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História Auribus teneo lupum - Capítulo 17


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Capítulo 17 - Mein Herr Marquis


 

 

Na primeira noite de outubro, o frio já começava a aparecer nos diferentes pontos do Japão. Em toda a Karakura, o tempo chuvoso incitava em muitos o desejo de desfrutar do aconchego de uma cama quente e confortável, saboreando o gosto e o aroma de um chá recém-preparado.

Para outros, o clima combinaria bem melhor com uma taça de vinho, a ser sorvido em pequenos goles, de modo a apreciar as características da bebida e esquentar o corpo de uma forma bem específica. No caso de Sousuke Aizen, o escolhido havia sido o melhor vinho que o dinheiro podia comprar, o líquido tamborilando pela taça até que seu cheiro se desprendesse e agradasse o olfato refinado.

Em seu apartamento, uma cobertura de três andares localizada na área de metro quadrado mais caro de Karakura, o homem encontrava-se confortavelmente sentado em uma grande poltrona branca de design moderno, que junto aos outros móveis monocromáticos dava ao ambiente uma arquitetura inconfundível. A parede oposta à ele era inteiramente composta de vidros, incluindo uma passagem para a sacada gigantesca, que comportava uma belíssima piscina.

Numa postura impecável, como se estivesse em seu trono real, o Sousuke levava a mão livre até o queixo, passeando o indicador num movimento lento enquanto começava a falar, os olhos levemente desfocados de seu interlocutor, mais voltados para a visão que obtinha através dos vidros, enquanto a outra mão ainda balançava sua taça.

– Tudo tem corrido conforme o esperado, Gin. O Dojin-kai segue sendo mais colaborativo do que eu poderia ter esperado.

 

Sentado à sua frente em uma poltrona em formato de C, Ichimaru ouvia as explicações de seu cliente com certa cautela. Era um advogado experiente o bastante para saber que o envolvimento com máfias pode se tornar algo, no mínimo, trabalhoso.

 

–  Sei que está acostumado a movimentar quantias bem grandes – Deixava escapar entre os lábios finos – Mas realmente precisará de muita “colaboração” para lavar valores tão altos – Adicionava, frisando a expressão usada pelo outro – Seus últimos negócios têm sido bem rentáveis... – Terminava em um sorriso cínico.

 

    O empresário provou um bom gole de sua bebida antes de prosseguir, descendo a mão que se movia por seu queixo até o cachecol que usava sob o blazer branco.

 

– Lavar dinheiro é uma tarefa bem simples para eles. – Iniciou, finalmente encarando-o diretamente. – Empresas fictícias resolvem a maior parte do problema – Prosseguia em tom didático – E o sindicato tem pessoal para cuidar do resto. 

 

– Acha que o resultado final será suficiente para comprar tantas ações da Kuchiki. Co. mesmo em seu período de maior valor? – Questionou, incrédulo.

 

– Eu sei conseguir as melhores ofertas – Soltou como uma obviedade - Aguarde e verá.

 

– Claro – Rasgou um sorriso de raposa enquanto respondia – Só não crie para si problemas que eu não possa resolver – Advertiu, com uma pitada de acidez.

 

– Você é o melhor advogado que conheço, Gin – Elogiou – Mas morrerá antes de ser essencial para resolver quaisquer dos meus problemas. – Esclareceu, a voz profunda soando grave – Sou a única pessoa de quem dependo e também o único de quem aceito conselhos.

 

– Compreendo – Anuiu, dando-se por vencido – Nesse caso, aguardarei atentamente os próximos passos do senhor. – Completou, imaginando que os planos de Aizen tinham muito mais detalhes do que aquilo que o homem lhe repassara.

 

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– Tem certeza que quer esse? É bem amargo – Grimmjow perguntava, levantando uma cápsula de café na frente de Ichigo, do tipo que se usa em máquinas instantâneas.

 

– Hn… Não sei. Me dá o Chai Latte, então. – Repensou, trocando o café expresso que pedira ao anfitrião por uma opção com chá e especiarias.

