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História Audeline - Capítulo 5


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Notas do Autor


Música: I Only Lie When I Love You - Royal Blood

Capítulo 5 - Capítulo 3


Fanfic / Fanfiction Audeline - Capítulo 5 - Capítulo 3

Checou o relógio. Tinha três horas, vinte e quatro minutos e doze segundos antes que ele voltasse e arruinasse tudo, como sempre arruinava. Nas palavras de H., a precisão era vital — e ela fazia questão de se lembrar disso. 

Um sorriso felino escapou dos lábios enquanto procurava o salão de beleza mais caro de Paris no celular que ele comprara especialmente para ela. Bebericou sua água no copinho de cristal e olhou mais uma vez para o cartão de crédito prateado. Seus dedos traçaram as letras do nome dele. A linha do J, o arco do A… Três horas, vinte e dois minutos, trinta segundos. Sim, haveria tempo suficiente para sugar tudo que pudesse antes do inevitável  bloqueio. Até a última gota. 

Após alguns minutos, finalmente achou um salão promissor, espaçoso e elegante, no Boulevard Haussmann, próximo às melhores lojas de departamento de luxo da cidade. Agendou um corte, terminou de arrumar as malas, ligou para a recepção e pediu que as levassem para o lobby do hotel. Em menos de dez minutos, apareceu um rapaz de uniforme vermelho imaculado. Ele carregou as malas para fora sem dificuldade. Ela notou a olhadela discreta nas malas pretas salpicadas com o monograma JW. Devo levá-las também, senhorita? Ce n'est pas nécessaire.

Ainda tinha muito a fazer e seu tempo era precioso. Pegou a bolsa de mão e pediu ao atendente do hotel que avisasse a ele que ela fora a um salão perto da Printemps e que estaria de volta em menos de duas horas. Chamou um táxi para visitar a lojinha de perucas feitas com cabelo humano na Rue de Naples. Não demorou a encontrar o modelo perfeito — um loiro platinado curto com franja desfiada, o extremo oposto de seus longos cabelos castanhos. Aproveitou a última hora para entrar nas suas lojas de luxo favoritas e se esbaldar em compras. O cartão de crédito ainda estava autorizado.

No provador, examinou as cores vivas de seu casaco e o lenço de seda azul vibrante com a imagem de um tigre-de-bengala ao fundo. Laranja e preto. Minha pequena tigresa. Arrancou as peças do corpo e atirou-as no chão frio. As digitais dele estavam por toda parte, no tecido de suas roupas e no tecido de sua própria pele. Examinou a si mesma. Os dedos circularam as marcas avermelhadas no pescoço. 

Saiu da última loja vestida de preto. 

Jogou o lenço no lixo. 

Vinte minutos para o fim. Estava agora confortavelmente sentada perto do terminal um do Charles de Gaulle. Olhou de novo para o reloginho velho amarrado no pulso esquerdo. Ele já voltara da reunião com o agente, tinha certeza. A cena desenrolava-se diante de seus olhos: as botas largas e pesadas voltando ao hotel, pegando o elevador até o último andar, as mãos rudes passando o cartão magnético, destrancando a porta, olhos azuis encontrando apenas as malas pretas. A confusão transmutando-se em raiva, em desespero. As botas então corriam para o elevador, a luva de couro apertava — não, não — afundava o botão do térreo, como se isso acelerasse as engrenagens.

No primeiro andar, a boca queimada pelo inverno perguntava ao concierge pelas malas, por ela. A bagagem está ali naquela sala privada, monsieur, como pediram. Mademoiselle Zafuri foi a um salão no Boulevard Haussmann, a reserva está confirmada, acabamos de checar. Ela logo estará de volta. Ele se acalmava. Repreendia a si mesmo por ter sequer pensado o que pensou. Bobagem. Era melhor ele arrumar suas malas, isso sim. Daqui a pouco deixariam Paris rumo a Milão, para mais duas semanas extraordinárias juntos. Como deveria ser. 

Canalha

Levantou-se quando a chamada de embarque para Phoenix ressoou em seus ouvidos como um sino celestial anunciando o fim do purgatório. 

