História Asfixia - Capítulo 1


Escrita por:

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Categorias South Park
Personagens Clyde Donovan, Craig Tucker, Kenny McCormick, Stan Marsh, Tweek Tweak
Tags Craig Tucker, Creek, Tweek Tweak
Visualizações 459
Palavras 4.413
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Bishounen, Drama (Tragédia), Ficção Adolescente, Lemon, LGBT, Romance e Novela, Shonen-Ai, Slash, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Drogas, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Essa fanfic não foi betada (Erros ortográficos corrigidos).
Eu sempreeee quis escrever uma fanfic Creek que trabalhasse com os sintomas do TDAH de forma realista (E já li horrores sobre esse e sobre o uso da metanfetamina em pacientes de TDAH, pois para quem não sabe, os pais do Tweek adicionam metanfetamina no café deles), mas sempre adiei porque o meu coração estava em kyman e eu sentia que essa discussão seria muito densa.
Depois de muito enrolar, roteirize as ideias da fanfic e estou publicando o primeiro capítulo aqui! Não sei se alguém lerá, mas espero que gostem~

Capítulo 1 - Espaço seguro


Era para ser mais um almoço comum na escola secundária de South Park, comendo o lanche da escola e conversando com os colegas sobre as aulas que viriam a seguir. Por essa razão, Tweek não teve problemas em pegar um pedaço de pizza e seguir pelo refeitório com a sua bandeja, rumo a mesa habitual, sentando-se no seu lugar e sorrindo para os colegas.

 

Foi em algum momento, entre abrir sua garrafa térmica de café e puxar um pouco a sua camisa social verde, que ele notou que algo estava diferente ali. Primeiro olhou para David Rodrigues, sentado ao seu lado, mas o rapaz apenas colocou o braço entre os dois e apoiou a mão na cabeça, desviando o olhar para longe. Logo depois seu olhar foi para os colegas a frente, vendo uma reação em cadeia acontecer, começando com a Lola passar a mexer em seu celular em silêncio e Gary Harrison sussurrar para Davin Miller, falando tão baixo que sequer podia ouvi-los.

 

Mesmo que não fosse a pessoa mais experiente do mundo em relações sociais, o louro soube que havia algo bem errado com seus amigos e essa situação provavelmente era sua culpa. Discretamente olhou para a sua blusa e puxou a gola para junto do nariz, verificando se carregava algum aroma desagradável que justificasse o comportamento desses. Cheirava a café e material de limpeza, como sempre - afinal, sua rotina o forçava a limpar a cafeteria antes de ir para a escola -, o que estava acontecendo então?

 

- Hoje a aula de literatura foi realmente chata, não é? - Perguntou aos colegas, esperando conseguir quebrar o clima pesado que resistia entre esses.

 

De resposta não recebera um único olhar sequer dos demais, apenas um indiferença tão asfixiante que destruíra até as iniciativas de comunicação via sussurros de Gary e Davin. Não entendia o que estava acontecendo, até ontem todos conversaram consigo como se tudo estivesse certo, o que mudou? Esqueceu de ajudá-los em algum trabalho em grupo? Disse alguma coisa que os ofendeu? Mas como? Depois das aulas Tweek passou o resto do dia todo na cafeteria, não via como algo que fizera nesse intervalo de tempo poderia fazer com que seus amigos começassem a excluí-lo do grupo.

 

As mãos do Tweek involuntariamente começaram a tremer sem que nem se desse conta, quase derrubando a sua garrafa térmica ao tentar dar um gole nessa. O som das conversas dos outros alunos nas demais mesas passaram a crescer em sua cabeça, virando um estrondo ensurdecedor, martelando em seus ouvidos de novo e de novo. Não entendia, por mais que tentasse repassar todos os momentos do dia anterior em sua mente, a resposta simplesmente não vinha. E quanto mais o silêncio em sua mesa persistia, mais claro ficava que um dos seus poucos lugares de segurança estavam sendo roubados de suas mãos sem nenhuma explicação.  Mas podia ser pior, não? Ao menos não estava sendo forçado a almoçar no banheiro como os excluídos. Então, talvez, esse desconforto fosse apenas temporário - queria acreditar que seria temporário!

