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História Bad Choices - Capítulo 24


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Notas do Autor


Pelo amor de Goku, não me apedrejem! Não tenho uma desculpa pra esse sumiço, mas tenho muitos sentimentos hahaha

Sei lá... um dia eu escrevo um jornal sobre o que aconteceu entre outubro de 2019 e fevereiro de 2020.

A quem ainda me acompanha, obrigada por insistirem! Valorizo demais a presença de vocês por aqui.

Sem mais palavras... fiquem com o capitulinho (:

Capítulo 24 - Convenience


Se o relacionamento de Bra e Ryou pudesse ser descrito com apenas uma palavra, esta palavra seria conveniência.

Na data do primeiro encontro dos dois, a Briefs estava em pedaços. Goten a dispensara um dia antes e ela se sentia seca e vazia. Precisava de alguém que preenchesse o espaço deixado pelo Son e esse alguém foi Ryou. Saíram para jantar e durante toda a noite, ele foi educado e se manteve interessante. No fim do encontro, Bra admitiu para si que, pelo menos por alguns minutos, se esquecera completamente de Goten.

Conveniente.

Depois disso, como era de se esperar, voltaram a se ver. No terceiro encontro, que combinaram em um bar que acabava de ser inaugurado, trocaram o primeiro beijo. Daí em diante, as coisas começaram a ficar sérias, com programas mais íntimos e amassos mais quentes. Foi quando Ryou percebeu que podia mostrar ao mundo com quem estava saindo, mesmo que Bra não concordasse com isso. Era vantajoso para ele que as pessoas soubessem; queria o status daqueles que eram associados de alguma forma a um Briefs.

Mas Bra não queria que as pessoas soubessem. Era uma exposição indesejada e desnecessária. Porém, quando tudo veio à tona e ela e Ryou se viram obrigados a assumir para todos o relacionamento, as coisas pareceram se acalmar em meio ao caos. A imprensa, a maior interessada no assunto, passou a vê-la como uma pessoa de vida estável e entendiante. Em poucas palavras, uma pessoa nada interessante para a mídia fofoqueira e escandalosa, sempre no pé da Briefs atrás de um furo.

Para Bra, era pouco lisonjeiro ser tratada como enfadonha. Mas ainda muito conveniente, já que tudo o que ela queria era ficar em paz.

Como se todos os benefícios já não bastassem, ainda existia uma particularidade de Ryou que do ponto de vista de Bra, era realmente interessante: o homem era gritantemente bonito. Tão bonito que mesmo ela, linda do primeiro fio de cabelo até o dedão do pé, era considerada pouco para ele. E essa característica de Ryou não era interessante por si só, pois Bra não costumava gostar de toda aquela perfeição. Era interessante porque graças a ela, a Briefs conseguiria despertar um sentimento em Goten: ciúmes.

Infantil, ela admitia. Mas nem por isso, menos conveniente.

Entretanto, mesmo com todas as vantagens, seu relacionamento com Ryou era apenas aquilo: útil. Com ele, Bra nunca sentiu as borboletas no estômago, a sensação de felicidade que explodia, a euforia que a impedia de parar de sorrir. Não sentia nenhum outro sentimento, também: nem raiva, frustração ou mesmo arrependimento.

Bra não amava Ryou; sequer gostava dele. Pelo namorado, ela sentia nada. Um grande, enorme e vazio nada.

—O seu grupo de amigos é singular, querida.

Desde que haviam entrado no carro após o jantar com os amigos, Ryou e Bra não haviam trocado uma só palavra. Enquanto ele dirigia, silencioso, ela observava o movimento e as luzes da cidade, com a cabeça encostada no vidro frio da janela. Para ela, uma situação confortável. Não queria ter de falar do jantar. Mas aparentemente ele queria.

Quando Ryou propôs a Bra aquele encontro com os amigos dela, ela precisou pensar a respeito por um tempo considerável. Parecia um passo grande demais e, se isso não fosse o suficiente, o namorado era muito diferente dos amigos, o que poderia resultar em uma situação estranha. Contudo, após muita insistência de Ryou, ela acabou concordando em se encontrarem em um restaurante para um jantar. Parecia um ambiente controlado, não haveria muito espaço para drama e no fim, daria tudo certo. Foi o que aconteceu. Ou quase isso.

