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História As Luzes que Brilhavam - Capítulo 3


Escrita por:


Notas do Autor


oi, oi, oi. Prometi que voltava em junho e eu voltei!! Tudo anda uma loucura e tenho odiado o ead cada vez mais. Meu terceirão foi todo pelo ralo
decidi postar dois capítulo de uma vez (o três e o quatro), porque o três tinha ficado muito pequeno pra ir sozinho. Enfim, espero que gostem <33
#357 favoritos, vocês são incríveis

Capítulo 3 - Eu Deixei de Ter Braços


Capítulo 3 Deveria estar acontecendo um terremoto agora.

Dentro do sótão, arrumo as camisetas masculinas que Emily tinha em uma gaveta. Mesmo sendo uma garota, ela odiava a sensação de suas roupas serem menores que ela, então eu sempre a levava junto comigo quando ia comprar roupas novas. Sempre deixei que escolhesse o que quisesse, o que deixava a mamãe uma fera.

Tive que pegar a caixa com as camisetas com cuidado enquanto ela estava empenhada assistindo o programa de culinária que ficou viciada nos últimos dias.

Fiz tudo com o mínimo de barulho possível, com medo de que ela me descobrisse e me tirasse tudo o que restou.

Alerta: quando sua irmã se matar, pegar coisas boas e as guardar em lugares que ninguém encontre. Somente você.

Depois de arrumar tudo volto para a sala e me jogo no sofá.

- Precisa de alguma ajuda?

Olhando de fora, é uma cena estranha. Metade do meu corpo está deitada no sofá e a outra metade está pra fora, tendo o apoio do chão para me manter. A televisão está ligada, mas com o volume tão baixo que parece estar no mudo.

- Estou desvendando um enigma – respondo.

- Tá parecendo dor de barriga.

E é verdade, essa é minha mãe. Podemos notar os traços por causa do cabelo ondulado e das sardas pelo nariz.

- Isso é pose para pensadores, mãe.

- Se você diz...

Antes, mamãe explodia do nada, tipo, do nada mesmo. Ela gostava de ficar quieta ao mesmo tempo que não conseguia parar de falar, e quando começava, parecia algo vindo com tudo e que nunca iria terminar. As vezes parece ser algo incrível, já em outras, eu tento me esconder dentro de seus bolsos da blusa, da calça, dentro dos móveis e dentro do ar. E enquanto estamos largados na sala, ela não diz mais nenhuma palavra. Desde que fomos abandonados ela tem esquecido de explodir para fora de si mesma, como se já bastasse que somente ela soubesse de tudo. Mas tem uma coisa que não mudou: mamãe tem um superpoder de ser dona de mentes na maior parte do tempo.

Ela aumenta o som da tevê, o que faz com que meus pensamentos virem uma bagunça.

No canto da sala estão as caixas. O que é uma coisa muito errada quando na verdade elas deveriam estar guardadas em um lugar onde ninguém poderia encontrar. Antes, mamãe e eu tínhamos o mesmo pensamento sempre, mas agora, mais se parece que estamos nos desviando. As coisas pararam de se bater. E isso me deixa deprimido.

 

 

Ligo o computador e sento em frente a escrivaninha, esperando que assim, o mundo pare de tremer. Se eu ficar com meus pés firmes no chão vou conseguir fazer com que qualquer desastre natural não aconteça por mais algumas horas, mas caso eles fiquem bambos ou cansados ou dormentes, o mundo irá acabar em apenas alguns segundos.

Entro em um chat com Os Três Mosqueteiros, que está rolando uma discussão sobre quem de nós tinha ou não coragem de fazer isso ou aquilo. Sou o que teria coragem de entrar dentro do chafariz no Hopi Hari.

Coloco uma playlist pra tocar enquanto faço a lição de casa. Quando enfim termino, me sinto preparado pela primeira vez em bastante tempo para realmente fazer arte. Pego lençóis sujos e cubro o chão, aproveitando pra deixar uma tela e as tintas no meio de tudo. As aulas de artes na escola são diferentes disso aqui. Isso é tudo o que realmente sou. Nesses momentos consigo até mesmo ficar invisível.

