História As Manchas de Júpiter (Romance Lésbico) - Capítulo 3


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Lesbicas, Lgbt, Romance, Romance Lésbico, Yuri
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Palavras 2.029
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Drama (Tragédia), Ficção Adolescente, Ficção Científica, Fluffy, LGBT, Literatura Feminina, Musical (Songfic), Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Yuri (Lésbica)
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Suicídio
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


oláás

Capítulo 3 - Sirius


Passado.

-Gaya! -Rosno e movo na cama, a voz firme de meu pai interrompe meu sono com um grito severo. O que significava que eu já havia dormido demais e se ele precisasse chamar de novo não seria nada legal.

Levanto e estico as costas, um vestido amarelo, flores que minha mãe havia pintado em seus traços tortos e errados num dia de tédio. Jogo agua no rosto, escovo os dentes e desço as escadas pulando dois degraus.

“Falta de modos, Gaya.” Minha mãe diria se visse.

Adentro à cozinha, o cheiro de chá forte e doce, o bolo de chocolate numa cesta no centro. Me sento e beijo a bochecha do meu pai e pego um grande pedaço de bolo, o cheiro de chá subindo ainda mais forte após colocá-lo numa xícara.

-Bom dia, mãe! -Falo de boca cheia e recebo um olhar atravessado, me fez rir.

-Modos, Gaya. -Mamãe responde junto com meu sibilar.

-Você irá à ferroviária hoje. -Paro de mastigar e olho para o semblante sério que meu pai expressava.

As grossas sobrancelhas bagunçadas e pele bronzeada pelas longas horas sob sol forte no campo de centeio. Apesar da pequena dezena de empregados que trabalhavam ali, ele ainda insistia em fazer as coisas por contra própria.

E as vezes eu mesma era metida em suas ideias.

-Eu vou? -Volto a mastigar, tomando uma golada do chá quente. Quase me queimo.

-Sim, Gaya, você vai. -Revira os olhos. Um homem impaciente de nome quase delicado, Pierre.

-Posso saber o por quê? -Mama sorri e bate palmas.

-Teremos uma hóspede especial. A irmã de Aaron. -O jovem rapaz que por vezes trouxera livros para nós, mesmo que eu não me interessasse em ler.

Até porque eu não sabia.

Mas mama o adorava, Pierre nem tanto. Mas ele não se dava bem com a maioria das pessoas, sempre com uma expressão carrancuda, as marcas do tempo puxando ainda mais o rosto para baixo.

-E onde ficará? -Questiono não me importando muito. Aaron era agradável, simpático e sorridente, seus conhecimentos me fazia passar horas o ouvindo e ele sempre sabia algo novo.

-No sótão. Preparamos tudo enquanto você dormia. -Assinto, o lugar tinha uma boa vista do campo por inteiro.

-Tudo bem. -Terminamos a conversa da manhã.

Meus pais não eram de conversas paralelas, mas minha mãe conseguia estender um assunto até o fim ser eminente.

Soava simpática na maioria das vezes. Eu a confiava a vida.

-Ande logo, garota, irá de bicicleta. -Pierre diz e se levanta, partindo pela porta da cozinha colocando a boina da cabeça para mais um dia.

Voltaria no almoço, um abraço e beijo, sairia para a tarde. Nossa rotina era certa, pontual.

A chegada de tal pessoa poderia ser a mudança que eu tanto ansiava. Cansada de seguir pelos campos com um cesto pegando o que precisava e voltando para casa para comer.

Queria ter alguém para conversar sobre o mundo afora, sobre o que havia depois da linha do horizonte.

-Ande menina, ta com a cabeça na Lua. -Acerta minha testa com o pano de prato me fazendo rir.

Levanto e lhe abraço, beijo sua bochecha gorducha e pego meu chapéu que se emaranhava nos fios do meu cabelo e fazia nós doídos de se tirar.

Subo na bicicleta e aceno para Francisco, um dos empregados que sempre contava piadas impróprias, mas engraçadas. Confesso que não entendia metade.

O vento fresco me abanava do calor que fazia pela manhã, cerro os cílios e parto para a ferroviária, nem tão distante, nem tão longe.

Algumas pedras no caminho, alguns trabalhadores perto da cerca que me acenaram após um grito de cumprimento. O céu azul quase vibrava perto do chão, o sol em raios fortes se espalhava pelo céu sem nenhuma nuvem para o cobrir.

Desejei ter trazido água.