 

– Sábia decisão – O mais velho concordou, fechando a gaveta do aparador e colocando a cápsula na máquina a sua frente, vendo a bebida solicitada ser preparada com o apertar de um botão – Já conheço seus gostos – gabou-se enquanto levava a xícara até o visitante.

 

Pff... Se você diz... – retrucou numa risada, aceitando de bom grado a bebida que, realmente, era bastante gostosa.

 

Já não era o primeiro sabor de café da máquina de Grimmjow que o jovem provava. Aquela talvez fosse a terceira ou quarta vez que, após saírem de algum lugar, paravam na casa do mais velho para uma bebida quente.

Com o passar dos dias, esses momentos iam se tornando cada vez mais especiais para o jovem, conforme sua frequência aumentava, sempre acompanhados da conversa agradável do amigo.

 

Após o incidente que tivera de administrar algum tempo atrás, quando Grimmjow ficou chateadíssimo por não estar recebendo a devida atenção, os dois passaram a organizar melhor os horários e se ver com mais frequência.

Pelo menos por enquanto, antes que o final de mais um semestre encurtasse o tempo do universitário, estava encontrando oportunidades suficientes para ver os amigos e se divertir.

 

Após terminar de fazer seu próprio café, o dono da casa sentou-se ao lado de Ichigo, deixando escapar um suspiro cansado enquanto apoiava os pés na mesa de centro e sentia o odor de sua bebida.

 

– Tá velho, hein? – Ichigo brincou ao olhar a cena, atento ao longo suspiro – Já tá cansado… – Adicionava enquanto o semblante de seu ouvinte parecia despertar – Eu vi que você quase dormiu no cinema também.

 

– Vai se foder, Ichigo. Eu sou mais novo que você – Exclamou, ouvindo uma gargalhada de Ichigo ressoar em resposta enquanto terminava de explicar – Pelo menos eu pareço mais novo – Frisou a expressão corrigida.

 

– Só porque você é desregrado? Perguntou, arqueando uma sobrancelha – Eu também não sou super responsável como você faz parecer – Tentava se justificar, tomando mais um gole do chai latte.

 

– Não só por isso – O outro arguia – Eu tenho o espírito livre, Ichigo. Eu sou tipo o rei de mim mesmo – Falava com certa empolgação, como se houvesse acabado de encontrar uma descrição perfeita para si.

 

– Você só é cabeça-dura – Respondeu, divertindo-se com a contrariedade alheia, evidente na careta que Grimmy lhe fez – Inclusive, eu escolho o próximo filme, okay? – Postulou, relembrando o fato de que a obra escolhida naquele dia fora de qualidade bem duvidosa.

 

– Ah, eu não tinha como saber que era ruim! – Escusou-se – E você também concordou em ver esse, Ichigo. Nem vem colocar a culpa toda em mim. – A reclamação veio seguida de um soquinho no ombro do mais novo, que por pouco não o fez derrubar sua xícara.

 

– Tá, tá… – Aceitou, passando a discutir o conteúdo do filme com Grimmjow, em um animado papo sobre as falhas da indústria cinematográfica Hollywoodiana.

 

Logo Ichigo teria de voltar para casa, a tempo de jantar com a família, mas já notara como seu humor ficava bom quando tinha a oportunidade de passar algum tempo assim com Grimmjow, conversando sobre assuntos triviais e rindo das besteiras um do outro até que a barriga doesse.

 

Ultimamente, já tinha praticamente entregado pro destino a preocupação com os sentimentos que sabia nutrir pelo amigo.

 

Sim. Amigo.

 

Repassava essa palavra mentalmente sempre que preciso, todavia, se visualizasse alguma oportunidade de mudar o status desse relacionamento, sabia que iria aproveitá-la como possível, apesar do medo e constrangimento que tal hipótese ainda lhe causava.

 

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Com o passar de mais um outono, as folhas vermelhas e laranjas que se soltavam das árvores voltavam a tecer um extenso tapete sobre as ruas de Karakura, algumas sendo suavemente levadas pelo vento em uma dança inconstante, outras acumulando-se por aí, para a tristeza de quem desejasse uma calçada limpa.

