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História Atitudes Valem Mais do que Palavras - Jikook - Capítulo 13


Escrita por:


Notas do Autor


Oiee
No cap de hj os Vmin vão ter muita interação fofinha gente :3
Enfim, espero que gostem.
É só isso, beijos❤💕😘

Capítulo 13 - Explicações no hospital


Já acordei extremamente revoltado, porque tomei o maior susto com meu celular apitando rapidamente. A questão era que eu não me lembrava de ter colocado despertador. Não, espera, eu definitivamente não coloquei despertador. Abri os olhos com certa dificuldade, encarando novamente o rosto adormecido de Jungkook, que parecia não expressar nada com o barulho incessante. Como não queria acordá-lo, fiz o maior esforço para sair da cama sem me mexer demais. Me levantei, e fui andando na ponta dos pés até a cômoda para ver o que estava acontecendo.

Não era um despertador. Era uma ligação. Da minha mãe. Não sabia muito bem o que a minha mãe queria comigo levando em conta que ainda eram 8:30. Mas resolvi atender, já que não tinha muita escolha.

-Alô? – falei, mas minha voz parecia mais a de um morto-vivo recém-saído da cova.

-Jimin? – ela perguntou, e pude perceber uma certa preocupação em seu tom de voz.

-Oi, mãe. A senhora sabe que horas são? Você me acordou.

-Desculpa, mas é que...

-O que foi, mãe?

-Bem, aconteceu uma coisa. E...eu acho que você devia saber.

-Mãe, eu acabei de acordar, minha cabeça mal está processando as informações e a senhora ainda me vem com essa? Por favor, diz logo.

-Ok. Tem a ver com o Taehyung...

-O que aconteceu com ele?

-Bem, eu recebi a notícia hoje mais cedo, dos pais dele. Você...você se lembra daquela festa?

“Aquela em que aquele filho da mãe ficou bêbado e mandou um áudio me xingando? Sim, eu lembro.” pensei.

-A de ontem, que eu não fui? Sim, eu me lembro.

-Então...pelo que os pais dele me contaram, ele ia voltar para casa com eles, mas um menino, acho que de uns 18 ou 19 anos, sugeriu levá-lo para casa mesmo. Carona, sabe? Mas...esse garoto estava bêbado. Só que o Taehyung não sabia disso, eu acho, e aí ele foi dirigindo e... bateu o carro na parede de um beco sem saída.

Por uns segundos, meu coração pareceu parar de bater, eu parei de respirar, e não conseguia pensar em mais nada. Senti meu rosto ficar pálido, e minha boca não fechava. No exato momento que eu ouvi aquele áudio pela primeira vez, eu tinha mais do que absoluta certeza de que alguma coisa iria acontecer, e definitivamente não seria boa. Eu não sei o que aconteceu naquela festa, mas conheço Tae o suficiente para saber que ele não é do tipo que bebe escondido dos pais. E me arrependi de não ter ido também, pois eu podia garantir que isso não teria acontecido se eu estivesse lá.

-Jimin? – minha mãe perguntou, e me lembrei que ainda estava com o celular no ouvido.

-Por favor, me diz que ele não morreu. – falei, desesperado, já sentindo minha voz ficar fraca.

-Não, não, não, calma. Ele está vivo. – ela falou, apressada, e eu deixei um suspiro pesado e aliviado escapar da minha boca. E só aí que eu voltei a respirar.

-E... e como ele está?

-Bem, ele saiu vivo, mas quando a ambulância chegou, ele estava desacordado e com uma perna quebrada. Foi levado para o hospital. Os pais dele já estão lá.

Mordi meu lábio inferior com força, numa tentativa de me acalmar. Eu só não gritava ali mesmo porque não queria acordar ninguém naquela casa. Mas por dentro, eu enfiava minha cara num travesseiro e gritava até a minha garganta doer. Não conseguia me sair da cabeça a cena de Tae entrando num carro bêbado, com outros caras bêbados. Eu não conseguia lidar bem com aquilo. Não me veio outra coisa à mente a não se ir até o hospital falar com ele.

-Mãe, tem como o papai me levar lá?

-Agora?

-Sim. Saio daqui a pouco.

-Tudo bem, tudo bem, vou chamar o seu pai.

-Certo.

