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História Bad Medicine - Capítulo 15


Escrita por: e Noona-Taetae


Capítulo 15 - Yuo get a little but is never enough


Espelhos quebrados, vários deles. Em todos os lugares em que viveu, ou em que passou uma noite: espelhos quebrados. E aquele espelho, aquele redondo com moldura em metal envelhecido, ele também, todo quebrado, refletindo um Yoongi em pedaços.

— Espelhos quebrados dão azar. — Foi o que lhe disse a senhorinha da rua, quando ele sentou ao lado dela para dividir um pedaço de pão que havia acabado de roubar.

— Sério? — Ele estava faminto, precisando desesperadamente de pão e de um bom papo, coisa que não tinha a semanas, desde que fugira da casa dos pais.

— Porque espelhos são portais. — Ela continuou explicando, convicta. — Olhar para o seu outro eu através desse portal quando ele está quebrado dá azar, muito azar.

— Outro eu? — Ele estava curioso. — Tipo, outras dimensões?

— Não, rapaz, um outro você que não está em outro lugar, está no espelho, e é você, é à sua imagem e semelhança, é um aspecto seu, e, se está quebrado, dá azar.

É… dá azar, foi o que Yoongi pensou quando acordou sem ver nada mais que as silhuetas claras do interior de um quarto de hospital. “Bep, bep, bep” e passos. Certamente aquelas máquinas avisaram seu retorno ao mundo dos vivos.

— Min? Senhor Min? Está me ouvindo? — Um médico se escorou sobre ele, enquanto outros enfermeiros davam a volta na cama. — Como se sente?

— Eu estava sonhando… — Falou a esmo, a voz rouca pelo desuso.

— Que bom, significa que acordou do coma já há alguns minutos. — Algo frio tocava seu peito desnudo, a imagem do médico ainda meio borrada.

— Coma? — Então era isso… ele estivera em coma.

— Por cinco dias, senhor Min. — Ele explicou. — A desintoxicação está completa, mas pode haver sequelas. Sente alguma dor?

— Meu coração. — Fechou os olhos e respirou fundo. — Está doendo.

— Seu coração? — A coisa fria voltou a cutucar ali em seu peito, ali, bem ali aonde estava doendo tanto. — Não há nada de errado com o coração, senhor Min.

— Há sim… pode apostar que sim…

Min Yoongi recebeu alta no dia seguinte, já em perfeito estado, com roupas que alguém deixara para ele quando estava dormindo. Jimin foi buscá-lo no hospital, assim que ligaram avisando que Yoongi estava desocupando o leito.

— Hyung! — Ele recebeu um apertado e inesperado abraço do rapaz. Retribuiu, meio sem jeito e sem conseguir evitar dar uma olhada no interior do veículo. Ele não estava lá. — Você parece decepcionado? — Jimin observou.

— Não, não, eu estou feliz em te ver. — Pigarreou, sua voz ainda arranhando a garganta.

— Eu te dispenso do trabalho de perguntar. — O Park começou a manobrar a fim de sair do estacionamento. — Ele está numa audiência, o Taehyung, por causa do Taeyong.

— Ah… claro, aquele filho da puta. — Procurou nervosamente nos bolsos da calça, mas não havia cigarro neles. Suspirou. — Jimin, eu… — Suspirou mais uma vez. Jimin parou num sinal, olhando-o preocupado. — Eu vi ele colocar a merda toda na minha cachaça.

— Você viu? Bom, ele foi péssimo até em disfarçar. — O sinal abriu. — Não houve dúvida, tudo o que tinha no seu sangue estava no seu copo, e o copo tinha as digitais dele, mas se quiser ir lá prestar acusação, acho que ainda dá tem…

— Não, Jimin, você não entendeu, eu vi… eu vi que ele ia me drogar… — Passou as mãos suadas nos cabelos. — E deixei. — Jimin continuou dirigindo, tentar mudar de assunto não iria dar certo. — Não sabia que era para tanto, nem porquê, mas pensei “foda-se”... Ele estava chateado, eu sabia o quanto, por minha causa, aquilo me deixou mal, eu quis morrer… Se Taeyong estava me drogando não fazia diferença, e ele percebeu, viu o quanto eu estava péssimo, mas eu… eu não quero morrer, Jimin, por mais que doa, por mais que seja insuportável, eu quero viver.

