História Bad Girl VS Good Girl - Capítulo 16


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Categorias Fifth Harmony
Personagens Ally Brooke, Camila Cabello, Dinah Jane Hansen, Lauren Jauregui, Normani Hamilton, Personagens Originais
Tags Assassinato, Suspense, Terror Psicológico
Visualizações 3
Palavras 4.149
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Ficção Adolescente, Mistério, Romance e Novela, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Estupro, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 16 - Capítulo XVI


Fanfic / Fanfiction Bad Girl VS Good Girl - Capítulo 16 - Capítulo XVI

As perguntas são claras quando feitas por Mike. Ele é psicólogo, feito para me apoiar, me ajudar a resistir, mas os advogados de defesa são outra coisa. 

Ele vai lendo em voz alta. O que exatamente você viu pelo buraco na parede na noite em que Daniel Carrington morreu? Quanto tempo ficou espiando atrás da parede? Tem certeza de que foi isso que viu a sua mãe fazer? Tem absoluta certeza? O que aconteceu depois disso?

Conte mais uma vez para o tribunal. E de novo.

Quando terminamos, ele diz que fui muito bem. Baixa a folha com as perguntas e fala que sente muito por eu ter de passar por isso. Que eu devo estar me sentindo muito exposta, a ideia de ter de responder perguntas na frente de um juri e de um juiz. É, estou, sim, confesso, me assusta não saber o que pode acontecer no dia. O que pode ser dito. Mas vou ficar bem, acho que ir ao tribunal, enfrentar você, é o jeito que eu encontrei se ajudar as crianças que você machucou. De assumir a minha responsabilidade. Ele fala sobre culpa do sobrevivente e sobre como ela às vezes faz uma pessoa se sentir mais culpado do que é. Às vezes acho que você sente isso, que as mortes das crianças foram culpa sua. Estou certo?, Pergunta ele. Não sei direito, respondo, às vezes, sim. Você não fez nada de errado, diz ele, e, se sua mãe disser qualquer coisa diferente disso, é só mais uma tentativa de agredir você. 

Uma explicação arrumadinha, uma fita com laçarote dado. 

Falamos da vez que fomos a Manchester nas férias. Você tinha cuidado, muito cuidado, de espalhar o que fazia por enormes distâncias. A rede subterrânea de mulheres desesperadas que se sentiam suficientemente tranquilizadora por você para lhe entregarem um filho. Preparadas de longe durante anos. A camuflagem, mais uma vez, era eu, sua filha. Podíamos ter continuado assim por muito tempo, mas aí você raptou Daniel, alguém que eu conhecia. Familiar demais. 

- O que você diria agora para a Lauren do passado que poderia ter servido de consolo na época? 

- Não sei.

- Você tem de tentar. O que teria gostado de ouvir? 

Que eu era diferente de você. 

Que um dia isso ia parar. 

- Você fez parar, foi muito corajosa indo à polícia. 

- Eu esperei demais, muitas coisas ruins já tinham acontecido. 

- Se você pudesse ter sido ouvida antes, o que teria dito? 

- Me ajuda. Me deixa em paz. 

- Mas como iam te ajudar se você queria ser deixada em paz?

- Não sei. É assim que eu me sinto. 

- Assustada, acho. Que tal se você tivesse dito: "me ajuda, me leva para algum lugar seguro"? 

Conto os livros nas prateleiras. Números ajudam. Então, começo a chorar, escondo o rosto com a almofada. Mike fica sentado em silêncio, me deixa chorar, então diz: 

- Você merece isso de verdade, Camila, merece estar segura, merece uma vida nova. 

Afasto a almofada. O rosto dele, tão sincero, me olha. Ele quer fazer as coisas melhorarem para mim, dá para perceber, mas não entende. 

- Você não entente, Mike. Você acha que me conhece, mas não conhece.

- Eu acho que estou começando a conhecer, acho que conheço você melhor do que a maioria das pessoas. Não concorda?

Se isso fosse verdade ele saberia o que dizer. Saberia que a melhor maneira de me ajudar é dizendo que posso ficar aqui. Que vai cuidar de mim. Mas tenho muito medo de pedir isso a ele. Sei que assim que o julgamento acabar eu vou ter de ir embora. Começar outra vez. E não há nada que eu possa fazer a respeito. 

