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História Átomos das estrelas - Jikook - Capítulo 6


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Capítulo 6 - 4. Elevador, a prisão dele e dinossauros


A madrugada era silenciosa e Jungkook se sentia cansado. Jin e Lee haviam demorado pouco mais que o esperado em seu encontro mensal, e apesar de oferecerem sua casa para que ele dormisse, Youngjae havia lhe enviado uma mensagem mais cedo dizendo que havia ido para seu apartamento naquela noite, então não deixaria o namorado sozinho.

Era mais de uma da manhã quando o uber parou em frente ao seu prédio e Jungkook se sentia quebrado. Amava Byeol com todas as forças, mas a menina sempre o fazia ir até seu limite de exaustão sempre que cuidava dela. Depois de chegarem ao apartamento de Seokjin, a garotinha acordou e acabou por desistir do desenho animado. Decidiu que subir nos ombros do tio e fingir que ele era seu transporte particular era uma ideia muito melhor. E assim foi que por longos minutos, Jungkook teve Byeol pendurada a si.

Não podia reclamar. Sabia que se tivesse pedido a garotinha o teria dado descanso, mas as risadas altas toda vez que ele engatava uma corrida o faziam se sentir bem, feliz quase que por inteiro.

Ela dormiu então sem tomar banho e toda suada, mas sussurrando antes de finalmente se entregar ao sono que teria aulas de dança com a fada das flores. Provavelmente sequer se lembraria do nome de Jimin no dia seguinte, então tudo estava bem. Aparentemente.

E sobre o Park: Jungkook havia pego a si mesmo pensando no cara pelo resto da noite, desde que fora deixado na casa de Seokjin. Park Jimin era aquele tipo de pessoa. A que passava horas na mente de alguém, mesmo depois de um breve encontro. Jungkook sabia bem.

Quando entrou em seu prédio o porteiro apenas lhe deu boa noite, estava muito concentrado em um vídeo que Jungkook ouviu ser sobre como cultivar orquídeas, mas não parou para dar muita atenção a aquilo. Seguiu direto para o elevador e notou que as portas do único começaram a se fechar. Correu e ainda sendo seguro, enfiou a mão entre as portas às fazendo se abrir enquanto o som de risadas se intensificava.

Assim que entrou no cubículo levantou os olhos e quis sair correndo de imediato.

A princípio não foi notado pelos três que ali se encontravam, riam da quase queda do que tinha o sorriso de coração. O de cabelos rosados era de fato o mais escandaloso entre os três, o corpo se curvava levemente para trás e os outros dois se apoiavam um ao outro enquanto os corpos tremiam pelo riso.

O ar cheirava a álcool, cigarros e tipos diferentes de perfumes. Apenas um deles era característico para o Jeon.

As portas se fecharam e Jungkook se manteve imovel na esperança de que não fosse notado - o que claramente não aconteceria ao considerar o tamanho dele -, porém o de cabelos rosados abriu os olhos em meio ao riso e as íris pousaram em Jeon.

Houve um momento em que Jimin apenas se permitiu compreender o que acontecia. Imaginou ser o excesso de álcool em seu corpo que o fez enxergar Jungkook ali, mas pouco a pouco percebeu que não era a bebida e sim o próprio rapaz de cabelos longos e suas roupas de moletom sempre maiores que o corpo.

Algum tempo foi tomado e Jimin apenas o observou. Ainda usava as roupas de quando o deixou no bairro do irmão, os cabelos agora pareciam mais secos e caiam sobre os olhos escuros. A surpresa de Jungkook era clara, um bico se formava em seus lábios e Jimin apenas quis mordê-lo.

Se controle Park Jimin. Ele tem namorado.

— O que você faz aqui? - a pergunta partiu de Jungkook, no tom pouco amigável que adquirira recentemente ao se tratar de Park.

Jimin foi arrancado de seu transe assim que a expressão de Jungkook se fechou. As risadas de Taehyung e Hoseok cessaram e os olhos se arregalaram depressa ao notarem quem se encontrava ali. Todos naquele cubículo estavam confusos naquele momento.

— Como é? - Jimin tinha uma mistura entre dúvida, humor e indignação no tom de sua voz. Não podia acreditar que Jungkook fosse babaca naquele ponto.

— O que faz no meu prédio? - Jeon repetiu a pergunta, como se ainda não tivesse sido claro o suficiente.

— Seu prédio? Esse é o meu prédio.

Jungkook paralisou. Gelou por completo no lugar. A informação recém adquirida pareceu parar em certo ponto entre seu ouvido e seu cérebro, como um bug de computador, incapaz de permitir que ele processasse o que havia lhe sido dito. Não podia estar ouvindo direito. Não. Jimin não podia morar naquele prédio. Ou podia. Talvez Jungkook tivesse entrado no prédio errado. Era possível, estava cansado.

