História (a)ssexual - Capítulo 5


Escrita por: e MandeJin

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jungkook (Jungkook), Kim Taehyung (V)
Tags Kookv, Lemon, Mandejin, Taegguk, Taekook, Vkook, Zartha
Visualizações 3.530
Palavras 11.415
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção, Lemon, LGBT, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


OLÁ!!!! Primeiramente eu queria pedir desculpas pela demora ): Culpa minha (Zartha) que estava totalmente atrasada com a faculdade. Mas agora que estou livre e sem hiatus, estamos aqui!!!

Me desculpem pelos choros do último do capítulo! Peguem os lenços de novo! haha

*leiam as notas finais*

Capítulo 5 - Branco - part. 2


— Como você pôde? — Jeongguk disse com raiva. O olhar de Taehyung transbordava dor e uma culpa quase tocável. —  Caralho, eu me sinto tão… idiota. Como se tivesse te violado, algo assim. Argh! — fechou os olhos, sentindo uma certa repulsa de si mesmo.

—  Jeongguk, eu… — Taehyung se aproximou, limpando as lágrimas que molhavam suas bochechas. Todavia, Jeongguk se afastou, não querendo que o Kim lhe tocasse.

— Vai embora, me deixa sozinho. — Engoliu em seco, virando-se de costas para que o outro não lhe visse fragilizado.

— Tudo bem, você tem razão —   Taehyung suspirou como se estivesse se segurando para não desabar novamente, Jeongguk teve que conter a vontade de virar-se para encará-lo. —  Eu… droga!

Ouviu quando a porta se fechou e o quarto todo ficou um completo silêncio, preenchido apenas por sua respiração desregulada e seu coração que batia forte em seu peito.

Não conseguia reagir.

Fazia mais ou menos uns cinco minutos que Taehyung havia deixado o quarto, e a lembrança do olhar mais doloroso que havia visto ainda estava vívido na mente de Jeongguk. Seu mundo parecia ter desmoronado em questão de segundos, como um frágil castelo de cartas que recebeu uma rajada forte de vento. Aquela maldita palavra ainda ecoava em seu cérebro como se estivesse exposta em um enorme outdoor de neon.

Assexual.

Jeongguk não era idiota, sabia por cima sobre o que se tratava. Taehyung não sentia atração sexual. É isso. Ele nunca faria sexo. Como um ônibus em alta velocidade, a realidade novamente o atingiu em cheio, destroçando qualquer sentimento bom que havia dentro de si, fazendo seu corpo ceder e, desesperado, Jeongguk caiu de joelho e um soluço alto escapuliu de sua garganta, cortando suas cordas vocais como uma lâmina afiada.

Puxou os fios cor de ébano com tanta força que sentiu o couro cabeludo arder como o inferno, mordeu o interior das bochechas com força, tamanho seu desespero. Taehyung entrou em sua vida, mexeu em seus sentimentos de uma forma gostosa e como se não estivesse satisfeito em bagunçá-la o suficiente, agora, ele resolvera transformar a bagunça em caos e desespero.

Nunca em sua vida havia se sentido tão perdido, jamais imaginou que Taehyung seria capaz de mentir para si, logo ele, um ser humano… diferente do restante. Com esse pensamento em mente, Jeongguk teve outro surto interior. A insegurança e ansiedade voltaram como um soco em sua cara, sentiu-se insuficiente para alguém como Taehyung, e era até patético em como havia criado expectativa em cima desse relacionamento.

E havido sido… ele nem sabia descrever sua atitude. Começou a hiperventilar, o ar cada vez mais rarefeito o fazia respirar fundo na tentativa de preencher os pulmões, mas não conseguia tal feito e seus olhos se arregalaram quando pensou na possibilidade de estar tendo um possível ataque de pânico.

Respira. Respira. Você não vai morrer, Jeongguk.

Taehyung.

Por que ele havia mentido? Isso é algo que se conta no primeiro encontro, não é? São coisas básicas e essenciais, é como contar que tem alergias a gatos! Você precisa saber para não dar um gato de presente para a pessoa, certo? Não, não era assim. Talvez estivesse sendo insensível, mas não conseguia não se senti traído. Iludido era a palavra mais próxima do que estava sentindo. Era um fato, Taehyung havia mentido, o enganou da forma mais cruel que pôde. E isso não tinha como ser resolvido.

O ar cada vez mais distante, a boca seca e com um sabor amargo que não sabia descrever o fazia ter vontade de vomitar. Parecia tão fútil visto por um outro ângulo, e parecia ser algo simples de ser resolvido, mas não era. Jeongguk sentia seu peito ser esmagado pelo peso de uma tonelada. Era como um afogamento horrível, Taehyung havia o empurrado no meio daquele mar de desespero e agora Jeongguk estava sozinho, provavelmente tendo a pior noite da sua vida. Com muita dificuldade, ele se levantou e caminhou até o banheiro, zonzo pela falta de oxigênio. Nem se preocupou em retirar as roupas e ligou o chuveiro.

Gritou quando a água fria lhe acertou em cheio. Martirizou-se por não mudar a temperatura antes. Encostou a testa no azulejo gelado e se permitiu chorar, sentindo-se levemente mais aliviado por conta do líquido gélido em contato com sua pele, embora seu peito ainda estivesse dilacerado. A sensação de traição lhe assolava. Consternado e cheio de uma mágoa evidente, Jeongguk esmurrou a parede do banheiro e grunhiu de frustração. Doeu, porém, era como se estivesse anestesiado pela dor interna. Sua respiração começou a se acalmar e já não sentia como se pudesse morrer, agora, todo sentimento dava lugar a um novo sentimento: raiva.

— Idiota. Por que estou me sentindo assim? — murmurou, passando as mãos pelo rosto molhado em desespero, tentando se recompor. Muitas coisas ao mesmo tempo e um branco em seu cérebro o estava deixando louco. Mas pensou que conseguiria resolver as coisas à sua maneira, Taehyung era só mais um relacionamento frustrado. Não tinha que se sentir assim. Jeongguk tinha certeza de que tudo melhoraria no dia seguinte e ele seguiria sua vida como antes.

Já mais calmo, retirou as roupas e terminou o banho, vestiu um pijama e se deitou na cama, cobrindo o corpo com o cobertor até a cabeça.

Era para ser diferente, de todas as possibilidades possíveis, ele jamais imaginou esse motivo. Assexual. Taehyung era assexual. Flashes de tudo que viveram nas últimas semanas invadiam sua mente de uma forma agressiva, aflorando seus sentimentos e o deixando, novamente, frágil.

Seria mais difícil do que imaginava.

Muitas foram as vezes que ouvira de seus amigos que se apaixonar era uma grande merda, pois não havia escapatória de sair com um coração partido e em pedaços. E ele nunca pensou em como era doloroso passar por isso. Se sentia tolo por ter se entregado tão intensamente nesse relacionamento e deixado seus sentimentos tão expostos e à mercê do Kim.

Com os olhos embaçados pelas lágrimas, Jeongguk pegou o celular e digitou a palavra assexual na barra de pesquisa, mas estava tão exausto física e mentalmente que apenas bloqueou o celular com fúria e o jogou no criado-mudo. Levou o antebraço nos olhos e recomeçou o choro contido, era até patético como se sentia vulnerável e frágil, apesar de ser uma pessoa sensível, ainda era uma zona desconhecida de sentimentos. E ele descobriu que essa zona era dolorosa demais. Com a mente pesada e o corpo exausto, adormeceu em meio às lágrimas.

[...]

Acordar e enfrentar a rotina diária da faculdade como costumava fazer não seria nada fácil como pensara. Para começar, seu dia se iniciou com uma dor de cabeça dos infernos – simplesmente porque fora dormir chorando – e várias mensagens do grupo de sua turma, alertando que estavam animados com o trabalho que deveriam fazer para fechar o semestre. Jeongguk não ficou nem um pouco interessado nos tópicos que outros alunos comentavam. Não tinha interesse em nada e também não tinha pensado no seu.

Tomou seu banho no automático, vestiu roupas escuras e um moletom com capuz comprido que cobria sua testa, colocou uma máscara descartável preta e, praticamente sem mostrar nada de pele, apenas os olhos, foi para aula.

Implorava em seu interior para não dar de cara com aquele que ocupava toda sua mente. Não saberia como reagir caso viesse a acontecer. De alguma forma, Jeongguk se sentia fraco, incapaz de se impor com qualquer atitude.

Ele só estava seguindo seu itinerário, como sempre fazia. Na aula, Jeongguk só conseguia pensar em como queria se enfiar debaixo dos edredons e dormir até tudo estar resolvido e essa sensação de perda ter sumido de seu peito.

—  Quem morreu? — Chunghee perguntou, obviamente percebendo as atitudes suspeitas do mais novo. Por mais que fosse comum Jeongguk se vestir dessa forma, ele parecia mais apático e suas olheiras denunciavam que sua noite não havia sido das melhores.

— Nada, só odeio segundas — respondeu por detrás da máscara descartável, a voz saindo abafada e rouca.

— Tudo bem, depois você me conta —  Jeongguk deu ombros e voltou sua atenção para a aula chata com o professor ranzinza, deixando sua mente vagar por pensamentos nada agradáveis.