Se alguém perguntasse, Angela Weber estava tendo um ótimo dia, muito obrigada. Como se não bastasse o despertador tocar uma hora depois do previsto, sua blusa — branca, ainda por cima — exibia agora uma enorme mancha marrom, o líquido melado e quente do café com caramelo fazendo uma trilha torturante até seu umbigo. Jogou o copo na primeira lixeira que encontrou.

O celular recebia mensagens a cada exatos dois segundos, e ela tinha vontade de parar no meio da rua e mandar um texto muitíssimo educado para sua chefe pedindo que se acalmasse, por favor, estava a caminho, estava a poucos minutos do prédio, já até podia vê-lo, podia senti-lo em sua alma melada de café e caramelo, podia… Mas a realidade era outra. A entrada do edifício não estava nem um pouco visível, nem um pouco alcançável, e Angela precisava correr, esbarrando em cada estranho descuidado que vinha em sua direção. 

Quando chegou, o porteiro deu uma olhadela nada discreta para o enorme relógio no hall e sorriu para ela um sorrisinho condescendente enquanto Angela atrapalhava-se na roleta. Pegou o elevador e apertou o botão do sétimo andar, as portas abrindo-se gloriosas segundos depois, a placa em dourado “Buzz Magazine” brilhando no fundo. Os olhos das recepcionistas voaram sobre ela e pousaram em sua blusa. Um ótimo dia mesmo. 

Andou apressada até sua mesa, atirou a bolsa na cadeira e correu para a sala de reunião. 

— Digamos que tenho uma fonte muito segura que me garantiu que ele está só esperando a ocasião perfei… 

— Ora, ora, bom dia… — A voz rouca de Joana a cumprimentou depois que Angela fechou a porta atrás de si. — Ou deveria dizer boa tarde?

Suas bochechas avermelharam-se diante dos olhares dos colegas, e ela buscou a cadeira mais afastada da sala para se sentar. Jessica revirou os olhos, recusando-se a continuar o falatório enquanto não houvesse um par de olhos sobre ela. 

Quando finalmente pararam de encarar Angela, Stanley continuou: 

— Como eu estava dizendo, ele está apenas esperando o momento certo para pedi-la em namoro, e tenho quase 100% de certeza de que será durante a viagem deles para Seattle e…

— Ele tem uma casa lá, não tem? 

— Sim, e em Port Angeles. E em Vancouver. E aqui em Forks. Quer dizer, em qual lugar do mundo esse deus grego não tem uma…

— Desculpa interromper, meninas, mas de quem estamos falando mesmo? — Angela perguntou. 

— Edward Cullen, cantor e guitarrista da Maze — sua chefe respondeu. — Ou melhor, ele e a futura namorada, a modelo Tanya Denali. Os dois foram os nomes com maior número de pesquisas na internet neste mês, mas isso você já deve saber, é claro… 

Angela sorriu com um falso ar de compreensão. Joana continuou:

— Estávamos discutindo quais pautas envolvendo os dois poderíamos incluir na próxima edição da revista… — Joana apoiou as mãos sobre o tampo de vidro da longa mesa de reunião, tamborilando. As unhas pontiagudas faziam um barulhinho agudo que parecia arranhar os tímpanos de Angela. — O que você terá para a sua coluna?

— Eu… Eu… — Angela pigarreou, tentando ganhar alguns segundos. O que cargas d’água sabia sobre Cullen e Denali? — Eu posso abordar o estilo de Tanya, dar dicas de como reproduzir os… 

Joana deu um sorriso sem dentes. 

— A Stanley já vai falar sobre isso.

Angela piscou, franzindo a testa. 

— Sobre como nossas leitoras podem reproduzir os looks da Tanya Denali gastando menos? 

— Melhor — Jessica interrompeu. Inclinou-se para frente como se fosse anunciar uma notícia de utilidade pública. — Ultimamente ela anda aparecendo com um novo acessório, sinto que vai ser uma grande tendência: lenços de seda! 

Angela reprimiu a vontade de bater na própria testa. Essa gente famosa e suas excentricidades inúteis e disparatadas. 

As outras redatoras voltaram a conversar animadas entre si. 

