História As Crônicas de Pelúcia e Poeira - Capítulo 8


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Categorias As Crônicas De Gelo e Fogo (Game of Thrones), Turma da Mônica, Turma da Mônica Jovem
Personagens Aninha, Do Contra, Eduardo "Dudu", Jeremias, Magali, Marina, Mônica, Quim, Titi, Xaveco, Zé Luís
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Palavras 7.840
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 10 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Adultério, Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


A demora é porque eu tava sem ideia. Capítulo mais longo que os outros, mas talvez o próximo seja mais resumido.
Edição: Devido ao fato de eu ter demorado a escrever entre um PDV e outro, acabou tendo um erro grotesco de um personagem que estava em dois lugares ao mesmo tempo, estou repostando porque corrigi

Capítulo 8 - O Torneio


O gato branco se espreguiçava deitado aos seus pés. Estava só, em seu quarto, encarando seus pensamentos na parede. Já teria dormido se não estivesse esperando por alguém. O Guarda Real Anjinho logo chegaria, e a luz estava acesa justamente para indicar que ainda estava acordada.

Alfacinha tinha seis anos. Apenas um ano a menos que ela, mas tinha o tamanho de Dudu. Quando o viu, logo percebeu que era pequeno e frágil. A notícia a atingiu com força. As pessoas daquele clube provavelmente se importam com ele, tanto quanto me importo com meus primos e meu gato. Mingau havia subido na cama e deitado em seu colo. Ele sempre ronronava quando faziam carinho nele.

Quem teria sido? Provavelmente suspeitariam dela ou de Fabinho. Ele atirou o garoto da janela, mas foi por impulso. Mandar um assassino com um canivete é algo totalmente diferente. Pensou em quem teria coragem de mandar matar uma criança indefesa em coma, até que alguém lhe veio em mente. Por mais que as leis de seu universo impedissem tal ato de ocorrer, não podia negar que os sentimentos dele eram reais.

Lembrava-se de quando o único problema dele era com comida. Queria que continuasse sendo. Queria chorar, mas a porta logo se abriria, e não deixaria que a vissem daquele jeito. Tanto o anjo quanto a garotinha que precisava dela.

Escutou as duas batidas na porta e permitiu a entrada.

- Minha Dona – Anjinho fez uma reverência. - Trouxe sua prima Lira, como foi pedido.

- Obrigada – agradeceu. - Deixe-nos.

Abaixou-se um pouco para abraçá-la. Lira era uma pequena criança de quatro anos por quem tinha muito carinho. Ela não era birrenta como Dudu, era ordeira, meiga e doce.

- Maga, onde estão suas bonecas? - ela perguntou. - Você disse que íamos brincar.

- Amanhã, minha querida, agora está tarde – colocou-a para deitar ao seu lado na grande cama. Passou a mão em seus cabelos, escuros como os seus. - Não pense que vamos brincar de bonecas o dia todo. Tenho coisas a fazer e precisarei que venha comigo em algumas delas. Você vai morar na Fortaleza de Cebolão à partir de agora.

- Mas… por quê?

Apagou a luz e puxou a coberta para cobrí-las. Mingau veio depois, deitando-se entre as duas.

- Daqui a um tempo você vai entender – ela respondeu. - Durma bem, Lira.


 

Xaveco

A noite estava bastante fresca para um verão. Talvez haja uma frente fria vindo. Um pouco de chuva seria bom para amenizar o calor infernal que faz nessa rua durante a tarde. Daqui a um tempo essa pedra pode dilatar. Estava em cima dela, a grande Muralha do Limoeiro, de dois andares de altura. De fato, não havia visto grande coisa do outro lado, apenas o que Manezinho e os outros o descreveram. Mesmo assim, cumpriu sua promessa e assobiou enquanto fazia o serviço.

Ouviu os passos e viu alguém vindo de relance, mas não parou.

- Pode fazer isso aqui? - perguntou Manezinho. Estava fazendo a patrulha da muralha naquela noite junto a um irmão no outro lado da rua, do Clube Leste.

- Vai ficar olhando? - Xaveco já havia terminado, então fechou o short preto. - Prometi ao meu nobre irmão que viria aqui, no ponto mais alto desta rua, e mijaria para o outro lado. Não acho que exista uma lei contra isso.

Viu que Manezinho fitava o horizonte nublado da rua deserta, logo depois o escutou suspirar.

- O que foi, Mané? Desapontado? - perguntou. - A vida de patrulheiro é diferente do que imaginava?

- Eu não posso dizer muito, afinal é apenas a minha segunda noite aqui, mas já vi como é esse lugar – ele respondeu. - Quim estava errado ou mentiu para mim. Franjinha também. Me disseram que seria uma honra servir aqui.

- Aquela propaganda toda – Xaveco riu ao se lembrar de como ele falava no dia anterior. - Só o pior vem para cá, Manezinho, que bom que já aprendeu – deu um sorriso torto. - Tarde demais, imagino.

- Não é tarde. Sou apenas um recruta, posso ir embora quando quiser.

- Claro. Se quiser, estou partindo pela manhã – Xaveco foi andando até o encalço da escada. - Venha comigo, te dou uma carona até seu clube.

- Aonde vai? - perguntou Mané.

- Para o banquete, Lorde Renegado – sorriu. - Não é todo dia em que há um rico nobre visitando o Clube da Esquina.

Entrou na grande sala de jantar do Clube Oeste e foi assumir seu lugar na mesa de Velho Franja e outros membros veteranos. O patrulheiro Ronaldinho e Sor Gustavão entre eles. Um dos recrutas, a quem chamavam de Sabiá, por saber cantar e tocar violão bem, começou uma música.

- Como vão as invenções, Franjinha? - perguntou Xaveco.

- Vão bem. Tenho feito alguns avanços na construção de um robô vigia para a muralha, mas ainda está longe de ficar pronto – respondeu ele. - E como tenho que liderar esse clube, não tenho muito tempo para invenções.

- Uma pena – disse Xaveco, tomando um copo de refrigerante de limão. - Uma pessoa com seu potencial ficaria muito melhor em algum grande clube, onde teria mais recursos e mais tempo para seus projetos.