Já no refeitório, não conseguiu comer, então nem mesmo tocou na comida que parecia intragável, assim como tudo ao seu redor. Evitar pensar em Taehyung fazia seu interior se embrulhar e pesar, como se algo estivesse faltando; como se estive em abstinência de sua dose diária de serotonina. Pois Jeongguk tinha certeza de que nunca fora tão feliz como nas últimas semanas, e seu organismo sentia falta dessa felicidade.

Durante o restante do dia, se enfiou na biblioteca e procurou alguns livros que o interessavam, passando os olhos atentamente por alguns títulos. Ele teve sua atenção roubada por um em especial.

Área cinza, entenda sobre assexualidade.

Sugou o ar com força, pegou o livro e engoliu em seco.

— Merda. Você não poderia ter mentido pra mim — devolveu o livro à estante e saiu dali, um nó preso em sua garganta como se o sufocasse. Apressado e sem olhar em nenhuma direção, acabou por tropeçar em alguém e quando ergueu a cabeça para xingar o maldito que se intrometera em seu caminho, foi surpreendido por um empurrão no ombro que quase o derrubou. Assustado, virou-se para trás e arregalou os olhos quando viu se tratar de Yoongi.

— Qual foi, Yoongi? — disse um pouco alterado, seu humor não estava dos melhores para aguentar desaforos.

— Não chegue perto do Taehyung, nunca mais! Está me ouvindo? Estou te avisando, Jeongguk, se chegar perto do Tae mais uma vez, eu quebro sua cara. Seu cuzão. —  Devolveu o mais baixo, verdadeiramente furioso e com os olhos ejetados e a feição de quem mataria um a qualquer momento. Jeongguk, ao ouvir o nome de Taehyung, estremeceu, hesitou mais alguns passos para trás, e todas as suas defesas caíram com uma facilidade extrema. Sem ter o que dizer, o Jeon saiu correndo, querendo mais do que nunca esquecer seus últimos dias.  

[…]

Leu, estudou, escreveu, praticou até mesmo dança – seu passatempo favorito – mas seu cérebro insistia em não lhe obedecer e toda sua concentração ia pelo ralo em questão de segundos, lembrando-se apenas de um par de olhos castanhos.

— Inferno! — grunhiu esbaforido pelo esforço que havia feito ao ensaiar uma coreografia. Bagunçou os fios escuros e olhou para o relógio em cima do criado-mudo, constatando que já era noite.

Mesmo sendo início de semana, Jeongguk tomou um banho, vestiu roupas de sair, pegou sua carteira e as chaves do quarto e deixou o dormitório com o pensamento de que esqueceria Taehyung, pelo menos naquela noite.

Não tinha muitas opções, por isso optou pelo barzinho que ficava próximo ao campus, e lá ficou. As poucas pessoas que se encontravam ali não chamaram sua atenção, então apenas se sentou de frente para o barman, rindo da sua patética e clichê história de amor. Pediu uma dose forte de qualquer bebida. O homem, acostumado com essa situação de ver corações partido, lhe lançou um olhar compreensível e assentiu, dizendo que a primeira dose era por conta da casa.

Jeongguk era uma piada.

A cada gole que dava, sentia sua garganta pedir alívio, mas não se importava. Não havia comido nada, então não fora difícil o nível de álcool começar a se intrometer nas suas atitudes. Depois de muitas doses, começou a se sentir mole, quase anestesiado.

Abriu o celular e foi direto no contato de Taehyung, querendo enchê-lo de mensagens e questioná-lo do porquê ele havia feito isso consigo. Segurou o aparelho com força desmedida, tremendo de raiva e mágoa. Mas a única coisa que fez, com o mínimo consciência que lhe restava, fora bloquear o contato daquele que lhe enganara.

— Mais uma dose, por favor — pediu ao barman, que o atendeu de prontidão, afinal, seu maior lucro era quando as pessoas descontavam seus sentimentos no álcool, seja por felicidade ou tristeza.

Já bêbado, Jeongguk não tinha muito controle de sua consciência, desequilibrado em seu próprio corpo. Estava conversando com o barman, questionando o motivo da vida e em como sua situação havia virado de cabeça para baixo em tão pouco tempo, quando sentiu uma mão em seu ombro.

— Chega, vem — Era Chunghee. Jeongguk gargalhou, surpreso por ver o amigo. — não vou deixar você passar vergonha. Desculpa, moço.

O atendente apenas riu, uma vez que já havia presenciado milhares de vezes a mesma situação. Jeongguk sentiu o corpo ser puxado e, como estava inepto de suas ações, não houve muito o que fazer para impedir de ser arrastado bar afora.

Do lado de fora, sentindo a brisa gélida da noite lhe atingir, encolheu-se devido ao frio. Uma sensação de letargia lhe atingiu com força e, junto ao álcool, o fez chorar.

— O que aconteceu? —  Chunghee parou no meio do caminho ao notar as lágrimas do amigo. Jeongguk engoliu em seco, soltando um soluço alto e abraçou seu hyung, se permitindo chorar tudo aquilo que estava segurando durante o dia.

—  Eu não sou bom o suficiente pra ninguém — conseguiu dizer depois de um tempo colado ao outro, seu corpo tremendo de frio e pelo choro que insistia em chegar com força.

—  O que aconteceu? — perguntou, acariciando as costas largas do Jeon.   

— Ele mentiu pra mim — soluçou, umedecendo os lábios e sentiu o corpo ser empurrado pelo mais velho.

— Tudo isso é por conta de chifres, seu filho da puta? Aliás, que surpresa, viu? Taehyung não tem cara de que mentiria pra você.   

Então Jeongguk chorou mais, como uma criança indefesa e desprotegida. E Chunghee apenas o abraçou, deixando com que Jeongguk se aproveitasse do colo de amigo para se sentir confortável.

O pior era que Jeongguk não conseguia explicar o que havia acontecido, nem ele sabia como dizer o que passara com Taehyung. Jeongguk só tinha certeza de que ele havia mentido para si sobre um assunto importante. E pensou que talvez fosse mais fácil lidar com traição.

— Tudo bem, tudo bem. Vai passar. Vai ser pior amanhã, mas você vai melhorar. — Chunghee tentou acalentar com seu típico jeito de melhor amigo.

—  Como essa merda dói! Eu nunca deveria ter me apaixonado, droga! — frustrado, puxou os fios negros com força, não se limitando nos sentimentos e deixando um grunhido de decepção lhe rasgar a garganta. — Amor, puff, coisa patética. Chacota! — gritou, abrindo os braços e rindo da sua própria desgraça.

— Ok, senhor coração partido, você pode resolver isso como uma pessoa normal, um enorme pote de sorvete e filmes tristes. Agora, vamos embora. —  Chunghee voltou a puxar o amigo para o dormitório, pois sabia que se continuasse ali, Jeongguk pioraria o próprio estado. O amigo não tinha limites quando o assunto era álcool e Chunghee já havia visto Jeongguk em situações deploráveis, mas nunca com um coração partido. Ele parecia realmente triste.

Os olhos fundos e opacos, com escuras olheiras ao redor, os fios de cabelo bagunçados e a expressão de quem dormira mal por várias noites seguidas. Jeongguk não estava bem e não era difícil de perceber.

Jeongguk soluçou, um som sofrido e amargurado escapando de sua garganta à medida que acompanhava o amigo de volta aos dormitórios. Pelo menos ele sabia que dormiria mais fácil essa noite, e seria um sono mais pesado que os outros por conta do excesso de álcool em seu sangue. Mas ele não queria pensar que amanhã, obviamente, acordaria com uma terrível dor de cabeça e uma ressaca infernal.

Jeongguk não conseguiu dizer muitas coisas, e Chunghee sempre respeitava seu espaço quando resolvia guardar as palavras para si. Já tinha dado o suficiente para o amigo, mesmo que tivesse criado conclusões precipitadas, não sabia nem como começar a explicar.

Chunghee colocou Jeongguk na cama, tirou seus sapatos e jaqueta, deixando apenas de camiseta e jeans, e o cobriu com uma manta que havia ali. Jeongguk se aconchegou na cama, seus olhos pesados e o corpo cansado pedia por uma noite descente de sono. Não demorou muito para que ele caísse em sono profundo, murmurando o nome de Taehyung várias e várias vezes.


 

[…]

Foram as duas semanas mais longas da vida de Jeon Jeongguk. Ele sequer tinha tempo de respirar devido aos milhares de trabalhos que seus professores passaram, e tudo parecia duas vezes mais difícil do que realmente era. Depois da noite em que enchera a cara e disse algumas coisas vergonhosas para seu melhor amigo, Jeongguk decidiu que não ficaria sofrendo e definhando por sua primeira decepção amorosa. Ele tinha que lidar com isso em algum momento de sua vida, e se o momento tivesse chegado, bom, o jeito era superar.

Depois de bloquear o número de Taehyung e jurar para si mesmo que teria um pouquinho mais de dignidade, ele decidiu voltar então à sua antiga vida.

