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História Até Os Zumbis Nos Alcançarem (Amo Você) - Capítulo 6


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Notas do Autor


Oiee!

Quero agradecer IMENSAMENTE todo o apoio, amor, surtos e comentários no último capítulo! É sério, não consigo colocar em palavras o quão feliz eu fiquei, ainda mais se tratando de algo que eu sabia que ia redirecionar a história completamente, e estava mega insegura. Muito obrigada mesmo!!

Ah, e pra quem ficou na dúvida, a revelação era sobre a imunidade sim, e não a mordida (essa parte já estava no próprio plot pra quem pegou do twitter, haha).

Sem mais, boa leitura!

Capítulo 6 - Park Chanyeol é Imune


     Baekhyun, eu sou imune. 

Aquelas palavras reverberaram de um canto ao outro na cabeça de Baekhyun, mas não fizeram o menor sentido. Eram absurdas demais para serem verdadeiras ou no mínimo credíveis. A frase inteira era praticamente uma falácia pós-apocalíptica, e até seria engraçada se não revelasse algo comprometedor: que, além de um infectado, Baekhyun trouxe um louco para a colônia. 

– Chanyeol, isso é impossível – Baekhyun soltou um riso involuntário antes de continuar. A justificativa lhe soou tão cômica que suas lágrimas instantaneamente cessaram. – Eu entendo que você ache que é imune, afinal você ficou muito tempo sozinho e nada nunca te aconteceu... Mas imunidade não existe. Não é anatomicamente possível.

O garoto deu de ombros.

– Algumas pessoas são imunes a alguns tipos de gripe.

– Não é a porra de uma gripe Chanyeol! 

– Eu sei que não é uma gripe, Baekhyun. E eu sei que parece absurdo, mas você nem ao menos está me deixando explicar.

Baekhyun bufou. Estava ficando irritado, e não gostava de lidar com gente ignorante. 

– Tá bem, tá bem, então me explica! – O menor se rendeu. – Me explica porque nada está fazendo sentido, eu posso ter colocado a vida de todo mundo em risco e, agora, eu nem consigo te olhar direito com essa cicatriz à mostra. 

Chanyeol olhou para si mesmo depois do comentário de Baekhyun e percebeu, pela primeira vez desde que começaram a discutir, que ainda estava nu, assim como o mais velho. 

– Então vamos nos vestir primeiro, pode ser? – Park sugeriu, jogando algumas peças de roupa na direção de Baekhyun. – Preciso que você confie no que vou te dizer, mas não vou conseguir isso se você continuar irritadinho.

Baekhyun não gostou do tom, mas se vestiu. 

Quando terminou de colocar a roupa, levou as mãos aos cabelos e agarrou os fios como se quisesse arrancá-los. Baekhyun não sentia mais o ímpeto de sair correndo ou de recuperar a pistola abandonada na cama, mas isso não anulava o fato que Chanyeol foi mordido. O rapaz estava estável, mas por quanto tempo ficaria assim? Será que Baekhyun teria que escoltá-lo para fora da Exodus? 

Será que teria que matá-lo?

Pelo jeito só havia uma forma de descobrir, e era ouvindo a explicação do garoto.

– Tudo bem – Baekhyun disse depois de engolir em seco algumas de suas convicções. Ele sentou na cama e gesticulou para que Chanyeol fizesse o mesmo. – Pode começar. 

    E Chanyeol começou.

– Vamos de onde paramos, ok? Não, não é uma gripe, mas o princípio é o mesmo: um vírus. Um agente infeccioso transmitido pelo sangue, saliva ou secreção. Geralmente o contágio ocorre quando a saliva do infectado entra em contato com o sangue da vítima, através da mordida. O novo organismo começa a manifestar os primeiros sintomas, que são perda de consciência e um apetite canibal insaciável, em até 24 horas.

– Você não tá me dizendo nada que eu não sei, Chanyeol – o menor interrompeu.

    – Eu estou chegando lá. O vírus que causou toda essa bagunça, essa massa genética microscópica, não tem nenhum efeito em mim. O meu organismo consegue contra-atacar e derrotar o vírus. Isso significa que eu sou fisicamente incapaz de manifestar os sintomas e, por isso, não represento nenhuma ameaça. E eu também não posso transmitir o vírus, porque ele morre em mim antes que eu possa passar para outra pessoa.

    – Mas... mesmo se fosse verdade, você tem uma marca de mordida que te contradiz.

