História Assim no Inferno como no Céu - Mariela - Capítulo 10


Escrita por: ~

Postado
Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Lesbicas, Mariana, Mariela, Rafaela
Visualizações 111
Palavras 5.583
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Crossover, FemmeSlash, Ficção, Luta, Magia, Mistério, Misticismo, Orange, Romance e Novela, Sobrenatural, Survival, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência, Yuri (Lésbica)
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Peço desculpas pela demora e pelas citações pesadas que farei nesse capítulo. Alguns dos nomes ditos podem causar arrepios e desconfortos, por isso decidi só colocar dois deles e não os Sete.

Aproveitem a leitura.

Capítulo 10 - Eu vim para conquistar e vencer


Fanfic / Fanfiction Assim no Inferno como no Céu - Mariela - Capítulo 10 - Eu vim para conquistar e vencer

POV MARIANA

 A cena da Rafaela batendo contra o carro ainda estava muito presente na minha cabeça. Ela ficou tão imóvel quando se chocou contra a lataria e os vidros do carro que eu pensei que estivesse morta. Meu único instinto foi gritar o nome dela e correr em sua direção, mas ela estava longe demais. Ela se mexeu ao ouvir minha voz e conseguiu ficar em pé. Rafaela correu na minha direção e eu podia ver e sentir o pavor em seus olhos.

- Não! - ela gritava - Mariana!

 Eu tentei correr o mais rápido que minhas pernas conseguiam, mas mesmo assim não foi o suficiente. Quando eu estava prestes e me jogar em seus braços tatuados, fui puxada pra trás com força e o chão sumiu sob meus pés. Percebi que eu estava voando e braços fortes me agarravam como se fossem feitos de pedra. Eu gritei e me debati. Vi o desespero da minha namorada lá embaixo, se esforçando para correr e nos acompanhar, empurrando e batendo em todos que entravam na sua frente.

- Mariana! - o grito dela foi tão alto que todos os meus pelos se arrepiaram.

 Mas o anjo continuou a subir e logo tanto Rafaela quanto todas as outras pessoas sumiram do meu campo de visão. Eu continuei a gritar lá de cima. Nem me importei se o anjo me soltaria no chão ou não, eu apenas queria ir ao encontro dela de novo.

- Rafaela! - continuei gritando - Rafa!

 Mas não adiantava. Eu gritava e gritava até que perdi a voz e só o que pude fazer foi chorar em silêncio. Alguém acha que foi exagero? Imagina se você estivesse no meio do Apocalipse bíblico, ocorresse o Arrebatamento de uma hora para a outra, você vê sua namorada lutando contra anjos e ser machucada. Então você grita e corre na direção dela. Ela também corre na sua direção, mas, quando vocês estão quase se abraçando, um anjo maldito te agarra e te tira de perto dela. Como ficaria a sua cabeça pensando que nunca mais veria o amor da sua vida de novo?

 Como eu poderia saber se alguma vez veria a Rafaela viva? Esse é o fim do mundo e ela tem um dos Cavaleiros dentro do seu corpo. As coisas que poderiam acontecer são tantas que eu não conseguiria citar todas. Ela pode morrer, ela pode ser dominada completamente por Leukós, eu posso morrer e nunca mais vê-la. A lista é enorme.

 O anjo que me carregava se manteve em silêncio o tempo todo. Às vezes eu conseguia ver ao horizonte alguns outros carregando mais pessoas, mas estavam longe demais para que eu possa dizer se é alguém que eu conheço ou não. Vi o cenário embaixo de mim mudar drasticamente. Deixamos a devastação de São Paulo para trás e uma floresta surgiu. Passamos por mais cidades, todas parecendo meio acabadas e isoladas. Mais anjos foram subindo delas e levando pessoas, mas nenhuma que eu conhecesse.

 Foram horas voando até que, finalmente, o anjo que me carregava começou a diminuir a altitude. Vi um formato de cidade que mais parecia um avião visto de cima crescer conforme descíamos. Brasília. Por que um anjo me levaria para Brasília, o lugar de mais corrupção do Brasil inteiro?

 Mantive minhas dúvidas para mim mesma e nós pousamos. Vi mais anjos aterrissarem com pessoas. A maioria eram crianças, alguns idosos, umas freiras… os adultos normais eram poucos.