- Fico onde o dever me chama – sorriu. - O Clube da Esquina é tão importante quanto qualquer outro, acredite, Xaveco, e nós precisamos de sua ajuda. Seu irmão é membro da Guarda do Dono, e seu líder é o garoto mais poderoso do Limoeiro. Fale com eles sobre o que estamos passando.

Claro, só que quando eu falasse, Fabinho iria rir enquanto Nico Demo me mandaria calar a boca e procurar algo melhor para fazer. Demoraria algumas horas para a manhã chegar, e aproveitaria a generosa hospitalidade do Clube da Esquina enquanto isso.


 

Manuel

Só havia se passado duas horas de sua vigília e já estava cansado. Começou a chover um tempo depois de Xaveco ter saído, e Manezinho teve de pegar o guarda-chuva. O ar estava cheio do som da água caindo nos telhados e escorrendo numa torrente para o chão. O piso ali em cima estava escorregadio, então devia tomar cuidado por onde andava. No outro lado da rua, o outro patrulheiro, provavelmente mais esperto do que ele, havia resolvido fazer a vigília do lado de dentro.

O barulho de pisadas em poças d'água contrastou com o do ambiente. Não estava mais sozinho ali.

- O que você quer? - perguntou Manezinho.

- Atender ao pedido de um velho amigo – respondeu Zé Luís. - Ele mandou você até aqui, então o mínimo que posso fazer é dar satisfações.

- Por que não antes?

- Num lugar em que poderíamos ser ouvidos, e ainda perto de seu amigo Lothston? Você é um imbecil, não é? - disse Zé Luís. - Tanto quanto o seu líder Quinzinho. Talvez tenha aprendido a ser assim com ele. Não o culpo também, ele deve ter pego isso de mim – olhou os arredores. - Não há ninguém perto agora e o som da chuva ajuda a abafar a conversa.

- Então fale do que nós queremos – Mané o fitou. - Você já sabe.

- Fui acusado de gostar de uma garota seis anos mais nova. Quem acham que sou, o Franjinha? - riu. - Fosse o líder do clube de Magali no lugar dela e teria conseguido uma desculpa melhor.

- Então Dona Magali está por trás disso?

- Pode estar – corrigiu. - Eu estive conversando com Cebolinha, o Mestre dos Navios, sobre uma suspeita que nós dois tínhamos sobre os Lothston. Certo dia, encontraram uma carta com minha letra, em que eu me confessava para a Dona Consorte, o que era julgado como traição. Não creio que Magali ou o Traidona tenha tido a capacidade de fazer uma cópia tão perfeita, então teriam que envolver alguém, e também precisariam de alguém para invadir meus aposentos, como um traíra em minha guarda, esses detalhes não batem. Porém, dadas as circunstâncias, não consigo pensar em mais ninguém.

Uma palavra no meio daquilo chamou a atenção de Mané.

- E o que seria essa “suspeita”? - perguntou.

- Preste atenção no que vou te dizer: Há uma conspiração para tirar Jeremias do trono, e ela vem por parte dos Lothstons. Sabe como é feita a eleição para presidente do Clube dos Meninos, certo?

Mané assentiu. O sistema praticamente o mesmo em seu clube. Na eleição do Líder do Bermudão, além dos membros existentes na época, Quinzinho, Titi, ele e Teveluisão, também foram escolhidos, de forma aleatória, outras quatro crianças juramentadas ao clube, mas que não eram membras dele.

- Pois bem, a ideia é deixar Jeremias incapaz de governar, convencendo a todos de que não pode continuar sendo Dono da Rua e terão que convocar novas eleições. Os Lothstons querem que Príncipe Dudu assuma o trono, porém ele tem apenas quatro anos, e a idade mínima é de seis. Sabendo disso, é provável que ninguém votaria nele, então também planejam adulterar o sistema de escolha, colocando suas próprias crianças juramentadas para votar ou subornando as do Clube dos Meninos.

- Como você sabe de tudo isso? - perguntou Mané.

- Um de meus conselheiros ficou sabendo disso, e o resto descobri investigando. O Mestre dos Navios também tinha as mesmas suspeitas e me ajudou com isso.

- Por que nunca contaram a Jeremias, então?

- Ele jamais acreditaria. Acharia que é uma conspiração de Cebolinha para ter o Trono da Rua para si, e que sou tapado demais para crer em seu discurso – suspirou. - Quim é seu melhor amigo, talvez acredite nele.

Mané assentiu em silêncio, observando a chuva cair. Zé Luís continuou:

- Já sabe o que escrever para ele?

- Sim. Fizemos um sistema de códigos para a mensagem antes de nos separarmos – respondeu. - Não precisaria de ter vindo aqui se você tivesse falado com ele ou ao menos mandado uma mensagem.

- Como eu faria isso sem que eles descobrissem? - perguntou o ex-Senhor do Roleplay. - Não podia parar no Galpão da Bermuda no caminho. Os Lothstons têm espiões em todo lugar, então não seria bom se eu mandasse mensagem pro Galpão da Bermuda também. Já você – deu uma encarada, ajustando os óculos quando eles desceram. - O que disse aos outros sobre seu motivo de vir para cá?

- Disse que não queria continuar no meu clube após a saída de Quim, afinal ele era meu amigo mais próximo. Também queria que meu irmão Alfacinha aprendesse a se virar sem mim por perto, e queria fazer parte de um grupo importante, ter algum propósito… Xaveco riu da minha cara quando disse isso.

- Seus motivos me soam convincentes – respondeu Zé Luís, sem dar opiniões. - Também acreditaria neles se não soubesse de sua real situação.

Talvez porque sejam um pouco verdadeiros.

- Se já sabe o que escrever, então não perca tempo – lembrou Zé Luís. - Mais uma coisa: Diga a ele para ler livros que não sejam só de receitas de padaria. Existem muitos livros mais interessantes por aí, talvez ele dê sorte com uns quatro.

- Claro – respondeu, já andando na direção da escada, até que parou e se virou para trás novamente. - Obrigado, Lí… Zé Luís.

- E falando como membro juramentado do Clube da Esquina, siga meus conselhos – continuou. - Nossas conversas não acabaram ainda.


 

Marina

- A floresta das Pitangueiras – indicou Renatinho.