 

Ao tentar comer a sua pizza, sua mão tremeu, quase derrubando a faca ao tentar cortar parte da fatia, segurando-a antes que ela escapasse para fora da mesa. Suas mãos, acidentalmente, fecharam-se contra a lâmina serrada, apertando-a por reflexo. A dor, momentânea, no lugar de elevar seu desespero, teve efeito contrário, quase que tranquilizante, puxando-o para uma realidade segura, distante de sua paranoia. Usando um pouco mais de força na mão na tentativa de intensificar esse alívio momentâneo, sentiu um rasgo ser feito em seus dedos, aumentando a ferida.

 

Ao contrário da sua presença, seu gesto não passou despercebido aos demais na mesa, sendo David o primeiro a reagir, segurando a mão de Tweek para forçá-lo a soltar a faca, enquanto Gary esticou-se para entregar-lhe um dos seus lenços bordados, usando-o para estancar o pequeno corte que agora insistia em sangrar.

 

- Tweek. Tweek! - Lola estalou os dedos na frente do garoto, querendo despertá-lo desse surto momentâneo e capturar-lhe a atenção.

 

Não era a primeira vez que viam-no tão disperso, mas vê-lo ferir-se no processo havia sido uma desagradável novidade. Por mais que tivessem suas razões para ignorarem o louro, de forma alguma desejavam vê-lo perdendo o controle, ainda mais por conhecerem o quão impulsivo e frágil ele ficava em meio as suas crises.

 

Quando a atenção do garoto foi cativada pela menina, pode sentir David pressionando o lenço contra o corte, percebendo a sua tremedeira estava forte ao ponto de chamar a atenção dos demais mesas próximas no refeitório. Estava agindo como um esquisito de novo, tinha completa noção disso, mas todos os seus gestos quando em surto eram involuntários, não conseguindo controlar-se nessas situações, era como se suas reações fossem geradas sem o consentimento de seu cérebro.

 

- Por que vocês estão me ignorando? - Perguntou logo, deixando o amigo cuidar de sua ferida. - Gaaah!! - Urrou, levando a mão livre aos cabelos, buscando puxá-los para se punir pela culpa de algo que sequer sabia ter feito.

 

- Tweek - Lola insistiu em chamá-lo, mordendo os lábios inferiores e voltando a atenção ao Gary, esperando que o mórmon pudesse socorrê-la nessa situação.

 

- Não é sua culpa, Tweek - adiantou o louro, desistindo de vez do método de serem indiferentes com o amigo. Não daria certo, Tweek não era do tipo que entendia sinais sutis, era melhor expressarem claramente o descontentamento coletivo. - Nós conversamos e apenas achamos que não é legal sairmos juntos.

 

- Por quê? O que foi que eu fiz? - Perguntou apressado, quase que em desespero, deixando seus olhos azuis esverdeados andarem por cada um dos integrantes do grupo. Se havia errado, poderia corrigir-se, compensá-los, mas enquanto eles não o explicassem o que estava acontecendo, ainda não tinha uma bola de cristal para adivinhar o que os fizeram mudar.

 

- Não foi você - reforçou Davin, passando as mãos nos cabelos ruivos, visivelmente desconsertado com a situação. Gary já havia dito que não era ele, não tinha porque ele insistir nisso.

 

- O seu namorado, Craig Tucker, colocou cocô no armário do David - disse Gary de uma vez, achando bom que o próprio Tweek julgasse a gravidade do gesto. Apesar do grupo ter, em comum acordo, decidi não falar mais a respeito, seria mais fácil para o outro entender se ele soubesse.

 

- O QUE? 