Em seu íntimo, Bra não acreditava que Goten compareceria. Se estivesse no lugar dele, não teria ido. No entanto, também não era estúpida para tirar completamente essa variável da equação. Só que em momento algum pensou que a simples presença do Son poderia ser tão arrebatadora.

Ela ainda não havia o superado. Ainda sentia que seu coração era todo dele e se ele quisesse, se jogaria em seus braços na primeira oportunidade. No entanto, achou que os dias que passou distante de Goten fossem suficientes para que não se abalasse na presença dele. Jurava que estar ao lado de Ryou a impediria de vacilar.

Mas quando ela viu Goten se aproximar da mesa em que estava sentada, atrasado em trinta minutos, todas as suas convicções foram para o ralo. Ele estava todo amarrotado, das roupas à expressão cansada de um dia exaustivo de trabalho. Ao ficarem mais próximos, ela inspirou o perfume já fraco dele, misturado ao cheiro de corpo masculino. Observou que as pontas dos dedos dele estavam sujas de grafite de lápis. Para o ambiente afetado daquele restaurante, Goten estava uma bagunça. Para Bra, ele estava impecavelmente perfeito.

Desencostou a cabeça do vidro da janela para fitar Ryou, que a olhava esperando por uma palavra qualquer. Estavam parados em um sinal vermelho que, pelas contas de Bra, demoraria a abrir. Antes que falasse, ela contemplou cada pedacinho do rosto do namorado, dos lábios incríveis e bem desenhados aos olhos verdes intensos. Vestia-se incrivelmente bem e usava o melhor perfume do universo. Naquela noite, sentiu que ele havia sido um pouco mais grosseiro que o habitual, mas nada que ela não pudesse relevar. Ryou realmente era o pacote completo.

Mas ele não era Goten. Nunca seria.

—O que você quer dizer com isso, querido?

Bra respondeu com uma pergunta. Desde o princípio, não queria aquele jantar. Agora que ele já tinha acontecido, queria ao menos evitar todo o drama que falar dele poderia causar. Evitaria dar corda para que Ryou fizesse isso e, portanto, daria a ele respostas curtas e pouco conclusivas.

—Exatamente o que se espera, querida. Seu grupinho é singular. - Ryou falou, enquanto tamborilava com os dedos no volante, inquieto com o semáforo que custaria a abrir. Ainda olhando para Bra, viu que ela virou o rosto mais uma vez para a janela. A garota não diria nada; talvez por não querer, talvez por ser burra demais. - São pessoas muito diferentes que ainda assim, se esforçam para formar uma unidade. É fascinante.

—Diferentes, é? - Bra perguntou, mas sem encarar o namorado. Falava apenas por educação. Ainda não queria manter aquela conversa.

—Sim, diferentes. Veja, tem o cara que trabalha demais para melhorar as próprias condições, mas também tem o cara que enriqueceu mas que prefere fingir modéstia e andar de Uber. São diferentes, mas mesmo assim são amigos.

—Pois é. Vai ver o que os une é exatamente a humildade, não acha? - Bra falou, ainda sem olhar, mas entrosando na conversa. Fazia isso sem perceber.

—Pode ser. Mas podemos deixar essas diferenças no seu grupo um pouco mais claras. - Ryou começou, voltando a dirigir após a abertura do semáforo. - De um lado temos você, cheia de classe e extremamente zelosa com a própria imagem. Do outro, temos uma mulher completamente maluca. Ainda assim, amigas.

—Pan não é maluca. É apenas um pouco mais espontânea que todos nós.

—Não estou falando de Pan, querida. Essa é apenas mal educada. Estou falando da loirinha, a costureira.

Bra sentiu um arrepio percorrer o seu corpo. Não pensava aquilo de Pan. A amiga só era autêntica, com um humor levemente ácido e que pouco se importava com a opinião alheia. Para a Briefs, muito longe de ser mal educada. Ryou fazia um péssimo julgamento da Son mas Bra, mais uma vez, decidiu relevar. Não se estressaria com o namorado apenas por um comentário frívolo.

—Marron não é costureira, é estilista. São coisas diferentes. - A azulada decidiu comentar, por fim. Mudaria a conversa de rumo o quanto pudesse. Não queria ter que falar sobre as ponderações superficiais do homem ao seu lado.

—E a alcunha correta para o que ela faz da vida a torna menos maluca? - O moreno replicou, parecendo impaciente com as esquivas de Bra a respeito do assunto. - Que tipo de gente deixa um apartamento confortável na cidade para ir viver em um vilarejo praiano como uma hippie? E nem é um bom vilarejo praiano! O mar da costa leste é terrível!