— Eu sei disso. — Ele parou o carro. Dava para ver o Bad Medicine do outro lado da rua. — Eu sei bem o que é isso. — Sorriu. — Vamos, Yoongi hyung, eu te trouxe para sua casa.

Jackson, Lisa e Chaelin correram em sua direção assim que cruzou a porta de entrada, o envolvendo num abraço confuso e cheio de vivas que o deixou extremamente acanhado.

— Deixa ele respirar, gente. — Jimin riu, indo se sentar.

— Fomos ver você várias vezes. — Lisa comentou. — Estávamos preocupados, principalmente o Taehyung.

— Ele… — Queria perguntar, queria perguntar muitas coisas, mas deixou que o silêncio fizesse as perguntas por ele.

— Ele não deixou a gente ir, nem contou pra ninguém que você acordou, para não re marcarem a data do julgamento. — Chaelin lhe trouxe um copo d'água.

— Quer resolver isso sozinho, sabe? — Jackson puxou uma banqueta e se sentou. — É a primeira vez em alguns anos que ele se encontra com a família.

— Desde a morte do senhor Kim. — Jimin falou, com um certo pesar. — Ele foge dos parentes desde então.

— Eu… me desculpem, mas… — Puxou um banco para se sentar, tomando um gole de água. — Eu sei muito pouco sobre a história familiar do Taehyung. — Suspirou. — Eu sei muito pouco sobre o Taehyung, para ser sincero.

Em poucos minutos uma história foi sendo contada e a mente de Yoongi se encheu de imagens que iam se formando à medida que ia sendo tecida a trama de dois irmãos que construíram um negócio juntos: o Bad Medicine, em homenagem ao pai, um falecido mestre cervejeiro que vendia cervejas artesanais nos anos sessenta. Os dois Kim não tinham o talento do pai para criar receitas de cerveja, mas ficaram felizes em vender o último estoque de cervejas artesanais assim que abriram as portas do novo bar da periferia da capital. Os negócios iam bem, e o bar ficou famoso, ainda mais por conta do show ao piano do Kim mais novo, que deixava o ambiente muito aconchegante e chamativo.

Mas um dia o Kim mais novo se casou, não com uma coreana de classe média que morava no centro da cidade, como a que se se casou com o Kim mais velho, mas com uma mulher que veio do interior da coreia procurando emprego. Ela tinha uma voz linda, e começou a cantar no Bad Medicine enquanto o senhor Kim tocava o piano. Ela não tinha nada além da voz, e seu único refúgio foi o Bad Medicine. O Kim mais velho não aprovou a presença dela, não admitia que os clientes fossem ao bar só para ouvi-la cantar, e não foi o único. Ninguém da família Kim aprovou o casamento, e insistiram para que o Kim mais velho desfizesse a sociedade com o irmão e ficasse longe dele. Foi o que ele fez, tirando seu nome de todos os contratos.

Logo, porém, o casal, agora os donos de Bad Medicine, tiveram um filho, e a senhora Kim sofreu de depressão pós-parto até a morte muito precoce. O senhor Kim tocou o negócio sozinho, mesmo com o irmão mais velho voltando de tempos em tempos, pedindo que voltassem a trabalhar ali juntos.

Pouco antes de Taehyung fazer dezoito anos, no entanto, ele descobriu um câncer em estado terminal. Não contou nada a ninguém, mas deixou um testamento, no qual deixava todos os seus bens, inclusive o Bad Medicine, para Taehyung, para fazer o que quiser com ele, era o que estava escrito.