De passos leves, Orihime seguia por uma dessas calçadas, no centro comercial da cidade, divertindo-se ao escutar os barulhos que as botas faziam ao esmagar as folhas secas, propositalmente mirando nelas a cada passada, os olhos voltados para o chão por mais tempo do que para o que estava à sua frente.

Quando finalmente levantou o olhar, encarando os prédios à sua volta, ainda envoltos pela quietude da manhã, foi retirada de sua brincadeira pela visão de um de seus mercados favoritos.

Os olhos da menina brilharam por um instante, um sorriso formando-se em seus lábios tão logo teve a ideia de parar para comprar alguns ingredientes, de modo a preparar uma deliciosa refeição com os amigos.

 

Recentemente, não era mais tão fácil reunir a turma quanto no ensino médio, portanto, aquele era um dia especial para Inoue. Ainda que já estivesse um pouco atrasada, valeria a pena se atrasar um pouco mais para fazer uma surpresa – concluía, conferindo a hora em seu smartphone uma última vez, na tentativa de calcular o tempo extra do qual precisaria.

Além disso, iriam conhecer o apartamento novo de Ishida, e a garota estava ansiosa para o que já considerava uma inauguração. Seria uma festa completa! – pensava, já caminhando por entre os corredores em uma minuciosa investigação das prateleiras, decidida a encontrar itens que agradassem ao paladar de todos.

   

Ao chegar ao apartamento e mostrar as compras, Ichigo e Uryuu ficaram meio preocupados com o que ela conseguiria fazer com os ingredientes escolhidos, mas foram convencidos a pagar pra ver o resultado.

 

– Abobrinha e chocolate? – Ichigo perguntava, retirando os dois ingredientes de dentro de uma das sacolas – São pra receitas diferentes, né? – Quis confirmar, por via das dúvidas.

 

– Na verdade, são para a mesma receita – A menina explicou, encarando a expressão de perplexidade de todos os presentes.

 

    – Você não precisa ter esse trabalho todo, Inoue – Ishida avisava, vendo a jovem espalhar ingredientes sobre a bancada de sua cozinha

 

– Tudo bem. É divertido – Ela respondeu prontamente – Sem falar que eu vou poder colocar algumas coisas que aprendi em prática – Adicionou, movendo as mãos rapidamente em busca dos utensílios necessários.

 

– Ah, você já deve estar fazendo coisas incríveis. – Rukia supôs, aproximando-se para ver melhor o que a garota aprontava – Está gostando do curso de gastronomia, não é?

 

A resposta foi positiva, acompanhada das entusiasmadas novidades da ruiva sobre seu campus e as coisas que vinha aprendendo nas aulas, com destaque para o fato de que já começava a descobrir ramos da culinária que se encaixavam perfeitamente com seus gostos. A receita que estava preparando no momento, por exemplo, levava ingredientes incomuns, mas ela tinha certeza de que o resultado final iria agradar.

 

Conhecendo bem Orihime, alguns dos amigos estavam um pouco incrédulos, mas juntaram-se para ajudar a jovem no preparo, transformando a cozinha em uma divertida bagunça, com Ishida constantemente ocupando-se de reorganizar o que os outros tiravam do lugar. Rukia e Ichigo até tentavam seguir direito as instruções, mas sempre se distraíam e erravam alguma coisa. Chad, como sempre, fazia tudo tranquilamente, talvez o melhor assistente dentre os presentes, seguindo à risca as orientações de Orihime

Ao final, tiveram de admitir as habilidades da chef, além de terem ocupado a manhã com a aula de gastronomia mais divertida que poderiam ter, resultando em um almoço completo com direito a sobremesa. Em especial, o Brownie de abobrinha havia sido um sucesso. Nem acreditariam na veracidade daquela receita se não tivessem ajudado a prepará-la.

Claro, os visitantes também ajudaram a limpar a bagunça, espalhando-se folgadamente pela sala após terminar os afazeres. Ainda teriam um tempinho para conversar antes que Tatsuki, Keigo e outros amigos pudessem se juntar ao grupo, pois o combinado para aquela tarde era irem todos ao parque de diversões da Universal Studios.