 

Tweek, mesmo questionando, apenas precisou virar-se e olhar para o garoto latino que o socorria para compreender a seriedade do problema. Craig havia realmente colocado cocô no armário do David? Mas isso não fazia sentido algum, eles dois nunca haviam discutido de nenhuma forma para que o moreno agisse desse jeito, menos ainda sabia de qualquer rixa que motivasse-o a ter um gesto tão infantil.

 

- Você ouviu, Tweek - Gary disse, dando um suspiro longo antes de beber um gole do seu suco de maçã, tentando acalmar os ânimos do grupo. - Nós gostamos de você, mas toda vez que você sai com aquele cara, você está automaticamente sendo conivente com essas atitudes imbecis dele e dos amigos dele.. Talvez você se dê melhor andando eles.

 

- Vocês só podem estar brincando! - A voz do Tweek saiu alta e um tanto alterada, puxando a mão para afastá-la do David, não vendo necessidade de continuar sendo ajudado por esse, que mesmo se dizendo ser seu amigo, vinha acusando o seu namorado sem nenhum fundamento. - O Craig não faria algo tão estúpido assim! Eu não entendo! Gáah! - Deu um espasmo, abraçando-se por um instante com força, tendo o lenço do Gary ainda protegendo a sua ferida.

 

Todos eles conheciam bem o moreno, eram amigos desde a terceira série - até a Lola, na terceira série, havia namorado com o seu Craig por duas semanas. Então o que havia mudado para que, do nada, por ser namorado do Craig Tucker, deixou de ser bom o bastante para ser amigos deles? 

 

Não era como se o namoro fosse recente, estavam juntos há seis anos! Namoravam desde a quarta série primária! E só agora eles vinham reclamar? Sem em todos esses anos demonstrarem o mínimo de descontentamento por ser gay e estar junto dele? Além de virem com essa acusação besta! Se onde eles tiraram que o seu namorado havia feito tal coisa? Estavam no colegial, teria de ser muito infantil para tacar cocô no armário de alguém sem um motivo plausível. Nem Eric Cartman seria capaz de um gesto tão babaca.

 

- Foi ontem, depois das aulas. Ele admitiu, Tweek. Terá até de ficar na detenção essa semana - disse David, claramente desconfortável em falar sobre.

 

Tweek devia entender, não havia sido nada fácil abrir o armário para buscar seu material e encontrar um monte de merda espalhada por tudo, sujando seus pertences. No momento inicial ficou horrorizado, mas depois com raiva e ao final envergonhado. Ir para a sala da direção comunicar o que aconteceu, tendo os seus pais chamados, foi a pior parte. Eles tiveram de fechar o restaurante fora do horário para ir ajudá-lo, preocupados que o seu filho estivesse sendo alvo de algum tipo de bullying. Sendo o outro garoto filho de comerciantes também, devia entender o quão incomodo um problema desses conseguia ser.

 

- O que? Mas-

 

Qualquer capacidade de contra-argumentar naquele momento desapareceu ao olhar cada um dos rostos dos seus amigos. Eles estavam certos em não querê-lo ali, certos em achar que o Craig e os amigos dele eram um bando de retardados incorrigíveis. Gary foi tratado como um esquisitão pelo Stan, apenas porque ele era mórmon - e não podiam dizer que o Gary não tentou ser legal, pois até convidou o Stan para jantar na casa dele. Davin foi espancado e intimidado pelo Craig, Clyde, Jimmy e Token, simplesmente por ser ruivo e sardento, sem maiores explicações. Lola, que fora esperta em não cultivar uma relação com o frio e indiferente Tucker na infância, quase prevendo o desinteresse dele em garotas, sofreu nas mãos do Clyde depois, quando trabalhou por uma curta temporada no Raisin's e esse passou a tratá-la como se ela fosse uma puta atrás de grana. E o David? Bem, o Cartman podia ser cuzão com todos, isso já era esperado, mas o Kyle havia chamado-o de mexicano só porque ele era latino, e agora, anos depois, o Craig havia colocado bosta no armário dele.