- Me solta! - reconheci a voz da Ingrid - Me solta!

 O anjo que a trazia acabou soltando-a alguns centímetros antes de seus pés tocarem o chão, mas ela aterrissou bem e olhou em volta. Seus olhos foram até mim e eu me livrei do anjo que tinha uma mão no meu ombro para abraçar minha amiga. Ingrid me apertou e sussurrou:

- O que foi aquilo?

- Eu não sei. - respondi olhando em seus olhos pretos - O Arrebatamento, talvez. Tiraram as pessoas boas e deixaram as más.

- Por que fariam isso?

- Segundo a Bíblia, muita coisa tem para acontecer daqui pra frente.- eu respondi - Os que foram condenados vão sofrer tudo aquilo.

- Ai, a Rafa… - Ingrid suspirou - Eu não acredito nisso.

 Olhei em volta. O Palácio do Planalto parecia estar em movimento, assim como o Congresso Nacional. Algumas crianças já estavam brincando pelos campos e descendo rolando a rampa de entrada. Levei um susto ao ver cachorros correndo por ali. Até mesmo algumas aves estavam voando no céu.

- Mariana? Ingrid?

 Me virei e dei de cara com a Talita.

- Tali? - a garota me abraçou - O… o que você está fazendo aqui?

- Eu voltei para o Brasil quando tudo começou a enlouquecer, mas fui atrás dos meus pais no Rio Grande do Sul e acabei ficando presa por lá. - ela explicou - Sem internet nem nada. Meu Deus, eu achei que vocês estivessem mortas! Cade as outras?

- Eu não sei… - olhei em volta e procurei por rostos conhecidos. Vi algumas crianças chamando pelos pais e chorando, uma senhora perguntando pelos filhos e mais algumas pessoas gritando nomes e tentando achar seus entes queridos. Vi uma cabeleira loira mais à frente, olhando para os lados. - Stephanie!

 Ste se virou e cutucou Larissa e Carol que estavam ao lado dela. As três vieram de encontro a nós. Elas abraçaram a Talita e Larissa perguntou:

- Cadê a Vivian?

- Ficou pra trás. - Ingrid falou - Mas ela é policial, deveria estar aqui!

- Acho que eles não escolhem as pessoas por essa lógica. - eu disse - A Vivian já tirou vidas.

 Elas ficaram em silêncio e olharam mais em volta. Nenhuma se atreveu a perguntar pela Rafaela. Era meio óbvio que ela nunca seria salva. Vi a tristeza nos olhos delas, principalmente nos olhos azuis de Stephanie que sempre teve uma relação mais próxima com a minha namorada.

 Os anjos começaram a nos conduzir para dentro do Palácio do Planalto e eu me deixei levar pela multidão. Eu estava à Estados de distância da Rafaela, não teria como fugir e me encontrar com ela no meio daquele caos e com todas as pessoas más do Brasil e do mundo à solta por ai. Entramos no saguão térreo e eu vi que haviam mais pessoas lá dentro do que eu achei que teria. Vi Miguel pairando no ar entre dois outros anjos. Um de cabelos castanhos e longos estava à sua direita e um de cabelos preto, à sua esquerda.

 Todos estavam olhando para os três, inclusive os outros anjos. Eles olhavam para todos como se se desculpassem. Os olhos de Miguel se encontraram com os meus e ele falou olhando diretamente para mim:

- Eu sei que vocês devem estar confusos no momento, mas é chegado o tempo de separar os bons dos maus…

 A multidão começou a falar. O homem de cabelo preto ao lado de Miguel tirou uma trombeta de algum lugar e assoprou. O barulho fez todos se calarem. Eu sei o suficiente sobre religião para saber que quem portava aquela trombeta era o arcanjo Gabriel. Logo, o terceiro seria Rafael.

- Não precisam se preocupar com seus irmãos. Vocês todos vão se reencontrar no Reino dos Céus. - Miguel disse - O mundo precisa passar por essa purificação para que finalmente a vinda do Senhor aconteça em seu esplendor. Os puros e justos de todo o mundo estão sendo separado dos pecadores e assassinos, pois, quando o Grande Mal cair sobre a terra, vocês estarão protegidos.