 

    – Ah, eu comi tanto que acho que nem vou poder ir na montanha-russa – Rukia dizia, rolando no tapete felpudo da sala, com metade do corpo embaixo da pequena mesa ali situada.

 

– Eu ainda aguentaria mais uma rodada daquele brownie – Ichigo retrucava numa risada – Você vai ter que colocar esse negócio no cardápio se abrir um restaurante, Inoue.

 

– Isso seria ótimo – ela respondeu, já imaginando seu futuro empreendimento – Mas eu ia querer servir comidas do mundo todo,

 

– Eu quero viajar o mundo todo – Rukia anunciou, aproveitando a oportunidade – Parece um bom trato viajarmos juntas. Você aprende as receitas e eu conheço os lugares – planejava, encarando o sorriso de Inoue, sentada ao seu lado, em frente à mesa.

 

– Se puderem, levem o Kurosaki para algum país distante também – Uryuu pediu, também sentado no chão, de frente para as meninas. – Eu já não aguento mais estar na mesma universidade que ele – reclamava, virando a cabeça para trás de modo a encarar o jovem, sentado no sofá logo atrás, ao lado de Sado.

 

– Qual é, Ishida... Você arruma os jeitos mais esquisitos de fazer as coisas. Devia era me agradecer por te ajudar! – Ichigo se defendia – Vocês sabem como ele é. – explicava aos demais.

 

– É a maneira correta, Kurosaki. Você é que não pode escolher caminhos alternativos só porque são mais fáceis. – O dono da casa rebateu, chamando-o pelo sobrenome, como sempre fazia quando brigavam.

 

E como sempre, aqueles dois iniciavam alguma discussão aleatória, com Orihime tentando amenizar a situação e Rukia colocando mais lenha na fogueira… Chad apenas observava, silenciosamente divertindo-se, feliz por concluir que a amizade entre os cinco permanecia a mesma apesar do passar dos anos.

 

Notara, entretanto, algo diferente em Ichigo, talvez já há alguns meses. Sabia que ele parecia conversar sobre seja o que for que o preocupava com Rukia e os vira bastante próximos no final do ensino médio, mas era um amigo paciente demais para questioná-lo. Se precisasse se abrir ou ouvir seus conselhos, ele o faria uma hora ou outra. Esperaria e ajudaria como pudesse caso o momento chegasse. – Concluíra ao pensar sobre o assunto muito tempo antes, e ainda mantinha esse posicionamento.

   

    Aparentemente, o momento chegou na noite daquele dia, quando Sado caminhava ao lado de Ichigo, fazendo a pé o caminho de volta entre o parque temático da Universal e a estação mais próxima.

    Já haviam se despedido dos outros amigos, portanto, seguiam em um silêncio confortável, vendo as pessoas passarem apressadas, alguns turistas entusiasmados fazendo mais barulho do que deveriam, empolgados após o passeio no parque.

 

Sempre ficaram bem assim. Não precisavam conversar o tempo todo ou se ver com frequência pois ambos sabiam que tinham uma amizade que nunca mudaria, independente do futuro que os aguardasse. Talvez por saber disso, Ichigo terminou por, pela primeira vez, espontaneamente se abrir sobre suas preocupações amorosas. Afinal, Rukia meio que descobrira sozinha e fizera seu caminho. Seria a primeira vez que o Kurosaki tentaria dizer algo ele mesmo.

 

– Talvez eu goste de caras.

   

Foi o que conseguiu dizer, já sentado no banco da estação ao lado de Chad, ainda brincando com o cartão do trem na mão, sem muito contexto ou explicação razoável.

 

Como era de se esperar, o Yasutora apenas o encarou em resposta, esperando que continuasse ou desse qualquer explicação.

 

– Assim, um cara em específico, no caso – se corrigiu diante do silêncio alheio – E não é você. Tipo, só pra não me entender mal. – achou por bem explicar, embaralhando-se com as palavras e deixando tudo meio engraçado – Isso não é uma confissão, okay?