Misturo cores para chegar nos tons que quero, respiro ofegante e desesperado. Muito desesperado.

Todo final de ano, acontece um evento de artistas onde as obras são expostas no centro da cidade. Ano passado não consegui me inscrever por estar com um ano a menos da idade aceita, que era dezesseis anos, mas agora que a idade não é mais um problema, tenho que começar a me preparar.

Por isso, deixo que minhas mãos não façam mais parte do meu corpo e sim que tenham vida própria. Também deixo que tudo se torne uma confusão porque é o único momento em que as coisas tem que ficarem confusas. Me permito sentir tudo. E mesmo quando vou dormir, ainda continuo sentindo tudo.

O mundo paralisou. Só não sei dizer se isso é algo bom.

 

Capítulo 4 Eu diria que tive sorte de não me atrasar de novo, mas não foi bem assim.

- Como foi sua semana? – Nicholas pergunta depois de eu me sentar.

- Boa.

- Está dizendo a verdade?

Ele pega um tabuleiro de damas. Em toda sessão Nicholas faz uma atividade comigo, dizendo sabe o que mais gosto nesses jogos? Eles sempre têm uma saída.

- Tecnicamente estou – pego as peças pretas pra jogar.

- O que significa tecnicamente?

- Significa que aconteceram as mesmas coisas dos últimos dias.

Nicholas que começa o jogo. Ele move a peça com tanto cuidado que me faz querer ir embora.

- E seus pensamentos?

- O que tem meus pensamentos?

- Eles são sobre o que? – diz – Não acho que está pensando a mesma coisa dos últimos dias.

Se eu disser a verdade, ele poderia explodir. Gosto de Nicholas a ponto de desejar que ele não exploda.

- Tenho pensado em uma exposição.

Isso não é mentira. Penso tanto nisso que não me importo de eu explodir.

Nicholas come muitas mais peças do que eu. Estou em desvantagem.

- Uma exposição? – pergunta – Isso é muito, muito bom Jungguk. E sobre o que é essa exposição?

Tinha me esquecido de como ele sempre pergunta sobre como as coisas são. É um bom jeito de ir a fundo nos assuntos.

- É sobre pinturas. Muitas pinturas.

Lembro da tela de ontem à noite e me arrepio. Dessa vez envolvi o cubismo com um parque muito bonito que visitamos no ano passado. Nesse dia ficamos até o pôr do sol porque Emily não queria ir embora até ver os tons que o céu ficava lá.

- Jungguk, pode tirar uma foto disso? – ela perguntou.

Então peguei meu celular e tirei sem Emily ver uma foto com ela apoiando a cabeça no joelho, de olhos fechados. O céu deveria estar tendo uma festa nesse momento porque haviam tons de azul, roxo, laranja e amarelo. Fiquei olhando pra essa cena por horas, com medo que aquilo acabasse.

- Sabe, as vezes eu queria morar dentro de uma árvore – Emily disse.

Olhei para a mamãe que estava dormindo. Ela sempre me contava segredos quando a mamãe dormia.

- Por que você iria querer isso? – perguntei.

- Eu só gosto da ideia.

Eu sabia que ela estava mentindo, mas não disse mais nada. Naquele tempo a situação tinha começado a piorar. A escola não parava de ligar dizendo coisas como mal comportamento. Naquela noite, quando fui dormir, passei em frente do quarto dela e a ouvi chorando. Decidi não ligar e ir pra cama. Seis meses depois, a escola continuava ligando. Um dia, decidiram não falar como ela era um problema e sim que não a encontravam em lugar algum. Antes mesmo de eu atender o telefone já sabia o que tinha acontecido. Foi quando o mundo paralisou pela primeira vez.

- Jungguk, está tudo bem?

Nicholas me acordou. Ele está com as mãos apertando as laterais da mesa como se estivesse fazendo isso a um bom tempo.

Olho para o tabuleiro.

