História As Sete Possíveis Almas de Uma Mulher - Capítulo 10


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Categorias Histórias Originais
Tags Drama, Futurista, Galaxia, Mistério, Relevação
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Palavras 3.398
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Esporte, Famí­lia, Fantasia, Festa, Ficção, Ficção Adolescente, Ficção Científica, LGBT, Literatura Feminina, Mistério, Poesias, Policial, Romance e Novela, Suspense, Yuri (Lésbica)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Self Inserction, Sexo, Suicídio, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Demorei, mas é que voltaram todas as minhas aulas e meus compromissos, sem falar que tenho mais duas fanfics pra atualizar.
(eu amei escrever esse cap, então enjoy it)

Capítulo 10 - A Doutora, A Esposa de Pastor e A Voluntária - Capítulo II


  A Doutora

 (Capítulo anterior)

     Por mais que soe simpático, não existia sorriso ou contato visual. Eu apenas era educada, mas de longe simpática. E isso os alunos aprendem rápido, alguns acham que são Brothers dos professores e se acham no direito de ser ou fazer certas intimidades com eles – comigo não tinha essa palhaçada.

     - Muito obrigado.

     Dou de ombros e o rapaz se senta na última mesa da fila da minha frente. Nisso eu já estava em minha mesa com pilhas de provas para resolver.     

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    Minhas provas eram totalmente dissertativas, não era por maldade, pra ferrar os alunos ou por tradição, na verdade era mais por pessoalidade. Eu sempre tive mais facilidade em criar minha resposta do que ter o trabalho de interpretar o que o autor da alternativa certa quis realmente dizer com aquilo.

     - Meu Deus, Willy – Falei baixinho comigo mesma. A prova estava totalmente rabiscada e havia um certo aroma anarquista em suas frases desenhadas como “liberdade é visão”. Isso me lembrava Diego, um libertário sem limites – o que até combinava – sempre com suas frases fadadas ao exagero. Eu sentia sua falta e havia me livrado apenas de seus livros que eu sabia que, mesmo se ele fosse encontrado, não fariam falta p’ra ele já que eram de outra editora. Ele tem 32 anos, ou tinha, eu não sei mais como conjugar os verbos quando o assunto é Diego, era professor de literatura e história da escrita na mesma faculdade, nos conhecemos na faculdade, quando éramos nós os estudantes, sempre muito animado e, ao mesmo tempo, elegantemente calado, só falava quando tinha certeza.

     - Professora... – O aluno me chama num fio de voz. Abaixo meus óculos e olho séria para ele.

     - Doutora Alba – O corrijo.

     - Doutora Alba... – Ele repete educado – A senhora poderia me ajudar? – Muito humilde me perguntando, decido ajudar o rapaz.

     - Venha até minha mesa e puxe uma cadeira – Ele logo se levante desajeitado e leva consigo seu caderno, lápis e apostila.

     Puxa a cadeira em frente à minha mesa e se senta ao meu lado, eu fecho meu notebook e me viro para o seu trabalho.

     - O que temos aqui?... – Ajeito meus óculos folhando e lendo por cima a apostila. Direito Penal...

     - Direito Penal, Doutora – Ele responde por fim – Minha dificuldade está aqui nessa questão onde diz... – ele se aproxima de mim, aponta para o trecho e lê em voz alta – “Mévio, de 20 anos, participando de um jogo de desafio virtual, à meia noite da sexta-feira, do dia 13 de março de 2015, invadiu o cemitério e, após violar o túmulo no qual, pela manhã, o corpo de uma mulher de 50 anos havia sido sepultado, manteve com o cadáver conjunção carnal e coito anal...”

     Enfim, leu-se todo o relato, um homem desafiando outro a transar com um cadáver, o rapaz não havia entendido a pergunta.

     - Deixa eu ver se entendi – Tirei meus óculos e olhei para ele – Você não soube interpretar a questão, seu problema foi leitura, não a matéria em si... – Afirmei mais do que perguntei, Diego saberia como ajudar o rapaz a entender, eu era apenas a professora de direito penal e história romana.

     - Sim, é que...

     - Note... – O interrompi lendo mais uma vez as afirmativas – “Em vista da condenação, em concurso de agentes, a punição de Mévio e Tício haveria de ser idêntica, em respeito à teoria unitária, adotada pelo Cód...

