História As crônicas de uma gordinha - Capítulo 12


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Tags Amor Próprio, Gordinhas, Original, Romance Adolescente
Visualizações 3
Palavras 1.954
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Comédia, Famí­lia, Ficção Adolescente, Romance e Novela
Avisos: Linguagem Imprópria
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Boa leitura ♡

Capítulo 12 - Se aceitar nem sempre é fácil


 

Nicolas era uma pessoa estranha. Durante todo o domingo não me mandou mensagens e não respondeu as que eu mandei. Na segunda-feira, quando subiu no ônibus, me cumprimentou com um aceno e foi para o fundão. Foi aí que vi que havia algo errado. Mas logo voltou para frente e sentou ao meu lado, agindo como se nada tivesse acontecido. Perguntei o que tinha acontecido, mas ele disse que nada tinha acontecido e que eu devia estar imaginando coisas. Será que eu estava mesmo imaginando coisas? Não, definitivamente não; sou uma pessoa paranóica, mas todas as minhas paranóias tem fundamento. 

 

— Não é maquiagem, Matheus. — Falei pelo que me pareceu a décima vez. — É só um gel secativo. E é transparente. 

 

— Não confio muito em você. — Ele disse mas me deixou aplicar o gel em sua testa. Matheus é um homem vaidoso, e uma vez me pediu para arrumar suas sobrancelhas e eu sem querer deixei ele parecendo um personagem de desenho animado. Resultado: ele nunca mais chegou perto de uma pinça e agora não confia muito em mim. — Mas tudo bem, essas espinhas precisam sumir. Consigo ralar uma cenoura aqui. 

 

— Vamos assistir Power Rangers hoje? — Perguntou Ester. De uns dias para cá ela vinha soltando o cabelo para sair para os lugares, o que você já sabe não era muito normal. O cabelo muito claro agora estava no meio das costas, e juro que se ela ficasse parada por muito tempo iria parecer um versão mais humana da barbie. Até os olhos azuis estavam mais brilhantes esses dias. — Eu sou o preto, já disse. 

 

Nada melhor do que jogar papo fora no intervalo, não é? Meus amigos e eu (incluindo Erick e Nicolas, sabe-se lá porque) estávamos sentados nos bancos do pátio, apenas esperando o sinal tocar para voltarmos para sala. Havia dias em que o intervalo parecia durar segundos, e em outros parecia durar horas. 

 

— O preto não é homem? — Perguntou Erick. —Tenho certeza que é homem. Bom, depende de qual Power Ranger estamos falando. 

 

— Gosto do Ninja Storm. — Disse Daniel, admirando a italiana da escola. — Nele não tem preto. 

 

— Não gosto do Ninja Storm. Só tem uma garota e ela surfa. Não gosto de surf. Então, sobrou para Lizzy ser a Tori. — Ela fez uma careta de quem acabou de fazer uma descoberta. — Tinha um asiático lá também, parecido com Nicolas. O Blake, Ranger do trovão. Ele parecia mesmo com Nicolas. E a Tori e ele se gostavam em segredo, sabe o que isso significa? — Ela sorriu e eu a olhei séria, guardando meu gel no bolso. O sorriso dela se desfez. — Confesso que mandei mal...

 

— Eu vou ao banheiro. — Me levantei e dei a volta no banco. 

 

— Ficou sem graça? Por isso vai ao banheiro? A Tori ficaria sem graça perto do Blake também! — Ela falou alto para eu ouvisse. Fiz um sinal de jóia. — Então você é a azul, né? Eu quero ser o preto, nem inventa de falar que é você! 

 

Por que sempre fazíamos isso? Em todos os filmes, novelas e desenhos somos alguém. Quando começou a novela Rebeldes, eu era a Lupita e Ester era a Mia. Nas três espiãs eu era a Sam, e também era a Arlequina quando brincávamos de super vilões e heróis. Em tudo sempre éramos alguém, isso era tão divertido! Como eu sentia falta de ser criança. 