- Será que a gente pode parar, Mike? Já faz mais de uma hora. Estou cansada, quero ir para a cama. 

Ele sente a desconexão, sabe que é melhor tirar o pé do acelerador por hoje. 

- Sem problemas, deixa eu pegar os remédios da noite.

Guardo os comprimidos junto com os outros, abro o notebook para ver se tem alguma coisa sobre você nas notícias. Você foi colocada numa solitária, nenhum detalhe além de ter sido uma tentativa de ataque por parte de outra detenta depois do anúncio de que o seu julgamento foi antecipado. Proteger você é importante, imagino, a pressão do público para manter você viva. 

Fazer você pagar. 

Terra nas minhas mãos, uma toalha na pia. Mike devia ter me deixado onde me achou tarde da noite ontem, depois da nossa sessão. A escuridão do porão.

Dinah está no patamar quando saio do meu quarto, equilibrada na beirada do corrimão, cabeça enterrada no celular, um dos pés no tapete. Unhas dos pé pintadas com perfeição, em rosa. Ela levanta a cabeça quando passo, diz: que barulheira foi aquela ontem à noite?, você me acordou. Respondo a primeira coisa que me passa pela cabeça: 

- Tive dor de barriga, Mike me levou uns comprimidos. 

- Sei, bem, da próxima vez, faz menos barulho. 

Sigo reto, passo por ela, desço um lance de escada, me viro e pergunto: 

- Como vão as falas da peça?

Ela me mostra o dedo do meio e articula um vai se foder com a boca. Sabe que Mike e Normani estão em casa e que poderiam facilmente ouvir. 

- Avisa se eu poder ajudar - ofereço, sorrindo. 

Ela se levanta do corrimão, entra furiosa no quarto e fecha a porta com um chute.

Normani está à mesa da cozinha segurando uma enorme caneca, dedos finos fechados em volta, veias pronunciadas subindo pelos nós dos dedos até os punhos. Me cumprimenta com um bom-dia, uma expressão distante nos olhos, mais por educação do que uma tentativa sincera de puxar assunto. 

- Ovos? - oferece Mike, uma colher de pau na mão. 

Usa um avental que traz James Bond na frente, "licença para grelhar" escrito embaixo. Ele me pega olhando, ri um pouco, tenta mascarar a preocupação. A impotência que deve estar sentindo. Mesmo depois da nossa sessão, eu continuo fodida. 

- Normani comprou no meu aniversário do ano passado, não foi, Norm?

- O quê? 

- O avental. 

- Sim, querido, acho que sim. 

Olho para Mike quando ele se vira outra vez para o fogão. Alto, forte, em boa forma, os cabelos claros fechados de grisalho. O peso de todas nós sobre os seus ombros largos, embora não o tenha ouvido reclamar uma só vez.

- Tome aqui - diz ele. - Ovos mexidos. 

Agradeço a ele e me sento ao lado da Normani. 

- Não vai querer ovos? - pergunto.

- Não, não, gosto de comer mais tarde. 

Ou hora nenhuma, ou outro tipo de ovo. Mike vai até o corredor, sobe no primeiro degrau e berra para Dinah. Ele tem de gritar duas vezes até ela responder: 

- Desço daqui a pouco. 

Ele vem se sentar com a gente à mesa, muito bem, diz, ao ataque! Ele me pergunta se tenho alguma ideia do que gostaria de fazer nas férias. 

- Tanto faz, não tem problema se a gente ficar por aqui mesmo. Sei que vocês dois estão ocupados. 

- Acho que Jane tinha razão, nós devíamos mesmo relaxar um pouco. Tem um lugar bem simpático naquele campo aonde a gente foi, as árvores vão estar lindas essa época do ano.

- Olha só, que coisa mais bonita de se ver - diz Dinah quando entra. 

- Bom dia, tem ovos fritos, senta com a gente. 

- O que aconteceu ontem à noite? Vocês me acordaram. 

- Eu contei a Dinah que tive dor de barriga e que você foi me levar um remédio. 

Mike hesita, não está na sua natureza mentir, mas vai abrir uma exceção. Protetor. Uma necessidade. 

- Eu não ouvi nada - Comenta Normani 

Ninguém fica surpreso. 