     - Com licença – Uma voz feminina nos interrompeu, olhei à porta e uma aluna estava olhando sorrindo para nós – Posso falar com você, Hugo? – Seu tom era um tanto malicioso, carregado de maldade, parecia bastante disposta à uma transa no banheiro com o rapaz.

     - É-é – Ele gaguejou mais uma vez e apenas fingi que não estava ali, puxei sua apostila para meu colo e continuei lendo mesmo que sem atenção alguma – E-eu tô... tô vendo aqui algumas questões da apostila – Ele respondeu meio sem graça.

    - Vamos, é rapidinho – Ela insistiu meio miando. Me senti extremamente desrespeitada com ela entrando na minha sala daquele jeito  e interrompendo o estudo, não ia ao encontro dos meus princípios, mas decidi intervir.

     - Depois que terminarmos nosso estudo, ele poderá falar com você, China – Respondi de forma fria, mas sem sair do educado – Se ele sair, iremos perder o fio da meada.

     - Mas é rapidinho, sora.

     - Primeiramente, Doutora ou Professora – Fui ríspida – É urgente?

     - Não – Ela responde em deboche – tanto faz.

     Saiu da sala revirando os olhos e a porta se fechou automaticamente.

     - Que garota mais esnobe – Comentei irritada e o rapaz se encolheu na cadeira.

     - É... – Ele gagueja mais um vez.

     - Você faz que curso, rapaz? – perguntei irritada, ele não tinha resposta, parecia sempre se acovardar, não tinha uma resposta firme e aquilo me irritava.

     - Direito.

     - Direito? – Falei em deboche tirando meus óculos – E pretendes fazer o que depois que se formar?

     - E-eu ainda não sei – Gagueja novamente – Que-quer dizer, e-eu sei. Mas sei lá.

     Observava-o de braços cruzados lendo seu corpo mirrado e encolhido na cadeira, parecia uma criança com medo de apanhar, isso não era postura de um estudante de formas tão morais como o Direito.

     Ele me olhava de canto e desviava o olhar, eu esperava alguma reação dele, mas ele se mantinha calado o tempo inteiro.

     - E então? Não vai revidar? – O desafiava, não queria um desrespeito, queria uma reação.

     - O-o quê? – Ele coça a cabeça loira e respira descompassado.

     - Você é um idiota – Digo por fim esperando a reação que não veio. Ele ficou calado, cabeça baixa e com as mãos no meio das pernas – Você me ouviu, Hugo? Eu te ofendi, reaja.

     - M-mas.

     - Não gagueja.

     - Eu não gaguejei, só fi-fiquei sem o qu- 

     - Não gagueja!

     - Dout-

     - Reaja, imbecil.

     - Co-com-

     - SEU IDIOTA! – Gritei.

     - PARA!

     Uma ordem bastante juvenil, mas considerei, pra quem não sabe dizer um “não”, um “para” estava bastante bom.

     - “Para” é sua resposta, então – Coloquei meus óculos e disse convicta – Que seja essa então, use-a.

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     A Esposa de Pastor

    (Capítulo anterior)

     - Por favor, vai o mais rápido que puder, okay? – peço para o motorista que apenas assente com a cabeça. Disco o número para Ricardo, sei que não é bom deixa-lo nervoso, mas nosso filho estava estranho e não estava onde deveria.

     - Ricardo, nosso filho não foi com Camilo à igreja.

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     - Ricardo.

     - Allegra, que que houve? – seu tom de voz já era preocupado, afinal eu não escondia nada meu nervosismo.

     - O Vítor não está com Camilo – comecei a chorar e isso só me deixou ainda mais nervosa – Tenta ligar pra ele, mas não sei o que faço, Ricardo, - comecei a cuspir as palavras - não sei onde ele está, não sei como e com quem está, e se ele está escondendo algo é por q- 

     - Meu amor – Ele me interrompe do outro lado da linha – Calma, ele pode estar atarefado, nós iremos encontrá-lo. Fica tranquila – Sua voz calma e suas hipóteses me passaram mais tranquilidade, ele poderia estar com os amigos em outra igreja ou coisa assim.

     - Eu tô indo pra igreja procurar por ele.

     - Isso, faça isso, ele deve estar lá – Ricardo dizia tudo com convicção – E me liga dizendo que o achou.

     - Okay, tchau – Evitei falar mais.

     - Tchau, eu te amo.

     - Pode parar aqui nessa placa – Pedi ao Uber. Saí do carro aos trancos e barrancos e entrei na igreja sem cumprimentar ninguém, isso gerou alguns cochichos.

