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História Atemporais - Capítulo 1


Escrita por: AnneSaintCipriano

Capítulo 1 - Presságios


New Orleans - 2015

 

Uma mansão de madeira com pintura branca descascada em um campo esquecido da civilização. O cheiro de árvores, flores e terra que invadem com suas raízes pelas janelas no estilo francês. Corredores com pisos de madeira escura que brilham tanto que parecem ser encerados. Os móveis requintados, refinados e antigos cujo o tempo pelo cuidado quase devoto de minha vó parece não ter passado. É como estar no passado mesmo no nosso século e é uma imersão quase mágica. Quando passamos as férias de verão aqui é proibido trazermos nossos celulares, computadores e qualquer coisa que nos tire dessa sensação de conhecer como nossos ancestrais viveram.

Não há televisão, luz elétrica e é tudo como século passado.  Sendo assim, meus primos quando cresceram pararam de vir, eu não, eu amava tudo isso e o jeito antiquado até mesmo nas necessidades fisiológicas do nosso corpo. Eu ordenhava as vacas, tirava água do poço para tomar banho; lavar as louças, fazer comida, cuidava das plantas e da horta. Alimentava os porcos e as galinhas, assistia vovó matar os animais que seriam nossa carne. Era bem divertido menos para alguns de nós que se tornaram vegetarianos. A única coisa permitida era livros, sem nada tecnológico, papel impresso e eu aproveitava para colocar a leitura em dia que se acumularam em casa e os quais eu sempre comprava dizendo a mim mesma que ia ler depois.

Eu sou a única neta para quem vovó Marie mostrou seus tesouros mágicos, vidros repletos de mistura de ervas e coisas que desconheço.  E o mais legal, o livro de feitiços da família com vodu e outros tipos de magia. Eu conheço suas entidades e sei invocá-las, os feitiços mágicos com bonecos e até feitiços sobre transmigração. Eu não tenho uma religião como os meus primos então minha cabeça é aberta a todo tipo de coisa. Não que os feitiços sejam verdade, mas eu nunca testei para saber mais por medo de que dê certo do que qualquer outra coisa. A mente humana é mesmo limitada. Bem, sou mesmo medrosa. Não sou cética. Eu via fantasmas e vultos quando era criança, eu acredito em Deus.  Não é culpa minha que eu me fascine pelo oculto mas quando a coisa fica séria saia mesmo correndo e orando.

Enquanto vovó e eu caminhamos pela casa, eu largo minha mala na sala de visitas, eu paro em frente ao quadro do homem bonito que me fascina. Ele é branco, seu cabelo é escuro, segura uma bengala como os homens antigos de estirpe e sua pele é branca como a minha.

Vovó para e apenas me encara com repreensão.

— Ele é nosso inimigo apesar de que este nunca ousaria nos fazer mal. Esse quadro é um aviso, Lea. Se alguma vez na sua vida vir esse homem, evite-o como se a morte estivesse atrás de você.  — Ela repete apontando o dedo ossudo para imagem.

— Correr de um homem gato desses? Impossível. — Me vejo falando. — Eu faço é correr para ele.

Senti um tapa bem dado na minha cabeça. Caramba, a velha ainda tem força. Ela me encara furiosa e logo a expressão se abranda e ela tenta não sorrir, mas é inevitável.

— É mesmo minha neta. Você sempre teve mais curiosidade do que bom senso, Lea. — Resmunga vovó com os olhos enrugados arregalados e apenas sorri negando com a cabeça. — Eu era como você quando era mais nova. — Comenta mais para si. —Ainda viu algo que a assustou, criança amada?

Ela me sonda cuidadosamente. Minha pele difere da dela e da de meus primos porque meu pai branco como arroz, é assim que a vovó o chama, arroz, mas é algo carinhoso vindo dela e comigo é lua, ela me chama de sua lua, me sinto honrada considerando que vovó é meio bruxa e sei que bruxas gostam da lua. Mas vovó foi a única que nunca me fez sentir essa diferença nas nossas cores já que meus primos eram cruéis.

— Hm... não tanto e se vejo ignoro como me disse que era para fazer e eles apenas me ignoram de volta porque pensam que não os vejo. — Respondo.