A imensa vegetação remanescente da Mata Atlântica estendia-se por todo o horizonte visível e passava metros acima de suas cabeças. A aldeia de Tupikanaam já se localizava na floresta, mas os arredores já haviam sido cortados para o uso dos tupis e, mais tarde, para as plantações dos caraíbas. Ali estavam no coração da floresta, a mata densa que continuaria até chegarem a Pitamazón.

- É tão verde – foi tudo o que ela conseguiu comentar.

- Agora sim, porque é verão. Quando o meio do ano chega, faz calor e não chove, e uma parte da mata seca.

O ataque à aldeia de Papa-Capim não fez Mônica voltar para a mansão de Genesinho e esperar lá. Em vez disso, decidiu que continuaria com o grupo até que lhe dessem seu Sansão. Mas Marina não queria ouvir reclamações.

- Diga a todos que parem aqui – falou com Renatinho. - Eu ordeno.

- Claro, minha princesa – respondeu com um risinho. - Está aprendendo a falar como uma Dona da Rua.

- Não como uma Dona da Rua – corrigiu. - Como uma Cacique.

A noite havia sido complicada. Andaram em linha contínua por horas, fugindo da destruição da aldeia pelos caraíbas. Então Papa anunciou uma parada para dormir, quando alcançaram uma clareira. Uma fogueira foi feita e Papa se anunciou Cacique, tomando para si a responsabilidade da sobrevivência de sua tribo de crianças. Nenhuma ousou discutir ou fugir. Estava claro que todos confiavam nele.

As penas dos colares das meninas foram arrancadas e oferecidas ao novo cacique para a construção de seu cocar. Jacira e outras duas estavam encarregadas do serviço, que começaria quando parassem novamente. Talvez agora.

Para Marina, a noite foi um momento de decisões. Após quase ter sido sequestrada, ficou claro que Mônica não era tão forte como antes, e o medo que sentia por ela diminuía. Os únicos que tiveram coragem de me salvar foram um selvagem que me vê como um objeto e um garoto criminoso que eu mal conheço. Quando deitou-se, finalmente veio o momento em que não aguentava mais ficar ali, que preferia fugir e se entregar ao Usurpador a continuar.

Quando ela dormiu naquela noite, ela sonhou com o Sansão vindo acertá-la, e quando ela abriu os braços para a coelhada, não havia dor. Ela atacou a pelúcia, deixou se afundar no pelo dele e toda a dor que sentia ser atirada para fora de si quando foi atingida. Quando acordou, sentia-se melhor do que nunca.

- Como se atreve!

Olhou para trás para ver Mônica vindo em sua direção.

- Você dar ordens a mim? A mim?! - ela a puxou pelos ombros. - Eu não recebo ordens de um brinquedinho de chefe selvagem. Está me ouvindo?

Marina a estapeou e a afastou de si. Ela nunca a questionou, nunca a desafiou. Então soube que agora sim teria um motivo para ser machucada. Mônica rangiu os dentes e levantou o braço, mas o cabo de uma lança a acertou na mandíbula. Ela caiu no chão, e a ponta foi posta em seu rosto. Cafuné dirigiu a palavra a ela, e Renatinho traduziu:

- Ele quer saber o que devemos fazer com ela.

- Não a quero machucada – respondeu. - Tomem as armas dela e a deixem sozinha.

- Não! - ela gritou. - Renatinho, acabe com esses índios fedidos e mostre-os quem eles devem respeitar. Sua Dona da Rua ordena!

Ele a ignorou e continuou junto à Marina. Mônica foi arrastada pela gola do vestido, furiosa.

- Sor Renatinho, ela parece bem brava dessa vez – disse Marina, com um pouco de preocupação na voz. - Acordei o Sansão, não foi?

- O único Sansão que existe é o que foi capturado por Jeremias quando venceu a Rebelião dos Meninos – respondeu. - O que há dentro de Mônica é apenas um ego ferido pelo fracasso.

Sim, pensou Marina. Isso, e muito ódioSe eu não estivesse sempre por perto para ter em quem descontar, ela já teria explodido.


 

Joaquim

Haviam se passado dois dias desde seu encontro com Aninha. Ela e Teveluisão haviam deixado para ir amanhã, o dia do torneio, quando haveria mais movimento na Capital, afinal estavam voltando pela rua. Por mais ocupado que estivesse, ainda tinha mais um serviço a fazer, sua obrigação para com seu tutor.

- A traição de Zé Luís foi uma grande tristeza para todos nós, senhor – comentou Mestre Conselheiro Julinho. Uma criada de seu quarto trouxe uma jarra de suco. - Aceita um refresco? Está fazendo muito calor hoje. No livro de Geografia que estive lendo dizia que uma grande onda de calor precedia dias de chuva em regiões como a nossa, porém nem sempre é assim…

Ele continuou o falatório. Julinho era um garoto de oito anos, voz trêmula, altura baixa, cabelo castanho curto e rodeado de pilhas de livros. Ele havia sido escolhido para o cargo antes mesmo de Mônica ser Dona da Rua. Seus pais eram professores e tinham vários livros em casa, de onde ele tirava seu conhecimento. Talvez porque não tivesse muitos amigos, não sabia conversar direito, sempre enrolando em vários pontos.

Depois de ter quase dormido, Quim o interrompeu e pediu para que falasse do antigo Ministro.

- Zé Luís sentava-se conosco no conselho, sim. Nos últimos tempos ele andava bastante estranho. Sempre parecia distraído, perdido em seus pensamentos. Encarava Magali toda vez que passava, às vezes ficava bem na cara. Mas ela estava comprometida com nosso Dono, é claro, então ignorava a admiração do rapaz. Não é à toa que ele estivesse melancólico nos últimos tempos.

- O que eu vim perguntar, Mestre-Conselheiro – prosseguiu Quim. - É se ele tinha inimigos, alguém que o quisesse fora daqui, que poderia armar algo contra ele.

- Não me recordo. Sor Zé Luís fez um bom trabalho como Líder do Clube dos Meninos, saiu porque quis, era respeitado por seu novo clube, apoiou Jeremias na rebelião… Não acredito que alguém tivesse algo contra ele até descobrirem da admiração dele por Magali.