Encontro algumas pessoas pelo caminho, alguns iriam bater na porta de casa e pedir, talvez leite ou pão, outros tentariam vender algo. Se meu pai visse seria não, mas minha mãe certamente diria sim.

Prendo a bicicleta no poste de luz e limpo o vestido, desamassando em alguns pontos, não queria parecer mal vestida para a nova convidada.

Algumas pessoas iam, outras vinham, os chapéus postos na cabeça e as vezes um terno rebuscado cobrindo o corpo. Meu pai só se vestia daquela forma para ir a igreja, e reclamava dos alfinetes em sua pele. Não imaginava o quão desconfortável deveria ser estar com aquilo naquele sol.

Ora, eu nem havia perguntado o nome da mulher que viria. Nem sabia seu rosto. Ou de onde vinha.

A burra da vez era eu, parabéns Gaya.

Vou para a estação e algumas pessoas esperavam como eu, mas com placas contendo nomes que eu não sabia ler. Pouco me importava.

Os vestidos caindo sobre o chão, suas donas me olharam feio, talvez porque o meu só ia até abaixo dos joelhos. Mostrei a língua para meia dúzia e bati o pé impaciente.

Ouvimos o sino do trem chegando, a fumaça ao longe, e a luz quase me cegando quando olhei para o túnel.

Pisco vendo os pontinhos coloridos e todos se amontoam nos cantos com suas placas levantadas.

Como eu acharia a garota?

O jeito seria gritar “Irmã do Aaron” no meio daquela pequena multidão. Os olhares não poderiam piorar de qualquer forma.

Cotovelos me cutucam, o trem para e as portas se abrem. Mais gente chegando e sou empurrada para longe, resmungo e começo a gritar, gritinhos de euforia e abraços emocionados.

Reviro os olhos e vou me distanciando. Não acharia ninguém daquela forma, a menina esperava por mim e não sairia daqui sem minha presença junto.

Loucura, eu chamaria aquilo de loucura. Pessoas se acotovelando, pisadas de pé e abraços com tantos braços que me deixaram confusa.

Entre tantas pessoas uma se sobrepôs. Os cabelos bem arrumados, calças até a cintura onde uma blusa social estava bem alinhada e um terno azul claro, diferente de qualquer outro que eu já tenha visto, nos ombros.

Seus pés embaralhados se perderam no meio de tantos outros, ninguém a segurava ou parecia se importar com seu rosto. Vou ao seu encontro no momento em que seus pés se livram dos nós e ela cai de joelhos fora da confusão de pessoas.

Papéis grossos caíram junto com suas malas, seus olhos se arregalaram e se apressou em juntar tudo. A acompanho e seus olhos se cruzam com os meus. Escuros, fundos e de cílios longos, quase se perdendo na luz clara do ambiente.

E então nossas testas se batem.

-Ai. -Resmungo e massageio o local da batida.

Ela faz o mesmo, mas volta a amontoar os montes de papel nos braços grandes. Ela se levanta e eu faço o mesmo, com somente um rolo em mãos.

-Mesmo que tenhamos começado mal, acho que você é a pessoa que eu espero... Prazer, sou Gaya. -Digo, rindo apesar do esbarrão, sua testa avermelhada no local da batida. Minha cabeça era dura daquele modo?

Seus cabelos agora estavam levemente bagunçados nas pontas, castanhos escuros e levemente ondulados. Como um mar de fios descendo por suas costas.

Seus olhos encaram minha mão estendida, lentamente seu braço se estende, criando coragem e enfim aperta minha mão. Suavidade, delicadeza e leveza.

Sua mão era macia em certos pontos, em outros tantos áspera e firme. Os dedos afundaram em minha pele e ela sorriu simpática, mas sem mostrar os dentes.

-Aurora. Irmã de Aaron.

Sua língua enrolava na pronúncia, de forma leve e firme. O R bem puxado, os olhos escuros me analisando sob os cílios grossos. A sobrancelha acertada e arqueada numa curiosidade quase infantil, as orelhas expostas, sendo apoio para o cabelo solto, com duas tranças laterais que deviam sumir no meio dos fios.

Alguém a empurra e seu corpo tromba no meio daquela estação movimentada. Sua lufada de ar bateu nervosa em meu rosto e se afastou com um empurrão em meus ombros. Como se tivesse sido queimada pelo contato.

-Esta tudo bem? -Ela simplesmente assente enquanto olha para os papéis.

Os dedos, de unhas curtas e roídas, brincaram para cima e baixo no papel amarelado de textura grossa.

