História As Gêmeas Diferentes - Capítulo 15


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Casal, Gatos, Original, Romance
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Palavras 3.009
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 10 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 15 - Fourteen (part. 1)


~

Vicent deu mais um suspiro fundo, abaixando a cabeça para perto do copo cheio de café. Embora estivesse atrasado quase duas horas, não parecia preocupado em andar depressa ou com a possibilidade de perder o emprego.

Do outro lado da mesa, Nathan observava o irmão apreensivo. Ele estava desanimado e decadente, com um rosto tão triste que era óbvio de notar sem que precisasse falar. Vicent sempre fora barulhento e falava demais, então o seu silêncio logo indicava algum problema que não queria contar. Na última vez que tinha visto o irmão daquele jeito, foi quando uma garota terminou com Vicent primeiro e antes que ele tivesse a chance de fazer isso, o que o deixou decepcionado.

Imaginava se Molly o tinha colocado em alguma fria, se tinha o traído de alguma forma, se o magoou tanto ao ponto de fazer o alegre e animado Vicent se murchar como uma garota depois de uma pequena decepção. Temia que o irmão fosse burro a ponto de continuar suportando o relacionamento abusivo por causa dele, como se Nathan não fosse ter mais oportunidade de falar com Holly se caso ela não fosse para a casa dele na companhia da irmã. Mesmo sendo mais velho, às vezes parecia mais burro do que se tivesse dez anos por causa do seu gigante coração.

— O que está acontecendo com você? — perguntou Nathan, aproveitando que a mãe havia saído.

O irmão o olhou surpreso, como se não tivesse notado de que ele ainda estava ali na mesa.

— Ah, nada — mentiu Vicent, apoiando o rosto na mão esquerda.

— Como nada, Vicent? Você está parecendo que acabou de voltar de um enterro — insistiu ele, meio irritado. — Ontem você disse que não estava se dando bem com a Molly. É por causa dela que está desse jeito?

— Mais ou menos...

— O que ela fez com você?

— Não quero falar disso, você está em um momento feliz...

— Não estarei mais, se você não estiver feliz também — retrucou ele com a voz agora mais meiga. — Somos uma família, lembra? De que adianta só um estar feliz?

Vicent suspirou novamente, cansado de toda a carga invisível que pesadamente carregava.

— Ela é meio arrogante, diz que se eu trabalhasse com algo que dá dinheiro não estaria passando dificuldade — contava o irmão com a voz embargada. — A gente tem brigado quase todo dia. É isso.

— Não sei por qual razão você fica com ela, não tem motivo — disse sinceramente Nathan. — Termina com ela, por favor. Olha como você está por causa dessa garota.

— Mas você e a Holly... — interveio Vicent rápido.

Eu dou o meu jeito de falar com ela. Se preocupa com você mesmo primeiro.

O irmão confirmou com a cabeça, prometendo pensar sobre o assunto. Ajeitou a roupa e deu um abraço em Nathan, passando pela porta de cabeça baixa e o fazendo observá-lo com o coração na mão. Mesmo que brigassem de vez em quando e não tivessem a opinião igual sobre grande metade dos assuntos, jamais gostaria de ver o irmão sofrendo por garota sequer.

De repente Vicent voltou correndo, abriu a porta e perguntou ofegante:

— Quer ir à uma festa hoje?

Nathan riu irônico.

— Acho que é óbvio que não.

— Vai ser na casa da Molly, uma comemoração por ter concluído a faculdade. Tenho certeza de que ela vai querer sair para a rua quando for mais tarde, tipo de madrugada — explicava ele e Nathan o fitava desinteressado. — Os pais dela não estarão lá. Holly não vai querer sair conosco. Vai ficar sozinha. — Nesse instante Nathan arrumou até as costas. — Vai querer ir? Para fazer companhia para ela.

Ele pensou por alguns segundos.

Ficar sozinho com ela, em uma casa enorme, sem ninguém que os atrapalhasse... era a ocasião perfeita para lhe confessar seus sentimentos mais intensos e profundos que estava tendo por ela, e também uma ótima chance de conhecer o seu peixe de estimação e mais um pouco sobre ela mesma.

— Tudo bem, eu vou.

Sério? Ainda bem — comemorou o irmão sorridente.

— Mas como vou chegar até lá? — questionou Nathan o que mais o preocupava.

— Peço para Holly te buscar de carro, ela sabe dirigir, lembra?

— Não, não faça isso — pediu ele apressado. — Seria vergonhoso, que ela dirigisse ao invés de mim...