    – Eu sou imune ao vírus, Baekhyun, não ao processo – esclareceu Chanyeol. – Eu posso ser mordido, a única diferença é que nada acontece. A minha consciência não se esvai e nem dá lugar a uma fome incontrolável por cérebros. Eu só sou mordido, o que não é nada agradável, mas nem se compara ao que poderia acontecer se eu não fosse imune.  

    Byun estreitou os olhos. Estava desconfiado, mas reconhecia que havia uma lógica.  

    – Você não pode ter sido mordido por um zumbi defeituoso ou algo assim?

    Chanyeol riu. 

    – Pode até ser, mais eu fui mordido mais de uma vez, por mais de um zumbi também. Na verdade, eu já perdi a conta de quantas vezes fui mordido, e nem posso me orientar pelas marcas porque, como não sou infectado, elas cicatrizam e somem. A da costela só está visível porque é a mais recente, mas ela logo vai desaparecer. É uma pena. Talvez se eu tivesse as marcas você acreditaria em mim...    

    Baekhyun captou a amargura do maior no final da resposta. Nunca foi a sua intenção deixá-lo magoado, mas Byun não conseguia se livrar do seu ceticismo. Como poderia, diante de tantas informações inéditas? O melhor que pôde fazer foi ser honesto com o garoto e expor as suas incertezas, tomando cuidado para não machucá-lo ainda mais. 

    – Eu quero acreditar em você, Chanyeol, mas é difícil. Isso explicaria algumas coisas, como você sobrevivendo por tanto tempo e essa marca não necrosada na sua pele… Mas, se fosse simples assim, por que só você? Não me leve a mal, mas o que você tem de tão especial para ser imune? E o por que as outras pessoas não são?

    Chanyeol agitou-se um pouco, olhando para os lados como se estivesse prestes a revelar um segredo. Ele havia acabado de descartar a atadura que prendia seu braço machucado mas, mesmo sem ela, parecia mais inseguro agora. Ele abriu e fechou a boca várias vezes antes de encontrar as palavras:

    – Não é tão simples. Há mais coisas que eu preciso contar para essa história fazer sentido, mas têm a ver com teorias da conspiração e segredos de Estado. E eu preciso que você confie plenamente em mim antes de continuar. 

    Baekhyun não soube o que fazer mas, felizmente, nem precisou.

    Batidas incessantes na porta interromperam a conversa dos dois. Era Junmyeon.

   – Bom dia, pombinhos – O líder cumprimentou assim que foi recebido. – É muito bom encontrá-los vestidos. Venham comigo, tenho uma missão para vocês. 









 

Junmyeon levou Baekhyun e Chanyeol até o depósito de armas, uma sala anexa à muralha que guardava toda a artilharia da colônia. Assim que chegaram foram recebidos por mais dois colonos, Jongin e Seulgi; pelo jeito, também haviam sido recrutados. O fato de estarem reunidos ali, naquele cômodo, não deixava dúvidas: a missão envolvia matar alguns zumbis.  

 Missões assim deveriam ser algo rotineiro para Baekhyun, afinal, ele era o líder dos assuntos de segurança da Exodus. Mas, como era teimoso e estava sempre fugindo da colônia e de suas obrigações, Baekhyun nem se lembrava de qual fora a última vez que recebeu uma designação como esta. Foi muito antes de conhecer Chanyeol. 

Muito antes de ter algo a perder.

Baekhyun se sentiu deslocado, até que Junmyeon começou a explicar a missão:

– Bom, trouxe vocês aqui porque surgiu um problema. Minseok e Kyungsoo acabaram de voltar de uma expedição de caça má sucedida. Eles cruzaram com um grupo grande de infectados no caminho, a uns 60 quilômetros daqui. Eram pelo menos cinquenta zumbis segundo o relatório deles, e estão acampados na nossa área de caça. 

– Vamos acabar com eles, chefe! – Exclamou Jongin. 

– Tenho certeza que sim – disse Junmyeon. – E, Baekhyun, eu sei que suas ordens eram para não deixar a colônia tão cedo, mas você entende, não é? É uma missão de segurança, e precisamos do chefe de segurança no comando.  

– Claro, eu entendo – afirmou Byun. – Só não entendo porque preciso levar Chanyeol comigo. Por que não Sehun ou Yixing? Porra, Jun, ele acabou de voltar de um teste.

– Eu sei, amigo, mas será uma oportunidade para conhecermos as suas habilidades, ver como ele se sai em combate. Assim vamos saber o que fazer com ele. 

Baekhyun quis rir. Tudo o que queria saber naquele momento era o que fazer com Chanyeol, e levá-lo até um acampamento de infectados não era exatamente uma de suas opções. Ainda tinha assuntos inacabados com Chanyeol, não sabia até que ponto ele era uma ameaça, mas... pensando melhor, tudo bem. Deixar o garoto sozinho na colônia também não lhe parecia uma grande ideia.

