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História Até que você não esteja mais triste - Capítulo 1


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Notas do Autor


Espero que gostem!

Capítulo 1 - Capítulo 1:


Estar no escuro havia se tornado uma espécie de conforto para Vicente. Um dos poucos que ele não tinha vontade de abrir mãos, era como se ao deixar todas as luzes de seu apartamento desligadas e se concentrasse no silêncio, ele pudesse esquecer-se de todos os seus problemas. Seu estômago implorava por comida, mas ele não sentia fome, ele sabia que tinha de se levantar para tomar um banho, mas suas pernas estavam parecendo pasta.

Faz três dias que eu não como, ele se lembrou, sentiu vontade de suspirar, mas a reprimiu, pois isso acabaria com seu precioso silêncio.

Vicente ouviu o barulho da porta, alguém estava tentando entrar. Uma pontada de ansiedade esquisita o atingiu no peito, mas foi brutalmente esmagada quando ele se lembrou de que havia trocado a fechadura recentemente. A porta abriu, ele ouviu fungadas e um suspiro de desgosto.

Logo em seguida a luz de seu quarto se acendeu, a claridade repentina feriu os olhos do rapaz, ele gemeu incomodado.

— Cara, você está péssimo. –disse Matias, seu melhor amigo. Nome de herói: “O Louco”. –Quanto tempo faz que não limpa esse lugar? E não toma um banho? Meu Deus...

Vicente não respondeu; muito esforço. Ele se sentia cansado até mesmo para formular as palavras em seu cérebro. Matias parecia estar falando debaixo da água.

— Olha, Vicente, eu sei que esses últimos anos não tem sido fáceis. Com sua estreia, seu pai adotivo e... A Alicia, mas você é o “Campeão”, cara. Você precisa se reerguer, tem pessoas te esperando lá fora.

Vicente sabia disso, ele sabia muito bem. Apenas ouvir seu nome de herói já era o suficiente para fazê-lo ter ânsias, ele sabia que as pessoas o estavam aguardando, mas tudo parecia tão trabalhoso... Ele estava tão letárgico e bem em sua cama.

Vendo que não teria resposta, Matias se sentou na beirada da cama.

— Escuta. Sua mãe está preocupada, ela não para de me mandar mensagens, diz que você não atende os telefonemas.

Ele se remexeu retirando o aparelho debaixo de seu corpo.

— Está descarregado.

— Há três dias? –ele conseguia sentir as pontadas de sarcasmo de Matias.

— Mais ou menos.

Outro suspiro, um som de latinha se abrindo, característico de gás escapando. Matias parecia estar tomando longas goladas de cerveja, os dois se conheciam bem o suficiente para que Vicente não precisasse se virar para saber que era cerveja.

— Me dê o seu celular. Eu vou carrega-lo para você.

Matias tomou o aparelho da mão de seu amigo, rumando para o canto do quarto onde um carregador estava plugado há tomada. Depois retornou ao lado de Vicente bebericando sua cerveja.

— Eu quase sinto raiva da Alicia. –disse Matias suspirando.

— Não sinta, pode ser difícil de acreditar, mas o maior culpado fui eu.

— Parece que eu não vou conseguir te ajudar...

— Parece que não.

— Acha que está doente?

Era uma pergunta idiota, mas também o medo profundo de Vicente. Ele era o Campeão, mesmo que não soubesse mais o que aquilo significava, mesmo que campeão fosse à última coisa que ele parecesse agora. Não podia estar doente, depressivo, porque isso não era trabalho do Campeão.

— Não sei...

— Entendi. Não pense que eu desisti de você cara, eu vou continuar te enchendo o saco até você sair dessa porra de cama. –e lá estava o hábito de Matias de começar a xingar quando ficava levemente bêbado. –Mesmo que...

O celular dele tocou ruidosamente pelo apartamento, fazendo Vicente gemer de irritação. O silêncio agora completamente destruído, Matias estalou a língua, mas ao ver quem estava ligando (ou mandando mensagem), sua expressão suavizou.

Ele saiu do quarto de Vicente ainda deixando as luzes acessas; por alguns segundos, o Campeão pensou em se erguer para apaga-las, mas a cama parecia uma armadilha mortal naquele momento. Ele não sairia dali, Matias retornou logo depois.

— Era a Erica. –ele disse terminando sua cerveja. –Amanhã eu volto, vê se joga aquela coisa da cozinha no lixo, não sei quem fez, mas não dá mais para comer.

Matias apagou a luz do quarto do Campeão novamente. Mas o Louco era conhecido por ter ideias, muitas ideias, algumas não tão boas quanto outras, o fato era que naquele momento ele se sentia um gênio.

Enquanto ia embora do apartamento de Vicente, ele digitou uma mensagem aleatória para uma pessoa, finalmente desligando o celular logo depois.