 

Os olhos do Tweek se voltaram a sua bandeja, compreendendo bem a situação que se encontrava. Às vezes sentava-se na mesa do Craig, conversava com os amigos dele, saia com eles como se fosse membro daquele grupo. Estar junto deles, agindo como se tudo estivesse bem e fora daquele grupo eles não fossem verdadeiros otários, era algo que apenas um cuzão faria. Não podia ser um cuzão.

 

- Vocês querem que eu saia? - Perguntou, mas bastou ver os demais desviando o olhar para ter essa confirmação.

 

Suas mãos ainda tremiam, porém tentou não ser atrapalhado por essas, fechando a sua garrafa térmica o mais rápido que conseguia e levantando-se do banco, levando junto a sua bandeja. Um dos seus olhos piscava constantemente, em um tique nervoso involuntário. Seus passos inicialmente guiaram-no para a mesa dos alunos populares, vendo Craig, a distância, conversando animadamente com Cartman, roubando-lhe toda a segurança que tinha naquele momento. O que faria? Sentaria ali e fingiria que estava tudo bem? Mas não estava tudo bem, sequer se sentia bem.

 

Foi quando, virando-se bruscamente, seguiu para fora do refeitório, dirigindo-se ao banheiro mais próximo. Não era algo que o Tweek planejava fazer sempre, sabia o quão patéticos eram os alunos que o faziam, só que a sua determinação havia o abandonado no instante que seus amigos lhe viraram as costas. Entrou logo em um dos reservados, sentando-se com a bandeja no colo, voltando o olhar para o lenço sujo de sangue amarrado em sua mão, sendo esse o único item que existia para marcar o fim de todas as suas amizades.

 

- GAHH! - Socou, com a mão machucada, a divisória do banheiro, sem se importar se isso iria ou não agravar o ferimento.

 

- Dia difícil? - Perguntou uma voz vinda da divisória do lado. Claro que o Tweek não era o único garoto excluído que estava lanchando no banheiro, sempre haveriam outros excluídos para atormentá-lo.

 

- Cala a boca, Scott!! - Berrou Tweek, querendo silenciá-lo. Não era porque o seu dia estava difícil que havia se tornado um nerd idiota como ele.

 

Antes que o restante de sanidade que tinha viesse a abandoná-lo e as suas paranoias forçassem-no a invadir o reservado ao lado, dando uma boa surra no garoto diabético, puxou apressado o lenço do Gary, observando o bordado cuidadoso feito com as iniciais desse, algo comum em seu lar tão atencioso. Os lábios do louro logo se abriram, tomando fôlego para um novo grito, mas no lugar desse, levou a mão até eles, mordendo-a com força.

 

O sabor de ferrugem tomou toda a sua boca conforme o líquido vermelho inundava essa, percorrendo a sua língua como se fosse um patético aspirante a vampiro. Não era o gosto, entretanto, que estava buscando, sentindo uma imensa tranquilidade com a fisgada e ardência que a dor do ferimento o proporcionava.

 

A euforia momentânea destruiu por completo completo as suas hesitações, medos e desconfortos. Estava tudo bem, estava tudo sob controle. Suas mãos foram dissipando o tremor pouco à pouco, permitindo voltar a ser capaz das tarefas mais simples, como abrir a sua garrafa térmica de café e tomar um grande gole do conteúdo dessa, usando o amargor da bebida para mascarar os resquícios de seu lampejo de insanidade que ainda dominavam sua boca.

 

Todas as demais atividades passaram a ser feitas de forma cautelosa, completamente orquestradas. Primeiro finalizando o seu almoço, depois devolvendo a bandeja e seguindo rumo a enfermaria. Com sua cabeça no lugar, já sabia o que fazer. Tinha certeza que se encontrasse com o Craig, se pedisse-o para se desculpar com o David, seus amigos iriam aceitá-lo no grupo novamente.