Quando ficou claro que as objeções de Baekhyun haviam acabado, Junmyeon saiu da sala, e deixou que a equipe composta por Byun, Kim, Park e Kang começasse a se preparar. O primeiro passo foi pegar as armas. Por sorte – na verdade, por uma excelente capacidade de planejamento de Junmyeon –, já estavam no lugar certo.

Baekhyun orientou a todos que escolhessem armas de longo alcance, como rifles e fuzis semi-automáticos. Também pegou granadas, explosivos e tudo o que poderia ser usado à distância. Estavam praticamente esvaziando o arsenal da Exodus para aquela missão, mas armas não eram algo difícil de ser restituído. E, bem, aquela era uma emergência. Cinquenta infectados contra quatro humanos saudáveis; não seria nada fácil.  

Quando terminaram de se armar, reuniram a bagagem e se aprontaram para deixar a colônia. Fizeram o mesmo trajeto que levou Chanyeol até o refúgio, porém no sentido inverso: desceram de rapel, pela cachoeira, e receberam as armas e os outros itens pelo elevador de serviço. Em seguida, foram para o carro de Baekhyun. O menor tomou o volante, a menina sentou-se ao seu lado, e Jongin e Chanyeol foram atrás, para acomodar a carga na carroceria do veículo.

Se Chanyeol se sentiu nostálgico em reviver aquela experiência tão familiar, ele não demonstrou. Estava distante desde que sua conversa com Baekhyun havia sido interrompida, mas o que lhe chateava não era a interrupção em si. Estava ferido por causa da desconfiança do menor. É verdade, ainda tinham muito a conversar, mas o ceticismo de Baekhyun era tangível. Isso fez com que Chanyeol se fechasse, e respondesse aos comandos de um jeito mecânico, artificial. 

Mas Baekhyun teve uma ideia para animá-lo.

Silenciosamente, depois de passarem pelo trecho de estrada de chão, Baekhyun tirou uma das mãos do volante e acionou o pendrive de Chanyeol, que ainda estava plugado no painel do carro. Paradise do Coldplay começou a tocar. Jongin e Seulgi, que eram dançarinos antes do fim do mundo, reconheceram as notas no instante em que elas atravessaram as caixas de som. Começaram a cantarolar em meio a exclamações como “eu nem me lembrava de como era ouvir música!” e “essa canção é muito boa”.  

Mas Chanyeol continuou sem reação. 

Tudo o que o garoto fez foi encontrar o olhar de Baekhyun pelo espelho retrovisor. Seus olhos tinham um brilho diferente, como se estivessem carregando tudo o que Chanyeol não conseguia expressar em palavras e ações. Era um misto de ressentimento, mágoa e, bem lá no fundo, uma fagulha de esperança. Eles exprimiam um sentimento tão intenso que pareciam sugar a alma do menor. Byun não aguentou fitá-los por muito tempo e desviou o olhar, enquanto refletia sobre a sua estratégia.

Não deveria ter sido tão ingênuo, pensou Baekhyun. Deveria saber que era preciso mais do que meia dúzia de melodias bonitas para restaurar os ânimos do garoto, e que, na verdade, compartilhar com os outros aquele pendrive só tornaria as coisas piores. Onde estava com a cabeça?, se perguntou. Aquelas músicas deveriam ser algo íntimo, só dele e de Chanyeol. Bom, pelo menos elas suavizaram a atmosfera no veículo...

    Honestamente, Baekhyun queria acreditar em Chanyeol. O que o garoto lhe contou era uma alternativa melhor ao caos e terror que Baekhyun conhecia, então é claro que queria confiar nele – mas não era tão simples. Embora quisesse escutar seu coração, todos os seus outros órgãos pareciam implorar por um pouco de racionalidade. Além disso, Byun não tinha os os detalhes. O destino cruelmente brincou com os dois e os colocou na linha de frente de uma batalha que nenhum deles escolheu lutar, tudo isso antes de Chanyeol terminar de contar a história.

Assim, por hora, Baekhyun estava de mãos atadas. 

A única coisa que podia fazer era aceitar a indiferença de Chanyeol. 

(E torcer para que tudo voltasse ao normal depois que matassem alguns zumbis).







 

Os jovens alcançaram o local invadido pelos infectados antes do entardecer. Era um terreno conhecido. Antes do apocalipse fora o hectare de algum fazendeiro abastado, mas agora era apenas uma grande planície, onde o gado se reproduzia livremente. Quando chegaram mais perto, os quatro colonos encontraram exatamente o cenário que Junmyeon descreveu. Um acampamento de zumbis. 