Quim suspirou e pôs-se de pé. Manezinho o enviou uma carta naquela madrugada, e a leu pela manhã. Os dois haviam feito um sistema de códigos pelo qual podiam se comunicar sem correr o risco de descobrirem a investigação, mas também não podiam dizer muito. Lida por qualquer outra pessoa, a carta de Manezinho parecia normal, mas a algumas das frases tinham sido dados outros significados, como “a cama que me deram tem uma tábua quebrada” dizia “a suspeita nos Lothston está certa”. É verdade que armaram contra Zé Luís, mas não posso ir até o Dono da Rua sem provas. Perguntou o que o Senhor do Roleplay estava estudando na última vez que o vira.

- Este livro – Julinho entregou-lhe um volume pesado. - Os Membros dos Grandes Clubes do Limoeiro. Se tiver algo mais com o que eu possa lhe ajudar, Quinzinho, estou ao serviço.

Não tinha conseguido dormir direito na noite passada, então foi ao seu quarto para repor esse tempo. Mal entrou e bateram à sua porta.

- Pode entrar – disse.

Bárbara entrou no quarto e ficou de pé ao lado da porta.

- Tá tudo bem, Bárbara?

- Lí… Quim, se esqueceu de que dia é hoje?

- Ah, claro – suspirou. - Me dê um instante.

Depois de ter se arrumado, chamou sua comitiva e foi ao Campinho. Do Contra pegou um lugar na arquibancada próximo a ele e Bárbara.

- Que bom que veio ao torneio em sua homenagem, Ministro! - ele o saudou. - Imaginei que não fosse comparecer.

- Isso é um desperdício de dinheiro – resmungou Quinzinho.

- Não pense como isso. É uma oportunidade quase única de união dos clubes, vê-los disputar de forma amigável, manter a paz na rua e as crianças entretidas. Claro, nós gastamos muito dinheiro com isso, mas é um custo necessário.

- Do jeito que você falou, parece que estamos sediando uma copa do mundo.

- É quase isso, porém, tecnicamente quem está sediando é o Clube de Abobrinha – acenou com a cabeça para o Campinho. - Falando nele…

As arquibancadas que circulavam o campo estavam praticamente lotadas. Atrás de uma das bordas, onde estava a organização, saiu José Leocadio, com seu cabelo loiro bagunçado, chapéu de palha, macacão azul e camisa rosa listrada. Ele discursou numa altura audível:

Oi pessoar, antes di mai nada, bom torneio a todos. Procêis qui num sabem, meu nome é Zé Lelé, eu sô o atual regente de Abobrinha inté o Líder Chico vortá da Muraia. Uma pena ele num poder ver esse evento batuta di bão qui nós organizô – levou a mão em direção aonde o financiador estava sentado -, junto é claro, ao nosso Dono da Rua, Sagraça Jeremias.

Jerê sorriu e recebeu os aplausos. Zé Lelé continuou:

- Vamo prosseguí então pro primêro evento. Quem qué futebol?!

A multidão vibrou em resposta. Ao ver onde o Dono estava, Quim avisou a Bárbara que estava indo falar com ele e a deixou com a comitiva de guardas, o intendente Lincoln e suas irmãs, das quais ela era amiga. Quando o encontrou, viu que Jeremias parecia animado. Magali, ao seu lado, nem tanto.

- Quim, meu amigo! - o cumprimentou. Théo, o dálmata de Jeremias, foi até Quinzinho para cumprimentá-lo lambendo sua perna. - Venha ver comigo o primeiro jogo, Clube dos Krause vs Clube dos Jedi. Quanto acha que vai ficar?

- Não sei, mas aposto nos Krause – respondeu. Clube dos Krause, juramentado ao Clube de Abobrinha era um Clube de cinco irmãos de descendência europeia que moravam na Vila. Eles eram os atuais campeões. - Dono, se tiver algum tempo depois do torneio, tem um assunto que gostaria de discutir em particular.

- Claro, depois eu olho isso – seus olhos não desviaram do campo quando o juiz deu o apito inicial. - Lembra-se da época em que fizemos um time com o Clube dos Meninos e do Bermudão? Eu ia na ponta, Titi no gol, Cascão tabelava comigo, e você… ia aonde mesmo?

- No banco de reservas. De vez em quando entrava como zagueiro – Quim o lembrou. - Mas nunca fui muito bom em futebol.

- Ah, deixe de modéstia, você jogava bem. Eu fui artilheiro por vários anos e me preocupava demais em me manter no topo. Sinto falta desses dias, em que não tinha que me preocupar com a traição do meu Ministro e com Mônica voltando do outro lado do rio com um exército tupi, com esse peso de coelho de pelúcia… - se interrompeu, como se tivesse lembrado de onde estava. - Aqueles eram os dias.

- É – concordou Quim, com um suspirou. - Tem razão.


 

Antônio

- ...e depois disso, o Barão derrubou a ratazana e ela saiu de cima de mim, e aí, e aí – Isabela, um ano mais nova que si, mal continha a emoção ao descrever a aventura que ela e seu pastor-alemão, a quem chamou de Barão, tiveram – E aí ela saiu correndo e ele me salvou!

Alfacinha ouvia tudo em sua cama, com Duque deitado ao seu lado. Sua prima passou a manhã brincando com o animal e só havia vindo vê-lo agora.

- Isso é legal, Isa, mas a gente pode brincar aqui dentro agora? - perguntou Alfacinha.

- Mas não tem nada de legal pra fazer aqui dentro! - ela respondeu.

- Tem sim, eu tenho uns jogos de tabuleiro aqui e…

- Não gosto deles! São jogos idiotas, bleh – mostrou a língua. - Vou brincar lá fora, é muito mais legal!

Correu para sair e encontrou alguém do clube na porta.

- Bom dia, Toneco – ela o saudou. - Posso voltar a brincar lá fora?

- Agora não dá, Lusinha Selvagem, viemos levar Alfacinha – respondeu, indo até o garoto.

Toneco de Exil não tinha muita paciência com crianças pequenas. No seu clube não tinham muitas, pelo que soube, e quando Alfacinha chorava ou fazia "coisas típicas da idade" ele sempre parecia o mais incomodado.

- Como assim? - ele perguntou. - Levar pra onde?