Encerrei a ligação e fui rápido para o banheiro trocar de roupa. Dobrei o pijama ridiculamente grande da melhor maneira possível, e deixei em cima do meu lado bagunçado da cama. Fiquei meio mal por sair sem me despedir, mas eu não ia acordá-lo. Então dei uma última olhada naquele rosto angelical adormecido, fui à escrivaninha, peguei um post-it e escrevi com a letra mais bonitinha possível:

“Desculpa eu ter saído cedo, meu amigo foi parar no hospital e eu fui ver ele. Longa história. Enfim, a gente se vê, beijos.”

Preguei na cabeceira da cama, perto dele, peguei o celular e o livro que ele ia me emprestar e desci as escadas. Hana já estava na cozinha, preparando algo com um cheiro muito bom.

-Já acordou, querido? – ela perguntou, sem soltar a frigideira, inclinando o corpo levemente na minha direção.

-Ah, desculpe, vou ter que sair. – respondi – Meu amigo está no hospital, e eu tenho que resolver uma coisa com ele.

-Tudo bem. Seus pais já sabem?

-Sim, sim, estão me esperando lá em casa.

-Certo. Jungkook já acordou?

-Não, ainda não. Ele pegou no sono mesmo.

-Ok. Olha, muito obrigada por ter ficado aqui. Isso foi muito importante para nós, e principalmente para ele.

-Não, tudo bem, não foi nada.

Dei um abraço nela e saí apressado, segurando o livro debaixo do braço. Atravessei o jardim da minha casa e bati na porta várias e várias vezes, até que meu pai rapidamente a abriu, tentando encontrar a chave do carro dentro do bolso.

-Oi, oi filho, vai, vamos logo. – ele falou, praticamente me empurrando, e eu saí correndo na direção do carro perto da calçada. – Anda, veste esse casaco.

-Mas eu já tenho um casaco...

-Meu filho, você sabe o frio que faz no hospital? Aquilo não são aparelhos de ar-condicionado, são geleiras que nem as do Titanic. Vai por mim, coloca mais um casaco e vai me agradecer depois.

-Ok... – não ia discutir com meu pai, então estava com um casaco amarrado na cintura e o outro ao redor do corpo.

Meu pai estava tão apressado quanto eu, mas não se esqueceu do copo de café e o sanduíche de queijo com margarina embrulhado num pacote de salgado. Eu nem pedi um pedaço, na verdade nem me toquei de que não havia tomado café da manhã. Eu, para falar a verdade, estava nervoso demais para ficar com fome.

Ele deu partida no carro e pisou fundo no pedal de acelerar, tudo isso com o pão na boca. Mal tinha terminado de colocar o cinto quando meu corpo foi praticamente jogado para trás pela velocidade.

-Pai...quantas horas o senhor dormiu?

Ele dramaticamente se virou para mim, mas se tornou cômico o jeito que ele me olhava ainda prendendo o pão entre os dentes. Ele o segurou com uma mão livre, deu uma mordida e colocou o restante no saco perto do copo de café. Engoliu e só aí falou:

-Quatro. Quatro horas.

-Meu Deus...por isso a cafeína.

-Sim. E estou me apressando, porque eu conheço hospitais. E daqui que você consigo lugar na fila para atendimento...

-PAI, O CARRO, PAI!! – falei, e por pouco meu pai não bateu na traseira de um Chevet prateado. Novamente meu corpo foi jogado para a frente, mas o cinto prendeu e pressionou de uma forma nada delicada meu abdômen. – Pronto, continua.

-Do que eu estava falando?

-Fila de atendimento.

-Ah, sim. Daqui que você arrume espaço, já estará na fila do almoço. E ele foi levado para o hospital mais famoso e usado da cidade, o que piora nossa situação.

-Ok, ok. Mas pai, pelo amor de Deus, tente não me fazer quebrar a perna também.

-Tá, eu vou tentar. A diferença é que eu não estou bêbado.

-É. Mas em compensação, está entupido de cafeína e com a adrenalina nas alturas por uma péssima noite de sono.

-Ora, se acalme. Vai ficar tudo bem.

-Tá..., mas só por precaução, você tem uma Bíblia em algum canto aqui?

