História Attractions - Capítulo 2


Escrita por: ~

Postado
Categorias Tokio Hotel
Personagens Bill Kaulitz, Georg Listing, Personagens Originais, Tom Kaulitz
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Palavras 12.441
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Comédia, Romance e Novela, Shonen-Ai, Slash, Universo Alternativo
Avisos: Álcool, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


E agora sim começa a fic.
Espero que (quem chegar a ler) goste <3

Capítulo 2 - Bill und ich


Fanfic / Fanfiction Attractions - Capítulo 2 - Bill und ich

Estávamos em março. Era o começo da primavera e ainda estava muito, muito cedo. Eu estava esparramado sobre o banco de um trem com destino à Tulsa, Oklahoma. Ao meu redor só se viam crianças e seus respectivos pais em um, sem sombra de dúvidas, passeio familiar. Para meu azar eu não me incluía nesta realidade, estava lá a trabalho. Por mais entusiasmante que possa parecer uma viagem daquelas.

Suspirei, escondendo parcialmente o rosto com o gorro do moletom esportivo que usava e me espreguicei no banco duro de madeira envernizada. Estava com muito sono.

Meu nome de batismo é Thomas Trümper e sou filho de Gordon Trümper, um pequeno fazendeiro do estado do Kansas. Meus pais se separaram quando eu ainda era bem pequeno. Meu irmão Andy fora morar com minha mãe enquanto eu ficara com o velho. Não tenho do que reclamar, eu sempre o considerei a pessoa mais importante do mundo para mim.

E o que um cara como eu estaria fazendo as seis e meia da manhã de um fim de semana quente e ensolarado como aquele, indo para outro estado?

A explicação é simples.

Sou formado em psicologia com especialização em crianças especiais – por mais que ainda estivesse para terminar minha pós. Crianças cegas ou surdas. Meu papel é facilitar sua inclusão no meio social, e também ensiná-los a se comunicarem com o mundo exterior.

Por possuir um interesse significativo por pessoas cegas desde muito pequeno, resolvi seguir tal carreira. No decorrer dos anos fui me envolvendo no assunto por conta própria, aprendi a linguagem de sinais sozinho e fiz cursos de braile, até o dia que conseguisse o diploma que me capacitaria a exercer a profissão que tanto almejava.

Algumas semanas atrás um homem e sua mulher entraram em contato comigo, querendo que eu desse a devida assistência ao filho deles, que além de surdo era cego. Confesso que no momento em que soube da situação do garoto com pouco mais de 16 anos, me assustei.

Não que eu tivesse me recusado a orientá-lo, muito pelo contrário. Eu só não pude deixar de imaginar o quão difícil poderia ser a vida de alguém que não podia ouvir nem muito menos enxergar. Obviamente também temi por mim, não sabia até onde conseguiria ser útil para a família. Com toda a certeza esse seria o meu maior desafio desde que me formei.

Antes que se perguntem o motivo pelo qual eles contataram alguém a quilômetros de distância, eu lhes digo: eles não tiveram opção. Disseram que Bill, o dito cujo, era o que se pode chamar de garoto problema.

Veja bem, pessoas profissionalizadas na minha área – e com o meu currículo – não de se encontravam em qualquer lugar, mas isso não vem ao caso. Como dizia, Bill era considerado um problema sério entre seus tutores – ou os que tentavam o ser – e sempre acabava conseguindo se livrar de todos. De que forma? Vou descobrir logo.

Dois minutos para as sete e meia e o trem parou na estação.

Ajeitei a bandana que usava na testa e fui me arrastando, junto da mala de viagem pendurada em meu ombro direito, para o lado de fora, aonde constatei a presença de um cara uniformizado com o mesmo verde da cor de seus olhos e um rabo de cavalo baixo, ao lado da um carro chique.

- Senhor Trümper? - Questionou-me o provável motorista da família. Aproximei-me vagarosamente, ficando alguns centímetros mais alto que ele.

- Só Tom. - Pedi, estendendo a mão desocupada para cumprimentá-lo com um sorriso de canto.

Ele ficou parado aonde estava por alguns segundos, até que eu me desse conta de que ele não corresponderia à minha atitude.

Abaixei o braço.

- O senhor e a senhora Kaulitz estão à sua espera, senhor Trümper. Vamos indo, o caminho é longo. - Assenti, agora já não mais sorrindo enquanto me deslocava para a porta do banco de trás, no qual o motorista teve o cuidado de abrir para mim.

Bem como o motorista disse, o caminho era longo. Chegamos em nosso destino, a casa dos Kaulitz, uma hora depois de sairmos da estação.

Abri a porta traseira e saí com cuidado. Não precisava de um motorista abrindo porta alguma para mim.

Rodei nos próprios calcanhares, soltando um assobio admirado para o tamanho do terreno a alguns passos de distância do meio fio.

Havia um gramado enorme, envolto por muros de pedra em altura mediana, um lago com bomba d’água em uma de suas extremidades e pequenas estátuas de gesso dispostas uma de cada lado do vão que dava acesso para a varanda, que se destacava por ser alguns níveis acima do restante do terreno, quatro degraus acima, mais especificamente.

Ouvi o baque mudo da porta do motorista ao mesmo tempo em que duas pessoas, um homem e uma mulher, saíam da casa, vindo de encontro a nós.

- Senhor Trümper! Que bom que chegou cedo. Como foi de viagem? – O homem de bigode dizia animadamente, me cumprimentando.

- Prefiro ser chamado só de Tom. – Indaguei com cuidado, de forma que não parecesse falta de educação corrigi-lo. – Foi bem cansativa. – Completei, agora sorrindo de canto e me virando para a mulher loira ao seu lado.

- Imagino. – Respondeu, colocando as mãos por dentro dos bolsos da calça social. - Uma viagem de quase seis horas não me parece algo muito agradável. Ah, e antes que me esqueça, eu sou Jörg, e esta é minha esposa Simone.

- Acho que consegui descansar o suficiente durante estas horas. – Sorri, mesmo que estivesse omitindo a dor que sentia nas articulações. - Então teria sido com a senhora que conversei por telefone? – Virei-me de frente para a mulher que tinha acabado de cumprimentar.

- Não, não. Foi com a minha cunhada, Natalie. É a única que consegue chegar perto de Bill. – Um sorrisinho sem graça se instalou em seu rosto. –De qualquer forma, creio que ele ainda esteja dormindo. Gostaria de tomar o desjejum conosco enquanto isso.... Tom?! – Percebi certo desconforto por parte de dona Simone em pronunciar meu nome sem formalidades. Senti-me levemente culpado pelo pedido egoísta, mas eu só tenho vinte e quatro anos, pô.

- Eu gostaria muito disso, se me permitir.

- Ora, deixe disso, a culpa foi nossa se precisou acordar tão cedo. – O bigodudo... Digo, Jörg falou. Simone desviou o olhar para o motorista, ainda parado rente ao carro. - Georg, traga as malas dele, sim?! Quero que deixe-as no quarto ao lado do de meu filho.

- Sim, senhora.

Segui os donos da casa até a varanda, decidido a adiar a conversa dos motivos que me levaram até ali. A deixaria para um momento mais adequado, que seria quando eu enfim pudesse ter uma xícara de café em mãos.

Georg também nos seguiu, se distanciando assim que atravessou a porta da frente, indo para o segundo andar enquanto meus anfitriões me levavam até a cozinha.

O cômodo me pareceu aconchegante. Exalava à café forte e chocolate quente. Em cima da mesa haviam pães, um bolo de baunilha, suco de laranja, algumas frutas e frios.

- Ora, sentem-se, sentem-se. Estou terminando de passar o café e assim que colocá-lo na mesa vocês poderão atacar. – Disse uma mulher que me pareceu ter mais de 40 anos e um sotaque texano, ela estava de pé na bancada da cozinha, mexendo na cafeteira manual.

Tomei um dos assentos almofadados sem muita cerimônia. Jörg fez o mesmo.

- Obrigada, Rosie. Depois pode se servir conosco. Inclusive, este é Tom, aquele de que lhe falei.

- Antes disso levarei a bandeja com o desjejum do patrãozinho, dona Simone. – Respondeu a que me parecia ser a cozinheira da família, ou provável governanta.

De forma um pouco atrapalhada me levantei e apertei a mão de Rosie, proferindo um pequeno olá. Ela sorriu carinhosa.

Voltei ao meu lugar.

- Não é necessário que faça isso hoje. Tom pode levar, assim pode aproveitar para conhecê-lo ainda cedo. – Jörg respondeu no lugar da esposa, que apenas deixou-o tomar sua frente e começou a beber o chá recém preparado para si pela criada. Eu apenas olhei-os de soslaio, ponderando a ideia em silêncio enquanto beliscava um pão de queijo.

- Jörg, será mesmo uma boa ideia? Você sabe como Bill pode ser selvagem com desconhecidos. – Ela olhou para o marido de maneira apreensiva.

- Quem melhor que Tom para controlá-lo? – Acompanhava a conversa calado, apenas olhando de um para o outro. Por que eu sentia que tinha me ferrado ao aceitar esse emprego?!

- Acha que pode fazer isso? – Perguntou-me, de fato, bem preocupada.

- Ahn... Talvez?

Rosie enfim colocou a garrafa térmica em cima da mesa e se sentou no lugar vago à mesa com uma ameixa nas mãos. Aproveitei o assunto transitório para despejar o café quente em minha xícara já com um punhado de leite frio. Em seguida comecei a preparar um lanche.

– Então eu irei arrumar tudo para que o senhorzinho apenas se encarregue de levar. – Assenti pela segunda vez. O que mais poderia fazer? Eles que me pagam, eles que mandam.

Agradeci, bebericando do café com leite levemente adocicado.

