História As Crônicas de Rosa - Capítulo 42


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Ação, Aventura, Drama, Mistério, Romance
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Palavras 2.132
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Mistério, Romance e Novela, Suspense
Avisos: Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 42 - Capítulo 42


Retirei a presilha que sustentava o decote. O tecido escorreu o tronco e afastei as mangas de modo que o meu peito ficasse todo descoberto. As temperaturas em Monthek já tinham baixado o suficiente para eu sentir a altura das coxas resfriando. Joguei então o roupão por sobre o corpo e a pelugem quente amaciou a pele e os ossos. Guilla encaminhou o vestido para que as lavadeiras o limpassem enquanto eu permaneceria nos aposentos, retirando as pinturas e também os adornos. Apesar de as janelas haverem sido cuidadosamente lacradas, isso não impedia que o vento frio entrasse sorrateiro pelas frestas.

Toc, toc, toc.

Ellan havia chegado.

“E-entre!”, anunciei com a voz mais alta. Eu não queria soar nervosa, mas aquela era a segunda vez que iriamos dormir em um mesmo leito.

“O que achou do quarto?”, ele perguntou ao fechar a porta.

Virei em direção ao centro da sala. “Guilla fez o possível para que eu me sentisse a vontade”, respondi. “Pode ser que demore um pouco para que eu me ‘veja’ dormindo aqui, mas acredito que isso seja só uma questão de tempo.”

A quietude rebateu sobre as paredes. O silêncio estava ganhando espaço entre nós, e, eu odiava a forma como a ausência das vozes gritavam mais alto que os protestos. Estalei o pescoço para disfarçar a raiva crescendo, e...

“V-você se saiu bem hoje” ele disse, medindo cada uma das palavras. “O conselho não pensou que a rainha manteria firmada a sua decisão.”

Alisei os fios com os dedos tortos para disfarçar a minha insistência. Eu estava alimentando o orgulho frouxo para não me ver correndo para os braços dele.

“Porquê? A antiga rainha não se portava desse jeito?”

Ellan balançou a cabeça.

“Não dessa forma. A mãe de Katto não fazia questão de participar desses assuntos”, respondeu, retirando a capa e as botas. “Na verdade, ela estava mais interessada na criação do filho do que qualquer outra coisa relacionada a coroa.” “Não posso dizer que sei como Miranda se comportaria nessa situação, por que ela se quer esteve presente em nossas assembleias.”

Inspirei profundo, sabendo que a oportunidade dada me havia sido única. Eu realmente havia sido a primeira a desafiar as diretrizes do castelo?

“E-então ela não tinha interesse em saber”, refleti em voz alta.

“Sobre Monthek?” Ellan sugeriu em um tom cansado. “Não, não. Ela não teve uma criação regada a disciplina. Os dotes que possuía vinham da beleza, da arte e do seu recato. Ela não compreendia e nem se importava com a política. Foi criada como uma moça comum.”

Aspirei o cheiro suave do perfume e levantei. Eu estava arrumando pretextos antigos para não ter que tratar com Ellan sobre um dos nossos.

“Ela pertencia a qual reino?”

Eu podia ouvir ele se dirigindo até o baú conforme a fivela do cinto ia sendo removida. Havia tristeza na respiração dele, mas a sua postura permanecia firme e ereta.

“Ghokan”, respondeu por fim. “Miranda era uma mulher de origens humildes. Não carregava títulos de nobreza e nem se quer possuía maiores terras. O meu pai achou conveniente casar o herdeiro dele com a filha de um camarada”, acrescentou. “Ela era uma das poucas sobreviventes. A nossa união é que deveria ter recuperado boa parte das fronteiras.”

Lembrei da história amarga entre Ghokan e Thokai – os pilares que acabaram sendo devastados por conta das incontáveis mortes e das guerras. Eu não estava certa de que um tratado matrimonial teria forças para recuperar uma devastação daquele porte, por isso não precisei perguntar para saber qual seria a resposta. Ghokan acabou sendo perdida tanto quanto o reino inimigo de Thokai.

“S-sinto muito”, falei em constrangimento. “Eu não sabia.”

Eu entendia que os ghokis haviam sido fortes aliados para Monthek – eram eles que haviam disponibilizado o maior número de soldados para o confronto das nações, afinal. O pai de Ellan deve ter pensado que um tratado entre as regiões teria maior estima do que qualquer outra união diante os reinos. Suspirei com a suposição improvisada. Ellan ter conseguido casar com uma mulher de poucos dotes havia aumentado o valor dele diante o povo e de todo o seu exército.  

Ele voltou-se para mim. O seu corpo estava coberto apenas por uma bata de lã.