Ele revirou os olhos e continuou dirigindo. Nos sinais vermelhos, dava um gole no café e uma mordida no pão, enquanto eu batia o pé com ansiedade no ritmo das músicas que tocavam no rádio. Rezei para que Taehynug já estivesse acordado, pois talvez não me deixassem entrar caso ainda estivesse desmaiado. Meus pensamentos eram quase sempre interrompidos com o meu pai mantendo o pé com força no acelerador quando a luz trocava para verde.

Depois de muitas ruas, três quase batidas numa moto, num carro e num caminhão de cimento, sustos após o sinal, o copo de café vazio e o pacote de salgado jogado na lixeira improvisada com uma sacola plástica de supermercado amarrada a alavanca da marcha, chegamos no hospital. Problema: não havia vagas. Parece que todos resolveram possuir carros enormes e que ocupam muito mais espaço do que carros como o do meu pai. Demos umas duas voltas no quarteirão, procurando algum canto para estacionar na primeira, rezando para que algum carro tivesse saído na segunda. Íamos começar a dar a terceira, mas meu pai se apressou.

-Olha, eu não admito que perca seu tempo aqui nesse inferno. Desce do carro, entra nesse hospital, procure a sala dele, veja como ele está, toma um copo de café com bolachas sem gosto e depois me agradeça por eu ter te dado um segundo casaco.

Assenti com a cabeça, tirei o cinto, abri a porta para sair e acabei fechando em seguida com mais força que o normal. Mas acho que meu pai não se importou muito. Atravessei a rua correndo, e vamos relevar o fato de que eu quase fui atropelado por um fusca azul. Subi na rampa extremamente íngreme, parando por dois segundos para apreciar o canteiro de flores nos dois lados da entrada, cercadas por uma cerâmica marrom reluzente, com uma bela diversidade de petúnias. Fiquei orgulhoso, e o hospital ganhou pontos só por isso.

Entrei e, no fim das contas, teria de agradecer meu pai pelos dois casacos.

O saguão de entrada estava lotado. Como meu pai havia me falado, as filas no balcão de atendimento estavam bem grandes. Médicos em jalecos impecavelmente brancos passavam correndo, seguidos por enfermeiras apressadas empurrando as macas. Pessoas em cadeiras de rodas com olhares ansiosos, observando esperançosas as pessoas uniformizadas que passavam, esperando que chegasse sua vez de ser atendida. Mulheres com roupas muito informais e nada comportadas para um hospital encostadas nas paredes. Fiquei confuso, pois nunca havia vindo num hospital desde que havia nascido. Uma vez, minha mãe ficou doente, mas eu só tinha 9 anos na época, e não pude entrar. Procurei alguém que trabalhasse ali que não estivesse ocupada tentando acalmar um paciente ou atendendo uma pessoa com máscara branca. Dei mais uma volta pelo lugar, até chegar no corredor dos banheiros, quando uma enfermeira saiu de uma sala de atendimento próxima dali.

-Oi? Oi, oi, licença. – falei, tentando parecer amigável.

-Sim. Em que posso ajudar? – ela respondeu, e para minha felicidade, tirou os olhos da prancheta que tinha em mãos para olhar para mim.

-É que...eu estou procurando a sala de um amigo.

-Ah, sim. Qual o seu nome?

-Park Jimin.

-Park Jimin, ok. E o nome do seu amigo?

-Kim Taehyung.

-Por que ele está internado aqui?

-Quebrou a perna num acidente de carro.

-Hum...ah, acho que sei quem é. Mas tenho que confirmar. Vem comigo.

-Ok.

Ela me guiou no meio do mar de pessoas, até o lotado balcão de atendimento, num espaço milagrosamente não ocupado por minguém. Chegou perto de uma mulher de cabelos densos e escuros que estava no telefone e tocou de leve no ombro dela.

-Tá, senhora, só um instante. O que foi, Emily? – ela disse, segurando o telefone perto do pescoço, em um tom de voz um pouco impaciente.

-Pode verificar para mim onde está...qual o nome dele mesmo?

-Kim Taehyung. – respondi, meio sem jeito.

-Isso, Kim Taehyung.

-Ok, espera aí.

Ela colocou o telefone junto ao ouvido, apoiando-o com o ombro, enquanto digitava rapidamente no computador. Fiquei me perguntando se eu podia ter furado a fila daquele jeito e, caso não pudesse, iria deduzir que aquela enfermeira era muito legal.