 

X

 

Ao fim das aulas, Tweek estava parado como uma figura de cera, imóvel, rente ao armário de Craig Tucker. Apesar da expressão nada amigável estampada no rosto do rapaz, ninguém realmente se importara ao vê-lo ali, sendo recorrente usarem aquele ponto de encontro para conversarem.

 

Às vezes era difícil para o louro distinguir quem era a pessoa com quem vinha saindo nesses últimos seis anos. De começo, quando conhecera o outro rapaz, achara-o um verdadeiro idiota, que estava sempre liderando o bullying contra os mais fracos e expondo o dedo do meio para todos como se esse fosse um simples cumprimento. Foi aí que cometeu o seu maior erro, que fora aceitar um falso desafio e brigar com ele na frente de todos, sendo manipulado por Stan e seus amigos. O que ainda estava incerto em sua mente, entretanto, era se as consequências desse erro haviam ou não sido desagradáveis.

 

Apesar de saber ser um garoto amedrontado a maior parte do tempo, seu diagnóstico de TDAH (transtorno de deficit de atenção e hiperatividade )acabava tornando-se a sua arma contra os babacas. Sua inconstância e tremores deixavam de ter graça quando o seu diagnóstico secundário, TOD (transtorno opositivo desafiador), tomava o controle. Eram em momentos assim que perdia a noção e a sua fala era substituída por berros, seus punhos se fechavam em uma constante de fúria e procurava ferir tudo e todos que o traziam qualquer desconforto. E sem sua sanidade e equilíbrio, não era mais apenas o garoto amedrontado, era o garoto que amedrontava, um perigo para os que o provocavam.

 

E o Craig não era muito diferente, toda aquela máscara de indiferença e liderança, aquela aura sadista, também ocultavam alguns segredos que podiam mudar por completo a sua personalidade. E talvez, por nenhum dos dois se encaixar direito nesse papel de vítima, que fora tão fácil confiarem um no outro, não havendo razões para temerem deixar suas defesas caírem.

 

XX

 

Tweek ainda lembrava daquela noite, no quarto dia de internação no hospital Passo para o Inferno. Não fazia ideia de quem tivera a grandiosa ideia de colocar os dois briguentos no mesmo quarto, mas naquela noite estavam ambos ali, em leitos lado à lado. A sensação de estar naquele quarto parcialmente iluminado, com algumas dores causadas pela luta que tiveram anteriormente na escola, ainda viviam dentro dele, junto com a flagrância suave de lavanda exalada pelo perfume do Tucker, mesclando com o seu aroma de café e canela.

 

Enquanto o moreno tentava dormir, Tweek estava, inutilmente, tentando abrir um pacote plástico com algumas balas de gelatina sem açúcar, que ganhara mais cedo de uma das enfermeiras graças ao seu bom comportamento. Ao contrário das embalagens convencionais, essa parecia ter sido lacrada com intuito de frustrar crianças, pois quanto mais tentava, menor pareciam suas chances de deslacrá-la. Sua frustração apenas aumentava o som dos estalos do plástico, incomodando ainda mais o seu acompanhante, que nunca fora um garoto de muita paciência.

 

- Isso é irritante. Você não consegue só rasgar essa merda? - Perguntou Craig, sentindo-se forçado a sair de sua cama e se dirigir ao colega ao lado, para solucionar essa questão.

 

Foi com um puxão brusco que ele arrancou das mãos do Tweek a embalagem, tentando fazer por esse o que ele não conseguia. Diferente daquele bundão alienado, estava tentando dormir, e se ele persistisse  com essa porcaria de barulheira por culpa daqueles cubinhos de gelatina, seria obrigá-lo a socá-lo e estender a permanência dos dois no hospital.

 

O dono do doce não pode deixar de achar graça ao ouvir o som do plástico sendo amassado e esticado sem o mínimo de efeito, confrontando com a mesma dificuldade que estava tendo um pouco antes. O que ele achava? Que não tinha força para abrir um pacotinho plástico convencional? O olho roxo que ele carregava dizia exatamente o contrário. Se não havia o feito até então era por estar anormalmente difícil.

