História Attraction - Capítulo 1


Escrita por: e letter4you

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jungkook (Jungkook), Kim Namjoon (RM)
Tags Ace!jungkook, Jungkook!ace, Namkook, Nkm, One Shot Bts, One-shot, Sensualidade, Sexy!museum
Visualizações 68
Palavras 4.925
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fluffy, LGBT, Shonen-Ai, Violência
Avisos: Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


oi, meus amores, essa é a minha primeira fanfic no @namkookmuseum e espero que vocês curtem o assunto que eu decidi trazer o projeto. é diferente, pode ser interessante para alguns, como também completamente desnecessário para outros, mas eu espero receber compreensão e amor em troca <3

foi difícil para mim falar sobre o tema mensal, porque eu tenho dificuldade em achar alguma coisa, ou pessoa, sexy, então acabei atrasando toda a fanfic e reescrevendo-a várias vezes, como também eu não queria trazer uma parada que não tivesse uma parte de mim e que fosse uma mentira. logo, decidi que deveria falar sobre assexualidade, algo que eu sei, faço parte e sou, trouxe também a sensualidade — o “sexy” para os allos — de forma diferente: a personalidade, a atitude, o diferente, o carinho, são coisas que me atraem, mais do que qualquer corpo, pessoa, falas, toques etc.

boa leitura <3

Capítulo 1 - Kim Namjoon significava muita coisa


Fanfic / Fanfiction Attraction - Capítulo 1 - Kim Namjoon significava muita coisa

Ajeitou a calça jeans apertada, passeando aos poucos os dedos bronzeados sobre a fivela do cinto de couro falso. Seus olhos, então, levantaram-se e passaram pela blusa de algodão branco, até chegarem na gargantilha grudada ao seu pescoço bonito. Jogou as franjas grandes e castanhas para trás de suas orelhas carregadas de piercings e sorriu ao observar seu reflexo agradável naquele espelho sujo, manchado por maquiagem antiga e poeira acumulada. Deixou aquilo da forma como estava, olhou por fim a base bem aplicada de forma simplista em sua face tão bela, com direito a um batom vermelho claro, além das unhas curtas pintadas em um preto brilhante.

Afastou-se e, enfim, pegou a jaqueta jeans clara que estava jogada em cima da cama. Nas costas, a bandeira clichê do arco-íris, aquela que representava a comunidade LGBTQI+, destacava-se ao que era costurada no tecido grosso, enquanto as partes da frente eram tomadas por broches medianos, contendo as cores do gender-fluid¹, não-binariedade² e a da demisexualidade. 

Seus pais odiavam suas roupas. Odiavam ter que abrir o guarda-roupa de seu filho e encontrar uma variação de cores extravagantes — que combinavam com o que Jeongguk lutava por, em que se identificava quanto ser humano.

Jeon era uma compilação de cores e se sentia como tal.

Pulou a janela de seu quarto e viu o coturno preto firmar na telha da casa. Segurando-se na madeira da parede externa, o garoto andou em passos de tartarugas até a beirada daquele telhado e pulou, alcançando o chão com certa facilidade e parando nas moitas bem cuidadas da residência, mas reclamou de dor assim que se levantou e constatou que seu tornozelo havia ficado magoado com aquela queda. Levantou-se com dificuldade, mancando levemente, e, então, pôde olhar para dentro da sala, visto que caiu bem em frente àquela janela em específico.

Viu sua irmã mais nova brincar com seu pai. O senhor Jeon rodeava a pequena no ar, jogando-a para cima e a pegando na mesma hora. O vidro abafava os sons, mas Jeongguk pôde imaginar que os dois se divertiam pelos sorrisos radiantes e grandes que davam um para o outro. Ele se lembrava perfeitamente de quando aquele homem apontou o dedo em sua face e lhe disse que não sabia onde tinha errado para que viesse um filho “viado” que queria ser mulher, lembrava-se de quando teve os pôsteres arrancados a força da parede de seu quarto e contra a sua vontade, ou das vezes que teve o cabelo puxado e o corpo acertado por tapas, cintadas, enquanto ouvia gritos e esporros apenas porque foi pego em flagra colocando a maquiagem de sua mãe e uma saia linda de bordados rosas.