-Isso, isso mesmo, senhora. – afastou o telefone – Sala 207. – colocou-o de volta. – Não se preocupe, seu horário vai ser marcado.

-Anda, vem comigo. – Emily falou, e eu a segui por um corredor do lado direito do balcão. Atravessamos o portão que dava acesso a ele e fomos rapidamente até um elevador, que quase perdemos para um cara alto e barbudo. Ela apertou o botão do segundo andar e esperamos a porta se fechar.

-Ei, Emily, eu podia furar a fila? – perguntei, quase sussurrando.

-Bem, eu posso. Se você estivesse sozinho não ia dar certo.

-Mas o correto não seria eu ficar na fila como todo mundo?

-Bem, sim.

-Então, por que me ajudou?

-Por três motivos. Primeiro: eu estou aqui faz uns quatro meses, então eles pegam leve comigo. Segundo: você parece estar muito preocupado com esse amigo. E terceiro: sabe quantos amigos vem visitar uns aos outros no hospital? Pouquíssimos, então acho que você ganha pontos por isso.

Sorri para ela, e acho que todas as enfermeiras deviam ter esse nível de simpatia.

-Ah, e também não tinha mais ninguém na fila de visitação dele, então você ia entrar de qualquer jeito.

A porta abriu, e nós dois saímos, deixando o cara barbudo para trás. Seguimos por mais um corredor, enquanto eu ia contando a sequência das salas mentalmente.

“204, 205, 206, 207”

Parei em frente a ela, mas Emily abriu a porta primeiro.

-Kim Taehyung? Você tem visitas. Não, não são seus pais.

Ela abriu a porta mais um pouco, dando espaço suficiente para eu entrar. Ele estava deitado numa maca, com a perna direita erguida por uma espécie de elástico preso numa barra de ferro semelhante a um guindaste, encoberta por um gesso grosso. Ele pareceu surpreso quando me viu, e arqueei uma sobrancelha para ele.

-Bem, vou deixar vocês sozinhos.

Ela então saiu e fechou a porta, deixando nós dois sozinhos ali.

E pela cara que ele estava fazendo quando me viu, já sabia do que eu queria falar. Passei a língua pelas bochechas, tentando me controlar e não gritar ali mesmo, porque havia pessoas dormindo e que não deviam se preocupar com um garoto aparentemente louco que estava odiando o melhor amigo.

-Por que mandou aquele áudio? – comecei, sem olhar diretamente para ele. Queria ser o mais direto possível.

-O quê?

-Por que mandou aquele áudio?

Ele ficou uns segundos em silêncio, mas sua fisionomia foi mudando à medida que ele se lembrava. Até que soltou um suspiro bateu a cabeça no travesseiro azul.

-Eu não sei.

-Como assim “não sabe”?

-Eu estava bêbado, ok?

-E por que você bebeu?

-Eu sei lá.

-Puta merda, você não sabe responder? – falei, um pouco mais alto do que eu desejava.

Ele deu mais um suspiro, e eu desviei o olhar, enfiando as mãos nos bolsos do casaco de cima. Não era a melhor maneira de começar aquilo, e eu nem sabia quanto tempo eu tinha de visita. Me sentei na poltrona aveludada vermelha perto do criado mudo, aonde eu coloquei o livro. ao lado da maca. Deixei meu corpo cair por completo sobre as almofadas azuis que combinavam com as cortinas e respirei fundo. Permanecemos em alguns instantes de silêncio. De certa forma, aquilo era necessário.

-Jimin... – ele falou, quase que num sussurro.

-O que é? – falei, ainda com minha cabeça tombada para trás.

-Por que você tá usando dois casacos?

Soltei um pouco de ar pelo nariz, porque de fato aquilo parecia estar ridículo. Aproveitei que a sala não era tão fria quanto o salão de entrada, e retirei o casaco de cima, deixando-o nas costas da poltrona. Sem fazer contato visual ainda com ele, respondi:

-Meu pai. Ele insistiu.

Ele fez um movimento de cabeça, como se estivesse falando que entendeu, e novamente ficou encarando suas coxas cobertas pelo lençol azul.

-Eu sei que você está com raiva...