- Temos visitantes – disse Meistre Elias, entrando logo após Toneco. - Sua presença é solicitada, Antônio.

Toneco o pôs sobre os ombros e o levou ao salão de entrada, sendo seguido por Elias, que puxava Isabela pela mão. Ajudou a colocar o garoto na cadeira. Titi, na cadeira de líder, não estava de olhares muito amigáveis para um visitante. Alfacinha o reconheceu como Xaveco, o garoto de sete anos que estava os visitando com o Dono da Rua, e os outros como patrulheiros do Clube da Esquina, por causa das roupas.

- Qualquer garoto do Clube da Esquina é bem-vindo a ficar no Galpão da Bermuda pelo tempo que quiser – disse Titi.

- Qualquer garoto do Clube da Esquina – frisou Xaveco. - Eu não, aparentemente. É menos gentil que seu ex-irmão, que está lá agora.

- Manezinho – Alfacinha pensou alto.

- Então é verdade, o garoto está vivo – observou Xaveco. - Se não fosse impossível, diria que vocês do Clube do Bermudão são difíceis de matar.

- Pois bem, você disse que tinha assuntos a tratar com Alfacinha – pôs a mão sobre seu ombro. - Aqui está ele, Lothston.

- Me disseram que era um bom escalador, Alfacinha – disse Xaveco. - Me diga, como caiu naquele dia?

- Eu não caí! - ele respondeu, com raiva de continuarem o acusando daquilo. - Eu nunca caio!

Xaveco continuou com um rosto sério e Titi interveio.

- Alfacinha não está aqui pra ser interrogado, Lothston. Fale logo o que quer.

- Tudo bem. Eu estive no laboratório de Franjinha, na Muralha, e falei com ele sobre sua condição. Ele me mostrou uma bicicleta para cadeirantes, que havia feito para o Luca, do Clube da Quadra. Disse a ele para fazer outra pro galã e comprei a que ele tinha.

- Espere um pouco, uma bicicleta para cadeirantes? - perguntou Toneco. - Como isso funciona?

- Dessa forma: Ela tem vinte e uma marchas e três rodas, uma na frente e duas atrás. O motorista fica num com encosto para as costas e usa as mãos para movimentar – Xaveco fitou Alfacinha. - Só vai precisar de ter muita força nos braços, garoto. Ela é toda sua.

As crianças na sala pareciam surpresas com o que havia dito.

- Está dando ela pra mim? - perguntou Alfacinha. - O-Obrigado, senhor Xaveco.

- Nosso Clube aprecia seu presente – disse Titi, um pouco confuso. - Mas posso perguntar, por que está fazendo isso?

- Nada demais – Xaveco disse com tranquilidade. - Só tenho um apego inato a rejeitados, aleijados e esquecidos.

- Não sou um aleijado! - gritou Alfacinha.

- Então eu não sou um secundário sem características pessoais – respondeu Xaveco.


 

Bárbara

O torneio de futebol foi feito na parte da manhã. Numa reviravolta, o Clube dos Krause perdeu para o Clube dos Jedi. Sua amiga Lola L. estava decepcionada.

- Achei que o Tikara fosse aparecer – lamentou. - Soube que ele é tão bonito.

- E um ótimo jogador, se me permite comentar – disse Do Contra. - A equipe sempre dependeu dele, não é à toa que o fizeram seu capitão.

- Se ele é o capitão, por que não veio? - perguntou Bárbara a Quim.

Quinzinho suspirou. Não gostava de trazer à tona aquela velha história.

- Os membros do Clube de Jedi ainda sentem a perda de Mitiko – explicou. - Nenhum membro do clube vem à Capital desde a rebelião.

Desde que um cavaleiro misterioso ficou responsável pela irmã mais nova de Tikara, a herdeira do Clube das Meninas. Ela conhecia a história. Na invasão da Capital, Nico Demo de Lothston havia posto um garoto novo que ninguém conhecia. Ele era alto, cabelos pretos longos, olhos verdes, falava pouco, e quando dizia algo, geralmente era berrando um xingamento ou uma ordem. Ele ficou conhecido como Rípa, em referência a Jack, o Estripador. Depois daquele dia ele não foi mais visto.

Dário, o irmão mais velho de Zélio, estava ali, no ataque do Clube Lothston, e participaria de mais modalidades naquele mesmo dia. Outro clube que não havia mandado membro algum era o da Quadra. Bárbara sabia da tradição de seu antigo clube no futebol, mas, há muito, o Líder Boa Bola havia perdido sua habilidade nos esportes, e depois, sua força, e passava os dias no Vestiário da Quadra, sua sede. E Bernardinho Tigre-Verde estava ocupado servindo no Clube do Roleplay para poder vir.

- E aquele Zé da Roça? - Bárbara comentou com Lola. - Ele até que é bonitinho.

Enquanto o atacante do Clube de Abobrinha jogava, um casal chegou ao Campinho. Com um sorriso irônico, Do Contra comentou com Bárbara.

- Olhe, milady. Já conhece Maria Cascuda?

Era a primeira vez que via a namorada de Cascão, uma menina de cabelo loiro, curto e cacheado. Tinha uma expressão mal-humorada e não era muito vista com ele. Os meninos esperavam que Cascão jogasse no time do Clube dos Meninos, mas, estranhamente, ele não quis participar do campeonato e o time jogou sem um membro oficial.

Na final, o Clube de Abobrinha enfrentou o Clube dos Jogadores Criados para Merchan, ou simplesmente Jocrimer. Perderam por um gol, marcado por Ronaldinho Gaúcho no fim do segundo tempo. Depois disso, foi feito um intervalo para almoço. O Senhor do Velho Clube veio falar com Ministro Quinzinho, e Bárbara pode ver que, de perto, Cascuda não parecia menos ranzinza.

- Olá, Ministro, está gostando do seu torneio? - perguntou. - Assim que acabar, creio que o Conselho vá se reunir de novo com o senhor. Parece que tivemos alguns gastos imprevistos.

- Ah, claro, estou ansioso para discutir alguns assuntos com o Conselho – respondeu Quim. - Como a ausência de seu colega Cebolinha, o Mestre dos Navios. O que ele está fazendo que não veio até agora?