— Pelas minhas contas, ela deve ter uma verdadeira coleção de lenços no closet! A cada dia um modelo diferente…

— E a Tanya tem um pescoço tão elegante, né? Tão fino… Parece um cisne…

Joana fixou o olhar em Angela, ainda martelando as unhas na mesa. Sua chefe permaneceu em silêncio, mas seus olhos gritavam: e você, Weber? Qual a sua ideia? 

Angela baixou a cabeça, preferindo olhar para a mancha pegajosa na blusa. Não tinha ideia nenhuma. 

James Witherdale certamente daria um belo soco na cara de quem se atrevesse a avisar que em questão de horas ele despencaria do céu em queda livre até o inferno. Afinal, desde o ano passado, James ocupava o topo do mundo. Seu personagem na última série ganhara o coração do público, a carreira dava os primeiros passos no exterior, o cachê aumentava cada vez mais, e — o mais importante de tudo — a mulher pela qual estava apaixonado o amava de volta. 

Às vezes perguntava-se como um simples esbarrão no seu restaurante favorito em Portland levara-o até ela. Não um esbarrão dele, que fique claro — se James tinha uma coisa em abundância, era seu inabalável senso de equilíbrio. A cena passou por seus olhos como em uma tela de alta resolução; lembrava-se dos detalhes mais insignificantes: a lua cheia lá fora, os pingos de chuva na janela, o restaurante lotado, o garçom estúpido com a bandeja cheia de taças de vinho tinto e… E ela. De vestido laranja, a saia com babados, os longos cabelos castanhos adormecidos sobre os ombros estreitos. Parecia uma tigresa. Voltava desatenta do banheiro, desfilando com as sapatilhas de grife para o fundo do salão. 

O acidente ocorrera em menos de um segundo. O barulho de cristal se espatifando eliminou qualquer vestígio de conversa nas mesas. Em sincronia, todos olharam para a mulher caída no centro do salão, o cabelo ensopado, o vestido laranja embebido de vermelho, os cacos das taças à sua volta, a bandeja no chão, o garçom ao lado atônito. 

Ela poderia ter olhado para qualquer um, mas fixou nele seus olhos castanhos de menina-mulher. 

O maître ordenou ao garçom que buscasse uma toalha, que se mexesse, que fizesse alguma coisa , vamos vamos vamos. James esperou que saíssem para a cozinha e então caminhou silenciosamente até ela. Ainda sem dizer uma palavra, ofereceu sua mão para que se levantasse. 

O lábio superior em formato de coração tremia. A esclera dos olhos estava tão vermelha quanto sua roupa. O vestido, notou com olhos famintos, grudara-se no corpo dela como um abraço frio, expondo o desenho da renda que cobria os seios e as faixas delicadas da cinta-liga em sua coxa. 

Ele tirou o blazer e o colocou sobre os ombros dela. No momento em que estava prestes a abrir a boquinha bonita para dizer alguma coisa, o gerente voltou, acompanhado de um pedido de desculpas e dois garçons com enormes toalhas brancas.

“Isso é inadmissível, Paul,” James dissera, a voz dura como mármore. “Absolutamente inadmissível. Veja o que aquele garçom fez com… Desculpe, não sei seu nome.” 

Ela sorriu. “Giulia. E eu não sei o seu.” 

“James.” Ele retribuiu o sorriso antes de se voltar para o maître. “Isso não pode se repetir. Venho aqui há anos, você sabe disso, e é a primeira vez que vejo isso acontecer. Qual é o nome daquele garçom?”

“Está tudo bem, foi só um pequeno… Banho de vinho.” Ela forçou uma risadinha.

“Qual o nome do garçom, Paul?” 

Giulia tocou o braço dele, e uma eletricidade instantânea percorreu seu corpo. “Não precisa, foi um acidente, é compreen… ”

Qual o nome do garçom?” 

O gerente desviou os olhos para a poça de vinho no chão, encolhendo os ombros. “O nome é John.” 

“Hoje foi o último dia dele aqui, está entendendo?” James nem se deu ao trabalho de aguardar uma resposta, virando-se para Giulia e passando o braço por seus ombros. “Venha, vou conseguir uma roupa para você se trocar.” 

Era quase meia-noite, as lojas de qualidade já com as portas trancadas, mas isso não era um problema para quem estava no topo. Bastou uma ligação rápida e em menos de uma hora Giulia tinha um novo vestido. Ela agradeceu com um rubor adorável nas bochechas e ele insistiu que esticassem a noite em um barzinho caro não muito longe dali. 