— Vou ver se convenço Molly de me deixar te buscar, mas acho pouco provável porque o carro é do pai delas — disse Vicent suspirando. — Se não tiver outra opção, levo você de moto.

— O quê? — riu Nathan só por imaginar a cena.

— Isso mesmo, de moto. Não vai ser tão difícil, só vou ter que te amarrar em mim e nós dois levarmos a cadeira no braço.

— Acho que isso não vai dar certo.

— É provável, talvez eu perca você ou a cadeira de rodas no caminho, mas vai gostar de dar uma volta comigo. Eu dirijo bem.

— Vicent, na última vez que você me carregou, quase deslocou minhas costas — relembrou Nathan.

— Já faz tempo, sou mais experiente agora — tentou se defender ele, também rindo.

Nathan concordou com a ideia suicida do irmão e o deixou ir para o trabalho, ainda rindo por cada coisa que Vicent era capaz de inventar. A maior preocupação seria os pais, se soubessem de tudo o que tinham planejado e que estariam fora de casa até de madrugada, possivelmente colocariam cadeados nas portas e janelas.

Era inacreditável que sairia e logo para uma festa. Ele não se lembrava de muitas festas que havia ido três anos atrás, não além das que Richard o obrigava à ir. Deslocado e muito anti-social, Nathan não conseguia falar mais do que uma palavra e sempre acabava achando um canto para se esconder. Não duvidava que faria a mesma coisa, mas pelo menos estaria junto com Holly e tinha certeza de que ela também se enfiaria em um lugar só para as pessoas não a acharem.

Quando estavam reunidos mais tarde, Nathan os contou sobre sua saída inesperada. Anne achou a melhor coisa, como ele tinha previsto que aconteceria, e Adam sequer ligou muito, só o dizendo "vê se não bebe". Em vinte e um anos, Nathan nunca tinha colocado sequer uma gota de álcool na boca e mesmo assim o julgavam como o pior parente. Era impressionante. Mas se alegrou pela reação positiva e torceu pra que não mudassem de ideia e claro, teve de mentir dizendo que Vicent o levaria de carro.

Vicent chegou perto das sete, horário que Nathan já julgava tarde para colocar o pé pra fora de casa. Ele estava com uma calça jeans preta, seu all star antigo vermelho, uma camiseta cinza sem estampas e uma blusa de frio também preta; não tinha muitas roupas para sair, porque na verdade costumava usar somente o seu pijama o dia todo e o colocava de novo para poder dormir, por isso era difícil ter de fazer combinações que não ficassem infantis. O cabelo estava penteado todo para trás e segundo a mãe, parecia com o Elvis Presley, sendo que ele julgava que estava a cara do irmão. Tinha arrumado os fios daquele jeito justamente para parecer certinho demais, a fim que Holly os bagunçasse depois.

Ao estar todo arrumado, Nathan ficou esperando pelo irmão na sala, passando os dedos uns nos outros. O coração batia forte e sentia as mãos trêmulas, seu estômago estava meio embrulhado e os lábios secos... sua ansiedade o atacara assim que soube que ele ultrapassaria o seu lugar seguro.

— O que foi? — perguntou Adam do sofá, ao notar no filho inquieto.

— Preocupado. Paranóico.

— São só pessoas — disse o pai a mesma coisa, para quando Nathan tinha de sair de casa sem os pais. — Se não quiser ficar, pede pro Nathan te trazer de volta.

Ele concordou, mas não falou nada. Sentia vontade de balançar o pé e estava incapacitado disso, entretanto sabia que em breve poderia fazer isso.

O seu celular vibrou dentro do bolso do moletom, e Nathan o pegou com as mãos suadas.

Verdade que vai vir para cá?

Ela achava que Vicent tinha brincado ao passar em sua casa e dizer que o irmão havia concordado em ir fazer companhia para ela, e ainda mais inexplicável foi que Molly não protestou ou disse algo maldoso ao saber disso.

Sim, estou morrendo agora por causa disso

Os dedos suados dele molhavam o celular, fazendo as letras do teclado saírem antes que as apertasse.

Achava que você morria só por amores por mim

Ah, se ele soubesse que estava na mesma situação...

Sim, e por causa da minha ansiedade também

Ele respirou fundo, sentindo os lábios rachados e gélidos.

Não se preocupa, vou estar aqui com você

Certo, aquilo o tirava um pouco do seu sofrimento por antecipação.

Anne desceu as escadas de repente toda animada e com roupas diferentes, do tipo que só se usa para ir à algum lugar muito chique, uma vez a cada dez anos ou mais. Foi então que Nathan observou que o pai também estava com um terno, o mesmo que o via usar em casamentos.