-Que bom que sabe, porque se a bebida tivesse apagado as memórias do seu cérebro, eu provavelmente te mataria enquanto relembrava o áudio que você me mandou. Sério, qual é a porra do seu problema? Você nunca bebeu antes, sempre mantinha distância disso, por que essa noite foi diferente?

-Eu não sei...não sei como cheguei nesse ponto. – ele falou, com uma clara expressão de culpa e arrependimento em seus olhos. – Eu juro para você que não me lembro em que eu momento eu tomei o primeiro gole. Eu só, acho que peguei um copo por engano na mesa de sinuca, e por alguma razão achei o cheiro bom, e resolvi experimentar para ver como era.

-E...

-Era horrível. Eu não sei por que eu continuei, acho que foi coisa da minha cabeça. É aquele caso de uma coisa ser boa e ruim ao mesmo tempo. Aí eu deixei um último gole, e perguntei para um dos meninos se tinha mais. Ele experimentou, e perguntou se eu realmente queria mais. E eu falei que sim. Nem sei o que me passou pela cabeça. E ele nem ao menos perguntou a minha idade, mas ele também não tinha mais de 18 anos. Ele colocou mais um copo pra mim, e outro para ele. A gente brindou e eu bebi. Acho que foram mais um ou dois copos depois desse. Minha cabeça começou a ficar tonta, mas eu nem me importei. E depois disso, nem lembro muita coisa do que aconteceu, só lembro da pista de dança, do áudio que eu te mandei e...de mim entrando no carro com mais uns caras. Quando retomei a plena consciência, estava aqui dentro, e meus pais me contaram o que aconteceu. Então...foi isso.

Passei a mão na testa e mordi as bochechas. Eu não conseguia imaginá-lo naquela situação, era uma imagem que não se processava na minha cabeça. Kim Taehyung bêbado? Impossível. Pelo menos eu achava isso. Suspirei, tentando manter a minha paciência. Ainda havia mais coisas que eu precisava saber.

-Você tem problemas, Tae, não é possível. – falei, tentando deixar claro a minha irritação no tom de voz.

-Eu sei disso. Mas...

-Mas o quê?

-Se você está com raiva de mim, por que veio aqui me visitar?

Coloquei as mãos no rosto, e apoiei os cotovelos nos meus joelhos. Essa era exatamente a pergunta que eu estava me fazendo durante todo o caminho desde que saí da casa de Jungkook. Eu tinha todos os motivos do mundo para não me dar ao trabalho de vir para o hospital só para falar com ele. Eu podia bloqueá-lo, podia xingar ele pelo celular, podia ignorar ele na escola e em qualquer lugar do mundo, poderia fazer um ritual paranormal usando a foto de pato dele e amaldiçoá-lo pelo resto da vida. E de todas essas opções, eu escolhi sair apressado da casa do garoto que eu descobri que gosto sem me despedir dele, entrar no carro do meu pai com dois casacos, não fazer questão de tomar café da manhã, esperar num saguão extremamente frio e seguir uma enfermeira novata até a sala 207. Eu escolhi isso.

-Porque eu me importo com você...

-O que foi?

-Eu me importo com você, caramba!

Ele pareceu se assustar com a resposta. E eu também estava um pouco surpreso com a frase que saiu da minha boca. Mas era o momento de realmente colocar tudo para fora. E eu de fato fiz isso:

-Você é o meu melhor amigo, e eu me importo com você. Eu ligo para você. Eu amo você. Não dá para imaginar a minha vida se você não tivesse aparecido nela. Foi você que me aguentou chorando no seu ombro quando eu tirava uma nota ruim, foi com você que eu passei vergonha pedindo “doces ou travessuras” usando uma roupa de Drácula improvisada pela minha mãe. Foi com você que eu sempre dividi o primeiro pedaço de bolo dos meus aniversários. Era você que me avisava quando vinham os sustos dos filmes de terror para que eu pudesse colocar a cara no travesseiro e tapar os ouvidos. Era você que sempre me convencia a ir aos brinquedos radicais do Parque de Diversões, e ficava segurando a minha mão nas descidas das montanhas-russas. Foi você que me ajudou a falar com as garotas que eu gostava e me declarar para elas, e era você que ficava comigo tomando sorvete de baunilha com amendoim quando elas me rejeitavam da forma mais cruel possível. Foi você que fez uma maratona de filmes da Disney na nossa primeira festa do pijama. Foi você que me ajudou a lidar com aqueles garotos que ficavam implicando com a gente. Foi você que abriu meus olhos para perceber que a surdez do JK não era um problema. Foi você que me deu a ideia do pedido de desculpas. Foi você que me aguentou falando dele. Praticamente toda a minha vida foi com você, e ainda tem coragem de me mandar um áudio daqueles, como se fosse uma coisa normal?