     Fui até à sala dos jovens, olhei de fileira em fileira recebendo os sorrisos da gurizada ali, mas meu filho não estava nos bancos da direita. Fui até o outro lado e qual não foi o meu alívio em vê-lo com a camisa xadrez que eu havia dado para ele no Natal passado.

     - Meu Deus, Vítor – Toquei em seu ombro o fazendo virar – Onde você t-

     Olhos azuis, sardas no rosto, totalmente diferente do meu filho, eu podia jurar que era ele, mas eu havia me enganado.

     - Me-me desculpa – Falei sem jeito e ainda mais nervosa – Você viu meu filho? Eu não o acho.

     - O Vítor? – o rapaz pergunta esticando o pescoço dando mais uma olhada ali – não o vi não. Allegra.

     - Obrigada – Mal falei me apressando pelos corredores, dessa vez comecei a perguntar de pessoa em pessoa, tentava ligar para seu celular, mas só caía na caixa postal, ligava para os seus amigos da igreja, da escola, do futebol, não tinha o número de todos, mas os que eu tinha eu ligava. Alguns não atendiam, e os que atendiam diziam o mesmo: não, ele não está aqui.

     Entrei no banheiro masculino e o chamei, bati nas portas e nada. Saí para as salas das crianças e nada de Vítor. Quando eu não tinha mais para onde ir, corri pelo corredor chorando em busca do meu filho, mas tudo o que houve foi eu me sentar no degrau da escada e chorar abundantemente. Por sorte eu tinha privacidade ali. Uma dor de não saber o que fazer me invadiu, ele estava fazendo algo, talvez, ilícito, errado, tanto faz, algo que não podíamos saber e isso não era típico dele.

     - Allegra? – a voz de Ricardo soou no salão principal – Allegra – ele correu até mim e se prostrou ao chão comigo.

     Ele nada disse, sabia que eu não havia o encontrado, me abraçou e beijou o topo da minha cabeça, seu perfume incendiou meu rosto, mas eu não reparava nisso no momento.

     - Eu não o achei – Falava aos prantos com as mãos no rosto – Não sei onde nosso filho está, Ricardo, temos que chamar a polícia.

     - Shhhhh – Ele me balançava – O Camilo também não conseguiu falar com ele – Aquilo só me abalou mais – Ele disse que vai pro distrito do outro bairro ver se ele está na outra igreja.

     - Melhor chamarmos a polícia, Ricardo – afastei minhas mãos do rosto e olhei em súplica para ele – Temos que ir na delegacia e procurar nosso filho, ele pode estar fazendo alguma besteira.

     - Pega um Uber e faça isso.

     Meu desespero ainda ficou, mas a raiva tomou conta e, aos poucos, parei de soluçar. Não sei qual foi minha expressão facial para Ricardo, mas ele me olhou assustado e eu me levantei em um empurrão.

     - Você tá me pedindo pra eu ir SOZINHA na delegacia pra procurar pelo NOSSO filho? – acentuei olhando com ódio em seus olhos – Olha o que você tá me falando, Ricardo, nosso filho tá desaparecido e você não vai procurar por ele!

     - Eu tenho que pregar, Allegra – Ele falou baixinho como se fosse um segredo.

     Pregar, ele iria pregar e, por causa disso, não poderia ir atrás de Vítor. Hipócrita.

     - Hipócrita – Cuspi com ódio – Cuida dos filhos dos outros mas não cuida do seu próprio filho! Vai se ferrar, Ricardo.

     - Allegra – Ele fala ríspido – Não baixa teu nível.

     - Que nível o quê, Ricardo, vou fazer meu papel como mãe, como adulta e responsável, e você, hein, vai abrir a Bíblia enquanto seu filho tá NÃO SEI AONDE?

     - Fala baixo, por favor.

     - Que falar baixo o quê – começo a gritar e alguns diáconos já se aproximavam surpresos com a cena – se algo grave acontecer com o meu filho, Ricardo, eu nunca, NUNCA, vou te perdoar.

     Saí em disparada pelo corredor ignorando suas súplicas pra que eu voltasse. Pedi para a mãe de Camilo que estava no estacionamento para que fôssemos juntas atrás dele.

     - Ele realmente não vem? – Ela me perguntou incrédula depois de eu contar da discussão com meu marido.

     - Não – Respondi fria colocando o cinto.