Não. Havia visto o porteiro. Era o mesmo de sempre.

Jimin estava claramente bêbado, bem como os amigos, talvez eles tivessem entrado no prédio errado.

— Como é? - questionou em busca de uma resposta que fizesse sentido, já que aquela era absurda.

— Meu prédio. Onde eu vivo. Você tá bêbado também ou só precisa limpar as orelhas? - Jimin agora tinha o corpo completamente virado na direção de Jungkook. As mãos na cintura o fazendo parecer adorável, por mais que tentasse transparecer indignação.

— Não. Eu tô bem sóbrio e limpo minhas orelhas com frequência. - os olhos desviaram de Jimin e focaram em Taehyung e Hoseok que parados um ao lado do outro se abraçavam como se tivesse acabado de ver uma assombração e tivessem medo de serem atacados — Desde quando você mora aqui? - os olhos de Jungkook voltaram a Jimin. O tom parecendo acusador para o mais baixo.

— Eu não te devo satisfação. - o de cabelos rosados respondeu em igual tom — Escuta aqui, qual o seu problema? Eu não te fiz nada e você... - Jimin acertou o indicador no peito de Jungkook arregalando os olhos por um momento ao notar que o peitoral era maior e mais firme que o imaginado.

— Eu...? - Jungkook incentivou que continuasse tirando o dedo do outro dali. Por um momento quis rir, porque os pensamentos de Jimin estavam claros em seu rosto de olhos mais abertos e um bico nos lábios cheios.

— Você... Hm... Bom... Você é um grosso. - Taehyung abriu a boca e antes que dissesse algo Jimin ergueu o dedo — Se você disser aquilo eu te mato, Taehyung. - o Kim parou sua fala impertinente e Jeon franziu o cenho se perguntando o que Taehyung diria — Como eu ia dizendo você é um grosso, sem educação mesmo. Por acaso o prédio é seu? Você o comprou?

— Não, ma...

— Exatamente! Não comprou. - Jimin cruzou os braços — Agora me diga, qual o problema de eu morar nesse prédio? Qual o seu problema comigo? - perguntou então com os olhos presos a Jeon — O que eu te fiz? E sem essa de não querer falar, vamos resolver isso, aqui e agora. Mesmo com minha sobriedade questionável e tendenciosa a um barraco na madrugada.

Jimin que era menor que Jungkook o olhava debaixo. Sério e de braços cruzados, com as maçãs do rosto coradas pelo álcool, os olhinhos já meio caídos, mas ainda assim parecendo disposto a acertar um soco no mais novo bem ali.

Jungkook desviou o olhar para os outros dois que estavam a passos atrás de Park. Os dois tinham os olhos arregalados e começaram a movimentar as mãos de modo desesperado em indicações negativas e exageradas. Chegaria a ser cômico, se não fosse trágico.

Jimin acompanhou o olhar de Jungkook e encarou os amigos que de imediato pararam de se movimentar, se abraçando outra vez e olhando para o teto, falhando completamente na tentativa de fingirem que não faziam nada.

— E então? - Jimin perguntou outra vez se virando de volta para Jungkook — Qual seu problema? - o mais alto o encarou então, mordeu o lábio e analisou suas opções que iam de ignorar Jimin até que um dos dois descesse do elevador ou sair correndo no próximo andar.

Os olhos pequenos de Jimin estavam presos a ele e por um momento se permitiu os encarar. Eram atentos e profundos, como se pudesse ler nas entrelinhas da existência de qualquer ser que habitasse o planeta. Como se tivessem a capacidade de apenas ao observar outros pares de íris ler a história completa de quem os detinha. Porém Jungkook não queria ser lido. Era uma história complicada e repleta de momentos que preferia deixar escondidos nas profundezas de um baú que a muito havia trancado com as pesadas correntes de suas decisões.

Quando em meio ao olhar, ele notou as sobrancelhas de Jimin relaxarem apenas por um momento, enquanto Park questionava a si mesmo o porque de tão de repente ter a atenção tão intensa dos olhos escuros, Jungkook virou de uma vez e procurou no visor do elevador em que andar estava, apertou então o seguinte e aguardou.

— O que...? - Jimin perguntou sem entender.

Quando as portas se abriram, Jungkook caminhou para fora depressa.

— Ei, você não me respondeu. - Jimin protestou. O mais alto respirou fundo e enfiou as mãos nos bolsos da calça, se virou o encarando outra vez. Umedeceu os lábios e empurrando a parte interna da bochecha com a língua, em uma última cogitação, tomou sua decisão.

— Boa noite para vocês. - e assim se virou e começou a caminhar em direção a porta que dava acesso às escadas.