A alta concentração de álcool na corrente sanguínea embaçara a nitidez de suas lembranças, mas ao menos James tinha cravejado na memória o jeito como Giulia fitava-o naquela noite. Aqueles olhos castanhos firmes nos dele, agarrando-se a cada palavra que saía de sua boca.  

Quando dera por si, encontrava-se com Giulia todo fim de semana; não conseguia manter-se mais do que alguns dias afastado dela. Aquela mulher parecia ter sido criada e embalada como um presente de aniversário especial, a pele e as palavras modeladas e esculpidas em cada milímetro de acordo com as preferências de James. Cada pedaço dela. Toda ela. Só para ele. Somente dele. 

Sim, Giulia Zafuri moldava-se a James Whiterdale com perfeição. Aceitava suas sugestões, realizava seus desejos, obedecia a seus comandos, reconhecia de bom grado que ele tinha razão na maior parte das discussões. Riu para si mesmo. Para que falsa modéstia? Tinha razão todas as vezes, os dois sabiam muito bem. Com Giulia, bastaram umas palavrinhas mais firmes, uns frasquinhos quebrados de perfume francês e um apertãozinho no pescoço para que ela rapidamente absorvesse a lição, como uma boa menina. As outras, burras e inflexíveis, precisaram de aulas mais rigorosas. 

Após o fim de seus compromissos, convidou-a para uma viagem de dois meses pela Europa. Queria passar cada segundo das férias ao lado de sua pequena tigresa de estimação. Depois de Berlim e Paris, viveriam mais momentos lindos e inesquecíveis sob o céu de Milão, o próximo destino dali a algumas horas. 

Suas malas já estavam feitas, as dela também, sempre pronta, como uma boa menina. Agora, depois da reunião com o agente, restava-lhe apenas esperar. Deitou-se na cama enorme, ainda desarrumada da noite de sexo, e encostou a cabeça no travesseiro dela, a fronha ainda impregnada com o cheiro de caramelo e notas de benjoim — o perfume que ele dera de presente no mês passado. Entorpecido, sentiu os músculos relaxarem. Fechou os olhos e respirou fundo. Qualquer mancha de preocupação que sujava sua mente desaparecia. James continuava no topo, onde sempre deveria estar. 

Basta. Se James tinha outra coisa em abundância, era sua perpétua impaciência. Onde cargas d’água estava Giulia? Por que não atendia a porcaria do telefone? Quando voltassem para o hotel, teriam uma conversinha séria sobre como ligações foram feitas para serem atendidas

Cerrou os punhos. Iria atrás dela. Faria uma surpresa. Esperaria em frente ao salão com um enorme buquê de rosas e… E aquela bolsa da qual ela não tirava os olhos anteontem. 

Saiu do hotel e chegou à Printemps. Subiu até o andar das marcas de luxo. Ligou para Giulia. Caixa postal. Insistiu

Ela não atendia. 

Dane-se. James agora tinha pressa. Sua boca ficou seca e o café da manhã começava a se revirar no estômago. Achou a bolsa na vitrine e se dirigiu ao caixa.

Passou o cartão de crédito internacional. 

Sinto muito, ocorreu um erro, monsieur. 

Certo, vamos tentar mais uma vez. 

De novo.

De novo. 

A espera corroía suas entranhas. 

Os olhos detiveram-se na tela da máquina. Ele leu a mensagem, letra por letra, mas o cérebro não acreditava.  

Afastou-se da loja. Ligou para o gerente do banco. As pessoas em volta assustaram-se com a rispidez que saía da voz daquele homem alto e loiro. O tom subiu, subiu, subiu até que diminuiu abruptamente, restando apenas o silêncio. 

Um silêncio tão vazio quanto sua conta bancária. 

James Witherdale, sem dúvida alguma, arrebentaria a cara de quem se atrevesse a anunciar que ele estava descendo do céu em queda livre. Diretamente até o fundo do inferno.


Notas Finais


Muito obrigada por ler! Bom fim de semana! Vou ser a pessoa mais feliz do mundo com o seu comentário!


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