Desde então, eles fingem que nunca tiveram um filho… Ou filha, talvez filhe³, seus pais nunca entenderam como o Jeon mais novo expressava seu gênero. Acharam que era uma fase, mas, agora com seus dezoito anos, Jeongguk não mudou muito… E nem ele mesmo sabe se isso é bom ou ruim, porque continua imprudente como qualquer outro adolescente de quatorze, quinze ou dezesseis anos.

Ele se sentia vazio na maioria das vezes, talvez pelo ciúmes incubado por saber que sua irmã mais nova estava ganhando tudo aquilo pela qual esteve lutando durante anos: atenção e afeto. Jeon tinha um carinho pela pequena, mas seus pais o olhavam feio quando o viam tão próximo dela, dizendo que iria a influenciar a “abrir a porta para o outro lado”, como se alguém forçasse os outros a serem quem são. No máximo, abrirá os horizontes e, se a pessoa se identificou com aquilo, fica do critério dela fazer o que quiser com aquela informação.

Naquela tarde, no entanto, seu pai se estressou novamente consigo, deu-lhe um tapa forte no rosto e disse que não queria que saíssem do quarto até o outro dia — que virasse o restante do dia trancado —, mas é claro que Jeon já não tinha mais medo daquele homem, ou, em uma linguagem mais adequada: estava pouco se fodendo.

Saiu daquela melancolia e desviou os olhares opacos para outra direção, especificamente para a cerca que envolvia todos os centímetros do terreno de sua casa, então, agachado, caminhou até aquilo que tanto observava e pulou sem muita dificuldade, passando para o quintal do vizinho.

Ajeitou o cabelo levemente comprido e entrou naquela outra residência pela porta de trás. O cachorrinho veio o cumprimentar e sua face se iluminou com aquilo, porque simplesmente amava animais.

— Fala, Jeon — Hoseok disse, dando um tapa no ombro do mais novo, que sorriu com aquilo.

— Hoje é ele — falou e viu os lábios de seu amigo abrirem em um sorriso radiante, então ele assentiu. — Vai logo, porque quero encontrar o Nam hyung.

— Você é tão cachorrinho. — Suspirou, mas gargalhou baixinho e sapeca quando recebeu um soco leve no ombro. — Vai tomar coragem de falar sobre sua sexualidade para o pessoal quando?

Jeongguk largou o cachorrinho no chão e olhou para o seu hyung, de forma meio avoada. Colocou as mãos nos bolsos da frente de sua calça e deu de ombro, enquanto prensava um lábio sobre o outro e arqueava as sobrancelhas. Ele tinha medo de dizer que era assexual para os seus amigos, ou melhor, de dizer que fazia parte de um dos espectros da assexualidade, o que, para ele, torna-se um pouco mais difícil, porque não estava nem um pouco a fim de escutar mais brincadeirinhas de mau gosto sobre sua orientação, não mais.

— Jeon… — Aproximou-se do mais novo e o segurou pelos braços pouco fortes. — Faça no seu tempo, sim? Mas eu fico preocupado por achar que aquelas brincadeirinhas de sexo te deixam desconfortáveis…

— Deixa um pouco. — Riu sem graça. — Eu não gosto quando ficam forçando que todo mundo precisa fazer sexo toda hora, ou com qualquer um, parece que ninguém é feliz sem essa porra. — Bufou.

— Olha pelo lado bom: o Namjoon só fica quietinho no canto dele — falou risonho e se afastou do outro para pegar a chave de casa, do carro e para deixar um pouco de ração na cambuca do cachorro.

Quando o nome de Kim foi mencionado, Jeongguk sentiu um sorriso involuntário bordar seus lábios finos e a mente vagar longe para o rosto bem esculpido do mais velho, no sorriso fofo, nas covinhas fundas e bonitas, ou em quando os olhos predadores fechavam quando ele sorria ou ria.

— Meu deus… — A voz de Hoseok lhe chamou a atenção e, assim, retornou do mundo das fantasia para encarar o rosto forçado em uma careta de repulsa. — Você ‘tá apaixonado.

Jeon revirou os olhos, mas não deixou de sorrir, porque não conseguia controlar o quente que se alastrava por seu peito todas às vezes que pensava em Kim Namjoon.