Bra respirou fundo e tornou a olhar para Ryou. Mesmo que estivessem conversando, ele dirigia com cuidado e bastante concentrado. Ele franzia o cenho; as mãos apertavam firme o volante.

—Ryou… - Bra começou, cautelosa. O namorado parecia tenso, a ponto de aumentar o tom de voz, quase sempre inalterado. - …a que ponto você quer chegar com essa conversa?

Surpreendendo a Briefs, Ryou pareceu relaxar com a pergunta dela. Ele estava dando voltas para chegar até o ponto crucial daquele diálogo, mas a pergunta de Bra o permitia pegar um atalho. Sorriu com o canto da boca, discreto. A azulada não percebeu.

—Sei lá, Bra… eu esperava outra coisa desse jantar. Esperava que seus amigos fossem mais como você. - Ryou respondeu, retomando o tom de voz plano que costumava utilizar. - Mas foi tudo diferente. Tão diferente quanto seus amigos. Eu diria até que foi… decepcionante.

—Por que isso te perturba tanto? - A Briefs perguntou, realmente incomodada com aquela conversa. Se antes não queria levar o papo de Ryou adiante, agora ela fazia questão de explorá-lo até o fim. - É natural do ser humano ser diferente um do outro. Por que razão isso é um problema pra você?

—É um problema porque eu não os vejo como uma companhia apropriada para você, minha flor.

Ryou falou, simples e direto. E a reação de Bra foi a mais natural possível.

—Oi? Como é que é?

O moreno parou mais uma vez em um semáforo fechado, o que permitiu que ele mirasse a namorada com atenção. Ela sustentava pra cima dele um olhar frio, de sobrancelhas apertadas e punhos fechados. Parecia muito indignada. Mas ele, que parecia sempre ter o controle da situação, manteve-se calmo. Chegou a sorrir.

—Querida, não fale dessa forma. Agindo assim, até parece uma mulherzinha histérica. - Ryou falou, contornando a situação. - Eu só penso que você deve ter amigos mais adequados para a sua posição social. Sabe, que não sejam irônicos na hora de fazer o pedido do jantar e que não chegam sujos em um restaurante chique. É o mínimo que você merece.

—Legal, Ryou. Entendi que você acha que eu mereço mais. Mas o que você quer que eu faça? Quer que eu simplesmente abandone o meu grupo de amigos?

—Se quer colocar dessa forma… sim, é isso mesmo. A solução para o problema que eu levantei é exatamente essa.

Bra havia feito aquela pergunta ironicamente, mas a resposta de Ryou lhe pareceu muito séria. Resolveu que, para não se desgastar mais que o necessário, não falaria mais daquilo. Afundou no banco do carro e ali ficou, cabisbaixa. Mas aguentou ficar assim por menos de cinco segundos. Uma coceirinha a impedia de ficar quieta.

—Francamente, Ryou… isso é absurdo.

—E por que isso é absurdo? - Ele falou, voltando a dirigir. Não tinha dificuldades para argumentar. Tudo ali era perfeitamente orquestrado. - Sabe Bra, eu sou seu namorado. Sou seu parceiro. Eu quero construir uma vida ao seu lado, mas pra isso funcionar, nós precisamos ouvir um ao outro. Colabore e me escute dessa vez, querida. Vai ser melhor pra gente, sabe?

—Ryou… eu não posso simplesmente abrir mão dos meus amigos. - Bra falou, parecendo exausta. Não queria ter de brigar, mas odiaria ter que ceder. Amoleceu e o olhando, lhe suplicou. - Por favor, não torne as coisas mais difíceis do que já são. Isso faz eu me sentir tão pressionada… não me faça ter de escolher entre você e meus amigos.

—Mas em nenhum momento eu quis fazer você se sentir assim. - O rapaz começou, em um falso tom de pesar. - Não precisa fazer isso de uma vez. Faça no seu tempo, aos poucos. Você poderia começar evitando ficar no mesmo ambiente que, por exemplo… o arquiteto.

Bra olhou para o namorado com o canto dos olhos. Sabia que aquele comentário sobre Goten não tinha sido por acaso. Em mais de uma oportunidade, Ryou a questionou sobre sua relação com o Son e ela se limitou a dizer que eram amigos pelas circunstâncias: ele vivia na casa dela por Trunks; ela passava muito tempo com a família dele por Pan.