Ouviu os protestos de Jimin ao questionar, agora para os amigos, qual era o problema de Jeon. Taehyung e Hoseok nada responderam. Ele sabia que não diriam nada.

Seguiu seu caminho. Estava no terceiro andar, teria de ir até o quinto e apressou o passo, sentindo o aperto no coração começar a se fazer presente. Queria Youngjae. O aconchego do abraço alheio. Mesmo que de algum modo aquilo fosse egoísta de sua parte.

A cada novo degrau Jungkook era atingido pela tristeza que o tomava bem como as lembranças de um passado que desejava apagar de sua mente, mas infelizmente não podia sequer distanciar de si.

Quando alcançou seu andar, seguiu direto para a porta 513 e ali entrou.

O lugar estava imerso no breu e cheirava a sopa, sabonete e ao perfume de Jae.

Para Jungkook aquele era o cheiro trazia segurança para seu interior, e sequer notou, enquanto se livrava dos sapatos, os olhos arderem em sinal ao choro que tomava seu caminho para fora agora que seu inconsciente sabia estar seguro para ser vulnerável, mesmo que as lágrimas daquele momento fosse algo que o Jeon quisesse renegar.

Seguiu o caminho para o quarto e ali encontrou o namorado deitado com um livro sobre o peito indicando que havia se entregado ao sono enquanto tentava se manter acordado para esperar. Jungkook sorriu o observando, mas o sentimento no peito era agridoce. Flutuava entre se sentir um desgraçado sortudo por tê-lo e se questionar se de fato merecia toda a sorte que era ter o Choi em sua vida.

Naquele momento se sentia indigno de sua sorte. E se sentir assim, a algum tempo já lhe era comum.

Os pensamentos que o tomavam então eram os de que talvez fosse melhor terminar aquele relacionamento. Libertar Jae do peso que poderia ser. Deixá-lo ir para encontrar alguém que fosse mais como ele, alguém que merecesse a sorte de tê-lo.

Porém se lembrou das palavras que o namorado havia lhe dito em um momento que Jeon era inundado por aqueles mesmos pensamentos.

— Jungkook quando pensar em algo assim outra vez, esfrie a cabeça, tome um banho e relaxe. As inseguranças que te fazem sentir que não merece algo estão todas dentro da sua cabeça, amor. Podemos conversar caso se sinta assim outra vez, mas apenas fale de término comigo de novo se achar que nosso relacionamento não funciona mais pra você. Não porque acha que pode ter algo melhor lá fora pra mim. Não me importa lá fora. É você, Goo. Você me importa.

As lágrimas quentes rolaram então no acumulado de sentimentos que Jungkook era naquele momento. Em silêncio ele seguiu para o banheiro, ali se despiu e ligou a água quente que deixou tocar seus ombros e costas, relaxando os músculos exaustos, agora não apenas pelo trabalho ou pela brincadeira com a sobrinha.

Porque Jimin havia voltado? Porque naquele momento? Porque não podia ter continuado longe?

Não demorou tanto no banho, nem tão pouco para vestir apenas uma bermuda de moletom. Tirou a umidade dos cabelos e tomou o caminho da cama. Tirou o livro do peito de Youngjae o deixando na mesa de cabeceira, e então deslizou na cama se aninhando ao namorado que não demorou a despertar enquanto o envolvia em seus braços, sabendo, de algum modo quase mágico, que algo estava acontecendo.

— Você jantou? - foi a primeira coisa que perguntou, a mão já acarinhando os cabelos de Jeon.

— Comi um pouco com a By. - a voz de Jungkook soou baixa e falhada.

— É um daqueles dias, não é? - o tom manso veio sem deixar que o carinho cessasse. Jungkook apenas assentiu — Algo aconteceu? - Jungkook mordeu a parte interna da bochecha. Não queria mentir para o namorado, mas também não queria contar o que se passava. Muito menos dizer que a razão do que sentia era outro homem e uma história que Youngjae não conhecia.

— Como foi seu dia? - foi o que se limitou a perguntar deixando claro que não queria falar.

— Foi tranquilo na maior parte do tempo, mas sempre tem alguém pra tirar do sério. - Jae se ajeitou na cama, mas sem deixar de abraçar Jungkook, que agora o abraçava de igual modo, acarinhando suas costas. Era maior que o namorado, mas em momentos como aquele apenas era acolhido como se fosse minúsculo — Se lembra do Will? Aquele cara insuportável da criação? - Jungkook assentiu — Acredita que ele teve coragem de mandar a minha estagiária buscar café para ele? - Jungkook desenhava círculos nas costas do outro.

— Ué, e o estagiário dele?