Durante os finais de semana, Jeongguk encheu a cara e ficou com algumas pessoas, porém sem de fato aprofundar o contato, mas Jeongguk não sabia o motivo que o levava a desviar das mãos mais íntimas e das palavras mais quentes.

E isso o frustrava.

Apesar de ser um homem orgulhoso, foram incontáveis vezes em que Jeongguk abriu as redes sociais para procurar o perfil de Taehyung e stalkear, informando-se sobre a vida do Kim. Taehyung era uma pessoa reservada e costumava postar somente fotos de algo que achara interessante e com uma legenda aleatória com alguma reflexão crítica. Jeongguk percebeu que não havia mais postagens nos últimos dias e isso fez com que o coração se afundasse em seu peito, o pensamento de que Taehyung não estava bem e de que fora o causador de toda sua dor lhe assustava e tirava boa parte da sua concentração.

Mas Jeongguk estava destinado. Ele sabia que precisava superar e que o tipo de pessoa como Taehyung não era para ele.

Taehyung não o pertencia e nunca iria.

Era sexta feira quando decidiu que já estava mais do que na hora de resolver sua vida sexual, ele não poderia simplesmente parar de fazer aquilo que mais gostava por conta de uma pessoa. Isso não condizia com seus princípios e ele tinha o direito de ser feliz.

Jeongguk se sentia mais que disposto naquela noite e tudo era uma questão de achar alguém para se divertir na festa em que fora convidado. E, de fato, ele estava certo.

Jovem, bonito e dono de um sorriso extremamente encantador e charmoso, não fora difícil alguém se interessar. Beijou, beijou muito e permitiu que toques mais íntimos percorressem todo seu corpo, e ele também retribuiu com desejo.   

Quando se deu conta, ele estava em algum dormitório qualquer, as calças abaixadas e gemidos mais sôfregos escapavam de seus lábios. Transou, gozou e sentiu prazer que há muito tempo não sentia; calor humano.

Jeongguk definitivamente não conseguiria viver sem contato íntimo. Sem sexo.

Quando acordou no outro dia, porém, seu peito tinha algo o incomodando e ele se deu conta de que não havia se desligado por completo. Não havia se doado ao sexo como sempre fazia. As coisas não estavam como antes e ele só confirmava o que já tinha certeza.

Então Jeongguk ignorou essa sensação e buscou preenchê-la mais vezes.

Saiu com mais pessoas, transou com algumas e adicionou mais experiências no seu catálogo. Mas Jeongguk não se sentia feliz. Ele sabia que não, mas se recusava a deixar os pensamentos voltarem para Taehyung.

E ele tinha noção exatamente do que precisava.   

— Vá ao meu apartamento hoje, Jeonggukie? — Jisoo, uma garota que ele havia beijado em algum momento, disse ao se aproximar de sua carteira. Jisoo fazia algumas com Jeongguk e tinha cisma de que ele queria algo com ela além de alguns amassos.   

— Não posso, Jisoo-ah. Eu tenho compromisso — era verdade, apesar de que rejeitaria o convite de qualquer forma. A garota fez beicinho e assentiu.   

— Tudo bem, marcamos para outro dia então — ela deu um beijo na bochecha branquinha de Jeongguk e saiu saltitante. Jeongguk respirou fundo e apertou a alça da mochila, ansioso para chegar no dormitório e, finalmente, passar o fim de semana em casa. Sua casa.   

Ele havia recebido uma mensagem de Namjoon, seu irmão, dizendo que também iria visitar sua mãe e queria ver o irmão mais novo. E Jeongguk jamais recusaria passar o final de semana em família.   

A viagem não era muito longa e ele se perguntou o porquê demorava tanto para visitar os pais, e um sentimento de culpa o invadiu ao perceber que não era também um bom filho.   

Ao chegar em casa, foi recebido pelo abraço caloroso de sua mãe. E Jeongguk apertou o corpo magro da progenitora como se sua vida dependesse disso. E, de alguma forma, ele esperava que ela o perdoasse por demorar tanto a voltar para casa.   

Mas um sorriso acolhedor e mais uma sessão de abraços fora o suficiente para que Jeongguk se sentisse quente e acolhido outra vez, e os olhos gentis da Sra. Jeon lhe diziam que estava tudo bem.

— E como está a faculdade? — Namjoon perguntou. Estavam todos sentados à mesa, aproveitando o delicioso jantar que sua mãe havia feito. Havia tanto carinho naquela comida que Jeongguk quase chorou de saudade, percebendo o quanto não dava o devido valor à família. Nunca odiara tanto as refeições prontas e potes de macarrão instantâneo como agora. Tudo parecia ter gosto artificial quando comparado à comida caseira de sua mãe.   

— Tudo bem — enfiou mais um pouco de arroz na boca. — Cada vez mais difícil, mas acho que consigo. — sorriu.   

— É, consegue. No início eu também pensei que não conseguiria, mas olhe pra mim, já terminei a faculdade e estou amando meu trabalho. Você consegue. — Namjoon sempre sabia o que dizer. Jeongguk tinha sorte de ter um irmão como ele, e ele tinha muito orgulho da pessoa inteligente que era seu hyung.   

A conversa durou por muito tempo durante o jantar, Jeongguk se deu conta de que ficara um longo período sem visitar a família e ele jurou para si mesmo que não deixaria isso acontecer novamente. Seu pai infelizmente estava viajando e ele não pôde vê-lo, mas prometeu que voltaria o mais breve possível para abraçá-lo.   

Jeongguk se sentiu feliz como há muito tempo não se sentia. Ele se sentia seguro. Sua mãe e seu irmão também não perguntaram sobre sua vida amorosa, eles sempre respeitaram Jeongguk e, caso ele não colocasse o assunto em pauta, não mencionavam ou faziam insinuações que o deixariam desconfortável. Ele pensava que não merecia a família que tinha.

Depois do jantar, na hora da sobremesa, sua mãe serviu bolo de chocolate com direito a uma bola de sorvete, e Jeongguk agradeceu pela existência da senhora Jeon e seu talento com doces.   

O Jeon mais novo ajudou com a louça e conversou mais um pouco com os dois, e então se retirou, dizendo que já estava cansado e que iria dormir. Tomou um banho, escovou os dentes e pegou um livro na mochila para descansar seu cérebro. Mas, agora, sozinho, Jeongguk não conseguia se concentrar e começou a pensar em como Taehyung se daria bem com sua família. Sua mãe ficaria apaixonada pelo jeito gentil e doce do Kim, e Taehyung conversaria assuntos inteligentes com Namjoon. Ambos gostavam de arte e de coisas que eram complexas demais para a cabeça de Jeongguk. Seu pai também cairia pelos encantos dos olhos castanhos e sorriso retangular, ele tinha certeza.   

Sentiu os olhos e nariz arderem; sinal de que logo choraria se ficasse pensando nos “se’s”. Mesmo que tivesse diminuído a mágoa, ainda assim Jeongguk tinha uma sensação de insuficiência e bastava lembrar do dia em que Taehyung o masturbara sem querer, que ele se sentia o pior ser humano da face terra, como se tivesse violado alguém. Afastando esse pensamento, Jeongguk decidiu ir até a cozinha pegar um copo d'água.   

Ao passar pelo corredor, notou uma fraca luz vindo da sala, e concluiu que alguém estava assistindo televisão. Caminhou até o cômodo e viu Namjoon sentado no sofá, assistindo algum filme que não soube identificar.

— Hyung? — Chamou Jeongguk. Namjoon se virou para encará-lo. Ele estava com seus típicos óculos de grau e vestindo um pijama bege de bichinhos, Jeongguk achou adorável ao ver seu irmão tão caseiro.   

 

— Não consegue dormir? — ele perguntou suavemente, chegando para o canto e indicando o lugar vago ao lado para Jeongguk se sentar.   

— Sim, e você? — murmurou o mais novo, sentando-se no sofá macio e olhando rapidamente para a televisão.   

— Eu costumo dormir muito tarde por conta do trabalho, dormir cedo não é prazer nem aos finais de semana — Namjoon suspirou, ele parecia um pouco exausto, porém satisfeito com o que fazia e Jeongguk se perguntou se conseguiria um bom emprego e algum futuro como o irmão. Jeongguk não era lá muito confiante de que as pessoas o contratariam como um profissional. — Já você não me parece bem. O que foi?  

— Uh? — chiou confuso, a cabeça inclinada em um ângulo engraçado ao absorver as palavras do irmão.   

— Te conheço, Jeongguk. Sou seu hyung e sei que não está tão bem quanto tenta parecer.

— Hyung...   

— Eu estou fazendo um chá. Está quase pronto e podemos desligar o volume da televisão para você me contar o que você tem. Se você quiser, é claro.   

Jeongguk pensou que talvez estivesse na hora de contar a alguém sobre Taehyung. Ele tinha dito pouco sobre o acontecido para Chunghee, e não tinha certeza se o amigo tinha entendido muito bem. Claro que omitiu muitas partes já que mal conseguia explicar o que havia acontecido naquela fatídica noite.   

Um pouco indeciso, aceitou a proposta de Namjoon. Seu irmão sorriu gentilmente e foi até a cozinha, voltando alguns minutos depois com duas canecas fumegantes e um sorriso gentil. Ele abaixou todo o volume da televisão e se sentou de frente para Jeongguk, entregando uma das canecas ao mesmo.   