- É, bem, eu demorei séculos para dormir outra vez. 

- Desculpa, Din - apazigua Mike. - De qualquer forma, estávamos falando das férias, é uma pena que você não vai poder ir com a gente. 

- Ficar caminhando sem destino por um bosque no meio do nada, não, obrigada. Prefiro ir para a Cornualha com as minhas amigas, valeu?

Devon fica perto da Cornualha. Era a minha casa.

- Também tem muitos bosques naquela região, sabia? - diz Normani.

Não é uma tentativa ruim, beira o engraçado, mas a Dinah não acha, vira de costas, enche um copo com água na pia. Vejo a mão do Mike deixar a mesa, pousar na coxa da Normani. O capitão de uma embarcação instável. Motim possível. Provável. 

- Você precisa comer alguma coisa, Din.

- Não, sem fome. Estou de dieta. 

- Não na primeira refeição do dia, o café da manhã é necessário. 

- Por quê? Não estou vendo a perfeitinha da minha mãe comer comer nada. 

- Ela não vai passar o dia todo na escola ou liderando o time de hóquei, vai? 

Dinah resmunga para dentro da borda do copo: não, como sempre não vai fazer nada. 

- Pelo menos pegue uma barra de cereais no armário e coma no intervalo. 

- Está bem - reclama ela - Como você quiser. 

Dinah e eu saímos juntas, sem escolha, Mike e Normani nos acompanham até a porta. Nós separamos já na casa vizinha. Observo o corpo longilíneo e magro atravessar a rua, caminhar com confiança, um mundo à parte do que acontece por dentro. Há duas semanas, fui na lavanderia para pegar uma toalha, ouvi vozes. Sevita passando roupa, Dinah sentada no chão com as pernas dobradas fazendo o dever de casa. Sevita ergueu a vista quando entrei, sorriu, olá Camila. O rosto da Dinah disse tudo, zangada. Enciumada. Não me queria ali. Não queria compartilhar. O que não consegue da Normani ela encontra em outro lugar, precisa encontrar. 

Ao passar pelo conjunto habitacional, lembro que esqueci de avisar a Mike e a Normani que vou chegar tarde da escola. Vou mandar uma mensagem para os dois avisando que vou ajudar com os adereços da peça e que devo estar de volta umas seis ou sete. Uma mentira, pequenininha, inofensiva. Estou anciosa para ver a Alle de novo. Eu cuidei dela no fim de semana, a mandei para casa. Não consegui me livrar da ideia de contar a ela sobre você, não tudo, mas o bastante para poder falar do assunto se eu quiser. Jane não aprovaria. Me deram uma identidade nova para que eu me sentisse protegida. Invisível. Ninguém saberia quem sou. Londres é uma cidade enorme, disse ela, você vai ser só mais um rosto na multidão. O mais importante, ela disse, é você nunca contar a ninguém quem você é ou qualquer coisa a respeito da sua mãe. Você entende como isso é importante? Sim, foi a minha resposta, ainda é, só que nunca me dei conta do quanto isso me faria sentir sozinha. 

O dia se arrasta. Alemão, depois música. Matemática e artes. A SK não é minha professora. Penso nela com outras meninas, conversando. Rindo com elas. Mandei outro e-mail ontem perguntando se a gente podia se ver, mas ela ainda não respondeu. 

Biologia, a última aula do dia. Dissecação. Um coração de porco. Humano é igual, quase. Ventrículos. O átrio, a poderosa veia cava. Conheço bem as entranhas de uma pessoa. 

Gloriosos na sua vermelhidão, quinze corações expostos quando chegamos, um para cada menina. O professor West, um velhinho um pouquinho cego, nos manda seguir as instruções escritas no quadro branco que se encontra na frente da sala. 

Facas a postos. 

Cortar, é o que fazemos: um talho aqui, um recorte ali. Um esforço para algumas, mais fácil para mim. Sou a primeira a terminar. Olho fixo para o coração, agora aos pedaços, espalhado numa bandeja prateada. Dois bisturis e uma pinça são os culpados. Escuto os comentários à minha volta. Que nojo. Eca, odeio biologia, não vejo a hora de não ter mais de estudar isso. Me ajuda com o meu. Nem pensar, mal estou aguentando fazer o meu. Argh!

