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História As quatro estações - Capítulo 19


Escrita por: e Lysedarcy


Notas do Autor


Para esse capítulo tive que assumir muitos riscos, e como autora tive que escolher o que achava ser mais próximo do que realmente queria dizer para caminhar para o desfecho.
Esse capítulo vai ser uma dose de sal sobre feridas, e por favor, fica o alerta para cena de violência! (Não que seja algo demasiado, mas prefiro deixar avisado para pessoas que sabem que podem ter possíveis gatilhos ou incômodos com essa leitura).

Boa leitura e até as notas finais.

Capítulo 19 - Máscara


Fanfic / Fanfiction As quatro estações - Capítulo 19 - Máscara

Os que olhavam para Anakin Solo como um homem bem sucedido, o filho perfeito e o amigo ideal, jamais imaginariam seus perturbadores complexos. Por anos ele inclusive tentou reverter seu próprio espírito, culpando-se pelo tipo de máscara que era obrigado a usar.

No entanto à medida que cresceu de um jovem culpado, amante da família e sujeito confiável começou a se conformar que seu espírito era diferente do que julgava, pois por dentro, a verdadeira personalidade do jovem era de um sujeito egoísta, mesquinha e sujo.

Como isso começou?

O evento transcorreu anos atrás, quando ainda era uma criança, antes que seu irmão viesse ao mundo.

No dia em questão havia retornado mais cedo para casa e sem querer escutou uma conversa perturbadora entre seus pais.

– Está dizendo que quer contar a verdade para ele? – Podia escutar Leia falando com uma voz irritada.

Poucas vezes ouviu tal tom usado pela mãe, mesmo que as brigas entre os pais fossem frequentes e isso não fosse uma novidade.

– Ele não é mais tão menino, merece saber a verdade. – A voz irritada de Han replicou a de Leia. – Você o protege demais e chegará o ponto, que irá odiá-la por isso.

Anakin não podia ver a mãe, mesmo assim podia imaginá-la do outro lado da porta com a cabeça baixa, as mãos comprimidas. Sabia que estava arrasada, pois escutava seus soluços antes de prosseguir.

– Ele é meu filho, não importa o que digam, e não importa para mim se ele não foi gerado no meu ventre.

O coração do rapaz se apertou, seu pulso ficou mais rápido. Não sabia se estava pronto para ouvir a revelação, mas permaneceu à porta com os olhos pesados, as mãos contraídas, entorno do tecido da calça do uniforme do seu colégio elitista.

– É nosso filho, independe de quem o gerou. – E Anakin então entendeu que também não era filho de Han.

Sua percepção era boa para um menino de sua idade, ele tinha habilidades e capacidades que a maioria de seus colegas de classe poderiam levar anos para desenvolver e ainda assim não executar com a facilidade que exercia.

– Nós o amaremos sempre, como amamos a Ben.

Anakin ficou pensando sobre a afirmação, talvez eles estivessem mentindo, talvez estivesse querendo enganar aos seus próprios corações. Como poderiam amá-lo tanto quanto um filho legítimo?

Outras questões surgiram.

Por que os Solos o adotaram? Quem seriam seus verdadeiros pais?

Antes ao se olhar no espelho, Anakin podia encontrar todos os traços da sua família em sua aparência, nunca imaginou que fosse sangue de outro sangue. Possuía o cabelo castanho da mãe, os olhos claros de seu pai. Ele podia notar a como suas mãos seriam grandes ou o seu rosto similar com o de Han em curtos traços do queixo… Mas agora, entendia que somente tudo era um acaso, que traços era apenas uma coisa banal e que tantos outros estranhos poderiam parecerem-se entre si.

– Eu não quero que ele pense que somos diferentes em seu tratamento, não agora que Ben está caminhando, por favor, Han. – A ouviu suplicar.

Anakin ponderou "Como não seria diferente?" Ele tinha um sangue diferente, ideias diferentes que antes julgava erradas e até se sentia ruim por elas. Mas agora fazia sentido para ele apresentar uma personalidade misteriosa internamente desajustada.