No instante seguinte, o barulho dos talheres era o único a se ecoar contra as paredes esbranquiçadas da cozinha. Enquanto começava a comer, a ansiedade tomou posse de mim e a curiosidade falou mais alto.

Larguei o pão com marcas de mordida no prato decorado e puxei o ar pela boca, me preparando para falar.

- Como pode um garoto de dezesseis anos ainda não saber ler? – Perguntei realmente interessado na resposta. – Digo, nenhum de seus antigos tutores conseguiu ensiná-lo?

- Oh não, Bill não tem dezesseis.

- Não?! – Ambos menearam a cabeça em sincronia. Calei-me, esperando que algum deles complementasse o assunto. Este foi Jörg.

- Bill fez dezoito ano passado. – Meu queixo caiu. – E ele sabe ler. Bem, ao menos sabia, antes de ficar cego. Agora, respondendo sua pergunta... Imagino que todos que passavam mais de três dias com Bill ficavam meio loucos.

Então eu não correria muito perigo, pensei.

- Bill é adotado, antes de tudo. – Recomeçou sem pressa. - Ele nasceu sem nenhum tipo de problema, apesar de ter sido prematuro. A mãe era muito nova, e não queria se prender à uma criança, sendo assim ela o deu para adoção com poucos dias de vida. Por possuir uma saúde fraca, Bill contraiu meningite e apesar de curado sua audição foi afetada, o deixando surdo com três meses de vida.

- Até os nove anos Bill viveu em um orfanato e foi lá que aprendeu a ler e escrever. As freiras eram muito boas com ele, apesar de não terem como ensiná-lo a linguagem dos surdos. – Simone completou, entrando na conversa. A governanta ouvia a tudo calada, terminando seu café da manhã – a ameixa –, apesar da lentidão com o qual fazia tal tarefa.

- Quando estava prestes a completar seu décimo aniversário, um casal se mostrou interessada em adotá-lo pela primeira vez. – Jörg retomou o controle da história com um pigarreio. - A priori, ambos se mostraram boas pessoas, educados e realmente desejosos em ter um filho, já que a mulher não podia engravidar.

Ele começou a alisar os desenhos florais da porcelana chinesa por alguns segundos antes de prosseguir.

– Mas então as coisas mudaram. Eles não se importavam de Bill não poder ouvir, não fazia diferença, ele não dava nenhum trabalho e era esforçado, conseguia ler lábios com facilidade. Era um doce de menino. O problema sempre foi o homem que se tornou seu pai. Ele havia acabado de sair da reabilitação, era alcoólatra. Porém, não era difícil de vê-lo tendo recaídas. Quem mais sofria era sua mulher, a quem ele batia e xingava sempre que perdia o controle. Certa vez, tentando livrar a nova mãe do marido, Bill se meteu no meio da briga e tentou afastá-los um do outro. Completamente alucinado e agressivo, o homem começou a jogar tudo que podia em cima do menino, que mostrou-se disposto a enfrentá-lo. Um dos objetos jogados era o tampo de vidro da mesa, e acho que com isso você consegue concluir o que aconteceu.

- O vidro se quebrou e acertou os olhos de Bill.

Jörg assentiu, confirmando o que eu dissera e acrescentou - Os médicos disseram que ele teve a retina atingida. Ele só consegue ver alguns vultos, ou talvez menos que isso.

- E tratamentos? – Perguntei.

- Cirurgias poderiam ter, certamente, ajudado. Porém, uma vez que a retina se desloque, não há mais chances de cura. Um caso típico de intransigência familiar, infelizmente.

Por alguns minutos o silêncio se instalou, e eu abaixei o rosto, pensativo. Era uma história muito trágica.

- Quando a assistência social tomou conhecimento do ocorrido, Bill foi prontamente levado de volta ao orfanato, nisso ele estava para completar treze anos. – Tossiu, prosseguindo minutos depois. – Ele parou de brincar com as crianças de sua idade, ao invés disso sempre as atacava. No fim, as freiras decidiram afastá-lo das outras pessoas.

- E o que aconteceu com o casal que o adotou?

- O homem foi preso por lesão corporal e maus-tratos. Já a mulher precisou ser internada em uma clínica psiquiátrica. A vida deles foi destruída.

- Um preço justo por todo o desastre que causaram. – Soltou rispidamente Rosie, enfim se metendo a falar.

Jörg ergueu a mão direita, colocando-a nos ombros dela e mantendo-a ali como se a acalmasse. Eu, por outro lado, sustentava o queixo com a mão esquerda.

 

Terminado o desjejum, dona Simone e seu marido se despediram e foram para o trabalho. Antes de saírem, disseram que eu poderia folgar até o dia seguinte para arrumar minhas coisas e me instalar.

A ideia inicial seria eu, no mínimo, levar o café da manhã para o filho, a fim de conhecê-lo. Rosie, porém, me liberou de tal responsabilidade e disse que eu poderia tomar um banho e relaxar. Não relutei com a proposta, queria trocar minhas roupas.

Por algum motivo, entretanto, quando passei pelo corredor e dei de cara com uma porta entreaberta, não pude deixar de estreitar meus olhos pela pequena fresta. Lá dentro pude ver um garoto de olhos fechados e cabelos longos, que dançavam em torno de si por conta do vento que entrava pela janela aberta. Sua pele extremamente clara ficava ainda mais transparente em decorrência do sol que se deleitava sobre o corpo ainda deitado e enrolado nos lençóis desarrumados.

Ele estava sendo acordado por alguém. Não me importei em ver quem era a pessoa, meus olhos estavam fixos no pequeno ser que se apoiava nos cotovelos com dificuldade para encostar-se na cabeceira da cama. Reparei quando o moreno virou-se de encontro a porta, assim facilitando a minha visão dos traços delicados de seu rosto charmoso, deixando-me encantado.

Ele não parece ser tão ruim assim.

Felizmente o feitiço se desfez depois de alguns segundos e lembrei que tinha muito a fazer. Não pegaria bem pro meu lado se me vissem espionando o quarto de um garoto que recém alcançou a maioridade. Me afastei da porta devagarinho enquanto coçava a nuca distraído e escorreguei para o quarto ao lado sem mais demora.

Inspirei profundamente o perfume ambiente, expirando ao mesmo tempo que jogava a bolsa de qualquer jeito no chão acarpetado.

Tirei o moletom e a regata que usava, me jogando folgadamente na cama para refletir de olhos fechados. Preocupava-me se conseguiria fazer Bill confiar e gostar de mim. Com um último suspiro, espalmei as mãos no colchão de maneira que pudesse me levantar.

Disposto a fazer minha higiene pessoal, esvaziei a mente e andei a passos largos até a suíte. Tomando cuidado o suficiente para não molhar minhas rastas, deixei que a água fria do chuveiro caísse em cascata contra o restante do corpo, refrescando-me e relaxando os membros duros por conta da viagem.

Dez minutos depois e com cheiro de hortelã emanando do corpo, voltei para o quarto, admirando-me com sua estrutura, agora que o analisava minuciosamente. Caminhei até a mala que trouxera e a abri, vestindo uma cueca boxer enquanto buscava por uma calça confortável.

Em casa, era-me comum andar de tronco nu. Algo que não seria muito apropriado de se fazer na casa dos Kaulitz.

Assim que terminei de vestir a camiseta escolhida, de malha fina com linhas verticais nas mangas curtas, destranquei o trinco das janelas, permitindo que a luminosidade de fora também invadisse o lado de dentro, e o calor aquecesse-o. Fechei a porta do quarto ao passar pela mesma e desci as escadas de dois em dois até a cozinha, onde pedi um copo d’água para a governanta. Ela estava conversando com uma mulher loira, de seios fartos e curvas proporcionais ao corpo esbelto. Parecia ter um pouco mais de minha idade e estava segurando junto a si uma bandeja com um prato quase cheio.

- Nunca vi um jovem em plena forma comer tão pouco quanto o nosso menino. – Indagou a mulher de cabelos levemente grisalhos, estendendo para mim o que eu pedira sem retirar o sorriso carinhoso dos lábios.

Murmurei em agradecimento, sem desgrudar os olhos da loira.

- Pelo menos ele parou de atirar comida nas pessoas. – Respondeu ela, ainda parcialmente virada de costas para mim.

- Valha-me Deus. Aquilo era um péssimo hábito mesmo. Mas, na realidade, apenas perto da senhorita ele se torna um pouco mais civilizado, dona Natalie. Por isso os patrões sempre pedem-na para que o alimente.

- Ora, isso não é verdade, Rosie. Ele já permite que Simone e meu irmão se aproximem dele. Ao menos um pouco. – Comentou, em sussurros e pensativa. Depois disso, enfim ela se virou de encontro a mim e sorriu, um sorriso bem acolhedor.  – Oi, você deve ser o Tom. Eu sou a Natalie.

- Foi você quem falou comigo no telefone. – Constatei, bebericando a água.

- Isso mesmo! – Disse, sorridente. – Fico feliz por ter conseguido vir.

- Eu também. Não tinha nada mais para fazer, de qualquer forma. – Dei de ombros, descontraído. Natalie riu.

- Bill está no banho, já já ele dá seu jeito de descer até aqui e então você poderá vê-lo. – Assenti, deixando o copo na pia.

Deixei-as mais uma vez sozinhas, resolvendo assistir tv na sala para assim quem sabe passar o tempo (mas onde ficava a sala de estar?). Passei por um amplo corredor que se iluminava naturalmente, cheio de cristaleiras e estantes de livros. Me deparei com alguns porta-retratos cuidadosamente colocados sobre um dos móveis. Em algumas fotos estavam Simone e Jörg, em outras Natalie e Jörg, e nas restantes pessoas que eu não conhecia. Em frente à última, avistei um porta retrato menor que todos os outros e nele havia uma cópia perfeita do garoto que vi a pouco no andar de cima, um pouco mais novo e de cabelos mais curtos.