— O cachorro teve coragem de dizer que buscar café era trabalho de mulher. - Youngjae riu em indignação sem qualquer humor.

— Ele não disse isso. - Jungkook retrucou indignado do mesmo modo.

— Disse.

— E o que você disse? - Jeon perguntou.

— Falei pra ele que era trabalho de qualquer um com capacidade e que se ele não tinha a capacidade de buscar o café dele e de pensar com o mínimo de coerência ele devia assinar a carta de demissão, porque definitivamente não tinha capacidade de estar a frente da equipe de criação. - Jungkook afastou o rosto do peito do outro e encarou o namorado, levantando a mão para que ele batesse em um gesto de cumplicidade.

— Já falei, se quiser descer o cacete nele eu tô contigo. - Youngjae sorriu largo tirando os cabelos úmidos do namorado da frente do rosto.

— Goo se você der um soco nele é pra mandar o cara pro caixão já. - Jungkook deu de ombros.

— Sou contra violência? Sim, mas as vezes ela se faz necessária. - Jae riu e se inclinou brevemente beijando os lábios do mais novo.

— Você não existe, Goo. - A frase que sempre era dita em meio a um dos sorrisos bonitos, era também sempre acompanhada de um tom meio apaixonado e fofo que fazia Jungkook se derreter por completo.

Ele então se aconchegou ao mais velho, enfiando o rosto em seu pescoço e deixando ali um beijo breve, sem qualquer outra intenção que não o carinho.

— Obrigado. - sussurrou.

— Pelo que, amor? - Jungkook não podia ver, mas o sorriso ainda tomava os lábios do Choi.

— Por não ter me dado um pé na bunda na primeira vez que vim com aquela palhaçada de término. - Youngjae riu, beijando então o topo da cabeça de Jungkook.

— Meu filho, você sabe como é difícil achar um homem que faz uma boa massagem nos pés hoje em dia? Nem fodendo que eu ia deixar ir assim.

Jungkook gargalhou alto e foi acompanhado pelo outro. O riso de ambos preenchia o quarto, dando ao lugar a familiaridade gostosa e a segurança que ambos sentiam ao se pertencerem.

Quando o riso morreu, se mantiveram em silêncio por longos minutos, se sentindo na intimidade de um simples abraço sem qualquer outra intenção. O sentimento que os tomava ali era tranquilo e acolhedor. Era o sentimento que buscavam no fim de dias difíceis, era o sentimento que levantava bandeira branca quando guerras internas eram travadas. Era a paz, a quietude e a certeza de um lugar para repousarem.

— Amo você, Goo. - Youngjae verbalizou então todo aquele sentimento que os cercava.

Porém Jungkook não fez o mesmo. Nunca o fazia.

Não verbalizava o sentimento, mesmo que em momentos como aquele ele soubesse ser. Amor o fazia querer correr para longe. E naquele momento não queria correr dos braços de Jae. Então apenas se manteve em silêncio, já que o outro não podia ver seu rosto, fingindo ter dormido.

Mas Youngjae sabia que Jungkook não dormia. Estavam juntos a tempo o suficiente para saber que a respiração do namorado era mais leve enquanto dormia. De todo modo, não se sentiu frustrado. Não colocava seus sentimentos em palavras esperando por respostas, apenas queria que Jungkook soubesse. E apesar de nunca ter ouvido as palavras de volta, Choi Youngjae sabia que era amado. Porque Jeon Jungkook deixava aquilo claro a todo momento, mesmo sem querer.

E talvez não fosse um mesmo amor, mas apenas o fato de ser amor, lhe era suficiente.

Naquela noite não houveram toques com segundas intenções, não houveram corpos suados e com respirações descompassadas. Naquela noite a intimidade se mostrava em um abraço silencioso no quarto do apartamento de Jungkook.

E daquele modo foi que juntos pegaram no sono.

Diferente do que esperava, Jungkook não teve nenhum sonho incômodo que o despertou. Apenas acordou na manhã seguinte com o celular despertando.

Era cedo demais, e Jae ainda dormia, então Jungkook apenas lhe beijou o rosto antes de se levantar.

Se vestiu e deixou o café da manhã pronto no microondas. Regou as poucas plantas que tinha e checou o celular onde não constavam novas mensagens, para então sair com a mochila nas costas, enquanto nos fones de ouvido uma música de sua playlist tocava em um ritmo tranquilo.

Seguiu para o elevador, mas antes de apertar o botão se lembrou da madrugada anterior. Se lembrou de Jimin e os amigos dele, e por mais que pensasse que fosse cedo demais para Park estar saindo de casa, tomou o caminho da porta de acesso às escadas decidindo ir por ali.