Merda, ele está apaixonado, caidinho, perdido naquela neblina maravilhosa, acolhedora, que o seu hyung deixava ao seu redor. Puta que pariu, Jeongguk estava cego de paixão.

— Calma, não precisa de pânico. — De novo, Jung lhe tirou do breakdown. — Vocês sempre foram os mais próximos do grupo. Quando usavam as paradas, vocês ficavam naquele toca-toca estranho. — Calou-se quando o mais novo ameaçou correr atrás de si, pronto para lhe dar um soco. — Você sabe que todo mundo já sabe que você ‘tá a fim dele, porque ‘tá muito óbvio e você não disfarça.

Eles saíram de casa e pegaram o carro velho que Hoseok chamava de Jofre — e que ele tinha muito orgulho deste — para, enfim, rumarem até a casa de Namjoon, uma hora de distância dali.

Pelo teto do veículo ser do tipo solar, durante a estrada, a luz alaranjada e amarelada do sol beijava suas peles bronzeadas, ao que os cabelos escuros se balançavam pelo vento quente e seco que aquela tarde proporcionava. No som, tocava “Paradise” do The Neighbourhood relativamente alto, o bastante para poder escutar as batidas gostosas da música e a voz do cantor dançar por entre seus corpos magros.

Quando chegaram no destino, Hoseok saiu normalmente do carro, abrindo a porta com calma, enquanto Jeongguk pulou aquilo sem dificuldade e riu quando escutou o mais velho reclamar por ter sujado o banco limpo.

Tocaram a campainha e Taehyung foi quem abriu. Suspeitaram quando viu o sorriso enorme e característico do outro garoto bordar os lábios poucos cheios, mas, quando viram Jimin aparecer atrás, reviraram os olhos. Namjoon tomou a frente e abriu mais a porta, sorrindo para os dois outros amigos que acabaram de chegar.

— Finalmente vocês chegaram — disse e deu passagem para Jeon e Hoseok. — Eu não posso deixar Tae e Park sozinhos por dois segundos que eles já estão se pegando no meu sofá. — Escutou o casal rir sapeca atrás de si. — Preciso de pessoas como vocês dois e Yoongi para balancear as coisas aqui.

Hoseok foi na frente e cumprimentou Taehyung e Jimin, para depois correr para os fundos da casa, especificamente para a cozinha, e fazer o mesmo com Seokjin e Yoongi, que estavam descascando as batatas para a janta. Jeongguk parou no caminho e abraçou Namjoon, rodeando-o pela cintura fina, e logo sentiu os braços musculosos passarem por cima de seus ombros. Não pôde deixar de sorrir grande com aquilo, o sorriso que parecia tão inocente e carregado pela infantilidade de uma criança de cinco anos. Quando se afastaram, sentiu as bochechas serem acariciadas pelo indicador de Kim, uma coisa que ele sempre fez, mas que, agora, havia se tornado algo maravilhoso para o mais novo.

Sempre que tinham oportunidade, o grupo se reunia na antiga casa dos Kim’s e, assim, preparavam uma janta gostosa — praticamente era só Yoongi, Seokjin e Hoseok que faziam alguma coisa —, enquanto enchiam seus copos com cervejas, vinhos ou vodka, de acordo com o gosto de cada um. Mas o foco de Jeongguk era Namjoon. Ele gostava de seus amigos, na verdade, amava-os mesmo que se irritasse às vezes, mas toda a sua atenção era completamente voltada para Kim Namjoon, o terceiro mais velho entre o pessoal, entretanto o mais atraente para Jeon.

Os dois não perdiam uma oportunidade sequer para ficarem em seu próprio mundinho, falando sobre coisas aleatórias, mas que fossem o suficiente para manter um sorriso no rosto um do outro durante horas. Ninguém os interrompiam, porque achavam fofo aquela situação, aquele casal não assumido era agradável de se observar.

E Jeongguk, às vezes, não prestava atenção em nada, apenas se perdia ao olhar os lábios carnudos do outro se mexerem ao que ele falava, ou nos olhos sem pálpebra dupla que praticamente se fechavam quando o via olhar para baixo, enquanto um sorriso tomava conta de suas bochechas secas.