O erro de Leia era julgar que a mentira poderia ser eterna, que poderia proteger o filho adotivo e que sua família seria perfeitamente feliz. Acontece que era tarde. Anakin já sabia de tudo, e ele sabia da pior forma possível.

Nunca antes desejou ser um filho perfeito, porém depois de saber que sua família não era aquela, ele sentia a tal obrigação de que o amassem por ser um menino perfeito, mesmo que não precisasse se esforçar para atingir esse desejo.

Tornou-se o seu complexo secreto, inconsciente, algo que não confessava nem internamente para si mesmo… Mas se Ben seria de fato o filho legítimo e roubará dele tanto, então todas as outras coisas teriam de ser suas por direito natural.

O duelo interno entre luz e sombra intensificou.

Quando Benson Jacen Solo nasceu, Anakin sentiu a crescente de dúvidas antes tão precisas, ao encarar as bochechas rosadas e os dedos pequeninos.

Porque Benson era tão frágil? Poderia afogá-lo em uma banheira facilmente, beliscar suas pernas ou empurrá-lo sem esforço se os pais não estivessem olhando, contudo os lampejos momentâneos de agredir o bebezinho não era o suficiente parar barra o toque sentimental ao mirá-lo…

Com os anos, o complexado jovem descobriu que de fato amava seu irmão, mas tanto amor se equivalia ao mesmo tempo no quanto podia odiá-lo, apenas pelo simples fato de lembrar que ele era o que jamais poderia ser.

Naturalmente tal obsessão com os anos foi ficando mais intensa por detrás da máscara.

Foi contraditório quando viu o irmão mais novo se casando, ou mesmo antes quando possivelmente sabia que existia a possibilidade de ter gerado uma criança sendo tão novo.

Anakin não queria sentir raiva de Ben por conquistas que nem se quer projetou, contudo de algum modo no seu lado mais escuro estava quebrado.

Bebidas, inteligência acima de média, mulheres, dinheiro nunca eram suficientes para suprir os desejos de ter tudo que fosse Ben, como se o fato de ter o sangue dos Solos já o tivesse tirado tudo o que era suportável…

Foi assim que começou a olhar para sua cunhada com desejos, imaginando o que faria se pudesse atraí-la para sua cama. Olhou também com desejo para Rey, por um momento desejando que a ex-docente fosse sua amante, que ela tivesse lhe dado um filho… Não importava o que fosse: objetos, pessoas, desejos… Tudo que era de Benson parecia muito melhor do que qualquer coisa que pudesse conquistar sem esforço por suas habilidades. Mas qual era a graça do fácil?

Mesmo quando os pais o elogiavam dizendo que seu irmão mais novo deveria seguir o seu exemplo, mesmo quando Ben deixou seu cabelo crescer para ficarem mais parecidos… Mesmo quando se mirava em suas notas, ou quando queria ser como uma cópia de sua sombra, Anakin não estava satisfeito.

Tinha ciência que havia muito em Benson que era somente dele, a sua essência individual… Tais coisas geravam desejos proibidos e inalcançáveis, logo complexo.

Olhando aqueles papéis o primogênito sorriu amargo, salvou as ideias em sua cabeça dizendo internamente que não havia ido tão longe para nada, que Ben não podia ter o que queria, e assim aquilo que ele como seu irmão achava que merecia ter.

Movido por um ódio e inveja, transvestido de amor.

*

Jamais admitiria suas intenções reais, ao menos era o que Anakin pensava ao concluir o trajeto extenso até o apartamento, endereço atual do irmão mais novo.

Apertou a campainha e esperou que surgisse quem queria ver.

Quando a mirou, o ambicioso sujeito percebeu que os anos a haviam favorecido generosamente, e que sem dúvidas, Rey estava bem mais atraente do que na época que fora uma grávida com olhos assustados.