A explicação para aquele fenômeno era simples: a colônia costumava caçar naquela região, e os infectados porque interceptaram o cheiro dos humanos. Foram atraídos e ficaram ali instintivamente, talvez ao redor de uma ferramenta ou uma peça de roupa descartada. Eles não faziam ao mal aos animais e nem sentiam vontade de comê-los; sua fome era exclusiva de humanos. Assim, estavam literalmente acampados, mas isso não significava que eram menos letais.

Baekhyun estacionou a uma distância segura e gesticulou para que sua equipe saísse do veículo. Os quatro se encontram atrás do carro, junto ao porta-malas, e começaram a descarregar as armas do compartimento. Dividiram o arsenal entre si, enquanto Baekhyun analisava as circunstâncias. O menor fez um checklist mental com as informações mais importantes antes de definir a estratégia.

✘ Terreno acidentado demais, não vai dar para atropelar.

✘ Desvantagem númerica avassaladora. 

✘ Animais no campo atrapalhando a mira.

O único ponto forte dos colonos era este: 

✓ Artilharia suficiente para acabar com todos eles.

Com esses dados, Baekhyun reuniu a equipe em um círculo para expor o plano:

– Tudo bem, vamos fazer uma linha de frente no formato de meia lua. Jongin, quero que você fique em uma extremidade. Eu vou ficar na outra ponta, e Seulgi e Chanyeol ficarão com as posições centrais, um de cada lado do carro. Dúvidas até aqui? – Nenhum deles se pronunciou. – Ótimo. Vamos nos afastar uns cem metros uns dos outros, e quando eu começar a atirar, vocês atiram também. Prestem atenção, porque isso é muito importante: precisamos atirar todos juntos, simultaneamente. Assim, quando os zumbis partirem para cima de nós, vão se dividir e se tornar alvos mais fáceis. Entenderam?       

Os três acenaram com a cabeça.

Baekhyun não teve muito tempo para arquitetar aquele plano; tecnicamente era um improviso mas, de certa forma, tinha um proceder lógico. Era a famosa – e antiga – estratégia de dividir para conquistar. A união era a principal força dos infectados e, em bandos grandes, era quase impossível derrotá-los. Mas, se os colonos conseguissem separá-los, teriam boas chances. Byun só esperava que meio quilômetro de área fosse o bastante para desmembrar a legião de zumbis. 

Quando foi evidente que estavam armados e prontos, os quatro começaram a tomar as suas posições. Jongin e Seulgi foram para o leste. A menina acompanhou o rapaz até a metade do caminho, e Jongin seguiu sozinho até a primeira extremidade da trincheira imaginária. Do lado oeste, Baekhyun e Chanyeol fizeram o mesmo deslocamento. Mas, quando foi a hora do menor continuar o percurso sozinho, Chanyeol o segurou pelo pulso, fazendo-o parar. 

– Vai ser mais perigoso nas pontas – apontou Park, embora fosse redundante.  

– E daí?

– Deixa eu ir no seu lugar. Vai ser menos perigoso para mim.

Byun não quis ler o que estava nas entrelinhas daquela oferta antes de responder: 

– Eu sou o líder da missão. Se alguém vai se arriscar mais aqui, este alguém sou eu.

Chanyeol soprou um riso forçado. 

– Você não acredita mesmo em mim, né? – O garoto perguntou com um tom de provocação. – E se eu caminhar até os zumbis, desarmado? Será que assim você confia em mim, Baekhyun?

Ah, claro. Chanyeol ainda estava magoado. 

– Não vai ser bancando o mártir que eu vou acreditar em você, Chanyeol. 

– Eu não quero bancar o mártir. Quero te dar provas, evidências.

Uma brisa suave cortou a tensão entre os dois e Byun soube o que precisava fazer.

O menor deu um passo à frente na direção de Chanyeol e, em um piscar de olhos, colou seus lábios aos do rapaz. Segurou o rosto do garoto com as duas mãos enquanto assaltava a boca dele com a sua língua. Os braços de Chanyeol alcançaram a sua cintura em uma suposta tentativa de fazê-lo diminuir o ritmo mas Baekhyun não se abalou. Fez questão de que o beijo fosse o mais sensual e molhado possível – estava tentando provar algo com aquele gesto.