*

Vicente continuou enrolado em sua bola de torpor, já devia estar tarde. Ou era nisso em que ele acreditava, mas a percepção do tempo ficava meio distorcida na cama, ele tinha que admitir.

Ele ouviu alguém entrando, franziu o cenho sabendo que não poderia ser Matias novamente, já que ele estava com sua namorada.

Sua mãe também estava fora de questão, ela morava do outro lado da cidade. As luzes se acenderam de repente em seu quarto. Um assalto?

— Uau! Você parece estar mesmo na fossa, Vicente! –uma voz animada exclamou. De repente o cobertor que ele estava usando para se enrolar foi arrancado dele com força, o ar frio penetrou seu corpo. –E fedendo... Você precisa de um banho.

Pela primeira vez em três dias, Vicente esboçou uma reação. Mesmo que não fosse a esperada.

— Estela? O que está fazendo aqui? –indagou o rapaz confuso.

Bem na sua frente, com as mãos na cintura e o cobertor que ele usava antes aos seus pés, estava Estela “A Estrela”; a heroína com o maior ranking do Brasil, sendo top 3 nacional.

Os dois já haviam feito uma ou duas missões juntos. E ela ainda estava usando as roupas escuras que o Instituto disponibilizava para que os heróis fizessem missões. O traje tinha muitas funções, como reter calor e camuflagem, só era um pouco apertado e o de Vicente não era lavado fazia um tempo.

Os cabelos castanhos de Estela estavam penteados num rabo-de-cavalo, seus olhos estavam vasculhando o quarto de Vicente com curiosidade, eles tinham um tom estranho entre o azul e o violeta, provavelmente uma mutação.

— Eu vim ser sua heroína! –exclamou Estela fazendo uma pose heroica.

Vicente ergueu uma sobrancelha, claramente confuso. Não que alguém pudesse julgá-lo.

— Fizeram um anúncio anônimo no site do Instituto. –explicou a mulher puxando seu celular e mostrando uma postagem dizendo que Vicente precisava de ajuda.

Claro, era anônima, mas estava claro que quem tinha feito isso era Matias. Ele e sua mãe eram os únicos que sabiam de sua situação, sua mãe era péssima com internet. Apenas o Louco faria algo assim.

Nota mental: socar Matias ao encontra-lo.

— Eu estou bem. –Vicente disse, não era muito convincente dada sua situação atual.

Estela ergueu uma sobrancelha fina, provocativa.

— Estou vendo. Muito bem, parece um zumbi.

Vicente grunhiu, pensando em maneiras de torturar Matias.

— Eu posso me virar sozinho.

No segundo em que disse isso, Vicente se arrependeu amargamente. Tudo em seu apartamento era um argumento sólido de que ele era sim um zumbi e não poderia se cuidar sozinho. Inclusive, Estela começou a olhar em volta.

Ela suspirou.

— Vicente, você sabe qual é o nosso trabalho? –ela indagou de repente, fitando o rapaz.

— Intervir em casos que a polícia não consegue lidar, patrulhar e derrotar criminosos que usam habilidades sobrenaturais...

— Sim. –sua expressão se fechou numa carranca, ela não deveria estar esperando uma resposta tão longa. –Mas tudo isso pode se resumir há ajudar os cidadãos a viver suas vidas bem. Certo?

Vicente assentiu, era uma visão simplista, simplista até demais, porém, ele ficou interessado em saber para o que esse pensamento iria evoluir.

— Mas quem ajuda os heróis quando eles não estão em paz? –Estela perguntou cruzando os braços. –Somos símbolos, não podemos demonstrar nossa fraqueza em público. Não podemos ser emocionais, isso é um trabalho. –ela começou a chegar perto e estendeu uma mão para Vicente. –Se você está com problemas e precisa de alguém para te ajudar, Campeão, eu serei sua heroína.

*

Ele se perguntou como a situação havia evoluído para aquilo. De “eu serei sua heroína”, para, “eu vou te dar banho”. A questão é que aquilo nunca tinha acontecido com Vicente.

No momento ele estava sentado em sua banheira, mergulhado até quase o pescoço para esconder qualquer parte comprometedora de seu corpo, enquanto isso, Estela estava atrás dele, vestindo uma camisa engraçada que ela encontrara no guarda-roupa do rapaz com os dizeres: “A BLUSA DO CAMPEÃO”!

Ela esfregava o cabelo de Vicente com shampoo. Fazendo cócegas em seu couro cabeludo, parecia estar admirada com a maciez dos fios loiros do rapaz, pois vez ou outra soltava uma exclamação engraçada.

— Onde exatamente isso entra em cuidar de mim? –ele quis saber, enrugou a testa mesmo que Estela não pudesse ver isso.