Algumas coisas ele se recordava daquele encontro, como: a intensidade do verde em sua retina, da desconfiança e sua posição desconfortável…

Ela seria capaz de enxergar por detrás da máscara a verdadeira sombra oculta de Anakin?

– Mr. Solo… – A voz mostrou uma inatividade muito grande. Era como se não soubesse o que fazer.

– Me convidaria para entrar? – Seus olhos estavam focados nos dela novamente, como procurando as respostas para o indago anterior.

Não, ele não estava errado sobre ela, pois viu que sentiu-se inquieta por um momento.

– Ben se encontra no escritório, não está em casa. – Ela deu uma desculpa na tentativa de evitar proximidade.

– Mas não vim falar com Ben. – Confessou gerando mais desconfiança em sua postura já muito defensiva, prosseguiu: – Mitaka me informou onde ele estava, assim como sua agenda completa. Portanto, minha presença não é um engano. – esperou que ela entendesse sua determinação.

Era uma mulher esperta para captar a meia mensagem.

– Creio que não seja um momento oportuno, deve me desculpar. Eu estava de saída para a Discovery agora.

Ela nota também que a frase o deixa surpreso, até mesmo curioso.

– Mesmo? – tenta disfarçar, porém seu corpo parece expressar mais intenções do que sugere a fazer. – Achei que havia sido demitida. – Rey arqueia as sobrancelhas achando estranho o seu tom e posicionamento peculiares.

– Foi uma solicitação. – Ela é vaga, não deveria dar explicação, ainda assim o faz.

– De meu irmão devo supor. – Anakin implementa.

Contorna então a porta mesmo sem convite e invade o apartamento.

– Desculpe, como disse… – Ele a pausa antes que repita o que já sabia.

– Está de saída? Sim, eu sei. – pareceu desprezar as pontuações. – Na verdade se me der ao menos dez minutos de seu tempo farei valer a pena e creio que será de seu maior interesse se o fizer.

Rey não entende, ele sugere tal coisa como uma ameaça ou é sua forma de se proteger da família de Ben que sempre a bloqueia nas intenções com o sujeito?

– Minha cunhada acabou de entrar com uma ação judicial. – Comunica sem rodeio, já calculando a reação dela.

A ex-professora no entanto revira os olhos como se aquele fosse o último assunto que quisesse discutir, principalmente com o tio de sua filha.

– Achei que gostaria de saber, porque vai envolver a tutela de sua filha também. – E com tal golpe ele final faz Rey congela.

Pode ler em suas pupilas dilatadas, que seu estômago revira e sua boca seca.

– Achei que havia a obrigação moral de informar, uma vez que vou depor no júri, e a favor dela. – Outro momento, Rey desnorteia-se.

Embora Rey saiba que Anakin é uma pessoa de caráter duvidoso, não acreditava que chegaria a tal ponto somente para a atingir, sem nem considerar o quanto Beltane sofreria ao ser entregue para uma completa estranha.

O que ele estava ganhando com aquele jogo?

– O que está dizendo? – Sua voz fica trêmula e um pouco irritada.

– Apenas a verdade. – confessa como se não houvesse crime em suas atitudes. – Embora… – Ele se aproxima de Rey de modo que a deixa coagida quando leva a mão a sua face pequena. – Não precise ser assim.

A mulher de olhos verdes remove sua mão do local e torna a se afastar, optando por ficar mais próxima da porta.

– O que veio fazer exatamente aqui Mr. Solo?

– Negociar. – Senta-se no sofá, com os sapatos sobre a mesa de centro. Seu olhar é tão perverso que Rey entende que existe alguma coisa que o motiva, porém a atormenta não saber a resposta, porque isso reverteria a situação.

Em sua vida acadêmica, Rey já havia convido com alguns alunos problemáticos, contudo a situação de Anakin era diferente e aparentemente mais perigosa também.

– Deixemos as coisas simples. – Propôs. – Deixe meu irmão, e convencerei minha cunhada que não há necessidade de solicitar a guarda da menina.