 

- Vai lá, fortão. Mostra o que sabe fazer - disse Tweek, provocando-o com a mesma hostilidade que recebia desse.

 

Antes de desistir e socar aquelas balas, ainda dentro da embalagem, contra a boca do louro, Craig decidiu apelar, usando os dentes e efetuar um rasgo no pacote, devolvendo-o aberto para o Tweek com um ar de vitória. Diferente do desmiolado, sabia usar a cabeça para pensar. Não esperou nenhum agradecimento vindo daquele cuzão, mostrando-lhe o dedo do meio antes de voltar para o próprio leito, esperando conseguir finalmente um pouco de sossego.

 

- Obrigado - falou, pegando um dos cubos coloridos e levando-o a boca, mastigando-o lentamente. Pouco depois esticou o braço, oferecendo ao companheiro de quarto alguns dos seus doces, sendo o mínimo que poderia fazer por esse. Por pior que ele fosse, ele ao menos conseguira abrir aquele maldito plástico.

 

- Uhn.. - Craig negou, encarando esses de forma nada amigável. - Isso nem gosto tem.

 

- É, não tem.. - Concordou, pegando mais um dos cubos e levando a boca. 

 

Não era nem preciso provar para saber que aquele doce teria tudo, exceto sabor, mas já eram onze da noite, as luzes do quarto estavam fracas, quase que totalmente desligadas, e raras eram as vezes que via algum enfermeiro passar. A janta que trouxeram mais cedo nem de longe foi o bastante para o saciar, por isso apenas comia-os sem objeção. Se estivesse em sua casa, nesse horário as lâmpadas ainda estariam todas acesas e teria café e cupcakes a sua disposição na cozinha. Para a sua infelicidade, porém, tudo o que tinham era esse pacote de balinhas e a desconfortável sensação de estar passando mais uma noite longe de seu lar.

 

O garoto Tucker não era do tipo que se importava com o que os outros pensavam, sempre se considerou acima dos demais para sequer cogitar olhá-los com igualdade, por essa razão não compreendeu direito o que sentiu enquanto assistiu o colega de classe comendo melancolicamente aqueles docinhos sem açúcar. Os olhos azuis claros, fixos no pacote que segurava, pareciam entorpecidos, desprovidos de qualquer energia. Os fios louros, completamente desordenados, emolduravam o rosto como um arranjo de dobrões dourados. E por fim, os lábios, úmidos e rosados, moviam-se suavemente enquanto esse mastigava, em uma constante, até essa ser interrompida com uma nova bala sendo levada até eles, tendo um contato direto com esses, podendo contemplar a distância a pressão que o doce exerceu sobre esses, dando-lhe a sensação de que esses eram completamente macios e suaves, do tipo que ficariam roxos se fossem beijados com força.

 

Os batimentos cardíacos de Craig se intensificaram, nem precisando olhar para qualquer monitor ligado a sua cama para saber disso. Podia sentir o órgão pulsando dentro de suas costelas, inflando e sendo espremido pelos seus ossos, diminuindo a capacidade respiratória de seus pulmões, que também estavam sendo pressionados. Em reflexo, sentiu seu folego falhar, tendo as bochechas tomadas por um vermelho sem precedentes, rompendo sua habitual expressão de imparcialidade. Abaixou a sua cabeça, fugindo de qualquer contato visual com aquela provocante boca, mas contrariando o seu bom senso, algo em sua mente o traia, fazendo-o querer olhar mais e mais para o Tweek.

 

- Por.. por que as suas mãos estão sempre tremendo..? - Perguntou, não conseguindo deixar esse detalhe passar despercebido. Tentando concentrar sua atenção em outra parte do corpo do garoto.