— Pode começar.   

Ele parecia um psicólogo e Jeongguk sorriu triste ao ter que se lembrar dos dias em que vivenciara com Taehyung. E tudo lhe parecia extremamente recente quando começou a falar.   

— Tem um cara. — soltou o ar lentamente, olhando envergonhado para o mais velho, esperando alguma reação negativa ou algo que demonstrasse desconforto, mas Namjoon somente incentivou que ele continuasse com a fala, o olhar de quem estava disposto a ouvir qualquer coisa que dissesse. — Eu me apaixonei.   

Dessa vez ele ouviu um suspiro que beirava a surpresa, o hyung arqueou as sobrancelhas e pressionou os lábios em uma linha fina. Mas Namjoon continuou calado, somente esperando Jeongguk continuar a conversa. E Jeongguk resolveu desabafar tudo.   

— Foi incrível, hyung. Foram os melhores dias da minha vida e eu nunca me senti tão... Completo. Eu sempre achei uma besteira essa coisa de mãos geladas e borboletas no estômago, mas eu te juro que senti tudo isso. E meu coração acelerava toda vez que eu o via ou falava com ele por mensagem. Ele também era o meu primeiro pensamento quando eu acordava. — soltou um suspiro triste, bebendo um gole do chá, e Namjoon o acompanhou. — Eu comecei a planejar nosso futuro e eu estava tão pronto para encarar tudo ao lado dele. Porra, pareço tão idiota agora.   

— Você não é idiota. — Namjoon disse sério.   

— Enfim, eu acreditei nele e em tudo que vivemos. Mas...   

— O que aconteceu? — perguntou ao ver a hesitação nos olhos de Jeongguk. Ele parecia envergonhado.   

— Eu nunca vou ser o suficiente pra ninguém. — Jeongguk soluçou em seco. — Ele não pode me dar a única coisa em que sou bom. E ele mentiu pra mim.   

Namjoon não estava entendendo.   

— Ele é assexual! — soltou as palavras com dor, a garganta se fechou e sentiu novamente uma vontade de chorar. — Ele nunca vai poder transar comigo e eu nunca vou fazê-lo feliz. Uma vez ele me masturbou, mas quando fui retribuir, ele não estava excitado e isso foi como... Argh!   

Jeongguk só se deu conta das palavras quando disse, arregalou os olhos e levou uma das mãos até a boca, surpreso e envergonhado. O rosto queimando e o coração acelerado por ter exposto sua vida íntima ao seu hyung. Em contrapartida, Namjoon estava com a expressão confusa, seu cenho mais acentuado, os olhos piscando lentamente como se buscasse entender a confusão do irmão.   

— Certo. Vamos ver se entendi. Você conheceu um cara, se apaixonou e descobriu que ele é assexual? — as palavras foram ditas suavemente. Jeongguk assentiu ao resumo feito e abaixou os olhos, incapaz de encarar Namjoon. — E qual o verdadeiro problema?   

— Como assim qual o verdadeiro problema? — arregalou os olhos, elevando um pouco a voz. —  Acabei de te dizer que ele é assexual! Ele nunca vai poder fazer sexo comigo. Nunca. Você sabe o que é isso?   

— Ele te disse isso? — a pergunta pegou Jeongguk de surpresa, seus olhos desfocaram e ele tentou responder.   

— Ele demonstrou. — murmurou. — E isso é que é uma pessoa assexual, não é? Elas não sentem vontade de fazer sexo, nunca.

— Sexualidade é muito mais complexa do você imagina. É algo pessoal e único. Sexualidade não é etiqueta e uma pessoa não vem com manual de instruções. Enfim, vocês conversaram sobre isso?   

— Não — a voz não passou de um fio. Se lembrar daquele dia era como uma facada em seu peito e a imagem da feição magoada de Taehyung lhe dilacerava por dentro. — Eu disse pra ele se curar disso... Longe de mim.  

— Oh — Namjoon chiou, seus olhos pareciam decepcionados e Jeongguk se encolheu no próprio corpo como se tivesse acabado de confessar a pior coisa do mundo. — Jeongguk, o que você fez foi muito errado. Muito!

— Hyung, ele mentiu pra mim! — defendeu-se, mesmo que não tivesse tanta segurança em dizer essas palavras.

— Talvez ele não estivesse confortável para te dizer isso. Às vezes as pessoas não sabem lidar com quem elas são. Já pensou nisso?

— Mas isso é algo essencial para se dizer para alguém que você está ficando! Ele disse que estava com medo que eu o deixasse assim que revelasse!

— E não foi isso que você fez assim que ele te contou?

O peito de Jeongguk se afundou junto com as palavras, ele se sentiu pequeno diante aos fatos jogados na sua cara. Não havia outra verdade, ele abandonou Taehyung assim que ele revelara ser assexual, e nem mesmo teve a dignidade de conversar como os dois adultos que eram.

— Você conhece o Jin, certo? — Namjoon disse, e Jeongguk não entendeu a mudança repentina de assunto, mas assentiu. — Você sabe como eu o amo. Nosso relacionamento passou por um momento complicado, e eu aprendi muito com ele.

— Como assim?

— Eu comecei a sair com Jin, e eu nunca avançava o sinal como geralmente acontece, não porque eu não queria transar com ele, mas porque ele não dava sinais de que queria transar comigo, e eu respeitava isso. Porém só Deus sabe como eu queria transar com aquele homem.

— Hyung, por Deus… — Jeongguk encolheu os ombros, sentindo suas bochechas esquentarem.

— Escuta, Jeongguk! O tempo foi passando e eu me envolvia cada vez mais com Jin, eu acabei me apaixonando e o pedi em namoro. E foi aí que ele me disse que é demissexual.

— Demissexual? Isso é alguma coisa com aquela cantora Demi Lovato? — Jeongguk arqueou as sobrancelhas, e sentiu um peteleco no meio da testa.

— Ai, garoto… Não vou te dar uns tapas porque isso só é falta de informação. — Namjoon repreendeu. — Ele tentou me explicar sobre a sexualidade dele, e é claro que eu não entendi de primeira, é muito difícil se colocar no lugar do outro e até mesmo imaginar como ele se sentia era complicado. Jin precisa se envolver emocionalmente com alguém primeiro, ele precisa estabelecer essa ligação emocional ou psicológica para sentir alguma coisa sexual ou romântica. E só transamos quando ele consentiu! Isso é o que prevalece, respeito.

— Isso é estranho.

— Não, não é. As pessoas são quem elas são. Elas nasceram assim e o mínimo que devemos fazer é respeitá-las por suas orientações, buscar informações antes de sair julgando como uma doença como a maioria faz. — Jeongguk sentiu que poderia vomitar, se lembrando exatamente das palavras que havia dito para Taehyung. — E esse rapaz, o Taehyung, ele deve ter se sentido inseguro para te contar. Você não lembra como foi quando você se assumiu? Você teve medo da mãe te expulsar de casa.

— É diferente. Eu era praticamente o namorado dele! E eu tinha o direito de saber, ele errou em ter feito algo que não queria, eu me senti tão merda quando ele me masturbou e eu vi nos olhos dele que ele se sentiu forçado — os olhos de Jeongguk começaram a marejar, e ele teve que controlar o tom de voz para não gritar e acordar sua mãe. — Sexo é a única coisa que sou bom! — desabafou. — E nem isso eu posso oferecer a ele, porque ele não gosta! Não tem motivos para ele continuar comigo!

— Você é ótimo em várias coisas.

— Não! Não sou. — Jeongguk gritou, abraçando as próprias pernas e levando o queixo até os joelhos, finalmente liberando as lágrimas.

— Jeongguk — Namjoon respirou fundo. — Eu não vou ficar aqui citando suas qualidades, mas saiba que você é bom em muitas coisas. E parece que Taehyung se interessou por você antes mesmo de fazerem algo, ele não te viu como alguém que serve apenas para o sexo.

Jeongguk desviou o olhar para Namjoon, suas bochechas estavam molhadas e ele se sentia péssimo por chorar na frente do irmão, mas o olhar fraternal de Namjoon lhe aqueceu e o mais novo sentiu uma necessidade enorme de abraçá-lo.

— Eu não sei o que fazer — sussurrou tímido, abraçando as pernas com força.

— Se informar é o primeiro passo. Sexualidade é um assunto delicado, são tantos tabus que se eu fosse te falar todos eles, ficaríamos aqui a noite toda.

— Sinceramente? Não sei se consigo. Me parece tão difícil lidar com isso, não nascemos um para o outro. É normal isso acontecer. — Disse, conformado, mesmo que sentisse o peito se afundando cada vez que se acomodava com esse sentimento de perda. Não queria perder Taehyung de vez e, agora, depois desse tempo refletindo, Jeongguk tinha quase certeza de que agiu como um idiota ignorante. Ele pensava nas palavras duras que direcionou ao Kim todos os dias quando se deitava.