Eu estava consideravelmente disposto a pegar a foto em mãos quando ouvi passos, quase imperceptíveis, descendo as escadas. Automaticamente ergui o rosto a tempo de ver uma blusa vermelha se movendo simultaneamente a um corpo esguio e pequeno. Bill segurava o corrimão com firmeza, mas ainda assim delicadamente, enquanto descia degrau por degrau demonstrando confiança no que fazia. Ao chegar na estabilidade do solo, percebi-o desviar o rosto para mim, que caminhava vagarosamente com as mãos nos bolsos até ele.

Sentindo minha presença, ou provavelmente vendo um borrão se aproximar, o garoto moveu-se para trás, afastando-se o quanto pode. A cada passo que eu me aproximava, ele dava outro para se afastar, tentando fugir.

Não havia como.

Suas costas toparam contra a parede maciça e o garoto acabou perdendo o equilíbrio. Caído ao chão, Bill abraçou as próprias pernas e olhou em minha direção.

Parecia um bichinho arisco e assustado.

Ao menos foi o que me pareceu ao vê-lo encurralado entre a parede e eu.

Cessei os passos e agachei da mesma forma que ele, analisando seus traços raivosos.

Ousei o primeiro movimento.

Estendi um dos braços em sua direção, muito devagar, até tocar-lhe a mão direita com a ponta dos dedos. Queria que ele entendesse que em mim poderia confiar, nem que para isso precisasse forçar a situação.

Não sentindo relutância de sua parte, alcancei-lhe a palma da mão e puxei-a para mim sorrateiramente, assustando-o de forma que se desencostasse das pernas, tentando puxar o braço para longe.

Foi aí que ouvi um barulho muito próximo.

Um provável copo que caiu, supus. Sobressaltado, me distraí de Bill por um instante e desviei os olhos de seu rosto inexpressivo. O pior erro que poderia ter cometido.

Não era ainda de meu conhecimento, mas o moreno cultivava unhas grandes e afiadas que eu tive o imenso (des)prazer de não só ver, como também sentir cravarem-se em minha carne.

Urrei, xingando alto a cada arranhão que ele tinha o cuidado de desenhar em minha pele, fazendo-me instantaneamente soltá-lo para visualizar as marcas avermelhadas que já se tingiam com sangue. Tentei estancar o pequeno sangramento de meu braço ao mesmo tempo que virava de frente para ele, transtornado com sua audácia em me ferir. De alguma forma, eu já estava sozinho ao pé da escada. Ele não estava mais ali.

Mas que merda, Bill.

Eu não o vi mais depois daquilo até a hora do jantar.

Àquela altura meu braço já havia sido assepsiado e medicado corretamente, mas o que não saia da minha cabeça naquele momento era: Ele não gostou de mim.

Tudo só piorou no instante em que nos juntamos à mesa e ele novamente sentiu minha presença. O garoto pegou um punhado de comida com as mãos para, curiosamente, jogar por todos os lados. Mas Natalie não disse que ele havia parado com aquela mania horrível? Não só eu, como todos os presentes recebemos um banho de frutos do mar. Todos riram, achando graça do ataque de má criação de Bill.

Já vi que ele me odiou.

 

 

Não me orgulho em dizer que a situação não melhorou nos dias que se seguiram. Sempre que eu entrava em seu quarto para ensiná-lo ele me enxotava de formas totalmente diferentes uma da outra, quando eu ousava me aproximar, Bill estendia suas unhas, ameaçando me arranhar ou então jogava coisas contra mim. Ainda assim eu não queria desistir. Eu era persistente, e meu orgulho era grande. Um defeito e ao mesmo tempo uma qualidade.

Quatro semanas se passaram e eu decidi tomar medidas mais drásticas. Com muita dificuldade, e ajuda de Natalie, consegui cortar as ‘garras’ do garoto. Ele não gostou nem um pouco, e consequentemente fui odiado um pouco mais.

Pelo menos eu não ganharia mais machucados.

Receio precisar lembrá-los de que, além de seu tutor, eu também ainda tinha minhas próprias aulas com as quais me preocupar. Certamente era-me fácil de conciliar ambas as coisas, eu só possuía aulas de duas em duas semanas, de qualquer forma. Georg me levava de carro, no mesmo dia. Mas é claro que a viagem era um pouco cansativa.

Devo dizer que Georg e eu começamos a nos dar muito bem. Apesar da profissão, eu sempre gostei de instrumentos musicais. Desde pequeno me arrisquei a tocar guitarra. Georg se arriscava no baixo.

Bom, mas voltando ao ponto principal: Minha relação com o pequeno, porém ardiloso, Bill.

Apesar de todos os pesares, lembro-me bem o dia que as coisas pareciam estar começando a melhorar, longos e árduos dois meses depois de minha chegada.

Eu estava tentando ensiná-lo a associação objeto-palavra já a algum tempo. Primeiramente fazia-o tocar algo que queria para depois escrever o nome do tal objeto na palma de sua mão, em libras. Seria uma técnica extremamente simples se ele pudesse ver ou ouvir, mas por não ser mais agraciado com nenhum destes dois sentidos, o entendimento ficava um pouco mais complicado.

Para não ir contra sua própria natureza, o garoto se debateu e resmungou nas minhas primeiras tentativas, não gostando da minha proximidade, mas sua resistência desaparecia gradativamente, conforme eu insistia em fazê-lo me obedecer. Pude sentir que ele começava a cooperar depois de algumas aulas, mesmo que minimamente. De canto de olho percebia-o morder os lábios como se estivesse se esforçando para entender o que eu escrevia na palma de sua mão e isso me fazia rir para mim mesmo.

 

- Ah, Tom! – Natalie me gritou do outro lado do corredor, chamando-me no instante em que coloquei os pés para fora do quarto de Bill, as aulas haviam terminado bem naquele dia. Descobri-o como sendo um perfeito imitador. Só esperava que logo ele também pudesse entender o que estava soletrando.

Instintivamente olhei para trás, vendo o moreno ainda sentado estaticamente na mesa em que eu estava o ensinando segundos atrás. Suspirei, lembrando-me que um grito daqueles não afetavam-no e me dirigi até onde a loira estava.

- Algum problema?! – Indaguei preocupado.

- Não, não foi por isso que te chamei. – Ela disse, sorrindo despreocupada. – Daqui a poucos dias será o décimo nono aniversário de um certo rapazinho mal criado, sabe?!

Concordei, já entendendo o assunto.

- Todos nós gostamos de mimá-lo um pouco mais nesse dia... – Eu já havia percebido o grau de mimos que todos daquela casa davam ao garoto, mas pessoalmente eu tinha minhas dúvidas se aquilo era saudável para ele. – Então todos os anos fazemos uma festinha, e estávamos contando com a sua ajuda para esse ano. Acho que Bill iria gostar, já que parece que vocês estão começando a se dar bem depois de tanto tempo. O que me diz?

- Quanto ao estarmos nos dando bem eu não tenho muita certeza. Ele só parou de jogar coisas em mim.

- Anime-se! No caso dele isso já é um grande avanço, sabia?!

Suas palavras me fizeram sorrir um pouco sem graça.

Natalie começou a falar sobre suas ideias sem pausar uma única vez para respirar. Conforme os meses naquela casa iam se passando eu descobri que ela era uma mulher extremamente desinibida e animada.

Desfiz o bico que esboçara sem perceber e comecei a rir.

- Eu já entendi. Ficaria feliz em ajudar nos preparativos para o aniversário daquela peste. – Sorri, pensando com certa tristeza que Bill nunca poderia me ver com aquela expressão.

- Não fale assim do meu sobrinho. – Ela ameaçou, apontando seu dedo para mim e mirando, como se o mesmo fosse uma arma. – Então estamos combinados, até mais. – Ela ‘atirou’ em meu peito e se afastou, despedindo-se.

Como eu disse, extremamente animada.

 

 

Os dias se passavam sem maiores dificuldades, finalmente. Bill já não me estranhava ou me expulsava de seu quarto, me permitia ensiná-lo corretamente e também já não se sentia desconfortável quando eu pegava em sua mão para soletrar as palavras. Por outro lado, quando as aulas acabavam, eu tinha de me dispor a ajudar os pais do garoto com os preparativos da festa, sem me esquecer de meus próprios afazeres – trabalhos e mais trabalhos. Estavam sendo dias cansativos.

Certa vez acordei com os dedos suaves de Bill tocando minha face. Olhos, nariz, boca, bochechas... Ele me estudava com atenção e serenidade. Lembrei-me que havia pegado no sono enquanto o garoto ao meu lado acariciava cuidadosamente um bichinho de pelúcia que havia ganhado de sua tia – Ele adorava bichinhos de pelúcia.

Silenciosamente ergui um de meus braços e afaguei os sedosos cabelos do garoto. Ele se assustou instantaneamente, não com o movimento, mas sim com meu toque. Seus dedos ainda dançavam descuidados pelo meu rosto e eu então sorri, ainda fazendo carinho em sua cabeça.

Estranhamente, me senti confortável com suas carícias. Fora quando ele instintivamente puxou meu piercing com uma força desnecessária. Sério, achei que ele conseguiria arrancá-lo do meu lábio inferior.

Tirei a mão dele de perto da joia e a levei até minha bochecha, movendo a cabeça de um lado para o outro. Bill era esperto, ele já havia compreendido que tal movimento significava ‘não’. Já ele ter aceitado aquela palavra foram outros quinhentos.

Resolvido o problema – e com a certeza de que ele não puxaria de novo o piercing – fechei os olhos por alguns minutos para deixá-lo continuar com a meticulosa investigação que fazia em meu rosto. Como uma pluma, senti quando seus dedos passearam pelo contorno de minha boca, analisando detalhadamente a curva de meus lábios e as covinhas formadas no processo. Surpreendi-me quando, ao abrir os olhos novamente, notei-o tocar os próprios lábios, da mesma forma que com a outra mão ainda tocava os meus. Com as bochechas levemente coradas, Bill tentava imitar ingenuamente ao meu sorriso. Ele estava uma graça, mesmo quando estreitava os olhos fechados e franzia o cenho, irritado.