– E você o que ganha com isso?

Parecia que havia prazer por escutar tal pergunta. Ele esfrega os dedos superficialmente nos lábios a analisando de cima abaixo.

– Nada… Só desejo o que é o melhor para o meu irmão, como sempre foi. – Em seus olhos estava desenha a mentira, e Rey não era idiota para suportar seu descarado falso senso contra ela.

– Isso é o que você sempre disse, no entanto, no fundo, lá dentro, há algo o corroendo.

Ele sorri. Não sabe bem o motivo, mas sorri para ela.

Foi pego, ainda assim assustadoramente não está com raiva ou com receio da esperteza de sua oponente, talvez isso seja bom para que possa ser mais direto, verbalizar o que somente se encontra em sua mente necessitada de calmaria. Mas antes é necessário solidificar sua certeza.

– Ben é meu irmão, somos uma família, como tal queremos aquilo que é o melhor para ele.

– Diga isso por sua mãe, não por você. – Acusou Rey sem piedade. – O que realmente quer Anakin Solo?

O que ele queria? Tudo que fosse de Ben, todos os seus desejos… Inclusive...

– Você.

A ex-professora por um momento pensa ter ouvido errado, não pode acreditar, porque não faz sentido.

– Você é louco?! – Sua voz carrega raiva, mágoa e decepção. Como ele ousava dizer isso para a pessoa que seu irmão amava? – Saia agora de minha casa.

Ordenou ela não querendo ficar na presença dele nem mais um minuto, abrindo a porta.

Anakin, no entanto não estava disposto a acatar tal ordem. Ele se aproxima da saída na única intenção de empurra a porta com a mão, os olhos fervendo de raiva e boca contorcida em uma linha áspera. E quando ela olha assustada, ele então trava seus braços com os dedos brutos sobre seus braços.

– Saia! – Se indignada no aperto.

Irá gritar se ele continuar, porque realmente é tão firme que começa a machucá-la.

– Saia! – Ordena mais enfática, dispostas a revidar de algum modo ao se mover. – Eu vou chamar a polícia.

A ameaça o deixa entorpecido pelo choque de sua própria brutalidade com ela. A solta como se tivesse levado um choque e percebe que rasga as mangas de sua blusa durante a luta que ela fez contra ele.

Por entre o tecido ele percebe as marcas que deixa em seu braços e isso o adoece como se tivesse atacado seu próprio irmão.

E como se fosse uma tempestade de inverno passa pela porta mais rápido do que entrou.

*

Ainda em choque Rey percebe as marcas, ela estava assustada e atordoada sobre o que aconteceu dentro do apartamento… Simplesmente foi atacada pelo irmão mais velho do homem que ela confiava e amava.

Lembrou-se entre tal tormento do universo literário que tanto amava, do horror e choque com a obra, O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde… O análogo em sua mente afetada não foi intencional, mas as ações descontroladas levaram-a a recordar do protagonista, cuja vida se corrompeu pela beleza. E embora não soubesse o que o levou Anakin a corromper sua alma, Rey não achou ser insanidade o paralelo com o romancismo, pois ele era perfeito como "o monstro sendo humano, demasiadamente humano"...

*

O agressor não amava a mulher que deixou para trás, somente havia amado uma vez em sua vida. Tal mulher digna de sua atenção o deixou de tal forma, que sentiu como se estivesse sem chão, tomado pela sensação inebriante de raiva.

Por que isso era importante? Porque ele vivia esse retrato para tentar avaliar seu sentir.

Não deveria odiar Rey, mas a odiava, porque além de ter atingido suas camadas mais profundas, a mulher de olhos verdes o rejeitou por ser nitidamente um monstro…

A deformidade de sua alma o assustou profundamente.

Respirou fundo, apertando suas mãos sobre o volante do Mercedes prateado.

