugar.

– Sim. – O elfo confirmou, fascinado com os grandes olhos prateados com um leve tom lilás da mestiça e os longos cabelos que lhe caíam sobre a pele acinzentada, como um esvoaçante manto prateado. Ainda que a relutância acanhada de ambas as partes tivesse travado as primeiras trocas de palavras, as conversas já fluíam facilmente quando chegaram à estrada.

– Quer apostar corrida agora que não precisamos mais nos preocupar com pedestres? – propôs o rapaz, com um sorriso travesso.

– O que estaríamos apostando? – inquiriu a jovem.

– Quem ganhar sugere quando chegarmos – respondeu o elfo, após ponderar por alguns instantes. Ela concordou e, após alinharem os cavalos, fizeram uma contagem regressiva e dispararam rumo à floresta, o galopar dos animais levantando poeira do chão, enquanto ambos se deliciavam com a sensação de liberdade proporcionada pelo vento em seus rostos.

–—

Enquanto as pessoas apreciavam uma atmosfera descontraída em Thyrkasael, o sangue tingia o chão de vermelho em Tenebregan, e, a despeito da dor que novamente percorria seu corpo devido a mais um ataque de Filaen, Balaedril se concentrava em tentar curar Riztar – a luz solar vinda de sua espada mágica, Melinath, fazia com que seus atacantes tivessem dificuldade para mirar os golpes, o que lhe permitia se defender apenas com uma das mãos – não que fosse precisar, uma vez que eles evitavam chegar perto devido ao brilho emanado pela arma.

Diante do olhar perplexo do combatente de elite inimigo, que havia acabado de ser libertado da magia da mulher, devido à quebra de concentração, ela ajudou o jovem a se levantar, e ele prontamente efetuou outro disparo contra Filaen, a raiva queimando em seus olhos.

A estranheza, no entanto, não foi suficiente para impedir o soldado de atacá-la, mas devido à luz de Melinath, a paladina desviou com a mesma facilidade que ele se esquivaria de uma criança, e, para a intriga do homem, se limitou a colocar o pé para que ele tropeçasse, mesmo que ele estivesse com suas costas expostas para um golpe fatal – seu orgulho, no entanto, não sairia ileso, uma vez que, além de fazê-lo cair no chão como um novato, ela colocou um dos pés acima de seu quadril para impedi-lo de se levantar.

Um vento gélido passou a centímetros da jovem, soprando-lhe os cabelos antes que ela pudesse desferir dois poderosos golpes contra o necromante, sua espada brilhando mais intensamente quando o fez – queria acabar com o conflito o quanto antes, usando o mínimo de violência possível – e a forma mais eficaz de atingir tal objetivo era derrotando os inimigos mais poderosos, o que faria os demais recuarem em nome da autopreservação.

Preparou mais uma investida, e então tudo foi tomado por uma escuridão profunda, obrigando-a a, diante da ausência completa de imagens, se guiar somente pelos sons da batalha e das vozes.

Diante da atual condição de sua adversária, Filaen olhou na direção de Riztar e pronunciou uma única palavra, que fez com que o rapaz novamente caísse no chão de joelhos, apoiando-se na espada curta que carregava para não colapsar por completo. Sorrindo ao pensar que poderia fazer com que o jovem fosse morto por um golpe de sua própria aliada, que agora lutava às cegas, o mago o puxou para si, segurando-o em frente ao seu corpo, enquanto ele tremia, a respiração rasgada pela dor lacerante que dificultava até o menor dos movimentos.

– Bal! – gritou, com seus olhos se arregalando de pavor ao ver a lâmina radiante vindo em sua direção sem que ele pudesse sequer tentar evitar o golpe. 

Não muito longe dali, a espada de Vorndrin escorregou em sua mão trêmula, fazendo com que seu golpe se desencontrasse com a mulher que ele tentava freneticamente acertar, certo de que sua vida poderia depender disso – havia cometido erros, mais de um, e segundas chances eram praticamente inexistentes em sua sociedade – a raiva que lhe fora direcionada pelo olhar do filho da matrona Hlaurden, que anunciava a falta de seu ato de dirigir a palavra a um nobre sem isso lhe ser requisitado, era transferida para seus movimentos em uma pífia tentativa de esconder o medo. Medo não apenas do que o mago faria com ele, mas também daquela mulher, que parecia não ser afetada pelo cansaço ou pelos golpes que ele e seus companheiros conseguiam acertar.

Foi então que um deles caiu inconsciente, atingido por uma sequência de golpes, tão rápida e elegante, que parecia uma dança – uma dança ágil e letal, que poderia ter colocado fim à vida do homem se a drow que executava a performance assim desejasse, o que fez um calafrio percorrer a espinha do jovem plebeu – isso significava que ela os queria vivos. Para que ela os queria vivos?!