Será que ele tem noção do quanto é bonito?!

Escorreguei minha mão de seus cabelos para as bochechas avermelhadas enquanto mantinha minha mente ocupada. Mordisquei o lábio inferior quando Bill ameaçou se afastar e o puxei contra mim em um movimento brusco.

Eu não tinha a mínima ideia do que estava fazendo, isso era fato, e eu também nunca havia me sentido atraído por caras (por mais afeminados que fossem), mas eu queria que ele permanecesse perto de mim, bem ali, tocando meu rosto suavemente.

Apreensão tomou conta de seu rosto à medida que eu me aproximava e minha respiração tocava sua pele delicada. Eu não queria respirar, eu não queria piscar, eu não queria parar. Mas sabia que se de alguma forma percebesse o que estava prestes a fazer, eu pararia.

Um simples roçar de lábios e somente isso. Foi o suficiente para que eu perdesse de vez a cabeça e aprofundasse o beijo, prendendo-o contra mim. Pedi passagem com minha língua e explorei a boca convidativa.

Os lábios de Bill eram macios e tinham gosto de morango.

Provavelmente sem saber como corresponder, o moreno permaneceu imóvel. Alguns poucos segundos se passarem e eu me afastei completamente, vendo-o então virar a cabeça para o lado oposto ao meu, tocando os próprios lábios pela segunda vez.

Ele não me rejeitou.

Ele não havia me rejeitado ou se debatido, não havia me estapeado ou me chutado. Ele ficou surpreso, mas não me impediu. Pelo contrário, quando o contato fora desfeito e ambos nos afastamos ele apenas virou o rosto, como se estivesse envergonhado.

Surpreso e de certa forma indignado com o que havia acabado de fazer, saí às pressas do quarto dele em direção ao quintal, deixando-o para trás.

Eu havia feito uma tremenda merda.

 

 

Seu aniversário ocorreu horas depois, no dia seguinte, e eu estava com uma ressaca terrível. Por causa disso preferi me isolar. Sentei-me debaixo de uma árvore qualquer do quintal e saquei do bolso minha cartela de cigarros a tanto tempo esquecida. A fumaça que eu soltava se extinguia com o vento, me trazendo tranquilidade e angústia. Com as costas apoiadas no tronco seco e os cotovelos relaxados em meus joelhos, continuei tragando calmamente enquanto assistia ao pôr do sol. Logo o lugar onde havia escolhido repousar estaria às sombras, mas eu não tinha intenção de voltar para onde todos estavam. Estava pensativo demais.

Que diabos! Nem ao menos poderia culpar a bebida, pois só havia começado a me embebedar horas depois do que havia acontecido.

Também não importava o quanto de álcool eu consumisse, nunca parecia o suficiente para que seu gosto desaparecesse. Àquela altura, meus pensamentos –e a vodka – já haviam conseguido me enlouquecer. Beijar um aluno meu já era ruim, ele ser um garoto então era ainda pior, mas não conseguir me esquecer do fato era muito, muito, muuuuuito pior. Eu havia perdido meu profissionalismo!? Talvez eu nunca tivesse o tido.

- Céus, o que eu deveria fazer?! – Olhei para o nada, afastando as tranças que teimavam em cair sobre meus ombros e suspirei.

Lambi os lábios e tentei ficar em pé, desistente. Mesmo que fumasse durante a noite inteira, naquelas condições, seria perda de tempo. O melhor a fazer seria me afastar daquela família e voltar para casa. Foi o que tentei convencer a mim mesmo enquanto guardava a cartela de cigarros no bolso do casaco e mantive as mãos ali.

Um pouco sonolento, dei a volta ao redor da casa enquanto pequenas gotas de chuva começavam a escorrer por meu rosto e o vento tornava-se mais violento. O tempo havia começado a mudar, mas os ânimos da festa que acontecia do lado de dentro continuavam inabaláveis.

- Tio, tio, tio... – Vi uma garotinha de cabelos castanhos compridos e cacheados correr em minha direção.

- Está falando comigo?

Ela balançou a cabeça em afirmativa e alcançou meu braço, puxando-o para baixo.

- Eu disse pro Jack e os outros que não podíamos trazer o irmãozão pra brincar com a gente, mas eles não me ouviram, tio.

Irmãozão?

Ajoelhei na frente da garota e deixei-a tomar fôlego.

- Quem é o irmãozão?

- O irmãozão de cabelos bonitos que parece uma menina. Mamãe disse que não podíamos brincar com ele porque ele não enxerga, mas...

Deixei a garotinha sozinha e corri para o caminho de onde a mesma havia vindo. O que Bill fazia ali fora? Ou ainda, aonde estavam os pais das tais crianças, que não as viram levando-o para brincar com elas? Ora, vamos. Estava chovendo. Quanta irresponsabilidade.

Bill estava ajoelhado perto do lago junto de um bando de pirralhos que, como ele, brincavam com a bomba d’água. Seria hilário, se não fosse tão preocupante.

- Ei, garotos. A amiguinha de vocês me disse que vocês não tinham permissão para trazer o irmãozão aqui, estou certo?

- Hellen, sua fofoqueira, não era pra você abrir essa boca grande. – Um loirinho, que me pareceu ser o líder, reclamou.

- É, é. Agora ele vai brigar com a gente! – Os outros dois protestaram.

- Bem feito pra vocês que não quiseram me deixar brincar também só porque eu uso saia. – A garotinha agarrada em minha perna olhou para os coleguinhas e mostrou a língua.

- Sua monstrenga, vem cá pra gente te sujar de lama.

- Nãããão. Mamãe, eles querem sujar meu vestido, briga com eles... – Os quatro correram para longe, esquecendo-se do lago e do ‘irmãozão’ deles.

Crianças.

Suspirei, aproximando-me de um Bill lambuzado de lama.

- Esqueci que você ainda é uma criança também.

Agachei ao lado dele e fiz questão de cobrir-lhe a cabeça com o gorro da jaqueta que usava. A chuva havia piorado consideravelmente, e o meu garotinho ainda teimava em brincar com a água do lago.

- Vamos lá, Bill. Você precisa de um banho e um chocolate quente. A festa acabou para você. – Continuava com meu monólogo enquanto puxava-o pela cintura, forçando-o a se levantar.

Tudo que consegui foi cair na grama molhada com o moreno em cima de mim. Para minha sorte, ele não era nem um pouco pesado. Mesmo.

- Agora eu tô mais molhado do que antes. Ahhh, desisto.

Deitei aonde estava mesmo e escondi os olhos com o braço esquerdo, esquecendo por um minuto que não estava sozinho. Só por um minuto, literalmente. Até Bill inventar de tocar meu rosto com seus dedos imundos.

Inacreditável... Já estava me acostumando com os toques daquele pirralho.

Automaticamente, o braço que anteriormente escondia meus olhos fora de encontro aos cabelos macios do moreno caído sobre mim, passando a acariciá-los lentamente. Por alguma razão desconhecida por mim, ele se aproximou de meu rosto, tocando seus lábios nos meus docemente. Será que ele tinha alguma noção do que estava fazendo? Provavelmente não. Ele só estava copiando o que eu havia feito horas atrás. Sim, provavelmente. Mas então por que eu estava gostando?

Quando Bill se afastou e sorriu de uma forma desajeitada, não pude deixar de rir inacreditavelmente feliz enquanto sentava na grama e limpava meu rosto com as costas da mão.

- Não faça esse tipo de coisa tão repentinamente, se alguém nos ver eu não poderei mais ficar aqui. – Repreendi-o ao puxar o gorro de seu casaco para frente e soletrar, em libras, com uma das mãos grudadas à sua a palavra ‘beijo’.

De uma maneira esquisita, senti que o pequeno havia conseguido entender o que eu dissera, assim que esboçou uma careta e não a retirou mais do rosto até que estivesse com seu confortável e limpo pijama.

O dia havia sido terrivelmente estressante, mas eu acabaria ficando por mais um tempo como hóspede dos Kaulitz. Certamente.

 

 

- Você pegou uma gripe e tanto ein, Billie. – Comentei para mim mesmo (um hábito que eu percebi não conseguir largar), enquanto retirava o termômetro de sua boca.

39 graus e meio.

Cacete, que que eu faço?

Cocei a sobrancelha esquerda, me culpando até não poder mais de tê-lo deixado brincar na chuva. Mas que imunidade baixa viu, rapazinho.

Obviamente que, como tutor, os pais do garoto também me consideravam babá, cozinheiro, enfermeiro, saco de pancadas, brinquedo e tantas outras coisas mais. Não que eu estivesse me importando. Bill já não agia mais como um adolescente mal educado perto de mim, e confesso que eu adorava poder ter tantas desculpas quanto pudesse para justificar minha proximidade do moreno. Que já era gritante, devo ressaltar.

Acho que a única coisa que eu não precisava me preocupar em ajudá-lo era na hora de tomar banho. Ele sabia se virar muito bem sozinho embaixo do chuveiro. Mas eu começava a suspeitar de que, naquele dia, com aquela febre, teríamos uma exceção.

Ótimo, pensei com um sorriso malicioso, brincando com meu piercing.

Espera aí. Ótimo? No que você está pensando, Tom? Seu retardado asqueroso, por acaso está ansioso em ver uma coisa que você também tem? Que perversão.

Para falar a verdade, estava deveras surpreso comigo mesmo. Bill ser um cara, algo que no começo me causou tremenda dor de cabeça – sério, um cara afim de outro? –, agora já se tornara um fato irrelevante. Meu menino era uma graça, era lindo e muito sexy, e daí que não tivesse atributos femininos? Pro inferno com o convencional.