Chegou ao térreo, deu bom dia ao porteiro lendo apenas seus lábios para saber que o homem havia respondido. Do lado de fora a manhã era fria, o vento não era forte, mas abraçou Jungkook como um antigo conhecido. Jeon se permitiu sentir, mesmo que apenas por alguns momentos, a brisa tocar seu rosto e lhe gelar a ponta do nariz.

Os olhos percorreram a rua onde vivia e do outro lado dela, uma cena que poderia se passar como rotineira tomou sua atenção.

A vizinha da frente estava em seu portão, sorria até os olhos cheios de rugas sumirem quase que por completo. A sua frente um rapaz parecia rir junto, já que seus ombros se moviam. Ele passou a ela um saco de papel e a mulher se curvou apenas um pouco em um agradecimento.

Os olhos dela pousaram em Jeon e ela acenou em um cumprimento rotineiro. O rapaz a sua frente se virou e foi então que Jungkook notou ser Jimin. O sorriso sumiu dos lábios de Park e Jungkook desviou o olhar completamente sem jeito.

Porque ele estava em todo lugar?

Sem enrolar muito foi que o jovem Jeon começou a caminhar para longe. Não esperava que Jimin o seguisse e Park tão pouco o fez. Então apenas seguiu seu caminho até o ponto de ônibus.

A viagem até a oficina demorou cerca de vinte minutos, e durante aquele tempo Jungkook se permitiu apenas aproveitar a música em seus fones enquanto pela câmera do celular capturava imagens do dia, que mesmo frio, permitiu a aparição do sol.

Quando estava abrindo as portas do lugar onde trabalhava, sentiu o celular vibrar no bolso em sinal de que havia recebido uma nova mensagem e o tirou dali vendo ser do namorado.

Amor ❤️
| Acabei de lembrar de algo que tenho certeza que você esqueceu: a matrícula da Silla University termina na segunda e você ainda não mandou seus documentos. Quer que eu mande?
| Obrigado pelo café inclusive. Tá muito bom.

Jungkook suspirou sozinho. Havia se esquecido da matrícula e até de procurar pelos documentos necessários para fazê-la.

Havia prestado o vestibular no final do ano anterior, depois de anos sem saber ao certo o que fazer de sua vida, e como era seu meio de trabalho decidiu pela engenharia automotiva. Não que tivesse grande apreço pela matemática, física e tudo que o ramo englobava, de fato não era isso, mas parecia um ramo seguro e que lhe traria alguma estabilidade financeira no futuro.

Amava trabalhar com Dakho. Amava poder aprender com o homem que o havia acolhido mais vezes do que era capaz de contar, mas não podia dizer que havia se apaixonado por carros como era apaixonado pelo meio audiovisual por exemplo.

Desde pequeno aquela era uma paixão clara para qualquer um que conhecia o jovem Jeon. Ainda bem novo pegava a câmera fotográfica dos pais e contava histórias apenas com as poucas imagens que tinha. Quando já tinha idade, ganhou de presente uma câmera de filmagem e a partir dali foi que passou a desenvolver seu amor por contar histórias através de filmagens que ele conectava e fazia ter sentido.

Jungkook nunca havia encontrado muita habilidade com as palavras propriamente ditas, mas era através dos curtas produzidos que mostrava sua visão única do mundo e de seu próprio interior.

Era apenas um hobbie. Não teria futuro aquilo. E precisava buscar algo que lhe desse chances de viver minimamente bem. Então para isso lá estava a engenharia. Mesmo que pouco atrativa, ainda era segura.

✨��

Já passava do meio dia quando Namjoon apareceu na oficina e por lá ficou junto ao melhor amigo, apenas jogando assunto fora. Jungkook estava mexendo no motor de um veículo de luxo, apertando parafusos e reconectando fios, enquanto o amigo lhe contava sobre como andava uma canção que havia começado a escrever há dois dias.

Namjoon era formado em literatura, porém era na música que se encontrava. Trabalhava com alguns cantores menos conhecidos, os ajudando a compor e produzir canções dignas de prêmios, na visão de Jungkook - e isso nem era por conta do mais novo ser o maior fã do Kim, era algo explícito em cada trabalho que participava.

— E essa está escrevendo para alguém? - Jungkook perguntou enquanto apertava um parafuso.

— Na verdade, tenho pensado em fazer uma mixtape ultimamente. - o mais velho confessou meio sem jeito — Produzida e composta por mim, talvez com a participação de algumas pessoas que conheço. - Jungkook sorriu, mas por estar concentrado não desviou o olhar.

— Eu acho que deveria. Você tem talento hyung. - incentivou e não viu o sorriso que surgiu no rosto do mais velho.

— Pensei que você poderia cantar uma delas comigo. Como fizemos em like a star. - Jeon riu fraco sozinho.