Yoongi olhou em volta, para o amplo salão do Bad Medicine, com suas mesas e o toca discos, para o palquinho sobre o qual estava o piano e para o grande balcão à frente do armário de copos e bebidas. Taehyung poderia ter feito qualquer coisa com aquele bar, vendido, transformado em uma barbearia ou qualquer coisa do gênero, mas não, ele não quis. Ele preferiu assumir o negócio do Bad Medicine, mesmo com o tio revoltado em não poder reaver o lugar que um dia ele se esforçou para abrir. Taehyung preferiu seguir com a vida do seu pai, mesmo que ele não tivesse lhe pedido isso. Ele era livre, mas preferiu ficar ali, morando no lugar em que nasceu e cresceu, sem sequer trocar os móveis ou mudá-los de lugar. Agora, Yoongi pensava, tudo fazia sentido, a decoração antiga na casa, os tapetes colocados para os pés agitados de uma criança que nunca foram removidos, o lírio, os pudins na geladeira, o piano que ninguém tocava mas que também não foi vendido… Taehyung nunca pretendeu sair dali, porque aquele lugar não era só dele: era ele, um bom, grande e movimentado pedaço do seu coração em que Yoongi entrou na única intenção de dormir e pagar o aluguel; um intruso, uma explícita falha e ferida pela qual foi mais fácil enterrar uma faca, Taeyong percebeu isso.

— Eu sinto muito. — Ele confessou, olhando para o teto enquanto segurava as lágrimas. — Eu sinto muito por toda a confusão que fiz aqui… Taehyung é um cara muito apegado, e eu não tenho a menor noção do que seja apego… eu sempre acabo destruindo tudo.

— Ele não quer mais ser. — Jimin tocou seu ombro, compreensivo. — Ele quer crescer, é por isso que ele vai ficar fora um tempo.

— Quê?! — O copo lhe escapou da mão, se fazendo em pedaços no chão. — Eu… ah… me desculpem, mas, que história é essa?

— Ele disse que quer viajar. — Jackson respondeu, se abaixando para catar os cacos do copo.— Andar por aí, tentar se virar longe daqui.

— Mas então… Taeyong, e o tio dele…

— Eles não vão escapar dessa, cara, quase mataram uma pessoa para incriminar o Taehyung. Além do mais, o Jimin vai cuidar do bar enquanto isso.

— Ele deixou a chave do apartamento pra você. — Jimin tirou um molho de chaves do bolso. — Mandou avisar que não te isentou de pagar o aluguel.

— Ah, claro… — Ele pegou as chaves, olhou-as nas mãos por uns segundos. — Bem, eu vou subir então, estou cansado.

Ele subiu a escada em caracol, pensando, e quando chegou no seu quarto, estava decidido. Pôs seus poucos pertences nas suas poucas malas, voltou para a escada, deixando as chaves sobre o carpete à frente da porta e então esperou, sentado no primeiro degrau da escada, de ouvidos atentos. Não fazia sentido ficar ali por mais tempo. Finalmente tinha um emprego estável e um bom quarto, mas nunca quisera ter o que teve ali: um amor.

No dia em que ele se formou na escola, ele pegou seu diploma e deu as costas, sem olhar para trás. No dia em que ele foi expulso da casa dos pais, ele pegou suas coisas e deu as costas, sem olhar para trás. Quando não o aceitaram na banda, quando foi demitido do primeiro emprego, quando a produtora de música faliu, quando deixou uma mulher sozinha num quarto do motel, quando o chefe da gangue não o admitiu, quando foi demitido do segundo emprego, quando foi enxotado de um cortiço, quando não quis mais trabalhar na rádio, quando deixou duas mulheres sozinhas num quarto de motel, quando não o queriam mais em outra banda, quando foi demitido mais uma vez, quando se despediu dos rappers de rua porque não ia mais passar por ali… Todas as vezes ele deu as costas, e não olhou para trás, porque a primeira vez que Min Yoongi sentiu apego na vida foi por um teclado de piano, e a segunda vez, foi por Kim Taehyung. Ainda assim, ele deu as costas para o piano em dado momento, e já estava na hora de dar as costas para Kim Taehyung.

Taehyung precisava seguir sem ele, e ele, ele precisava seguir sem Taehyung.

Já não escutava barulho nenhum no salão, então desceu as escadas. Passou pelo balcão,passou pela cozinha, sem olhar para nada, sem olhar para trás. Abriu a porta dos fundos, saiu, e fechou a porta atrás de si, mantendo os olhos fechados. Adeus, Bad Medicine, pensou, e abriu os olhos, pronto para montar na sua moto e dar o fora dali, de uma vez por todas. 



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