Se bem que eu não tinha moral de falar aquilo. Ainda. Afinal, nunca chegamos a ficar juntos, sexualmente falando. Pois é, quase oito meses de convivência e ainda não tínhamos sequer dormido no mesmo quarto. Pra alguém como eu, que no ensino médio costumava dormir com todas as garotas até dois anos mais nova (ou mais velha), aquilo era um mérito e tanto. Sentia-me puro novamente.

Deitei a cabeça em uma das mãos e ri sem humor. Hilário, sinceramente. Como eu conseguia pensar em tanta merda? Misericórdia.

Fui retirado de meus pensamentos com uma leve batida na porta. Era dona Simone, acompanhada de seu marido e cunhada.

- Trouxemos uma canja. Rosie a fez para o nosso pequeno. – Simone estendeu os braços que carregavam a bandeja de detalhes em prata. Em cima dela, uma sopeira amarronzada ainda tampada.

Aproveitei a oportunidade que me deram e entreguei a eles o termômetro que tinha em mãos, como se dissesse Viram? Eu tenho motivos para me preocupar em querer dar banho nele, não estranhem.

- Pensei que seria melhor se ele trocasse de roupas primeiro.

- Imaginei a mesma coisa. Mas não se preocupe, eu cuido disso. - Anunciou Jörg, já ajudando o filho a se levantar da cama.

Não me opus, é tão raro de ver aqueles dois cuidando do filho.

Não acreditava mais que fosse por maldade, afinal, eles o adotaram. Fui percebendo que era por medo de se aproximarem. E, talvez, porque não sabiam como cuidar dele corretamente. Bill podia ser bem problemático quando queria, eu sabia bem disso.

Aproveitei este ‘peso extra’ retirado de meus ombros e espreguicei. Estava levemente chateado, confesso, mas inconscientemente estava agradecendo à Jörg. Com o fim de ano chegando, também automaticamente se aproximava o dia que eu precisaria entregar meu trabalho de conclusão de curso. Eu estava perdido, sinceramente.

- Ahn... Senhor Kaulitz? – Ele se virou assim que me ouviu chamá-lo. Naquela altura, ele já estava com Bill pendurado em seu ombro. Era bom vê-los assim, como pai e filho de fato. – Será que eu poderia tirar o resto do dia de folga? Quer dizer... Tecnicamente, com Billi... Bill doente assim, não é melhor ele tirar o dia pra descansar? É que, pra ser sincero, eu também tenho um trabalho pra fazer. – Mantive as orbes castanhas movendo-se de um lado para outro, receoso de olhar diretamente para aquele quem me contratou.

De canto tive a impressão de vê-lo olhar para sua mulher, como se pedindo sua opinião, esta, positiva. Quase sorri de satisfação. Eu disse quase.

- Natalie pode tomar conta dele hoje. Ela sabe como fazê-lo, afinal. – Confesso que esta parte me deixou curioso – Então, tudo bem. Vá fazer o que precisa ser feito. Porém amanhã, saiba que terá o trabalho redobrado.

Desta vez eu precisei sorrir satisfeito.

- Sim, senhor. Obrigado, irei para o meu quarto agora mesmo.

Dito isso, me despedi dos três rapidamente, baguncei levemente os cabelos de Bill e saí do quarto, fechando a porta em seguida. Mais tarde daria meu jeito de visita-lo um pouco.

Antes de tudo, permiti-me tomar um banho quente e relaxante, me barbeei, lavei as tranças e também as sequei com toda a calma e paciência que só me permito ter com elas mesmo. Já fazia um tempo que eu havia pedido à Natalie um secador emprestado.

Dispensei a camiseta, apenas me vestindo com uma boxer azul marinho e uma calça confortável de pijama. Não estava um tempo frio, apesar de Bill ter gripado. Coloquei o note na escrivaninha, deixando-o sendo iniciado enquanto fechava a janela do quarto para enfim fazer o que tinha de fazer.

Fiquei prováveis dez minutos olhando para a tela do laptop, completamente estático e perdido.

- Merda, eu não faço a menor ideia do que escrever. – Lamentei-me, deitando suavemente a cabeça no teclado. Minha vontade era bater a cabeça contra ele, mas não queria correr o risco de quebra-lo. Fala sério, ele foi caro.

Parei para me lembrar sobre o que, e como, escrevi o tcc de minha graduação. Se me lembro bem, eu havia a feito inspirada em um antigo vizinho. Ele era quase totalmente surdo, e ainda possuía um levíssimo grau de autismo. Desenvolvi uma pesquisa sobre como e por que ele havia ficado daquele jeito, depois havia ainda pesquisado formas de melhorar seu estado, assim como melhorias em sua qualidade de vida.

Foi uma pesquisa admirável, devo dizer. Com ela fui capaz de ganhar não só uma bolsa para a pós que estava prestes a terminar, como também havia recebido um cheque bem gordo. Este que, claro, mandei pra casa. Meu pai precisava do dinheiro bem mais que eu. Ah, sim. Também doei uma parte do dinheiro para o tal garoto que inspirou minha monografia. Era o mínimo que eu poderia fazer.

Apesar de considerar este trabalho meu xodó, não o publiquei. Não vi motivos para tal. Mas, e se, de alguma forma, desta vez eu resolvesse escrever sobre meu convívio com Bill? Seria bom se eu o publicasse? Será que as pessoas fariam questão de ler? De conhecer a fundo como é ser deficiente visual e auditivo?

Pensando em todas essas possibilidades, pareceu-me o certo a fazer. Não apenas para a minha especialização, mas também para conhecimento público. Afinal, quais as chances de existirem mais crianças iguais a Bill, totalmente ilhadas de tudo ao seu redor? Nem todos devem ter a mesma sorte de meu pequeno, alguém próximo a ele que tenha paciência e prazer em ser seus olhos e ouvidos.

E não digo isso apenas por estar ganhando por este trabalho. Mas também porque me afeiçoei ao garoto. Ora, me afeiçoei tanto que posso sem sombra de dúvidas dizer que estou me apaixonando por ele. Ou quem sabe já me apaixonei.

Comecei a digitar.

No começo bem precariamente, havia sido difícil encontrar o ‘ponto’ certo, mas com o passar dos minutos foi se tornando mais fácil. Quando dei por mim já passavam-se da meia noite.

Certamente Bill já estaria dormindo àquela altura. Mas ainda assim eu iria visitá-lo.

Ao sair do quarto, notei tudo estar em pleno breu. A família Kaulitz tinha o costume de se deitar bem cedo. Algo que eu tive certa dificuldade em acompanhar, confesso.

Nem sequer bati a porta – ora, pra quê? – e adentrei o quarto perfumado. Não haviam luminárias, e nem mesmo a luz da suíte estava acesa, mas a luz da lua fazia leves sombras no chão do cômodo. Alguém preferiu deixar as cortinas abertas, ou quem sabe esqueceu.

Aproximei-me da cama de cerejeira maciça e sorri. Dormindo aquele pirralho parecia um anjo. Bem... Ultimamente ele sempre vinha parecendo um anjo. O total oposto de antes. Ri sem humor, pensando em como as coisas mudaram.

Sentei na beirada do colchão de molas e toquei em seus cabelos negros, completamente espalhados ao redor do travesseiro cor creme. Acariciei de seu couro cabeludo até o queixo, então me abaixando enfim para beijar-lhe a testa.

- Eu amo você, meu pequeno. – Sussurrei próximo do rosto alvo, sabendo de que tal segredo seria apenas de meu conhecimento, e voltei para o meu quarto.

 

 

No dia seguinte eu resolvi levar meu violão junto comigo para a aula. Nenhum motivo especial, eu apenas estava com uma tremenda vontade de tocar. Fazia tanto tempo que eu mal encostava em meu bebê. Dali alguns dias, provavelmente, estaria na hora de trocar as cordas dele, estavam demasiadamente desgastadas.

- Eu trouxe uma surpresinha, Billie. – Anunciei, cruzando as pernas ao me sentar no tapete do quarto do moreno.

Esperto como era, ele sentiu para onde eu ia e me acompanhou. Ao meu lado, pude vê-lo abraçar as próprias pernas e se apoiar na estrutura da cama box. Parecia que ele sabia que naquele dia não teríamos aula. Constatei também, incrivelmente aliviado, que sua gripe parecia já ter sido controlada.

- Sinto-me um pouco culpado por ter te deixado sozinho ontem. Não é assim que um tutor deve agir, né? – Fiz carinho em suas bochechas rosadas e esperei até que suas mãos puxassem a minha, querendo segurá-la entre as suas. – Então hoje eu decidi tocar alguma coisa pra você.

Como se entendesse, suas mãos foram de encontro ao violão em meu colo. Certamente que ele não sabia o que era aquilo, porém sua curiosidade, e também sua esperteza, logo o fizeram ter conhecimento das cordas. Ele moveu o indicador por cima da sexta, assim permitindo que uma nota bem grave se libertasse dela. Possivelmente ele sentia a vibração que se estendia pelo solo até que o barulho se dissipasse completamente, pois ergueu o rosto com um semblante confuso, porém atento.

Recostei-me no mesmo lugar que Bill e comecei a tocar uma música calma e simples. Mas que eu simplesmente adorava. Desde criança, fora aquela música que meu velho cantava para me fazer dormir. Depois de alguns acordes, comecei a cantar rouca e improvisadamente.

- Hush, little Billie, don’t you cry. Tommy’s gonna sing you a lullaby...  ♪

 

Ao acordar, percebi-me sob uma manta azul marinho. Bill estava ao meu lado, igualmente coberto e com a cabeça apoiada em meu ombro. Quando foi que eu havia pegado no sono? Olhei ao meu redor e vi meu violão apoiado contra a parede mais próxima da porta, em cima da mesa que usávamos para estudar, uma bandeja com dois sucos, um lanche de manteiga de amendoim e torradas.