Foi naquela pequena reunião que os toques se intensificaram, tornaram-se íntimos e não precisou de nenhuma substância, apenas a força de vontade dos dois, especificamente de Jeon, que conseguiu coragem para fazer o que queria fazer há anos.

A noite havia adentrado a cidade, a luz da lua beijava o sofá e o chão coberto de carpete da sala próximos da janela grande ali imposta. Jimin e Taehyung estavam chapados e jogados em um canto qualquer da casa, Hoseok estava abraçado a Yoongi e Seokjin com a cabeça encostada nas coxas magras do último citado, mas, diferente de seus amigos, Jeongguk e Namjoon estavam sentados no coxim bagunçado, próximo a parede.

Os corpos se aproximaram, os nariz roçaram e, automaticamente, as pálpebras se fecharam, os lábios se entreabriram e as respirações quentes se misturavam. A destra do mais novo foi a encontro do rosto bem esculpido de Kim, acariciando a mandíbula marcada deste, e, enfim, puderam sentir as bocas macias se chocarem em um selinho simples, rápido, mas que foi o suficiente para trazer um choque — que beirou ao horrível, ansioso — em Jeon. Subitamente, Jeongguk se afastou e encarou o mais alto, este que acabou lhe direcionando olhares questionadores, talvez tentando entender a situação.

— Eu nunca beijei ninguém — Jeon falou e, pelo contrário do que pensou, não viu o rosto bonito do outro se contorcer pela indignação, muito menos escutou uma piada de mal gosto. Pelo contrário, Namjoon apenas balançou positivamente e o segurou pelas mãos.

— Se você não quiser, está tudo bem… 

Jeongguk se levantou, agradeceu pelo jantar e disse que voltaria de ônibus para casa, mesmo que levasse duas a três horas. Não sabia exatamente o porquê de ter feito aquilo, não tinha um argumento feito, mas deduzia que estava associando à sua orientação sexual, talvez com medo da rejeição, mesmo que soubesse que somente se abriria para uma única pessoa: Kim Namjoon.

O mais velho tinha passe livre, porque Jeon se sentia completamente atraído a ele, seja de forma romântica ou até mesmo sexual, mas não sabia como fazer isso, então por isso decidiu deixar para outro dia, talvez em outra reunião.

Jeongguk sempre teve dificuldade em achar os outros atraentes — quer dizer, achava muitos meninos bonitos, mas não queria transar com nenhum, muito menos beijá-los, achava aquilo estranho, até mesmo repulsivo; não conseguia se sentir bem ao fazer isso com pessoas que só viu uma vez  na vida, ou que nunca teve um contato antes. Foi difícil para si descobrir-se demissexual, na verdade, achava que era assexual estrito, aquele espectro que sente atração sexual nula, mas que isso mudou quando começou a ter consciência do crush fortíssimo que sentia por Namjoon e, pela primeira vez, queria beijar alguém, tocar na pessoa, sentir pele com pele, e então ele se deu conta que aquilo era a famosa atração sexual que seus amigos — especificamente Jimin e Taehyung — tanto falavam.

Park e Seokjin sempre o zoavam por nunca se expressar sexualmente, por não falar sobre sexo nunca, mas Jeongguk não tinha problemas com isso, o que o irritava era como as pessoas tratavam isso como se fosse uma necessidade vital, tipo beber água ou comer — e para ele era apenas sexo. Yoongi, por outro lado, defendia o mais novo do grupo, dizendo que virgindade era uma construção social e que os adolescentes só faziam sexo cedo pela curiosidade ou por pressão, o que ele achava ridículo e perda de tempo; Hoseok sabia sobre a assexualidade de Jeon, então não opinava e nem se importava com aquele assunto, e Namjoon sempre ficava quieto no canto, porque era um doce e deixava claro que o que os outros fazem ou deixam de fazer não era da conta dele. E Taehyung? Ele sempre estava ocupado fumando um ou provocando o namorado.

Quando chegou em casa eram quase seis horas da manhã. O sol deixava o céu em um tom claro de rosa, misturando-se aos poucos com o alaranjado tímido que bordava ali. Pulou a cerca com cuidado e escalou a trepadeira que descansava ao lado da parede externa da casa, especificamente perto da janela de seu quarto no segundo andar.