— Então você não gosta dele…

— Claro que eu gosto! — um gosto amargo invadiu seu paladar ao dizer essas palavras. Céus, gostava tanto de Taehyung que chegava a questionar como ele havia conseguido extrair tantos sentimentos de si. Todavia, era rodeado de inseguranças e não tinha certeza se era suficiente para o outro e sequer sabia se conseguiria fazê-lo feliz.

— Então faz alguma coisa. Pelo menos tenta — Namjoon disse simples. — Assim você não tem o direito de se arrepender no futuro.

— Eu não sei… Ele deve me odiar agora.

— Um passo de cada vez. Se organize primeiro, tenta absorver o máximo de informações possível sobre assexualidade, depois você o chama para conversar como uma pessoa madura e sensata. Você também o deve desculpas, embora ele também tenha cometido erros.

— Parece complicado — afundou as mãos no rosto, desolado. — Taehyung me confundiu demais. Eu nem tenho certeza se ele me quer.

— Pergunte. Só seja mente aberta e sincero consigo mesmo, Jeongguk — Namjoon acariciou as costas do mais novo e Jeongguk soube que deveria tentar algo, pelo menos ele tentaria recuperar Taehyung, ou talvez o perdão dele.

— Certo, eu vou tentar — sorriu triste.

— Eu espero que sim. Você merece ser feliz, e ele também. Ser assexual não o impede disso, espero que você saiba.

— É, eu também quero que ele seja feliz.

— E você pode dá-lo a felicidade que ele precisa — Jeongguk sentiu vontade de chorar novamente, mas somente se contentou em abraçar o irmão mais velho.

— Obrigado, hyung — sussurrou enquanto ainda abraçava Namjoon, apertando-o entre os braços.

— Não precisa me agradecer. Como eu disse, seja feliz, independente de com quem for.

[…]

 

Passar o final de semana no conforto de sua casa trouxe a Jeongguk um sentimento de alívio e, ao mesmo tempo, inquietação. Sua conversa com Namjoon não saia de sua mente, não conseguia não se sentir culpado, embalado por uma sensação estranha, como se tivesse sido um ignorante em relação a Taehyung.

Ao voltar para a faculdade, preocupou-se em fazer suas pesquisas que prometera ao irmão, voltou à biblioteca e pegou o livro que havia visto outro dia, além das informações que absorvera entrando em fóruns e artigos informativos.  

Assexualidade era complexo. Confuso. Tratar sobre sexualidade em si era um mar de complexidades. Ele tinha uma visão pequena sobre o assunto; era limitado como a maioria das pessoas. Jeongguk sentiu como se uma venda fosse retirada de seus olhos, revelando um mundo totalmente diferente do que ele estava acostumado.

Apesar de fazer parte da comunidade LGBTQ, ele não tinha informações suficientes sobre sexualidade. Muitas pessoas precisavam se informar, então ele começou a anotar tudo que precisava para montar seu artigo. Ele sentia que precisava fazer o máximo possível para que outras pessoas não cometessem o mesmo erro que si.

Cada vez que lia casos de pessoas que se identificavam como assexuais, seu coração se quebrava como um vidro frágil. Ele lia o medo de cada um, o sufoco que passaram quando descobriam a verdade sobre si mesmo. Jeongguk até chorou com alguns casos de superação, em que a pessoa havia aprendido a se amar do jeito que era. Ele se perguntava se Taehyung era capaz de se amar, se ele havia se aceitado!  

Ser assexual não significava assinar um contrato para infelicidade! E isso foi clareando cada vez mais na mente de Jeongguk.

Meu marido é assexual e sou alo! No início, houveram algumas desavenças, não havia uma conexão porque não conversávamos sobre o que sentíamos, eu nunca o entendia! Era muito confuso, minha autoestima ia no lixo por conta de algumas situações, eu não me sentia desejada, nunca! Quando ele me disse o que era, foi como… eu não sei explicar o que senti. Eu o amava demais, conversamos tanto naquele dia, ele me disse coisas lindas, como era apaixonado por mim e eu me senti amada, isso foi além de qualquer outro sentimento. Meu marido me amava! Eu entendi isso, eu só precisava me informar sobre ele, e foi aí que descobri que não havia nada de errado! NADA! Confesso que não foi fácil, houve muitos desafios, mais até do que um casal “normal” haha (incompatibilidade sexual não é tão comum, mas é possível!). Hoje vivemos felizes! Claro, ainda não somos o casal perfeito, mas nos respeitamos, nos amamos muito e tudo que fazemos é pensando no outro. O amor precisa ser mútuo!

Algo dentro de Jeongguk se quebrou. Sua mente fazia o favor de projetar momentos felizes ao lado de Taehyung. Seu peito parecia pesar uma tonelada e a culpa o embalou por completo, o sufocando. Toda essa falta de informação fora capaz de estragar tudo que sentia em um piscar de olhos, tudo que vivenciara com Taehyung lhe escorregou nos dedos como areia fina. E ele era o único culpado.

Queria chorar, gritar e se culpar pelo resto da noite. Mas ele sabia que já havia perdido tempo demais, ele precisava, urgentemente, conversar com Taehyung. Sua primeira opção fora o celular, pegou o aparelho, desbloqueou o número de Taehyung (e se sentiu péssimo por isso), digitou as mensagens com dedos trêmulos, implorando para que o respondesse. Porém pensou que talvez uma mensagem não fosse o suficiente, por isso resolvera ligar.

Três toques. Quatro toques.

Mudo. O telefone chamou até alguém desligar. Seu coração parecia que explodiria a qualquer momento, o choro entalado na garganta o sufocava dolorosamente. Tentou novamente, mas sempre dava como ocupado ou caixa de mensagens. Taehyung estava o evitando. Isso era óbvio, o que esperava? Sua única opção fora recorrer às mensagens, e foi isso que fizera, mandou milhares de textos pedindo para conversarem, mas elas sequer chegavam até o outro.  

Taehyung havia o bloqueado.

Frustrado e domado pela angústia de ter perdido seu amor, Jeongguk se jogou na cama e cobriu o rosto com o antebraço e se permitiu chorar; um choro mais doloroso que antes. Um choro de ter perdido alguém que amava por pura ignorância; por falta de informação. De certa forma, tudo havia se esclarecido em sua mente. Ele compreendia o quão imbecil havia sido naquela noite. Não passara de alguém sem tato, sem noção alguma do que dizia e as palavras hostis que proferiu com raiva, ecoavam em sua mente, lhe agoniando.

Ele não queria perder Taehyung sem pelo menos tentar. Como uma salvação, ele olhou a data do calendário e lembrou-se que hoje era aniversário de Jimin, amigo próximo de Taehyung. E, bom, Jeongguk tinha o convite da festa e, com certeza, Tae estaria presente.

Nem se importou em se arrumar, saiu com as roupas que usava, apenas calça de moletom e uma camiseta branca, acompanhada de um casaco escuro. O endereço não era longe, mas o pânico fazia tudo ficar mais lento e demorado, o caminho pareceu uma eternidade. Seu coração não se aquietou em nenhum momento, pensando em como convenceria Taehyung a terem uma conversa. Como poderia querer algo dele quando ele mesmo havia recusado conversar? Parecia hipocrisia, mas ele tentaria de todas as formas. Não perderia Taehyung sem ao menos tentar recuperá-lo.

Jimin era muito sociável, por isso a quantidade grande de pessoas no local, e obviamente ele convidou Jeongguk apenas porque ele fazia parte da faculdade, pois o Jeon tinha certeza que nenhum dos amigos de Taehyung tinha alguma empatia por ele. Ignorou algumas pessoas o chamando, se focando exclusivamente em achar o homem que amava.

As pessoas e o barulho dificultavam seu raciocínio, mas ele não se importava nem um pouco.  

— O que você está fazendo aqui, porra?! — assustou-se com o empurrão que levara, Yoongi o olhava incrédulo, como se fosse um absurdo ele ter aparecido.

— Eu preciso falar com o Tae, cadê ele?  — apesar de determinado, sua voz tremeu. A ansiedade lhe esmagando por completo, fazendo seu estômago embrulhar.

—  Porra nenhuma! Eu te avisei, Jeongguk! Te avisei pra ficar longe dele —  Jeongguk mal teve tempo de pensar e sentiu um soco na bochecha esquerda, seu corpo cambaleou para trás e uma ardência tomou conta do local atingido. Algumas pessoas notaram a movimentação e se afastaram, assustadas.

— Eu não vou embora até falar com ele. — falou como se não tivesse sido atingido fisicamente, apesar da súbita vontade de chorar.

— Ele não quer falar com você! — Yoongi cuspiu, extremamente irritado. Jeongguk engoliu em seco, cada vez mais desesperado.  

— Você me odeia, eu sei! Mas isso precisa ser resolvido entre eu e ele, cara. Eu quero ouvir da boca dele que ele não quer me ver, caso contrário, eu vou ficar!  

— Eu não quero falar com você, Jeongguk-ah — estremeceu ao ouvir a voz grave de Taehyung lhe atingindo os ouvidos. Jeongguk quase derreteu ao notar o quanto havia sentido falta daquele timbre suave.

Virou-se quase em câmera lenta, dando de cara com ele. O amor de sua vida. Seu Tae.

 

[...]