 — Bom, querida. Mas vai ficar mais forte assim que eu me for e em algum momento você não vai saber discernir um espírito de um humano porque a imagem deles ficará mais nítida. — Ela resmunga e volta a andar. Passamos pelo elegante corredor com pinturas dos meus ancestrais até o porão da casa, descendo as escadas e ela acende uma luz puxando uma cordinha. Quando chegamos ela me entrega o livro velho, com capa de couro envelhecido e com o triskelion desenhado na capa.

— Minha herança para você. — Ela me estende e diz isso sem me olhar. — Os espíritos ancestrais vão proteger você como me protegeram de tudo o que te assombrar já que você é a guardiã.  Escolhi você não só porque pode ver além do véu, mas porque você me amou como nem mesmo os meus filhos o fizeram e seu amor por mim me fortaleceu muito e me deu mais vitalidade. Os outros podem ficar com a minha riqueza e todo o resto, eles vão se digladiar por meras posses terrenas de qualquer forma, mas meu maior poder  é para você, esconda o livro se necessário. Apesar de que conhecendo minha prole como conheço sei que não importará para eles algo tão velho e sem valor. — Eu me nego a pegar o que me é ofertado e ela sorri compreensiva e amorosa. Eu sei o que isso significa e meus olhos se enchem de lágrimas. — Pegue criança teimosa. É com você que quero que fique. Você é a única de todos os meus netos que me fez sentir vontade o suficiente de ensinar tudo o que sei e que acredita mesmo temendo que há muitos mistérios no mundo.

 — Mas vovó...

— Por favor, Lea. É meu último pedido a você, criança amada. O grimório da família é seu, meus ensinamentos e os de seus ancestrais e quem sabe você não faça seu próprio livro das sombras com esse talento que tem para criar e escrever.

— Vovó... a senhora sabe o quanto te amo? — Pergunto tentando suprimir o choro.

É claro que sei, eu sinto seu amor me rodeando e é tão poderoso. Minha morte está chegando, Lea. Se prepare e seja forte. Se você ficar abalada, atrairá coisas muito ruins. Seu dom depois que eu me for irá piorar muito e então ele virá. Se o vir no meu velório e no meu enterro deixa que ele se despeça de mim e empregue seus respeitos.  Mas se o vir depois disso, peça ajuda aos espíritos ancestrais e para que eles te protejam.

 — Quem virá vovó? — Questiono.

— O homem do quadro. — Responde ela calma.

— Impossível. O quadro foi pintado em meados do século XIX. É o fantasma dele ao que se refere?

Ela apenas sorri misteriosamente olhando para mim.

— Carne congelada no tempo, ossos inquebráveis... e com certeza muito sangue que não o pertence. — Murmura ela com repreensão. — Venha, vamos. Essas férias você irá preparar as coisas para mim como eu quero que fiquem. É sua forma de me honrar.

...

Aconteceu como a vovó disse. Foi no fim das férias. A imagem pacifica dela no caixão não me causou asco, terror ou desespero como achei que o faria. Era o começo da noite como ela exigiu apesar de ter morrido de manhã. Foi eu que a encontrei na cadeira de balanço sem se mover e na varanda da casa com uma expressão serena e um sorriso gentil.

 Ela me preparou tão bem que eu não chorei. Eu podia sentir ela comigo de uma forma inexplicável. Eu sei o quanto a amei em vida e o quanto a amo mesmo ela tendo ido para “o desconhecido pais de cujas raias nenhum viajante ainda voltou”. E mesmo que eu viesse apenas nas férias ficar com ela, eu sei que fiz o meu melhor para aprender seu legado e honrá-lo. A minha mente está em paz e sem qualquer arrependimento ao contrário destes a minha frente que choram desesperadamente.

— Está tudo bem, querida? — Papai me pergunta tranquilo também apesar de ele amar vovó como eu. Ela foi a mãe do amor da vida dele.

— Estou em paz. — Murmuro e minha voz está um tanto embargada. — É estranho eu não chorar como eles, não é? Devo parecer alguém sem sentimentos.