Entrou na residência finalmente, deixou a jaqueta jeans de lado, desfivelou o cinto e, enfim, tirou a calça justa, então deitou-se na cama. Não demorou muito para dormir feito uma pedra — nem mesmo sonhar, ele sonhou.

Quando o relógio da cômoda começou a tocar, o garoto deduziu que era meio dia, horário de almoço, e que uma hora da tarde deveria estar no emprego de meio período que havia conseguido em uma lojinha simples de doce. Ajeitou-se na cama de casal no seu quarto, espreguiçando-se ao que os olhos se fechavam e as sobrancelhas franziam, então olhou para a forma graciosa que sua cortina branca, beirando a transparência, balançava quando um vento fraco avançava para dentro do cômodo agradável, mas o cheiro de algo queimando lhe chamou a atenção.

Levantou-se do colchão e caminhou até a madeira da janela, abrindo-a mais um pouco, o suficiente para ver que os seus pais estavam ao redor de um tipo de barril, que pegava fogo dentro. Ele não estranhou, porque aqueles dois eram estranhos mesmo, mas toda a sua calmaria sumiu assim que viu um ponta colorida pender para fora. Correu até o seu guarda-roupa, revirando-o todo, abrindo cada gaveta e porta impostas ali, mas não encontrou aquilo que procurava, e então ligou um ponto ao outro: eles estavam queimando sua bandeira.

Vestiu qualquer roupa preta que apareceu a sua frente e desceu a escada correndo, quase tropeçando em seus próprios pés e caindo por entre os degraus justos, mas, quando atingiu o hall da casa, especificamente a que dava para o quintal de trás, abriu a porta de correr e sentiu o vento gelado beijar sua pele tão quente pela raiva que lhe invadia. Seus pais lhe olharam — sua mãe o lançou um olhar assustado, mas seu pai era de puro tédio e isso só fez com que Jeongguk sentisse mais raiva ainda.

Andou até o senhor Jeon com os punhos fechados, as íris castanhas e que transmitiam uma falsa inocência chamavam a atenção pelas chamas raivosas que tomavam conta de seu interior. Parou quando atingiu poucos milésimos de segundos da face do mais velho, os dois bufando de raiva. O seu progenitor não gostava quando Jeongguk se armava todo, achava aquilo um abuso, mesmo que fosse o lógico por parte do filho.

— O que é isso dentro do barril? — perguntou com a voz arrastada e viu seu pai erguer a sobrancelha direita, julgando-o.

— O que você acha que é? — Retornou com outra pergunta.

Quando Jeongguk se preparou para responder, sentiu um cano gelado tocar a lateral de sua cabeça e, se antes sua expressão facial era contorcida pela raiva, agora seus olhos de jabuticabas arregalaram-se e o pavor tomou conta de seu corpo pouco musculoso. Bonhwa estava apontando uma arma para si.

Seu pai estava o ameaçando com a morte.

Seu pai. O homem que deveria fazer o papel paterno.

Puta que pariu.

Afastou-se do corpo do mais velho e foi cada vez mais para trás ao que o senhor Jeon gritava para ir, para sumir, porque estavam cansados de fingir que não existia uma quarta pessoa na casa, de tão insignificante que Jeongguk era para eles. Então, em pulso só, retornou para o seu quarto e arrumou uma mochila com as primeiras peças de roupa que apareciam para si dentro do armário, para depois sair da residência pela porta da frente, mas que dessa vez não tinha motivo — e nem vontade — de voltar.

A mochila azul escura carregada de planetas fictícios pendia em suas costas, os fios castanhos de seus cabelos ondulados e longos balançavam de acordo com a brisa quente que rodeava aquela redondeza, as mãos de unhas bem pintadas segurava com força a barra de sua blusa de manga comprida e preta, enquanto o seu rosto bonito e marcado era tomado pelas lágrimas salgadas e em abundância que desciam de seus olhos arredondados, pretos como um dos mais belos céus estrelados. Sem saber o que fazer, correu para a casa do lado, para Hoseok, seu amigo mais próximo, e, assim que foi atendido, jogou os braços poucos musculosos pelos ombros de Jung, deixando a choradeira mais escandalosa.