- Meu irmão se refere aos Quatro Cavaleiros do Apocalipse e de todo o mal que trarão para o mundo quando se unirem, finalmente. - Rafael disse com calma- Uma série de castigos e profecias cairão sobre a terra, mas os escolhidos estarão protegidos em nossas fortalezas. A capital de cada país foi a escolhida para abrigar os que foram salvos.

- Logo entraremos em guerra com os Quatro para cumprir o que foi dito por Nosso Senhor Jesus Cristo. - Miguel acrescentou.

- Matem-os logo! - uma velha gritou - Acabe logo com isso e não permitão que a terra seja tão castigada!

- Não podemos interferir na profecia que Jesus me mandou apresentar à João. - Gabriel falou - Temos que deixar que tudo ocorra conforme a vontade de Deus. Assim que todos os castigos caírem sobre a terra, os Cavaleiros serão mortos e seus espíritos aprisionados no Inferno junto com todos os demônios que eles libertarão nessa guerra.

- O que? - eu me manifestei e me espremi pelo meio das pessoas para me aproximar mais dos três arcanjos - Vocês não podem fazer isso!

- Está dizendo que não podemos seguir o que Deus determinou? - Miguel perguntou - Mariana, você tem que aceitar os planos de Deus.

- Mas… - eu não queria falar aquilo na frente das minhas amigas daquela forma, mas eu teria que falar - Vocês vão matá-la! A Rafaela não tem nada a ver com isso, ela nunca pediu para ser a hospedeira de Leukós!

 Usei o nome do Cavaleiro para tentar amenizar a situação. Gabriel me olhou de um jeito confuso e disse:

- O Cavaleiro Branco apenas entrou no corpo de Rafaela Ferrari porque ela assim o permitiu. - ouvi minhas amigas soltarem exclamações incrédulas atrás de mim - Nós presenciamos tudo, vimos tudo. Ela aceitou em voz alta.

- Ela não estava em condições de escolher! - eu a defendi - A Rafaela nem ao menos sabia que ele era o Cavaleiro Branco, não tinha como ela saber no que estava se metendo. Eu não acredito que vocês podem ser tão injustos. Os amigos dela estavam sob a mira de armas e uma de suas amigas estava sendo estuprada. Vocês viram isso,não viram? Ela e a Eduarda seriam as próximas. Ela teve que aceitar para salvar a vida de todos eles!

- Nós vimos tudo isso. - Rafael disse - Mas agora ele já está no corpo dela e em breve a sua namorada não mais existirá. O corpo dela será dominado totalmente por Leukós e sua alma se perderá nas profundezas do Abismo.

- Não! - fiz de tudo para controlar o choro - Isso não é justo com ela!

- Vocês não podem fazer isso! - Stephanie gritou - Eu sei que ela não foi a melhor pessoa do mundo, mas ela não merece ser condenada junto com os demônios no fim de tudo isso apenas porque aceitou que o Cavaleiro Branco a possuísse para salvar seus amigos! Vocês não podem perdoar todas as outras pessoas más do mundo e condená-la junto com os outros hospedeiros.

- Uma vez que as almas deles se fundam com as dos Cavaleiros, não há volta. - Miguel explicou - Temos que seguir o que está escrito e vencê-los nessa guerra.

 Pensei um pouco e acabei soltando uma risada. Senti novamente todos os olhos em mim e isso me fez rir um pouco mais.

- Uma guerra? - perguntei - Contra ela? Vocês não devem conhecê-la muito bem ou saberiam que ela chegaria nesse lugar derrubando todas essas paredes com as próprias mãos para me resgatar.

- Sabemos disso. - Miguel respondeu.

 Claro que sabiam. Eles contavam com que a Rafaela fosse atrás de mim, mas não fazia sentido. Se ela perdesse a alma para o Cavaleiro Branco, porque ele viria atrás de mim? A não ser que os anjos achassem que a Rafaela conseguiria chegar ali ainda com pleno controle sobre seu corpo e sua alma. Isso me fez sorrir. Ainda há esperança. Eu fiquei tão feliz com aquela ponta de esperança de que ela realmente viesse me buscar que nem pensei nos motivos que levariam os anjos a quererem isso.

- Ela vai vim atrás de mim. - eu disse - A Rafaela vai chegar aqui e derrubar esse lugar com chutes se for preciso!