- Cebolinha? Ah, não se preocupe com o Careca – disse Cascão. - Ele não gosta desses torneios. Tenho certeza de que vai retornar de sua visita ao seu Clube das Meninas, quer dizer, ao seu Folte de Aguaglis assim que acabar.

As pessoas de maior hierarquia comiam no salão de jantar da Fortaleza de Cebolão no momento. Próximo ao Dono da Rua estavam Anjinho, Comandante da Guarda Real, e Fabinho Boa-Pinta, próximo à Dona Magali.

- Vou participar do combate corpo a corpo – anunciou Jeremias. - Mandem trazer minha espada.

O corpo a corpo era o mais violento dos modos do torneio de luta de espadas. Vários competidores ficavam no campo, e só perdiam quando eram derrubados no chão. Magali não pareceu contente ao ouvir isso, e parou de comer sua asa de frango para reclamar:

- Tá doido?! Um monte de garotos vão cair em cima de você! Vai se machucar!

- Cala a boca, Magali, quem você acha que venceu a rebelião? - gritava com ela por odiar ser subestimado. - Que derrotou Mônica na Batalha da Quadra?

- Aquilo foi há muito tempo – ela respondeu. - Agora você tá fora de forma, não quero que vá lá!

- Ora, menina!

Resmungando, levantou-se da mesa e saiu, sendo seguido por Sor Anjinho. Bárbara percebeu que Quim o olhava, pensativo. Quando o líder saiu do salão de jantar, ela o acompanhou.

- Quim, se me permite dizer… - sussurrou Bárbara.

- Pois não?

- O Dono da Rua é… bem menos grandioso do que você descrevia.

- Ah, bem, atualmente ele é assim porque não luta de verdade desde a Revolta dos Exilados – explicou Quim. - Mas as histórias que ele conta são verdadeiras, ele derrotou Mônica e seu coelhinho Sansão, que agora é dele, na batalha…

- Disso eu sei, mas não falava só de força – disse Bárbara. - Ele é meio… - sussurrou. - Idiota. Mesmo fora de forma, ele quer entrar na disputa mais perigosa, onde pode se machucar bastante e fazer o povo da rua rir dele. Além disso ele também foi grosso com Dona Magali e com outras pessoas nesses dias que vi ele, e Do Contra disse que ele só participou de duas reuniões em...

Quim suspirou.

- Bárbara, esse é só o… o jeito dele. Ele sempre foi assim – disse a ela. - Há muitos anos, quando andávamos juntos, ele já era corajoso demais, ficava se metendo em enrascadas e acabava pra Zé Luís ter que resgatá-lo e limpar a barra dele. Ele sempre foi mais de agir do que pensar, e por isso me chamou para ser Ministro, e como ele é meu amigo, não pude abandoná-lo. Entendo que você não confie nele como um governante, mas confia em mim, Bárbara?

- Eu confio, Líder Quinzinho – ela respondeu.

- Então é o suficiente.

A próxima parte era o combate singular num sistema de mata-mata. Dois competidores entravam e disputavam uma luta de espadas, cujo o objetivo era derrubar o oponente ou sua espada no chão, passando quem vencesse a melhor de três. Contudo, havia regras: Era permitido atacar somente com a espada, e não podiam mirar nos olhos. O Clube dos Jocrimer teve participação menos expressiva nessa categoria e seus membros que participaram foram eliminados na primeira fase. Um destaque foram as crianças juramentadas ao Clube dos Jedi, com uma guerreira, chamada Chiho Misaki, chegando às semifinais.

A final foi disputada entre Dário e Zé da Roça. Antes da disputa, o segundo passou perto das arquibancadas, para receber os aplausos de seu clube e dos novos fãs. Quando viu Bárbara, tirou uma flor do bolso da camisa e a entregou.

- Um violeta, milady – ele sorriu. - Combina com você.

- O-Obrigada – disse Bárbara, sem saber outra forma de reagir. Ao seu lado, Lola estava rindo por ela ter ficado vermelha. Ele é muito gentil. Se tivesse como escolher pra quem ia ser dada pra firmar uma união diplomática, queria que fosse com ele.

Olhou para o seu prometido, o Príncipe Dudu de quatro anos, sempre vigiado por Zélio. Ele nunca vai ser como um dos galãs do bairro, mas talvez eu possa gostar dele. De qualquer forma, Quim me disse que vou ficar apenas como prometida.

- Cinquenta contos no Dário! - Do Contra apostou com Cascão.

- Eu aceito a aposta – disse Cascão.

- Ótimo, agora, o que farei com cem reais? Posso comprar uma entrada pro parque aquático fora da cidade – provocou. - Ou então um álbum de figurinhas incompleto do Capitão Pitoco de cinco anos atrás.

- Em vez de desperdiçar meu dinheiro com isso, você poderia comprar um amigo pra você – respondeu Cascão.

Começou a primeira luta entre os dois, com Dário avançando e dando golpes fortes em Zé. Continuou até que acertou um golpe forte nos dedos, fazendo-o derrubar sua espada, em seguida o acertou no rosto e o fez cair no chão.

Já chega! - disse o juiz. - A primeira luta vai para Dário, do Clube Lothston!

Sua comissão aplaudiu. Na segunda luta, Zé da Roça parecia mais atento. Quando o primeiro golpe veio, ele se desviou e o acertou na barriga. Defletiu os dois golpes seguintes, agora recuando, depois o distraiu com um golpe falso e tocou seu peito.

Por fim, acertou ele no pulso e sua espada caiu.

- A segunda luta vai para Zé da Roça, do Clube de Abobrinha! - anunciou o juiz.

A multidão nas arquibancadas gritou e aplaudiu. Zé da Roça havia conquistado a torcida.

- Que pena, Do Contra – Cascão o provocou. - Seria bom pra você se conseguisse um amigo.

- Abro mão de alguns tipos de amizade – respondeu Do Contra, apontando para Zé da Roça. - Como a sua e a do seu amigo ali.

Na última luta, Dário começou tentando acertar sua cabeça, mas ele se abaixou e saiu no último instante. Trocaram golpes por dois minutos, deixando o público ansioso. Por fim, Dário pulou e se lançou para cima dele.