 

– Ainda bem – O outro respondeu, sem conseguir evitar um sorriso.

 

– Ainda bem o quê?

 

– Ainda bem que não sou eu – Respondeu, observando a careta confusa e as sobrancelhas franzidas de seu interlocutor – Eu não gosto de caras – Adicionou.

 

– Tá, eu sei. Eu só não queria que você entendesse errado – Explicou-se – Mas você não acha nada disso? – Perguntou, meio preocupado se aquilo era uma reação positiva ou não.

 

– Eu não tenho que achar nada, Ichigo – Respondeu –  É a sua vida. Ninguém precisa opinar. – Adicionou, já levantando após avistar o trem chegando.

 

Ichigo fez o mesmo, pensando sobre o que acabara de ouvir.

Até se distraiu por uns momentos, sendo obrigado a apertar o passo e costurar por entre as pessoas para alcançar o amigo e sentar-se ao lado dele no vagão. 

 

– Ele é um cara legal? – Sado perguntou, tão logo o amigo acomodou-se.

 

– Mais ou menos – Respondeu, incerto. – Tem muitos problemas.

 

– Ele é casado?

 

– Não! Não esse nível de problema. – falava, incapaz de imaginar Grimmjow casado – Só não sei se é recíproco, mas sei que ele é bi – Adicionou.

 

– Ele é pior do que aquela menina com quem você saiu no começo da faculdade? – Quis saber, referindo-se à Riruka.

 

– Não... – ponderava um pouco enquanto respondia – Ela gostava de outro cara. No caso de agora ele talvez goste de mim, mas somos amigos e eu fico sem saber se devia tentar alguma coisa eu mesmo – Esclareceu o seu dilema na situação.

 

– Você está feliz sendo só amigo dele?

 

– Não.

 

– Então tenta. – Aconselhou – Se der errado vocês continuam só como amigos.

 

– É, mas tem o lance de a amizade ficar estranha…

 

– É melhor se arrepender por tentar do que por não ter feito nada – Pontuou, ficando em silêncio e deixando Ichigo digerir a conversa.

 

Quando desceram na parada mais próxima das casas dos dois, continuaram caminhando por mais um trecho, ainda sem que palavras fossem necessárias. O clima já esfriara bastante àquele horário, ainda assim, as ruas continuavam movimentadas, com o fluxo constante de pessoas voltando do trabalho ou saindo para jantar. 

 

Sado não estava indiferente à situação do amigo, e a revelação daquela noite certamente o pegara de surpresa, mas fora sincero ao dizer que não tinha de achar nada sobre a vida alheia.

Não era nenhum expert em questões de gênero, e Ichigo não lhe parecia o estereótipo de gay que se vê por aí, mas independentemente de como o Kurosaki se portasse, com quem saísse ou quaisquer escolhas pessoais que tomasse, isso não o tornaria menos legal, menos seu amigo ou menos admirável como pessoa aos olhos de Chad.

Cada um decide o que faz com sua vida. Não caberia a ele julgar ninguém. – Sado pensava, caminhando sob o luar ao lado do amigo de infância, com quem passara momentos muito importantes de sua vida – Ichigo era só o Ichigo para ele, e assim continuaria.

 

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Dentre as diversas empresas japonesas que atuam no ramo da construção civil, a Kuchiki Co. Ltd. Vinha ganhando destaque internacional sem precedentes, sobretudo após a repercussão da apresentação do projeto Hougyoku no final do mês anterior.

O projeto completo era extremamente inovador, mas em especial, a tecnologia de energia solar que prometia revolucionar a indústria havia virado alvo da comunidade científica, atraindo o interesse de investidores de todo o globo e até mesmo do governo japonês, disposto a organizar parcerias capazes de garantir a geração de energia limpa em grandes quantidades.

 

Naquela segunda-feira, Kuchiki Byakuya deixava a sala de reuniões onde estivera por toda a manhã, discutindo as possibilidades de futuras parcerias com os responsáveis pelo setor de tecnologia da Universidade de Tokyo, extremamente interessados em desenvolver pesquisas junto à empresa.

