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História Astromelias - Capítulo 1


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Notas do Autor


Olá, espero que gostem.

Capítulo 1 - Astromelias: Homem de terno negro


O céu estava incrivelmente fechado naquela manhã, mas nenhuma gota de chuva sequer caiu sob ela ou as pessoas ali presentes. Talvez o céu estivesse seguindo o exemplo dela, que por mais que recebesse olhares apiedados e sentisse que iria desabar a qualquer momento, manteve-se forte, sem deixar cair uma lágrima sequer. Olhava para baixo, mais especificamente para seus lustrosos sapatinhos estilo Oxford. Aquela era a única coisa que podia fazer em uma tentativa patética de evitar que seus olhos gravassem a cena do caixão sendo tragado pela terra. Caixão este, em que o corpo da pessoa que Ino Yamanaka mais amara durante toda a vida jazia.

As pessoas ali presentes representavam os poucos amigos que seu pai tivera em vida, enquanto ela era o único membro restante da família ali presente. Inoichi Yamanaka era um homem simples, que nunca reclamava de coisa alguma e sempre fazia o melhor que podia com o que a vida lhe dava. Ele perdera sua esposa durante o parto da primeira filha, e ao invés de permanecer relapso diante das responsabilidades que vinham com um bebe, simplesmente engoliu sua dor e vestiu um sorriso terno. Criando sua garotinha para ser uma pessoa decente e forte o suficiente para agüentar todas as pancadas que a vida lhe desse. Tal como ele fizera.

No entanto, Ino não se considerava nem aos pés do pai quando se tratava de força. Ela nem mesmo tinha certeza de que ficaria bem após perder a única família que tinha naquele mundo. A perda era muito mais dolorosa do que ela imaginara, e sentiu-se tola por um dia acreditar que estaria preparada para viver algo tão natural como a Morte. Toda aquela espiral de sentimentos era dolorosa, como se pudesse ouvir o próprio coração se quebrando repetidas vezes dentro do peito.

Quando finalmente a cerimônia que parecia ter se arrastado até aquele momento teve fim, Ino não se moveu. Simplesmente permaneceu ali como se fosse uma das estátuas que guardavam aquele cemitério e velavam o sono dos mortos. Ninguém teve coragem de tirá-la dali, nem os amigos de seu pai, nem o padre, ninguém. A cena da menina de madeixas douradas e olhos azuis agora opacos gritava em silêncio que deveria permanecer intocada.

- Nunca gostei de funerais, sempre me imaginei sendo cremado e tendo minhas cinzas jogadas em algum lugar remoto. – Um homem que ela não pode ver o rosto por estar coberto com uma mascara até o nariz parou ao lado dela. Ele usava um terno fino e escuro, com uma gravata vermelho sangue. O cabelo grisalho demais para alguém de físico tão jovem penteado para trás. – Ainda assim, Inoichi sempre foi alguém muito sensível. Ele acreditava que as pessoas deveriam ter um lugar para chorar por aqueles que perderam. Funerais são para os vivos, não para os mortos.

- Quem é você? Nunca te vi no trabalho do meu pai. – Ela perguntou, sentindo-se mais atenta ao que estava a sua volta. O homem por sua vez pareceu sorrir por debaixo da mascara.

- Uma jovem observadora você. – Ele elogiou, mas a face da loira não se alterou, aquela não era uma boa semana para elogios. – Sou um amigo de um antigo emprego do seu pai. Éramos parte da mesma equipe e eu prometi que se algo acontecesse a ele, eu ficaria de olho em você.

- Não preciso que ninguém fique de olho em mim, eu sei me virar. – Ela foi direta, não estava exatamente em condições de dar respostas polidas e calculadas como costumava fazer. – A cerimônia já acabou você pode ir embora.

- Você também. – Rebateu ele, ignorando deliberadamente a falta de cordialidade da mais nova. – Eu me chamo Kakashi. Se precisar de alguma coisa ou estiver encrencada, ligue para esse numero, eu sempre vou te atender. E, meus pêsames, seu pai era um homem extraordinário.

Ele pegou a mão dela e colocou sob a mesma um pedaço de papel com uma serie de números escritos, para em seguida fechá-la. Ino quis retrucar, mas a jovem permaneceu imóvel por algum motivo desconhecido, vendo o tal Kakashi girar os calcanhares e sair do cemitério. Não demorou muito para que o estranho homem sumisse de seu campo de visão e ela voltasse a sua melancolia.

************

Depois do funeral, muitas coisas passaram pela mente de Ino. Agora que não havia mais alguém com quem compartilhar seus dias, ela imaginava como eles seriam dali para frente. Tudo lhe parecia deveras diferente, as pessoas, os lugares, até mesmo as sensações diante de coisas que pareciam comuns. No fundo, em seu intimo ela sabia que tudo permanecia igual, as únicas mudanças no cenário eram ela e a ausência paterna que parecia corroer sua alma dia após dia.

Como forma de aplacar a crescente melancolia que ameaçava engoli-la, ela se jogou no trabalho. A Floricultura familiar abrira no dia seguinte a cerimônia de despedida de seu pai, e apesar de quase sentir seus ouvidos sangrarem com uma quantidade alarmante de “Meus pêsames.” foi bom sair de dentro de casa e tentar se afastar do ósseo.