A Briefs se esforçava muito para negar e omitir todo o passado que tivera com Goten. Ninguém precisava saber do que tinha acontecido, nem superficialmente. Ryou, inclusive. Por isso, permaneceria com o mesmo posicionamento: omitiria e negaria quantas vezes fossem necessárias. Para sempre, se fosse o caso.

—Primeiramente, Ryou, o arquiteto tem nome. - Bra pontuou, concentrando-se para manter a postura. Ela sentia muito orgulho da profissão de Goten, ainda mais por ele levá-la de forma tão bonita. Não admitia que falassem dela como se fosse algo ruim. - Em segundo lugar, você sabe muito bem que não é assim tão simples. Goten e meu irmão se conhecem desde sempre e…

— …e estão sempre juntos, estando em sua casa com frequência. Eu já entendi, Bra. - Interrompendo a mulher, Ryou falou, subindo uma oitava. Aquele era um sinal claro de irritação, uma vez que o tão contido Ueda Ryou não costumava se exceder. - O problema não é necessariamente você estar no mesmo ambiente que o amiguinho do seu irmão. O problema é você não conseguir manter suas malditas pernas fechadas ao lado dele!

Bra ficou tão estupefata que parou até mesmo de respirar. Embora não tivesse muitos sentimentos por Ryou, existia um que ela não abria mão: respeito. A Briefs respeitava o namorado, pois julgava que aquilo era o mínimo que ele merecia por estar com ela. E por respeitá-lo de forma tão incondicional, jamais faria algo que o envergonhasse ou que o fizesse ter dúvidas de sua fidelidade por ele. Bra simplesmente não sabia o que havia feito para Ryou tecer aquele comentário.

Após o susto inicial, a azulada relaxou e então ela teve a pior reação possível. Bra riu. Não um riso acalorado, alto e contagiante. Um riso comedido, baixo e que deve ter durado menos que um segundo. O bastante para Ryou bufar, zangado.

—Ri de nervoso, Ryou. - Bra falou, ficando séria de uma vez. A irritação de Ryou era notável. - Não entendi o que foi que eu fiz para você fazer esse tipo de comentário a meu respeito. Já te disse um milhão de vezes que entre eu e Goten, só existe amizade.

—E eu acredito na sua palavra, amorzinho. Mas quem me garante que você não quer evoluir sua amizade com o desenhista de casinhas?

—Eu te garanto, Ryou! Eu! - Ela esbravejou, sentindo o corpo todo ficar tenso. Aquela era uma discussão estúpida. E era estúpida não apenas pelo conteúdo, mas porque havia acontecido outras centenas de vezes. - Se diz que acredita na minha palavra, acredite nessas também. Que saco! O que diabos aconteceu com você, heim?

—Abaixe o seu tom para falar comigo, Bra. - Ryou falou, diante do descontrole da namorada. Gostava de Bra por muitos motivos, mas a polidez dela era uma das coisas que mais admirava. Odiava que ela deixasse isso de lado. - Você quer saber o que aconteceu comigo? Eu te digo o que aconteceu. Aconteceu que a minha namorada, se pudesse, teria se esfregado no amiguinho dela. Que merda foi aquela de “não será a mesma coisa sem você”, heim Bra? “O prazer em te ver foi meu”. Qual foi sua intenção com isso, heim? Flertar com o seu arquiteto, mostrar que é a gostosona, me envergonhar… qual foi, hum?

—Minha intenção foi ser educada com o meu amigo, Ryou. Se é incapaz de entender isso, não tenho muito o que fazer.

—Na verdade, tem sim. Deixar de agir como uma vagabunda.

Bra não conseguia acreditar. Para ela, Ryou havia perdido todo o bom senso ao tratá-la daquela forma. Só que, em vez de ficar furiosa, ficou triste. Uma onda de tristeza se apossou de seu ser e não iria lhe abandonar tão cedo.

Não tentaria reverter a situação com Ryou, não naquele momento. Sabia que aquela era uma discussão perdida e que tentar argumentar só faria com que os gritos aumentassem e o veneno se espalhasse. Mas não queria ter de ficar perto dele. Era asfixiante.

—Ryou, por favor, dê meia volta e me leve para casa.

—Como?

—Me leve para casa. Por favor.