- Ela certamente vai. - Gabriel falou - Nem pense em fugir, Mariana, você não iria longe. Nós temos asas e você, não.

- Não vou precisar fugir. - eu disse - Eu tenho a Rafaela e ela vem me buscar.

 O amor que eu sinto por ela é tão grande que me fez falar assim na frente de todos eles, sem medo do que achariam de mim e de ser morta pela minha atitude. A única coisa que me importa é voltar a ficar com ela. Eu sentia meu coração doer, pois metade dele estava em São Paulo.

- Você realmente quer que ela nos vença? - Rafael perguntou - Prefere a condenação à salvação?

- Eu prefiro ela. - respondi simplesmente - Eu quero estar onde ela estiver. Poupem o trabalho e me levem de volta para São Paulo, por favor. Eu não quero ir para o Reino dos Céus sem ela.

- Você tem noção do que está pedindo? - Miguel falou - Todo o castigo que cairá sobre a terra…

- Não será nada perto da dor que eu sinto quando fico longe da minha alma gêmea. - eu interrompi - Vocês não pregam o amor ao próximo? Ela é o amor da minha vida, com ou sem Leukós, e eu com certeza escolheria ir para o Inferno se isso significasse ficar ao lado dela.

 Meus olhos se encheram de lágrimas e eu sabia que iria chorar se não me calasse. Os arcanjos me olhavam com uma espécie de compaixão diferente agora. Parecia quase tristeza.

- Sentimos muito, criança. - Gabriel falou - Mas temos que prosseguir como foi Escrito. Você não sairá daqui.

 Virei as costas e me afastei, fui para o fundo do saguão e minhas amigas me seguiram.

- Por que você nunca nos falou isso? - Carol perguntou.

- Eu não queria que vocês se preocupassem.

- Não queria que a gente se preocupasse? - Ingrid disse - Você não tinha o direito de esconder isso, ela é nossa melhor amiga!

- Nós vamos morrer. - Ste falou - Sério, a gente já era.

- Por que está falando isso? - Talita perguntou.

- Gente, é da fucking Rafaela que estamos falando! - ela disse - Olha tudo que essa menina já fez! Ela vai chegar aqui montada em Lúcifer e acabar com a nossa raça!

- Não vai. - Larissa falou - É exatamente da nossa Rafa que estamos falando, ela jamais nos machucaria. Eu sei que não.

- Ela não, mas Leukós sim. - eu falei- Não se preocupem, os anjos acreditam que ela chegará aqui ainda sem ser totalmente dominada por ele.

 Senti um arrepio de medo. Por que eles tinham tanta certeza e queriam isso? Com certeza não são loucos, tem algo por trás.

- E se quando ela chegar for o Cavaleiro Branco no corpo dela? - Ste perguntou - O que vai acontecer?

- Ai a gente morre. - falei com naturalidade.

 Eu não me importaria em morrer. Se a Rafaela já estava com a sentença de morte assinada, eu iria com ela para o Inferno.

 

 POV RAFAELA

 Não é fácil viver normalmente quando arrancam o amor da sua vida de você. Os anjos mataram 2/3  dos meus bandidos e os que ficaram estavam bastante assustados. Supervisionei o trabalho deles enquanto arrastavam os corpos para fora da favela e iam até o local de costume para atear fogo neles. Tudo parecia bem mais vazio depois que a população civil da favela foi levada pelos anjos.

 Eu sentia falta das minhas amigas e via como Vivian estava mais quieta e observando tudo com um olhar distante. Eduarda parou por uns dias com o seu trabalho de fazer mais balas. Muitos dos caras que haviam vindo da Bahia com ela foram mortos pelos anjos e a garota não estava muito disposta a trabalhar por conta do luto.

 Pelo menos eu ainda tinha o Hades comigo. Ele me olhava com seus olhos tristes e eu sabia que estava me questionando sobre onde estaria a mãe dele. Fiz carinho na cabeça dele e sussurrei:

- Eu também gostaria de saber onde ela está, Hades. Espero que não esteja morta.

- Eu já te falei para onde a levaram. - o Cavaleiro Branco disse na minha mente - Os anjos deveriam levar todos os escolhidos para a central de seus países, onde estariam protegidos e livres de todo o mal que assolará o mundo.