O mais velho acolheu Jeon e naquela tarde nenhum dos dois saiu para trabalhar, entretanto, Jeongguk ainda estava apavorado por toda aquela situação de mais cedo. Nunca, em toda a sua vida, não importasse as circunstâncias, imaginaria o seu próprio pai apontar a arma em sua cabeça, aquele objeto que o senhor Jeon jurou de pé junto usar somente em ocasiões severas, que perturbassem a paz de sua família.

Mas, então, era isso que Jeongguk era para os seus progenitores? Uma perturbação, um incômodo? O próprio filho poderia estragar uma família só por ser gênero fluido, por gostar de coisas ditas femininas pela sociedade, de querer se sentir confortável com sua expressão de gênero e orientação sexual? Caralho, vai se foder. Ele não matou ninguém, não cometeu mal a ninguém, por que as pessoas se incomodam tanto com o que os outros fazem ou deixam de fazer? 

Deixa o povo se expressar, deixa o povo ser quem são, deixa-os amar livre, de se casar ou de não sentir vontade de fazer tal coisa. Quando você ama, você é julgado e, quando o contrário, você também é julgado.

Se você transa muito e com muitas pessoas diferentes, você é um galinha ou uma puta. Se você não transa com ninguém, você é o virgem inocente que “não provou o do melhor”. Caralho, deixa as pessoas em paz.

Jeon se sentou na sofá e pensou, mas pensou muito sobre tudo que aconteceu e acabou os associando com outras situações, e isso ocasionou em ódio. Sentia raiva de seus pais, do momento em que teve que encarar, da sociedade, das pessoas que não entendiam a sua assexualidade ou no fato de que um dia se sentia uma menina, no outro um menino e talvez sem gênero algum em outro. Ele parecia complexo, mas não era e o fato de ninguém mover um dedo para pesquisar mais sobre as coisas, de tentar entender aquilo, de levar a sério, ao invés de dizerem que não se passava de mais um adolescente do Tumblr, que estava inventando aquilo, tudo isso causava ódio no garoto.

Sem perceber, Jeongguk encarava um canto qualquer daquela casa minúscula de seu amigo e, se antes tinha uma expressão abatida, agora tudo se contorcia pela raiva — desde o cenho franzido até os olhos flamejantes. 

— Vamos para o Namjoon — disse ao que se levantou como se fosse um jato. — Preciso conversar com ele.

Hoseok o encarou confuso, questionando o que caralhos estava passando na cabeça do mais novo para ser tomado pela adrenalina de repente.

— Se for tentar alguma besteira que vá se arrepender mais tarde, é melhor não irmos.

Jung o conhecia tão bem que até mesmo assustava o garoto.

— Não vou fazer nada, mas estou com coragem de dizer a ele sobre quem eu sou e o que estou sentindo — rebateu.

— Uma hora de carro pode ser tempo o suficiente de você mudar de ideia — suspirou, não gostando nem um pouco daquilo. Pegou o celular no bolso de trás da calça de moletom que usava e mandou uma mensagem para o Kim, perguntando-o se estava em casa e, quando a resposta veio rápido, deduziu que seria verdade, provavelmente Namjoon estaria ocupado jogando algum jogo online no telefone. — Beleza — Deu de ombro —, mas não venha chorar no meu colo depois. — Riu e viu o amigo acompanhar, exibindo os dentinhos fofos.

Hoseok pegou a chave da lata velha que ele chamava de carro e, assim, eles partiram para o outro lado da cidade. De fato, uma hora era muito tempo para pensar nas ações que Jeon tinha em mente, mas a verdade foi que, quando o vento da estrada bateu contra seus cabelos macios, ele fechou os olhos e focou em sentir a corrente de ar cortar sua derme quente e seu corpo relativamente magro. Pôde sentir um sorriso contente rasgar seus lábios caramelizados e abriu os braços, quase atingindo o motorista ao seu lado, mas estava se sentindo tão bem, tão liberto, e esperava continuar assim quando falasse com Namjoon, porque o mais velho é o significado cru de liberdade para si, é a sensualidade em personalidade, é a pessoa com que sentia seu peito explodir em fogos, chamas ardentes.

Caralho, Kim Namjoon significava muita coisa.