Levanto a mão. Leva um ou dois minutos para a careca do professor levantar, analisar a turma. 

- Terminei, senhor. 

- Então lave as mãos e escreva as suas observações. 

Quando termino na pia, volto para a minha bancada, abro o caderno numa página em branco, começo a escrever, mas logo escuto as duas. Clondine e Liz dando risadinhas, na fileira na minha frente olhando por cima do ombro para mim. Eles viram quando olho. Começo a escrever outra vez. É então que acontece. 

Um coração na minha cara.

Quica na minha bochecha esquerda, aterrissa no meu peito, cai no chão. Já tirei o jaleco. Toco o rosto com a mão. Grudento. Sangue nos meus dedos. Liz me filma, Clondine vigia, apesar de o professor não representar nenhuma ameaça. Eu me afasto delas. Minha blusa está manchada, o coração que sangra é o do porco, mas podia facilmente ser o meu. 

- Hora de limparem tudo - diz o professor West. 

- Eu não terminei, senhor - vem uma voz da frente. 

- O tempo não espera por ninguém, Elsie, devia ter trabalhado mais rápido. 

Eu me mexeria, se pudesse, mas não sinto as pernas. Não. Sinto. Sempre vou ser uma aberração para elas. Sei que o professor está vindo nesta direção, ouço seus sapatos. Brogues de couro marrom, aposto que os engraxa todos os dias. Ele para na minha frente.

- Minha nossa, criança, o que você andou aprontando? Disse que tinha terminado e agora está com sangue na blusa e no rosto todo. Vá se limpar e, pelo amor de deus, apanhe esse coração no chão. 

Ouço as risadas abafadas enquanto o professor West continua andando. 

Lize, uma menina sentada na mesma bancada que eu, uma testemunha, embora silenciosa, se abaixa, usa um papel toalha para apanhar o coração, me entrega outro para o rosto. Se deu ao trabalho de passar água nele para mim. Aponta para onde preciso limpar. 

Faço que sim com a cabeça, agradeço, desejando ser pequena o bastante para alguém fazer aquilo por mim. Clondine e Liz me dão sorrisos sarcásticos quando vamos deixando o laboratório. Os corredores estão movimentados, mas vão abrindo espaço para mim quando me aproximo. Aquilo é sangue na blusa dela? Acho que é, eca. Uso o banheiro do prédio de ciências para vestir os jeans e o casaco de capuz que escondi na bolsa mais cedo. Nada de uniformes no conjunto habitacional, especialmente o desta escola. Meu celular toca. Eu me ajoelho e o tiro da mochila. É a Alle querendo saber se vou mesmo. Então reparo numa bolsinha de maquiagem familiar, esquecida no chão da cabine vizinha. Digo a ela que vou demorar uns vinte minutos. Tem uma coisa que preciso fazer primeiro. 

Quando chego ao telhado do prédio, ela está fumando um cigarro e diz: 

- Tem um passarinho ali, acho que a asa dele está toda fodida. 

- Onde? 

- Ali. 

Ela aponta para o engradado e diz: 

- Cobri com aquilo ali, ele estava se debatendo para todos os lados, me deixando apavorada.

Eu me aproximo, espio pelas brechas do plástico. Brechas que formam uma colmeia no engradado. Um pombo, uma das asas pendendo para baixo. Quebrada. A cabeça se mexe com rapidez, para cima e para baixo sem parar. Não sei por que faço aquilo, mas chocalho o engradado, um turbilhão de pânico lá dentro, ele começa a arrulhar. Um alerta para os amigos: voe para longe, Peter, você para longe, Paul. Ele se juntaria aos outros se pudesse, mas não pode, foi pego. Alle se agacha ao meu lado, me pergunta o que estou fazendo. Ergo um dos lados do engradado, enfio a mão lá dentro e pego o pássaro. Com força. Então o aperto de encontro ao chão, uma batida minúscula ecoa nos meus dedos. A asa quebrada, não o coração. Ainda não. Eoe começa a arrulhar outra vez, chama os outros. Olhos atentos e cabeças que sobem e descem escondidas pelos telhados, os passarinhos bebês também observam, os adultos os forçam a olhar.

Faço bem rápido, é a coisa certa a fazer. 

- Caralho, que nojo, por que você fez uma coisa dessas? Cruzes. 