 Me levantei do sofá e fui até o banheiro. Ele repetia aquilo há três dias e eu não aguentava mais. Joguei água no rosto e fechei bem os olhos para tentar me concentrar em fazê-lo calar a boca.

- Tentar me controlar não vai adiantar em nada, Rafaela. Você quer ir atrás da sua namorada e eu estou tentando te ajudar. - ele insistiu - Eu já te disse há dias onde ela está. Por que não acredita em mim?

- Porque eu deveria acreditar? - perguntei encarando meus próprios olhos verdes no espelho - Pode muito bem ser apenas um truque para me fazer sair da favela e libertar algum dos seus irmãos. Qual seria o próximo?

- Guerra. Eu não estou tentando te levar até ele, até porque meu irmão não se encontra em Brasilia… Mas a Mariana, sim. Ah, imagino como ela deve estar feliz achando que você vai atrás dela.

- Cala a boca…

- Ela com certeza deve estar rezando todas as noites para que você a encontre e enquanto isso você está aqui!

- Eu mandei calar a boca!

- Vamos atrás dela, Rafaela! Pegue seus homens e parta, eu já te disse para onde deve ir! - eu quase não percebi que agora a voz dele estava saindo pela minha própria boca - Eu estou apenas te ajudando. Você apenas levaria um dia, talvez dois para chegar lá!

- Eu não posso abandona-los aqui… - eu falei com mais calma - Não posso largar os outros.

- Por que larga-los? - eu respondi com a voz dele - Aposto que todos vão querer ir com você. Leve todos eles para Brasilia. Leve todas as armas que vocês tem e tragam as suas amigas e a sua mulher de volta.

- Como? Eu sou a única que consegue lutar com eles e apenas por sua causa. Não tem como matá-los.

- Eu sei como matá-los. - ele sorriu para mim através do espelho e eu vi meus olhos verdes ficarem um pouco avermelhados - Sangue.

- Só isso? Não faz sentido nenhum...

- Não se faça de idiota. - eu ri para mim mesma - Confie em mim. Você apenas tem que colocar uma gota do seu sangue em todas as facas ou armas que você quiser e nenhum anjo irá resistir.

  Leukós estava me dando todas as peças e eu queria ir atrás da Mariana.

- Você tem razão. - eu finalmente falei e sorri - Tenho que buscar minhas amigas.

- Boa menina.

 Me afastei do espelho e sai do banheiro. Sai de casa e puxei um rapaz que passava carregando um saco de entulho.

- Chame os outros. Preciso falar com todo mundo de uma vez.

O restante do meu grupo de bandidos se reuniu na rua. Vi que não deviam passar de 50. Teriam que servir.

- Eu sei onde os outros estão. - eu falei alto para que todos me ouvissem.- Vocês já sabem do que se encontra dentro de mim nesse momento. O Cavaleiro Branco me contou para onde os anjos levaram nossos amigos. Eles tinham ordens para levar os escolhidos até a capital de cada país. Peguem todos os facões, armas… qualquer coisa que sirva para matar e tragam aqui.

- Como isso vai servir? - Alan perguntou - Nada foi capaz de feri-los.

- Eu fui. - falei - Só precisa de um pouco do meu sangue em cima dessas coisas e elas vão se tornar letais para todos os anjos que cruzarem nossos caminhos.

- Nossa… - Duda refletiu - Deve dar um azar do caralho matar um anjo.

- Não temos tempo para pensar nisso. Vão agora fazer o que eu falei e tragam tudo aqui. Vamos partir ainda hoje para Brasília.

 Levou horas para todos trazerem qualquer coisa que fosse capaz de matar e colocar no chão à minha frente. Logo já haviam armas e facas enfileiradas por quase cinquenta metros. Peguei minha própria faca e encostei na palma da minha mão.

- Tem certeza que isso vai dar certo? - Vivian perguntou.

- Tem que dar.

- Não confio no que esse Cavaleiro Branco disse.

- Então confie em mim, Vivian. - eu pedi - Por favor. Temos que trazer as meninas de volta.