—Você por acaso ficou maluca? - Ryou falou, subindo o tom mais uma vez. Sua paciência já havia se esgotado. - Estamos longe da sua casa uns oito quilômetros e o trânsito está horrível. Não vou dar essa volta. Não agora.

—Tudo bem. Encoste então que vou sozinha daqui.

—Ah vai? E vai como, andando? Espremida em um vagão de trem? - Ryou debochou da determinação de Bra, que o mirava muito séria. Não acreditava que ela fosse persistir naquilo, que ele julgava ser uma sandice. - Ah, ou melhor! Vai chamar um Uber, igual aos seus amigos que fingem ser humildes pra pegar bem com a mídia?

—Vou dirigindo, Ryou. Sua mulher vai pegar em um volante, contrariando todas as suas expectativas. - A Briefs ironizou, em resposta a todo o sarcasmo empregado por Ryou ao falar com ela. - Ou você pode, simplesmente, fazer o que pedi desde o princípio: dar meia volta e me levar pra casa. Me parece mais simples.

—Vai pegar em que volante, Bra? Você está louca? - Ryou replicou a fala de Bra, achando absurdo o que ela dizia sobre dirigir. - Não tem nenhum carro além do meu aqui, não tem como você dirigir. Nem que queira.

—Ah Ryou, melhore, viu? Na boa, não fode com a minha paciência. - Bra mandou a educação e o vocabulário formal para o espaço. Estava cansada de gastar sua civilidade com quem não se esforçava o mínimo para merecê-la. - Minha família ganha dinheiro vendendo um dispositivo minúsculo em que se pode colocar qualquer coisa, inclusive um carro. Posso muito bem ter um aqui, então não se faça de desentendido nessa, sabe? Mas voltando ao nosso assunto, ainda estou te dando a oportunidade de escolha: ou me leva pra casa, ou me deixa aqui para que eu mesma faça isso. E aí, o que vai ser?

Ryou não respondeu, preferindo agir: no primeiro retorno que encontrou, deu a volta e rumou para a casa da azulada. Fazia aquilo contrariado, pois tinha feito planos para ele e Bra no apartamento dele. Mas não podia deixá-la ir sozinha. Não por preocupação ou cuidado, mas porque era louco de ciúmes e era tomado por um sentimento de posse quase doentio.

Bra, entendendo o que o namorado fazia, mais uma vez encostou a cabeça no vidro. Ryou amarrou a cara e acelerou o tanto que seu aborrecimento permitia, ultrapassando a velocidade máxima daquela via. Mas logo ele voltou ao estado de neutralidade que costumava ostentar. Era tolice perder a cabeça ou falar grosso com a Briefs. Tudo o que não precisava era que Bra ficasse contra ele.

O percurso durou algum tempo e ele foi feito todo em silêncio. A mente de Bra estava distante de onde o corpo estava. Já a de Ryou estava a mil, pensando em uma forma de se redimir sem tirar sua razão. Ele jurava que tinha razão. Só não havia se expressado da melhor forma.

—Bra. - Ele falou, assim que estacionou o carro na frente da casa dela. Conseguiu a atenção da mesma, que o mirou impassível. - Sinto muito se algo que eu te falei te ofendeu, você sabe que eu não tive a intenção de…

—Ryou, não. Não quero falar sobre isso agora. - Bra o interrompeu, falando firme. Não se emocionava com o arrependimento fingido do namorado. - Em outro momento, talvez.

—Ok, podemos almoçar juntos amanhã. - Ele completou, convencido de que havia tido uma ótima ideia. - Só nós dois, de preferência.

—Não sei, Ryou… tenho umas aulas pesadas de manhã, a tarde laboratório… vai dar trabalho. - Embora tudo o que dissesse fosse verdade, a Briefs enrolava. Não queria ter que lidar com aquilo tudo tão depressa. - Não me parece uma boa ideia.

—Tudo bem. Se está assim, tão disposta a me evitar… - Ele falou, vencido, e Bra teve que se esforçar muito para não girar os olhos diante do drama excessivo e desnecessário. - Ligue quando estiver disponível. Libero minha agenda pra você.

Em uma tentativa de estreitar seu contato com Bra, Ryou a abraçou e tentou beijá-la, mas ela virou o rosto. Ela sorriu, apenas porque era educada demais para fazer o que realmente queria fazer e no fim, despediu-se e desejou que ele tivesse uma boa noite. Ele não fez o mesmo. Assim que ela deixou o carro, ele acelerou, sumindo do campo de visão da azulada poucos segundos depois. Ela deu de ombros.