Quando se afastaram e retomaram o ar, Baekhyun explicou: 

– Eu acredito em você, Chanyeol. Um pouco, pelo menos, ou então eu não teria o beijado. A saliva é um meio de transmissão, não é? Eu confio em você, e quero confiar mais, mas... você também está em dívida comigo. Você não me contou toda a sua história. Como quer que eu acredite cem por cento, em algo que eu só sei pela metade?

Chanyeol não disse nada mas acenou com a cabeça depois de alguns segundos. Ele parecia atordoado, e Baekhyun não soube ao certo se era por causa do beijo ou do seu desabafo. Talvez um pouco dos dois.  

– Vamos conversar quando voltarmos para a colônia, tá bem? – propôs o menor, tomando uma das mãos de Chanyeol nas suas. – Agora temos uma missão para concluir, e eu preciso de você. 

Chanyeol acenou mais uma vez, dessa vez mais resoluto, e até abriu um sorrisinho.

 Estavam dando pequenos passos, mas já era alguma coisa. 

Quando teve a certeza de que o garoto ficaria bem sozinho, Baekhyun o deixou e seguiu para a sua posição, na outra extremidade da linha de frente. Era de fato a posição mais perigosa da força-tarefa, mas Baekhyun não estava preocupado. Era um bom combatente, e não ganhou o cargo de líder da segurança da Exodus à toa. 

Baekhyun chegou ao marco zero e observou seus amigos. Estavam armados, formavam um semicírculo perfeito e, o mais importante: não foram descobertos. Isso se dava porque o olfato dos infectados era uma faca de dois gumes e, naquele momento, o odor dos animais do campo camuflou o cheiro dos humanos.  Enfim, estavam todos prontos, apenas esperando o sinal de Baekhyun.

O menor respirou fundo, mirou em um dos infectados e efetuou o primeiro disparo. 

E uma chuva de disparos ocorreu em seguida.

Os quatro jovens esvaziaram os cartuchos de suas armas simultaneamente contra os zumbis. O barulho dos tiros era ensurdecedor, do tipo que ficaria na cabeça mesmo depois de horas, isto é, caso conseguissem sobreviver. Não era só o barulho dos projéteis; era também os gemidos dos infectados e o som de partes não tão humanas explodindo com as balas. Além de, claro, grunhidos dos bichos que, inevitavelmente, acabavam atingidos. Fatalidades, ossos do ofício.

O plano de Baekhyun saiu melhor do que a encomenda. Os zumbis, mais zonzos do que o normal, fizeram precisamente o que Byun previu e se dividiram. Correram cada um para um lado, atrás do atirador que parecia estar mais perto (ou o que lhes parecia mais suculento). Aquilo os enfraqueceu, fez deles alvos fáceis para os experientes snipers da Exodus. A desvantagem numérica ainda estava lá, mas fora realinhada a favor dos jovens. Tudo o que precisavam fazer era continuar atirando.

E eles fizeram isso.

Atiraram por quinze minutos quase ininterruptos, desconsiderando as pausas para recarregar a munição. Aqueles minutos, no entanto, pareceram horas para quem estava com o dedo no gatilho. A missão era cruel para os infectados, mas também era extremamente desgastante para os colonos. Exigia um nível de concentração tão avançado que os deixava esgotados, não só física como mentalmente. Eles ficaram tão absorvidos que continuaram a disparar mesmo depois de abaterem o último zumbi. Só perceberam que haviam vencido uns trinta segundos depois. Mas venceram.

Quando a ficha finalmente caiu, não puderam nem ao menos comemorar; ainda tinham trabalho a fazer. Não podiam simplesmente deixar os corpos ali, ou o odor fétido iria atrair outros.  Baekhyun e os demais circularam a área do massacre com galões de gasolina e iniciaram um pequeno incêndio. Eles cortaram as cercas do terreno, para que os animais que sobreviveram tivessem uma chance de escapar do fogo. E então, quando a fumaça começou a pintar o céu de negro junto ao crepúsculo, eles recolheram as armas e voltaram para o carro. 

Estava na hora de voltar para a casa.







 

Os quatro chegaram na Exodus de noite, na hora do jantar. A colônia toda estava reunida na área comum, mas a entrada deles passou despercebida. Não foram recebidos como heróis ou com festas, nada disso. Os únicos que sabiam os detalhes da missão – e quão perigosa ela poderia ser – eram Junmyeon e Minseok, então foram recepcionados normalmente. Era melhor assim. Espalhar o pânico em uma colônia de sobreviventes era uma péssima ideia.