-Podemos ir? -Assinto animada e a puxo pela mão numa mania feia. Ela arfa, resmunga e levava o corpo de maneira lenta.

Mas não desgrudou a mão da minha.

Saímos da abafada ferroviária, os carros médios parados no estacionamento, seus olhos viajaram por todos os modelos que passávamos, talvez tentando adivinhar qual seria o meu.

-Aqui! -Sorrio animada, apresentando minha bicicleta e ao mesmo tempo checando se nenhum daqueles engomadinhos havia feito algum risco ou dano em meu veículo.

-Ah... Uma bicicleta? -Pergunta em tom levemente assustado. Os olhinhos pequenos por conta do sol em nossas cabeças. -Para nós duas?

-Sim! Bom, é melhor que nada. Vamos, estou com fome. -Subo na bicicleta e bato no banquinho do passageiro em minhas costas. Não seria confortável, quanto antes partíssemos mais cedo chegaríamos.

A incentivo com o olhar vendo seus gestos suspensos no ar, uma leve cicatriz escapando da linha azul do terno chique. Os dedos se coçaram na palma e respirou fundo três vezes.

-Aqui, vou colocar isso na cesta e você leva as malas. -Pego seus desenhos, ela me olha alarmada, horrorizada com meus atos.

“Modos, Gaya.” Consigo ouvir a voz severa de minha mãe em minha cabeça e sorrio sem graça.

Com um pouco mais de coragem, as malas abraçadas ao peito, eram somente duas e uma cutucou minha coluna até a nuca. Sua botina marrom desencostou do chão e antes que ela pudesse desistir, eu pisei no pedal e seguimos caminho de volta para casa.

Balançando entre a esquerda e a direita, ouvia seus sussurros assustados, mas eu não nos deixaria cair. As vezes sentia vontade de rir, as vezes queria somente gritar para que ela sentisse o vento no rosto, tirando o cabelo de perto, secando o suor das juntas.

Somente aproveitasse o momento, por mais desastroso que fosse. Ri de seu grito fino quando passamos por uma pedra, seu corpo pulando e causando impacto na direção.

Aos poucos avisto minha casa, os campos com pessoas sentadas em caixotes enquanto almoçavam entre conversas bobas. Acenaram de volta, riram de nossa situação e negaram com a cabeça.

Passo pela cerca e paro a bicicleta em frente à varanda, ela desce e para com o queixo erguido. Analisando a casa onde ficaria pelos próximos... Meses? Talvez. Aaron ficava por alguns. Mas imagino que sua irmã era uma viajante.

A casa era larga, de cores desgastadas pelo clima quente, quando frio ficava as janelas permaneciam fechadas, mas agora a cortina escapavam nos ventos fortes. Uma pequena janela no topo do imóvel, redonda e de mosaicos, Aaron havia me dito, soltando a pequena trava ela teria vista de todo o campo.

-Vamos, estão a nossa espera. -Sorrio simpática, tentando reverter um pouco da impressão que causei durante todo o caminho.

Entramos e ela volta a analisar tudo, seus desenhos abraçados ao corpo enquanto eu carregava suas malas, tão pesadas quanto eu achei.

-É uma linda casa. -Diz por fim, num elogio simples, mas que pareceu a maior das verdades vindo dela.

Seus passos eram largos, por vezes pareciam desastrados, as pernas pequenas cobertas pela calça lisa recebeu um olhar atravessado assim que cruzamos a porta de entrada.

Meu pai já detestava minhas saias, calças lhe pareciam o máximo do absurdo. Mas a mulher não pareceu se importar, uma expressão séria, ao mesmo tempo que tentava passar tranquilidade e simpatia.

-Olá senhores, sou Aurora, irmã de Aaron. -Diz em voz firme, me fazendo encarar admirada seu perfil, o nariz fino fazendo curva e a forma que a boca se movia na medida em que as palavras saíam.

Ela sorri, formando uma dobra na bochecha e pertinho dos olhos. Não me importei com meus pais se aproximando, ou as mãos se apertando – de forma tão rápida que quase não se passou dez segundos –, não me importei com o tom severo que Pierre pronunciou os cumprimentos.

Talvez eu não tenha me importado com nada disso porquê ela me parecia bem mais interessante que qualquer outra coisa no momento.

Até quando me olhou e sorriu leve.

Somente para mim.


Notas Finais


Favoritem e comentem
3bjs de luz e até mais 🌻🐥


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