- Acho que eu perdi.

De novo.

 

 

Está na hora de sabermos o objeto que todos os alunos pegaram na última aula. Quem começa é Namjoon com uma tela toda pintada em preto vivo, com um círculo branco no meio.

Nesse momento todos começam a se atropelarem com a voz.

Normalmente levamos mais do que duas aulas para fazermos os debates. Temos três aulas só para nós, para que deixemos nossas almas de artistas vivas e pegando fogo e querendo sempre algo que não podemos possuir. Minhas bochechas ficam quentes só de pensar.

Mas aí, a realidade cai. Ultimamente acho que minha alma de artista se apagou. Ela foi terrivelmente assassinada enquanto eu dormia.

Julie, a garota que tem mechas vermelhas no cabelo, enfim consegue a atenção dos alunos e diz:

- Belo círculo, Namjoon.

Existem verdadeiros artistas nessa aula. Muitos que estão aqui já se preparam para o grande espetáculo no final do ano. Se preparam para esmagar a todos, para me esmagar. Tirando Julie. Ela nunca teve alma de artista e sim uma alma de tarântulas, injetando veneno em tudo que toca.

- Alguém consegue sentir alguma coisa? – a professora Suzana toma partido – Mostre seu objeto Namjoon.

Ele nos mostra uma lanterna bem pequena, como se fosse feita para um bebê.

- A lanterna pode ser relacionado em achar o caminho certo – Matheus, o garoto que usa moletom no verão diz. Ele foi namorado da prima do Taehyung por um tempo – Sem a lanterna estamos perdidos, não estamos?

Isso acaba com o debate da obra do Nam. A professora o dá parabéns, ele suspira.

Namjoon odeia artes, mas é ótimo com música. Precisamos dele aqui para as culminâncias, porque dizem que pianos se encaixam bem em exposições. E seria essa turma ou a turma de ciências. Ele escolheu bem.

Quando chega minha vez todos ficam inquietos. Acho que pensam que só porque tenho uma irmã morta precisam fazer com que eu me sinta acolhido. Até os tímidos estão dando o seu melhor, falando com a intenção de todos os ouvirem.

- Mostre seu objeto Jungguk – Suzana grita no meio das vozes de trovão.

Pego a ratoeira e ponho do lado da tela. Na última aula pintei uma gaiola aos pedaços com a porta aberta. Ela tem raízes de plantas a abraçando ou a afundando, ainda não decidi essa parte. A gaiola está vazia.

Por várias vezes pensei em vir aqui e destruir o quadro. Fogo, água, rabiscos, rasgar em pedacinhos. Dava na mesma. Não consegui fazer nenhuma.

- A pintura de Jungkook quer dizer recomeço – uma das pessoas tímidas diz – Uma gaiola abandonada para conhecer o novo.

- Acho que é sobre esquecer alguma coisa.

- Pode ser que a obra fale de deixar a natureza cuidando de tudo.

- Ou que a natureza está consumindo o que não deveria.

São opiniões demais, não consigo processar.

- E se a tela pudesse dizer alguma coisa? – Suzana pergunta – Do tipo, realmente falar. Conseguem imaginar?

- Diria um adeus – foi a vez de Namjoon dizer.

Olho pra ele como um garoto perdido, mas ele não nota.

A pintura da gaiola não significa nada, quero dizer, mas seria uma mentira bem cabeluda.

Aperto o botão de desligar e olho para as janelas. O clima está bom hoje, com o ar fresco do outono. Vindo pra escola deixei a janela do carro aberta e respirei bem fundo. Mamãe estava ouvindo a rádio, parecia um pouco aérea.

- Vai fazer frio hoje à noite – ela começou – Que tal pedirmos uma pizza?

- Pizza é legal.

Ela concordou. Eu deitei minha cabeça na porta do carro.

E então fico frenético, não sei porque. A energia de todos me dilacera. Sou uma formiga no meio de todo esse caos, e as coisas que dizem... surreais. Meu quadro se desmancha, as tintas caem. Mas um idiota acaba com todo o encanto, com a voz de homem das cavernas.