Após as despedidas e formalidades, o homem se preparava para deixar a Universidade, mas foi interrompido por Rangiku, que o aguardava do lado de fora da sala de reuniões.

 

– Melhor escolhermos a saída lateral, Kuchiki-san – A mulher sugeria, já guiando o chefe pelos corredores – Eu já dei uma olhada no perímetro e na saída principal tem tantos repórteres que nós vamos perder o voo de volta para Karakura antes de conseguirmos chegar ao carro.  – Explicava, deixando escapar um suspiro cansado.

 

– Estou preparado para responder alguns questionamentos, mas realmente será inconveniente para o resto da agenda de hoje passar tanto tempo aqui. A reunião em si já demorou mais do que o esperado – Byakuya observava os olhares atentos sobre os dois conforme passavam, caminhando apressadamente lado a lado.

 

– E eu achando que ia ter tempo de passar em Harajuku e fazer umas compras antes do nosso voo de volta... – Matsumoto reclamava, parando para ajeitar os longos cabelos loiros e conferir se o terno de Byakuya continuava perfeitamente alinhado antes de deixarem o interior do prédio.

 

Do lado de fora, ainda foram abordados por uma dupla de repórteres antes de chegarem ao carro, aos quais o Kuchiki pacientemente respondeu aos questionamentos mais importantes, partindo em seguida, antes que os demais colegas de profissão os alcançassem e tornassem impossível deixar as dependências da universidade em tempo hábil.

 

A imprensa já havia se atentado ao CEO da Kuchiki Co. LTD. em momentos anteriores, mas aquela era a primeira vez que o volume de repórteres e o interesse na sua pessoa eram tão grandes.

Claro, tal situação era de se esperar considerando o sucesso do projeto no qual trabalhavam, contudo, Byakuya sabia que precisaria ser cauteloso. Era importante manter o sigilo dos processos tecnológicos realizados pela empresa e evitar situações como espionagem industrial ou roubo de patentes. Além disso, tinha também de zelar por sua imagem pessoal e garantir que se mostraria impecável agora que estava tão em evidência como o rosto da empresa.

 

– Parabéns, Kuchiki-san – Rangiku dizia com um sorriso debochado, sentada no banco da frente do carro, ao lado do motorista. 

 

Byakuya apenas a encarou, confuso, observando-a inclinar o corpo para trás tanto quanto o cinto de segurança permitia, estendendo para ele uma revista que tirara da bolsa pouco depois de entrarem no veículo.

 

– Você subiu 37 posições no ranking dos 100 solteiros mais cobiçados do Japão – Explicava o motivo das felicitações, apontando na revista a matéria acerca do tal ranking –  Está em 22° lugar, bonitão – Brincou, esforçando-se para segurar a risada diante da careta azeda que o outro lhe fazia em resposta.

 

Incerto se queria ou não saber o que estava escrito a seu respeito, Byakuya segurou o objeto que lhe fora entregue, aproximado um pouco as páginas do rosto de modo a ser capaz de ler no carro em movimento.

Na caixa de texto ao lado de sua foto, seguiam dados como sua altura, data de aniversário e tipo sanguíneo, seguidos de uma breve descrição sobre sua vida, a qual só poderia considerar irritante. Os termos eram feitos para um público jovem, exagerados e extravagantes tanto quanto imprecisos.

Os olhos acinzentados percorreram as linhas rapidamente, encarando a expressão "O viúvo do ano", que aparecia logo após sua colocação. O resto do texto dizia:

"CEO da Kuchiki Co. LTD, empresa da construção Civil com o maior faturamento do ramo nesse semestre, o Kuchiki-san é um homem reservado, que está solteiro desde a morte de sua esposa a quase 10 anos! Além de sério e tradicional, ele é lindo de morrer e já tem um patrimônio invejável aos 34 anos. Quem será a sortuda que vai ganhar o coração desse jovem milionário?"