— Essa música é a favorita da By. Ela me fez tocar ela três vezes ontem para dançarmos. - Namjoon riu.

— Ninguém mandou você deixar meu pai tocar os cds antigos para ela quando vem à oficina. - Jungkook se afastou do motor, pegando um pano e limpando as mãos.

— E iria adiantar de algo se eu não deixasse? - questionou e apontou o carro — Pode ligar para mim por favor? Não quero sujar o volante. - Namjoon assentiu e seguiu para dentro do mesmo.

— Eu acho que não adiantaria. Meu pai não ia escutar. - Jungkook assentiu e então o motor deu sinal de vida. Jungkook analisou o trabalho feito, procurando se não havia deixado nada passar e ao perceber que estava acabado mostrou o polegar para o outro que logo desligou.

— Pronto. - Jeon abaixou o capô e Namjoon desceu do veículo.

— Você não respondeu sobre a música. - Jungkook riu fraco negando com a cabeça.

— Você sabe que eu não canto a anos, hyung. - Namjoon respirou fundo.

— Nem faz nada que realmente goste. - o mais novo mordeu o lábio inferior se sentindo um garoto prestes a levar uma bronca de um adulto. E era o que de fato aconteceria — Quando foi a última vez que foi a terapia, Jungoo? - o mais novo respirou fundo.

— Já tem muito tempo, mas eu não preciso disso. Eu já sei o que o psicólogo tem a me dizer e não faz sentido nenhum. - retrucou.

— Claro, porque você é o detentor da verdade, não é? Aquele que pode lidar com tudo sozinho e que sabe o que está correto e o que não. - Jungkook odiava quando o tom do Kim começava a tomar formas endurecidas. Namjoon era a calmaria em pessoa. Sempre compreensivel e paciente. Mas vez ou outra ele era duro. E nessas vezes as verdades que dizia eram dolorosas — Eu fico feliz de verdade que tenha dado pequenos passos. Fico feliz que tenha se permitido tentar com Youngjae. E juro que fico para dar um beijo naquele homem sempre que o encontro, apenas pelo fato de ele não ter deixado você jogar tudo pela janela. Mas depois disso você paralisou Jungkook. Foi como se tivesse atingido sua cota de felicidade para a vida toda. - Jeon mirou os olhos de dragão do amigo e se sentiu estremecer ao encontrar os olhos bonitos tristes.

— Talvez eu tenha, hyung. Talvez seja mais felicidade do que eu de fato mereça. - a voz se entrecortar conforme a vontade de chorar crescia.

— Não diga isso, Jungoo. - o amigo pediu — Você merece toda felicidade que esse mundo tem a oferecer. Todos acham isso. Apenas você se priva dela. - Namjoon se aproximou segurando Jungkook pelos ombros — Para de construir sua própria prisão, Jungkook. Se permita ser livre. Ele ia querer isso.

O mais novo abaixou o rosto, respirando fundo diversas vezes, evitando se entregar as lágrimas que queriam encontrar caminhos nos olhos escuros.

Jungkook sabia que era seu próprio carcereiro. Sabia também ser seu único juiz. Estava em suas mãos o poder de libertá-lo daquilo que a tanto se prendia. Apenas ele podia abrir a porta de sua cela e se libertar enfim.

Mas se julgava indigno da liberdade. Indigno de tudo que se fazer liberto poderia lhe trazer. Indigno de felicidade, de amor e de sonhos.

As razões pelas quais vez ou outra pensava em dar fim à relação com Jae, era em partes, porque se sentia egoísta. Egoísta por se permitir ser feliz e amado pelo outro. E o jovem Choi estava certo, as acusações e inseguranças estavam apenas na cabeça de Jungkook, em seus pensamentos e sentimentos.

Porém eram esses os lugares mais perigosos onde tais coisas poderiam habitar. Porque lá, no interior do jovem Jeon, era onde ninguém mais parecia alcançar. De onde ninguém parecia poder o resgatar.

— Ei. - Namjoon o chamou depois de algum tempo de silêncio e Jungkook o encarou. Entre seus dedos o pano se mantinha e ele puxava fios soltos de modo ansioso — O que acha de quando meu pai voltar, irmos de bicicleta até a praia?

— Eu tenho...

— Você consertou o último carro de hoje e até onde sei ainda não fez seu horário de almoço. Então podemos ir até a praia e depois comemos juntos, o que acha? Faz tempo que não fazemos algo assim. - o sorriso de Namjoon fez nascer uma falha em sua bochecha. Uma falha adorável.

— Ta. Pode ser. - o sorriso de Namjoon se alargou e ele bagunçou os cabelos de Jungkook, fazendo ele rir.

— Você é um cara incrível, Jungoo. Queria que você se visse da forma como eu te vejo.