Precisava de um trago, algo para aquecer seu corpo e alma… E mesmo que não pudesse dizer os motivos reais para seus sentimentos corrosivos, ligou para Phasma. Em seu interior sabia que seria fácil convencê-la de o encontrar no bar escolhido, já que ao contrário de Rey, Kelda o idealizava, confiava nele e ele podia manipular suas ações inconscientes…

– O que houve? – Seu rosto tomou seu campo de visão quando ela pousou à mesa com os olhos reflexivos. – Você não é de fazer isso, não a essa hora…

– Você acha que me conhece?

A pergunta a deixou confusa, porém não sem resposta.

– Talvez ninguém se conheça de verdade, por isso não podemos concluir que conhecemos alguém verdadeiramente também. Ainda assim, eu penso que isso não é empecilho para que possamos escolher confiar em outra pessoa. – Ele riu de modo doloroso. – O que há?

A risada chamou sua atenção.

– Por que ama o idiota do meu irmão?

– Os olhos dela encontraram os dele, sedentos por respostas.

– Eu… – refletiu consigo mesma.

Será que para se amar alguém deveria haver um motivo?

– Acho que não é algo para qual tenho uma única resposta.

– Então as diga do princípio. – E Phasma sorriu.

– Por que isso agora? – Sua desconfiança era ingênua. – Está apaixonado por alguém?

Apaixonado? Que tipo de sentimento era o de um homem e de uma mulher senão um punhado de palavras clichês amontoadas em livros de romances baratos?

– Sim… – Ele entra novamente em mais um jogo.

– E quem é a moça? Eu a conheço?

– Você – responde simplório.

Pode a ouvir gargalhar da resposta, tempo demais para deixar seu tímpano dolorido, ainda que exista uma desconfiança que também se relaciona com álcool ingerido estar provocando alucinações.

– Pare de brincadeira. – Kelda quis descontrair com outra risada, mas viu a seriedade no fundo de sua expressão. – Ani…

Como ela não notou que ele pudesse a olhar de outra forma?

De repente sentiu a responsabilidade de conversar.

– Você sabe que amo o seu irmão, que nós somos casados e que …

E Anakin a puxa pelas mãos.

– Todas as pessoas sempre falaram que eu sou mais bonito que ele, mais bem sucedido, mais sociável… Melhor filho, melhor amigo… – Enumerou com certo desespero.

A acompanhante o escutou e se quer houve um reconhecimento em seus olhos, somente assombro, além do profundo sentimento de decepção.

Ele estava falando de si mesmo para que ela mudasse sua ótica? Isso não era possível. E ele percebeu que nem mesmo Phasma cederia a sua investida.

– Está me olhando como ela – reconheceu a recriminação pelo que disse – Rey… – completou.

Entendeu ser um teste de Anakin, ou ao menos foi seu meio pensamento até que insensato continuasse a despejar:

– As mulheres do meu irmão costumam me desprezar, a minha pergunta é por qual motivo. – Seus dentes estavam trincados. – Foi ele quem roubou tudo de mim.

– Do que está falando? – A cunhada quis entender.

Mas ele não podia responder, não sem confessar por própria vontade uma verdade indesejada.

– Porque Han e Leia não são meus pais – assumiu.

*

Phasma estava atordoada ao fim da conversa, o que ela exatamente tinha feito esse tempo todo? Havia percebido que tudo que houve referente ao processo foi um plano contra Ben, arquitetado por Anakin…

Não foi exatamente intenção deixar Ben infeliz, mas somente notando a amargura de Anakin ao confessar sua dor e que finalmente se deu conta da sua própria alma quebrada.

Ela jurou a si mesma que não deixaria barato, não deixaria que ele escapasse ileso por a rejeitar, porém acabava de descobrir que a infelicidade de alguém que tanto amou não era a resposta para aliviar a sua própria.

Pensou em Ani, um bom rapaz cheio de tormentos convivendo com aquele tipo de consciência.