Cutuquei Bill algumas dezenas de vezes, até que ele também estivesse desperto e me levantei, indo pegar o lanche para o garoto. Algo me dizia que quem havia o levado para nós havia sido Natalie. Parecia-me aceitável pensar dessa forma, ela adorava cuidar das pessoas. Suspeitava de que ela já havia sido enfermeira.

- Anda, baixinho, hora de comer. – Estendi o prato para ele e voltei a acomodar o espaço ao seu lado.

Bill continuava dando um pouco de trabalho para comer – o que certamente explicava sua leveza –, mas seus familiares não achavam que isso era digno de preocupação. Quem seria eu para discordar?!

Ele mordeu um pequeno pedaço do pão de forma, fazendo questão de esboçar uma careta enquanto mastigava. É, ele realmente não gostava de comer.

- Como você pode não gostar de manteiga de amendoim? Você é realmente único, ein. – Aproximei-me o suficiente para dar uma considerável mordida em seu lanche, tomando meu suco de um só gole em seguida. Bill não pareceu se importar com o meu ‘roubo’. Ao invés disso, ele se virou em minha direção e tombou a cabeça. Mordiscou mais um pequeno pedaço, dessa vez sujando um pouco o canto dos lábios, e permaneceu olhando em minha direção. Seus olhos eram de um castanho claro, quase dourado, opaco realmente incomuns. Eram bonitos. Mas, bem... Talvez eu fosse suspeito para dizer aquilo.

A porta do quarto estava fechada, as cortinas encobriam as janelas e, ao que parecia, não havia ninguém além de nós dois no andar de cima. Ao perceber tudo aquilo, inconscientemente usei minha língua para limpar o canto dos lábios do moreno. Obviamente que, como o perfeito imitador que era, Bill retribuiu-me da mesma forma, lambendo a maçã de meu rosto. Ele parecia ter gostado da travessura, pois instantes depois se debruçou sobre mim, fazendo seu suco e o lanche caírem bem ao seu lado enquanto fazia-me perder o equilíbrio. Precisei usar um dos cotovelos para não cair estatelado no chão, mas o moreno não pareceu se importar, apenas continuou engatinhando em minha direção.

Tal movimentação repentina não teria me surpreendido tanto, se não fosse por uma de suas mãos, pequenas e delicadas, alcançarem a minha virilha. Aquilo realmente me alarmou. Por um lado, via-o em cima de mim, lambendo o canto de minha boca, por outro, sentia sua mão direita apalpando meus países baixos. Não que ele soubesse disso (ou sabia?), mas pelo amor de Deus, eu era um cara em plena flor da idade, aquilo era torturante!

Tentei livrar-me de seu aperto, mas aquilo só me sentenciou ao que eu menos queria: cair e bater a cabeça.

- Ei, Tom, eu ouvi um barulho lá de baixo, você... – Natalie repentinamente abriu a porta do quarto de seu sobrinho e parou de falar ao ver a cena completamente ridícula, se não fosse tão vergonhosa.

Virei a cabeça de encontro a ela no momento em que seus olhos vagavam sem compromisso algum para o local do qual Bill não tirava a mão de jeito nenhum. Pior ainda, ele começou a apertar ali.

- Nã... Não é o que está pensando, fo... Foi um acidente. – Fiz questão de empurrá-lo, não muito forte, para longe e corrigi minha postura no mesmo minuto, tentando me explicar.

Pena que Natalie já havia nos dado as costas.

Entretanto, naquele momento, eu estava mais preocupado com o doloroso volume que havia se formado entre minhas pernas. A sorte era que eu usava calças dois números maiores que eu, ou então Natalie teria ainda mais motivos para me demitir.

Suspirei, exausto.

Já Bill, como sempre, permanecia com seu usual semblante de paisagem. Porém, também sustentava um sorrisinho discreto. De besta ele só tem a cara mesmo.

Algumas horas se passaram e eu resolvi descer as escadas rumo à cozinha. Estava disposto a conversar com Natalie e tentar ao menos impedi-la de sentir asco de mim. Ela não havia aparecido para o café, anteriormente.

Encontrei-a na soleira da porta, recostando-se ali enquanto mantinha uma conversa amigável com a governanta. Ao me ver, fechou a cara.

Antes que ela terminasse de passar por mim, toquei em seu pulso ocasionalmente. Ela parou de beber da xícara que segurava e olhou para mim de modo desinteressado. Tô ferrado. Pensei, ao indicar o lado de fora da casa com a cabeça. Ela pareceu entender o recado, pois suspirou e caminhou até a porta de entrada.

Tomei sua frente e rumei para a árvore que a alguns dias atrás havia me servido de terapeuta e sentei em uma de suas raízes. Natalie apenas se encostou no tronco áspero e olhou estrada adiante.

Sem me incomodar muito, saquei do bolso a cartela de Marlboro e acendi um cigarro. Aquilo me acalmaria.

- Natalie, ontem eu... – Comecei, logo após soltar uma pequena quantidade de fumaça cinza, mas logo fui interrompido.

- Tom, por que você virou o que virou?

- Hãn?

- Bill tinha medo de hospitais. Ele odiava o cheiro. Seu olfato sempre foi extremamente aguçado. Normal de alguém em suas condições, certo? Ele também era bastante perspicaz. Sem nem ter como ter certeza, ele sempre sabia das coisas que aconteciam ao seu redor. Ele já chegou a trancar meu irmão na sala, quando ele estava para viajar.

- ... – Fiquei ali, tragando de meu precioso vício enquanto a ouvia. Por mais que não entendesse onde ela estava querendo chegar.

- Bill era bem selvagem no começo. Sempre foi, na verdade. Desde que chegou nesta casa. Parece que ele sentia raiva do mundo, por não poder mais ouvir ou enxergar. Ele nos batia e nos afastava. Sempre foi incrivelmente esperto e sagaz, às vezes não parecia que ele tinha algum tipo de deficiência. – Soltou um riso amargo.

- Deficientes somos nós, que não conseguíamos entendê-lo.

- É verdade...

Divagamos juntos por alguns minutos, até que ela enfim resolveu sentar ao meu lado e, para minha total surpresa, pedir por um cigarro. Resolvi que deveria falar alguma coisa, ou enlouqueceria naquele silêncio.

Joguei a bituca para longe, não sem antes apagá-la, e me deitei contra a árvore.

– Ele demorou um pouco para facilitar o meu trabalho. E mais ainda para captar o que eu queria que ele tanto captasse. – Cocei a cabeça e continuei. – Mas acho que agora estamos bem. Ele pegou o jeito da coisa. Ele ficará bem.

Sorri orgulhoso e acendi mais um cigarro. Natalie abandonou o seu ainda na metade.

- E então. Não vai responder a minha pergunta?

Suspirei, amargurado. Eu realmente não gostava muito de falar sobre aquilo.

- Quando eu nasci, meu pai já era agraciado de uma certa idade. Não que só pessoas velhas corram o risco de ter o que ele teve, mas... É, quando eu era pequeno ele já sofria de glaucoma. Eu era uma criança, não entendia direito o que era aquilo. Só sabia que ele não enxergava muito bem. Talvez ele nunca tenha conseguido ver o meu rosto sem ser de maneira embaçada. Era o que meu tio me dizia. Isso me magoava um pouco. – Coloquei a mão na grama úmida do orvalho ao meu lado e comecei a puxá-la levemente. – Acho que isso me fez ter vontade de ajudá-lo, sei lá. E aqui estou eu. No momento longe, mas pelo menos posso pagar por seu tratamento.

Um silêncio parcialmente acolhedor tomou conta do ambiente e eu tinha acabado de cogitar se deveria fumar mais um cigarro quando a voz feminina me puxou de volta para a realidade.

- Você gosta do meu sobrinho?

- Eu simplesmente adoro aquele moleque. – Ri um riso anasalado tentando caçar mais um cigarro na cartela já quase vazia, só depois pensando mais a fundo sobre o que respondi inconscientemente. Fodeu.

- É verdade, dá pra sentir isso. – A loira soltou os cachos presos em um rabo de cavalo e penteou-os com a ponta dos dedos. – Não me formei em psicologia como você, mas sei o suficiente sobre atitudes humanas para notar a conexão que existe entre vocês.

- Ahn... Sim. – Baixei o rosto, envergonhado.

- Não tire proveito dele, okay? Posso perceber que você não é desses, mas ainda assim eu reitero: Não o obrigue a fazer algo da qual ele não queira. Você o entende melhor do que qualquer um de nós, então... Escute-o. – Ela me olhou fixamente, com aqueles olhos que mais pareciam bolas de gude de tão límpidos.

Limpei a garganta, como se tomasse tempo para pensar no que responder. Era difícil acreditar em suas palavras. Não que ela fosse antiquada, sabia que tínhamos pouca diferença de idade, mas ainda assim foi um pouco surreal receber sua permissão tão facilmente.

Peguei meu isqueiro de estimação e mais fumaça mentolada tomou conta do ambiente.

- Não estou dizendo que concordo com isso. Apenas quero a felicidade de Bill, e só um cego para não enxergar o quanto ele fica confortável perto de você.

Soltei uma risada alta, logo seguido por ela, que percebeu o que havia acabado de dizer. Sabíamos que pessoas cegas viam muito mais além do que qualquer um que pudesse enxergar.

- Nem todos serão tão compreensíveis.

- Eu sei. – Traguei rapidamente.

- E você tem de continuar o protegendo.

- Eu sei. – Dei uma batidinha no filtro, livrando-o das cinzas desnecessárias.

- Então seja discreto. Faça-o o ser também.

- Eu s... – Recebi um tapa no braço antes mesmo de concluir o que dizia. – Eii!