 

Ao entrar no banheiro me deparei com uma garota do terceiro ano secando suas lágrimas de frente para o espelho. Como ela não olhou em minha direção não falei nada, apenas entrei em um reservado e fiz o que tinha de fazer. Ao sair, vi ela encolhida em um canto, de cabeça baixa e chorando ainda mais. Ah, como eu não gosto de lágrimas. Principalmente a dos outros, me dão nos nervos. Olhei bem para ela; ela devia ter o mesmo corpo que o meu, era morena e tinha cabelos muitos pretos. Vestia uma calça capri e uma blusa de moletom preta, a cabeça estava corberta pelo capuz. A maquiagem estava borrada e as bochechas vermelhas... enchi meu coração de compaixão. Ela  lembrava eu mesma há um tempo atrás. 

 

— Sei que não é da minha conta, mas será quê... posso fazer algo para te ajudar? — Perguntei enquanto lavava as mãos. Bem que a escola podia colocar um sabonetinho ali, um secador de mãos... 

 

Ela levantou a cabeça e deu um sorriso triste. 

 

— Pode me ajudar a perder vinte quilos do dia para noite? 

 

Pensei um pouco. É, eu não podia e também não podia indicar uma lipoaspiração por ser muito caro e muito perigoso. Acho que não tinha solução além dessa para perder tanto peso em tão pouco tempo. 

 

— Não tem como. Se eu soubesse já teria feito. — Fui até ela e sentei ao seu lado, mantendo certa distância. — Acho que isso vai levar um tempo, e também vai precisar de muita dedicação, esforço, essas coisas...

 

— Foi o que pensei. — Ela suspirou. 

 

Nesse momento Sara entrou no banheiro. Ela nem nos olhou, apenas entrou no reservado e saiu rapidamente. Lavou as mãos e ajeitou o cabelo de frente para o espelho, daí saiu andando como uma modelo de passarela. Tentei não rir, mas juro que foi difícil. Por que ri? Não sei. Nem tinha motivo para isso. Mas garota do meu lado não riu. 

 

— Por que não posso ser como ela? — E abaixou a cabeça novamente. 

 

— Por que quer ser como ela? — Olhei para minhas unhas sempre curtas e muito bem feitas, modéstia a parte; quando não se tem nada para fazer as unhas se tornam um alvo de testes. 

 

— Não é óbvio? — Ela me olhou. — Ela é magra e aposto que ninguém acha ela feia. Vai dizer que não queria ser como ela? — Pensei um pouco e balancei a cabeça, negando. — Você realmente gosta de ser gorda? 

 

Dei os ombros. 

 

— Para mim é normal. Não me troco por nenhuma outra garota. Sou bonita do jeito que sou, e ela é bonita do jeito dela. Sei que nem sempre é fácil se aceitar como é, mas quando aceita tudo fica mais fácil. — Falei quando vi um ponto de interrogação se formar em sua expressão. — Olha só; por mais que você malhe e fique com o corpo que quer, vai começar a ver outros defeitos que precisam ser melhorados. Quando você ver, mudou tanto que nem se reconhece mais! Prefiro continuar a ser gorda como sou, mas não trair minha imagem. Poxa, Deus me fez assim! Quando eu tiver coragem, quando realmente quiser, vou e me esforço para perder uns quilinhos. Isso quando eu quiser, não porque me sinto pressionada a isso. 

 

— Acho que tem razão, sei lá... 

 

— O que te fez ficar assim? — Estiquei as pernas, já estava começando a ficar com câimbras. 

 

— Eu... — Ela riu e limpou uma lágrima que escapou. — Gosto de um garoto da minha sala. Achei que ele também gostava de mim, mas... aparentemente eu sou "vários números maior" do que ele considera bonito. Ele nunca ficaria como uma gorda como eu. Palavras dele. E o pior foi que ouvi ele dizer isso, sem querer mais ouvi. Não foi algo que alguém me disse ou que inventei. Pensei que — deu um sorrisinho — se emagrecesse ele me olharia diferente. 

 

— Olharia para o seu corpo, não? — Fiz uma careta ao tentar entender o raciocínio dela. 

 

— Não sei, quem sabe com isso ele não tentaria me conhecer melhor e veria que sou uma garota legal. E também, às vezes as pessoas pegam no meu pé. Minhas irmãs vivem dizendo que "precisam engordar" só para jogar isso na minha cara.

 

Balancei a cabeça para os lados. 