Ela entrou e tirou o casaco e os sapatos, ganhando todo o conforto que precisava e podia ter naquele momento. Distraída, andou pelos corredores sem ter exatamente um rumo, sabendo apenas que era bom estar em casa. Terminou na cozinha, onde encontrou o pai, a mãe e o irmão, comendo a sobremesa do jantar.

—Achei que você passaria a noite no apartamento do Ryou. - Trunks comentou, enquanto dava uma colherada no pudim a sua frente. - Mudou de ideia?

—E eu achei que você já tinha comido a sobremesa. - Bra falou ao irmão, sorrindo, e seguiu para perto dele, sentando-se entre ele e o pai. Não daria detalhes e Trunks não parecia fazer a menor questão, mas devia a ele uma resposta. - Sobre sua pergunta… é, meio que mudei de ideia sim.

—Que história é essa de passar a noite com aquele imbecil que você chama de namorado? - Vegeta falou rapidamente, quase se engasgando com o doce que comia. - Perdeu a vergonha na cara, garota?

—Bra já é crescidinha, Vegeta. É completamente normal e aceitável que ela queira ficar sozinha com o namorado. - Bulma entrou na conversa, esclarecendo para o marido o que achava daquela situação. - E você sabe, a dois, pode-se ter muita coisa, menos vergonha.

—Não seja vulgar, mulher! Está na frente dos seus filhos!

—E daí? Não é como se eles não soubessem do que estou falando…

Trunks olhava para a pequena discussão saudável que os pais tinham com desgosto, enquanto Bra sorria com a cena diante de si. A relação de Bulma e Vegeta, mesmo com todas as diferenças, funcionava perfeitamente bem. Bra os tinha como exemplo e esperava que seu futuro fosse, pelo menos, próximo daquilo que via diante de seus olhos. E ao constatar isso, sentiu-se triste.

Sentiu-se triste porque, mais uma vez, surgiu em sua cabeça a imagem de Goten. Em sua concepção, somente ele poderia lhe proporcionar a vida e o futuro que desejava. Naquele momento, só conseguia pensar no quanto sua felicidade era condicionada a estar junto do Son.

Mas ele não estava mais com ela. Goten a dispensara e as chances de terminarem juntos eram próximas de zero. Ele havia deixado muito claro que era para que Bra aproveitasse sua vida, longe dele. Da parte de Goten, a decisão fora definitiva.

Bra não podia se deixar balançar por Goten, porque ele não se balançaria por ela. Mas era difícil quando a simples presença do arquiteto a fazia perder a noção e desafiava toda e qualquer lógica construída por ela mesma. Então, de repente, as palavras de Ryou sobre ela não conseguir manter a compostura ao lado de Goten lhe pareceram coerentes. Eram horríveis, sim; a forma como foram ditas havia sido degradante para a Briefs. Mas Bra, sinceramente, não achava que a ideia era de todo errada.

Ela odiava admitir, mas o namorado tinha razão: precisava parar de ver Goten. Não por Ryou, mas por ela. Não queria mais sentir aquela melancolia que a invadia por todos os poros; queria se livrar da sensação de impotência que a dominava. E seu plano para isso era se afundar na conveniência de seu relacionamento e se afastar da instabilidade gostosa de estar junto de Goten.

Era consciente de que isso podia afetar sua amizade com Pan, que fazia valer o laço familiar com o tio passando um tempo considerável com ele. Por consequência, prejudicaria sua relação com Uub que, desde a partida de Marron, fizera da Son sua maior apoiadora. Possivelmente alguma coisa mudaria até mesmo com Trunks. Embora não pudesse evitá-lo completamente pois ainda viviam sob o mesmo teto, dispenderia algum esforço para se esquivar de conversas que pudessem levar ao melhor amigo do irmão.

Seria um inferno, Bra concluiu. Mas definitivamente era um inferno mais agradável que o inferno de ter Goten por perto e não poder tê-lo para si.

Pegou o celular e abriu o aplicativo de mensagens. Dentre as conversas, procurou a de Ryou e quando a encontrou, leu as mensagens que trocaram durante os dois últimos dias. Eram de uma simplicidade que beirava a frieza: desejavam bom dia e boa tarde, marcavam horários para se encontrarem, perguntavam um ao outro como deveriam se vestir. Mais nada. Nenhuma declaração carinhosa; nenhum comentário engraçadinho. Conversavam apenas para decidir formalidades.