E Jungkook adoraria se ver pelo ponto de vista de Namjoon. Mas infelizmente não se via.

✨��

— Me lembra aqui, de quem foi a ideia de jerico de ir a praia no frio. - Jungkook pediu assim que se sentou na cadeira do restaurante de churrasco coreano, colocando a mão sobre a brasa já acesa.

— Engraçado que fala assim hoje, mas dez anos atrás ficou me enchendo o saco pra ir com você no dia mais frio do ano só porque jurou que o sub-zero ia estar lá. - Jungkook riu largo inclinando a cabeça para frente.

— Eu tinha treze anos e você dezesseis. O mínimo que devia ter feito era ter colocado juízo na minha cabeça. - Namjoon negou com a cabeça.

— Eu não. Sou pai de ninguém.

Fizeram seus pedidos e ali conversaram sobre todo o tipo de banalidades por longos minutos. Namjoon contando sobre seu último encontro com um cara do Tinder que havia sido um desastre completo. Desde carro furando pneu, até restaurante sem luz e cama quebrando antes mesmo de chegarem aos finalmentes.

Jungkook gargalhava alto batendo palmas e se agitando como uma criança. E Namjoon sorria, de coração aquecido ao cortar pedaços de porco sobre a grelha.

A amizade dos dois já perdurava longos anos. Namjoon e Seokjin estudaram no mesmo colégio quando eram mais novos. Era um lugar caro o qual Namjoon apenas frequentava por conta de uma bolsa de estudos. Os Kims se falavam durante intervalos por conta dos amigos em comum, mas foi quando Seokjin se viu com dificuldades em inglês que os dois se aproximaram. Namjoon era conhecido na escola como um tipo de prodígio. Havia aprendido a língua estrangeira assistindo séries de TV e aos quinze anos já falava com certa fluência. Seokjin pediu por ajuda no fim de um dia de aula e Namjoon aceitou ajudá-lo sem pedir nada em troca.

Então, duas vezes por semana, o motorista da família Jeon buscava os dois na escola e os levava para a mansão. Eles estudavam no quarto de Seokjin, e Jungkook, que sempre se mostrou um garoto bonzinho e tímido, nunca os incomodava. Até um dia em que o senhor Jeon chegou mais cedo do trabalho e encontrou o pequeno na sala de estar. Os gritos do homem começaram e minutos depois a porta do quarto de Jin foi aberta revelando um Jungkook com os braços rabiscados e rosto completamente molhado por um choro compulsivo.

Os desenhos nos braços de Jungkook não eram os melhores que Namjoon já havia visto, mas eram bons para alguém de doze anos.

— Isso aqui é um dinossauro? - foi a pergunta que fez os grandes olhos de jabuticaba focarem em Namjoon. Jungkook, ainda chorando, assentiu. Não entendia porque alguém grande como Namjoon falava com ele com tanto cuidado, já que o único homem grande que falava consigo daquele modo era o irmão, mas gostou. Se sentiu acolhido.

— É o animal favorito dele. Não é, Kookie? - Jin puxou o assunto e o Jeon assentiu.

— É um... - um soluço surgiu e respirando fundo, prosseguiu — Esse é um braquiossauro. Tem o pescoço grandão. - apontou o desenho no braço esquerdo — E esse... - apontou o do braço direito — É um tiranossauro. Tá meio torto, mas é porque ainda não sei desenhar direito com essa mão. - e levantando a mão esquerda pareceu tímido.

— Tá muito bom. Eu sou péssimo com a mão esquerda. - Namjoon fez uma careta e Jungkook riu limpando o nariz no braço.

— Dá pra treinar. Meu amiguinho da escola só escreve com essa e tá me ensinando. - explicou de modo inocente — Hyung... - encarou Seokjin — Posso mostrar o livro de dinossauros para ele? - pediu apontando Namjoon e Jin encarou o outro que sorriu largo.

— Eu vou adorar ver, Jungkook-ssi. - afirmou e naquele momento, quando Jungkook o olhou, pela primeira vez Namjoon viu os olhos grandes e escuros brilharem para si.

Durante os anos de amizade tornou a ver o mesmo olhar de Jungkook sobre si diversas vezes. E sempre que o via sentia o peito se aquecer. Porque os olhos brilhantes de Jungkook eram a afirmação de que estava sendo um bom hyung para o Jeon.

Se tornaram melhores amigos depressa. Namjoon, assim como Jin, não ignorava Jungkook. Os três por vezes brincavam juntos de todo tipo de coisa. E quando Namjoon e Jin saiam juntos para programas de garotos de suas idades, sempre acabavam trazendo algo para Jungkook.