- Bem vindo à Floricultura Yamanaka, me chamo Ino e vou atendê-lo hoje. – Ela sorriu, um sorriso ensaiado na frente do espelho antes de sair para trabalhar. Tão falso quando o via na superfície refletida, mas tão verdadeiro aos olhos dos outros.  – Qual seria a ocasião especial?

O homem a sua frente possuía traços duros e uma expressão tão séria que Ino presumiu que não era exatamente uma ocasião especial feliz para ele. Seu cabelo escuro preso em um rabo de cavalo baixo e os olhos negros contrastava com a pele clara dele. O terno preto que ele usava parecia valer seu salário de dois anos inteiros e por algum motivo o modelo do traje lhe pareceu familiar. Ela imaginou que talvez tivesse visto em uma revista de moda e ignorou a sensação de familiaridade.

- Gostaria de flores para visitar alguém que já se foi. – A voz dele era potente e imperiosa, fazendo com que o pedido, soasse mais como uma ordem a ser acatada com urgência. – Imagino que saiba de um buque que combine com a ocasião.

- Melhor do que ninguém. – Ela murmurou baixo, mas não o suficiente para que o homem de terno negro não a escutasse. – Posso perguntar qual sua relação com a pessoa? Assim posso escolher algo que simbolize bem sua emoção.

Ela pode ver uma sombra de emoção passar pelos olhos do cliente, e imaginou que a pergunta talvez o tivesse deixado pensativo. Por mais que estivesse em uma fase ruim, ela não era incapaz de sentir empatia por alguém que estava em uma situação semelhante. Fora ensinada sobre como gestos podiam ter grande valor, e o simbolismo das flores, por mais que pouco conhecido, era uma sutil forma de expressar emoções sem dizer uma única palavra sequer.

- Ele era um amigo com uma alma boa, boa até demais. – Foi impossível não notar o suave tom de nostalgia que pairou na voz do homem. Ainda que sua expressão não tivesse sofrido alteração. - Acha que consegue montar um buque com flores que transpareça isso?

- Sim, senhor. – Assentiu concordando, recordando-se de imediato que não possuía nada que parecesse ser o que o homem queria, ela emendou. – Vou preparar algo que atenda ao seu pedido.

Girou os calcanhares e a passos ligeiros foi até os fundos da floricultura, onde ficavam as flores mais frescas e as que precisavam de uma maior atenção. Permaneceu parado no meio do espaço por algum tempo, tentando imaginar algo que combinasse com o pedido feito pelo homem de terno negro e olhos escuros. Por fim, decidiu que lhe faria um buque de Astromelias. Aquela flor era conhecida por simbolizar acima de tudo a amizade duradoura e inocente, o que se encaixava mais do que bem nas poucas pistas que tivera de seu cliente.

Separou as flores cuja coloração era vermelha, e as organizou para que formassem um bonito buque. Por fim, enrolou-as em um papel branco e novamente em um rendado, finalizando com uma fita vermelha para manter todos os componentes juntos e firmes. A combinação que criara sem pensar muito ficou surpreendentemente mais bonita do que imaginara.

- Aqui esta. – Anunciou ela enquanto surgia mais uma vez no balcão. Ela pode ver o agrado nos olhos do homem e esboçou um sutil sorriso satisfeito. – Essas flores são símbolo de amizade duradoura e de bom espírito.

- Perfeito. – Ele comentou, colocando uma quantidade de dinheiro bastante notável sob o balcão. O canto de sua boca havia subido um pouco, formando um sutil sorriso ladino. – Você é boa nisso.

- Obrigada. – Agradeceu, sentindo-se genuinamente satisfeita pelo elogio. - Só me de um minuto para pegar o seu troco, senhor.

- Não precisa. – Ele levantou a mão em um gesto displicente. Pegando o buque de astromélias que era oferecido pela loira. – Considere um bônus pela sua consideração, metade dos floristas só me daria um buque de rosas e nem se interessaria de saber para quem é.

Antes que pudesse retrucar e dizer que não havia nada demais em ser atenciosa, o homem de terno negro já cruzava a porta em direção a rua. Deixando Ino para trás com um olhar confuso. Aquele homem era estranho de uma forma bastante curiosa aos olhos cristalinos da Yamanaka. No fim, sinceramente, ela só esperava que o buque servisse ao seu propósito e que talvez... Só talvez, ela voltasse a vê-lo ali, em uma ocasião mais feliz.

Atendeu mais alguns clientes durante a tarde e decidiu que fecharia a floricultura mais cedo naquele dia. Estava louca para chegar em casa, tomar um longo banho quente, colocar seu pijama consideravelmente infantil de bichinhos, e por fim hibernar até que um novo dia se iniciasse. No entanto, era só colocar os pés dentro do apartamento que costumava ser ocupado por duas pessoas que novamente a tristeza parecia encontrá-la. E embalada pelo som da solidão, Ino desejou que um dia a dor da perda não a machucasse tanto.

 



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