Quando chegou na residência do mais velho, abriu a porta do carro e deu poucos passos até alcançar a entrada de madeira branca, tocando a campainha em seguida. Não demorou muito para Kim abrir, exibindo o rosto amassado, provavelmente por ter cochilado naquele meio tempo, os olhos inchados e sonolentos e os lábios um pouco mais opacos do que normalmente era, mas nada que fosse preocupante.

Jeongguk encarou o dono da casa antes de sentir o corpo de Hoseok passar por si, deixando os dois sozinhos na fachada da residência. Namjoon apoiou o corpo no batente da entrada, cruzou os braços e ficou em silêncio, talvez esperando que o mais novo falasse alguma coisa, enquanto sentia a brisa quente daquela noite atingir seus corpos bronzeados. A rua era tomada pelas luzes brancas dos postes, mas tornava-a escura de qualquer forma e completamente deserta, porque ninguém saía de casa depois daquele horário.

— Podemos conversar? — perguntou. Suas mãos se juntaram a frente de sua pélvis e seus olhares nervosos desviaram para o gramado mal cuidado da casa.

— Claro — respondeu. Encarava Jeon com certa curiosidade.

— Eu… — suspirou. — Nam, eu… Eu nem sei por onde começar. — Riu nervoso, então viu pelos cantos dos seus olhos arredondados e escuros o corpo esguio do outro se aproximar aos poucos, tocando-lhe nos ombros. Isso, por incrível que pareça, trouxe ao garoto um calmaria boa, um conforto, como se Kim Namjoon fosse a sua casa, esta que ele deixou de ter a partir dos dez anos de idade. — Vamos começar pelo básico: eu sou assexual, especificamente demissexual — disse e, quando viu o mais velho abrir os lábios para falar, decidiu continuar. — Você sabe o que é isso? — Viu Kim negar. — Podemos entrar para eu possa te explicar?

Então, eles foram direto para a sala, sentaram no mesmo coxim que trocaram selinho pela primeira vez e, ali, Jeon começou a explicar o básico de como, nos dias “atuais”, a sexualidade humana foi dividida:

Existem três tipos de categorias: a allossexualidade, a grayssexualidade e a assexualidade. Os três estão relacionados a atração sexual — ou em como administramos isso —, ou seja, é o tesão direcionado a uma única pessoa, ou ao um tipo específico de “pessoa” ou até mesmo grupos que te atraem. A atração sexual não está ligada a vontade de fazer sexo, porque muitas pessoas realizam o ato sem sentir um tesão ou atração àquela pessoa em específico que estão transando.

Agora, a allossexualidade é onde a atração sexual e/ou vontade de fazer sexo é constante, ou seja, não é preciso muito esforço para que a pessoa allo sinta isso, enquanto os assexuais são o oposto. E grayssexuais são pessoas que sentem atração sexual raramente, ou de forma fraca. Dentro de cada termo, existem as suas respectivas sexualidades, incluindo a demissexualidade, quando a atração sexual é ligada há um vínculo emocional/psicológico/intelectual com outra pessoa.

Existem outras atrações como a romântica, sensual, de estética ou intelectual, mas nem sempre estão todas relacionadas a sexual.

Enquanto explicava tudo, Namjoon apenas mexia a cabeça positivamente, assentindo todas às vezes que Jeon o encarava, talvez esperando confirmação de que era escutado e compreendido e, de fato, estava, porque o que mais agradava Kim era saber coisas novas, de conhecer mais a fundo as pessoas com que se sentia atraído, aquilo o deixava animado.

No final, os dois ficaram em silêncio. As íris castanhas não desviaram um segundo sequer, a luz da lua beijavam suas dermes com a sua cor azulada, enquanto as mãos se tocavam em um carinho sutil. Jeon sorriu com aquilo, um sorriso tão lindo que fez o outro o acompanhar.

— Mas eu também tenho outra coisa para falar… — disse, aproximando-se aos poucos de Namjoon, este que não desviou, muito menos se afastou, apenas ficou parado ao sentir o hálito fresco e quente do mais novo tocar sua bochecha direita. — Eu estou perdidamente apaixonado por você. — Com a revelação, viu a cabeça de Kim ser direcionada para si, os lábios roçaram minimamente e as pálpebras se fecharam automaticamente por milésimos de segundos.