 

— Sabe que já pensei a mesma coisa? Achei que se mudasse um monte de coisas, o sentimentos de alguém também mudariam. No entanto, não tem jeito. Se ele não gosta de você agora, não é com mudanças que vai começar a gostar. As vezes precisamos esquecer nossas vontades, o que queremos, e ver o que a vida pode nos oferecer. Alguém vai gostar de você, você gorda ou magra. Vai te amar independente do tamanho que você veste. Enquanto suas irmãs, basta ignorar.

 

— Bem, tem alguém que gosta de mim. O Jonathan. Ele gosta de mim do jeito que sou, mas nunca vi ele como nada além de meu amigo. 

 

— As coisas são assim. Nunca queremos o que a vida tem para nos oferecer. Mas se você se esforçar, quem sabe esse sentimento não muda? O amanhã pode surpreender. — Levantei as sobrancelhas e fiz um esforço para me levantar. — Vem, vamos lavar esse rosto.

 

Ela levantou e sorriu, indo direto para pia. Tirou a touca da cabeça e prendeu os cabelos,  para assim poder lavar o rosto. Usou as mangas para secar a água da pele e respirou fundo, sorrindo para si mesma no espelho. 

 

— Obrigado, você nem me conhecia e ainda veio falar comigo... 

 

— Que isso, nós gordinhas temos de nos unir. — Pisquei para ela e ouvi a porta do banheiro abrir. 

 

Duas garotas entraram no banheiro e vieram correndo em direção a garota, preocupadas. Pelas palavras consoladoras vi que ela estava em ótimas mãos. Estavam claramente furiosas com cara que ofendeu a amiga das duas; o jeito feminino de nos proteger. Nada melhor que amor de amigos para curar uma dor. Ia saindo de fininho quando ouvi a voz da garota me chamar e me virei, já com a porta aberta. 

 

— Nem sei o seu nome. 

 

— Elizabeth. Mas todos me chamam de Lizzy. 

 

— Sou Gabriela. Mas todos me chamam de Gabi. — Ela sorriu. — Foi um prazer. 

 

— Foi sim. 

 

Saí do banheiro, refletindo sobre algumas coisas. Quantas garotas por aí não se aceitavam da maneira que eram? Quantos garotos também não estavam na mesma situação? Até quando ficariam achando que precisavam mudar para ser aceitas (os)? Caramba, nunca tinha parado para pensar em como podia ser complicado se aceitar. Ainda mais porque muitas pessoas não aceitavam como as outras eram. Sempre tentando impor suas tendências e seu jeito de ser. Eu mesmo demorei muito para me aceitar. Já passei pelo que Gabriela estava passando; quantas amigas minhas já pararam diante do espelho e disseram "poxa, estou precisando engordar!", mas na realidade não queriam. Só diziam para me afetar e etc.. Duvido que se engordassem uma grama ficariam tão satisfeitas quanto diziam que iriam ficar. 

 

Se aceitar podia não ser fácil, mas a luta para que isso acontecesse tinha de continuar. 

 

— Achei que tivesse caído na privada! — Ester me assustou quando praticamente pulou em cima de mim. 

 

— Você é tão engraçada. — Ela passou o braço  pelo meu e começamos a caminhar. — Ester, você mudaria algo em você se pudesse? Fisicamente falando. 

 

Ela pensou um pouco. Ester era realmente bonita, já foi chamada várias vezes para ser modelo mas nunca quis saber disso. Não era louca por moda ou por estar sempre arrumada. Se eu tinha receios de sair de pijama, ela não tinha vergonha nenhuma. Não que fosse completamente desleixada, ela não era e gastava horrores com cremes e perfumes. Mas era muito diferente das outras garotas, e eu sabia que para ela a aparência não importava. 

 

— Sinceramente? Absolutamente nada. Primeiro porque não tenho paciência para mudanças, e segundo porque... sei lá, não me vejo de outro jeito. Às vezes estou bem comigo, às vezes não. Normal. Por que está me perguntando isso? 

 

— Por nada. Só queria saber. 

 

Para alguns era fácil se aceitar. Para outros nem tanto. Embora fôssemos iguais por dentro, aos olhos de algumas pessoas não éramos nada demais por não sermos o que eles consideravam "bonito". O problema das pessoas era não aceitar o diferente. Mas, como muito se ouve por aí, cada um com seus problemas. E, enquanto nossa aparência não fosse um problema, o que pensavam de nós era um problema exclusivo deles. 



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