Bra mordeu o lábio inferior e refletiu sobre o que devia escrever. Poucos minutos antes, despedira-se de um Ryou visivelmente furioso, mas não queria ter de lhe pedir desculpas. Não tinha feito nada de errado. Mas manter o orgulho era besteira naquele momento. Precisava da colaboração do namorado; precisava que ele se dedicasse a ela da mesma forma que ela planejava se dedicar a ele. Por isso, indo contra àquilo que julgava correto, apenas deslizou os dedos sobre a tela e pressionou o botão enviar.

23h28 Briefs Bra: Ryou, meu querido… sinto muito pelo meu comportamento há pouco.

A Briefs releu o que havia escrito e sentiu-se a pessoa mais idiota da terra. Quando foi que se tornou aquela mulher submissa? Pensou em apagar a mensagem, mas viu que o namorado já havia visualizado. Correu para continuar, uma vez que não queria interrupções no meio do seu raciocínio.

23h30 Briefs Bra: Pensei melhor e acho que dá pra gente se ver amanhã, sim.

23h30 Briefs Bra: A noite, um jantar. Mas coisa tranquila e simples, que não precisemos nos arrumar tanto. O que acha?

Soltou o celular na mesa e fingiu desinteresse no mesmo. Voltou a observar a dinâmica da família: naquele ponto, já tinham mudado de assunto, Trunks já tinha se metido e todos os três desataram a falar ao mesmo tempo, ignorando completamente a presença da mais nova. Não teve muito tempo para entender do que falavam; assim que o celular vibrou, o pegou de volta correndo. Curiosa, não negava.

23h33 Ueda Ryou: Fico feliz que tenha recuperado o bom senso e seus modos, querida.

23h33 Ueda Ryou: Vamos jantar sim. Algo informal, não necessariamente simples.

23h34 Ueda Ryou: Farei as reservas e te pego às oito. Use um vestido bonito.

23h34 Ueda Ryou: Boa noite, senhorita Briefs. Espero que reflita sobre o dia de hoje em seus sonhos.

Bra sentiu o olho direito tremer. A prepotência do namorado era enervante. Mas voltando a pensar no quanto precisava dele, deixou aquilo pra lá. Não pegou mais no celular e nem lhe deu uma resposta. Entre os dois, a ausência de réplicas era entendida como uma concordância e esse acordo silencioso se tornou muito útil naquele momento. Não queria ter que dialogar com Ryou.

Nem com Ryou, nem com ninguém. Levantou-se num salto de seu lugar, atraindo a atenção da família para si, que conseguiu enrolar com a desculpa de que estava com sono e que tinha muito a fazer no dia seguinte. Acreditaram, ou pelo menos Bulma e Trunks acreditaram. Vegeta sentia a filha muito estranha nos últimos dias, mas julgava ser uma perda de tempo questioná-la sobre isso.

Bra pegou suas coisas e rumou para o quarto. Queria se jogar na cama, dormir e fingir que aquela noite nunca tinha acontecido. Em vez disso, entrou no closet. Precisava escolher um vestido bonito pro dia seguinte, afinal. Faria exatamente o que o namorado lhe pedira, pois precisava agradá-lo. Iria às compras se necessário.

Tudo pela manutenção do bem-estar e da paz de seu relacionamento que era assim, tão conveniente.


Notas Finais


Notinhas da autora sobre o capítulo:

1 - O trecho em que Ryou diz que Bra é louca por querer dirigir sem ter um carro é um caso de gaslighting e isso é abuso psicológico, coleguinhas. Mas aqui Bra não cedeu: ela foi mais esperta e não se deixou atingir.

2 - Embora mais esperta nesse ponto em específico, a abordagem de Bra para lidar com Goten e com os efeitos da presença dele em sua vida não podia estar mais errada. Amiguinhos, ficar com homem machista e controlador NUNCA é a resposta. Se amem e se respeitem.

3 - É... talvez essa furada dure mais tempo do que gostaríamos

E apenas para que todos vocês saibam: eu, no lugar da Bra, estaria sofrendo pelo Goten em Paris. Ou nas maldivas, bebendo água de coco. As atitudes dos personagens dessa história não são reflexo das opiniões da autora haha

Obrigada, mais uma vez, a todos que permanecem comigo.

Um beijo,

Mari.


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