— Posso dizer o meu discurso agora? — perguntou e escutou a risada baixinha de Jeongguk ecoar pela sala vazia, escura e quieta da casa. Tão próximos, tão ligados. — Eu te acho bonito desde o momento em que bati os meus olhos em você, há dois anos atrás. Você já tinha os cabelos longos, o rosto bem marcado, mas o que me conquistou foi o seu jeito fofo, o seu sorriso amigável de coelhinho. — Levou a destra até os fios ondulados de Jeon e os colocou atrás de sua orelha carregada de piercings. — Eu saía com muita gente naquele tempo, mas fui diminuindo os meus contatos ao que eu fui me aproximando de você, porque você me encantava, era único, emanava liberdade e, caralho, sempre foi bom passar o tempo com você, conhecendo-te aos poucos, trocando carinho, falando sobre coisas aleatórias. — Encostaram as testas e fecharam os olhos, respirando fundo. — Eu nem sei se é paixão o que eu sinto, porque, sinceramente, beira mais a um amor confortável.

— Sinto muito, senhor psicólogo, eu estou apaixonado mesmo. — A fala trouxe risadas para os dois. 

— Isso na verdade é obsessão.

— Me beija logo — pediu e, então, os lábios se uniram em um selinho breve, até o mais novo forçar a língua, passando-a para a boca alheia. 

As mãos de Jeongguk foram para a nuca de Namjoon, acariciando minimamente os cabelos castanhos rasos dali, enquanto o dedão brincava na mandíbula alheia. O Kim apenas apoiou os dedos nas coxas do outro. O beijo, no entanto, era uma explosão de sentimentos, por parte dos dois, como se entrassem em ebulição e fossem uma panela de pressão prestes a explodir, mas nada que fosse negativo, muito pelo contrário. Os dois desfrutavam aquele momento com muito carinho, calma — principalmente por ser o primeiro beijo de Jeon e por estar um pouquinho confuso — e, novamente, carregados de sentimentos.

Por vezes, separavam-se para mudar a posição da cabeça e, como se fossem ímãs, as bocas se encaixavam tão bem quanto antes. Os dentes se batiam às vezes e as línguas se perdiam, mas eles não ligavam e Jeon tinha em mente que não seria julgado pelo homem que gostava, porque Namjoon era assim, sempre um doce, compreensível e, o mais importante, carregado por uma calmaria praticamente inalcançável.

Aquilo era mais do que um beijo para Jeon, era confortável, sentia-se em casa, com mais vontade ainda de se jogar naqueles braços que remetiam a um acolhimento sem igual. Era atraente para si, mais do que qualquer outra coisa.

 


Notas Finais


gender-fluid¹ : é gênero fluído só que escrito em inglês

não-binariedade² : é um termo guarda-chuva — que contém várias identidades diferentes dentro de si — para identidades de GÊNERO que /não/ sejam integral e exclusivamente /homem ou mulher/, estando portanto fora do binário de gênero e da cisnormatividade.

filhe³ : é o pronome neutro para o uso do filha (feminino) e filho (masculino). o uso do pronome neutro aqui: https://twitter.com/cmlasz/status/1148379325617639424?s=19

OBRIGADO A TODOS QUE LERAM ATÉ AQUI!! como eu disse nas notas iniciais, foi muito difícil produzir a fanfic, mas fiquei feliz com o resultado, então espero que alguém também fique. peço perdão pelas revoltas e lições de moral durante o capítulo, não consigo escrever nada sem ter crítica social no meio.

sobre o(s) gênero(s) do jeon: eu imaginei ele sendo poligênerofluid, ou seja, ele se identifica com mais de um gênero (feminino, masculino, neutro e sem gênero) e é fluido (flui entre as quatro expressões) 🙌 #tmj

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Links para que você possa estudar mais:

1. Atrações: https://medium.com/@laurampires/dicionário-de-sexualidades-um-guia-incompleto-f49b72b74220

2. Grayssexual: https://orientando.org/listas/lista-de-orientacoes/gray/

3. Demissexual: http://www.revistacapitolina.com.br/visibilizar-demissexualidade/

4. Gênero fluído: https://orientando.org/listas/lista-de-generos/genero-fluido/

capa/banner: @jundae
betagem: @magickim


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