 

De seu canto, Rangiku finalmente perdera a compostura, rindo demoradamente da expressão enojada que o chefe fazia para a matéria, as sobrancelhas levemente franzidas e os lábios bem fechados, como se aquilo fosse estúpido demais para valer seu tempo precioso.

 

– Vamos, Kuchiki-san, tem gente que daria um braço pra estar nesse ranking! – Ela contava entre as risadas, recebendo de volta a revista que o homem silenciosamente lhe devolvia.

 

– Felizmente, não sou um desses. – Respondeu em tom sério.

 

– Claro, claro. – A funcionária comentava, voltando a folhear sua revista. – Também vi umas matérias questionando se nós dois não tínhamos um caso... – Comentava despreocupadamente. – Incrível deduzirem isso só porque eu sou uma mulher bonita que trabalha com você. – Reclamava, referindo-se à típica conclusão machista de que uma mulher com o físico dela teria de chegar a postos altos saindo com o chefe, e não por sua capacidade.

 

 – Certamente são conclusões ridículas. – Ele concordou, considerando tais matérias ofensas inaceitáveis. – Mas os boatos cairão por si mesmos. Sua competência e qualificação são inquestionáveis. – Ressaltou, tendo em mente que Matsumoto cumpria papéis essenciais na empresa e era uma das pessoas mais competentes que tinha em sua equipe.

 

– Hn. Obrigada, chefinho. – Agradeceu, ainda se divertindo com toda aquela história. 

 

– No mais, certifique-se de me informar imediatamente caso esteja sofrendo algum assédio por parte da imprensa. – Pediu, cauteloso como sempre. – Pretendo tomar algumas medidas para reforçar a segurança da empresa também.

 

– Combinado. Vou fazer a minha parte revisando os nossos protocolos de segurança. – Comentou, continuando após uma pequena pausa para ponderar sobre o assunto. – Talvez a gente pudesse começar trocando o seu motorista por alguém mais ameaçador... – Comentou em tom de brincadeira, só para provocar o motorista de Byakuya, um senhor que já estava na empresa há décadas e no momento ouvia a conversa dos dois  em silêncio, focado em seu trabalho de dirigir.

 

– Não. – Respondeu em tom sério, ouvindo os agradecimentos do motorista em seguida e, posteriormente, escutando novos protestos de Rangiku sobre a necessidade de contratar mais caras fortes e bonitões na empresa.

 

Apesar de o chefe não ser do tipo que embarcaria nas brincadeiras de Matsumoto, a amizade que construíram ao longo dos últimos meses dera a ela a liberdade de tirá-lo de sua zona de conforto e, de vez em quando, arrancar um sorriso daquele rosto sério.

E ainda bem que agora tinham tanta intimidade, porque o caminho até o aeroporto era longo e a loira morreria de tédio caso precisasse manter uma postura fria e puramente profissional até chegarem.

 

 


Notas Finais


A obra que deu título à esse capítulo é de Johann Strauss II (Die Fledermaus), e vou deixar um link da Patricia JANEČKOVÁ cantando pra quem quiser.

https://www.youtube.com/watch?v=gFoet3qe6L0

Relembrando, Dojin Kai é um sindicato Yakuza real que eu usei nessa fic para ambientar melhor as coisas, sem intenção de fazer apologia.

As tecnologias do projeto Hougyoku estão explicadas em detalhes no capítulo anterior, lembrando que todas elas eu tirei de estudos reais em andamento, inclusive as placas de energia solar de titânio de Bário. As pesquisas eram independentes e minha ideia foi só juntá-las e dar conceitos para criar esse projeto.

Brownie de abobrinha é uma receita de verdade, que eu não cheguei a testar em casa pra confirmar se é mesmo tão bom quanto dizem, mas tinha ótimos reviews.

O parque da Universal Studios Japan fica em Osaka, mas aqui eu "transportei" ele pra Karakura. Vamos imaginar que abriram mais um por lá haha.

No mais, estou com os próximos 4 capítulos mais encaminhados, então se o Coronga não me pegar eu pretendo postá-los em breve, sem hiatus.

Grande beijo e, quem puder, fique em casa e lave bem as mãos.
Até breve.


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