- Ei, isso é permitido? - perguntou Lola, confusa. - Parece que ele vai esmagá-lo com o peso mesmo se errar.

Zé da Roça se abaixou e saiu, e Dário caiu ajoelhado. Agora o garoto de Abobrinha tinha a vantagem e ia acertar sua cabeça e acabar com aquilo, porém, Dário parou seu golpe, com a mão.

- Isso eu tenho certeza de que não é permitido – disse Lola.

O juiz estava se aproximando para ver o golpe de outro ângulo, quando Dário arrancou a espada e lançou ao ar. Então, mesmo com o juiz tendo apitado e gritado pra parar, acertou um golpe em Zé da Roça e o jogou no chão. Estava para acertar mais, quando Zélio desceu da arquibancada e o confrontou. Os irmãos trocaram alguns golpes, enquanto a multidão gritava “Oh” e Zé da Roça estava caído no chão.

Parem com essa loucura, em nome do seu Dono da Rua! - gritou Jeremias.

Imediatamente, Zélio se ajoelhou com sua espada e Dário permaneceu de pé, respirando ofegante.

Deixem ele ir embora! - ordenou aos guardas.

Eles abriram caminho e Dário passou. Zé da Roça se levantou e se aproximou de Zélio.

- Obrigado por ter me salvado, sor.

- Não sou um sor – Zélio respondeu.

Este é o verdadeiro campeão! - gritou Zé da Roça, levantando o braço de Zélio, e o público gritou e aplaudiu.


 

Ana

Com um dos vestidinhos das primas de Do Contra, e estava encapuzada, assim como Teveluisão, o que os protegia um pouco da chuva que começou logo após a competição.

- A rua está muito cheia – disse o rapaz. - Não acharia melhor ter vindo mais cedo?

- Não. Com menos pessoas, eu seria facilmente vista e reconhecida, ainda mais aqui na quadra – respondeu Aninha. - Por isso preferi esperar. Se nos virem andando, vão pensar que é apenas um rapaz que foi com sua irmãzinha ao torneio e agora a está levando para casa – viu uma lanchonete no caminho. - Vamos parar pra comer alguma coisa?

- Vamos, irmãzinha – Teveluisão riu.

A Padaria do Seu Jura era um lugar conhecido por Aninha, costumava ir lá no passado com Carminha, Luca, Do Contra e, às vezes, Bárbara. Teveluisão viu várias mesas e cadeiras de plástico guardadas num canto e puxou o suficiente para terem onde comer, já que as outras mesas estavam ocupadas. Aninha ficou na fila e pediu os lanches. Por um segundo, temeu que Seu Jura a reconhecesse, afinal seu rosto era o mesmo de anos atrás. Felizmente foi atendida por sua filha, que ainda não trabalhava ali na época, e pode levar os mistos quentes e bebidas pra mesa sem problema.

O misto estava gostoso como sempre. Enquanto bebia seu suco, reconheceu a voz de uma pessoa que acabara de entrar. Não. Seria…? A próxima fala o entregou.

- Patrícia, belíssima como sempre – disse ele com cortesia. - Como vai minha atendente favorita da Padaria do Seu Jura?

- Sai, Lothston – assim ela respondeu seu xaveco. - Já te disse que tenho catorze anos, o dobro do que você tem. Vão querer algo?

- Vou acompanhar os rapazes – olhou para o grupo de três patrulheiros. - O que vocês querem?

- Vou querer uma barra de sníquer – disse um. - Não tem muito disso lá no Esquina.

- Vou comprar umas pra levar – disse outro. - Ei, a gente podia rachar uma pizza. Ouvi dizer que as daqui são muito boas.

- Cê sabe que ele não faz a pizza, né? - disse o terceiro. - Ele só esquenta as que compra congeladas no supermercado e cobra quase o dobro. Compensava mais a gente ia lá, comprar uns doces...

- Minha irmã de clube adoraria essa conversa – riu Xaveco.

Olhou os arredores. A lanchonete está cheia, mas não está mais lotada. Precisamos ir embora daqui logo.

- Melhor irmos – disse Teveluisão.

- Espera eles pegarem os lanches – disse Aninha. - Aí vão ter algo para se distraírem.

Porém, na hora de ir embora, Xaveco largou seu pão de queijo e a encarou. Quando ela virou-se para sair com Teveluisão, o Lothston se levantou para cumprimentá-la.

- Senhora Aninha, mas que surpresa! Bem que estranhei sua ausência na minha volta ao Galpão da Bermuda.

Ana era olhada por todos e tirou o capuz, já que havia acabado seu segredo. Fitava Xaveco com uma expressão séria, contendo-se para não atacá-lo.

- Não vai me dizer “oi”? - ele perguntou.

- Teveluisão, ainda está aí? - perguntou Aninha.

- Estou, minha lady – respondeu. - Ao seu serviço.

No canto da sala, ela reconheceu uns rostos.

- Antes de me mudar para o Clube do Bermudão, eu era Aninha do Clube da Quadra – disse em voz alta. Ronaldinho Gaúcho, Dieguito Maradona, Ronaldinho Fenômeno, como vai o Clube do Jocrimer? - perguntou a eles. - A lealdade de Pelézinho continua sendo do meu Líder Boa Bola?

- Sí, señora – disse Dieguito. - Nuestro Líder Pelezito hacerá una fiesta de compleaños y su clube estás invitado.

- Não entendi isso, mas vou tomar por um sim – Aninha respondeu. - Clube do Terceiro Andar, nós sempre apreciamos de vocês se darem o trabalho passar por três andares de escada de seu prédio e virem da Rua de Cima para nossas reuniões.

- É um privilégio, minha Senhora – disse um de seus membros.

- Lady Aninha, eu realmente não entendo… - Xaveco questionou, um pouco preocupado. - Qual é a necessidade disso?

- Senhora Marissa do Forte D'Água – Aninha não parou de chamar os clubes juramentados ao da Quadra. Aquela, em questão, era apenas uma garota que morava numa casa com muro alto e piscina, e por isso tinha posição de prestígio na Quadra. - Como vai seu castelo?

- Seguro como sempre – respondeu Marissa. - Quando desejar, pode ser usado para servir o Clube da Quadra, minha Senhora.