Seu coração disparou, o suor fazendo com que seus cabelos grudassem em seu rosto e sua respiração perdesse o ritmo, seus movimentos aflitos perdendo importante acuidade.

A sorte de seus aliados não parecia estar muito melhor – um zunido alto, provocado por uma magia executada por Sabril, fez um guerreiro jogar sua espada no chão para cobrir os ouvidos e constatar, para seu desespero, que eles estavam sangrando. Sob instruções de seu mentor, o filho da matrona Hlaurden tentava recuar para trás das linhas de defesa, seu movimento desacelerado por uma pálida luz azul, que gelou todo o seu corpo com um frio com o qual os habitantes do subterrâneo só entravam em contato quando alvejados por magias como aquela. 

Ao ver mais um inimigo adentrando seu campo de visão, Filaen ficou grato por sua oponente não ter atingido Riztar, como ele havia planejado. Segurando o jovem que se contorcia em seus braços contra si, como um escudo de carne, e fazendo uma rápida reavaliação do ambiente à sua volta – estava tão certo de ter tudo sob controle, que se permitiu tentar derrotar seus oponentes da forma que os faria sofrer mais, não da forma que seria mais rápida – teria isso custado perdas significativas para sua casa? Não, ele logo veio a constatar, os invasores haviam passado por seus comandados, não os destruído. Aquele comportamento, certamente incompatível com o esperado de guerreiros de sua sociedade, não lhe deixou dúvidas – eles haviam vindo pelo prisioneiro e, assim como ele, eram hereges que precisavam ser subjugados ou destruídos.

– Quieto! – sibilou no ouvido do garoto, que apesar de se sentir como se seu sangue estivesse corroendo sua carne como ácido e sua pele estivesse sendo lentamente arrancada de seu corpo, insistia em tentar se soltar. Um último aviso foi dado na forma da lâmina se afundando em seu pescoço, fazendo com que as respirações curtas e rápidas se interrompessem pela fração de segundos que levou para a pele daquela região tão vital ser perfurada.

Então o punhal foi arrancado da mão de Filaen, sendo jogado contra o olho que lhe restava, efetivamente cegando-o, em uma demonstração de poder que lhe obrigou a mudar de estratégia, mas não a se render: sabia que Riztar estava debilitado pela sádica magia que havia usado nele, e escutou o baque do corpo do jovem caindo no chão. Havia observado os invasores o bastante para saber que se importavam uns com os outros, e o puxou pelo tornozelo, o toque de sua mão fazendo a região gelar.

Um soldado correu em direção aos dois, tentando garantir a segurança de seu mestre, mas seus olhos se arregalaram quando ele viu que a paladina, agora restituída de sua visão, avançou em sua direção, desferindo um golpe que encontrou a brecha na armadura do homem, rasgando seu tronco e fazendo a região arder de forma considerável.

Qualquer um teria recuado diante de um ferimento tão doloroso, mas não alguém treinado para matar e morrer em nome da Tecelã da Discórdia – ele agarrou a espada com mais firmeza, sua respiração profunda e rasgada – no entanto, Balaedril proferiu um único comando, a sua voz com uma fúria gélida tão intensa que fez aqueles que estavam próximos vê-la como a adversária formidável que era: se quisessem ter qualquer esperança de vitória, teriam que enfrentá-la primeiro. 

– Deixem-no – sibilou, seus olhos emitindo um brilho vermelho como a chama mais ardente do mais profundo inferno. Uma fúria que merecia ser considerada digna de medo, e que, de fato, fez com que um dos guerreiros que não era provido do mesmo treinamento e doutrinação rigorosos parasse onde estava, a besta que já estava mirada em Balaedril caindo de suas mãos trêmulas.

Intimidado com o contra-ataque sofrido por seu superior, a convicção do rapaz começava a oscilar, assim como a de Vorndrin, até que um golpe desferido contra Luaryna a fez cair por alguns instantes – ela não era imortal, afinal de contas – mas então a outra mulher veio.

A espada de Sabril adentrou entre as costelas de um dos guerreiros, perfurando seu pulmão, empurrando-o para o lado, e, com gestos aflitos, ela desenhou uma sequência de runas no ar, fazendo com que o corpo da guerreira voltasse a se erguer quando estava a meio caminho do chão, revigorado a despeito de todos os ferimentos que seus colegas haviam infligido.

Inexperiente, Vorndrin nunca havia visto nada assim, mas seu medo não foi maior do que sentido pelos que estavam no mesmo ambiente que Filaen – escondido atrás de um de seus soldados de elite, o homem levou a mão ao seu peito, onde o coração não mais batia, e caiu no chão, sem vida, diante do olhar pesaroso de Iraena – algo que foi um choque para a maioria dos presentes, gerando uma quietude, uma breve calmaria antes do retorno da tempestade, antes das espadas voltarem a se chocar de forma feroz.  