O único reconhecimento que tiveram foi o de Junmyeon. O líder caminhou até eles e deu um tapinha nas costas de cada um. Estava sério, como sempre, mas seus olhos entregavam suas verdadeiras emoções. Ele estava feliz em rever seus amigos sãos e salvos. Junmyeon liberou todos para o jantar, mas pediu que Baekhyun ficasse para trás por alguns segundos. Chanyeol, inconscientemente, também esperou.  

– Vocês dois viraram um dueto agora? – brincou Junmyeon. – Bom, tanto faz. Baekhyun, depois de comer, quero que me encontre na sala de armas, para me passar o relatório da missão. 

– Desculpa Jun, mas eu tenho algo importante para fazer, e precisa ser esta noite. Podemos deixar essas burocracias para mais tarde? – pediu Baekhyun.

– Uma missão e você já quer voltar a fugir das suas obrigações? Não me teste, Byun.

– Não é isso, eu juro. Por favor, Junmyeon. 

 O líder moveu o olhar de Baekhyun para Chanyeol, e notou a tensão entre eles. 

– Tudo bem, se é algo que você precisa fazer… – cedeu o mais velho. – Mas comam primeiro, vocês dois. Se não, nem conseguirão chegar às preliminares.    

 – Junmyeon!! – Baekhyun reclamou com bochechas queimando – Não é sobre isso, tá bem? E, mesmo se fosse, não seria da sua conta. Vamos, Chanyeol.

Baekhyun arrastou Chanyeol, que estava igualmente constrangido, até o centro da área comum. Embora não estivesse em seus planos fazer o que Junmyeon achava que iriam fazer, o mais velho estava certo; eles precisavam se alimentar. Estavam sem comer desde que saíram para a missão, e precisavam de energia para a longa conversa que planejavam ter.     

Os dois foram até a fogueira e se serviram. O cardápio daquela noite era aves e pequenas hortaliças. Se não fosse pela invasão no campo de caça teriam um banquete, com diferentes cortes de carne bovina. Mas tudo bem, qualquer alimento era um banquete quando se estava vivo no pós-apocalipse. Byun e Chanyeol comeram junto aos outros colonos, e só depois foram para a cabana.

Caminharam até o lar de Baekhyun em absoluto silêncio. Não enfrentavam uma atmosfera tão hostil quanto quanto partiram da Exodus, mas as incertezas deixavam o ar pesado. Era como se ambos estivessem sufocando em palavras não proferidas. Mas, se tivessem sorte, todo aquele estresse e angústia desapareceria naquela noite. Park Chanyeol só precisava falar.

– Tudo bem – Baekhyun começou depois de respirar fundo. Já estava sentado e instruiu o mais novo a fazer o mesmo. – Você havia me dito algo sobre segredos de Estado. Vamos acabar logo com isso?

– Claro... – disse Chanyeol. Ele parecia escolher as palavras com cuidado. – Tudo bem, mas primeiro me diga. O que você sabe sobre o vírus? Ou sobre o apocalipse em geral?

– Eu sei de várias teorias. Algumas bem ridículas.

– Uma delas era mais popular, você se lembra?

Baekhyun acenou com a cabeça, e só depois percebeu que Chanyeol queria que ele falasse.

– Era sobre como a economia mundial estava prestes a entrar em colapso, porque havia muito mais pessoas aposentadas do que gente trabalhando, e isso estava sobrecarregando a previdência de todos os países. Aí os governos supostamente criaram um vírus especial para matar todas as pessoas com mais de 75 anos. Mas algo deu errado, o vírus mudou ou sei lá, e atingiu todo mundo. E não só matou, mas fez todo mundo se transformar nesses zumbis. Então, isso é verdade?

– Algumas partes, sim – Chanyeol tomou a palavra. – A parte da crise econômica mundial foi real, e os motivos também. Havia sim um desequilíbrio gigantesco entre o número de trabalhadores e o de aposentados. E os governos realmente se uniram para tentar solucionar o problema através da ciência e da biomedicina. Mas na verdade o que eles queriam era aumentar a expectativa de vida. Aumentando os anos das pessoas, elas poderiam trabalhar por mais tempo, e isso resolveria os sistemas de aposentadoria no mundo inteiro.

– E como você sabe disso?

– Meus pais – o maior explicou. – Eles era biomédicos e foram chamados para integrar a equipe de cientistas que cuidaria desse projeto. Inicialmente, eles queriam criar uma droga capaz de dobrar a expectativa de vida de 80 para 160 anos. Meus pais estavam animados com a oportunidade, trabalhavam dia e noite nisso e eu quase não os via… Mas eles perceberam algo errado, uma mutação na droga.  Ela não estava aumentando a vida em si, mas estava dando condições de um organismo continuar ativo mesmo depois de morto.