 

Era difícil para Taehyung acreditar no que estava vendo.

Da última vez que estivera cara a cara com Jeongguk, foi no quarto do garoto, no alojamento, e Taehyung estava de joelhos no chão, chorando e se sentindo vazio e perdido após enfim ter revelado sua maior fragilidade enquanto Jeongguk lhe dizia coisas horríveis, para se curar longe de si, para ir embora.

E, algumas semanas depois, Jeongguk estava estatelado na grama da casa de Yoongi, a respiração ofegante de adrenalina, os olhos castanhos que Taehyung costumava adorar muito abertos e cheios de desespero. Ele nem ao menos parecia ter se dado conta de que estava sangrando no lábio inferior e que metade da festa tinha parado de conversar para assistir a cena.

Taehyung até poderia sentir pena de Jeongguk olhando para o estado em que ele estava. As roupas amassadas, a gola da camiseta branca com marcas de umidade, como se ele tivesse enxugado os olhos ali vezes sem conta. Mesmo na luz baixa do jardim era possível ver olheiras escuras sombreando os olhos inchados de Jeongguk e a pele dele, sempre tão clara e suave, estava opaca e meio cinzenta.

Ele tinha perdido peso. Taehyung percebia, mesmo por debaixo das roupas folgadas, os contornos do corpo que adorava. Até mesmo as mechas cor de rosa tinham desaparecido, engolidas pelo tom natural e escuro.

É, ele podia sentir pena, e realmente sentia, porque apesar de todo o trabalho psicológico e carinho que recebera de Jimin, Yoongi e Hoseok, ainda amava Jeongguk e tinha imaginado que estivera sofrendo sozinho desde o término.

Mas estava bem óbvio agora que Jeongguk estava até mesmo pior do que si.

— Eu não quero falar com você, Jeongguk-ah —, ele disse, porque Yoongi estava disposto a iniciar uma briga ainda maior e Jeongguk estava tão atordoado que não percebia o risco que corria. Seus olhos estavam cravados em Taehyung, absorvendo-o como se fosse um anjo ou uma miragem no deserto. Taehyung não queria ver Jeongguk, mas também não queria que ele apanhasse. — Vá embora, não devia ter vindo.

— TaeTae — sentiu o peso do braço de Jimin passando por seus ombros e o puxando para trás de forma protetora.

Jimin fora sua tábua de salvação durante aquelas semanas infernais em que tudo que conseguia fazer era ir para as aulas e ficar encolhido na cama a mercê de que o amigo lhe levasse coisas para comer e beber. Ele literalmente sobrevivera por causa do carinho de Jimin, Yoongi e Hoseok.

— Não, Taehyung! —, Jeongguk começou a se levantar desengonçado, uma mão esticada na direção de Taehyung, mas ela foi empurrada para longe por um Yoongi furioso. Jeongguk tentou se livrar de Yoongi para chegar até Taehyung, mas estava tão perturbado que Yoongi foi incapaz de esmurrá-lo novamente. Em vez disso, o agarrou pela camisa junto com Hoseok, mantendo-o longe de Taehyung. — Taehyung, por favor, só me escute, precisamos conversar…

— Agora? — Jimin se meteu, a voz cheia de ironia ácida. Ele apontou um dedo acusador na direção de Jeongguk. — Você sumiu por semanas e nem ao menos se importou em que estado deixou Taehyung! Acha que pode dizer merdas para as pessoas, ir embora e depois voltar sem lidar com as consequências? Você não viu como ele ficou, seu idiota!

— Jiminie... — Tae murmurou, fraco. Aquela conversa, a briga, ver Jeongguk de novo, estava sendo demais para ele processar.

— Saia daqui! — Jimin gritou, puxando Taehyung para trás. Ele se deixou ser arrastado simplesmente porque não tinha forças para fazer nada disso agora, lidar com Jeongguk justo quando estava conseguindo voltar a respirar.

— Taehyung! — Jeongguk berrou às suas costas, mas sua voz foi diminuindo à medida em que Jimin o levava para os fundos da casa. Taehyung imaginou que Yoongi e Hoseok o estavam mantendo a uma distância segura. — Taehyung, me desculpe! Me desculpe, por favor, agora eu entendo, me desculpe, me desculpe, Tae!...

Nos fundos da casa, Jimin o pegou pelos ombros e o fez olhá-lo. Taehyung tinha a sensação de que estava totalmente sem chão e Jimin parecia perceber isso, porque o segurava firme.

— TaeTae, você quer isso, que conversar com ele agora, está pronto?

Taehyung lembrou das últimas semanas sentindo uma dor insuportável no peito a ponto de não o deixar respirar e estava sentindo isso de novo agora. O mal-estar de um término podia ser ainda pior que uma doença, porque não havia um remédio para curá-lo a não ser a própria pessoa amada de volta. Mas, ao contrário do que Taehyung esperava, ver Jeongguk novamente e daquela forma tão do nada, o deixara totalmente desestabilizado, ainda pior do que antes.

— Não. Ainda não, Jimin, eu estou com falta de ar, na verdade...

— O que aconteceu? — Seulgi, a namorada de Jimin, aproximou-se com a expressão preocupada. Ela tocou no rosto abatido de Taehyung num afago. — TaeTae, o que houve?

— Jeongguk está aqui— Jimin acusou. — Jagi, pegue uma água para ele, por favor, e leve para o meu quarto. Venha, Tae, vamos sair dessa barulheira.

No quarto de Jimin, Taehyung deitou na cama e cobriu os olhos com o braço. Experimentava uma sensação estranha de euforia com angústia, parte de si clamava por Jeongguk com tanta força que ele não se surpreenderia se a dor da distância o fizesse gritar. Mas a parte magoada de Taehyung o mantinha num lugar seguro.

Ele queria tanto conseguir esquecer Jeongguk, mas cada dia que passava ele só sentia que o amava mais e manter-se longe era o mesmo que se torturar.

E agora, somando-se a isso, tinha a noção de que Jeongguk estava péssimo e sofrendo. Apesar da dor, do remorso e do medo de ser rejeitado outra vez, Taehyung queria que Jeongguk estivesse bem. Saudável e feliz.

Saber que era por causa de si que ele estava tão mal enfim fez Taehyung começar a chorar na escuridão do quarto de Jimin, e nem a água que Seulgi trouxe ou os afagos de ambos em seus cabelos o fez se sentir melhor.

Só uma coisa o faria se sentir melhor.

Só uma pessoa.

No dia seguinte, Taehyung acordou com uma nova certeza, motivado por algo que Jeongguk gritara na noite anterior e que só conseguiu absorver com a mente relaxada.

Agora eu entendo.

Ele só podia estar falando sobre sua assexualidade. Afinal, foi o fato de ter revelado isso que deixou Jeongguk tão enraivecido.

Não, não fora.

No fundo, Taehyung sabia bem que tinha errado em ter escondido a verdade tanto tempo de Jeongguk, por mais que, quando fora enxotado do quarto, todos os seus medos houvessem sido confirmados.

Ainda na cama do quarto de hóspedes, Taehyung pegou o celular e desbloqueou o contato de Jeongguk. Não sabia por onde começar, mas precisava se certificar de que Jeongguk ficaria bem, isso era o mais importante de tudo.

[Você]

Oi

 

Com o coração disparando, Taehyung sentiu alívio. A dor esmagadora em seu peito dissipou como mágica no instante em que Jeongguk viu a mensagem e começou a respondê-la.

 

[Jeongguk]

Taehyung

Eu sinto muito, por favor não me bloqueie de novo, me deixe falar

 

Taehyung começou a digitar uma resposta, mas então Jeongguk estava ligando. Ele gelou, olhando para a tela do celular sem saber o que fazer. Não estava pronto para ouvir a voz de Jeongguk em seu ouvido, o timbre suave, todas as formas como ela mexia com seus sentidos... então, ele apenas olhou para o nome de Jeongguk no visor até que a ligação caísse.

 

[Jeongguk]

Me deixa falar com você, Tae

Por favor

Me deixa ouvir sua voz

Por favor, me escute

 

[Você]

Eu não sei se é uma boa ideia

 

[Jeongguk]

Vamos tentar

Paramos se você não se sentir confortável

Por favor

 

Deus, quantas vezes ele havia pedido por favor? Era como se estivesse implorando.

Completamente inseguro se estava fazendo a coisa certa, Taehyung ligou para Jeongguk, que atendeu no segundo toque.

— Tae — Jeongguk disse seu nome com urgência, como se tivesse medo que aquilo fosse mentira. — Tae, me escute, eu sinto muito, eu fui tão idiota, eu não tinha ideia, mas eu fui atrás, eu pesquisei e eu sei que isso não é um problema, sua assexualidade, não é uma doença...

— Jeongguk... — Taehyung fechou os olhos, a boca secando depressa ao ouvir a voz macia de Jeongguk atropelando as palavras. Ele soava tão frágil e confuso.

— Espere, eu realmente entendo agora! Foi tão ruim o que eu disse pra você, tão cruel, eu me arrependo muito, por favor me perdoe, Taehyung, eu não consigo dormir, eu não consigo comer ou existir sabendo que o magoei tanto...