     - Como fica a relação de vocês?

     Eu estava preocupada com meu filho, Ricardo era outro assunto. Mas admito que a pergunta dela me fez questionar sobre as últimas atitudes de Ricardo.

     - Não sei – digo simplesmente – vamos pra delegacia.

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     A Voluntária

     (Capítulo anterior)

     - Nos pega do outro lado do vilarejo, Allegra vai ficar com vocês, não a deixe voltar pra cá.

     - Mas há muitas pessoas nesse lugar, Rodrigo.

     - Você já salvou muitas, agora é minha vez de salvar você.

     Ele correu com o homem em seus braços e vou atrás dele.

     - Leva ela.

     - Rodrigo – seguro em seu braço – se você não voltar vivo eu te mato.

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     Eu tinha algumas lesões nas minhas costas. Minha camisa preta estava manchada do meu próprio sangue e um joelho estava ralado. Sentei na ponta da caminhoneta vendo a paisagem destruída se diminuindo até desaparecer.

     - Oi – Um garotinho se aproxima de mim, ele era um dos poucos que falava português, porém o sotaque era de Portugal.

     - Olá, como você se chama?

     - Zaki.

     - Prazer, Zaki – Disse sorrindo passando a mão em sua cabeça careca – Eu me chamo Allegra.

     - Allegra – Ele repetiu meu nome como se testando a pronúncia.

     - Isso – Afirmo rindo de seu jeito infantil – O que significa Zaki?

     Ele coloca o dedo na boca e olha para o horizonte.

     - Eu não sei o que significa Zaki.

     - Não sabe? – Lamento em tom infantil – temos que descobrir, todo nome bonito tem um significado.

     - E qual o significado de Allegra?

     - Alegre, contente, feliz – Respondo simplesmente verificando que já estávamos na nossa vila de atendimento.

     - Qual tua idade?

     - Tenho 32 – Mostrei com os dedos – e você?

     - Tenho – E me mostrou quatro dedos.

     - Você é bem grande, hein.

     - Allegra, chegamos – Lorenzo me avisa estacionando o carro em frente à vila – vamos levá-los para dentro.

     - Eu levo os aidéticos – Peguei um casal e uma criança, um de cada vez, claro, e os levei para dentro. Era um alojamento enorme, existiam macas e macas cobrindo todo o enorme salão de atendimentos médicos.

     - Doctor Juan will take care of you – Disse sorrindo para a mulher que, apesar do semblante abatido de dor, sorriu – Aidéticos – Olho para Juan que assente com a cabeça.

     Juan era o único mexicano que tinha no nosso grupo da ONG, era muito gentil e sempre disponível.

     Ando pelo salão observando os pacientes e, apesar de estarem doentes ou machucados, me deixava feliz saber que eles estavam ali seguros.

     - Allegra – Olho para trás aliviada e corro para Rodrigo.

     - Rodrigo, graças a Deus – Me abracei forte em seu corpo até que me assusto e me afasto o empurrando longe – Me desculpa.

     - Você sabe que eu não me importo.

     - Mas eu me importo – digo meio nervosa checando suas mãos.

     - Eu te amo, Allegra, você sabe disso – Ele sempre me dizia isso quando o assunto era sobre minha condição de saúde.

     - Rodrigo, por fav-

     - Não, Allegra – Ele me interrompe se aproximando – A gente se conhece há tanto tempo, eu amo você de uma forma inexplicável e sei que é recíproco – não neguei, eu o amava sim, o amava ao ponto de me afastar dele se fosse necessário – e eu já disse que não me importo por você ter HIV.

     - Já conversamos sobre isso – Digo grossa dando meia volta e saindo pelo corredor. Tirei minha camisa ali mesmo, tínhamos essa intimidade, todos nós do grupo, e eu estava de sutiã de qualquer forma.

     Peguei meu isqueiro do bolso e fui até o pátio dos fundos. Iria tomar um banho mais tarde, mas, antes, teria que queimar aquela camisa – mais uma que se ia em fumaça. 

     - Você não precisa fazer tudo isso, Allegra – Rodrigo intervém falando atrás de mim – Você não é um monstro e AIDS não se passa assim no mais.

     - Eu sei, mas me sinto segura.

     - Eu gostaria de ser o motivo da sua segurança.