 

Até mesmo na aula de serraria, quando o professor dizia para todos serem cautelosos ou acabariam perdendo seus dedos. Por que Tweek era o único que ignorava esse alerta? Movendo as mãos constantemente, como se ondas de choque percorressem por todo os seus braços até a ponta dos dedos. E o mais incrível era que nem os mais intolerantes dos professores, como o senhor Garrison, pareciam se importar com esse comportamento, dando-lhe a permissão silenciosa de prosseguir dessa forma, eternamente inquieta.

 

- O que? - Questionou-o, elevando o tom de voz acidentalmente, imaginando se ele queria o provocar por culpa dos seus espasmos. Foi até estranho não ver qualquer sinal de provocação ou desdém nos olhos verdes que o fitavam, apenas a genuína e simplória curiosidade infantil, só então compreendendo que ele não estava o julgando, apenas procurando entendê-lo. - É uma coisa que eu tenho. Meus pais também têm. Não consigo ficar parado muito tempo - tentou explicar, encarando as próprias mãos e o efeito que a sua hiperatividade tinha nessas. - É como uma doença, mas não tem cura. Eu só sou assim.

 

- Não consegue ficar parado? - Perguntou, vendo o louro confirmar com a cabeça, não conseguindo deixar de ficar surpreso com essa informação. - E ninguém pode te mandar ficar quieto por causa disso? - Confirmou, entendendo porque, diferente dos outros alunos, ele não era repreendido por culpa dos tremores. - Cara, isso é tão legal! Se eu pudesse me mover do jeito que eu quisesse, sem nenhum professor reclamar, eu seria tão feliz.

 

E por alguns instantes, sem perceber, as mãos do Tweek pararam de se mover, ficando completamente inerte enquanto observava o Craig Tucker dizer alguma coisa boa sobre o seu transtorno. Parecia legal? Era a primeira vez que alguém o dizia algo parecido. Isso sim era impressionante. Deixou um sorriso singelo se desenhar em seus lábios, sendo levado por uma onda de conforto e aceitação súbitas.

 

- Mas você sempre faz, não é? O que você quer.. Você também mostrou o dedo do meio para o senhor Garrison - comentou, sendo já reconhecida por todos da classe a coragem do Tucker. Ele não era o tipo de garoto que deixava as ordens dos adultos o impedirem de fazer o que queria, às vezes falando com esses de igual para igual.

 

- É, mas eu tive de ir para detenção depois - Craig deu os ombros, um tanto desgostoso ao lembrar-se do caso. - Mas foi um caso completamente diferente.. Eu nem sei porque ele ficou tão ofendido com isso.

 

- Eu também fico. Não é legal quando você faz - Tweek admitiu, mesmo sem compreender completamente o significado do gesto. Era ofensivo, não? Como ser xingado de cuzão, ninguém gostava disso.

 

Craig quase que, em reação automática, ergueu o dedo do meio para o menor, querendo mostrar para esse que a opinião dele não o afetava, mas controlou-se. Não sabia que isso o incomodava, devia então parar? Se fosse só com ele, dava para controlar.

 

- Então, com você, eu não faço mais - prometeu, sentindo mais uma vez aquele aperto dentro do seu tórax persistir, puxando um pouco as orelhas de seu chullo para que o chapéu cobrisse um pouco mais a sua cabeça e, talvez, seu rosto corado.

 

- Eu iria gostar - disse o Tweek, apertando um pouco o pacote de balas gelatinosas em mãos, inevitavelmente esmagando alguns dos cubinhos.

 

Precisava reconhecer, Craig Tucker não era um garoto tão ruim assim. Fitou-o a esguelha, admirando o rosado que pintava as bochechas do moreno, vendo uma beleza um tanto atípica naquele gesto. "Não tão ruim" talvez fosse menosprezá-lo, o correto era dizer que Craig Tucker era um garoto muito legal, ao menos, é claro, para Tweek Tweak.