Baekhyun não se importou em ser indelicado.

– Então seus pais criaram isso? 

– Não! – exclamou o garoto. – Eles quiseram interromper o projeto assim que viram o que estava acontecendo! Mas os outros cientistas não, eles estavam cegos pelo orgulho e a possibilidade criar imortalidade. Meus pais ameaçaram ir a público mas não tinham respaldo do governo e nem da própria classe, como alguém acreditaria neles? Só seriam ridicularizados. Mesmo assim, os cientistas ficaram com medo que as declarações dos meus pais gerassem repercussões, e mudaram de tática. Ao invés de criar uma droga, fabricaram um vírus. Dessa forma, ninguém teria a opção de não ser afetado.

– Isso é horrível – lamentou Baekhyun. – Quem brinca com a vida das pessoas assim?

– Exato, e meus pais não quiseram ser cúmplices disso. Quando eles viram que o projeto seria continuado de qualquer forma, eles começaram a trabalhar secretamente em um antídoto. Foi fácil porque eles tinham todos os dados, era o trabalho de suas vidas afinal. Mas como eles não tinham mais o apoio dos Estados, ficaram sem recursos. Não tinham mais tecnologia de ponta, nem dinheiro, e nem cobaias. Eu tive que ser a cobaia dos experimentos deles. 

– E é por isso que você é imune… – deduziu o menor.

– Sim. Quer dizer, eu não tive a confirmação de que as vacinas e os antídotos que eles me fizeram tomar eram eficazes até o apocalipse estourar, digamos assim. Mas deu certo. Eu fui mordido dezenas de vezes e nada nunca me aconteceu. Sou imune.

– Uau, isso é… muito para absorver – Baekhyun reconheceu. – E seus pais? Eles também eram imunes?

– Sim, mas… depois que a informação que eles estavam trabalhando em um cura vazou, eles começaram a ser perseguidos. E eu fui morar nos dormitórios da faculdade, porque assim eu não seria envolvido, e eles tiveram que se mudar com frequência. Em uma dessas fugas eles capotaram o carro. Não sei se foi um acidente real ou de fachada, mas não importa. Eles morreram, de qualquer jeito.

– Oh, Chanyeol. – Baekhyun, pela primeira vez desde que sentaram para conversar, se aproximou do garoto. Envolveu suas mãos no cabelo dele e acariciou ali, antes de continuar. – Eu lamento muito. Me desculpe por ter trazido este assunto à tona. 

– Tudo bem. Já faz muito tempo, e eu tenho muito orgulho deles. Se não fosse por eles, eu não estaria aqui. Não teria te conhecido também, porque teria morrido na primeira semana – ele riu. 

– Tenho certeza que eles também teriam muito orgulho de você, garoto. 

– Obrigado, Baek. Bom, você queria a história completa. Acho que é isso.

Chanyeol não cobrou um posicionamento ou uma resposta do menor. Ele parecia entender que Baekhyun precisava de um tempinho a mais para assimilar tudo o que lhe foi dito. Baekhyun se aproximou ainda mais e deu um forte abraço em Chanyeol, em sinal de gratidão. Organicamente, o abraço se transformou em carícias, e depois em beijos. Quentes.

 Os dois se deitaram e começaram a arrancar as roupas um do outro. O olhar de Baekhyun foi direto até a cicatriz de Chanyeol, mas dessa vez sem julgamentos. Apenas curiosidade. Eles não puderam levar as investidas para além de alguns toques maliciosos, afinal estavam exaustos, mas concordaram silenciosamente em dormir de conchinha.

E a conclusão daquele assunto tão importante ficou para o dia seguinte. 

 



 

 


 

Baekhyun foi o primeiro a despertar. 

Seu despertador interno não falhava: sempre o acordava nas primeiras horas do dia. Ele aproveitou a calmaria da manhã para colocar seus pensamentos em ordem e, claro, teve que se distanciar de Chanyeol para fazer isso. O garoto era uma distração. Ele estava enrolado nas cobertas mas tinha uma parte do peitoral largo e forte à mostra, e estava tão quentinho e convidativo… Foco, Byun. Aquele não era o momento ideal para descarregar todo o seu libido.

O menor então deixou a cabana e foi até a margem do rio que cortava a colônia. Ele repassou tudo o que Chanyeol lhe disse enquanto se lavava, esperando que a água também o ajudasse a abrir e renovar sua mente. A questão não era mais se acreditava em Chanyeol – depois de tudo que havia feito, isso era meio óbvio. A questão agora era como proceder com todas aquelas informações novas.