 Ela suspirou e colocou seu 38 no chão. Fiz um corte fundo na palma da minha mão e me ajoelhei. Peguei a faca com a mão esquerda e cortei a palma da direita. Apertei-as bem forte para o sangue sair e pingar no chão. Juntei as palmas e fechei os olhos para me concentrar. Eu não sabia o que estava fazendo, mas o Cavaleiro dentro de mim me orientava e meu corpo obedecia por instinto.

 Deslizei as mãos por cima das armas, sujando todas com um pouco do meu sangue e sussurrei:

- Tha kerdísei ti dýnami tou Theoú… - senti um arrepio por todo o meu corpo e passei a mão pelas armas que ainda não haviam sido tocadas por mim - Tha kerdísei ti dýnami tou Theoú…

 Eu vencerei o poder de Deus. Era isso que eu repetia com tanta convicção. Continuei repetindo esse mantra enquanto percorria os longos metros e passava meu sangue por aquelas armas. As pessoas se afastaram e observavam um pouco assustadas. Com certeza estavam me tomando por uma louca, mas eu sabia que daria certo. Eu sabia que venceria o poder de Deus, pois, como diz no Livro de Apocalipse Capítulo seis e versículo dois: Eu vim para conquistar e para vencer.

 Terminei de tocar todas aquelas armas e facas e senti minhas mãos latejarem. Lucas correu com esparadrapos para enfaixar minhas mãos e eu permiti que ele fizesse isso. Logo os cortes já estariam fechados, tenho certeza disso. Olhei em volta e disse para eles:

- Eu preciso de uma coroa.

- O que? - Vivian se aproximou - Não entendi direito.

- Eu preciso de uma coroa. - repeti - Eu deveria ter uma coroa.

- Do que você está falando, Rafaela?

- Apocalípse, capítulo seis e versículo dois. - olhei bem nos olhos dela - Foi-me dada uma coroa e eu parti para conquistar e para vencer.

 Ela estava verdadeiramente assustada e se afastou um passo.

- Rafa… Você está bem?

- Vou ficar quando me derem a minha coroa! - eu gritei - Eu preciso da minha coroa!

 De repente eu percebi que não estava agindo como eu mesma. Olhei em volta outra vez e vi todos cochichando e me olhando de um jeito estranho.

- Desculpem. - eu sussurrei - Preciso descansar.

 Entrei em casa e bati a porta com força. O que deu em mim? Eu estava agindo como se… Como se fosse Ele! Isso não pode estar acontecendo, eu tenho que separar as coisas. Eu não sou o Cavaleiro Branco. Eu sou Rafaela Ferrari e apenas estou servindo como uma hospedeira para ele. Logo vou dar um jeito de me livrar desse fardo e tudo voltará ao normal… Quem eu estou tentando enganar? Nada voltará ao normal, o mundo que eu conhecia não existe mais e não voltará a existir. Não sei o que me espera daqui para frente, nem sei se chegarei viva até a Mariana… Eu tenho que chegar. Tenho que focar nela como o meu objetivo final e depois vejo o que fazer. Depois eu penso no que fazer… Depois.

 A porta se abriu e o Alan entrou.

- Você está melhor?

- Não… Não sei. - olhei confusa para ele - Há quanto tempo eu estou aqui dentro?

- Muito... por isso eu decidi vim aqui te ver. - ele me olhou de um jeito estranho - O que foi aquilo lá fora?

- Não sei, Alan. - sussurrei - Ele está mexendo com a minha cabeça, estou começando a misturar as duas coisas.

- Você não pode misturar as duas coisas, Rafaela. - ele segurou minhas mãos - Você é você e ele é ele. Não pode deixa-lo vencer e te domar!

- Não vou deixar. - eu decidi - Nunca. Não queria ter assustado os outros…

- Foram atrás de uma coroa para você. - ele riu.

- São loucos? Onde vão encontrar uma coroa? Eu estava delirando, eu não…

- Ei, calma. - ele acariciou meu rosto - Aquelas lojas de réplicas no centro da cidade deve ter alguma coroa no estoque, fique calma. Se é isso que o seu Cavaleiro Branco quer como pagamento por nos dizer como resgatar os outros, é isso que ele terá.

 Pensando melhor agora, não sei se eu devo resgatá-los. Leukós me disse que os escolhidos estarão a salvo do mal que irá devastar o mundo. Se eu as tirasse de lá, eu estaria colocando suas vidas em perigo…

- Você não pode estar pensando seriamente nisso. - Leukós sussurrou - A Mariana quer que você vá até ela.