O meu rosto foi ficando vermelho cada vez que eu falava. Estava tão absorto em minhas próprias palavras que nem notei que havia me levantado. Ele nem ao menos piscou, e em determinado momento passou a olhar para mim diretamente, sem desviar os olhos em nenhum momento, prestando muita atenção em tudo que estava saindo da minha boca. Era exatamente isso que eu queria. Eu queria que ele entendesse o que eu estava sentindo.

-Você mais do que ninguém sabe a importância que o JK tem para mim. E você é uma das principais razões de eu poder dormir na casa dele. Você sabe como que doeu ouvir aquilo? E depois inventar alguma coisa totalmente diferente para que ele não ficasse preocupado? Por que não conversou comigo? Por que não disse que estava com ciúmes?

Ele ficou uns instantes pensativo. Desviou o olhar novamente para suas pernas e colocou em prática sua mania de fingir que está mascando um chiclete, e eu fiquei de pé esperando uma resposta.

-Uma parte de mim. – ele começou. – Uma parte de mim sentia ciúmes. Tipo, 5% de tudo no geral. O resto era somente felicidade e o orgulho de saber que sem mim isso não seria possível. – ele riu discretamente. – Mas essa parte de mim, esses 5%, ainda existiam, embora eu tentasse ignorá-los de todas as formas possíveis, porque sentir ciúmes não é uma coisa muito agradável na minha visão. Mas, naquela festa, agora estou me lembrando... quando eu já tinha tomado 4 copos, e estava sentado numa cadeira, mascando uma bala de menta para tentar tirar o gosto estranho da minha boca, eu me virei para dizer a você que nunca mais ia beber na vida. Mas eu virei a cabeça, e percebi que você não estava lá. E eu me toquei que nunca esteve. Daí minha mente começou a voltar, e chegou em você dizendo que havia desistido da festa para ficar com o JK. Quando percebi isso, os 5% foram virando 10, 15, 20, 30, 50...até chegar no 100. Quando atingiu o 100, foi que eu peguei o celular e mandei o áudio. Eu nem raciocinei nada, só gravei, mandei, e depois, quando eu já estava aqui, depois da explicação do doutor, eu fiquei sozinho nessa sala, e fui rever as minhas mensagens. E aí eu vi esse áudio. Mas não tive coragem de enviar mensagem. Eu só queria me desculpar se fosse pessoalmente. E eu nunca ia pensar que você viria até aqui só jogar na minha cara como eu sou idiota. E quer saber, eu não julgo.

Depois dessa fala, ficamos nos olhando por um tempo, e depois eu tombei na poltrona novamente, deixando minha cabeça cair para trás e encarar fixamente o teto branco iluminado pela lâmpada arredondada. Pensei em tudo que ele havia dito, e eu realmente conseguia sentir a sinceridade ali presente. Mas ainda assim não conseguia perdoá-lo, e nem ficar com muita raiva dele. Era uma coisa muito equilibrada. Mas uma das coisas mais incríveis no Taehynug era a habilidade dele em usar as palavras certas em todas as situações, e dessa vez ele pegou justo no ponto fraco.

-Você lembra como a gente se conheceu?

-O quê?

-Lembra, Jimin, de como a gente se conheceu? Foi no primeiro dia de aula da Primeira Série. Eu tinha vindo de uma cidade diferente, e todos os outros alunos achavam estranho o meu jeito de se vestir. Então eu não fiz nenhum amigo, nenhum mesmo. Não tive coragem nem de dar o primeiro passo e ir falar com alguém. O resultado é que eu já fiquei esperando comer o meu lanche sozinho no recreio. O sinal tocou, e eu esperei todo mundo sair, porque tinha medo de ser empurrado e me machucar. Então eu saí com aquela lancheira vermelha, com um pato desenhado na frente.