— Amor, sei que vai sair, mas eu e seu pai aproveitamos para também nos dar um dia de folga — explicava a mãe, arrumando o cinto na cintura sobre o vestido azul claro.

Ele ainda continuava sem entender.

— Vamos sair um pouco, "dia de folga" significa dia sem filhos — disse o pai se levantando, sendo sincero até demais.

— A que horas você volta? — perguntou Anne segurando a alça na bolsa.

— Não sei, Vicent não disse — respondeu Nathan meio pasmo com a situação.

— Vicent, mais ou menos que horas resolveu voltar pra casa? — perguntou a mãe com a voz alta.

— Acho que uma, se não três da madrugada! — gritou Vicent de volta já que estava no banheiro.

— Muito tarde para Nathan! Ele não é acostumado com essas coisas! Traga ele mais cedo!

— Mãe, ele tem vinte e um anos! Deixa o cara ser feliz, ele nunca ficou até de madrugada na rua!

— Então não deixe ele beber, nem que o obriguem a fazer isso!

— Mãe, o Nathan não bebia nem quando tinha chance!

— Vê se você não bebe, não preciso de mais um filho psicologicamente fragilizado!

Nathan riu pela expressão que ela usou, mesmo que fosse de chorar que tenha o mencionado assim.

Os pais saíram quando Vicent já estava pronto, porque sabiam que ele demorava séculos e Anne não queria deixar Nathan sozinho. Aliás, ela não parava de falar que gostaria de desistir pela preocupação com o filho, mas cedeu ao saber que o marido a compraria uma surpresa no caminho de volta. Por conta do acidente, os dois não saíam juntos há muito tempo e nem tinham a mesma relação de quando se casaram; tentavam não deixar óbvio para Nathan, a fim de que ele não se sentisse culpado ou um peso, porém não tinham ideia de que o filho já se via dessa forma para com eles.

Foi bom que tivessem saído perto das oito, porque Nathan não suportava esperar mais pelo irmão e para "executar" a ideia maluca dele. Bem, se caso ocorresse uma nova sequela, teria valido a pena.

— Não acredito que a mãe e o pai me deixaram — confessou ele ao ver Vicent chegar na sala, o cabelo ainda pingando água nas pontas e o típico estilo "sou velho, mas quero parecer novo".

— Acho que eles não viam a hora de se livrar de você — retrucou, dando uma risada em seguida. — Então, pronto para voar na minha super moto?

— Confesso que não — respondeu Nathan somente, com os dedos ainda trêmulos. — E se der errado? Se nos dóis cairmos, pode acontecer algo pior.

— Confia em mim — retrucou Vicent antes que o irmão continuasse. — Você pode fazer isso? Confiar em mim para te levar?

— Não sei, não.

— Se caso aconteça alguma coisa, vou me responsabilizar.

— Mas se você ficar machucado...

— Não ligo, sabe disso. Por favor, vamos antes que Molly não deixe a gente entrar mais.

Nathan confirmou e desabou no sofá esperando enquanto o irmão desmontava a cadeira, depois Vicent o arrastou pelos ombros até o lado de fora. Ele tirou o próprio cinto da calça que era maior do que o que usava normalmente — isso para a peça ficar caída pois achava que era algo legal e JOVEM —, ajeitou Nathan na moto e passou o cinto pelas suas costas prendendo perto de sua barriga. Não conseguia nem respirar direito, mas sabia que estava bem preso. Pegou a cadeira de rodas que estava apoiada na frente da moto e a passou por um braço, dando o outro lado para Nathan segurar também. Pediu que ele se segurasse firme com o outro braço nele, porque seria o suficiente pra que não caíssem.

O coração de Nathan falhava uma batida a cada vez que a moto de Vicent ia para frente com mais força. Mesmo que o capacete estivesse apertado no último, parecia mais que estava usando uma panela na cabeça e o doía a cada buraco que tinha na rua. E ainda que quisesse pedir pro irmão que parasse antes de uma tragédia, tinha de admitir que era algo divertido e maluco ao mesmo tempo.

— Aposto que você vai me agradecer por esse passeio depois! — exclamou Vicent sem se virar, com a voz sumindo por causa do cinto o sufocando.

— Ou vou te assombrar, quando nós dois morrermos! — retrucou ele falando mais alto pelo vento ensurdecedor.

— Eu duvido! Só aproveite, essa noite é sua! — disse o irmão, rindo um pouco pela ameaça nada assustadora.