Quando Seokjin estava nos acampamentos de verão, ou quando foi para o intercâmbio em Londres, Jungkook fugia e acabava na residência de Namjoon. Não havia os luxos que o jovem Jeon tinha em sua própria casa, mas se sentia confortável e acolhido, como quando estava junto ao irmão mais velho.

Mesmo sem a proximidade entre os pais, Jungkook - e posteriormente Seokjin - acabou descobrindo, na pequena casa dos Kim, o tipo de amizade que tomava espaço de família no coração.

— Hyung? - Jungkook chamou o mais velho notando que ele mexia na carne de modo distraído. Namjoon o encarou com um pequeno sorriso nos lábios — Se apaixonou pela carne, foi? - o mais novo brincou bebendo então do suco que se encontrava na caixinha.

— Não. Estava pensando. - explicou e Jungkook arqueou uma sobrancelha — Você ainda não tatuou um dinossauro no braço. - comentou e Jeon pareceu confuso por um instante, para então rir ao se lembrar do ocorrido.

— Acho que vou ligar pro tatuador e agendar. - Namjoon riu.

— Devia mesmo. - Jungkook sorriu largo pegando um pedaço de carne e o comendo.

Terminaram o almoço conversando sobre o último livro que Namjoon havia emprestado para Jungkook, e deixaram o restaurante pedalando devagar, Namjoon na bicicleta que sempre o acompanhava, e Jungkook na que havia pego emprestado de Dakho. O frio se fazia presente, mas nenhum dos dois acelerou na corrida. Dakho havia liberado Jungkook pelo resto do dia, já que o rapaz havia chegado mais cedo por conta de um cliente que deixaria a moto lá, então juntos, Kim e Jeon seguiram pelas ruas de Busan até o prédio de Jungkook.

Namjoon notou a tensão tomar o mais novo por completo assim que pararam em frente a construção, mas não compreendeu, então apenas esperou.

Jungkook respirou fundo e com os olhos fixos a entrada do prédio foi que contou:

— Jimin está morando no meu prédio. - Namjoon encarou o amigo, mas o olhar não foi retribuído.

— Tem certeza? Ele não estava visitando alguém? - Jungkook negou com a cabeça.

— Não. O encontrei no elevador com Taehyung e Hoseok, e ele me disse que mora aqui. - Namjoon então encarou o prédio também, como que esperando Park sair dali para confirmar a história, mas isso não ocorreu.

— E agora, o que vai fazer? - Jungkook encarou o mais velho.

— Não sei. Como eu disse antes, não achava que fosse encontrá-lo de novo, mas aparentemente você estava certo. O universo quer que a gente se encontre de novo e vem me mostrando isso a semana toda. Mas eu não quero isso e nem sei o que fazer, então vou continuar fugindo. - deu de ombros como se não fosse nada e como se fugir fosse uma escolha simples. Não era. Era difícil. Desde o primeiro momento foi difícil — Vou entrar. Acho que vou jogar uma partida de overwatch pra distrair a cabeça. - estendeu a mão para Namjoon que acertou um soco de leve na mesma. Jungkook então desceu da bicicleta e começou a se afastar.

— Jungoo! - Namjoon o chamou e o mais novo o encarou. Quebrando a distância entre eles e para que pudesse falar mais baixo, Namjoon pedalou um pouco na bicicleta parando perto ao meio fio — Se lembra da teoria que te contei uma vez? Sobre sermos poeira das estrelas? - Jeon assentiu, imaginando onde aquilo iria parar — Se essa teoria for verdade, está na hora de aceitar que você e Jimin, são formados dos átomos da mesma estrela e que estão destinados um ao outro.

Um arrepio percorreu todo o corpo de Jungkook e o rapaz engoliu em seco.

— É apenas a romantização de uma teoria científica, hyung. - o tom incerto de Jungkook fazia com que aquela resposta soasse mais como uma afirmação para si mesmo que para o Kim.

— Espero que esteja certo, Jungoo. - Namjoon apertou os lábios e acenou, começando então a pedalar para longe dali.

— Eu também, hyung. Eu também.

✨��


Notas Finais


Oii, como é que cêis tão?
Eu tô tentando me organizar pra ter mais atts das minhas fics e a primeira semana deu quase certo. Átomos atrasou um diazinho, porém veio ai. Tô com um pouco de bloqueio/desanimo, mas tudo vai dar certo.

O que estão achando alias? Último capítulo teve teoria, mas por hora eu nem posso me pronunciar muito porque se não entrego tudo hahahah

Enfim, por hora é isso. Obrigada a quem vem acompanhando a história e a gente se vê em breve.

O Jimin e o Jungkook tem twitter @ji_atomos @jk_atomos
E eu também: @be_keyssi
#PerdidaoNasEstrelas


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