Caí na gargalhada ao acariciar o braço estapeado e a olhei de canto. Estava aliviado, mas não só por não precisar sair daquela casa. Por ela não ter me dispensado, ou ter sentido nojo de mim também.

Sorri comigo mesmo, obstinado. Deixaria a família Kaulitz tão satisfeita que eles não se importariam de ter-me como mais um membro da família.

 

- Hmmmm... Acho que não é uma boa ideia colocar isso no trabalho. – Conclui, olhando para o que havia acabado de escrever.

Apaguei o parágrafo inteiro com uma feição um tanto quanto decepcionada. Havia mais uma vez empacado.

Como se por alguma coincidência milagrosa, meu celular tocou no exato momento que o peguei em mãos para ver as horas. Era o meu irmão.

- Fala, Andy. Como cê tá, moleque? – Atendi a chamada de primeira, com um baita sorriso.

- Tommm, que saudades. Estamos todos bem e você, maninho?

- Todos? – Franzi a sobrancelha, fechando o notebook para poder me espreguiçar folgadamente na cama. – Sim, eu estou ótimo. Sem tempo nem pra respirar direito, mas isso não importa.

- Mamãe e eu viemos à Derby. Vamos ficar aqui durante alguns dias.

- Como está o papai? – Retirei os óculos de armação mediana (sim, eu uso óculos às vezes) e massageei meu dorso nasal dolorido.

- Está legal. Depois de amanhã vou com ele a uma consulta médica.

- Depois de amanhã? Droga, Andy, por que não me disse antes? Eu poderia ir encontrar vocês. Não sei se o senhor e a senhora Kaulitz me liberariam agora, tão em cima da hora.

- Não se preocupe, ele sabe que você tem estado ocupado, por isso eu tô aqui com ele. Depois eu te aviso como foi lá.

Suspirei, consternado. Mas que irmão que eu fui arranjar.

- Tá certo então. Me liga o quanto antes. Assim que vocês voltarem pra casa.

- Certo, certo. – Naquele mesmo minuto ouvi uma voz feminina, distante, chamar meu irmão. Deveria ser a velha. – Ô Tom, eu preciso ir. Depois eu te ligo de novo. Se cuida, irmão.

- Você também. – Desligamos ao mesmo tempo e então eu joguei o peso morto (celular) para o outro lado do colchão.

Eu preciso de férias.

Ou apenas dormir mesmo.

Pensando nisso apaguei as luzes e caí diretamente para o mundo dos sonhos.

 

 

- Bom dia. – Bocejei ao entrar na cozinha, cobrindo a boca com uma mão enquanto o outro braço estendia-se involuntariamente para o alto.

- Bom dia, Tom. – Respondeu-me, primeiramente, o chefe da família, com uma xícara de café em mãos e um livro de literatura clássica aberto ao seu lado. Ele era professor universitário.

Tomei um assento, na extremidade direita da mesa e bem ao lado de Georg – quem tomava um café extra forte completamente calado e sonolento –, mas não sem antes estranhar uma presença incomum àquele horário. Bill brincava infantilmente com sua colher enquanto aguardava Rosie terminar sua refeição preferida durante as manhãs.

Ele estava no lugar de Simone. O que deveria significar que ela já havia saído.

Baguncei as madeixas negras descuidadamente e mirei em direção à Natalie, sentava exatamente a minha frente. Ela lia atentamente a uma folha de jornal, eventualmente circulando à caneta certos trechos digitados.

- O que está fazendo? – Não me contive em perguntar.

- Lendo periódicos. Preciso de um emprego.

Olhei da loira para Jörg, o qual apenas me correspondeu com um dar de ombros relaxado. – Eu disse que não era necessário, mas ela não quis me ouvir.

- Eu agradeço a boa vontade, Jörg, mas não acho necessário depender do seu dinheiro até para as minhas compras pessoais.

- Sabe que eu não me importo que more conosco. Mas se pagar por suas próprias coisas lhe fizer se sentir melhor, eu não me oponho.

Natalie parou momentaneamente com o que estava fazendo e sorriu para ele, o mesmo sorriso afetuoso que me lançou ao nos conhecermos.

Bocejei mais uma vez, me esparramando na cadeira distraidamente quando, bem de relance, tive a impressão de ver uma notícia que me pareceu interessante.

- Ei, Natalie. Passa pra mim essa folha um pouquinho.

- Que parte do ‘preciso de um emprego’ você não entendeu?

- É rapidinho, eu já devolvo. – Estendi a mão, esperando. Ela apenas me olhou com um bico nos lábios, mas me entregou os periódicos.

Vi-me lendo uma matéria sobre o suposto credenciamento para realização de implantes cocleares no hospital público da cidade. Convênios seriam obrigados à cobrir as cirurgias. Seria possível...?

Mordisquei um muffin salgado e dobrei as pernas despojadamente, a direita por cima do joelho esquerdo.

De tão compenetrado, nem sequer senti a aproximação dos outros três adultos presentes na cozinha, interessados no que supostamente possa ter vindo a me chamar tamanha atenção.

- Um implante coclear, hun...  – Limitou-se a divagar Jörg.

- Talvez seja uma boa ideia. – Concluiu a loira, apoiando um dos braços em meu ombro. Não me importei. Eu realmente a adorava.

Talvez. – Murmurei, ainda entretido na leitura.

Tap tap tap.

Fora o bastante para que todos, inclusive a governanta, olhassem diretamente para Bill que, entediado e carente de atenção, batia levemente a palma das mãos na mesa.

Dei uma singela gargalhada e larguei o jornal dobrado de qualquer jeito ao meu lado, voltando a dar carinho ao meu querido aluno. Natalie voltara a tomar posse dos periódicos, continuando sua incansável busca pelo tão desejado emprego. Já Jörg apenas largou a xícara dentro da pia, depositou um beijo na testa do filho e se despediu de todos, rumando à porta de entrada. Nós continuamos a comer sossegadamente com a tv como fundo sonoro.

- Já está indo fazer compras, Rosie? – Pronunciou-se a desempregada.

- Sim, sim. Os mirtilos estão em promoção. – A governanta estendeu o pano de prato no fogão e desamassou cuidadosamente o vestido florido, virando-se em nossa direção. – Podemos ir, Georg?

- Claro. Irei buscar o carro. – Ele disse já levantando-se e saindo, não sem antes largar a xícara de café vazia na pia.

- Posso ir junto? Estou precisando de umas folhas sulfite.

- Vamos todos, eu também preciso comprar umas coisinhas. – Decidiu-se Natalie por todos, levantando da mesa e esperando a mim e ao Bill.

Antes de irmos tomei o cuidado de agasalhar bem a mim e ao moreno. Também resolvi cobrir-lhe a cabeça com um gorro de camurça sintético. Eu apenas vesti o gorro de meu agasalho.

Uma meia hora depois já estávamos no mercado, cada um preocupado com seus próprios interesses. Nos separamos, as mulheres indo para um lado e nós, rapazes, indo para o outro. Minha mão não saía da cintura do menor enquanto andava calmamente para o setor de papelaria. Bill passava os dedos compridos por cada centímetro das prateleiras as quais deixávamos para trás. Georg estava a alguns setores de distância, entretido com os eletrodomésticos.

Qual foi a minha surpresa quando, em um minuto distraído e com tanto os olhos quanto os braços longe do moreno, eu descobri tê-lo o perdido de vista.

Mordisquei o inferior, largando o maço de sulfites que segurava e corri para fora do setor, não tendo a menor noção de pra que lado ele havia ido. Dando total atenção para todos os lados possíveis dos corredores, rumei para onde Georg estava, explicando o que acontecera resumidamente. Nos separamos assim que decidimos não pedir ajuda das outras duas, eu pelos setores próximos, ele pelos corredores mais distantes. Teria de encontra-lo antes de Natalie e Rosie voltarem, ou nem sei o que poderia me acontecer. Oh sim, sabia sim. Seria demitido. E ainda me sentiria um incompetente por ter perdido de vista o cara que amo em um mercado.

Passei longos e intermináveis minutos perguntando não só para os funcionários, mas para qualquer outro que eu encontrasse se algum deles havia visto um garoto de óculos escuros e touca cinza passar. Nenhum deles se lembrava, nem mesmo quando comecei a dizer sobre seu hábito de andar por aí segurando nas prateleiras.

Por sorte, ou azar, comecei a ouvir o barulho ensurdecedor de uma empilhadeira não muito distante de onde eu estava. Como se já não estivesse desesperado o bastante, me senti um pouco pior. Claro, Bill não conseguia ouvir aquele som, por pior e mais alto que ele fosse. Logo, ele corria um pouco mais de perigo. Apertei o passo para perto do barulho, desejando, e ao mesmo tempo não, que o moreno estivesse perto da máquina irritante.

Ao menos os céus pareciam estar ao meu favor. Ou não tanto assim. Bill de fato estava, com toda a sua ingenuidade e descuido, extremamente perto da empilhadeira. Mas de tão próximo, ele estava correndo o perigo de ser atropelado por ela em poucos segundos e o pior era que o funcionário que a controlava nem ao menos parecia ter tido noção disso.

- BILL! – Gritei, com as mãos ao redor da boca, esperando que assim chamasse a atenção do tal funcionário, mas ainda assim disparei em direção à máquina.

Segurei quase agressivamente o pulso do moreno e puxei-o contra mim, invertendo nossas posições de forma que eu ficasse em sua frente, abraçando-o de forma protetora para longe do perigo iminente. Não pude deixar, entretanto, de olhar feio, por cima do ombro, para o senhor que havia acabado de desligar a empilhadeira a, por muita sorte, milímetros do meu corpo. Meus braços não paravam de se apertar ao redor daquela cintura magra, desnorteado e aliviado.