Estava preocupada, precisava de ajuda e precisava conversar com alguém. Sua primeira opção seria Ben, mas definitivamente para um primeiro contato era necessário mais que o irmão do rapaz… era necessário, alguém maduro capaz de entender seus dramas, perdoar seus erros e aconselhar como um orientador.

*

O rosto abatido de Rey a preocupou pela primeira vez, mas Kelda nem conseguia acreditar que as agressões nos braços magros foram feitas por Anakin, o cunhado por quem tinha tanto carinho.

Assim que chegou ao apartamento, Rey estava arredia, tentou colocá-la para fora mais de uma vez. Foi trabalhoso convencer que a deixasse entrar, que a escutasse e ela só conseguiu quando a ex-professora caiu no choro.

Tinha ido até o local procurando ser ouvida, mas no fim era Kelda quem estava a quase quarenta muitos ouvindo sobre o que havia acontecido com Rey.

– Desculpe se isso foi demasiado por uma tarde. – Ainda parecia um pouco abalada.

– Não precisa se desculpar, aliás, eu quem devo desculpas.

E o chá de canela na mesa da cozinha começou a exalar o ambiente.

Kelda sentiu-se dívidas com as sensações provocadas pela hospitalidade e a história de Rey. Por um momento foi como pensou que fosse, um regresso ao passado, uma volta ao laboratório de ciências onde falavam sobre Ben. Claro que tal coisa foi a alguns anos, mas singularmente parecia ter sido a apenas algumas horas.

– Ben sempre evitava esse cheiro quando o sentia...

Foi nostálgica ao lembrar dos gostos do marido e mudar o assunto, com naturalidade.

– Canela… – sorriu triste cheia de percepção. – Vendo esse chá entendo que era seu inconsciente trazendo lembranças.

Estava admitindo a si mesma que o coração de seu marido por mais que tivesse tentado cativar nunca lhe pertenceu.

– Por um tempo, eu imaginei que Ben fosse me amar, mas é claro que isso foi meu desejo por ser correspondida. – admitiu. – Por um tempo, eu até imaginei que fosse… – dedilhou sua xícara – E de alguma forma comecei a fazer coisas que não fazia, somente porque queria ser notada por ele.

Rey podia ver como não era fácil estar em seu lugar, como não era fácil admitir que não se podia mandar no coração ou controlar os daqueles que estavam em sua volta. Não gostava de imaginar o Benson que não estava ao seu lado, mas se este mesmo homem foi o passo para chegar até ela, compreendia que era necessário ouvir.

– Comprei uma série de livros de literatura… Era ridículo – proferiu como se fosse uma piada de mal gosto – Eu os lia todas as noites quando sabia que Ben estava para voltar, esperando que fosse me perguntar algo sobre a estória – sabia que era bobagem, mesmo assim algo nela queria formular esperança. – Claro que isso somente era o meu desejo… Meu tolo desejo que me amasse como ama a você.

– Você não precisa dizer isso. – Rey colocou as palavras sendo gentil como foi no passado.

– Sei que não, mas é preciso. – Quis continuar sua confissão, porque precisava. – Eu nem sabia o quanto o amava. – refletiu – Pensava que somente queria infinitamente protegê-lo por ser um garoto puro e frágil, não importava o que isso custasse. Somente percebi que meus sentimentos eram diferentes quando você apareceu… Hoje eu entendo. – Lembrou-se de o quanto havia doido dar sua benção ao casal, assim como a decepção pelo que aconteceu com Ben ao achar que havia sido traído por Rey – No passado talvez tenha tido mais maturidade que hoje...

Rey acompanhou as palavras

– Sempre amei Ben, porque ...

– É um ser humano preciso. – Rey completou. – Um homem do tipo que qualquer pessoa que se aproxima quer proteger, porque nos toca e cativa com o seu interior. Ben não precisa falar para te mostrar sua pureza, sua alma cristalina… Ele te fala isso com um simples olhar.