- Que tal um ataque zumbi? O mundo iria ficar desse jeito.

Alguém manda a pessoa que disse calar a boca.

Guardo essa informação na cabeça para contar a Taehyung depois, ele vai achar engraçado.

- Podemos chutar que seja só uma gaiola.

Quero que não descubram a verdade nunca, porque se descobrirem, como vou conseguir viver dentro de mim mesmo? Seria uma bagunça. Conto de um até dez e de dez até um repetidas vezes. As mentes se acostumando com a ideia, as vozes brochando e se desligando igual uma televisão. Chega a ser reconfortante. Ninguém precisa saber do quanto sou um covarde.

- É o oposto disso – Jimin diz.

Acordo do meu transe.

A sala toda para como se ele fosse um super-herói prestes a salvar o mundo.

- Tudo o que vejo é o resultado de alguém que perdeu – ele diz tudo como se fosse fácil – Isso é como fica alguém que foi traído. Não há nada além disso e a ratoeira só prova tudo. Ela é o significado de estar preso e sufocando – Jimin olha pra mim, os olhos sensíveis do sol piscando e formando uma bolha d’água em volta de todos da turma – É a pior coisa do mundo.

Não preciso fazer nada para que todos saibam a verdade.

- Meus parabéns.

Suzana fala depois de um tempo. Mas não sei se diz isso pra mim ou pra ele.

 

 

No almoço Nam tem que dar uma passada na quadra pra uma reunião do time de basquete. Taehyung tem que terminar um trabalho que deixou pra última hora. Pego o lanche que preparei ontem à noite e vou pra um lugar que o restante dos Mosqueteiros consiga me achar de primeira quando terminarem o que estão fazendo.

Sento na mesa e desembrulho um sanduíche de repolho. Tento não fazer nenhuma sujeira porque hoje de manhã fui no sótão e peguei uma das blusas de Emily. Era uma do AC/DC, que ela amava. Sempre que usava a blusa ela ia até suas coxas, por isso fingia que era um vestido. Em mim a blusa fica normal, como se sempre tivesse sido minha.

Quantas ainda cabem em mim? Quantas vezes fui com ela comprar camisetas masculinas? Inúmeras vezes ela já roubara algumas de mim. Pegava escondido enquanto eu fingia que estava dormindo, algumas ela acabava devolvendo. Eu não me importava. Acho que ela não se importaria agora.

O garoto novo passa por mim.

Depois daquele show na aula, eu sabia que ele continuava olhando. Tive que conter a vontade de virar para o outro lado.

Não levantei os olhos ou coisa do tipo, porque não quero que ele tenha uma desculpa pra poder achar que pode fazer tudo o que quiser. Ele dá uma grande volta, depois, vai embora. É muito esquisito.

Mas quem eu quero enganar? Se não fosse por mais cedo, eu o convidaria pra sentar.

 

 

Mamãe me olhou dos pés a cabeça quando cheguei em casa.

- O que foi? – tive que perguntar.

- Nada.

Mas eu sabia. Sabia de tudo.

Ela pegou o telefone e foi pro quarto, dizendo que iria pedir a pizza e não conseguindo me ver desse jeito. Devolvi a camiseta a gaveta e coloquei uma minha, com medo de ter muito de mim na parte que separei só pra ela. Eu tinha que ficar no meu espaço, meu pequeno espaço, que fiz na minha mente noite passada. Para que assim, Emily ficasse com tudo.

Se estiver aqui, penso, faça um barulho. Não ouvi nada. Se estiver aqui, feche a porta. A porta continuou aberta. Se estiver aqui, toque no meu cabelo. Os fios ficaram intactos.

Se estiver aqui, me leve com você. Permaneci vivo já que ela não me queria de volta.


Notas Finais


meu insta: https://www.instagram.com/c_clia_/

gente espero muito, muito que vocês tenham gostado. Ahn, não sei agora, fala pra mim qual seu filme preferido


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