“Enquanto todo mundo ficava brincando, gritando e rindo, eu estava num dos bancos perto da árvore, porque fazia sombra e a madeira não ficava quente, comendo meu sanduíche de atum e tomando meu suco de uva de caixinha. E eu nem podia ir em nenhum brinquedo, todos estavam sendo ocupados por outras crianças. Eu fiquei uns cinco minutos escondido atrás da árvore, vendo todos se divertirem sem a minha presença completamente desnecessária naquele ambiente. E eu te juro que pensei em jogar aquela camiseta colorida fora, porque ninguém tinha gostado. E foi aí que eu fui dar uma volta, tentando ao máximo evitar as crianças, e cheguei numa parte mais afastada do parquinho, uma que ninguém estava usando muito. Era lá que estava meu brinquedo favorito do mundo todo: um gira-gira, todo colorido, recém-pintado, perto da sombra. Mas eu não saí correndo até lá por um motivo: tinha uma criança sentada lá. Você estava sentado lá.”

“E eu já ia indo embora, mas eu percebi que você não estava girando. Você só estava parado, olhando para baixo. Nenhuma outra criança chegava nem perto dali, e eu vi duas meninas cochichando no fundo, enquanto olhavam para você. Então eu tomei coragem para ir até lá. Cheguei bem perto de você, que ainda estava de costas para mim, e toquei de leve no seu ombro. Você se assustou, e se virou para mim. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, porque você provavelmente achava que era alguém vindo te encher o saco, e perguntei se você queria ser meu amigo. Foi quando eu percebi que você estava chorando e, quando viu que eu era boa pessoa, tentou limpar as lágrimas bem rápido. Acho que estava bem nervoso, porque a única coisa que conseguiu fazer foi acenar bem rápido com a cabeça, e dar um daqueles seus sorrisos aliviados. E você disse que minha camisa era bonita quando eu me sentei do seu lado no gira-gira. E é por isso, Park Jimin, que essa camiseta ainda está no meu armário, bem guardada dentro de uma caixa de madeira, para que ninguém pegue.”

Foi inevitável que eu sorrisse. Ele lembrava de cada detalhe, como se isso tivesse acontecido 5 minutos atrás. E foi dessa maneira que eu e ele nos tornamos praticamente os donos daquele gira-gira. Senti meus olhos marejarem de leve, e fiquei sorrindo para absolutamente nada, com o rosto apoiado pelo cotovelo no braço da poltrona. Talvez sorrisse para mim mesmo, porque finalmente estava me sentindo bem. E talvez esse fosse o motivo de eu não conseguir ficar totalmente com raiva dele.

-10 anos, Park Jimin. – ele continuou. – Nos conhecemos há 10 anos. E você acha que essa amizade vai acabar pelo fato de que você dormiu na casa de um garoto, e que essa amizade existiu praticamente por que você é bocó demais para perceber as coisas, e por isso eu tive que te dar conselhos de como ser uma pessoa normal? Eu me orgulho muito de tudo o que fez por ele, e o meu ciúme minimamente significável não vai afetar nenhuma das duas amizades. Isso eu te prometo.

Fiquei mais alguns segundos na poltrona aveludada, tentando me recuperar da sequência de tiros que eu havia tomado. Eu senti toda a sinceridade dele em cada uma daquelas palavras. Eu conseguia ver o Taehyung ali. Eu conseguia sentir tudo o que ele queria falar. Era tudo muito verdadeiro, e agora eu definitivamente não conseguia mais ficar com raiva dele. Me levantei, sem dizer uma palavra, e fui andando na direção da maca. Parei bem do lado, enquanto ele me olhava com uma cara extremamente calma, mas ao mesmo tempo ansiosa. Então dei um tapa na cara dele. Não muito forte, mas também sem ser de brincadeira. Algo que sirva de lembrete da próxima vez que ele pensar em beber ainda menor de idade.

-Justo. – ele falou, ainda com a cara virada.

-É, eu sei. – dei uma risada, e depois me joguei em cima dele, praticamente, o abraçando tão forte que acho que o sufoquei um pouco. Logo ele colocou os braços ao redor de mim também, e ficamos ali por um tempo. Eu definitivamente estava precisando fazer aquilo. Soltei mais um suspiro de alívio, e só deixei meu corpo relaxar por cima do dele. – Eu te amo, meu alien.