O guerreiro mais experiente que lutava contra Luaryna, Tsaleth, estava enfrentando um momento particularmente ruim – não apenas devido às suas oponentes, mas também aos seus aliados – ele podia perceber que os mais jovens já estavam amedrontados, trocando olhares ansiosos na tentativa de se comunicar sobre a possibilidade de rendição. Ele conseguiu penetrar a armadura da mulher uma vez, mas Sabril a curou novamente, impedindo-a de desmaiar.

Medo do desconhecido – era essa a única coisa que mantinha os mais inexperientes lutando, o que os impedia de implorar por suas vidas como os novatos assustados que eram – não a disciplina drow, que incitava a maioria a seguir ordens recebidas a qualquer preço, e morrer lutando pela glória de Zarashkne.

Estava prestes a tentar intimidá-los para que não parassem, quando a lateral de uma espada, o atingindo em sua têmpora, o derrubou, o que fez com que, independente da reação de seus colegas, Vorndrin soltasse sua espada, cruzando os braços sobre o corpo, gesto esse que tinha o mesmo significado que o ato de erguer os braços tinha para os demais povos – o que quer que o aguardasse nas mãos daqueles estranhos, seria melhor do que o que o aguardaria caso caísse inconsciente no labirinto do subterrâneo – e seu colega o seguiu, enquanto os outros dois combatentes, que utilizavam técnicas de combates mais furtivas, desapareceram na escuridão dos tuneis, abandonando-os à própria sorte.

– Coloque-as para trás – instruiu Sabril, sua companheira se posicionando atrás dos dois jovens apreensivos. Ela foi prontamente acatada, e então magicamente produziu duas cordas, que entregou para que Luaryna amarrasse as mãos dos guerreiros de tal maneira que nem o escapista mais talentoso conseguiria se soltar. 

– Para onde levaram Valaun? – perguntou a guerreira, com a voz firme, fazendo com que os dois jovens trocassem olhares ansiosos, o que definitivamente era um péssimo sinal: uma vez que lealdade era extraordinariamente rara entre os drows devotos a Zarashkne, aquilo só poderia significar que elas não gostariam da resposta que estavam prestes a ouvir.

– Torafinarchel – disse Vorndrin, a voz parcialmente trêmula, enquanto Sabril desenhava algumas runas no ar. – Callinon e Drada’Dalharuk Phaedeln o levaram para Torafinarchel. 

~*~

A última ordem dada por Filaen havia sido clara – evitar perdas, cobrir a retirada dos nobres e guerreiros mais experientes, e capturar ou eliminar o maior número de inimigos possível, objetivos para os quais estavam se esforçando ao máximo – no entanto, a última parte parecia uma missão suicida, dada a sincronia com que seus adversários trabalhavam.

Foi então que novas ordens chegaram, não do comandante Callinon, mas da própria Matrona Hlaurden – e com um misto de medo e alívio, os soldados acataram a instrução de cobrirem a galeria onde se encontravam com escuridão, e então pegarem o corpo do necromante, recuando através do portal que os levava para a grande cidade de Torafinarchel e abandonando seus companheiros incapacitados sem nenhum remorso – até porque, obviamente, o truque lhes comprou pouquíssimo tempo, e logo Balaedril estava ajudando Riztar a se levantar, apoiando-o sobre seu ombro.

– Você está bem? – perguntou, ao que o rapaz ainda lutava para reaver seu equilíbrio. Riztar confirmou com um menear de cabeça, aos poucos se recuperando da dor, e estava prestes a buscar por pistas que pudessem levar ao menos até o corpo de Valaun, quando sentiu uma mão apertando seu ombro com força.

– Não! – exclamou Luaryna, ofegante, fazendo com que os demais se voltassem para ela com um olhar surpreso. – É uma armadilha! Temos que tirar quantas pessoas inconscientes pudermos desses túneis e sair daqui!

– Mas Valaun – Riztar foi interrompido.

– Reforços. Recuaram para buscar reforços – declarou a guerreira, com urgência.

– Temos que ir – concordou Balaedril, com pesar. A paladina parou no caminho, erguendo o corpo de um dos soldados que jazia inconsciente: deixar alguém desacordado naqueles túneis, pelo menor período tempo que fosse, tinha grandes chances de equivaler a uma sentença de morte, de forma que, mesmo que isso contrariasse seus ideais de permitir as pessoas escolherem seus destinos, ela se viu obrigada a levá-lo. 


Notas Finais


Toss a review to your writer
Oh valley o'plenty!


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