“Isso já faz algum tempo”, suspirou em passos lentos. “Essas histórias não precisam ser mais ditas.”

Alisei os braços para afastar o nervosismo. A proximidade entre nós dois estava me deixando desconcertada.

“A-ainda assim ela foi uma boa e-esposa”, falei sem ter certeza. “De origem simples, mas que lhe deu um h-herdeiro. Monthek deve ter muito orgulho de vocês dois.”

Ellan tinha a respiração descompassada e eu bem reconhecia isso. Ele estava tão ansioso quanto eu estava – e mais quente, e mais seguro e tantas outras coisas que eu se quer conseguia perceber àquela hora. A presença dele estava afetando as minhas costas.

“Não quero mais falar sobre o passado, Vallerya”, pediu determinado. “Miranda foi uma boa esposa e sei que o reino inteiro é grato por seus serviços, mas... a única mulher que me interessa nesse momento é você.”

Engoli em seco com a resposta brusca.

Eu ainda estava chateada por conta da nossa última conversa, mas eu estaria mentindo se dissesse que as palavras dele não estavam conseguindo me afetar. A vontade era de estapeá-lo, embora tocar os seus cabelos parecesse uma ação muito mais interessante.

“Por favor Ellan...”

Ele impediu a minha esquiva com um dos braços. Eu não queria ter de encarar a boca dele tão próxima da minha.

“Você ainda não acredita em mim, acredita?”

Abaixei a cabeça com a pergunta.

“Tente entender”, pedi sem jeito. “É difícil acreditar em tudo isso. Há algumas horas, tive de ouvir as suas explicações e de nada aquilo adiantou. Os seus dizeres me pegaram de surpresa.”

Ele alisou os cabelos com as mãos.

“Que eu me uni a você por interesse?”, questionou frustrado. “Eu não me casei com você apenas pela coroa, Vallerya. Quantas vezes vai ser necessário eu dizer isso?”

Alisei o pescoço suado. O meu orgulho era algo que estava me queimando por dentro.

“Ellan...”

“Escute”, ele me puxou para que ficássemos frente a frente.  Eu sabia que aquela era uma tentativa desesperada para reforçar a nossa aproximação. “Aquele dia fui para Shakra porque o mensageiro de Teodoro solicitou a minha presença. O seu pai precisava conversar comigo. Ele queria conseguir recursos, por isso estava vendendo a sua mão.”

Mordi a língua.

“E porquê não me disse isso antes?”

“P-pensa que eu não queria? Eu sabia que ele estava desesperado para ter que fazer isso. Não tive muito tempo para pensar. Se eu não decidisse imediatamente, as coisas podiam ter acabado piores.”

Balancei a cabeça.

“Você concordou com os termos dele”, rebati nervosa. “Acabou cedendo as regras de um tratado forçado. Ficou sabendo que eu herdaria Shakra, e você se quer me informou a respeito disso, Ellan.”

“Eu sei que não, mas... fui obrigado a agir dessa maneira. O seu pai me pediu total sigilo, Vallerya. Além do mais, haviam outros pretendentes interessados àquela hora. Os meus conselhos não tinham mais valia para evitar uma união”, ele beijou as minhas mãos. “Conheço cada morador dessas terras. Homens que não merecem e que nem a tratariam como uma esposa. Fiquei preocupado com o seu futuro. Questionei Teodoro o que eu podia fazer para reverter o quadro, mas ele me confessou que um preço alto já havia sido lançado por um dos compradores. Um rei não poderia ir contra a promessa de um casamento.”

Prestei atenção no tom urgente com que a voz dele soava. Parecia que Ellan estava sofrendo com as palavras ditas tanto quanto eu estava sofrendo por ouvi-las.

“Não perguntei quanto e nem quem era o cretino que haviam feito o lance”, admitiu, apoiando a palma sobre as minhas bochechas. “Tudo que fiz foi aceitar os termos dele e triplicar o valor por sua mão. Expliquei à Teodoro que o preço pago iria ajudar Shakra, ao tempo que ambos iriamos saber que você estava em segurança. Isso foi tudo.”

Depositei os dedos sobre a mão dele. Por mais que eu tentasse, eu não conseguia deixar de ouvir as suas súplicas. O tom ameno com que a sua voz soava doce era delirante.

“Eu não gostei de saber que você mentiu para mim, Ellan” senti os olhos ardendo. “E-eu não suportaria que essa união fosse uma farsa desde o começo. Saber você estava interessado apenas na expansão de seus domínios. Não quero que você me esconda as coisas, Ellan. Não quero que o casamento seja algo assim tão vago. Eu queria que tivéssemos conversado melhor sobre isso. Que tivéssemos ficado mais próximos.”