— Jeongguk, eu perdôo você — Taehyung soltou e ouviu o silêncio de choque de Jeongguk do outro lado da linha antes que o mais novo soluçasse. — É por isso que eu estou voltando a falar com você, não quero que o que tivemos se torne algo prejudicial para nós. Você está muito mal, precisa se cuidar, Jeongguk.

Jeongguk só chorava.

— Eu sinto muito... — e pedia desculpas.

Taehyung sentia o corpo todo contorcer de agonia pela vontade que tinha de abraçá-lo e acalmá-lo, mas ainda tinham questões a resolver. Ainda que aquele relacionamento não tivesse futuro, porque Taehyung duvidava muito que Jeongguk fosse aceitar um namoro sem sexo, apesar de sua boa vontade em procurar se informar sobre assexualidade, Taehyung amava Jeongguk demais para abandoná-lo tão mal.

— Não chore mais — Taehyung murmurou, a voz engrolada. — Não precisa chorar, eu estou bem, não estou mais magoado, aceito suas desculpas.

— Mas não quer dizer que.... — Jeongguk fungou. — Não quer dizer que me aceita de volta, não é?

Taehyung ficou em silêncio e eles dois souberam que essa era a resposta.

— Vamos devagar — Taehyung propôs. — E para começar, você vai se cuidar, está bem? Durma e se alimente. E então, quando nós dois estivermos melhor, conversaremos.

Isso pelo menos pareceu aliviar a angústia de Jeongguk, que desligou bem menos aflito do que quando atendera. Taehyung também sentiu um pouco mais de ânimo para começar o dia e a semana seguinte se passou entre mensagens de texto que eles trocavam diariamente, superficiais e limitadas a “você está bem?”, “está se alimentando bem?”, “eu sinto sua falta”.

Na verdade, Jeongguk era quem mandava essa última e Taehyung não respondia. Não queria criar expectativas em Jeongguk e nem em si mesmo. Ele não ia mais se iludir, aprendera a lição. Dali em diante só se relacionaria com outros assexuais, ou ficaria sozinho.

Por mais que Jeongguk tentasse, eles ainda eram de mundos opostos. Nunca, nunca se encaixariam.

Na sexta-feira, no final das aulas da manhã, o campus estava agitado. Fazia um dia de sol outonal, o ar era fresco e alguns estudantes almoçavam suas marmitas na grama. Havia um burburinho estranho sobre o jornal da faculdade, algo a ver com um artigo de um aluno de jornalismo que todos estavam elogiando. Taehyung não estava muito interessado em saber, provavelmente era sobre um assunto idiota ou que não faria diferença alguma na vida das pessoas.

Mas então Jimin surgiu correndo em sua direção, agitando um exemplar do jornal no ar.

— TaeTae — ele disse sem fôlego ao sentar no gramado diante de Taehyung e atirar o exemplar em seu colo. — Veja isso!

Taehyung olhou para a expressão triunfante do amigo e começou a ler com desconfiança o artigo que Jimin havia circulado em vermelho.

Seu queixo caiu.

O título era, por si só, um tapa em sua cara.

(as)sexualidades, porque deveríamos falar mais sobre isso.

A garganta de Taehyung foi fechando conforme lia o artigo. Falava sobre assexualidade, mas de um modo completamente espontâneo e despretensioso. E, na verdade, era um relato. Um relato real do autor com um assexual. Havia cuidado ali, preocupação em informar sem julgar, e o autor até mesmo citava fontes para que as pessoas interessadas pudessem buscar mais a respeito e, no fim, ele assumia que a sexualidade de um modo geral não precisa seguir padrões e que as pessoas deveriam se preocupar mais em amar e menos em julgar.

Ele assinava como Jeongguk, estudante de jornalismo, alossexual, apaixonado por um assexual.

— Eu tenho que concordar que ele se redimiu com dignidade — Jimin riu. — Está todo mundo lendo. Sabe, qual é a sensação de saber que pelo menos 80% dos estudantes desta faculdade não é mais ignorante ao tema da assexualidade, Taehyungie?

— Por causa de Jeongguk —, Taehyung mal conseguia piscar.

Jimin sorriu.

— É um bonito pedido de desculpas, você não acha?

 

[...]

 

As mãos de Taehyung suavam frio. Fazia quinze graus lá fora – mais algumas semanas e eles entrariam no inverno. Mas, no interior da cafeteria, era quente e agradável. Ele havia escolhido uma mesa no fundo, com poltronas aconchegantes, e um jazz suave escoava como música ambiente. O lugar cheirava a café e croissants amanteigados, e ele já havia tomado dois chocolates quentes enquanto esperava seu encontro chegar.

O sino sobre a porta retiniu e o estômago de Taehyung revirou. Ele olhou quando Jeongguk passou pela porta usando uma jaqueta de couro grossa por cima de um suéter preto, calças de couro acolchoadas e Timberlands pretas. Usava uma máscara higiênica e a franja caía comprida sobre os olhos, de modo que Taehyung não soube dizer qual a expressão dele quando seus olhares se cruzaram e ele se aproximou até parar ao lado da mesa.

— Oi — Jeongguk disse, largando a mochila ao lado da poltrona e sentando. Ele puxou a máscara para baixo e Taehyung engoliu em seco.

— Oi. Como você está?

Não era uma pergunta necessária, Jeongguk estava bem. Mais do que bem. Taehyung sentiu palpitações no fundo do estômago ao constatar que ele havia recuperado o peso, as olheiras sumiram e suas bochechas estavam até mesmo cobertas por um adorável tom rosado.

Não conseguiu evitar sorrir.

Depois dos primeiros cumprimentos, pediram cafés e doces e então se olharam, constrangidos.

— Obrigado por ter aceitado me ver — Jeongguk quebrou o silêncio, os olhos grandes e redondos fixando os castanhos de Taehyung. Ele tomou um longo fôlego, ajeitando-se melhor na poltrona, e limpou a garganta. — Então, eu...

— Você está bonito.

Jeongguk piscou, atordoado.

— Hã.... obriga... você também. Você está muito bonito, Taehyung. Como sempre.

Taehyung sorriu sem graça.

— Desculpe, nunca fui bom nisso de flertar. Continuo não sendo.

Os olhos de Jeongguk arregalaram por um segundo e ele abriu a boca para falar, mas engasgou.

— E-está flertando comigo? — riu nervosamente.

Taehyung abriu a mochila e tirou de lá o jornal de duas semanas atrás. Colocou-o na mesa e o arrastou na direção de Jeongguk, que reconheceu o próprio artigo. O mais novo mordeu o lábio. Taehyung disse como quem não quer nada:

— Devo assumir que isso meio que foi para mim, ou pelo menos por minha causa, já que você dificilmente teria escrito um artigo sobre assexualidade se não tivesse me conhecido?

— Não foi para você — Jeongguk murmurou. — Quer dizer, foi, mas eu não escrevi esperando que você me perdoasse, eu escrevi para que as pessoas saibam e não façam a mesma burrada que eu fiz.

Taehyung assentiu e molhou os lábios. Do outro lado da mesa, Jeongguk encarou o cardápio com os olhos arregalados cheios de ingenuidade. Inferno de garoto. Assim ficava difícil não tocá-lo.

— Jeongguk-ah, vamos lá. Eu estou pronto, faça suas perguntas.

Jeongguk ergueu o olhar, confuso.

— Ah, já? Certo, eu anotei algumas dúvidas... — ele pareceu envergonhado ao puxar o celular do bolso traseiro e abrir o bloco de notas. — Hm. Então...

A garçonete chegou com os pedidos, interrompendo-os por um instante. Quando ela se foi, Taehyung esticou a mão por cima da mesa e tocou os dedos de Jeongguk, fazendo-o abaixar o celular. Era o primeiro contato físico que estavam tendo desde o término e ambos sentiram reflexos disso – Jeongguk diretamente em seu ventre e na espinha, Taehyung na base da garganta, um calor borbulhante.

Queria mais.

— Gukie, nós dois sabemos porque estamos aqui. Não precisa de uma lista, só olhe para mim e pergunte o que quer saber e eu vou responder.

Jeongguk ficou encarando os dedos quentes de Taehyung afagando a pele de seu pulso. Então arrastou a poltrona para mais perto de Taehyung, voltando o corpo de modo a ficarem mais de frente, os olhares fixos. Taehyung percebera a respiração de Jeongguk acelerando por conta da proximidade e sabia que ele queria beijá-lo, senti-lo, mas iria com calma.

Ele mesmo daria isso a Jeongguk quando tudo estivesse em seu devido lugar.

— Você fez um ótimo trabalho com as pesquisas — Taehyung apontou para o jornal sobre a mesa. — Mas, como você mesmo disse no seu artigo, sexualidade não é preto ou branco, é uma cartela de cores.

— Quais são as suas cores, hyung? — a voz de Jeongguk soou manhosa pela proximidade.

— Eu gosto de contato físico.

— Isso eu percebi. Que bom. Eu... — Jeongguk limpou a garganta, fitando a boca de Taehyung. — Isso é realmente muito bom. E o que mais?

— Eu nunca fiz sexo com outra pessoa, mas eu sei como funciona comigo, pelo menos.