— Não. Nunca diga isso. Eu sei que você sente como ninguém. — Responde ele com a mão na minha. Como não amá-lo?  Ele sempre acreditou em mim quando eu dizia o que via e minha madrasta não veio hoje porque não queria causar desconforto a família de minha vó apesar de vovó também gostar muito dela. — Quer dizer que ela ainda vive e que você a sente como aconteceu com sua mãe. Elas estão cuidando de você, meu pequeno anjo. A dor vem quando nos arrependemos de não termos sido melhor e quando achamos que a morte é o fim. Mas você sempre soube que não é o fim.

Eu assinto com a cabeça.

— Sua avó te amava muito, Lea. — Papai acrescenta me fitando preocupado. — Sabe disso, não é?  Não tem nada de errado com você por não chorar, compreende isso, não compreende?

— Sim papai.

Ele beija minha testa e solta minha mão indo falar com meu tio Marlon. Eu continuo sentada na cadeira apenas olhando para o caixão na cor preta revestido de veludo vermelho.

Então eu sinto o vento mudar, o som nas folhas das árvores se agita. O cheiro de algo inexplicável impregna minhas narinas enquanto o cavalheiro de terno antiquado que parece mais uma casaca entra na casa onde ocorre o velório com a sua bengala e é como se o tempo parasse. Seu cabelo é até a altura dos ombros e de um tom escuro que parece mogno e é viçoso. Sua pele tão pálida que parece esculpida da própria lua.  Seu rosto oval quase feminino apesar do maxilar forte que não é tão predominante. Os olhos azuis capturados por algum artista ligeiramente puxados, não há barba em seu rosto ou a mera sombra de quando um homem se barbeia, parece um jovem rapaz na puberdade. É o homem do quadro! Não, não vou surtar agora. Vou ignorar qualquer pensamento racional. Vovó avisou que ele viria.

Ele cumprimenta as pessoas friamente com acenos que não são desse século e chega perto do caixão. Suas mãos estão cobertas com luvas brancas. Ele tira o seu chapéu estilo cartola num cumprimento a minha vó e seus olhos que me remetem ao mar revolto se encontram com os meus com estranhamento e assombro.

 

 Evangeline?

Nego com a cabeça o respondendo. E ele sorri resignado.

Peço que me desculpe. É  com dificuldade que noto  que o passado já se foi. A senhorita deve ser a Lea. Sua avó me falou muito de você. É um prazer conhecer a nova guardiã da família.

Vovó falou de mim?

Ele confirma com um gesto suave ainda do outro lado da sala e com os olhos em mim. Só noto agora que nem abri a boca para essa conversa.

Você me ouve? Como? Nem estou falando ou movendo os lábios...

Te escuto claramente.  Lamento sua perda. Sua avó te explicou a trégua, não explicou?

Trégua?

Tenho livre acesso em dias como esse Lea.  Aniversários, velórios e enterros.

Você é da família? Algum parente distante?

Não. Você entenderá conforme o tempo passar. Sou um amigo da família apesar de seus ancestrais preferirem me manter distante.

O que você é? Havia um quadro seu na parede e era do século XIX... É tipo o Dorian Gray? Fez um pacto para ficar jovem?

Ele me cede um curvar de lábios e arqueia a sobrancelha com o que parece ser surpresa.

Uma fã de Wilde? Se souber o que sou outros virão atrás de você. E eles não são amigáveis como eu. Não é melhor deixar as coisas como estão, criança petulante?

Não. Eu exijo agora que me conte o que é. Com trégua ou não pedirei aos meus guardiões para te expulsarem daqui.

Audaciosa! Deveria prezar mais por sua vida. Sua avó sabia o que era respeito, contudo a senhorita é ...

Não perguntarei mais o que você é. Apenas responda uma pergunta que está relacionada comigo e não a você. O que me diz?

O farei pelo respeito que tenho pela sua linhagem. Faça sua pergunta.

Por respeito a quem nos visita e presta seus cumprimentos em aniversários, velórios e enterros?

Evangeline.

Ela era sua amada?

Você fez duas perguntas. Contudo, irei te responder. Evangeline era minha parte que continuou mortal, Lea.  E vocês são o que me restaram dela. Entenda como quiser. Adeus.

Espera! O enterro será amanhã à noite, vovó exigiu que assim o fosse. Você vai?

Ele me encara por um tempo.

Nos vemos lá. Até breve, Lea.

 

 

 

 



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