     Ignorei, coloquei minha camisa no latão e acendi o isqueiro. A fumaça logo subia e fui até um canto pegar um balde. Rodrigo me seguia sem falar nada, contudo eu sentia seu olhar em meu corpo, não de forma sexual, tenho certeza que ele me admirava, ele era respeitoso demais pra outra intenção.

     Onde vivíamos não tinha muita deficiência de água, as pessoas da América não entendiam isso, não sofríamos com a falta dela e, pelo contrário, usávamos sem pudor. 

     Fui até um lago que existia ali pra pegar água, teria que apagar o fogo no latão.

     - Você tá muito machucada, Allegra.

     - Eu sei, vou tomar um banho.

     - Vou te fazer curativos.

     - Não precisa. Juan vai fazer pra mim.

     - Por que ele pode te tocar e eu não posso? – Sua pergunta soou um tanto grosseiro e me viro para o olhar.

     - Porque ele é médico e não o cara que é doentiamente obsessivo por mim e pode fazer qualquer merda pra ficar comigo.

     - Não sou doentiamente obsessivo por você, Allegra, eu jamais faria algo que você não quisesse apenas pra ter a mesma coisa em comum que você pra que, enfim, possamos ter alguma coisa – Ele baixou a cabeça olhando para o chão, seu corpo perdeu o perfil firme, seus ombros caíram e seus braços se cruzaram. Eu pude sentir dor no que ele dizia, isso me consumia, mas eu não faria nada quanto a isso – Somos melhores amigos, meu Deus – Ele lamentou levando a mão no rosto – Eu só queria que cumpríssemos tudo o que planejamos há mais de 20 anos atrás quando tínhamos apenas 12 anos de idade correndo pelos corredores da igreja, você parece que não lembra disso.

     - Óbvio que eu lembro, Rodrigo, não tenho amnésia, tenho AIDS.

     - Foda-se essa merda, você deveria entender que eu não me importo com essa porra.

     - Foda-se o caralho, Rodrigo – Me irritei ao ponto de jogar meu isqueiro no chão de areia brita – Porra, você diz que eu não entendo, mas que não entende aqui é você – apontei pra ele é meus olhos já se enchiam de lágrimas – Você não pensa em como isso é complicado pra mim? Eu te amo, Rodrigo, somos amigos desde que estávamos na barriga de nossas mães, já andávamos de mãos dadas pela igreja na juventude e sempre tivemos certeza disso, do que sentimos pelo outro e do que queríamos para o nosso futuro juntos, mas as coisas deram errado e eu não tenho mais controle disso. Como você se sentiria se tivesse uma doença que qualquer gripe quase mata e tivesse a mulher que mais ama nessa vida te querendo assim como você a quer, mas ao mesmo tempo teme que o que você sofre possa levá-la à morte e tirá-la de você? Me diz, Rodrigo, é justo? – eu chorava vomitando cada palavra, eram coisas que eu nunca havia dito, meu rosto pegava fogo e minhas lágrimas molhavam meu colo, elas escorriam pelos meus seios e eu começava a soluçar – não é justo, Rodrigo, a gente fica se perguntando onde está Deus nisso tudo, mas é isso, agora eu quem vou tomar a responsabilidade e eu espero que você não me incomode mais com esse assunto. Se preciso for, eu serei voluntária em outro país longe de você, você tem que seguir em frente, até porque me atrapalha você parado aí.

     Ele chorava em silêncio me olhando com dor, estava com o rosto todo vermelho e suas lágrimas escorriam com ferocidade pela sua extrema rala barba. Sequei minhas lágrimas com agressividade e um silêncio pairou entre nós. Aquilo me incomodava e me virei pra jogar o balde de água no latão. A fumaça se acalmava aos poucos e me apoiei na beira quente do metal, aspirava com nojo aquela mistura de lã, fogo e sangue. Na realidade não se sentia cheiro de sangue, mas minha cabeça inventava paranóias dramáticas.

     - Eu jamais irei desistir – Ele disse por fim – podemos casar e viver no celibato se você quiser.

     Ri de costas, Rodrigo não poderia ser mais imbecil quando tava desesperado e fora de si.

     - Você tá rindo, mas eu tô falando muito sério.

     - Não vou comentar nada. Vou tomar um banho.

     Pego me isqueiro do chão e passo de ombro a ombro por Rodrigo. Ele se mantém parado no mesmo lugar e minha vontade de chorar novamente só iria ser suprida no banho, eu não estava disposta a demonstrar afeto a ele, seria ainda mais difícil para nós.



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