-Eu também, bocó.

E ficamos assim. Meus olhos marejaram totalmente, e eu não estava me importando nem um pouco.

-Jimin, eu estou decepcionado. – ele falou, ainda sem me soltar.

-Com o quê?

-As enfermeiras não usam vestido branco, meia-calça e chapéu com desenho da cruz vermelha.

Soltei mais uma risada, dessa vez um pouco mais alta. Tudo estava resolvido, e de volta ao normal.

-Ei, você disse que ia dormir lá porque tinha acontecido um problema com o JK. O que foi? – ele perguntou, se desfazendo do abraço.

Não sei o quanto ele bebeu, muito menos de como ele se lembra disso depois de ter ficado bêbado.

-Bem...

Então eu contei tudo para ele. Sobre a bicicleta nova, a batida na porta, Shelly, o aparelho auditivo extremamente caro, o soco no olho, ele desabafando comigo. Não deixei escapar nenhum detalhe, queria ser bem específico. Quando terminei meu extenso monólogo, ele passou a língua pelas bochechas e revirou os olhos com tanta força que achei que fossem sair do lugar. Mordeu com certa força o canto do lábio, e só aí ele começou a falar.

-A Shelly é uma puta, Jimin.

-Eu sei!

-Jesus, como ela é escrota!

-Exatamente.

-Eu pensei que você fosse um bocó, mas ela tomou o seu lugar nesse caso.

-Fico feliz em saber disso.

-Meu Deus, ele não pode nem andar de bicicleta em paz? Cristo, vou descobrir quem fez isso e cair na porrada. Dane-se se forem mais de um, vamos brigar do mesmo jeito. Ótimo, já estou puto.

-Sim, sim.

-Isso sim é um problemão, hein? Nem conheço ele bem, mas baseado no que você diz, ele deve ser incrível.

-Pois é... e falando nele...temos outro problema...

-Ah não, mais um? Só esse último já não dava conta?

-Bem...é que...

-Anda, Jimin, desembucha logo.

-Eu acho que...talvez eu goste dele... mais que como amigo. Tipo, talvez eu realmente goste dele...

-Eu sei.

Isso me pegou de surpresa. Ele nem ao menos mudou a expressão.

-Como assim você sabe?

-Você é muito bocó mesmo, não é? Eu sabia disso desde que você disse que ficaram se encarando na queda da bicicleta. Aquilo não era adrenalina, era ocitocina. O hormônio da empatia, senhor Park Jimin. Eu percebi antes de você, que decepção.

Fiquei muito boquiaberto com isso. Eu nem percebi que deixava tão claro assim. Nem eu mesmo sabia, eu tinha chegado a perceber praticamente na noite passada.

-Tá, tudo bem, eu o amo!

-Era isso que eu queria ouvir, garoto! – fez uma expressão de felicidade muito marcante.

-Mas eu nem sei se ele gosta de meninos, nem sei como dizer para ele, ou se vou dizer para ele.

-Ei, ei, ei! Calma, ok? Respira fundo.

-Ai Meu Deus, eu nem me despedi dele!

-Espera, como assim?

-Eu só saí voando assim que minha mãe ligou falando sobre você.

-E não se despediu?!

-Ele estava dormindo!

-Mas deixou um bilhetinho pelo menos?

-Deixei!

-Ah, que bom. – colocou a mão no coração e tombou o corpo para trás.

-Mas eu queria ter falado mesmo com ele... – caí novamente na poltrona, e suspirei, desapontado. Tae fez uma cara pensativa, e arregalou os olhos quando teve uma ideia.

-Manda uma foto para ele, assim ele vai saber que você está bem.

Olhei para ele, ainda meio desanimado, mas não dava para fazer muita coisa.

E assim mandei uma foto para Jeon. Duas mechas do meu cabelo amarrado como marias-chiquinhas, com duas ligas que encontrei no criado mudo perto da maca, e Taehyung fazendo a letra “V” com os dedos, sorrindo empolgado para a câmera.

Sinceramente, tenho medo de apresentar esses dois.

Mas acho que uma boa combinação sairia disso.


Notas Finais


Então, o que acharam?
Espero que tenham gostado dessa interação, foi um dos capítulos mais fofos que eu já escrevi.
Até a próxima, bye bye :)


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