Tirando um pouco da atenção da sua ansiedade e do pessimismo, Nathan parou para apreciar aquele momento. Não sabia quando faria tal coisa de novo, muito provavelmente que nunca mais, porém o vento soprando em seu rosto, o céu nublado com algumas estrelas e as ruas iluminadas lhe davam um sentimento bom. Não parecia mais um aleijado e sim que era normal, não era tanto um fracasso como se nomeava.

Por cima do ombro do irmão, conseguia enxergar a moto clareando o caminho. Algumas ruas eram feias e estragadas, mas outras se mostravam o contrário; isso lhe fez pensar em algo. Pensou que era como uma visão de seu interior e sua vida, que ainda que tivesse momentos em que queria que passassem depressa ou que desaparecessem, existia no fundo alguma coisa bonita e uma esperança a se admirar. Não era capaz de mandar nela ou organizá-la do jeito que quisesse, sabia que não tinha esse direito, entretanto deveria ser mais grato pelos poucos dias bons como aquele que o lançava um sopro de paz.

Desejou que Holly estivesse ali também. Gostaria de dividir essa sensação com ela, mostrá-la que não era um caso perdido como as pessoas a faziam acreditar. Se pudesse, tiraria toda a sua dor e passar para ele apenas para a ver novamente feliz e esperançosa, com vontade de seguir em frente e mostrar para si mesma de que era capaz, mas não podia fazer nada além de apoiá-la. De atendê-la. De confortá-la. De abraçá-la.

Também gostaria de beijá-la.

Holly desceu as escadas apressada, surpresa por encontrar a irmã no sofá, pois tinha dito que esperaria os colegas do lado de fora para que não dessem de frente com ela. Era tão natural que Holly se escondesse até de seus próprios parentes, que ninguém mais a incluía em nada e agiam como se fosse um fantasma de verdade.

Com calma se sentou no outro sofá, ficando de frente com Molly. Ela ficou olhando para fora através do vidro azulado, sem querer arrumar confusão.

— Você vai ficar bem com aquele babaca? — perguntou a irmã de repente, abaixando o celular para olhar para ela.

— Vou. Não o chame assim, por favor — respondeu Holly tudo de uma vez.

— Tem certeza? — insistiu ela.

— Sim — garantiu afirmando com a cabeça. — Mas... por que está preocupada com isso?

Tentando disfarçar Molly suspirou e jogou o cabelo para trás, com uma expressão descrente.

— Não estou preocupada. É que você nunca ficou com outra pessoa, além de mim, quando nossos pais saíam.

— Sinto falta de quando ficávamos sozinhas — disse Holly encarando o chão, relembrando de ela e a irmã brincando e dormindo juntas, fazendo chocolate na cozinha e conversando até cair no sono. — Sinto falta de quem você costumava ser para comigo. Por que você agora me odeia?

— Não odeio você — respondeu Molly suavizando a voz, sem parecer rude. — Só... não acho que dá para voltar a ser como antes.

— Por que não? Somos irmãs. Nada pode mudar o nosso mesmo sangue.

— Nem a bagunça que tudo aquilo há alguns anos provocou.

— Eu não tive culpa, não poderia mudar minha aparência para ficar como você — insistia ela, ajeitando as costas e apoiando os cotovelos em seus joelhos. — Olha, Molly, sei que tem mágoa de mim, mas realmente não tive culpa alguma. Você é minha irmã. Eu achei que você ficaria comigo, não que se viraria contra mim. Apesar disso, eu ainda amo voc...

A campainha tocou muitas vezes seguidas e Molly se levantou depressa, visivelmente abalada pelas poucas palavras da irmã. Ao abrir a porta pôde ver uma cadeira de rodas caída na entrada no portão e Vicent amarrado com Nathan, com a moto em cima da pequena calçada que tinha junto com o jardim.

— Está ficando louco, Vicent?! — questionou ela brava, e Holly foi atrás dela para saber o que estava acontecendo. — Se meus pais souberem que sujou tudo, vão me matar!

— Fique de boa, benzinho, posso limpar depois — garantiu o namorando, mandando um beijo no ar para ela.

Holly também se impressionou com a cena. Nathan estava pendendo para um lado, perto de cair no chão junto com o peso da moto. Ele olhou para ela meio envergonhado, mas admirado por reparar em como estava bonita.

Sem conseguir evitar ela começou a rir, tapando a boca com uma mão do jeito delicado que costumava fazer. Também rindo um pouco enquanto o irmão e Molly continuavam a discutir, ele sorriu para ela por baixo do capacete que estava quase perto de seu nariz e disse:

— Cheguei.



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