- Você tem razão. - respondi.

- Que? - Alan perguntou.

- Tenho que ir atrás delas. - eu continuei.

- Rafa, com quem você está falando? - ele me puxou pro sofá - Senta, você não está bem...

- Não. - soltei minha mão da dele - Eu tenho que dar uma volta.

 Sai da casa e desci a ladeira. Meus homens já tinham pegado suas armas e se preparavam para a viagem. Eu não sabia bem para onde estava indo, mas apenas segui meus pés e andei aparentemente sem rumo.

 As ruas estavam uma escuridão total. Não havia mais energia nos postes e as velas e tochas que o pessoal da favela havia acendido ficaram para trás. Percebi que eu estava andando até a mesma praça onde eu havia matado aquele homem… Nossa, parecia que já haviam se passado anos desde que a polícia me levou sob custódia para responder por aquele assassinato. Queimávamos os corpos ali, então a grama já havia desaparecido e a terra estava preta por baixo dos meus pés. O cheiro de corpos queimados ainda pairava no ar.

- Por que me trouxe aqui? - eu sabia que aquilo era obra dele.

- Você não pode esperar salvar suas amigas apenas com aqueles poucos caras. - Leukós respondeu - Você precisa de mais e eu sei como conseguir.

- Não vou cair em nenhum dos seus truques, Leukós!

- Então você espera vencer todos aqueles anjos com esse povo da favela? - ele riu - Não seja ridícula! Todos vão morrer, você tem que me ouvir.

 É vergonhoso e irritante admitir, mas ele tem razão. Seria impossível.

- O que eu tenho que fazer? - cada palavra doeu em mim - Fala de uma vez!

- Boa menina. Vamos precisar de mais do seu sangue e você vai ter que me deixar assumir um pouco… Confie em mim.

 Eu suspirei e comecei a desenfaixar minhas mãos. Que outra opção eu tinha? Se eu quisesse trazer minhas amigas de volta, eu teria que fazer aquilo.Como eu havia previsto, os cortes já estavam fechando. Ter o Cavaleiro em mim tinha essa vantagem. Peguei a faca da cintura e cortei novamente, apenas a mão esquerda. Apertei para o sangue jorrar.

- Muito bem… Ande até os corpos. Procure o maior deles, alguém digno.

 Andei lentamente. Era difícil reconhecer alguém no meio daquilo… O fogo não havia sido o suficiente para queimar tudo e a decomposição dos corpos estava muito avançada. Reconheci um e parei na frente dele. Seu rosto estava quase irreconhecível. Era um dos caras que haviam tentado lutar contra os anjos junto comigo e acabou morrendo por isso.

- Esse. - eu decidi - Vai trazer Guerra de volta?

 Eu estava um pouco assustada. Colocar outro Cavaleiro no mundo não era uma opção para mim.

- Para fazer isso eu preciso do seu consentimento, já que estou no seu corpo. Você me concede essa honra?

- Jamais. - eu falei com firmeza - Se depender de mim, nenhum dos seus irmão vai ser solto.

- Eu já previa isso. Não, não posso trazer nenhum deles sem a sua aceitação. - fiquei imensamente aliviada - Vou trazer apenas alguns dos generais para te ajudar nisso.

- Quem?

- Isso você já vai descobrir. Agora se me der licença, preciso assumir seu corpo por alguns segundos.

 Eu respirei fundo e relaxei a minha mente. Senti o mesmo choque me percorrer de novo e foi como se eu fosse empurrada para a parte de trás do meu próprio corpo. Me espreguicei, mas meu cérebro não havia mandado nenhum comando para que meu corpo fizesse isso.

- Ah… É bom me esticar um pouco. - era a minha voz, a minha boca que falava, mas não era eu - Não vai demorar.

 Me ajoelhei na frente daquele corpo enorme e toquei sua cabeça com minha mão ensanguentada.

- Eláte, Abaddon!

 De alguma forma eu reconheci aquelas palavras. “Venha, Abaddon”... Logo o corpo começou a tremer e se mexer. Pareceu que a sua carne podre e queimada estava borbulhando, mas então eu notei que ele estava se reconstruindo. O homem enorme empurrou os outros corpos para longe dele e se ergueu. Tive que olhar para cima para encará-lo com seus dois metros de altura.