Ela virá o rosto. 

- Teria sido pior se eu não tivesse feito nada. Ele teria morrido devagarinho, sozinho. 

- A gente podia ter levado o coitado num veterinário ou coisa assim.

- Ele estava com dor, não está mais. Eu só fiz ajudar.

- Antes você do que eu.

Sim.

Coloco o engradado outra vez por cima dele e voltamos para a saída de ar, nos deitamos como estátuas no chão frio, o céu inundado pelo som de aviões rugindo lá em cima a caminho de Heathrow. Me teletransporta, Scotty, qualquer lugar serve. Alle acende outro cigarro, fios de fumaça azulada se movem em espirais, acariciando o ar acima de nós. Bafo de bruxa.

- Por que está tão quieta? Não tem nenhuma história para me contar hoje?

- Pior que não. 

- Que ótima companhia, você. Não posso ficar muito tempo, meu tio está em casa e ele é um pé no saco. 

Só mais uns minutos, por favor, deixa eu arrumar isso direitinho na cabeça antes de dizer em voz alta. Minha mãe é. Não. Você tem visto as notícias, a mulher que. Não. Caralho. O que é que eu estou fazendo? Não é para eu contar para ninguém. 

- O que você tem hoje? - pergunta ela. 

- Nada, por quê? 

- Você fez o seu dedo sangrar. Olhe. 

- Desculpa. 

- Não precisa se desculpar, mas se você tiver alguma coisa para falar, fala logo. 

É igual patinar num lado congelado. A aparência é segura, a sensação é de segurança, mas alguém tem de ir primeiro, testar se o gelo aguenta. Ela gosta de mim, somos amigas. Eu posso contar a ela, não tudo, mas parte. Não posso? 

- Se você não vai falar, eu vou embora. Tenho mais o que fazer do que ficar sentada aqui em silêncio.

- Espera. 

- Puta merda, o que é? 

Está escurecendo no telhado, só eu e ela. Não tem mais ninguém aqui, ninguém mais precisa saber. Ela gosta de mim. Eu não sou nada parecida com você. Ela vai entender. Não vai?

- Se eu contasse uma coisa para você, você ainda ia querer ser minha amiga?

- Ia, eu acho que a gente pode contar qualquer coisa uma para a outra, não pode? 

Faço que sim com a cabeça porque é verdade, ela me manda mensagens quase todas as noites, pergunta se estou sofrendo muito na mão da Dinah e diz para eu não me preocupar porque ela está de olho. 

- O que você quer me contar? 

- Não tenho certeza se devia.

- Não pode começar e depois não terminar. 

- Não devia ter dito nada. 

- Bem, agora já disse e eu não vou embora até você contar.

Regras existem por um motivo.. não é? 

- Mila, você está começando a me deixar puta, vou ter que ir logo. 

- Só me promete que você ainda vai ser minha amiga.

- Está bem, que seja, prometo. Agora conta.

Eu me sento, uso o pé para enganchar uma das alças da mochila e puxo na minha direção. Ela também se senta. Peço o isqueiro dela, está escuro demais para enxergar sem ele. Tiro do bolso da frente da mochila o recorte de jornal, aquele que guardei da sala de reuniões da escola, aliso o papel por cima do jeans. Arriscado carregar por aí todos os dias, eu sei, só seria preciso a Dinah ou a Liz esvaziarem a minha bolsa, unhas bem feitas desdobrando os vincos do seu rosto. Meu rosto e o seu, tão parecidos.

- O que é? - Pergunta ela.

Passa pela minha cabeça dar para trás, queimar a folha em vez de mostrar para ela, mas não sei se conseguiria queimar o seu rosto. Da primeira vez que acendo o isqueiro, ele apaga. 

- Não vi, acenda de novo.

Da segunda vez, ele ilumina seu rosto, sua boca e os seus lábios. Não dá para ver na foto, mas tem uma sarda à direita do seu queixo.

Dessa vez ela vê se quem se trata.

- Que porra é essa? É a mulher das notícias, a que matou as crianças. 

- É. 

- Por que está me mostrando ela?