- Muito bem, então – disse Aninha. Se afastou de Xaveco e o apontou de forma visível para os outros. - Este menino tramou contra a vida de Alfacinha, um garoto de seis anos, membro do meu atual clube. Enquanto ele dormia, o Lothston mandou alguém matá-lo com seu próprio canivete. Levem-no comigo até o Galpão da Esquina, onde será julgado por seus crimes.

De repente, viu Xaveco cercado de espadas.


 

O Ministro da Rua

Era noite novamente. Aquele dia havia deixado-o exausto, mas os compromissos ainda não haviam acabado. Encontrou-se com Nimbus, o Mestre dos Sussurros, que o tinha convocado para uma conversa particular.

- Tentaram se livrar de nosso Dono da Rua hoje novamente – Nimbus disse sem papas na língua.

- Quem? - Quinzinho quis saber.

- Quim, acho que se eu fizesse alguns dos meus truques de ilusionismo em você, não funcionaria, pois já parece estar iludido. Se não sabe quem é, é tão burro quanto Jeremias.

- Está falando de quando ele quis lutar?

- Exatamente. E a Dona Lothston ajudou bastante com essa ideia.

- Magali disse para ele não ir.

- Ela disse isso justamente para provocá-lo e o fazer insistir na ideia. Imagine só, nosso Dono da Rua entra em campo de batalha, perde e é humilhado por todos. Como ficaria sua imagem após isso? Imagine se ele sofre um ferimento e fica incapacitado. As pessoas do bairro o veriam como um Dono fraco e decadente, e veriam seu futuro numa ascenção ao trono pelo jovem e valente Príncipe Dudu. Na verdade, isso seria ainda mais fácil se, no meio da luta, alguém viesse para cima de nosso Dono com uma arma mais letal.

- Está falando de matá-lo? - Quim se assustou.

- Posso estar – disse Nimbus. - Por que a surpresa?

- Nimbus, acho que seria demais, quer dizer…

- Não tentaram matar o garoto de seu clube, Alfacinha?

- Sim, mas ele não morreu, porque… - Quim buscou as palavras certas em sua mente. - Porque nós não morremos.

- Sim, nós não morremos. Anos se passam e continuamos comemorando os mesmos aniversários, passamos por situações absurdas típicas de personagens de histórias em quadrinhos, somos lançados ao espaço, caímos de penhascos, e mesmo assim, não deixamos de viver – concordou Nimbus. - Mesmo assim, por que nos preocupamos quando alguém sofre uma tentativa de assassinato?

- Obviamente por instinto – respondeu Quim. - Fomos criados para sermos crianças, e quando essas coisas ocorrem em nossas vidas, reagimos como qualquer uma reagiria. Mas, no fundo, por algum motivo sabemos que isso nunca aconteceria.

- Acha isso mesmo? - Nimbus o olhou com olhar de desconfiança. - Ninguém nunca morreu em nosso mundo?

- Bem, teve a Mariana Bento, mas ela era de um flashback – disse Quim. - E virou estrelinha. Nunca fariam com pessoas do presente, como nós.

- Então o que houve com o irmão dela? Virou estrelinha também? E os tais patrulheiros que o Clube da Esquina manda em missões? E Mitiko Sasaki?

- Chico está desaparecido na Rua de Baixo, ora. Provavelmente foi pego por algum dos chefões de lá que servem a Tonhão, assim como os patrulheiros. Já Mitiko, é difícil dizer, mas não creio que teriam a matado.

- Mais uma pergunta, Quim. Se não é possível matar, e seres racionais como os desse bairro sabem disso, então por que mesmo assim mandaram alguém matar Antônio Alfacinha?

Quim ficou em silêncio. O que ele diz faz sentido, mas o que devo responder? Consigo responder algo?

- Há algo estranho acontecendo nesse bairro. Tenho andado procurando o quê, mas não consigo – disse Nimbus. - Os Lothstons estão atrás disso e não irão parar, então é bom que cuide melhor de seu amigo Jeremias. Usando meios letais ou não, eles o querem fora do trono.

Quim voltou à Ala do Ministro. Bárbara já estava dormindo, uma pequena e forte garota de sete anos entre uma pilha de travesseiros em um colchão de penas. Não pensei nisso antes. Se o que Nimbus diz é verdade e os Lothstons realmente estão dispostos a tudo, eles também poderão querer fazer algo contra a prometida de Príncipe Dudu. Há um tempo, ele se lembrou, ela trocou a espada e a vida de cavaleira por uma bermuda e virou uma membra do clube. Não posso deixar que nada aconteça a ela enquanto estiver sob meus cuidados, nem com nenhum dos outros membros, que contam comigo.

Decidiu que não era hora de descansar. Pegou o livro que Zé Luís estava lendo antes de ser exilado e virou as páginas até a 90. É a idade do bisavô dele, quem o deu o livro que mais gosta. Ele me disse que por isso que 90 era seu número da sorte. Na página 90 estava o resultado da eleição do Clube dos Meninos, realizada no Velho Clube, antes da Rebelião dos Meninos e logo após a saída de Zé Luís. Agora, o que ele poderia dizer com “uns quatro”? Viu a lista de quem votou em quem. Além dos membros, havia quatro crianças juramentadas ao clube que votaram. Talvez seja isso. Abriu a seção de membros de cada clube e foi o que dizia sobre cada um.

- “Inácio Rodrigues, oito anos. Inácio é mais conhecido de quando foi convocado para a escolha do novo Líder do Clube dos Meninos, onde votou em Jeremias” – continuou lendo, até que no final, terminou dizendo o destino dele. - “Desligou-se de exercer ofícios cívicos pelo Clube por vontade própria.”

Continuou a ler.

- “Jean Guilherme, ou 'Jangui', dez anos[...] Votou em Jeremias[…] Desligado de exercer ofícios cívicos pelo Clube após ser considerado inapto para tal” – virou a página. - “Matheus Henrique Galego, seis anos[...] Votou em Jeremias[…] Desligado por ausência após não ter voltado de uma viagem que fez ao Bairro das Pitangueiras. Caio Gonzales, dez anos […] Votou em Jeremias […] Desligado após ter sido preso e perdido seus direitos de clube.”

Era isso que você queria me dizer, Zé Luís?



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