Acariciei o rosto infantil com possessividade, tendo a impressão de ouvir ao longe a voz do tal senhor se desculpando. Não me importei. No momento apenas tinha olhos e ouvidos para o meu moreno. Beijei seus lábios delicada e demoradamente, sentindo os dedos curiosos alisando minhas costas incansavelmente. Ele estava assustado.

- Pelo visto é mais seguro mesmo marcarmos a cirurgia pra você. – Sussurrei bem perto de seu ouvido, ainda sem desgrudar dele.

Ao reencontrar as outras duas, nem eu nem Georg tivemos coragem de dizer sobre o que ocorrera, mas ainda assim eu fiz questão de dar o meu completo consentimento quanto ao implante. Seria tão melhor para Bill se ao menos ele pudesse ouvir sons que o expõem à perigos.

Mais tarde todos nos reunimos na cozinha para discutir aquela tão repentina possibilidade. Depois de muito falar, fizemos uma votação. No final a família toda resolveu concordar. E não demorou muitos dias para que marcassem a cirurgia no tal hospital. Seria dali dois meses e meio, dia 12 de novembro, o mesmo dia de entrega da minha monografia.

 

 

As semanas se seguiram sem maiores novidades até o dia das bruxas, onde os Kaulitz resolveram fazer um jantar comemorativo. Rosie cozinhou camarão na moranga e alguns docinhos em formato de abóbora. Natalie se encarregou dos cupcakes com desenhos temáticos. Os de chocolate possuíam cobertura de pistache e desenhos com massa americana em formato de teias de aranha. Os de frutas vermelhas, cobertura de mirtilo e pequenas aranhas ou caveiras de marshmallow por cima.

De tantos doces, passamos as próximas duas semanas basicamente sobrevivendo de açúcar. Bill era quem mais parecia adorar comê-los.

A questão que rondava minha mente durante aqueles poucos dias eram somente duas.

Se eu estava aliviado pela cirurgia? Sim, muito. Se eu estava feliz? Não, não muito. Primeiro, é claro, pela segurança de Bill. Segundo porque eu não estaria disponível para acompanhá-lo. Ou estaria, mas só depois de longas horas de estrada.

E foi exatamente assim que aconteceu.

Georg, como motorista da família, precisou levá-los até seu destino. Já eu peguei uma passagem de trem para o meu. Eu estava um pouco nervoso, magoado, cansado e ressentido, confesso. Porém conformado. Como se para piorar a situação, havia começado a nevar.

Comecei a ler o mais novo livro que adquirira via internet e relaxei durante as tediosas horas de viagem. Estava começando a me acostumar com aqueles bancos duros e sem graça dos transportes públicos. Ao menos eu estaria livre dali poucas horas, quando enfim entregasse aos meus professores o motivo que me levara a passar tantas noites à base de café.

Exatas doze horas e trinta minutos depois, um cappuccino da Starbucks e dois pães de queijo recheado é que eu pude finalmente respirar em paz. Ou quase.

Lá estava eu, sentado em outro lugar desconfortável, mas não mais desconfortável do que o cheiro tão bem conhecido e não muito acolhedor do Hospital St. Philips. Eu estava sentado no chão, com as costas apoiadas à parede meio bege, já a minha frente estavam Simone, Natalie e Rosie, respectivamente. Georg também estava apoiado contra a parede, assim como eu, porém em pé. Jörg não se aguentava parado, indo de um lado para outro no corredor incrivelmente branco. Bill estava a praticamente três horas dentro de uma sala sobrecarregada de aparelhos não muito agradáveis e todos nós esperávamos que o símbolo vermelho e contínuo que indicava uma cirurgia em realização se apagasse de uma vez. E que o médico encarregado viesse logo falar conosco para dizer, preferencialmente, que o procedimento havia sido um sucesso.

Coisa que demorou umas prováveis duas infinitas horas mais para acontecer.

 

-------------- x -------------

 

Era uma manhã quente de quatro de julho. Do apartamento arejado eu podia ouvir claramente bem as músicas e desfiles que ocorriam no meio da rua. Era uma data importante, todo o país parava com suas usuais atividades para festejar o tão adorado dia da independência. Eu, como bom americano que era, simplesmente adorava aquele feriado. Mas justamente naquele ano eu preferi ficar em casa mesmo. Tinha coisas melhores para fazer.

Estavam fazendo oito meses desde a cirurgia de Bill, e cinco que eu não mais morava com os Kaulitz. Entretanto, eu ainda o via todos os dias.

Natalie, como a boa enfermeira que era (eu sabia que ela era enfermeira), logo arranjou um emprego na capital. O que todos, incluindo ela mesma, acharam uma boa para o moreno. Em resumo, os dois estavam morando no mesmo prédio que eu, apenas alguns andares abaixo. Normalmente eu apenas descia o elevador e ia buscar meu pequeno para passar as tardes comigo. Em outras, Natalie quem o levava antes de ir ao hospital.

Já eu?

Eu tenho me virado relativamente bem escrevendo livros técnicos. Umas e outras vezes eu dou algumas palestras por aí. É o suficiente para me manter.

Meus pais voltaram a morar juntos. Não que eles tenham voltado a ser um casal, mas, uma vez que eu estou longe e meu irmão entrou em uma universidade em Nebraska, sobrou para minha mãe cuidar do velho. Para mim isso já basta, desde que ambos continuem a se dar bem.

Algumas vezes eles me ligam, ou mandam cartas. Cartas acabam saindo mais barato, uma vez que nenhum deles gostam de computadores. Georg faz algo parecido. Sim, o Georg. Sempre que o senhor e a senhora Kaulitz resolvem vir até a capital para ver seu filho, o de olhos verdes bate a minha porta para sairmos juntos. Nós começamos a nos apresentar em alguns bares noturnos, como parte de um hobby em comum. Obviamente também aproveitávamos para beber até cair. Mas o que importa? O lado bom era que assim podíamos ganhar uma graninha extra, o que certamente me deixava bem feliz.

Ouvi um par de batidas abafadas e conhecidas na porta da frente e já sabia que era Bill. Às vezes ele enganava a tia e vinha sozinho me ver. O moleque continuava bem espertinho.

Liguei para Natalie enquanto abria a porta, como era de costume, e avisei que ela poderia ir trabalhar despreocupada. Puxei Bill para dentro e tranquei a porta novamente, não sem antes bagunçar seus cabelos macios, que agora já não eram mais tão compridos como antes. Ele usava um moicano baixo, mas que continuava lindo ao meu ver.

Ele já estava acostumado àquela rotina, logo, não precisou de mim para entrar na cozinha e sentar-se à mesa, onde eu sempre deixava um suco de laranja industrializado e um prato com bolachas para ele. Ele ainda não gostava de comer, mas havia começado a ter uma leve compulsão por coisas doces.

Sorri comigo mesmo e fechei o note ainda aberto na mesinha de centro da minha sala. Limitava-me a trabalhar um pouco menos enquanto ele estava comigo. Gostava de dá-lo cem por cento de minha atenção. Liguei a tv em um canal de músicas e fui atrás de meu garoto. Ele já segurava cuidadosamente o copo de acrílico colorido, bebendo aos pouquinhos. Em uma das mãos peguei o prato de bolachas e na outra puxei-o comigo até o cômodo onde anteriormente estava. Deixei-o continuar a degustar seus amados doces na mesa baixa enquanto me jogava folgadamente no sofá de suede. Era extremamente macio e confortável, mas pelo moreno ter o péssimo hábito de deixar sempre alguma coisa derramar, eu preferia deixá-lo comer sentado no tapete.

Passados alguns minutos ele enfim acabou de comer e beber e então eu pude finalmente envolver sua cintura com meus braços, erguendo-o para ficar junto a mim. Mais especificamente obriguei-o a sentar no meu colo enquanto beijava de maneira sorridente sua testa. Na parede oposta onde estávamos, na estante da tv, se encontravam algumas fotos, cartas da minha família e poemas impressos da internet. Algumas noites, quando ele dormia aqui comigo, eu as lia para ele, bem lentamente, para que assim ele talvez conseguisse entender alguma coisa. Oras, só porque colocou um implante não significava que ele estivesse escutando perfeitamente bem. Isso sim seria um milagre, e eu não acredito em milagres.

Porém, agora acredito em destino. E acredito que quando insistimos em algo esse algo pode sim dar certo. Por que não?

Nessa mesma estante, bem no cantinho direito, havia um pequeno papel, daqueles de nota mesmo, pregado em um porta retrato de imãs. Acima do papelzinho, também preso pelo mesmo imã, uma foto em diagonal. Minha e do Bill. Eu o abraçava pela cintura e ele praticamente ria com a mordida que eu lhe dava nas bochechas gordinhas. O que havia escrito no papel? Bem... É uma coisa que ele nunca irá conseguir chegar a ler por si mesmo, eu sabia bem disso. Mas tudo bem, porque eu sei que ele sabe o que ali está escrito. Não pelas palavras, mas sim por minhas atitudes.

Não precisávamos de muitas conversas para entender o que sentimos um pelo outro.

E seria sempre assim.


Notas Finais


E é isso.
Eu pesquisei bastante para fazer ela, mas é claro, pode ser que ainda assim eu tenha viajado em alguns pontos. Mas whatever, é ficção, tem que ser bonitinho e ter muita viadagem mesmo.

Esta fic teve como inspiração – inspiração – a história da advogada e ativista social Helen Keller.

Pra quem quiser dar uma olhada, este é o link do filme: https://www.youtube.com/watch?v=0t7wbMYd5-0
Esta é a música que o Tom tocou, que também aparece no filme: https://www.youtube.com/watch?v=VtdC4If0tyM
E este é o livro que ela escreveu (que eu não li, mas algum dia leio q): http://cronicasdasurdez.com/dica-de-livro-a-historia-de-minha-vida-de-helen-keller/

Beijinhos.


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