Sendo completamente honesto consigo mesmo, Baekhyun já sentia que o garoto tinha algo de especial. Sua primeira impressão dele foi que ele emanava vida e que parecia intocável até para os zumbis. Era fácil lidar com essas ideias quando eram, bem, apenas ideias, fragmentos de imaginação. Mas agora que teve a confirmação de que eram reais, Byun não sabia o que fazer. 

Devia contar aos outros colonos, ou a Junmyeon? Devia dar ao garoto a chance de provar que era imune, como ele mesmo sugeriu durante a missão? Ou devia simplesmente seguir com a sua vida, fingindo que não sabia de nada? A Exodus, uma colônia tão orgulhosa de seus protocolos, não tinha um código de como agir nessa situação, e as incógnitas eram tantas que deixaram a cabeça de Baekhyun latejando.

Enquanto o pequeno líder se banhava, uma cena o deixou ainda mais reflexivo. As  crianças mais velhas da colônia saíram de suas casas, e aproveitaram o Sol da manhã para brincar no gramado. Eram tão inocentes, pensou Baekhyun. Eram literalmente filhos da resistência, e lhe parecia cruel nenhuma delas tivesse a chance de ser imunizada, como Chanyeol foi. Se ao menos existisse um jeito de entender como o organismo de Chanyeol funciona...

Baekhyun arregalou os olhos. 

Lembrou-se de algo o deixou sem chão, ao mesmo tempo que se tornou o seu eixo de gravidade.

 Porra, é claro!!

Ele correu até a sua cabana, terminando de se secar e se vestir enquanto se movia. Ele ignorou alguns dos colonos no caminho até a sua casa, mas foi por um bom motivo. Não podia deixar aquele pensamento se perder. Quando chegou no destino, abriu e bateu a porta da frente com tanta força que acordou Chanyeol. Perfeito, assim Baekhyun poderia ir direto ao assunto:

– Acha que é possível desenvolver uma vacina? 

– O que? 

Chanyeol soou tão perdido, que Baekhyun foi impelido a recomeçar. 

– Eu acredito no que você me disse. Aliás, tenho a impressão que sempre soube que você é imune. Mas, acha que é possível imunizar outras pessoas? Talvez usando o que está no seu organismo para criar uma vacina?

Chanyeol demorou alguns segundos para responder, processando cada palavra.

– Baekkie, os cientistas eram meus pais, não eu. Eu não sei.

– Mas você acompanhou seus pais na descoberta deles. Deve saber de alguma coisa. 

– O que eu saberia? – questionou o maior. Estava levemente irritado. – Eu estudava publicidade antes do fim do mundo, não posso dar uma parecer técnico sobre isso. Se tivéssemos alguns cientistas, sei lá, talvez sim– 

– Então só precisamos de cientistas? – interrompeu Baekhyun.

– Eu acho que sim, mas todos os que eu conheci já viraram comida de zumbi há muito tempo. Por que? Você conhece alguém? 

Baekhyun quis rir. Ele conhecia uma colônia inteira de cientistas. 

A Red Force era uma colônia composta por médicos, biólogos, físicos, e pesquisadores das mais diversas áreas. Eles eram a elite intelectual dos remanescentes do apocalipse, e faziam questão de se comportar como tais: não se misturavam com outros sobreviventes, não dividiam seus recursos e descobertas, e viviam encastelados em seus laboratórios, tentando encontrar uma cura para a epidemia. 

É claro que Park, um sobrevivente recém reinserido na sociedade, não saberia deles. 

E, dada a oportunidade, o próprio Baekhyun gostaria de esquecer que aquela colônia existia. 

Byun havia tido problemas com todos os membros do grupo, mas um cara em especial era seu pesadelo em forma humana. Era a pessoa mais esnobe, egoísta e nariz empinado que conheceu, e era o principal motivo de Baekhyun preferir ser morto por uma centena de zumbis a ter que voltar para o território deles. Mas, da forma como as circunstâncias se apresentaram, Baekhyun sabia que a melhor opção era ir até lá, mesmo que isso significasse reabrir algumas feridas do passado. 

Assim, estava decidido: precisavam ir para a Red Force.

Precisavam ir para a colônia do ex-namorado de Baekhyun.


 


Notas Finais


O único aviso que tenho dessa vez é que eu não tô satisfeita com os títulos dos capítulos e tô mudando eles direto, mas ignorem porque não vai afetar a história.

Mil desculpas pela demora mais uma vez, e pelos errinhos que passarem também.

Como continuamos nesse limbo de transição para uma SCI FI, quero muito saber o que vocês estão achando <3

Bjs e até!


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