O isqueiro apaga. Por que estou mostrando? Empurra. Puxa. As coisas doentes que gente doente faz. Tinha tanta certeza quando deixei o banheiro da escola, que tudo bem contar para a Alle. Que ela não me viria da mesma maneira que as meninas da minha turma. Sei o que elas diriam, como se sentiriam. Mas elas não são minhas amigas, ela é, e eu queria muito a ouvir dizer: você não tem nada a ver com a sua mãe. 

Pergunto a elao que acha da história, de você.

- Como assim, o que se pode achar? Ela é claramente psicopata. Por que o interesse.

- E se ela fosse alguém que você conhece? 

- Até parece. Não me entenda mal, acontece um monte de merda nesses conjuntos, mas nada desse tipo.

Ela prometeu que ainda ia ser minha amiga, eu posso contar a ela.

- E se fosse alguém que eu conheço?

- Valeu a tentativa, mas estamos em outubro, não é primeiro de abril.

Uma sensação gulosa de alívio vai lambendo os meus calcanhares, me tentando. A me libertar de parte do fardo que você é.

- Presta atenção - eu digo a ela

Levanto o recorte, ponho ao lado do meu rosto e acendo a chama outra vez. 

- Prestar atenção ao quê?

- Só olha para o rosto dela e depois para o meu.

- Caralho - diz ela - Como você é parecida com ela, credo.

- É isso que estou tentando dizer.

- O quê? 

- Eu me pareço com ela. Porque..

Por favor, não vá embora quando eu contar

- O quê? Ela é aquela tia, ou sei lá quem, que sumiu da sua vida há séculos?

- Não, ela não é minha tia, é minha mãe.

Eu deixo a chama apagar, dobro a fotografia, coloco de volta na bolsa. Dá para sentir que a Alle está me encarando, esperando o fim da piada, só que não é piada. Ela é a primeira a falar.

- Me diga que você está brincando.

Ela sabe pela falta de resposta que não estou.

- Puta que pariu - diz.

Não consigo evitar, as lágrimas começam a encher os meus olhos. Ela se levanta, dá um passo para longe de mim.

- Não vai embora agora, por favor.

- Eu tenho que ir, meu tio vai ficar bravo. 

É mentira, ela vai embora porque está com medo.

- Você disse que ainda ia ser minha amiga, prometeu.

- Não é isso, é só muita coisa para eu absorver, sabe.

Sei, sei, sim. Foi demais para mim também. 

- É por isso que você está morado com uma família adotiva? 

Faço que sim. 

- Eles sabem sobre ela? 

- Mike e Normani sabem, Dinah, não. E a diretora da escola, ela sabe.

- Ninguém mais?

- Não.

- E por que me contou? 

- Já tinha um tempo que eu queria cotar, estava me sentindo mal guardando um segredo de você.

- É sério que ela é sua mãe?

- É.

- Caramba, ela tem que morrer, todas aquelas crianças que ela raptou tem a mesma idade do meu irmãozinho e da minha irmãzinha.

Volto a fazer que sim. O que ela diz é verdade, você tem que morrer, mas, ainda sim, dói pensar numa coisa dessas.

- Me diga que você não morava com ela. 

- Não, morei com o meu pai até ele morrer. Não vejo a minha mãe faz anos.

A mentira escapole com facilidade e ela não questiona o que eu digo. Se ela ler que tinha uma criança morando com você, eu digo que não sei quem era, que deve ter sido alguém que você raptou em algum momento. 

- Caralho, ainda bem que vocês não se veem faz tempo. Como foi que pegaram ela?

- Não sei direito, acho que foi alguém do trabalho. 

Não é verdade. Alguém bem mais próximo que isso. A maior traição de todas é quando sangue entrega sangue. Famílias devem ficar unidas, pássaros de um mesmo bando, mas eu quero voar com um bando diferente, para um lugar diferente. 

- Ela teve o que merecia, eu acho.

- É, acho que sim.

- Tenho que ir - diz ela

- Está bem. 

Ela vai andando em direção à porta, eu grito: 

- Alle.

- O que é? 

Ela volta até onde estou, eu me levanto e pergunto: 

- Isso faz você pensar diferente sobre mim?

- Não, na verdade, não. A culpa não é sua, Mila. Ninguém deve culpar você pelo que a sua mãe fez. De qualquer forma, você não tem nada a  ver com ela.

- Está falando sério? 

- Estou.

Obrigada. 



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