– Sim… – Kelda concordo e percebeu que o amor de Rey por Ben sempre foi sincero também. – O fato é que depois de tê-lo ao meu lado foi difícil admitir que ele queria e precisava ir embora outra vez. – E ela começou a contar fatos – Rey não espero que entenda o que sinto, mas nos piores momentos estive com Benson…

Rey avaliou o rosto de Phasma, ela estava a ponto de chorar.

– Quando ele não era capaz de mover os dedos de sua mãos estive cada dia ao seu lado, quando não podia ficar em pé achando que seu estado seria um semi-vegetativo para sempre, jamais o deixei pensando que se necessário poderia dar a minha vida toda para estar ao seu lado, mesmo que ele nunca voltasse a ser um homem normal… – Rey tentou visualizar as cenas, elas eram fortes demais para sua mente e por um momento isso a embaralhou.

Sempre pensou que sua vida foi destruída, só que ela nunca considerou com tanta riqueza de detalhes o que havia acontecido com Ben.

– Depois, por sorte... Ben voltou, mas teve de reaprender cada movimento como se fosse uma criança… – As lágrimas corriam em sua face. – Eu a odiei tanto por isso… Porque julgava que ele sofria por sua causa, sofria em seu corpo e sua mente.

– Kelda… – Rey queria dizer algo, sua voz era falha e a loira não permitiu, porque precisava terminar, precisava que estivesse ciente dos horrores da vida daquele homem.

– Os tremores de suas mãos são sequelas ainda do acidente… Não sabe como isso o frustra, o cansava e por vezes o afasta das pessoas. Ele tem medo que saibam que por vezes não pode nem se quer dar o nó na própria gravata.

E Rey sentiu sua garganta arranhar, ela entendia o que Phasma queria dizer, já havia visto algumas vezes tremores, ele nunca entrava em detalhes. 

Então Ben somente não queria contar como tudo era para que ela não se sentisse mal? Mas mesmo a noção básica já a incomodava… Pobre Ben, ele podia dizer mais, podia esbravejar mais… Porque enquanto ela estava com uma criança, ele tentava atravessar sua doença.

Tal percepção a fez olhar com admiração para a mulher a sua frente, entender seus sentimentos. Kelda amou Ben, ela deu-se de modo gratuito a ele, transitando até mesmo nas sombras escuras somente para ajudá-lo.

– Mas a verdade é que por mais que deseje a Ben o melhor, ele nunca será feliz se não estiver com você. – Phasma tocou suas mãos concluindo o que antes a incomodava – Não importa quem aceita o amor de vocês ou nega… Eu mesma quis negar, eu mesma quis destruir tudo e estava disposta a tudo, mas ver o que meu cunhado disse, talvez até mais… O que vi que fez a você… Rey isso me despertou para concluir que o ódio nunca vai ser a resposta.

E Rey se levantou de onde estava e abraçou com força. Ambas então choraram juntas os seus medos, dores, angústias e o seu amor por Ben.

Estavam simultaneamente se perdoando pelas mágoas do passado, pelo presente incerto e com a única certeza que nunca de fato tinham motivo para sustentar raiva uma pela outra. Era apenas a vida sendo irônica… Enlaçando os destinos, bagunçando suas percepções como se fossem estações a transitar.


Notas Finais


Estamos vivos? Eu confesso que essa decisão foi bem difícil, mas quem acompanha sabe que meus projetos sempre são muito ligados a alma humana e choques entre o fantástico e o real... Pessoas como Anakin são reais e as vezes tem motivos ainda mais banais para se sentirem como ele... Acho que o próximo capítulo vai ser bem real, eu acho que podem gostar do que vou apresentar... Ainda não sei se ele vai ser o penúltimo ou o último capítulo de fato, só depende do seguimento do próprio conteúdo.
Espero que tenham gostado e deixem os comentários, porque eu amei as teorias do capítulo passado, alguns de vocês acertaram algumas coisinhas e já outros erram um pouco o contexto, mas eu amei!

Por favor, não matem essa autora, ela ama o Anakin e acha que o final dele vai ser algo que devem ler 😘

Até a sequência


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