 

XX

 

A presença do namorado sempre foi algo forte para Tweek, por essa razão, por mais compenetrado que estivesse em seus pensamentos, foi resgatado desses assim que esse cruzou o corredor, andando confiante com uma expressão de indiferença no olhar, como se nada pudesse afetá-lo. O chullo azul ainda permanecia lá, ocultando parcialmente os fios negros, mas de forma alguma diminuindo o charme do rapaz.

 

E Tweek, assim como todos os outros, olhava fixamente para o Craig, admirando o seu magnetismo natural. Tudo naquele homem parecia ser feito para seduzir, fossem seus membros esguios ou suas penetrantes orbes esmeralda. Fazendo com que ele fosse eleito,por unanimidade, o garoto mais bonito de toda escola secundária de South Park. 

 

Por mais que estivesse furioso com o moreno e soubesse que ele devia algumas boas explicações e desculpas pelo incidente com o David, bastou uma troca de olhares entre os dois para que se sentisse desarmado. E antes que pudesse tentar resgatar suas forças e se focar em sua própria indignação, recebera um sorriso daqueles dentes brancos e perfeitamente alinhados - cortesia do aparelho que ele usara até o ano anterior -, cativando-o por completo e capturando-o em sua venenosa teia.

 

- Está me esperando, amor? - Perguntou com uma gentileza que apenas o louro conhecia.

 

E antes que pudesse dizer algo, Tweek Tweak sabia que já não estava mais tão bravo com ele.


Notas Finais


Vamos lá! Escrever essa fanfic deu trabalho, porque eu tive de pesquisar bastante não apenas sobre a doença do Tweek, mas também rever os episódios e anotar com quais personagens o Tweek interage no decorrer dos episódios. A Lola era uma dupla constante com o Tweek (Como no episódio que eles visitam a vila dos pioneiros, o Tweek faz dupla com ela) e há cenas no fundo que ela divide a mesa com o Tweek e o Craig antes deles namorarem, o que me fez pensar que ela é a namorada referenciada no jogo Stick of Truth (Que rompe com o Craig sem motivo certo). Idem pro Gary, que também sempre brinca com o Tweek no intervalo (e o Gary, por sua vez, já conversou com o Davin). Já o David Rodrigues é visto uma vez almoçando duas vezes com o Tweek, e como ele está no grupo que questiona sobre a homossexualidade do Tweek e do Craig, acredito que ele se juntou a esse grupo por curiosidade sobre a sexualidade do Tweek, provavelmente por se considerar amigo próximo desse.
O Craig em vários momentos é referenciado como o garoto mais bonito da escola (Como no episódio "a lista" e no jogo "Stick of Truth"), mesmo assim ele é um verdadeiro babaca e líder dos bullyings que ocorrem na escola (Se não com a sua gangue, então ao lado do Cartman), o que explica ele estar sempre em detenção nos jogos ou ser visto constantemente fora da sala do sr Mackey. O que é curioso é que desde o antigo episódio "Tweek vs Craig", Tweek é o único membro fora da gangue do Craig (Composta de Clyde, Token e posteriormente Jimmy) que não sofre bullying ou recebe o dedo dos meios desse. O que reforça a ideia aí de que desde o começo o Craig o considera mais que os outros, né?
Uma das razões de eu querer colocar o Tweek fora do grupo do Craig nessa fanfic é porque os garotos populares da escola são apenas os "Boys" e a "Gangue do Craig" (Que sentam juntos no almoço e tem entre seus membros os garotos mais bonitos e inteligentes de SP, sendo visto principalmente nas últimas duas temporadas), e aí eu fiquei imaginando "Deve ser uma droga namorar com um garoto que pega no pé de todos os seus amigos, né?"~
Eu vou mesclar a visão do Tweek e a visão do Craig durante a fanfic, mas a proposta é mais mostrar como o relacionamento deles (Que é sempre visto como perfeito e colaborativo), mesmo com o empenho de ambas as partes pode acabar se tornando complicado~ :v
Não sei se alguém curtiu a proposta ou lerá a fanfic, mas estou bem animada em escrevê-la!


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