- Leukós… - ele disse confuso - O que estou fazendo aqui? Ainda não é chegada a hora do meu papel no Apocalipse.

- Eu sei, mas como seu Comandante, posso trazê-lo quando bem entender. - eu disse - A guerra se aproxima e eu preciso de suporte. Não poderei enfrentar os arcanjos sem os demônios do meu lado.

 Abaddon olhou em volta e depois me encarou.

- Belphegor…

- Exatamente. - eu sorri - Traga também os demônios menores. Eu chamaria todos os Sete Reis, mas não podemos deixar o Inferno desprotegido. Apenas Belphegor e uma legião de demônios menores irá bastar.

 Caminhei devagar entre os corpos e ajoelhei na frente de um corpo. Toquei sua testa e o corpo começou a sofrer o mesmo que o anterior. Logo um rapaz de cerca de vinte anos, com os cabelos tão longos quanto os meus e quase tão escuros se ergueu. Ele olhou para o grandão.

- Abaddon… - olhou para mim - Leukós… Não sabia que o Apocalipse estava tão avançado.

- Ainda não está, mas decidi mudar um pouco a ordem das coisas. Por que deixar apenas Deus conduzir a ordem? - eu disse - Traga os demônios menores para ocuparem esses corpos. Deixe os outros Reis em seus lugares.

- Sim, senhor. - ele curvou a cabeça - Acho que você não vai querer estar aqui para vê-los se erguer.

 Então eu subitamente voltei ao controle do meu corpo e olhei em volta. Dei um passo para trás, mas os dois demônios apenas me olhavam curiosos.

- Seus olhos estão verdes. - Abaddon falou - Ah, a garota assumiu o controle de novo.

 Vi que ambos tinham os olhos vermelhos. Belphegor confirmou.

- Vá para casa, te procuraremos quando terminarmos aqui.

 Nem precisei de outro aviso e corri para longe deles. Onde eu estava com a cabeça? O que eu fiz? Todo meu corpo estava arrepiado pela força que senti vinda daqueles dois… Corri de volta para a favela e para a luz das velas. Alguém me segurou.

- Ei, calma. - Eduarda falou - Calma, você está tremendo… O que aconteceu?

- Nós… Nós vamos ter ajuda para trazer o pessoal de volta.

- Isso é ótimo. - ela sorriu - Quem vai nos ajudar?

- Os… os próprios demônios…

 Ela me soltou assustada e eu continuei a subir. Vi Lucas correr ao meu encontro com algo na mão.

- Olha o que eu achei, Rafa! Estava no estoque de uma loja de réplicas!

 Olhei a coroa que ele trazia nas mãos e sorri. Peguei-a e senti bem o peso. Senti o Cavaleiro Branco se agitando dentro de mim e coloquei na cabeça. Dei uma voltinha.

- Como estou?

- Parecendo a Rainha da Porra Toda, como sempre. - Vivian falou - Conseguiu sua coroa. Agora podemos partir de uma vez?

- Não, ainda falta uma coisa.

- Que coisa?

 Então um grito de gelar todos os corações humanos cortou a noite. Um não, vários. Vários gritos. Eu olhei na direção de onde tinha vindo. Então eles estavam haviam conseguido.

- Isso. - eu sorri, mas não tenho certeza de ter sido realmente eu quem sorriu - Eles estão prontos.

- Quem está pronto, Rafaela? - Vivian perguntou.

 Ouvi passos se aproximando da entrada da favela e abri os braços.

- Olhem! - eu gritei para eles e ri - Olhem para a sua Rainha!

 Apenas o brilho avermelhado de seus olhos eram visíveis daquela distância e naquela escuridão. Novamente eu estava agindo como se não fosse eu… Mas pouco me importei. Se eu tivesse que me aliar a demônios para salvar a Mariana, então é isso que eu faria.

 Me virei para os meus homens.

- Peguem suas coisas e enfiem nos carros, vamos partir em meia hora.

 Alguma coisa no meu olhar fez todos correrem para obedecer. Isso ou o rosnado que surgiu da escuridão onde os olhos vermelhos se acomodavam.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...