— Bom você não tomava banho fazia um tempo. –respondeu a mulher sorrindo. – Que maneira melhor de me certificar do que eu mesma te dando um banho?

Ele não queria admitir, mas a sensação de ter mãos pequenas como as de Estela acariciando seu cabelo era agradável. Para dizer o mínimo, na verdade, ele não sentia arrepios assim fazia um tempo. Desde que começara a namorar Alicia.

Água quente espirrou em seu rosto enquanto Estela enxaguava seu cabelo, suspirando satisfeita.

— Terminamos. Termine de se lavar e vá até seu sofá.

Vicente assentiu, esperando Estela sair de seu banheiro para afundar até a cabeça na água quente, esperando que a sensação de fraqueza e tontura fosse sobrepujar aqueles arrepios estranhos que passavam pelo seu corpo.

Ele terminou de se lavar, se secou e vestiu roupas limpas. Foi até o sofá onde encontrou Estela parada com uma toalha grande para secar seu cabelo; ela deu dois tapinhas no espaço ao seu lado, ele se sentou ali.

Aquela situação parecia tão estranha, mas tão reconfortante.

— Você devia cortar o cabelo. –Estela interrompeu seus pensamentos com esse comentário. –Você fica com cara de mauricinho quando está de cabelo curto, é bom para sua imagem.

Mauricinho? Ele não sabia se isso era bem um elogio.

Estela terminou de secar seu cabelo, correndo em direção ao seu quarto com uma sacola vermelha, grande que ele nem viu por estar na sala de estar. Vicente olhou para o prato de comida que sua mãe havia cozinhado para ele, no primeiro dia na bancada havia esfriado completamente, agora estava podre.

Jogou aquilo fora pensando em como iria se desculpar com sua mãe. Sentiu um nó no estômago, realmente deveria comer alguma coisa antes que desmaiasse.

Estela surgiu no corredor usando um vestido que apesar de ser preto e liso, a deixava deslumbrante. Sua tez pálida contrastando com a vestimenta, ela percebeu que Vicente estava encarando, e girou levemente. O vestido acompanhou seu movimento.

— Vamos?

— Para onde? –quis saber o rapaz, confuso.

— Comer. Eu tenho uma ideia de onde podemos pegar comida agora. Você vai passar a noite no meu apartamento hoje.

Vicente quase engasgou com a própria saliva. Estela estava agindo muito estranha, ela já era animada quando os dois faziam missões juntos, mas nunca daquela maneira. Bizarro.

— Você está maluca? Eu não posso aceitar isso, posso pedir algo pela internet, ou sei lá.

— Eu não me arriscaria a comer nesse lugar sujo. Vamos! Vai ser divertido, podemos assistir a um filme e amanhã é sábado mesmo.

Será que ele deveria avisar para Estela que os heróis também patrulhavam no sábado? Mesmo assim, ele não queria destruir aquela bolha saltitante de energia em que a mulher havia se tornado, por isso hesitante, aceitou o convite.

— Vamos...

*

Ele descobriu que o apartamento de Estela ficava muito próximo do seu, ele apenas tinha que virar uma rua; eles não pararam ali imediatamente, foram para um restaurante de comida japonesa, pegaram um vinho e só então entraram no prédio muito mais luxuoso da mulher.

Vicente se perguntou qual era a diferença salarial de uma top três para um top cinco, mas devia ser muito alta.

O apartamento era aconchegante, Estela retirou os sapatos na entrada, Vicente seguiu o exemplo e fez o mesmo. Ela colocou um filme genérico de ação na televisão, preparou os pratos e o vinho.

Os dois comeram em silêncio, vez ou outra Vicente lançava um comentário sarcástico sobre o filme e ela ria em resposta. Ele estava começando a se sentir alterado pelo vinho, feliz, mas meio grogue. Sua visão embaçou quando ele terminou de comer, os dois continuaram tomando a garrafa até que ela esvaziasse. Depois tudo foi um borrão.

*

Estela acordou com braços fortes a cercando, abriu seus olhos confusa sentindo a superfície fria do chão e um calor estranho a envolvendo por trás protetoramente. Olhou ao redor e viu que Vicente e ela tinham dormido no chão, ficou surpresa ao notar o quão forte o rapaz era.

Sentiu-se tentada a se aconchegar mais no aperto do rapaz, voltar a dormir, mas sabia que isso era errado.

Usou seu poder para coloca-lo no sofá, depois bocejando foi ao seu quarto se deitar, ainda era madrugada.

Ela demorou em pegar no sono, sentindo um formigamento estranho, um frio onde os braços de Vicente não estavam mais, porém, finalmente fechou seus olhos bocejando satisfeita e adormeceu.


Notas Finais


Foi isso pessoal, espero que tenham gostado do primeiro capítulo!


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