— Está falando de masturbação. — Jeongguk recuou um pouco, esforçando-se para prestar atenção na conversa e não nos detalhes de Taehyung.

— É. Existem certas situações bem específicas que me excitam e em geral elas não têm nada a ver com sexo. Mas é raro, então...

— Não devo ter esperanças de ser fodido de quatro por você.

Taehyung riu, corando.

— Acho que não.

Eles comeram e beberam o que haviam pedindo enquanto se preparavam para as próximas perguntas. E então:

— Qualquer coisa relacionada ao sexo? — Jeongguk ajeitou-se nervosamente na poltrona. — Tipo, você veria ou tocaria em alguém...

— Em você, Jeongguk. Estamos falando de nós dois, então, é você – Taehyung limpou um pouco de marshmellow da torta que ficara preso no canto da boca de Jeongguk. Levou o polegar até a boca e o lambeu.

— Você tocaria em mim — Jeongguk corrigiu, e de repente ele parecia estar quase ofegando. — em um momento íntimo, mesmo sem se excitar? E eu não estou falando de obrigação, pelo amor de Deus, não como naquele dia.

— Não foi obrigação, Jeongguk — Taehyung devia a ele explicações sobre aquela noite desastrosa. — Eu estava desesperado, por isso posso ter dado a impressão de que estava te masturbando por me sentir pressionado, e em parte foi por isso, mas você despertou em mim uma coisa nova. Eu gosto de te dar prazer, Jeongguk, descobri isso naquele dia do Jardim Sensorial.

— Nunca tinha acontecido antes? Com outras pessoas?

— Não, apenas com você. — Taehyung arriscou um afago na coxa de Jeongguk, apertando-a de leve e observando Jeongguk se inquietar no assento, a respiração falhando. Taehyung tentou conter um sorriso orgulhoso — Você é muito sensível. Isso mexe com minha vaidade.

— Brinquedos sexuais? — Jeongguk soou ligeiramente desesperado.

Taehyung teria rido se não estivesse tão nervoso. Aquela era uma zona totalmente desconhecida para ele, não é que tivesse repulsa ou coisa parecida, apenas era... estranho.

— Nunca usei. Nem em mim ou em outra pessoa, mas eu posso fazer isso, Jeonggukie, se você quiser.

Jeongguk colocou a mão por cima da de Taehyung na própria coxa, entrelaçando os dedos. O peito subia a descia por baixo da camisa preta porque ele estava se esforçando para controlar o fôlego. Era tão bom olhar para ele, o corpo reagindo ao seu toque, Taehyung se sentia tão bem, tão amado e único. Porque Jeongguk era especial. E se alguém como Jeongguk o amava, o aceitava, ele se sentia feliz.

— Não quero que faça nada contra sua vontade, Tae — Jeongguk apertou mais os dedos dentre os de Taehyung, olhando-o nos olhos outra vez. — É sério, eu posso abrir mão de muitas coisas...

— Nossas naturezas são diferentes, Gukie.

— Eu sei, mas sabe, eu li relatos de alossexuais que são felizes com assexuais, e se você pode se esforçar, dentro dos seus limites, para me fazer feliz, eu também posso. E eu aceito. Porque eu quero você, não importa o que você seja, é você quem eu quero. Você ainda me quer, hyung?

Taehyung precisou de todo autocontrole do mundo para não erguer as mãos e tocar o rosto de Jeongguk, puxá-lo para si, esfregar o nariz em seu pescoço quente e macio e respirar seu cheiro suave. Antes disso, ainda havia uma última coisa que precisavam concordar. E, dessa vez, era Taehyung quem estava envergonhado.

— Jeongguk, você terá que me mostrar como gosta e do que gosta. Terá que confiar em mim.

Jeongguk era o próprio retrato da felicidade. Ele assentiu depressa, maravilhado, inclinando na direção de Taehyung, os olhos cravados em sua boca. Lambeu os lábios, antecipando o momento em que finalmente ia provar o gosto de Taehyung outra vez.

— No seu tempo, hyung. Faremos no seu tempo, juntos...

Quando Jeongguk estava a menos de um palmo de distância da boca de Taehyung, este virou o rosto e ergueu o braço, pedindo pela conta. Jeongguk recuou, frustrado, mas pagaram a conta e então saíram do interior quente do café para a calçada gelada. Taehyung tirou a máquina fotográfica da mochila enquanto atravessavam o campus e ajustou o foco.

— Jeongguk-ah — ele chamou, fazendo Jeongguk parar diante de si e voltar apenas a cabeça em sua direção. — Você quer me beijar?

— Que pergunta idiota, hyung — Jeongguk fingiu uma cara brava, o vento afastou seu cabelo da testa, deixando à mostra as sobrancelhas bonitas e franzidas.

— Vamos, faça cara de quem quer me beijar.

Jeongguk tentou puxar a câmera da mão de Taehyung e os dois riram.

— Isso não tem graça, Taehyungie. Eu quero te beijar. — Jeongguk avançou sobre Taehyung, puxando-o pela cintura. Taehyung recuou, a máquina disparando e capturando todas as expressões felizes de Jeongguk, até mesmo a risada que fazia seu nariz franzir em cima e os olhos ficarem bem fechadinhos. Os dentinhos de coelho.

Taehyung baixou a câmera para olhar as fotos no visor e Jeongguk aproveitou para roubar um selinho. Eles riram, um pouco envergonhados. As mãos de Jeongguk apertaram mais Taehyung, puxando-o ainda mais para perto, e Taehyung se permitiu enfim afundar o nariz na pele suave de Jeongguk. Jeongguk fez o mesmo, e ambos ficaram em silêncio, os corações acelerados e quentes vibrando.

— Taehyungie — Jeongguk pressionou os lábios na lateral do pescoço de Taehyung, que retribuiu devagar. — Eu gosto muito de você. Muito. Sabe, mais que muito...

— Também amo você, Jeonggukie.

Jeongguk se afastou, incrédulo. Taehyung sorriu para ele sem o menor sinal de desconforto. Por mais experiente que Jeongguk fosse sexualmente, Taehyung sentia que aquela era a primeira vez que se apaixonava de verdade. Era até um pouco fofo o fato de que estava sendo ele, Taehyung, o primeiro amor de Jeon Jeongguk.  Então, ele não se importaria em dizer primeiro, porque era verdade.

— Eu amo você — passou os braços ao redor do pescoço de Jeongguk, segurando a câmera entre os dedos firmes.

Jeongguk puxou a respiração, o peito inflando contra o de Taehyung conforme encostavam os lábios num beijo suave. As mãos de Jeongguk subiram por dentro dos braços de Taehyung até seu rosto, segurando-o pelas palmas e enfim provando-o. Taehyung entreabriu os lábios, procurando pela ponta da língua molhada de Jeongguk.

Como sempre acontecia quando tocava em Jeongguk, seus sentidos se abriram, o fazendo se sentir vivo. Ele sentia o calor de Jeongguk, seu cheiro, a palpitação rápida da jugular de Jeongguk quando roçava os pulsos em seu pescoço, o sabor da língua dele, café e marshmellow.

Ouvia os pequenos sons de satisfação que ficavam presos em sua garganta. 

O beijo trouxe de volta a Taehyung a certeza de que ele não ficava devendo nada ao mundo por ser como era. Porque, enquanto houvesse Jeongguk, ele teria tudo que precisava. E agora que tinha descoberto que Jeongguk aflorava em si vontades boas e reveladoras, Taehyung não ia mais se conter. Não ia mais perder tempo. Ele queria descobrir tudo que podia sentir com Jeongguk e queria fazê-lo sentir também. Interrompeu o beijo, deixando Jeongguk confuso.

— Hyung, o que foi?

Taehyung guardou a máquina na mochila e o pegou pela mão, indo em direção ao seu alojamento.

— Vamos para o quarto. Preciso testar uma coisa.
 


Notas Finais


*comentários e críticas construtivas são bem-vindos* Eu li todos do capítulo passado e fico feliz que muitas pessoas se identificaram ):

Então, gente! Eu estava super insegura com esse capítulo. TODO MUNDO QUE XINGOU O BABY Jeon pode pedir desculpas u.u. A maioria não entendeu muito bem o que ele sentiu, e o Jeon tinha muita falta de informações, a ignorância nem sempre é uma benção, viu? Ele também se sentiu desiludido além de ser um baby inseguro ): merece todo amor do mundo igual ao Taeh.

A FABI É MARAVILHOSA, EU AMO ESSA MULHER INTELIGENTE. ALIÁS, MOMENTO MARKETING AQUI *COF COF*ELA ESTÁ ESCREVENDO UMA YOONMIN MARAVILHOSA. Ps: ela disse que ama taekook e que eu vou a rainha dela. Ela que é minha rainha ):

> https://www.spiritfanfiction.com/historia/al-fine-13582880

Link de mais histórias, leiam todas porque valem a pena> https://www.spiritfanfiction.com/perfil/mandejin/historias

Agora meu momento https://www.spiritfanfiction.com/historia/velha-infancia-13193628 (taekook e jikook!broken) amo essa fic <3

Fui <3

Beijo, amamos vocês


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