Ele segurou as mãos com preocupação.

“E estamos próximos. Por favor! O nosso casamento pode ter sofrido envolvimentos políticos, mas só porque ambos somos responsáveis pelo povo e por nossas terras. Isso não significa que eu não a valorizava, Vallerya. Não significa que eu não estava disposto a fazer tudo por você. Paguei o preço pela sua mão e não me arrependo. Me apaixonei por você desde o instante que eu vi você parada naquela capela. Essa é uma decisão que eu jamais voltaria atrás.”

Segurei a língua para não rebater a pulsação. Se a pele do meu rosto não estivesse tão pálida, eu sabia que as bochechas já estariam todas vermelhas.

“E-eu estava braba com você”, balbuciei, lembrando os problemas que ele havia  me proposto. “Foi descortês da sua parte me deixar esperando; ter me mantido presa aos aposentos; ter duvidado de todas as minhas decisões. Fiquei me perguntando se não teria sido melhor eu desistir desse casamento. Se eu deveria ter voltado para Shakra.”

“Sei disso” concordou entristecido. “Eu não queria ter tratado você dessa maneira e nem devia tê-la deixado esperando aquele dia. O seu pai e eu tínhamos algumas questões para tratar de última hora; coisas que não podiam deixar de ser esclarecidas antes da união.”

Torci o cenho, embora eu não quisesse alimentar demais perguntas. Eu havia percebido que os assuntos entre Monthek e Shakra sempre haviam sido um mistério para mim.

“E, o que ele queria?”, perguntei com confiança.

Ellan acariciou o meu rosto, com um carinho ainda mais tenro entre a ponta dos dedos.

“Problemas relacionados a valores”, explicou. “O seu pai pediu uma quantia para auxiliar nas distribuições; algo que conseguisse renovar todo o comércio defasado. Conversamos a respeito e decidimos que o ouro serviria para que as famílias tivessem mais suporte de alimentos. Você pode não acreditar, mas o seu pai sempre depositou a confiança de Shakra sobre você. Foi graças a sua decisão que todo o reino teve a oportunidade de se reerguer. Você teria aceitado se casar com qualquer estranho só para salvar o seu povo, não é mesmo?”

Lembrei da conversa com Thomé e senti o coração sendo aquecido. O casamento com Ellan realmente havia ajudado Shakra ao final das contas e eu deveria me sentir tranquila quanto isso. Escondi o rosto – eu estava envergonhada e não queria admitir. Seguir as responsabilidades como herdeira nem sempre haviam sido fáceis para mim, mas eu priorizava demais o povo para dar suporte aos meus caprichos.

“O-brigada por ter ajudado”, sussurrei.

Ele beijou a minha testa.

“Por favor não agradeça. Eu não fiz nada.”

Permanecemos em silêncio, apenas apreciando a nossa companhia e a respiração. Ter o corpo de Ellan assim tão perto conseguia acalmar os meus nervos, tanto quanto conseguia acelerar a pulsação do rosto. Conforme os segundos iam passando, maior parecia ser a vontade de abraçá-lo. Eu esperava dizer tudo o que eu sentia. Entretanto, estávamos nos segurando, sabendo que todo o nosso ego ainda estava inflamado.

De repente... BLAM!

Olhamos para o portão e Guilla entrou aos tropeços.

Eu sabia que algo de errado havia acontecido, porque os passos dela estavam de todo prejudicados.

“S-senhor...s-senhora...”

“O q-que foi Guilla?”, perguntei.

A tensão estava mais gritante que o de costume. Percebi a rouquidão freando as palavras dela e o meu corpo se acendeu com a frustração da sua resposta. Somente algo extremamente urgente a teria feito vir aos aposentos aquela hora.

“G-hoy”, ela esforçou os pulmões para recuperar um pouco do folego. “O c-comandante Ghoy p-pediu de imediato a sua presença, senhor.”

Estalamos os olhos.

“O que houve?”, questionou Ellan as pressas.

“U-uma carta”, ela respondeu aflita. “Uma c-carta do seu filho, senhor. Eles... os piratas... e-eles realmente estão junto da costa.”  

Ellan soltou os meus braços e atravessou os aposentos e corredores. Não esperei para ver se Guilla acompanharia ou não a minha corrida, e segui avançando em seu encalço sem pensar. Descemos os degraus, ouvindo os aposentos sendo informados por soldados e os criados correndo a toda pelos saguões e escadarias. Só percebi que Ellan e eu estávamos de bata, quando enfim chegamos ao comandante.



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